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domingo, 28 de novembro de 2010

Sporting-FC Porto, 1-1 (crónica): Um clássico amargo

A TEIA DO LEÃO

Ponto prévio: o clássico foi mal jogado. Chegou a ter bons momentos, sim, teve sobretudo um leão forte e aguerrido no início, mas faltou intensidade, dinamismo e velocidade. O FC Porto foi surpreendido pela entrada forte, fortíssima, do Sporting, ficou à mercê, desconcentrado e inseguro, viu-se em desvantagem. Conseguiu equilibrar, tomar conta do jogo, empatar no reatamento. Estava por cima quando Maicon foi expulso. O jogo, nesse minuto sessenta e sete, terminou. Ganhou conflitos, escaramuças e quezílias. Desiludiu porque Hulk se eclipsou, porque Moutinho não encantou no regresso, porque o Sporting apenas durou até ao intervalo e porque Jorge Sousa esteve mal.

O FC Porto é um jogador de cartas que está na segunda parte do seu jogo. Perdeu a primeira. Apesar de contar com mais vitórias, de viver numa forma melhor e de ter maiores probabilidades de vencer, viu o adversário ser mais aguerrido, colocar mais agressividade em prática, ter outra agilidade nos seus movimentos e, com as suas cartas, jogar melhor. O jogador sportinguista encostou o portista às cordas e mostrou-o, talvez mais do que nunca nesta época, permissivo e inseguro. O portista tem bom jogo, sim, mas está lento, preso, desconcentrado. Consegue, puxando pelo orgulho e pela sua capacidade, reequilibrar, ganha pontos, aproxima-se da marca do rival, impõe a sua maior valia e, aos poucos, vira o jogo a seu favor. Explora o adversário e domina. Está empatado. E por cima. Até permitir que o rival, matreiro, lhe veja os trunfos.

O Sporting joga em casa, é grande, precisa de ganhar, está atrasado na luta, mas pode sempre, desde que não seja demasiado tarde para isso, despertar e revitalizar-se. Paulo Sérgio agarrou-se a isso. Deixou os treze pontos de lado, não entrou em pânico por causa de Hulk ou Falcao, sublinhou e marcou a vermelho, carregado e em letras garrafais, que o Sporting, jogando concentrado e com consistência, poderia bater o pé ao FC Porto. Teria de trocar as voltas ao dragão, entrar forte, roubar a bola, intimidar, chegar perto da baliza de Helton e impedir as saídas azuis. Jogando num sistema diferente, com três médios e três atacantes, o Sporting lançou boas cartas no início, foi inteligente na forma como impediu os ases portistas de saltarem do baralho e uniu-se em torno desse objectivo. Construiu, circulou e rematou. Para assustar e marcar.

SIM, ESTE LEÃO TEM FORÇA!

Já Liedson atirara ao lado, já Postiga o imitara, já Pedro Mendes acertara em cheio na trave. O FC Porto, pelo meio, conseguira uma oportunidade de ouro, caída do céu nos pés de Radamel Falcao, que terminou esbanjada pelo avançado colombiano. O jogo fora, desde o início, interessante, aberto, entretido. O Sporting estivera sempre por cima: mais pressionante, mais dinâmico, mais solto e mais capaz. Chegou ao golo, depois das ameaças, num lance simples, com irregularidade que passou em claro, por Jaime Valdés. O chileno ganhou a Maicon, encarou Helton e rematou certeiro - foi irregular, sim, mas o brasileiro abusou da altivez. Caiu bem ao Sporting. A equipa leonina fizera por merecer, estivera melhor, criara mais perigo e dominara a toda a largura. O líder, tirando o lance de Falcao, esteve ausente. Teve displicência e pagou por isso.

