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sábado, 6 de fevereiro de 2010

É esta a lei do nosso futebol?

O futebol português está em verdadeiro estado de sítio, sobrelotado de polémicas e com os jogos, o importante, em segundo plano. Arrisco-me a dizer que, após o apogeu do Apito Dourado, esta é a época em que mais conflitos têm existido. Os túneis de Braga e da Luz, com agressões e pesados castigos para os intervenientes, são o expoente máximo, mas longe de único. Houve ainda notícias de aliciamentos, um clima hostil em crescendo na rivalidade entre FC Porto e Benfica que, agora, envolve também o Sp.Braga. O Sporting consegue manter-se afastado? Não, de todo. Tem problemas internos, graves: Sá Pinto e Liedson envolveram-se em agressões, na altura director-desportivo e jogador, no final de uma vitória sobre o Mafra.

Para condensar ainda mais os conflitos reinantes no futebol português, a relação entre clubes e comunicação social é cada vez mais fria. Apesar da existência de directores de comunicação, um elemento que deveria funcionar como ponte para o exterior, os clubes, sobretudo grandes, continuam a fechar as portas aos jornalistas, devido a uma qualquer notícia publicada pelo orgão a que o jornalista pertence e que não foi do agrado dos responsáveis de determinado clube. Em Portugal, nesta temporada, é assim o jogo. Ter o campeonato mais competitivo das últimas quatro épocas deveria ser motivo para aumentar os motivos de interesse e acabar definitivamente com os bastidores. Acontece o contrário. Mas onde está a novidade?

Quando o leitor pensa que já viu de tudo, no meio de tanta azáfama continuam a existir notícias capazes de surpreender. É absolutamente inimaginável que um seleccionador nacional se envolva em agressões com um comentador desportivo, não? Aconteceu: Carlos Queiroz e Jorge Baptista, em pleno aeroporto de Lisboa, trocaram palavras que culminaram em confronto físico. Queiroz desvaloriza (dizendo que apenas houve empurrões) e que está tudo tratado; Baptista confirma a existência de agressões, lamenta o que aconteceu, mas "tudo morreu ali". Obviamente é um caso grave. Um seleccionador nacional, representante de um país, não pode em momento algum ver-se envolvido em cenas deste tipo. Tal como Jorge Baptista, ocupa uma posição onde é fundamental saber lidar com a crítica.

Após se ter tornado público, a imagem de um Carlos Queiroz ponderado, equilibrado e calmo sai beliscada. Independentemente dos antecedentes, nada justifca a agressão a Jorge Baptista - que, de acordo com os relatos, não irá apresentar queixa contra o seleccionador. É mais um corte na credibilidade e interesse do futebol português. A importância da bola corrida e do futebol jogado dentro das quatro linhas com duas equipas em disputa perde-se a cada dia. Ganham destaque estes incidentes que, infelizmente, são manchas difíceis de apagar - a Federação Portuguesa de Futebol procurá fazer com que o caso seja esquecido, retirando-lhe importância, procurando alguma (inútil) justificação. Carlos Queiroz e Jorge Baptista ficarão para sempre ligados a este triste episódio.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Decisões demasiadamente tardias

Uma pausa na polémica, por favor, para uma vitória histórica do FC Porto sobre o Sporting. Finda a partida, feitas as análises, de novo regresso aos bastidores do espectáculo. Um novo capítulo de um argumento antigo, com um túnel, invariavelmente, como cenário. A Comissão Disciplinar da Liga suspendeu dois jogadores do Sp.Braga: Mossoró e Vandinho, respectivamente, por três jogos e... três meses, ou seja, o médio bracarense apenas poderá marcar presença na última jornada do campeonato - o lateral brasileiro Ney Santos foi também castigado com dois jogos de castigo, mas está cedido ao Vitória de Setúbal. São resquícios do intervalo da partida com o Benfica, em Outubro. O jogo foi no último dia do mês e já lá vão, portanto, três meses.

O caso do túnel de Braga, gerador de polémica, bem antes do clássico da Luz, começou ainda no relvado. Após o último apito de Jorge Sousa na primeira parte, Di María atirou a bola contra o banco bracarense, os jogadores do Sp.Braga não gostaram da atitude do argentino, o ambiente ficou em brasa e gerou-se, por isso, uma enorme confusão. Jogadores de ambas as equipas envolveram-se em confrontos junto à entrada do túnel, prosseguiram no acesso aos balneários. O resultado foram as expulsões de André Leone, defesa dos minhotos, e de Óscar Cardozo, avançado paraguaio dos benfiquistas. Contudo, nas imagens televisivas, foram bem visíveis, ainda antes da entrada do túnel dos balneários, agressões de Ney e Mossoró a Cardozo.

É também perceptível, através de uma observação mais detalhada, que Vandinho pontapeia Raul José, adjunto dos encarnados. Aliás, na altura, escrevi aqui que não se entendia como, sendo claras, as agressões não tinham punição - (...) absolutamente inconcebível que, após o visionamento das imagens, nada tenha sido feito. Se a Cardozo e Leone foram aplicados dois jogos de suspensão, o castigo de Ney e Mossoró terá de ser proporcional aos actos (...) -, mas a verdade é que o tempo passou e a Comissão Disciplinar da Liga não agiu. Fá-lo, agora, tardiamente, já poucos se lembrariam do ocorrido. De lá para cá foram disputados, para o campeonato, oito jogos. Tantos quantos haviam sido jogados até à partida de Braga.

Não se pretende, então, contestar as sanções aplicadas pelo organismo presidido por Ricardo Costa, tão ou mais contestado do que Vítor Pereira, líder da arbitragem - embora pense ser excessiva a pena de Vandinho. As agressões, evidentemente, não poderiam passar impunes. Contudo, é necessário, nestes casos, que as decisões sejam tomadas o quanto antes. Não faz sentido, e o mesmo se aplica ao impasse nos eventuais castigos a Hulk e Sapunaru, que decorra tanto tempo, tantos jogos e que só depois seja conhecida a penalização. É imperativo que a justiça seja bem mais rápida na sua actuação. Absolutamente impensável que demore três meses. Onde está a celeridade? O clima futebolístico, esse, vai aquecer ainda mais.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Os árbitros esqueceram a catequese?

