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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mundial 2010 de A a Z - Segunda Parte

DAS NOVAS TECNOLOGIAS AO NÚMERO ZERO

N: Novas Tecnologias.

A introdução das novas tecnologias no futebol é um tema extenso, polémico e repetido. O argumento mais utilizado para as negar prende-se com a paixão: com a sua utilização, tornando o futebol menos emotivo e mais exacto, o jogo poderá sentir duras mudanças. O Mundial da África do Sul foi um verdadeiro teste à resistência da FIFA. Um remate de Frank Lampard, que daria o empate à Inglaterra no jogo com a Alemanha, que Jorge Larrionda não validou e um tento de Carlitos Tévez em claro fora-de-jogo foram, num só dia, dois golpes profundos no conservadorismo de quem tutela o futebol. A mentalidade está, agora, a mudar. Sim ou não?

O: Olegário Benquerença.
Foi o oitavo árbitro português a marcar presença num Campeonato do Mundo. Dois era o máximo de jogos dirigidos. Olegário ultrapassou essa marca: esteve em três encontros, dois da fase de grupos e outro dos quartos-de-final, assumindo cada vez mais um papel de relevo no principal rol de árbitros europeus. Sóbrio, consistente, sem encontrar complicações e também sem querer ser protagonista, Olegário Benquerença superou as expectativas e deixou, juntamente com José Cardinal e Bertino Miranda, a arbitragem portuguesa bem representada e com caminho aberto a uma nova convocatória. Esteve no jogo mais dramático do Mundial 2010: Uruguai-Gana.

P: Paul, o polvo.
Nasceu em Inglaterra e mora num aquário alemão. Não se sabe se gosta ou não de futebol. O que é certo é que ganhou um lugar no Mundial 2010. É um polvo como qualquer outro. Só com uma diferença: adivinha os resultados. Por viver na Alemanha, os responsáveis do aquário decidiram arriscar. Colocam-se duas caixas, uma com a bandeira alemã e outra com a bandeira do adversário, para que Paul decida. Nos seis jogos realizados pela Alemanha, incluindo a surpreendente derrota frente à Sérvia, na segunda jornada da fase de grupos, acertou. Fez mais duas previsões: a Alemanha seria terceira e a Espanha campeã. Mesmo em cheio, Paul!

Q: Quedas.
Com estrondo. Campeão e vice-campeão mundiais nunca haviam deixado um Mundial na fase de grupos. Aconteceu na África do Sul: Itália e França, os dois primeiros do último Campeonato do Mundo, caíram, estrondosamente, sem honra nem glória. E, além disso, sem somar qualquer vitória, em grupos teoricamente acessíveis. Os italianos pagaram pelo pragmatismo, pela procura do mínimo esforço e pela falta de alegria com que jogaram. Perderam pelo postura cínica que tantas vezes resultou. Na selecção francesa, numa caricatura daquilo que é a França, tudo correu mal. Birras com Raymond Domenech, greve aos treinos, ar carrancudo e profundo desalento.

R: Reconhecimento
Thomas Müller apareceu no Bayern de Munique, há duas temporadas, com Jürgen Klinsmann. Poderia ter sido um jovem, como tantos outros, a orgulhar-se de ser chamado à equipa principal. Não ficou por aí. Thomas tem talento, genialidade e muita ambição de triunfar. Louis Van Gaal tornou-o num indiscutível. Na selecção germânica, onde se destacou com Mesut Özil ou Manuel Neuer, o atacante de vinte anos foi um dos principais rostos da boa caminhada. Não deu para ganhar, sim, mas o terceiro lugar fica como consolação. Thomas Müller, número treze como Gerd, o Bombardeiro, ganhou o prémio para melhor jovem. Perfeito para coroar o seu brilharete.

S: Sul.
África do Sul recebeu o primeiro Campeonato do Mundo realizado em solo africano. Nos relvados, contudo, a equipa liderada por Carlos Alberto Parreira demonstrou muita ingenuidade e tornou-se no primeiro anfitrião a ficar-se pela fase de grupos - a vitória sobre a França, a terminar, foi um bálsamo. A América do Sul teve, durante o período inicial, um largo ascendente. Todas as selecções conseguiram o apuramento para os oitavos-de-final: Brasil e Argentina, favoritos, Uruguai e Paraguai, surpresas, e também Chile, a única equipa sul-americana apurada em segundo lugar, atrás da Espanha. No entanto, nas eliminatórias, a Europa impôs-se.