André Villas Boas gritou, gesticulou e sentiu necessidade de mudar. Recolheu ao banco, pediu outra opinião e planeou mudanças. O FC Porto surgiu diferente no recomeço. Com o mesmo jogo na mão, mantendo todos os trunfos guardados, juntando uma atitude bem diferente, muito mais briosa, com pressão alta e jogo fluído. Os ases apareceram: Hulk e Falcao, sociedade mortífera, dupla de construção e finalização, em três momentos que levaram perigo a Rui Patrício, fizeram o Sporting recear e temer que a vantagem pudesse ser dizimada. O líder puxou dos galões. Equilibrou, reprimiu o leão, não repetiu a entrada e chegou ao empate: abertura de Moutinho, cruzamento de Hulk e emenda de Falcao. Saltou André Villas Boas. Conseguira marcar cedo. Só que Maicon, já ultrapassado no lance do golo, desleixou-se. E recebeu ordem de expulsão.

ESPREITAR AS CARTAS DO ADVERSÁRIO


O central brasileiro tem feito boa dupla com Rolando. Comete, contudo, erros evitáveis. Em Alvalade, por exemplo, mostrou por duas vezes as cartas ao adversário. Jaime Valdés e Liedson, astutos e oportunos, tiraram benefício, aproveitaram e deixaram o FC Porto em tremuras: primeiro com um golo e depois com uma expulsão - decisões erradas, ao que parece, por parte de Jorge Sousa, que já antes, embora se compreenda, não tenha visto uma agressão brutal de Maniche a João Moutinho. A expulsão de Maicon surgiu no melhor período azul, quando Hulk se destacara e o FC Porto tomara as rédeas do jogo. André Villas Boas foi obrigado a redefinir objectivos, alterou a equipa, reformatou a forma de jogar: tirou Falcao, lançou Otamendi, colmatou a cratera na defesa. Paulo Sérgio, em superioridade, lançou Yannick. O Sporting poderia aproveitar.

A verdade, no entanto, é que o jogo, a partir da expulsão de Maicon, perdeu-se. Subiu a agressividade, aumentaram as quezílias, as escaramuças, os tempos mortos e as alterações, tanto de um lado como do outro: o FC Porto para segurar o empate, apenas tendo Hulk sozinho contra o mundo na frente, ganhando consistência no meio-campo, e o Sporting, apostando todas as fichas, para chegar à vitória, infligir a primeira derrota ao líder e ganhar novo ânimo para poder caminhar com os olhos no topo. A saída precipitada de Maicon, deixando à mostra o jogo do FC Porto e impedindo que pudesse fazer uso dos seus trunfos nos momentos certos, levou consigo o futebol. Ambos se limitaram, depois, a jogar as cartas que sobraram, sempre numa postura ofensiva do Sporting e defensiva do FC Porto, até terminar o arsenal. O empate sabe melhor ao dragão.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

FC Porto-Benfica, 5-0 (crónica): Mão-cheia

DRAGÃO DE MÃO-CHEIA

O dragão vai elegante, vestindo smoking, em passo apressado. O FC Porto segue triunfante, seguro e invicto: vitória gorda e inusitada, expressiva como poucas, sobre o Benfica. Diferenças evidentes, gritantes até, entre um dragão guerreiro, conquistador e sedento de glória e uma águia em queda livre, abatida, sem forças para mudar os acontecimentos. O clássico do Dragão fora marcado a vermelho e bem sublinhado como decisivo. Para o Benfica, sobretudo. Mas o campeão nunca apareceu, definhou pelo relvado, inofensivo e impotente, ante um FC Porto letal, mortífero e oportuno. O dragão ganhou de forma clara. Uma mão-cheia: de golos, de entusiasmo, de vivacidade, de ritmo, de futebol. O Benfica não foi mais do que uma mão-cheia de nada. Dez pontos separam-nos à décima jornada. A vantagem é ouro.

O Benfica olha para as quinas de campeão com nostalgia. Sente que tem um título a defender, uma postura a manter, vê a sua honra em jogo, sabe que precisa de se levantar, mostrar-se novamente capaz para assumir o trono. Tem saudades do passado, é perseguido e fraqueja. Está diferente. Nota-se a léguas: na falta de ligação, no futebol desconexo, na falta de inspiração, na carência de cliques de génio que ficam atolados na intranquilidade, no alívio quando a bola é afastada para longe sem regra, no olhar distante e profundo que perde soluções e esbarra nas adversidades. Nem mesmo a hiperactividade de Jorge Jesus ou as apostas certeiras do treinador se mantêm. Tudo corre mal, tudo sai mal, a equipa não se encontra, não tem chama e deixa-se à mercê da sorte. Grita que é campeão. Mas fá-lo no vazio. Sem se escutar.


