sábado, 15 de maio de 2010

Made In England: A materialização do sonho blue

Aí está o momento que Abramovich esperava há quatro anos, desde a última vez que Chelsea foi campeão. Não só o troféu está de volta a Stamford Bridge como também foi assegurado com uma vitória estrondosa, com oito golos sem resposta, sobre o Wigan - com dois tentos de Anelka, um de Lampard (de grande penalidade que Drogba queria marcar e, como não o deixaram, o levou a fazer birra até ao intervalo), um de Kalou, um hat-trick de Didier Drogba e mais outro de Ashley Cole. Num contexto histórico, esta vitória foi a maior de sempre do Chelsea no escalão principal de futebol em Inglaterra. Os blues terminaram o campeonato com uns fantásticos 103 golos marcados, mais do que qualquer outra equipa na Premier League desde o Tottenham em 1962-63 (quando o futebol era bem diferente). É absolutamente destacável e digno de registo. Para a história pode também ficar a primeira “dobradinha“ do clube, isto caso ganhem a final da FA Cup contra o Portsmouth. As apostas favorecem o Chelsea, mas...

Para o dono do Chelsea é o concretizar de um sonho, ter uma equipa de ataque, a marcar golos, com bom futebol e a ganhar campeonatos. Claro que a comparação cai sobre os dois campeonatos conquistados com José Mourinho, onde os blues marcaram setenta e dois golos em trinta e oito jogos. Com Carlo Ancelotti, marcaram mais trinta e um averbando uma média de uns impressionantes 2.71 golos por jogo. Pode ainda não ser o Barcelona de Azul que o magnata Roman Abramovich sonhava, mas fica provado que um futebol fluído e com menor rigor táctico não é incompativel com a conquista de títulos. Regressando ao jogo do passado fim-de-semana, o Wigan estava mesmo a pedir a humilhação que sofreu. Chegou a Stamford Bridge já de férias, sem nada para ganhar ou perder e foi incapaz de oferecer qualquer resistência. Mesmo o facto de ter jogado com dez durante cerca de uma hora não justifica tal apatia.

Quanto aos restantes jogos da última jornada da Liga Inglesa, apenas duas surpresas. A derrota da equipa revelação deste ano, o Tottenham, frente ao despromovido Burnley, por 4-2 - até porque os spurs, comandados por Harry Redknaap, eleito treinador do ano em Inglaterra, chegou a ter uma vantagem de dois golos. No entanto, o quarto lugar e a presença na Liga dos Campeões já tinham sido assegurados pela equipa do Tottenham, uma vez que, a meio da semana, venceu na casa do Manchester City, o concorrente directo. Ainda a destacar, embora já não constitua uma total surpresa, mais um empate do Liverpool. Foi mais um desaire para juntar uma época desastrosa que culmina num péssimo sétimo lugar. Resta-nos a final da FA Cup, este sábado, para terminar a época em Inglaterra. Depois, venha a emoção do Mundial da África do Sul. Já todos começamos a suspirar pela maior prova do mundo futebolístico.

PS: Um último registo para Drogba - que partia empatado em golos com Wayne Rooney na corrida pela Bota de Ouro. Quando Lampard não o deixou marcar a grande penalidade, aos trinta e um minutos da primeira parte, demonstrou o seu descontentamento (talvez com alguma razão...) e desinteressou-se da partida de tal forma que, no intervalo, Ancelotti teve que o chamar à razão. Na segunda parte voltou lutador, marcou um hat-trick e garantiu o estatuto de melhor marcador da Premier League, com vinte e nove golos.