T: Tiki-taka.
Passa, repassa, toca, circula e gira. A bola não pára nunca. O objectivo é preservá-la, progredir e com isso ir empurrando o adversário para a sua área. O tiki-taka do Barcelona, naquele carrossel futebolístico que parece perfeito, foi a inspiração para Don Vicente del Bosque: dá resultados, é bonito, muitos dos artistas são os mesmos e, por isso, só há que o aproveitar e explorar. Em tiki-taka, passe para aqui e passe para ali, a Espanha venceu o Mundial. Mesmo não sendo deslumbrante. Massacrou em posse de bola, encostou o rival às cordas, faltou-lhe apenas poder de fogo. Apesar dos cinco golos de David Villa, foi o campeão que menos marcou.

U: Uruguai.
Raça, suor, sacríficio, dentes cerrados e muita luta. Assim se construiu o sucesso uruguaio. O Uruguai apresentou uma equipa forte, liderada por Óscar Tabárez, onde houve espaço para estrelas como Forlán ou Suárez emergirem. Ultrapassou bem a fase de grupos e suou para derrotar a Coreia do Sul, nos oitavos-de-final, antes de dar largas ao sonho. O seu último título, o segundo que conquistaram, foi há já sessenta anos. E há quarenta que não estão numa final. Ainda não foi desta mas deixaram uma bela imagem. Difíceis de quebrar, com alma e coração, ganharam um lugar honroso e foram a selecção sul-americana que chegou mais longe.

V: Vuvuzelas.
Antes do Mundial poucos saberiam o que era. A moda pegou: em cada canto, num estádio sul-africano ou numa avenida portuguesa, a vuvuzela fez parte da vida dos adeptos. Tem um som característico, instrumento adorado pelos africanos e uma perturbação enorme para jogadores, treinadores e, até, adeptos. É profundamente irritante. Mas, ao mesmo tempo, sinal de festa. Repudiadas por quase todos, acusadas de desconcentrações, as vuvuzelas marcaram o Campeonato do Mundo. Do princípio ao fim, do primeiro ao último minuto, lá estiveram presentes. Os árbitros, imunes ao som, foram os únicos que não se queixaram. Terá a praga alastrado?

W: Webb.
Howard Melton Webb, natural de Yorkshire, foi o escolhido para dirigir a final do Mundial da África do Sul. O último árbitro inglês a estar presente no mais decisivo jogo de um Campeonato do Mundo fora, em 1974, Jack Taylor. Howard Webb estava, por essa altura, a uma semana de completar dois anos de idade. Trinta e seis anos depois, também com a Holanda pelo meio, Webb quebrou esse interregno e atingiu o pico da sua carreira: dois meses antes do Mundial, estivera na final da Liga dos Campeões. Tornou-se no quarto inglês a arbitrar a final de um Mundial. Contudo, apesar de ser actualmente o número um, o jogo não lhe correu de feição.

X: Xavi
Xavi Hernández não é um jogador de loucuras. Não pega na bola, colada ao pé, arranca em velocidade, finta todos os adversários que lhe surgem pela frente e marca um golaço. Xavi é como Iniesta: pensador, cerebral, encarregue de fazer girar a equipa. Sabe perfeitamente as suas funções, conhece-se acima de tudo e joga com inteligência. O que tem que fazer, faz. E bem. Guarda a bola como ninguém, foge dos adversários, passa com visão periférica e aparece no momento certo para voltar a receber a bola. Trabalha, funciona como equilíbrio e constrói para que outros finalizem. O futebol é um trabalho de equipa. Xavi é quem faz o carrossel girar.

Y: Yes, they can.
A frase original, com we em vez de they, ficou popularizada na campanha de Barack Obama rumo à presidência dos Estados Unidos da América. Os norte-americanos procuravam um novo líder, com outras ideias e capaz de quebrar com a tradição imposta. Na África do Sul, um país que pareceu impreparado para receber um evento da envergadura de um Mundial, houve suspeição, desconfianças e medo. Os primeiros sinais que chegaram, com insegurança e algum amadorismo, não foram positivos. Mas à medida que o Mundial foi decorrendo, África do Sul fez por merecer ter as estrelas junto de si. Com paixão, fervor e entusiasmo, deu o seu melhor.