O futebol é um jogo de confiança. O Benfica está atacado, ansioso, intranquilo. Tenta recompor-se do mau início, sabe que não pode cair em vícios, uma recaída ser-lhe-á fatal, apenas pode jogar, ser brioso, lutar e esperar que o adversário ceda. O FC Porto vive no oposto. Sorri. Está feliz, nota-se, percebe-se na forma como joga, nos toques curtos, nas jogadas de apoio, no futebol seguro, veloz e dinâmico que imprime, na forma imperial como marca os ritmos, tornando o jogo naquilo que pretende, atacando em bloco e trucidando o rival. Coloca toda a garra no relvado e está confiante, solto, vibrante. É isso que faz Álvaro Pereira cair e recuperar a bola, é isso que faz Hulk correr atrás de David Luiz, é isso que faz Maicon driblar Alan Kardec. O FC Porto esmagou o Benfica: cinco golos, exibição cheia, campeão no tapete e dez pontos de avanço.

UM CAMPEÃO EM CARICATURA

Jorge Jesus olhou para Hulk. Percebeu que o Incrível está num momento explosivo, puxou pelos cabelos, imaginou alternativas, pensou no que seria melhor e alterou a sua forma de jogar. Deixou César Peixoto de fora, manteve Fábio Coentrão no meio, deslocou David Luiz para o lado esquerdo da defesa encarnada, chamou Sidnei para o centro ao lado de Luisão e, na frente, preferiu Salvio a Saviola. O mal das adaptações é sempre o mesmo: são adaptações, apesar das rotinas nada é igual, difere, o rendimento oscila. Hulk é explosivo, é pujante, é portentoso quando arranca, alia a técnica à força, destroça, produz e finaliza. Jogou pela direita, encarou David Luiz, incomparável quando está fora do seu sítio, fintou, cruzou e esperou por Varela, oportuno, até festejar. O dragão empina o nariz, sabe o que fazer e é inteligente. Havia que aproveitar a indefinição encarnada.

Meia-hora. FC Porto com três bolas no fundo da baliza de Roberto: primeiro Silvestre Varela e logo a seguir, em dose dupla, Radamel Falcao - o primeiro do colombiano é de se lhe tirar o chapéu. Hulk e Belluschi, figuras de proa desta campanha azul, imagens de marca registada do dragão, cada vez mais peças-chave na máquina azul, sempre em altas voltagens, como municiadores, aventureiros e exploradores das fragilidades da defesa do campeão. O Benfica ruiu, desmoronou-se, desfez-se. Ficou exposto a um dragão eficaz, letal, conquistador, viperino. Jorge Jesus encolheu os ombros, recolheu, pensou em soluções. Tudo está diferente. Tudo corre a favor do FC Porto. E este dragão tem sede de triunfos, desespera por títulos, corre por gosto, alimenta o ego com solidez, cresce e está fortíssimo. Manteve o ritmo, a intensidade, o domínio.

O GOLPE FINAL DO INCRÍVEL

O Benfica corou, sentiu-se incomodado, vergado e subjugado pelo adversário. Puxou pelo orgulho, exaltou o carácter, olhou para o tal escudo de campeão e tentou, pelo menos, assustar o dragão. Fez o seu primeiro remate de verdadeiro perigo aos sessenta minutos. Demorou precisamente uma hora a obrigar Helton a aplicar-se. Essa é a melhor imagem da exibição encarnada: apática, inapta, inofensiva e sem assomo de qualidade. Conseguiu melhor depois do intervalo, sim, com o acerto de David Luiz no centro e o recuo de Fábio Coentrão para o lado esquerdo da defesa, jogando Nico Gaitán na ala, mas nunca foi realmente capaz de se impor. Nem de conseguir deixar o FC Porto em sarilhos, até receoso de sofrer um golo capaz de relançar o jogo, quebrando o seu domínio conseguido, esticado e prolongado ao máximo.