A arbitragem em Portugal não é cristã, esqueceu os princípios ou não foi à catequese. Ao seu estilo, refinadamente irónico, mordaz até, Manuel Machado criticou a acção de Carlos Xistra no Nacional-FC Porto. Existiram erros que prejudicaram a sua equipa: o árbitro deixou uma grande penalidade favorável aos insulares por assinalar, marcou outra muito duvidosa que viria a culminar na expulsão de Alex Bruno e, mais importante do que tudo, no primeiro dos quatro golos portistas. O caminho ficou aberto, os dragões partiram para uma vitória fácil que, depois, fizeram por justificar. O Nacional ficou por aí, impotente. Manuel Machado revelou o sentimento de frustração, recorreu a uma frase célebre de Jorge Jesus, seu rival para a vida: só na playstation!

Manuel Machado é um bom treinador, gosta de colocar as suas equipas a praticar bom futebol e faz com que cumpram os objectivos propostos. É demasiado frustrante, e ninguém o merece, ver a sua margem de acção reduzida devido a más decisões arbitrais. No entanto, acontecerá sempre: o futebol é um jogo de erros, faz parte da sua essência. Como outros, Carlos Xistra é um árbitro sofrível: comete alguns lapsos técnicos, mostra pouca coerência na vertente disciplinar. Um jogo onde o fantasma do erro nunca desaparecerá tem imperativamente de ser ajuizado seguindo um critério uniforme. Ora, essa poderá ser uma das lacunas na arbitragem portuguesa: ausência de critério. Daí que até os rivais estejam em acordo: os grandes ficam por cima.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Fluxos dos grandes

A possibilidade de contratar novos jogadores, devido à produtividade obtida até então pelos grandes, faria mais sentido para o Sporting. Por isso mesmo, os leões, depois de terem gasto pouco no Verão, fizeram um esforço financeiro para dar maior qualidade à equipa. Chegaram João Pereira e Sinama Pongolle: o primeiro já está mais do que integrado na equipa, havendo mesmo quem o aponte como um dos maiores responsável melhoria do Sporting; o avançado pouco se mostrou ainda, atormentado desde logo por uma lesão. Agora é a vez de chegar Pedro Mendes - o Glasgow Rangers já confirmou o acordo com o Sporting. Em sentido contrário, Caicedo abandonou o clube, tal como Angulo há muito havia feito - ainda André Marques, cedido aos gregos do Iraklis. Está fácil de perceber quão falhadas foram as contratações de Agosto.

A primeira metade da temporada serviu, também, para deixar a nu algumas fragilidades da equipa do FC Porto. Essencialmente na construção de jogo. Não houve quem assumisse o futebol portista, quem o comandasse. Faltou um substituto para Lucho González, algo que Belluschi não conseguiu de forma convincente.
O mercado, embora Pinto da Costa sempre afirmasse que o plantel dava todas as garantias de sucesso, tornou-se imprescindível. Acertada a contratação de Rúben Micael, será no jovem médio madeirense que estará a batuta da equipa. Para além do médio, chega também um novo avançado: Kléber, ex-Cruzeiro, namoro antigo, em troca com Ernesto Farías - um jogador que viveu na sombra, sem espaço no onze-tipo, mas autor de golos decisivos. Sebastian Prediger, erro de casting, saiu para o Boca Juniors.

Com um rendimento bem superior a outras épocas, colocado acima dos rivais directos, perdendo apenas para o Sp.Braga no topo, o Benfica pretendeu também reforçar o plantel. Não que exista algum desiquílbrio, quantitativo ou qualitativo, mas é necessário precaver qualquer indisponibilidade e, por outro lado, aumentar a competitividade interna. Alan Kardec, Éder Luís e Airton, três brasileiros, entraram no plantel encarnado. Sem espaço de manobra, com perspectivas irreais de serem chamados, tal como acontecera com Urretaviscaya de saída para o Peñarol, Jorge Ribeiro ficou com Guimarães no destino, Shaffer foi colocado no Banfield (Argentina) e Balboa, experiência verdadeiramente fracassada, rumou ao Cartagena (segunda divisão espanhola). Franco Jara, avançado argentino, é ainda uma hipótese para chegar à Luz.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Um futebol que caminha para o abismo

O futebol português vive uma das piores fases do seu passado recente. Se é facto que, até ao momento e comparativamente com a temporada anterior, não apareceram casos de irregularidades no pagamento de salários em nenhuma equipa, ressurgiram, de súbito, inúmeras suspeições envolvendo a face oculta do futebol. Esquecendo a parte do espectáculo, essencial, capaz de arrastar multidões em massa por uma única paixão: o jogo. Olhamos para a Europa, os jogadores são os protagonistas, há magia, encanto de ir ao estádio ver duas equipas cordialmente na busca da vitória. Com garra, com querer. E em Portugal? Quem são os protagonistas do futebol português, leitor? Tentativa de resposta: não os jogadores.

A discussão e a polémica fazem parte da essência do jogo. Existem erros, falhanços, oportunidades perdidas de tocar o céu, por vezes uma vida inteira de desgraças. Outros, pelo contrário, alcançam a glória com facilidade, tudo lhes corre bem, são bem sucedidos no que fazem. É a lei do futebol: uns ficarão felizes, outros frustrados por não terem alcançado o objectivo. O espectador, desligado de clubismos, quer ver os seus ídolos em campo, ter um tempo bem passado, noventa minutos que passam como se fossem cinco, um espectáculo que lhe agrade. Actualmente, não é necessário sair de casa. Basta colocar a televisão no canal certo. Vê os melhores jogadores, o encanto dos outros futebóis. Outros, pois.