Z: Zero.
Portugal e Uruguai foram as únicas duas equipas que conseguiram terminar a fase de grupos sem golos sofridos. Do mérito português, todo ele assente numa defesa consistente e concentrada, destaca-se Eduardo. O guarda-redes do Sp.Braga, olhado com desconfiança antes do Mundial, emergiu, ganhou destaque e foi, a par de Fábio Coentrão, o melhor jogador da selecção portuguesa. Enérgico, incentivador e guerreiro, sobretudo com a Espanha, Eduardo afirmou-se como dono da baliza nacional. Sofreu apenas um golo, na eliminação, onde foi heróico e acabou destroçado. Zero foi também o número de pontos de Argélia e Coreia do Norte.

Mundial 2010 de A a Z - Primeira Parte

DE ANDRÉS INIESTA À MANNSCHAFT

A: Andrés Iniesta.

Sóbrio, discreto e empenhado. Iniesta tem vinte seis anos, parece ter mais, e fez toda a sua carreira no Barcelona. Cresceu, formou-se e ganhou prestígio em Camp Nou. Sem levantar ondas, sem fazer birras, apenas cumprindo o seu trabalho com dedicação. É, juntamente com Xavi, um dos principais responsáveis pelo funcionamento do carrossel triunfante e envolvente do Barça. Também da selecção espanhola. Sempre em crescendo, no Mundial 2010, atingiu o ponto máximo na final. Faltavam quatro minutos para o final do prolongamento quando recebeu a bola de Fàbregas e, com classe e frieza, rematou certeiro. Imortalizou-se. E Espanha ganhou.

B: Brasil.
Uma busca desenfreada pelo hexacampeonato mundial. Depois do fracasso na Ásia, somente chegando aos quartos-de-final, a selecção brasileira, com Dunga, recuperou o seu poder, as vitórias internacionais e lançou-se para a linha da frente na conquista do Mundial da África do Sul. Jogando sem encantar, adoptando um estilo mais europeu, com maior pragmatismo e cautela em detrimento da pura genialidade brasileira, o escrete falhou. Nunca mostrou realmente o seu valor, limitou-se a cumprir os mínimos. Passou comodamente a fase de grupos e eliminou o Chile antes de encontrar a Holanda. Frente à Laranja, o Brasil não teve forças. E caiu com culpa própria.

C: Cabazada.
Ganhar por sete golos é um resultado que já não se usa. Fazê-lo num Campeonato do Mundo, na maior prova de selecções, é ainda mais inusitado. Portugal conseguiu-o: no seu segundo jogo, frente à Coreia do Norte, a equipa portuguesa mostrou gula, enorme vontade de ser feliz e eficácia, derretendo com sete golos à frágil e dócil selecção norte-coreana. O resultado, pesado mas identificador das desigualdades existentes entre as duas equipas, entrou para as galerias e estabeleceu a vitória mais avolumada do Mundial da África do Sul. Em nenhum outro jogo se marcaram tantos golos. E, dificilmente, a marca será superada nos tempos mais próximos.

D: Diego Armando Maradona.
Dezasseis anos depois. A última vez que El Pibe aparecera num Mundial fora nos Estados Unidos da América. Na África do Sul, voltou. Sem os calções a baloiçar, sem o fio ao pescoço, sem a mesma condição física. Regressou na pele de treinador: fato, barba negra e branca, um relógio em cada pulso e uma pulseira com uma medalha enrolada na mão. Com a mesma alma, a mesma vontade e a mesma fé de antes. Maradona foi um líder, um comandante, uniu o seu grupo e colocou-o no relvado à sua medida, jogando por prazer, voltando à essência do futebol. Só que El Pibe nunca será um estratega, um táctico. Nunca será treinador. A Argentina sentiu-o.

E: Eclipse.
Ronaldo, Messi, Rooney e Kaká. Quatro jogadores majestosos, a nata do futebol mundial, que estiveram em eclipse na África do Sul. De Ronaldo e Messi, principalmente, espera-se tudo: que defendam, que corram, que driblem, que assistam e que marquem. Por Portugal e pela Argentina, as suas selecções, pouco fizeram. Messi ainda deu um ar da sua graça nos primeiros jogos, Ronaldo conseguiu marcar um golo insólito. É muito pouco. Também de Rooney e de Kaká, estrelas da Inglaterra e do Brasil, pouco se viu. As duas selecções, favoritas, ficaram longe do que poderiam ter feito. Fernando Torres, avançado espanhol, é outro exemplo. Só que com final feliz.