Ao Benfica tudo correu mal. A estratégia, os duelos individuais, o jogo colectivo. Com os minutos, sofrendo três golos de rajada, perdeu orientação, perdeu discernimento e perdeu a razão. Luisão foi o maior exemplo: tentou agredir Guarín, aos sessenta e cinco minutos, recebeu ordem de expulsão e prejudicou, ainda mais, a sua equipa. O campeão tombou: Jorge Jesus abortou a entrada da Saviola, mudou de objectivo, percebeu que nada havia a fazer para travar a marcha triunfal do dragão. No relvado havia Belluschi a rodos, Moutinho com a assertividade habitual e Hulk, diabo e herói, pronto para mais, quer sempre melhor, ainda precisava de glória: marcou de grande penalidade, após um derrube de Fábio Coentrão, fez o Dragão delirar e fechou a mão-cheia de golos. Foram cinco. E na classificação é o dobro. O FC Porto mereceu.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Benfica-Sp.Braga, 1-0 (crónica): Assertividade no triunfo

O ASSALTO DO CAMPEÃO AO SEGUNDO LUGAR

Passe de Saviola, domínio precioso de Carlos Martins, troca de pés e potência no remate. Bola termina no fundo da baliza de Felipe. Marca o Benfica e carimba a vitória: esteve por cima, foi mais equipa, mais incisivo, estava mais pressionado para vencer e criou mais oportunidades. Ganha com justiça devido a tudo isso. O Sp.Braga teve os seus momentos, levou Roberto a emergir, cresceu no final da primeira parte, surgiu do descanso mais ousado e mais solto, deixando a indefinição inicial, conseguindo jogar mais tempo no território adversário. Anularam-se, respeitaram-se e tiveram cautelas múltiplas. O jogo decidiu-se no pontapé de Carlos Martins. É um diabo irreverente, inconformado e lutou pelo golo. O Benfica mereceu-o. E chega ao segundo lugar.


Cautela, receio, fuga ao erro. Objectivo identificado, marcado a negrito, para tentar apertar o cerco ao FC Porto, esperando um passo errado do dragão, mantendo vivas as esperanças de lutar pelo título. O início pintalgado com derrotas do Benfica obriga o campeão a esforços redobrados: correr mais, lutar a dobrar, discutir cada jogo com o risco de ver o céu desabar-lhe em cima da cabeça. A margem de erro perdeu-se. Joga em casa, é campeão, tem o Mundo nas costas e precisa de vencer para recuperar a confiança e continuar a olhar para o bicampeonato como uma meta possível. No final se farão as contas. Mas é necessário que o Benfica, para isso, vença. Tem que assumir o jogo, travar o ímpeto do adversário, forçar para encontrar caminhos rumo à baliza contrária e ser dominador. É como o Sp.Braga se sente bem: à espreita da sua vez.

Diz-se que as comparações são sempre injustas. O principal argumento, talvez o que melhor aplicação tem neste caso concreto, é que não há anos iguais. Os rendimentos das equipas, por tudo o que as envolve, tem que ser sempre diferente. Nas situações de Benfica e Sp.Braga, campeão e vice-campeão por obra própria, deixando os rivais em sarilhos, mudaram para pior. Não têm a mesma força, a mesma dinâmica, o mesmo envolvimento. Não têm a mesma consistência que os fazia triunfar. É em grande parte por isso que chegam à sétima jornada como se jogassem uma verdadeira roleta. O Benfica, principalmente, sim, mas também o Sp.Braga, para recuperar a alegria perdida após a praxe europeia na Liga dos Campeões e continuar a acreditar que pode dar mais uns passinhos rumo à ilha dourada onde estão os grandes.