O futebol português, para os verdadeiros amantes do desporto no seu estado mais simples, fica relegado para outro plano. Porquê? É simples: em Portugal, os jogadores não são os protagonistas, até o próprio futebol fica atrás das rivalidades que extravazam a esfera desportiva. Não há competição, há guerras. Não há adversários, há inimigos. Não há espectáculo, há a ânsia de ganhar para mostrar ao rival que se é superior. Por isso, os túneis ganham destaque, iniciam-se lutas verbais para hostilizar tudo e todos, a suspeição instala-se, o fantasma da corrupção regressa bem forte, os clubes esquecem o jogo dentro do relvado.
O futebol português, a cada dia, torna-se menos interessante. Deixa de ser futebol. Para onde caminhamos?

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A decisão que não sai e um enorme ruído de fundo

Túneis, suspensões, atrasos nas decisões, escutas, apedrejamentos, parada e resposta sem fim. Em duas palavras: interminável polémica. Com efeito bola de neve, surgindo novas revelações a cada dia, mas no final tudo se mantém na mesma. E o futebol, leitor, onde está? Em segundo plano, apenas surgido depois de se debaterem todas as questões de bastidores, fora das quatro linhas, chegando até à esfera judicial. É assim desde o dia 20 de Dezembro de 2009, dia do clássico entre Benfica e FC Porto. No relvado, os encarnados ganharam bem. Ponto final. O assunto encerrou aí, com o apito final de Lucílio Baptista, certo? Pelo contrário: esse foi apenas o início de todo o clima de conflitualidade que se instalou a partir de então.

No meio de todas as questões que têm surgido, nada mais do que um novo capítulo na saga entre portistas e benfiquistas, arrufos conhecidos, inimigos para a vida, importa olhar ao que mais mossa tem feito. Hulk e Sapunaru, profissionais do FC Porto, estão suspensos preventivamente. Desde a data da partida, passaram-se sete jogos. A pena a ser aplicada tarda em ser conhecida, os jogadores continuam num impasse, sem saber se poderão ainda jogar nesta temporada ou qual o castigo a que estarão sujeitos. Neste tipo de situações, a decisão tem necessariamente de ser célere. Se existirem provas em como as agressões acontecerem, e após ser apurada a gravidade do acto, os protagonistas de ser castigados conforme a lei. Simples.

Sabe-se, agora, que as imagens captadas pelas câmaras de vigilância não poderão funcionar como meio para comprovar a existência de conflitos. Só em termos penais serão aplicadas, nunca com interferência na justiça desportiva. Assim, tudo aquilo que acontecer no túneis, não sendo presenciado por um elemento da equipa de arbitragem ou pelos delegados da Liga - o que aconteceu neste caso -, é absolutamente nulo nas questões desportivas. As imagens podem provar que existiram agressões, não têm utilidade. Não faz qualquer sentido que assim seja, obviamente. No entanto, esquecendo todo o burburinho criado, é importante que se faça uma reflexão. Para encontrar o rumo do futebol português, enquanto não é demasiado tarde.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O filme do nosso futebol

Há coisas que nunca mudam. Como a mais prolongada das novelas, onde tudo acontece de extraordinário e, afinal, já todos vimos aquela cena em algum lado. O temperamento de Sá Pinto é uma dessas coisas. Jogador impetuoso, viril até, jogando no limiar das regras, mas idolatrado pelos adeptos do Sporting. Representa a garra, o querer, a vontade de triunfar, o antes quebrar do que torcer, dar tudo na defesa do clube. Os adeptos sportinguistas queriam ver isso reflectido na equipa. Numa equipa que estava apática, sem capacidade de reacção, impotente no momento e sem horizontes futuros de sucesso. Sá Pinto entrou, representado uma nova era, um corte com o passado. Não foi uma escolha consensual, porém José Eduardo Bettencourt assim quis. Agora, cerca de setenta dias volvidos, sai pela porta pequena, após se ter envolvido em agressões com Liedson. Como é possível um director-desportivo se envolver em agressões com um jogador? Como é possível um jogador não acatar as ordens do director-desportivo? Sylvester Stallone tinha aqui um bom argumento para continuar a saga.

Outra das coisas que nunca há-de mudar é a polémica que envolve o futebol português. Ou melhor: nunca há-de acabar. Na mesma semana, falou-se das escutas do Apito Dourado (o YouTube com uma afluência tremenda!), passaram mais dias sem se saber qual será o castigo de Hulk e Sapunaru, apareceu um vídeo de conflitos no túnel da Luz (Benfica-FC Porto, época 2008-09) e, depois de tudo isso, soube-se que as imagens, afinal, não têm validade alguma. Nem para o sucedido nesta temporada, nem para o do ano transacto, nem para algo que possa vir a acontecer futuramente. Existem, provam a existência de escaramuças, mas não têm qualquer utilidade. Tal como as escutas. Há quem entenda? O futebol é jogado dentro de campo. Mas os bastidores insistem em ser protagonistas. E, assim, serão cada vez mais.

É natural, por isso, que o futebol seja relegado para segundo plano. Na prática, discute-se tudo e mais alguma coisa sobre futebol mas nada sobre a bola jogada dentro das quatro linhas. No meio de todo esse filme que é o futebol português, jogou-se a Taça de Portugal. Provou-se que não há vencedores antecipados, diga o que disser a teoria. No Restelo, o Belenenses-FC Porto prolongou-se por três horas e foi necessário recorrer a trinta grandes penalidades para se determinar o vencedor. Foram os portistas. O realizador da longa-metragem poderia ter sido, sem qualquer problema, o nosso Manoel de Oliveira. Em Alvalade, o Sporting jogou bem abaixo do que tem feito, conseguiu contudo chegar a uma goleada (4-1) e, de súbito, deixou-se adormecer. Venceu, à justa, por 4-3. O adversário era o Mafra, equipa do terceiro escalão do futebol nacional, nada o fazia prever. Nessa ponta final emergiu Zhang, um chinês autor de um hat-trick, Sá Pinto e Liedson, como já se disse, desentenderam-se por causa do segundo golo. Terminar bem ao jeito de Quentin Tarantino.