F: Forlán.
Com as principais estrelas em eclipse, pouco demonstrando no Mundial, emergiram outras figuras. Diego Forlán, avançado uruguaio, foi a principal. E, por isso, reconhecido como o melhor jogador deste Campeonato do Mundo. Numa selecção surpreendente, com um colectivo fortíssimo e uma entrega total ao jogo, houve lugar para que Forlán, a principal estrela do futebol do Uruguai, se destacasse, num belo seguimento da temporada que realizara no Atlético de Madrid. Esteve nos sete jogos da celeste, marcou cinco golos e nunca se escondeu quando foi necessário. Sobretudo a Diego Forlán, tal como a Luis Suárez, os uruguaios estarão eternamente gratos.

G: Gyan.
O Gana, repetindo a proeza de Camarões e Senegal, em 1990 e 2002, chegou aos oitavos-de-final do Mundial. Esse era o ponto máximo para as selecções africanas: nunca nenhuma havia passado daí. O decisivo jogo com o Uruguai, nos quartos-de-final, terminou empatado. Houve prolongamento. No último minuto, Asamoah Gyan, maior estrela ganesa que demonstrou ter capacidade para chegar mais alto na sua carreira, dispôs de uma grande penalidade. Teve fé, confiança, carregou o peso de um continente esperançado no sucesso do seu único representante. A bola esbarrou na trave. Gyan desesperou. O Uruguai, depois, ganhou na lotaria.

H: Holanda.
Esta Holanda não é a Laranja Mecânica de Johan Cruyff. Nem conta com estrelas como Ruud Gullit ou Van Basten que marcaram presença no título europeu de oitenta e oito. A selecção holandesa, comandada por Lambertus Van Marwijk, quase desconhecido antes do início do Mundial, reapareceu bem, suportada por Wesley Sneijder e Arjen Robben, mostrando valor e futebol ofensivo. Superou as expectativas, galgou terreno, deixou o papão Brasil pelo caminho e chegou à final com mérito. Perdeu-a. Como perdera as outras duas, em 1974 e 1978, em que participara. Pela primeira vez neste Mundial, seis jogos passados, foi derrotada. Fatalmente.

I: Irreverência.
Tem ambição, coragem, confiança nas próprias capacidades e muita disponibilidade para ajudar. Mesmo quando as coisas não correm bem, quando o tempo corre e nada se altera, quando o resultado não é o desejado. Fábio Coentrão foi uma das figuras do campeonato português. De promessa sempre adiada, a caminho do enésimo empréstimo, saiu um lateral-esquerdo de enorme valia. Na sua simplicidade, sem olhar a nomes, Fábio deu continuidade ao que tinha feito, impressionou os maiores clubes mundiais e conseguiu ser um elemento positivo na selecção portuguesa. Não se atormentando com os adversários, confiando em si, ganhou protagonismo.

J: Jabulani.
Redonda, colorida e bonita. A Jabulani, à primeira vista, é igual a tantas outras bolas. Goste-se ou não da estética. No mais importante parece servir para o mesmo que as suas antecessoras: para fintar, para fazer toques em habilidade, para passar e para marcar. Só que a Jabulani logo levantou problemas. Os guarda-redes, sobretudo, sentiram que ali estava um perigoso inimigo. Mais leve do que é habitual, com trajectórias difíceis e traiçoeiras, a Jabulani não agradou a ninguém. Não houve quem faltasse a apontar o dedo à bola, carimbada como matreira, para justificar erros. Fossem eles falhas dos guarda-redes ou pontapés na atmosfera...

K: Klose.
Miroslav Klose marcou dois golos frente à Argentina. Aproveitou os passes bem medidos, depois de um trabalho colectivo, para concluir com toda a sua classe. O último deles foi o seu décimo quarto em Mundiais: marcou cinco na Ásia e na Alemanha, na África do Sul chegou aos quatro. A Alemanha perdeu, frente à Espanha, a oportunidade de voltar a conquistar um título mundial, mas Klose, avançado do Bayern de Munique, ainda teria uma chance: o jogo, com o Uruguai, na atribuição do último lugar do pódio. Ou não: Klose lesionou-se, falhou a última partida alemã e colocou um sorriso em Ronaldo, o Fenómeno, que mantém o seu record de golos - quinze.