INDEFINIÇÃO ABALADA

O jogo começou entretido. Teve disputa, lutou-se no centro, as equipas anularam-se. Faltou ousadia: nenhuma quis dar um passo maior do que a perna, nem Benfica nem Sp.Braga se quis colocar a jeito das armas do rival, quiseram ter contenção e segurança na forma como jogaram. O campeão teve ascendente. Nem outra coisa seria de esperar. Essa é a forma natural das coisas: em casa, jogando mais pressionado, tendo maior responsabilidade, o Benfica teria de ser mais incisivo e dominador perante uma equipa matreira, pragmática e que gosta de explorar o adversário. O Sp.Braga, com Hugo Viana e Lima na equipa titular, indefinido e incapaz de se superiorizar, sentiu dificuldades para jogar. A primeira parte ganhou emoção a dez minutos do final. O Benfica imprimiu velocidade, Aimar deu para Saviola e Felipe travou o golo. Apenas aí houve realmente motivos de interesse.

Para trás haviam ficado trinta e cinco minutos de indefinição. O Benfica mais perigoso, belas defesas de Felipe frente a Carlos Martins e Alan Kardec, um calafrio de Roberto, um abuso de altivez de David Luiz, duelos individuais com temperatura elevada e alguns fogachos de Saviola. Jogo intermitente, pouco claro, longe de ser um regalo para vista. Foi, antes de mais, disputado no limite. O Sp.Braga, com dificuldades em se ligar e apenas vivendo das iniciativas de Alan, sem conseguir Luis Aguiar ter bola no pé e fazer a equipa progredir, apareceu nos minutos finais. Respondeu às três oportunidades do Benfica com duas de rajada: Roberto agigantou-se para impedir o golo de Elderson e Lima, logo após, atirou ao lado. Avisos, sinais de inconformismo, de querer fazer melhor. Os guarda-redes, ambos descansados, sobressaíram nos momentos-chave.

O GÉNIO DE MARTINS PARA DESCOMPLICAR

Carlos Martins é um inconformado por natureza. Irreverente, irascível, forte. Nem sempre as coisas lhe saem bem. Há, até, quem diga que é a falta de maturidade que por vezes evidencia, extrapolando facilmente as emoções, o principal impeditivo de se tornar num verdadeiro jogador de topo. Martins insiste, tenta, batalha. O jogo, depois do intervalo, regressou com um Sp.Braga melhor. Mas, no geral, com um futebol pouco pensado, exaltando o pragmatismo, salpicado de algumas oportunidades. Salino não emendou um cruzamento de Lima e Domingos encolheu os ombros, Saviola perdeu de forma incrível e Jorge Jesus desesperou. A forma como El Conejo desperdiça é um dado preocupante para os encarnados, de facto. Manteve-se a tal disputa, sim, mas o nível deixou a desejar. Regressamos a Carlos Martins. E saltamos para o minuto setenta e três.

Minuto setenta e três. Contagem decrescente para o final. Domingos Paciência já trocara Vandinho por Andrés Madrid, devido a lesão, logo se seguindo a entrada de Paulo César, carregando velocidade, para ocupar a vaga há muito deixada por Hugo Viana. O Benfica crescera com as alterações do rival. Faltavam, então, os tais dezassete minutos até aos noventa. Javier Saviola leva a bola, cruza-a, Carlos Martins recebe com o pé direito, deixa-a no esquerdo, remata com potência e colocação para o fundo da baliza de Felipe. Explode: libertação de raiva, golo num momento certo, inépcia atacante quebrada. O Benfica saltou para a frente. Foi quem mais fez por o merecer. Esteve por cima no jogo, foi mais pressionante, mais rematador e contou com mais oportunidades junto da baliza contrária. Venceu bem, portanto.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Benfica-Sporting, 2-0 (crónica): O ar de graça do campeão

DUAS DOSES DE TACUARA

Um derby importante, fulcral, decisivo. A meados de Setembro e ainda à quinta jornada, sim, mas assim estabelecido pelos arranques de Benfica e Sporting, sobretudo do campeão, em contraponto com uma entrada triunfante do FC Porto. Na Luz, na sua casa, o Benfica foi mais forte, colocou intensidade e ritmo no jogo, criou mais oportunidades, manietou o Sporting e deu passos seguros. Óscar Cardozo apresentou o pedido formal de desculpas, não em palavras, mas em golos, dois tiros certeiros, que deram a preciosa vitória aos encarnados. Incapaz, passivo e sem garra para colocar em sobressalto o triunfo adversário, o Sporting apresentou a rendição, despertou tarde, acabou com vários elementos no ataque mas sem coesão e consistência. Perdeu terreno.