NOTA: Artigo feito para o blogue Negócios do Futebol, onde há pouco iniciei uma colaboração semanal

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O regresso da escuridão dos túneis

A Liga suspendeu preventivamente Hulk e Sapunaru por, alegadamente, terem agredido um membro da segurança no túnel de acesso aos balneários da Luz. As versões, naturalmente, são contraditórias: o steward queixa-se de ter sido agredido por Sapunaru, uma acção que terá tido também o contributo de Hulk; do lado dos portistas, embora sem uma reacção oficial, refere-se que o jogador romeno reagiu a uma provocação. Independentemente das causas, nada justifica as atitudes dos jogadores. São profissionais, não devem ter descontrolos emocionais que levam a uma extrapolação daquilo que sentem. Está, por isso, aberto um inquérito para que se apure a realidade daquilo que realmente aconteceu no final do clássico - algo a que o sistema de vídeo-vigilância dará um contributo fundamental.

Os problemas ocorridos nos túneis não são, contudo, de agora. Esta temporada tem, inclusivamente, sido fértil em conflitos já fora do relvado. O caso mais mediático até então, que tanta polémica deu, aconteceu no intervalo do Sp.Braga-Benfica e culminou nas expulsões de Óscar Cardozo e André Leone, um jogador de cada equipa. Terão havido agressões junto aos balneários, Jorge Sousa assim decidiu. Nada a apontar, por isso. Todavia, as imagens televisivas vistas posteriormente, onde se registam agressões de Ney Santos e Mossoró a Cardozo, deveriam ter servido para que fosse instaurado um processo aos jogadores. No entanto, apenas foram assumidos os castigos aos jogadores expulsos pelo árbitro da partida. Agressões claras, captadas pelas câmaras, não mereceriam castigo?

Antes disso, na ronda anterior, o Benfica já havia tido alguns problemas no túnel. Também no intervalo. Ruben Micael e Manuel Machado, jogador e treinador do Nacional, afirmaram, após o final do jogo, que elementos da equipa madeirense, em especial o médio português, haviam sido pressionados e até agredidos. Vejam as imagens, afirmou Ruben Micael. Até hoje, ninguém está esclarecido sobre o que se passou ao intervalo do Benfica-Nacional. Nem do jogo de Braga, nem no fim do clássico. A única certeza é que os túneis voltam a ganhar, infelizmente, protagonismo no futebol português. Que pena é que a verdadeira essência do jogo, o futebol jogado dentro do campo em noventa minutos de disputa cordial, seja esquecida...

sábado, 21 de novembro de 2009

Decisão atrasada

A princípio, seria uma jornada de grande festa para a população de Oliveira de Azeméis: teriam junto a si o FC Porto, tetracampeão nacional. Essa aproximação é inquestionavelmente a maior riqueza que a Taça de Portugal permite aos clubes de menor dimensão. À medida que o dia do jogo se foi aproximando, chegou também a apreensão devido às poucas condições do estádio Carlos Osório, palco do embate. De segurança, devido ao aumento da lotação, mas sobretudo por causa do relvado. O FC Porto lembrou o seu estatuto e reclamou outras soluções. A Oliveirense prometeu, com uma ajuda da meteorologia, um relvado suficiente. Hoje, dia da realização da partida, o jogo foi adiado. Ainda para data incerta. Tão esperado que era e ninguém o conseguiu antever.

No meio de tudo isto, o papel da Federação Portuguesa de Futebol ficou para segundo plano. Completamente contrário ao que deveria ser feito, falamos do órgão máximo do futebol português. A última palavra deveria ser sua, analisando e tomando a última decisão, nunca deixando tal encargo para o árbitro do jogo. Bruno Paixão decidiu, após o aquecimento, não realizar a partida. Fez bem, pois a integridade física dos intervenientes deve estar acima de tudo. O relvado estava mesmo impraticável. Sabia-se que assim seria, aliás. Por isso, causa estranheza que a tomada de decisão tenha sido tão demorada. Haveria necessidade de mobilizar público a um estádio onde se realizou apenas o aquecimento? Não. Obviamente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Currículos, riscos e desconfianças

Jesualdo Ferreira chegou ao FC Porto com sessenta anos e sem títulos. Agora, três temporadas volvidas, é tricampeão nacional, tem uma Taça de Portugal e uma Supertaça no palmarés. Assumiu um estatuto de treinador de topo, de elite. Jorge Jesus chegou ao Benfica com cinquenta e quatro anos e sem títulos. Está ainda na sua primeira época nos encarnados e, por isso, não enriqueceu o currículo. Contudo, é o treinador da moda em Portugal e é grande responsável por encher os adeptos benfiquistas de esperança e optimismo. Que se pretende com isto dizer? Que, quando assumiram os comandos dos seus clubes, os treinadores de FC Porto e Benfica tinham trabalhos meritórios - Braga como elo de ligação comum - mas nada de conquistas de troféus.

Agora, com quarenta e três anos, é a vez de Carlos Carvalhal chegar ao Sporting. Também não tem títulos? Errado, tem um: Taça da Liga conquistada em 2007-08 frente ao seu actual clube e o seu antecessor. Os adeptos sportinguistas, numa percentagem bem elevada, não gostaram da escolha. Preferiam alguém mais experiente, alguém com mais estofo para levantar a equipa da passividade em que se encontra. É legítimo que assim seja, compreende-se perfeitamente. Trata-se de um caso algo semelhante ao da chegada de Augusto Inácio, em 1999. Foi olhado de lado, a princípio, mas levou o Sporting à conquista do campeonato nacional. Contudo, o panorama agora é bem diferente e, mesmo sendo um bom treinador, Carvalhal terá trabalho árduo. Será capaz de revitalizar a equipa? Veremos... a partir do derby.