MADE IN ENGLAND é um espaço quinzenal, assinado por Armando Vieira, que incide sobre o mais apaixonante campeonato mundial

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Liga Europa: O triunfo do Atlético de Madrid

O Atlético de Madrid é uma equipa inusitada. É irregular, deriva entre dois extremos com grande facilidade, não consegue manter-se sempre em cima, vive de momentos, não tem um rendimento uniforme e rectilíneo. Não é, nem pouco mais ou menos, uma das equipas mais fortes da Europa. Não é um colosso, um papão, alguém que faça tremer. Tem qualidade, sim, principalmente no ataque, com Forlán e Agüero, mas é permeável na defesa, tem brechas evidentes que podem ser bem aproveitadas. No entanto, o Altético de Madrid, dos portugueses Simão e Tiago, venceu, ontem, a primeira edição da Liga Europa. Bateu o Fulham, uma sensacional formação que, também, surpreendentemente chegou à final, conseguiu aprimorar a temporada em que falhou um novo acesso à Liga dos Campeões. Quique Flores voltou a triunfar.

Quando o Atlético, caído da Liga dos Campeões, vergado pelo FC Porto no penúltimo jogo a uma derrota por três golos no Vicente Calderón, uma derrota natural face ao que ambas as equipas haviam demonstrado até então, os colchoneros foram vistos como um adversário acessível para o Sporting. O empate alcançado pelos leões em Madrid, jogando uma hora com menos um jogador, apesar de não ser satisfatório, foi encarado como um resultado favorável à progressão da equipa portuguesa. Em Alvalade, o Atlético serviu-se da inspiração de Kun Agüero, foi letal nas oportunidades que teve, o Sporting dominou sem proveito, ficou de fora. A defesa espanhola falhou, é certo, e sofreu dois golos. Mas espondeu com outros dois e seguiu em frente. O Alético de Madrid é, portanto, a imagem ideal da máxima de que a melhor defesa é o ataque.

Ultrapassado o Valencia, usando a mesma fórmula da eliminatória ante o Sporting, um nulo caseiro e um empate a dois na casa do adversário, o Atlético de Madrid encontrou um Liverpool fortalecido por uma vitória categórica sobre o Benfica e rotulado como equipa mais forte para marcar presença na final de Hamburgo. Diego Forlán, avançado uruguaio, sobressaiu em ambos os jogos, foi um diabo constante para os reds e um abono de família para Quique Flores. Decidiu: marcou o tento da vitória no Vicente Calderón, marcou outro em Anfield Road, que, apesar da derrota, permitiu aos colchoneros seguirem para a final. Sem jogarem bem, sem serem uma equipa sólida, sem levantarem ondas. Atingiram o objectivo correndo por fora, jogando à parte. Caiu o estatuto de equipa débil e incapaz, pôde ser feita História perante o Fulham.

Na arena de Hamburgo, o Atlético saiu por cima. Entrou melhor, procurou ser mais incisivo para a baliza de Mark Schwarzer, pareceu sempre a equipa com melhores sob o relvado. Essa é, aliás, uma tendência que se comprova, uma vez que o Atleti conta com melhores individualidades do que os ingleses, onde sobressaem Zamora ou Gera. Foi igual a si própria: pragmática, sem brilho, servindo-se de Diego Forlán. O uruguaio voltou a ser decisivo: marcou dois golos, pelo meio Simon Davies deu esperança à extraordinária equipa do Fulham que cavalgou até à final, concedendo ao Atlético, comandado por Quique Flores e com Simão Sabrosa a titular, a oportunidade de festejar a conquista de um troféu, interrompendo um hiato que começara já em 1995/96 após as vitórias no campeonato e na Taça do Rei. Sem espectacularidade, o Atlético de Madrid voltou a sorrir.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Liga Sagres: A consagração do Benfica e um golpe de teatro

ANÁLISE

Agora, sim, as decisões teriam de ser tomadas. Não havia volta a dar. Sem adiamentos, sem meias-palavras, sem hipóteses de fuga. O título e uma vaga na Liga Europa por atribuir. Sem surpresa em relação ao campeão: o Benfica venceu o Rio Ave, confirmou o seu favoritismo, arrecadou o trigésimo segundo campeonato da sua história, culminou uma temporada de sucesso. Os encarnados, contudo, nem precisariam de somar os três pontos, uma vez que o Sp.Braga não conseguiu mais do que um empate ante o Nacional - que, assim, comprometeu as aspirações de chegar ao quinto lugar. O Vitória de Guimarães necessitava só de um empate, também, mas perdeu e viu-se ultrapassado pelo Marítimo na luta pelo último posto europeu. Os madeirenses estarão na Liga Europa.