L: Larissa Riquelme.
Páre, escute e olhe. Larissa Riquelme está na bancada. O Paraguai, a selecção do seu país, joga no relvado. Larissa distingue-se de todos. E faz por isso: chama as atenções, atrai e fixa-as. Pode ser por inventar um novo lugar para guardar o telemóvel. Não é uma adepta qualquer. Pelo seu país é capaz de tudo. Até despir-se. Se a Espanha fosse batida, nos oitavos-de-final, os paraguaios teriam esse prémio. A promessa foi feita, o Paraguai perdeu mas Larissa Riquelme, para recompensar a caminhada da selecção de Gerardo Martino, mantém as ideias. A noiva do Mundial, uma animação constante fora do relvado, saltou para a ribalta. Vinda da bancada.

M: Mannschaft.
Equipa no seu real sentido. Olhos colocados na baliza contrária, ocupação dos espaços, pressão para não permitir aos adversários recuperarem e muita velocidade para desferir os golpes necessários. A Alemanha de Joachim Löw foi quem melhor jogou na África do Sul. As goleadas impostas à Inglaterra e à Argentina, nos dois primeiros jogos a eliminar, devem ser emolduradas e mostradas a quem pretende sucesso. Especialmente na forma de interpretar os momentos do jogo, sendo uma equipa camaleónica, para ser letal nas saídas rápidas para ataque. Um míssil de Puyol, nas meias-finais, travou o sonho alemão. O sonho de Müller, Özil ou Schweinsteiger.

domingo, 11 de julho de 2010

Mundial 2010: Holanda-Espanha, 0-1 (crónica)

UM CAMPEÃO EM TIKI-TAKA

A Espanha é uma equipa possessiva. Toma conta da bola, do jogo e tira a iniciativa ao adversário. Os princípios são sempre os mesmos: conseguir a bola, girar, passá-la, trocá-la de pé para pé e progredir rumo à baliza contrária. Não há segredos, é simples. Contudo apesar de dominar, de estar a maior parte do tempo por cima do adversário, a selecção espanhola não é massacrante. É-o na posse de bola, sim, mas não em oportunidades de golo ou em caudal ofensivo. Falta isso, apenas isso, para que a Espanha possa deslumbrar. Neste Mundial não o fez: depois de uma entrada em falso, com o pé esquerdo frente à Suíça, superiorizou-se, lançou as suas teias sobre os adversários e galgou caminho até ao título mundial. Não sendo esplendora. Foi, isso sim, consistente e adulta. É a nova campeã!


Bate, bate e insiste. O ciclo espanhol repete-se. Uma, duas, três, as vezes que forem necessárias. Por isso lhe chamam tiki-taka. À Holanda, trilhando um percurso imaculado e repleto de boas prestações, importava retirar a bola aos espanhóis. Só assim, não deixando La Roja colocar em prática o seu jogo, que todos conhecem mas poucos conseguem parar, seria possível ganhar. Esta Holanda é uma equipa que sabe o que quer. E conhece-se: não sendo a Laranja Mecânica, não estando nesse pedestal, há quer ter outras armas, um colectivo forte e liberdade para o génio individual, capazes de resolver. Joga com alegria, voltada para a baliza contrária, circula a bola e procura espaços. Também é insistente. Tem um futebol positivo mas não vive obcecada pelos golos ou pelo espectáculo. O jogo ganha-se com equilíbrio.

Fiel às suas ideias, sem se atormentar com o peso do jogo, com toda a História sobre si, a Espanha entrou melhor. Teve a bola e colocou em prática a sua filosofia. Sergio Ramos, no sexto minuto, obrigou Stekelenburg, guarda-redes holandês, a uma bela defesa. Foi o primeiro ar de graça. O lateral espanhol, sempre com ímpeto atacante, voltou a criar perigo. Logo após foi David Villa, herói de jogos anteriores, a testar a pontaria. Nos primeiros quinze minutos, sem que a Holanda se tenha conseguido libertar, os espanhóis mandaram. Desde o início, logo após o primeiro pontapé, que a La Roja deixou bem claro que a bola estaria consigo. Passado esse período inicial, o jogo endureceu. Aumentaram as faltas, algumas bem ríspidas, as paragens, os muitos apitos de Howard Webb. Perdeu-se fluidez, dinâmica e ritmo. A Holanda, antes empurrada pela Espanha, agradeceu. Essa tendência só a favorecia. A sua estratégia passava por aí.