Pode parecer paradoxal, porém, que se defendesse a chegada de André Villas Boas que apenas começou a carreira de treinador em Outubro passado, na Académica. Até aí fora sempre colaborador de Bobby Robson e José Mourinho. Pode-se gabar, como poucos, de ter tido dois grandes mestres, invejáveis para qualquer um, mas seria isso suficiente para lhe entregar o comando de uma clube que vive momentos tão delicados? Bettencourt achou que sim, foi a sua escolha para suceder a Bento. O próprio Villas Boas foi quem negou a transferência. Seria, talvez, um passo maior do que a perna. Esta contratação seria mais justificada do que a de Carvalhal? Muito sinceramente, leitor, creio que não. Certo que a Académica, com Villas Boas, está diferente e poderemos estar perante um treinador de grande sucesso. Mas no futuro. Não agora.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Os sumaríssimos, senhores?

O jogo foi no sábado, já se passaram cinco dias mas o Sp.Braga-Benfica continua a ser um tema forte. Tratou-se de um jogo com imensa polémica, com um clima efervescente entre ambas as equipas. Dentro e fora das quatro linhas. O túnel que dá acesso aos balneários do Estádio AXA tornou-se num cenário de autêntica batalha campal. Um pontapé de Di María em direcção ao banco do Sp.Braga, segundos antes de Jorge Jousa ter apitado para o intervalo, foi o rastilho que fez explodir uma gigantesca bomba de emoções. Seguiram-se cenas verdadeiramente lamentáveis, com picardias, empurrões e até agressões entre jogadores. Tudo menos futebol.

Em resultado dos incidentes, Óscar Cardozo, do Benfica, e André Leone, do Sp.Braga, não regressaram para a segunda parte. Alegadamente, devido a mútuas agressões ocorridas já junto dos balneários. O que se passa nos túneis parece ficar no segredo dos deuses. Existirão, decerto, câmaras de vigilância mas nada é dado a conhecer ao público. Fora assim na Luz, quando os jogadores do Nacional se queixaram de ofensas; voltou a sê-lo em Braga, uma semana depois. Só quem lá estiver, poderá saber. No entanto, bem mais grave do que isso são as situações que aconteceram à entrada do túnel e que qualquer um de nós pôde observar mas ainda estão impunes.

Vamos directos ao assunto: durante a enorme confusão gerada à ida para os balneários, Ney Santos e Márcio Mossoró, ambos jogadores do Sp.Braga, agrediram Cardozo com um estalo cada. São duas agressões que não podem, de forma alguma, passar em claro. No momento, nada aconteceu a qualquer um dos jogadores. A explicação mais simples é que Jorge Sousa não se terá apercebido. Compreende-se, embora o seu auxiliar estivesse a menos de um metro do local. No entanto, é absolutamente inconcebível que, após o visionamento das imagens, nada tenha sido feito. Se a Cardozo e Leone foram aplicados dois jogos de suspensão, o castigo de Ney e Mossoró terá de ser proporcional aos actos. Os processos sumaríssimos alguma vez terão feito tanto sentido?

sábado, 24 de outubro de 2009

A confusão lançada pelos treinadores

Despedimentos de treinadores, à sétima jornada, já tinham havido cinco: Carlos Azenha, Ulisses Morais, Carlos Carvalhal, Rogério Gonçalves e Nelo Vingada. Um número elevado que mostra bem a impaciência que domina os dirigentes portugueses e a pressão a que os técnicos estão sujeitos, sempre que os resultados não são os desejados. No entanto, para aumentar ainda mais a indefinição em torno dos treinadores, na última semana houve uma espécie de exôdo, isto é, técnicos que estavam no activo decidiram trocar de patrão. A vida de um treinador é precisamente assim: hoje defende uma equipa, amanhã defende a outra. Seja como for, causa, aos adeptos, alguma estranheza por o treinador da sua equipa ainda há algumas semanas estar num rival.

Paulo Sérgio, aliciado pela vontade de subir um degrau na sua carreira, deixou o Paços de Ferreira e aceitou o convite para comandar o Vitória de Guimarães, de onde Nelo Vingada saíra ao fim de sete jogos. Abriu, assim, uma vaga: Ulisses Morais, no desemprego após ter sido dispensado pela Naval, sorriu por voltar a treinar alguém. Seguiu-se, depois, Manuel Fernandes. O treinador da União de Leiria, responsável pela extraordinária recuperação que culminou na subida dos leirienses ao principal campeonato português, não resistiu ao apelo do Vitória de Setúbal, segundo clube do seu coração. Outra vaga se abriu. O escolhido, Lito Vidigal, a treinar o Portimonense, abdicou da liderança da Liga Vitalis para regressar aos palcos maiores.

Evidentemente que um treinador ambiciona sempre chegar mais além e recusar um convite de um clube da Liga Sagres poderia ser o desperdiçar de uma oportunidade única. Há, contudo, algo que todos esquecem: os contratos. Pergunto, leitor, se não haverá aqui alguma espécie de egoísmo. Os clubes em que estão, que lhes proporcionaram boas condições, passam a ser secundários perante uma proposta de alguém que lute por objectivos mais aliciantes. Vejam-se as consequências das mudanças de Paulo Sérgio e Manuel Fernandes. Treinadores que alcançam algo importante no clube onde estavam - são os casos: o primeiro chegou à final da Taça, o segundo foi o obreiro da subida - ficam como símbolos das equipas. Não se estranhe, pois, que estas trocas ainda confudam os adeptos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Necessidade ou a saída mais fácil?

Começou com Carlos Azenha, continuou com Ulisses Morais e Carlos Carvalhal, e chegou agora a Rogério Gonçalves e Nelo Vingada. São cinco treinadores que foram despedidos, ou seja, sofreram aquilo a que se chama de chicotada psicológica. Em apenas sete jornadas que estão jogadas no campeonato português, ainda nem um terço foi disputado, é um número bem elevado e que representa uma marca recorde na Europa. Trata-se, à partida, de um sinal claro de que os resultados não agradaram aos responsáveis de um determinado clube e, por isso, julgaram ser necessário um abanão para colocar a equipa na rota certa. Por outro lado, mostra também que é o treinador que mais exposto está a este tipo de situações.