Óscar Cardozo tem uma relação difícil com os adeptos do Benfica. Marca muitos golos, decide jogos, funciona como verdadeiro abono de família. É herói. E vilão logo após: paradão, lento, complicativo. É adorado e odiado em momentos, tudo depende dele, está proibido de fraquejar. Começou mal a época, como o Benfica, não aproveitou as oportunidades que teve, falhou como não falhara no ano passado, perdeu bolas de golo feito. Apareceu diferente: cansado, distante, triste. Cada vez mais pressionado. Regressou aos golos frente ao Hapoel Tel Avive. Descarregou a raiva, marcou, cansou-se dos assobios, levou os adeptos ao extâse e logo após a unirem-se contra ele. Viu-se obrigado a desculpar-se. Não com palavras, com paninhos quentes, com pedidos de piedade. A um avançado exigem-se golos. Tacuara regressou. E com ele o Benfica.

Sangue na guelra, nervos à flor da pele e suores frio escorrendo pelo rosto. Um derby sente-se, a emoção sobe, a intensidade atinge o máximo. O futebol pode não ser deslumbrante, deixar a desejar até, mas há sempre traços especiais a circundar o duelo entre velhos rivais. Derby à quinta jornada, cedo no calendário, estranhamente decisivo, com margem nula por inícios erráticos, sobretudo dos encarnados, apenas com a vitória no horizonte. Um escorregão do Benfica deixaria o campeão ainda mais longe do topo, vendo o FC Porto no topo, perdendo tempo para recuperar. Jogando em casa, sob brasas, querendo apagar o começo e recuperar o fulgor do passado, o Benfica entrou com tudo. Levado por Óscar Cardozo. Uma, duas, três oportunidades: uma no poste, outra sem acerto e a última dentro da baliza. Passo em frente.

BENFICA, DOMÍNIO TOTAL!

Uma dúzia de minutos, um golo de vantagem do Benfica, encarnados melhor sobre o relvado, mais confortáveis e fortes, perante um Sporting atordido e sem ter ainda capacidade para assumir o jogo. Os leões, de regresso à fórmula inicial depois da revolução em França, sentiram dificuldades nas bolas paradas, a base tremeu, todo o castelo abalou com um Benfica que é bom no ataque à baliza contrária. Cardozo fez as pazes com os golos, com a equipa e com os adeptos. Cumpriu a sua parte e marcou. O Benfica coroou a sua superioridade, chegou ao primeiro objectivo de marcar cedo, continuou forte, tentando libertar-se de todos os fantasmas, mesmo baixando a intensidade. O apito de Carlos Xistra repetiu-se, uma e outra vez, faltas em catadupa, inúmeras paragens, futebol menos vivo. Picardias e escaramuças: derby é derby.

O Sporting entrou mal. Esbarrou num Benfica forte e possessivo, um ar de graça do que produziu na época passada, acumulou erros, teve passividade e não encontrou espaços para chegar à baliza de Roberto. Na primeira parte, por exemplo, os leões não criaram um lance de ataque capaz de levar perigo. O Sporting é uma equipa com querer, sim, mas demasiado passiva. Mais agressivo, mais aguerrido e mais capaz, o Benfica dominou, marcou, ficou com o jogo na mão e jogou como gosta, lançando-se contra o adversário, abrindo brechas e jogando com dinâmica e velocidade. O segundo golo dos encarnados chegou depois do intervalo, cinco minutos de continuidade, marcado por Cardozo. Marcou dois, festejou com o público. Perdão, pediu o paraguaio. Desculpado, claro que está desculpado - grito de um público sedento de golos.