Noventa minutos e um ponto para conquistar. Era somente o que faltava para o Benfica confirmar o trigésimo segundo título do seu historial, sem ter de pensar em resultados de terceiros, dando asas à coroação de uma caminhada triunfante, superior e meritória dos encarnados. O golo de Cardozo, aos três minutos, logo seguido de uma expulsão de Wires, aos onze, desbravou caminho à cavalgada benfiquista, galvanizado pelo público, empurrado para a vitória, levado por uma mole humana sedenta de conquistas. Houve oportunidades mais do que suficientes. Não foram, contudo, concretizadas. Ricardo Chaves, médio do Rio Ave, ameaçou a festa. Jorge Jesus acelerou o passo na área técnica, a tensão subiu, o coração apertou. Até Cardozo, de novo decisivo, confirmar o triunfo. O Benfica ganhou, encheu-se de alegria, expodiu para os festejos, gritou pelos jogadores, enfim, fez a sua festa. É campeão nacional. Merecidamente.

Uma vitória para o Sp.Braga sonhar, permitindo centrar atenções na Luz, à espera de uma inusitada ajuda do Rio Ave culminante num desaire do Benfica. Ainda havia fé. Porém, antes de querer ganhar em campo alheio, os bracarenses tinham de cumprir a sua missão, vencendo na Madeira, deixando para trás o Nacional. Os madeirenses são uma boa equipa, apesar de uma descida de rendimento após a saída de Rúben Micael, ganham maior força quando jogam no seu território. Não seria fácil. O Sp.Braga tentou dominar, mostrou vontade de resolver. Mas o precoce golo de Cardozo para o Benfica atirou o sonho do título para canto. Os minutos passavam, o Benfica não quebrava ante o Rio Ave, a missão era cada vez mais improvável de concretizar. Edgar Silva marcou para o Nacional. Poderia ter sido o fim do Sp.Braga. Os arsenalistas, contudo, acreditaram ser possível. Renteria empatou, deu novo alento. Não chegou.

O que havia realmente para o FC Porto disputar ante a União de Leiria? Quase nada. Ou nada se exceptuarmos a vontade de levar Radamel Falcao, jogador que tantos golos deu aos portistas nesta temporada, ao topo dos melhores marcadores. Essa premissa até foi cumprida, pois El Tigre fez dois golos, saltou para o trono dos goleadores, ficando para ver o que Óscar Cardozo faria ante o Rio Ave. Tacuara também marcou dois, o bis do título, com isso as pretensões de Falcao esfumaram-se no dia seguinte ao triunfo azul. A exibição do FC Porto pode perfeitamente resumir toda a época. Teve duas faces: uma primeira parte enfadonha e apática, uma segunda capaz e triunfante. No meio da passividade azul, o União colocou-se em vantagem, marcou por Cássio, procurou travar o ciclo vitorioso dos portistas. O dragão despertou, respondeu com quatro golos após o descanso, virou o resultado em quatro minutos. Mostrou a sua fibra.

De um jogo entre uma equipa condenada à descida de divisão, sem natural assomo de motivação, com outra que falhou a toda a linha, se encontra demasiado longe das decisões a que está habituada e tem os olhos postos na próxima época, nunca se poderia esperar um jogo emotivo e de nível elevado. O Leixões está deprimido pela descida às trevas no seguimento de uma época carregada de equívocos, o Sporting pretende despedir-se rapidamente desta temporada para que depois, sim, possa preparar convenientemente o seu futuro e evitar a repetição dos mesmos males. Este encontro serviu, ainda, para marcar a despedida de Carlos Carvalhal do comando dos leões. Saiu com uma vitória. Tangencial. Contudo, o Sporting ganhou bem, com golos de Veloso e Pedro Silva, João Paulo ainda tentou baralhar, mas nada mais do que isso. A vitória, essa, estava feita. O Leixões acaba em último. Sai pelos fundos.