MUITO EQUILÍBRIO E POUCO GÉNIO

Numa final todos os lances são para aproveitar. John Heitinga, pelo menos, deve pensar assim. O central holandês, numa tentativa de devolver a bola à selecção espanhola com desportivismo, esteve perto de marcar. Casillas, com dificuldade, impediu-o. O jogo estava, por esta altura, estabilizado: Espanha sempre com mais bola, Holanda esperando uma oportunidade para atormentar a defesa espanhola. Teriam de aparecer os artistas, os grandes desequilibradores, para abanar a partida. Arjen Robben tentou: saiu da direita, flectiu para o meio, rematou com o pé esquerdo e, de novo, viu Casillas travar a marcha do remate. A Espanha começara melhor, abrandara depois, e a Holanda conseguira terminar a primeira parte com algum ascendente. O jogo teria de abrir, as duas equipas serem mais afoitas, expeditas e audaciosas. Desatar o nó em que estavam, no fundo.

Wesley Sneijder e Arjen Robben foram duas figuras de proa ao longo da época. Na selecção holandesa, nesta boa campanha, têm também papéis importantes. Um desenha, o outro conclui. A dupla funciona. No jogo com a Espanha, do gato e do rato, poderia fazer estragos. A primeira vez que surgiu, aos sessenta e dois minutos, esteve perto de o conseguir. Iker Casillas, um alerta de segurança máximo na baliza, impediu que Robben - displicente - colocasse a Holanda na frente. A Espanha fora atacada. Não se fica, teria que responder. Jesús Navas, lançado por Vicente del Bosque para o lugar de Pedrito Rodríguez, um joker desta vez sem os efeitos desejados, assumiu a jogada, lutou contra os holandeses, deu para David Villa e esperou que o matador concretizasse. Maarten Stekelenburg, não querendo perder o duelo de guarda-redes, agigantou-se e negou-o. Depois, foi Sergio Ramos quem voltou a criar perigo. A Espanha reaparecera.

UM PROLONGAMENTO MORNO ATÉ UM GOLO HISTÓRICO

Robben perdera frente a Casillas à primeira. Precisava de mais uma oportunidade para demonstrar que seria possível passar o portero espanhol. O extremo foi veloz, superou Puyol, isolou-se perante Casillas, tentou fintar e marcar. Não resultou e, afinal, entregou a bola. Fora a segunda chance. Não teria mais nenhuma. O tempo correu, ninguém marcou e ambas as selecções aceitaram o prolongamento. Não haveria volta a dar. Cesc Fàbregas, recém-entrado, deu o mote e Stekelenburg impôs-se bem. Com o acumular dos minutos começou a faltar discernimento, capacidade para discutir cada lance e ganhar a luta territorial. Os holandeses, sobretudo, sentiram-se em quebra. Os treinadores mexeram: Bert Van Marwijk lançou Van der Vaart, enquanto Del Bosque colocou Fernando Torres. Nenhum deles teve resultados práticos.

O prolongamento não destoou do que foi o jogo. Houve equilíbrio, sempre com maior iniciativa da Espanah, com poucas oportunidades de golo feito. A garra e o ímpeto mantiveram-se sempre. Afinal, trata-se de um título mundial. A Holanda, já sem rasgo e a mesma velocidade para colocar em perigo a defesa espanhola, sofreu um duro revés com a expulsão de Heitinga. O defesa holandês travou Iniesta - inteligente - e recebeu o segundo cartão amarelo. Para a selecção espanhola, tencionando aproveitar a superioridade numérica, funcionou como estímulo. Mais um esforço, mais minutos de iniciativa, circulação e, mais importante do que tudo, fogo. La Roja joga muito, troca muito a bola, mas marca pouco. Um golo bastaria. A quatro minutos do final, Andrés Iniesta recebeu a bola, encarou com Stekelenburg, colocou toda a fé no remate e foi feliz: a bola entrou, com força e colocação, na baliza holandesa. A Espanha colocou as mãos sobre o troféu. Sem largar.