UMA VANTAGEM GARANTIDA NATURALMENTE

Com o passar dos minutos, sentindo-se mandão e intocável no jogo, o Benfica reaproximou-se do que pode realmente fazer. A equipa das primeiras jornadas foi uma caricatura. Nesta ronda, no derby decisivo, os encarnados apareceram melhor, com mais ritmo, mais acutilância e mais confiança. O Benfica teve sempre o comando consigo, foi criando oportunidades, não o fazendo numa enxurrada ofensiva mas sim em momentos, prendendo os movimentos do adversário e impedindo-o de construir lances de futebol ofensivo. A ideia de Jorge Jesus lançar surpreendentemente César Peixoto, em detrimento de Nico Gaitán, fez com que João Pereira, um desequilibrador do Sporting, não se intrometesse no ataque. Sem astúcia nas faixas laterais, com Matías sem espaço, com médios muito distantes, o leão afundou-se.

A primeira vez que o Sporting se acercou com perigo da baliza de Roberto aconteceu perto dos sessenta minutos. Tarde, demasiado tarde, para quem é grande e pretende discutir o jogo na casa do eterno rival. Nasceu de um erro descomunal de Rúben Amorim, dando a Liedson a oportunidade de descontar: o Levezinho está longe do que era, perdeu capacidade para resolver, não acertou com o golo. Depois, Postiga, lançado por Paulo Sérgio, obrigou Roberto, por entre tremeliques, a agir. O Sporting tentou importunar o Benfica, acrescentar alguma emoção à ponta final, responderam os encarnados por duas vezes, ambas com Cardozo, passando ao lado de um resultado mais gordo. Ganhou o Benfica com naturalidade, não sendo deslumbrante ou encantador, mas mostrando maior força, mais argumentos e maior vontade de triunfar.

domingo, 12 de setembro de 2010

FC Porto-Sp.Braga, 3-2 (crónica): O dragão caminha alegre

FUTEBOL TOTAL, COMBATIVO E VIBRANTE

Começou morno, aumentou progressivamente de velocidade, foi polvilhado de momentos cintilantes, ganhou intensidade, emoção e ritmo com os minutos. Acabou por ser um jogo de luxo, entre verdadeiros candidatos, mostrando as suas forças. O FC Porto, recuperando de duas desvantagens, terminou por cima, uniu-se em prol da equipa, aproveitou todo o talento e génio de Hulk, um diabo irascível, para cimentar a liderança, agarrando-se cada vez mais ao trono, um lugar onde também o Sp.Braga quer estar. A equipa bracarense é guerreira, luta até ao fim, não enrola a bandeira. Jogou com as suas armas e obrigou o FC Porto a lutar para conseguir vencer. São candidatos. Está na cara. Jogo emotivo, golos brilhantes, excelente arbitragem: futebol total.


Velocidade um. Futebol morno: amarrado, táctico, disputado e sem balizas. Com luta, com combatividade colocada em cada lance, com vontade de ganhar por parte de duas equipas capazes, confiantes para lutar pelo título, querendo agarrar a liderança com unhas e dentes. O FC Porto é um grande por tradição, tem um estatuto rico e invejável, dominou na última vintena e meia de anos, conquistou quatro campeonatos seguidos até ceder perante o Benfica e o emergente Sp.Braga, caindo para terceiro, vendo-se ultrapassado por esta equipa que anseia ser grande. Ambos em estado de graça, em busca de o prolongar e deixar bem vincada a sua candidatura a altos voos no primeiro verdadeiro teste da época. Por isso, por lutarem pelo mesmo, têm cautelas. Começam expectantes, serenos, sentindo as pulsações do rival.

A monotonia dos primeiros quinze minutos, tépidos e insípidos, pedia um momento de inspiração. Fosse um remate forte, uma prova à atenção dos guarda-redes, uma jogada de deixar água na boca. Um golo abalaria o jogo, dar-lhe-ia emoção, obrigaria a maiores aventuras. Um grande golo, então, seria perfeito. Foi do Sp.Braga: Luis Aguiar, na cobrança de o livre, colocou os minhotos em vantagem. Na primeira oportunidade, deixando Helton sem hipótese, o uruguaio lançou a sua equipa para a frente, colocou-a por cima no território do dragão, levou o FC Porto a ter de ser mais afoito para ultrapassar a barreira defensiva, o ponto forte do Sp.Braga, criando desequilíbrios que não conseguira. A resposta portista, levado por Hulk, chegou também num livre. A trave desviou as pretensões do Incrível. As dificuldades dos dragões fizeram-se sentir.