Uma inesperada mudança na luta pela Liga Europa: em Guimarães, ante o Vitória, o Marítimo venceu (1-2) e, também beneficiando do empate do Nacional frente ao Sp.Braga, conseguiu chegar ao quinto lugar final. Os madeirenses, após terem estado praticamente afastados, garantiram, in extremis, a última vaga para a Liga Europa, deixando o Vitória de Guimarães de fora - um final cruel, verdadeiramente de pesadelo, para os vimaranenses. Destaque ainda para a vitória do Belenenses (a quarta da época, segunda consecutiva após ter sido confirmada a descida de divisão), por 1-2, ante o Vitória de Setúbal, que permite à equipa do Restelo deixar o último lugar, em troca com o Leixões. A Académica finalizou, por força da vitória ante a Naval (0-1) e da derrota do Rio Ave com o Benfica, no décimo primeiro posto. Paços de Ferreira e Olhanense, duas equipas com objectivos alcançados, empataram a dois.

O grupo de portugueses mundialistas

A FIFA exige vinte e três, Carlos Queiroz redigiu uma lista com vinte e quatro nomes para representarem Portugal no Mundial 2010, a partir de 11 de Junho, na África do Sul. A inclusão de mais um elemento no lote de convocados não foi, no entanto, uma total surpresa. E a razão para o seleccionador ter chamado um jogador a mais prende-se, sobretudo, com o estado físico de Pepe. O central luso-brasileiro do Real Madrid seria sempre um indiscutível, titularíssimo da equipa nacional, mas a longa paragem a que foi sujeito devido a uma lesão contraída ao serviço dos merengues colocou em risco a sua participação no Mundial. Contudo, o seu estado clínico evoluiu favoravelmente, Pepe está quase apto, embora ainda hesista uma possibilidade de não se encontrar completamente operacional. Daí que Carlos Queiroz tenha convocado vinte e quatro jogadores. Com surpresas pelo meio: Daniel Fernandes, Zé Castro e Ricardo Costa.

A primeira surpresa de Carlos Queiroz chegou na baliza. Há muito existia um suspense em torno de quem seriam os guarda-redes chamados para se juntarem a Eduardo, declaradamente o dono da titularidade, no grupo de três guardiões das redes nacionais. Nas últimas semanas, Hilário e Rui Patrício haviam sido apontados como principais alternativas, mantendo-se Beto e, mais remotamente, Quim à espreita - apesar de titular absoluto do Benfica, na melhor defesa do campeonato a par do Sp.Braga, desde a derrota, 2-6, com o Brasil que não é chamado. Seriam estes, à partida, os nomes fortes para ocupar as duas vagas existentes. Beto foi chamado. A ele juntou-se, como já se disse, surpreendentemente, Daniel Fernandes, guarda-redes emprestado pelo Bochum, equipa que desceu ao segundo escalão do futebol alemão, ao Iraklis (Grécia). Daniel Fernandes e Beto contam, respectivamente, com duas e uma chamada à selecção A.

Saltaram, depois, os nomes dos defesas. Nenhuma surpresa com Miguel, Paulo Ferreira, Bruno Alves e Rolando. Chegou Ricardo Costa. O defesa português, actualmente ao serviço do Lille, procurando estabilizar uma carreira intermitente que o levou a deixar o Wolfsburgo, está, aos vinte e oito anos, pela segunda vez num Mundial, pois fez parte dos eleitos de Luiz Filipe Scolari para marcar presença na Alemanha, em 2006 - realizou somente um jogo, ante a equipa anfitriã, na atribuição dos terceiro e quarto lugares. Ricardo Costa foi também utilizado na fase de qualificação para o Euro 2008, não conseguindo, porém, fazer parte do grupo final. No anúncio dos escolhidos de Carlos Queiroz, para fechar o lote de defesas, seguiram-se Duda e Fábio Coentrão (a coroação da época sensacional do jogador do Benfica, sendo chamado pela segunda vez, tornando-se no único representante encarnado). Serão estes últimos a discutir o lado esquerdo da defesa nacional.