Faz parte da própria natureza do jogo: quando as coisas não correm como era desejado, o treinador é o primeiro a arcar com as consequências porque, afinal, é ele quem comanda a equipa. Há, contudo, inúmeras situações em que o técnico é apenas uma parte de um problema que vai bem para além das suas competências - também é culpado, obviamente, mas longe de ser o único. Pergunto-lhe, leitor, quantas vezes saíram jogadores ou dirigentes devido a um período negativo da sua equipa? Seria, talvez, mais sensato que assim fosse mas é aos treinadores que os bons resultados são exigidos. Independentemente da qualidade dos jogadores que tem e daquilo que pode fazer, o mais fácil é mesmo usar o tal chicote. Claro que há os casos em que há mesmo essa necessidade mas, convenhamos, na maioria deles há uma evidente precipitação. Efeitos até da pressão dos adeptos.

Carlos Carvalhal, despedido pelo Marítimo ao fim de seis jogos, referiu, há poucos dias, que, em Portugal, não são dadas as condições necessárias para os treinadores mostrarem o seu trabalho, isto é, não há tempo para que os projectos assumidos sejam levados até ao final. Poderá ser uma visão parcial, tudo bem, mas, na minha opinião, faz todo o sentido. Não pretendo com isto dizer que os treinadores deverão ter lugar garantido para sempre, mas há que lhes dar alguma margem de erro para que mostrem o seu trabalho. Sete jornadas é pouco. Numa fase tão precoce, nenhuma equipa está condenada ao que quer que seja e sem hipóteses de recuperar. para um bom campeonato. Concorde ou não, leitor, parece-me que é mesmo a saída mais fácil...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Casos à parte

O jogo entre Leixões e União de Leiria, disputado ontem, foi um caso à parte no campeonato português. Não foi um daqueles quebra-cabeças tácticos, fechados, com duas equipas cheias de complexos e temendo cada passo em falso que lhes poderia custar caro. Os típicos jogos pachorrentos em que pouco ou nada há para apontar e que terminam, invariavelmente, sem golos. Pelo contrário: jogo vivo sempre com a vitória como objectivo prioritário, incerteza no resultado final e excelentes golos. Teve também um final condizente, carregado de emoção, ou não tivesse surgido o golo que deu a vitória aos leixonenses já depois do minuto noventa. Os espectadores, claro, saíram felizes da vida.

Jogos como este apenas poderão ser acontecer quando as equipas jogam abertas e chutam para canto o facilitismo que seria defender durante toda a partida. O Leixões e a União de Leiria são duas equipas que procuram a vitória e não se fecham em redor da sua área. No entanto, quando se defronta um grande que conta com outros recursos, nem sempre é a melhor alternativa. Há o exemplo concreto do Olhanense que mostra esse descaramento, passe a expressão, mesmo que ainda agora tenha chegado à liga principal e defronte uma equipa muitíssimo superior. Ontem, frente ao FC Porto, tal como havia feito em Alvalade - onde, aos vinte minutos, vencia por dois golos! - e na recepção ao Sp.Braga, nunca desistiu da vitória. Pagou caro por isso, é verdade, mas o futebol saiu a ganhar.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Uma espécie em extinção

O FC Porto já tinha a potência e a explosão de Hulk, o Sporting contava com as resoluções acertadas de Liedson. Estes foram, daqueles que por cá continuam, os jogadores que maior destaque obtiveram na época passada. O futebol português precisava, então, depois de perder a raça de Lisandro e a elegância de Lucho, de mais jogadores que pudessem espalhar magia nos relvados portugueses, deixando os adeptos maravilhados e com vontade de ver mais e mais. Num teatro, mesmo que o argumento não seja a melhor coisa do planeta se os actores souberem dar talento, o espectador esquece a trama e delicia-se. No futebol, leitor, a situação é igual. Um momento de magia é capaz de qualquer coisa.

Eram precisos, nesta nova temporada, outros jogadores talentosos para fazer os adeptos sonhar. Um deles, Pablo Aimar, já estava no Benfica mas durante a época passada raras foram as vezes em que revelou as suas reais capacidades. De mago teve muito pouco, é facto. Não que seja culpa exclusiva sua até porque quase nunca jogou na posição onde deve: no meio, no comando de todo o jogo ofensivo, sendo, de novo com uso de uma metáfora, um verdadeiro maestro. Agora é tudo aquilo que não conseguiu ser antes porque o talento estava lá todo mas faltava conseguir o rendimento. Este Benfica, agora, funciona à sua volta.

Se Aimar já era bem conhecido dos portugueses, Radamel Falcao somente este ano chegou a território português. Deixou o River Plate com a lágrima no canto do olho, devido a uma situação frágil nas finanças do clube argentino, esteve com um pé na Luz mas acabou no Dragão. Foi, a princípio, visto com alguma desconfiança pelos adeptos portistas. Mas o avançado colombiano é daqueles que não engana: no seis primeiros jogos do campeonato, apenas ficou em branco na partida frente ao Sp.Braga. Teve agora a sua semana de ouro: deu a vitória no clássico e, com um gesto fabuloso de calcanhar, abriu caminho à vitória sobre o Atlético. Dúvidas de como é craque?