HULK: GÉNIO, DIABO, DECISIVO!

O Sp.Braga é uma equipa adulta, pragmática e inteligente. Sabe que nem sempre pode ser elogiada pela forma como joga, tenta-o mas não é obssessiva por bons espectáculos, concentra-se apenas nas suas tarefas fundamentais. Joga com união, com garra, asfixia a criação do adversário e lança ataques poderosos, apanhando o adversário em contra-pé, sempre que percebe a valia do rival que tem pela frente. É destemido, não suicida. Ganha o meio-campo, controla o rival, fica com o jogo. O FC Porto necessitou de talento, de explosão, de velocidade. Chamou Hulk: jogada individual, veloz e arrasadora, antes de um cruzamento perfeito para a cabeça de Silvestre Varela. Dois momentos de génio, rasgando um jogo com pouco perigo junto das balizas, para dois golos. O intervalo chegou a exigir a segunda velocidade.

Fala-se em velocidade e surge Hulk no imediato. O brasileiro é cada vez mais um jogador de equipa, está empenhado em deixar os defeitos que ainda ostenta, percebe que tem muito a ganhar, individual e colectivamente, se se entregar de corpo inteiro e canalizar toda a sua força para o sucesso da equipa. Iniciou a segunda parte empenhado, espalhando qualidade, levando Elderson às trevas. O FC Porto regressou mais aguerrido, rápido de processos, jogando perto da baliza de Felipe, por duas vezes obrigado por Hulk a duas belas intervenções, colocando os seus elementos mais próximos. No melhor momento do dragão, em que conseguira assentar o domínio em sua casa, o Sp.Braga, pleno de ousadia e atrevimento, recolocou-se em vantagem. Lima parou, olhou e disparou. A bola saiu forte e só parou no fundo da baliza azul. Chapeau!

POTÊNCIA, COLOCAÇÃO, FUZILAMENTO


O dragão não gostou de ver o Sp.Braga, na sua melhor fase, chegar a uma nova vantagem. Respondeu de pronto. Potência, colocação, fuzilamento: Hulk recebeu de Álvaro Pereira, sorriu quando viu Elderson escorregar e rematou com estrondo para o empate. A velocidade, com dois golaços em tão curto espaço, saltou para o quatro. Nem houve espaço, sequer, para experimentar a terceira. Domingos Paciência franziu a testa, percebeu que o seu Sp.Braga estava menos pressionante, apesar de sempre batalhador, e que Hulk destroçara Elderson. Lançou Miguel Garcia, deslocando Sílvio para a esquerda, na procura de estancar a vontade do Incrível. Logo após, para manter o FC Porto em alerta, trocou Lima por Matheus. Pelo meio, sabendo das intenções do rival, André Villas Boas colocou Rúben Micael no lugar de Moutinho. Duelo táctico.

Potência, colocação, fuzilamento - parte dois. Passando o período dos treinadores, ambos irrequietos, regressaram os golos. Mais um pontapé forte, colocado, indefensável. Falcao ganhou a bola a Miguel Garcia, o FC Porto conseguiu espaço, Varela encarou com Felipe e rematou, convicto, para o terceiro golo dos dragões. Pela primeira vez, recuperando de duas desvantagens, a equipa portista colocou-se em superioriade. Terminou a busca pelo resultado, ficou nas suas sete quintas, ganhou os duelos ao Sp.Braga, parou a reacção minhota e percebeu que a vitória não lhe escaparia. Foi uma equipa combativa, solidária, acabou com Hulk em sofrimento pelos seus interesses e travou o Sp.Braga, uma vez e para sempre guerreiro, até garantir o triunfo. Suou para isso. Cimenta a liderança, vive na alegria, caminha feliz.