Pedro Mendes surgiu, naturalmente, como primeiro médio chamado por Carlos Queiroz. Seguiu-se Pepe. E Zé Castro, jogador do Deportivo da Corunha, como maior surpresa reservada pelo seleccionador nacional. O defesa português, de vinte e sete anos, conta com somente uma internacionalização A (em 2009, num encontro de cariz particular, defrontou a Estónia), embora tenha no seu currículo, tal como Ricardo Costa ou Daniel Fernandes, chamadas às selecções jovens de Portugal. Pela convocatória, em teoria, poderá ser Zé Castro a estar de prevenção caso se confirme a indisponibilidade de Pepe em marcar presença na África do Sul. Tiago, Deco e Simão Sabrosa (o mais internacional: 79 vezes) surgiram como escolhas óbvias pela regularidade com que foram chamados e utilizados, mais no caso dos últimos, por Carlos Queiroz no apuramento. O nome de Miguel Veloso, superiorizando-se ao colega João Moutinho, também não causa espanto.

O leque de atacantes abriu com Danny, jogador influente no Zenit de São Petersburgo, presença assídua na caminhada de Portugal para a África do Sul. Foi, então, a vez de serem anunciados os nomes de Liedson e Hugo Almeida, os dois homens de área e, por isso, os dois jogadores a quem estará destinada a missão de fazerem os golos da selecção lusa. Cristiano Ronaldo, a estrela maior da equipa nacional e em quem os portugueses depositarão maiores esperanças, esperando uma prova com um Ronaldo ao seu melhor nível, foi o penúltimo jogador a ser apresentado como escolhido por Carlos Queiroz para representar Portugal na África do Sul. Nani, após uma época extraordinária em que sobressaiu no Manchester United - muito bem individualmente, apesar de os red devils terem falhados os seus objectivos -, fechou o grupo dos vinte e quatro seleccionados. Será com vinte e três destes que Portugal estará no Mundial.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Benfica-Rio Ave, 2-1 (crónica)

CHAMAR CARDOZO PARA TRAZER O TROFÉU

Noventa minutos e um ponto para conquistar. Era somente o que faltava para o Benfica confirmar o trigésimo segundo título do seu historial, sem ter de pensar em resultados de terceiros, dando asas à coroação de uma caminhada triunfante, superior e meritória dos encarnados. O golo de Cardozo, aos três minutos, logo seguido de uma expulsão de Wires, aos onze, desbravou caminho à cavalgada benfiquista, galvanizado pelo público, empurrado para a vitória, levado por uma mole humana sedenta de conquistas. Houve oportunidades mais do que suficientes. Não foram, porém, concretizadas. Ricardo Chaves, médio do Rio Ave, ameaçou a festa. Até Cardozo, de novo decisivo, confirmar o triunfo. O Benfica ganhou, encheu-se de alegria e fez a sua festa. É campeão nacional!

Numa história, para ser verdadeiramente uma história convencional, tem de haver heróis e vilões. O papel do Rio Ave era ingrato. Jogar na Luz, com a iminência de ver o Benfica sagrar-se campeão nacional, não poderia ser aliciante. Havia, contudo, o brio para manter. E História, caso conseguisse tirar o título aos encarnados, com a vontade de cometer uma gracinha e mostrar qualidade suficiente para não deixar o Benfica festejar como bem entendesse. Não seria um mero figurante. A ideia, pelo menos, era essa. O Benfica entrou forte, pressionando, carregando até chegar ao golo. Veio logo aos três minutos. A Luz explodiu em delírio. O mais difícil estava feito, o caminho desbravado, Cardozo colocara a bola na baliza de Carlos, os encarnados, mandões e imperiais, já tinham marcado o seu território. O público sentiu o triunfo na mão. Sentiu o título.