Hulk, Liedson, Aimar e Falcao. São estes, sem que exista qualquer ordenação nos nomes, os craques que, em Portugal, proporcionam aos adeptos momentos de maior espectáculo e talento. Mas são também, leitor, as figuras máximas do campeonato português até ao momento. Não há forma de não destacar ainda Alan. O jogador do Sp.Braga, bem longe do reconhecimento dos outros, tem sido o expoente maior da única equipa que ainda não cedeu qualquer ponto e que lidera com justiça. Nos bracarenses, a força está claramente no colectivo mas Alan é o tal que dá largas à imaginação e à criatividade.
O futebol precisa desses artistas que são, cada vez mais, uma espécie em vias de extinção.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Dois pesos, duas medidas

Ponto prévio: como consequência do clássico de sábado, Paulo Bento foi suspenso por doze dias ao passo que Duarte Gomes voltou a merecer a confiança de Vítor Pereira. Resulta daqui uma conclusão clara: não há medidas iguais para os intervenientes no espectáculo. Esta é, aliás, uma tese defendida por uma larga franja de adeptos. Facilmente se reconhece que quer o treinador do Sporting quer o árbitro estiveram mal no Dragão. Paulo Bento extrapolou nos protestos, foi bem expulso e, evidentemente, castigado. Duarte Gomes também cometeu erros, e seguindo essa lógica deveria ser penalizado por isso. Pelo contrário, vai voltar a poder exercer a sua parte no jogo como se nada tivesse acontecido.

O objectivo do que foi escrito acima não é, de forma alguma, colocar em causa as capacidades do árbitro Duarte Gomes. Nem muito menos desculpabilizar Paulo Bento pela atitude que teve nos minutos finais do clássico - e que, reitero, foi bem sancionada pois levou a sua insatisfação longe de mais. Porém, penso que é claro que não há uma medida igual para ambas as partes. Deixando de lado este caso, frequentes vezes assistimos a arbitragens completamente tendenciosas que levam a que, na primeira reacção, os jogadores ou responsáveis de uma determinada equipa mostrem o seu desagrado para com essa situação. Veja-se, por exemplo, o Chelsea-Barcelona, das meias-finais da Liga dos Campeões da época passada, em que o norueguês Tom Henning claramente prejudicou os londrinos. Bosingwa, lateral português, no final da partida disse que a sua equipa tinha sido roubada. Foi castigado. É justo?


Talento à solta ou escondido

Anderson Polga e Raul Meireles são dois jogadores que qualquer adepto de futebol se habituou, em temporadas anteriores, a ver como referências das suas equipas. Dois pêndulos, tal como se convencionou chamar, absolutamente cruciais para os seus treinadores. Agora, o panorama é diferente. O brasileiro, campeão mundial pelo seu país, na Ásia, não tem velocidade, falha no jogo aéreo e perdeu capacidade de antecipação. Transfigurou-se. O mesmo acontece com Meireles: não possuiu a capacidade para abrir espaços nas defesas contrárias ou para fazer as transições rápidas como outrora, e parece algo desgastado - estamos ainda no início da época. Não perderam talento, obviamente. Mas é estranho, não é?

Pablo Aimar e Óscar Cardozo vivem na perfeita antítese dos dois casos de cima: estão ene vezes melhores do que na temporada transacta. Aqui, também, Quique Flores deve ser chamado à razão porque não colocava El Mago a jogar na sua posição e preferiu sempre a mobilidade de David Suazo aos golos de Tacuara. Jorge Jesus resolveu o problema. Não estranha, por isso, que este Benfica seja Aimar e mais dez, sendo ele o centro do jogo atacante, e que Cardozo, apesar de paradão, mostre os seus dotes de goleador. O talento que ambos têm já todos nós conhecíamos. Não estava era bem potencializado.

Daniel Carriço e Rui Patrício têm apenas vinte e um anos de idade mas são actualmente, tal como Liedson, as figuras maiores do Sporting. Chegaram da formação do clube leonino e tiveram ascensões diferentes. Pior o guarda-redes que ficou, sem que nada tenha feito para isso, no meio de uma guerra entre Paulo Bento e Stojkovic. Devo dizer, leitor, que fui dos que muitos desconfiei da sua qualidade. Evidente que ainda precisa de evoluir bastante, no entanto é inegável que está cada vez mais completo e melhor. Carriço chegou na temporada transacta: aproveitou uma ausência de Tonel para se juntar a Polga no centro da defesa. Somou exibições de grande nível, conquistou a titularidade e agora é um verdadeiro líder da equipa. Inquestionável mesmo. Lá está: é preciso tempo para o talento se ir aprimorando.

domingo, 27 de setembro de 2009

O rastilho de Pereira, a bomba de Bento

Estava escrito, assim que foi conhecido o nome do árbitro nomeado, que o clássico de ontem traria polémica. Não poderia ser de outra forma, aliás. Por isso mesmo, por ser uma situação com probabilidades enormes de acontecer, Vítor Pereira errou ao escolher um árbitro, Duarte Gomes, que tem conflitos com o Sporting, um dos clubes em causa na partida. Não poderiam ficar eternamente sem se cruzarem mas, convenhamos... regressar num jogo tão importante quanto este nunca poderia ser bem aceite por nenhum dos intervenientes. Pode parecer algo paradoxal que o presidente do Conselho de Arbitragem, por norma uma figura pacificadora e que espera sempre o melhor dos seus elementos, tenha sido o primeiro a condicionar o jogo.

Paulo Bento manteve-se fiel ao seu estilo e não teceu qualquer comentário, em vésperas do clássico, sobre um árbitro que, dias antes, afirmara não poder passar impune devido ao incidente com Ricardo Peres, seu adjunto. Era, no entanto, e todos o sabiam, uma bomba prestes a explodir logo que Duarte Gomes errasse. É verdade que não foi uma arbitragem de topo mas também não me parece que tenha sido a equipa de arbitragem a impedir uma possível vitória do Sporting. Duarte Gomes esteve intranquilo e a verdade é que cometeu dois erros com prejuízo dos leões que fizeram Bento explodir: mostrou mal um primeiro cartão amarelo a Miguel Veloso - simulação de Hulk, junto à linha lateral -, e mostrou falta de um critério uniforme, exemplificativo quando não admoestou Meireles (seria a sua expulsão, por acumulação de amarelos).