Falou-se em heróis e vilões. Vamos aos vilões, primeiro. Wires foi mais do que isso: apareceu na Luz como um diabo, um pesadelo em que Carlos Brito se viu inserido, traindo a sua equipa. Esteve onze minutos em campo. E fez tudo mal: nervoso, ansioso, um autêntico desastre. Aos três minutos, Wires não tirou a bola, deixou-a na sua área, Cardozo antecipou-se a Gaspar e marcou. À matador, oportuno e matreiro, Tacuara decidiu. Foi ele o herói do Benfica. O defesa brasileiro do Rio Ave, contudo, haveria de cometer um real suicídio. Suicídio, sim, sem tirar nem pôr. Aos onze minutos, sem acerto nem orientação, levantou o pé, atingiu Ramires com violência, Jorge Sousa expulsou-o. É-lhe familiar? Basta lembrar o jogo com o Olhanense: aí, nessa partida, Delson cometeu grande penalidade e foi expulso em sete minutos. Anúncio de morte vila-condense.

OPORTUNIDADES EM CATADUPA SEM PROVEITO

Com uma mão sobre o troféu do seu trigésimo segundo título de campeão nacional, com um jogador a mais, os benfiquistas sorriram de alegria. As probabilidades de serem felizes aumentaram. Tudo corria de feição, afinal. O Benfica assumiu o jogo, quis presentear o universo encarnado num momento de comemoração, juntar o útil ao agradável, uma vitória a um jogo de qualidade, circularam a bola e procuraram marcar o segundo golo. Bola de pé para pé, Aimar para Martins, Saviola pelo meio, perigo constante. Criaram, de forma natural, oportunidades para dilatar a vantagem. Apareceu um segundo herói, agora do outro lado, o que menos merecia que Wires estivesse tão mal em campo: Carlos, guarda-redes, uma exibição monstruosa para impedir os encarnados de trucidarem a sua equipa. Também a vontade de resolver cedo traiu o Benfica.

Pelo meio das oportunidades tidas pelos encarnados, com o início do duelo entre Aimar e Carlos, superior o guarda-redes angolano, com Saviola falhando um chapéu que seria extraordinário para culminar uma longa caminhada, o Rio Ave assustou. Há esse mérito dos vila-condenses: nunca baixaram os braços, aceitaram as condições, perceberam que nada havia a perder, só com uma postura consistente e, sempre que possível, ousada poderiam deixar a sua marca. Bruno Gama, antes do intervalo, aproveitou uma descoordenação - César Peixoto e David Luiz quiseram ambos tirar a bola - para rematar perto da baliza de Quim. Serviu, pelo menos, para demonstrar que o Rio Ave, apesar de todas as adversidades, se mantinha vivo. Poderia ter uma palavra a dizer. Nunca desistir é uma imagem de marca de Carlos Brito. Tinha sido prometido no início.

TRAZES AS CHAVES, ÓSCAR?

A segunda parte começara há seis minutos na Luz. Já Aimar testara Carlos, de novo com resposta pronta, o público benfiquista voltou a festejar, saltando das cadeiras, erguendo cachecóis, puxando pelas gargantas. Não marcou o Benfica, mas marcara o Nacional ante o Sp.Braga. O efeito, está fácil de ver, é exactamente o mesmo. A conjugação perfeita, ganhando em dois tabuleiros, para a consagração encarnada. Faltava um segundo golo na Luz para colocar a cereja no topo do bolo. Airton, já depois de Carlos Martins, tentou-o, acertou nos ferros da baliza de Carlos, Saviola concluiu com êxito. Contudo em posição irregular, o que invalidou a jogada. Os corações dos benfiquistas bateram forte, mais do que nunca, ansiosos por chegar à tranquilidade. O Sp.Braga empatara e um golo caído do céu poderia fazer tremer a equipa. Assim foi.

O Rio Ave marcou e Al Pacino sorriu por ver que ainda poderia haver suspense, contrariando a tese inicial de que não haveria qualquer sobressalto no passeio triunfante do Benfica. O Rio Ave, já se disse, nunca enrolou a bandeira, tentou a sua sorte, chegou mesmo ao empate. A vinte minutos do final, Ricardo Chaves, numa falha defensiva dos encarnados, cabeceou com sucesso. A Luz gelou por momentos. O resultado da Madeira não era desfavorável, mas o futebol é uma caixinha de surpresas. Os benfiquistas mais pessimistas terão, por certo, ver o título fugir. Seria um verdadeiro golpe de teatro. A ânsia do Benfica em fazer tudo bem, em marcar, em resolver a questão rapidamente e com brilho, fez-se sentir. Subiu a tensão, a apreensão, as unhas caíram num ritmo alucinante, Jorge Jesus apressou o passo na área técnica. Cardozo trouxe o sossego.

Passaram seis minutos desde o golo de Ricardo Chaves, o Benfica dispôs de um canto. Airton cobrou-o, a defesa do Rio Ave não afastou o perigo, Gaspar novamente infeliz como no primeiro tento, colocou a bola à entrada da pequena área, Cardozo esticou a perna direita e fez golo. O golo da vitória, do título, da sua conquista individual perante Falcao na luta pelos goleadores. Foi um golo feliz, é certo. Mas Tacuara estava lá, solto, preparado para aliviar a tensão dos benfiquistas, fazê-los dar largas aos festejos, abrir o champanhe e agitar as bandeiras. A loucura invadiu a Luz. Nas bancadas, no banco, no relvado. Todos perceberam que a festa, agora, não iria fugir. Os gritos de campeão, as buzinas de vitória, os vivas aos jogadores e a Jorge Jesus, o obreiro deste título, na confirmação de uma conquista anunciada. E merecida. O Benfica é campeão!

domingo, 9 de maio de 2010

O inêxito do campeão nacional

O campeonato do FC Porto chegou ao fim. Com uma vitória. Foi, por sinal, o sétimo triunfo consecutivo dos dragões no campeonato. De nada valeu, contudo. O FC Porto termina esta edição da Liga Sagres em terceiro, falhando o objectivo de conquistar o segundo pentacampeonato do seu historial, algo que nunca outro clube nacional atingiu, pois há muito ficara afastado das decisões. Fechou o campeonato com sessenta e oito pontos. Benfica e Sp.Braga, os dois concorrentes que levaram a melhor sobre os portistas, com menos uma jornada disputada, têm, respectivamente, setenta e três e setenta pontos somados. Foi este, então, um FC Porto demasiado débil relativamente com as épocas anteriores em que conseguiu quatro títulos de campeão nacional? Não necessariamente. A concorrência melhorou.

O FC Porto falhou por culpa própria. É um dado inegável. Os jogos caseiros ante Belenenses, Paços de Ferreira e Olhanense, todos eles empatados, são os casos mais gritantes de uma época que não correu bem - acresce ainda a derrota com o Marítimo e o empate com o Leixões, fora de portas. Os dragões não tiveram a mesma capacidade de outrora para dominar, encostar o rival à sua área, insistir em busca do golo e só depois retirarem o pé do acelerador para gerirem o jogo de acordo com as suas pretensões. Nas três anteriores épocas, o FC Porto de Jesualdo Ferreira, sem ser brilhante ou avassalador, foi exímio na forma como se adaptou às realidades de cada jogo. Não o conseguiu agora. A equipa demorou a encaixar as perdas de Lucho, sobretudo, e Lisandro, entrou num estilo monótono, perdeu capacidade de reacção.

Quando o FC Porto despertou verdadeiramente, crescendo nas exibições, pareceu recomeçar a cavalgada de outras épocas. Também no ano transacto, os dragões haviam começado mal, dando margem ao Benfica, chegando a estar com uma desvantagem de cinco pontos. No momento certo, contudo, assumiram a liderança e, a partir de então, passearam com categoria até à consagração perante o Nacional. Foi uma conquista natural: não começou bem, foi melhorando, acabou em alta. Esta época o cenário poderia ter sido semelhante. A visita à Luz, na penúltima jornada da primeira volta do campeonato, foi o momento-chave. Os dragões encontraram um Benfica com um ponto de avanço. Dispuseram de uma ocasião soberana para passar o rival, mas nunca entraram no jogo e os encarnados, mesmo com várias ausências, foram melhores. O FC Porto abalou. E, nesse jogo, dificultou decisivamente a sua missão.