Há muito que deixou de ser novidade este clima hostil que o treinador sportinguista tem para com os árbitros. Chega, por vezes, a estar isolado no meio de tanta confusão mas leva as suas ideias até ao fim. Faz parte, também, da forma como se comporta enquanto treinador e nos é bem conhecida. Após o jogo de ontem, voltou, tal como tinha feito num Sporting-FC Porto, da Taça de Portugal da época passada, a dizer que o Sporting é demasiado benevolente para com os árbitros - Vamos ganhar o Prémio Nobel da Paz, afirmou. Contudo, mesmo tendo deixado críticas a Duarte Gomes, focou-se principalmente em Vítor Pereira aquele que é, também na minha opinião, o maior culpado do clima de nervosismo com que o árbitro lisboeta iniciou a partida. Mesmo que a atitude de protestos, mesmo em cima do apito final, lhe tenha ficado mal, na reacção ao jogo, foi coerente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Um verdadeiro sarilho

Faltam dois dias para se jogar aquele que será, muito provavelmente, o clássico mais emotivo dos últimos tempos. Devido, sobretudo, à igualdade pontual de FC Porto e Sporting mas também porque há o risco de Sp.Braga e Benfica aumentarem a sua vantagem. De súbito, assim que foi conhecido o nome do árbitro nomeado, o jogo de bastidores ganhou relevo. Como tantas outras vezes acontece, o futebol jogado dentro do campo ficou de lado e gerou-se uma enorme controvérsia em torno de Duarte Gomes, o escolhido para dirigir a partida do Dragão. Não se pense, porém, que se trata de uma manobra engendrada por alguém que pretende colocar pressão sobre o árbitro. Pelo contrário, a própria nomeação é que é um verdadeiro sarilho.

Temos, necessariamente, de recuar um pouco até chegar ao Sporting-Vitória de Setúbal, a 9 de Maio deste ano, inserido na penúltima jornada do campeonato da época anterior. Ainda antes do início do encontro, durante a fase de aquecimento, Duarte Gomes e Ricardo Peres, treinador de guarda-redes dos leões, envolveram-se numa acesa discussão que teve até empurrões e intervenção de stewards. O resultado foi a expulsão de Peres. O Sporting apresentou, após o final da partida, uma queixa devido àquilo a que chamam de atitude intimidatória por parte de Duarte Gomes. Contudo, o caso foi arquivado pela Liga - continua ainda em aberto no Conselho de Justiça da FPF - e, na primeira reacção, Paulo Bento afirmou que o árbitro lisboeta não poderia passar impune.

A crispação entre o Sporting e Duarte Gomes é, desde aí, por demais evidente. Essa é a grande razão que retira qualquer sentido à sua nomeação para dirigir um jogo com uma carga emotiva tão grande quanto este. Ok, as possibilidades não eram assim tantas como isso e Duarte Gomes é reconhecidamente um dos melhores árbitros a nível nacional mas isso não pode servir de escudo para uma escolha errada de Vítor Pereira que apenas contribuiu para aumentar a intranquilidade vivida. Longe de ser o culpado desta situação, Duarte Gomes terá, no sábado, um verdadeiro exame às suas capacidades. O jogo, esse, já está condicionado - para os sportinguistas, claro, mas também para os portistas devido ao ruído de fundo provocado. Não é óbvio que haveria forma de evitar toda esta polémica, leitor?...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Três treinadores, três estilos

Grita, gesticula, salta, corre e volta a gritar. Jorge Jesus sempre foi assim. Mas agora que tem todas as câmaras e microfones apontados a si, é mais notório. Não que fosse um desconhecido, isso seria impossível porque já se assumira como um dos melhores a nível táctico (o mestre, dizem!), mas saltou para a ribalta. Cumpriu um sonho ao entrar no Benfica. Qualquer treinador português deseja, um dia, chegar ao comando de um dos grandes. Jesus conseguiu-o por mérito próprio, já com muitos anos de carreira, num momento em que os encarnados perceberam que precisam de alguém assim para voltar às vitórias. As indicações têm sido boas, os adeptos voltaram a sonhar que este será o ano do Benfica. Será mesmo?

Jesualdo Ferreira é bem diferente. Tipo sóbrio, pouco exuberante, sem muitos sorrisos. Subiu a pulso na carreira. Esteve pela primeira vez num grande, enquanto treinador principal, no ano de 2002. Foi no Benfica onde não teve grande sucesso, é bom dizê-lo. Voltou a encontrar o caminho certo em Braga: conseguiu transformar a equipa, intrometendo-se nos primeiros lugares. O seu trabalho foi notável e fez por merecer um desafio maior. Completaram-se já três anos que entrou para o FC Porto, depois de ter feito a pré-epoca no Boavista, sucedendo a Co Adriaanse acabadinho de bater com a porta durante o estágio. Foi campeão nessa época. E nas seguintes. A princípio não convenceu os adeptos, foi acusado de apenas pôr em prática as ideias do holandês. Porém, sobretudo em 2009, foram-lhe reconhecidos todos os méritos. No Dragão, ganhou nova vida, os primeiros títulos e um sorriso. Largo.

Depois, há Paulo Bento. E o seu inevitável risco ao meio, uma imagem de marca que todos lhe atribuem. Chegou ao comando técnico do Sporting de forma surpreendente, em 2005, num período conturbado logo após a demissões de José Peseiro e Dias da Cunha, treinador e presidente. Bento apenas havia terminado a sua carreira de jogador profissional há uma época mas tinha, como técnico, uma época nos juniores que culminou com o título nacional. Essa conquista no ano de estreia foi, por certo, um factor importante. Mostrou-se um homem de ideias fortes, longe de ser politicamente correcto, defendendo o clube com toda a força. De lá para cá, venceu duas Taças de Portugal e outras duas Supertaças. Falhou o título, sempre: há quatro anos que é segundo. Agora, Paulo Bento sabe que, mesmo tendo feito um bom trabalho, precisa de ser campeão.