O FC Porto, como se disse, não é o único culpado por não ter atingido o seu objectivo principal. Afinal, olhando à estatística, são apenas dois pontos de diferença para o FC Porto campeão na época anterior. Benfica e Sp.Braga, com percursos extraordinários, foram os maiores responsáveis pelo insucesso azul: os benfiquistas recuperaram o fôlego perdido nas últimas duas décadas, os minhotos nunca haviam demonstrado tamanha força e regularidade. O mérito destas duas equipas levou ao demérito do FC Porto. Os sete triunfos consecutivos, recheados de golos marcados e raramente com a defesa permeável, aumentando o nível exibicional, batendo o Benfica, serviram para deixar uma boa imagem de uma época falhada e para alimentar a disputa goleadora entre Falcao e Cardozo. Não serve para o campeão. Este ciclo vitorioso serviu, ainda, para abrir uma velha questão: qual o impacto da falta de Hulk?

sábado, 8 de maio de 2010

Honra aos regressos de Beira-Mar e Portimonense

Beira-Mar e Portimonense confirmaram hoje, na última jornada, a subida ao principal campeonato português. São dois regressos daquelas que foram, desde muito cedo, as equipas que mais tempo passaram nos lugares cimeiros, mesmo com algumas oscilações típicas de uma competição muitíssimo acesa e homogénea, supreendente a cada jornada e disputada até ao último instante. A força, o querer chegar mais além para saltar para o convívio dos maiores, atingir o topo nacional, é a ambição de qualquer um deles e superioriza-se à qualidade, traz intensidade e emoção no extremo. Ao último jogo, com legítimas hipóteses de conquistar os dois lugares de subida, chegaram cinco equipas: Beira-Mar, Portimonense, Feirense, Oliveirense e Santa Clara. Sintomático disso mesmo. Os dois primeiros confirmaram o favoritismo. Venceram e festejam a coroação.

Apesar das dificuldades que marcaram a época do Beira-Mar, com situações de declive financeiro e greves programadas pelos jogadores perante o cenário de crise, os aveirenses garantiram o título de campeão do segundo escalão do futebol profissional português. Estão, por isso, novamente na prova maior, de onde saíram no final da temporada 2006-07, confirmando uma subida alcançada com muito mérito. Leonardo Jardim, o treinador madeirense que na época anterior projectou o Desportivo de Chaves para a Liga Vitalis, é um dos grandes responsáveis do sucesso do Beira-Mar. A sua equipa assumiu o comando na décima quarta jornada, culminando um ciclo ascendente após um arranque algo titubeante, apenas perdido na vigésima oitava jornada e, contudo, recuperando logo após para chegar ao final na frente. A vitória ante o Carregado carimbou o passaporte.

O Portimonense é outro regressado. Este, no entanto, de longa duração: há duas décadas que os algarvios de Portimão não marcavam presença na Liga principal. Sem que fosse, nem de perto nem de longe, o objectivo traçado no início da temporada - bem mais redutor e apontando a um percurso tranquilo para se fixar na primeira metade da tabela classificativa -, o Portimonense (primeiro com Lito Vidigal e depois, devido à saída do treinador para o União de Leiria, com Litos) chegou a líder, quebrou e baixou o rendimento, passou jornadas em terceiro mas acabou por conseguir subir ao segundo posto final. Precisava de um ponto. Alcançou os três: venceu, com um golo de Wilson Eduardo, conseguindo sair triunfante do terreno da Oliveirense, superiorizando-se ao adversário na subida. Vinte e dois anos depois, o Algarve volta a contar com duas equipas no campeonato principal: Olhanense e Portimonense.