Mundial 2010: À Alemanha não sacia mas consola

Ficar perto dos vencedores não sacia mas consola. Só um pode erguer o troféu. Há, contudo, um pódio para preencher. E lugares honrosos, além do terceiro, para ocupar. A Alemanha, pelas vitórias categóricas sobre a Inglaterra e a Argentina, com um futebol envolvente, matreiro e eficaz, ganhou o rótulo de candidata. É uma selecção sempre a ter em conta, porém, à partida para a África do Sul, não surgia nas primeiras fileiras. O que demonstrou no Mundial, juntando resultados às boas prestações, mudou-lhe o estatuto: aquela selecção de Joachim Löw teria tudo para chegar à final. Falhou-a. Frente à Espanha, com o tiki-taka espanhol, a Mannschaft perdeu. A oportunidade de chegar ao terceiro lugar, repetindo o que alcançara no Mundial que realizou em 2006, teria de ser agarrada. Para, ao menos, haver uma medalha para assinalar a boa presença em África. Sem que isso seja suficiente, aconchega o ego e diminiu o desconforto.

O Uruguai não é uma selecção recheada de estrelas. Tem Diego Forlán. E, neste Mundial, emergiu Luis Suárez. São as principais figuras uruguaias. Pode, por vezes, faltar alguma técnica, aquele traquejo das grandes equipas e o pragmatismo que faz as formações chegarem longe e manterem bem conservadas as esperanças de serem felizes. Do Uruguai, um país que já foi dominador mas que actualmente pouca expressão tem, não se esperava muito. Ou melhor: nunca para lá se viraram as atenções, outros reuniam todas as luzes da ribalta, sendo que por isso os uruguaios nunca tiveram muito tempo de antena. À medida que a caminhada da celeste foi evoluindo, sempre com sinal positivo, o panorama mudou. As equipas sul-americanas, tão fortes no início, haviam ficado para trás. Ficou um representante. Nem Brasil nem Argentina. O Uruguai, antes envergonhado, foi a principal bandeira do continente americano.

À falta de melhores argumentos, os uruguaios usam o coração. Jogam com garra, querer, ambição e coragem. Com o Uruguai, seja qual for o resultado, não há vencedores antes do último apito do árbitro. Até lá há que dar tudo, sacrificar-se e esperar ser recompensado. O objectivo é esse. Se não der, como não deu para ir além do quarto lugar no Mundial - mesmo assim um feito notável -, ao menos fica a certeza de que foi feito tudo para o conseguir e que o adversário não se ficou a rir antes do tempo. O ritmo não abranda e os braços só baixam após o término. Parece sina de que os finais dos seus jogos têm sofrimento. O principal, frente ao Gana, teve final feliz: Asamoah Gyan falhou uma grande penalidade no último suspiro, o Uruguai ganhou força e, nos penalties, seguiu em frente. Com a Holanda perdeu, disse adeus ao sonho de voltar a uma final de um Mundial sessenta anos depois, mas deu luta até ao fim. Os holandeses ainda abanaram.

Alemanha e Uruguai: derrotados, impedidos de estarem na final, frustrados por não terem ido mais longe. Principalmente os alemães. Pelo futebol que demonstraram, por aquilo que fizeram, soube-lhes a pouco não estarem na discussão do título mundial. O Uruguai, sem ver o seu sonho realizado, quis manter-se como sempre: equipa consistente, com um colectivo fortíssimo e individualidades importantes. Bastian Schweinsteiger, médio alemão do Bayern de Munique, foi, com Thomas Müller ou Mesut Özil, uma das principais figuras da sua selecção. Faltava-lhe, contudo, um golo. Tentou-o. Não marcou mas ajudou: Muslera, intranquilo, largou o seu remate e Müller, um jovem em emergência, rematou certeiro. O Uruguai faz do jogo uma questão de orgulho. Enquanto houver forças, sendo possível, luta. Usando uma arma que tão bem resultou na selecção alemã, uma contra-ataque rápido, Cavani empatou. Com justiça para o resultado.

A melhor forma de os uruguaios regressarem do intervalo foi com um golo.
Diego Forlán é, já se disse, o rosto mais visível da selecção uruguaia. No Mundial da África do Sul deu seguimento à belíssima época no Atlético de Madrid. Justificou, no fundo, o estatuto que possui. Ante a Alemanha, marcou o seu quinto golo na prova: cruzamento de Ríos e sensacional pontapé do avançado uruguaio que bateu Hans-Jorg Butt - titular na vez de Manuel Neuer, também ele uma revelação do Mundial. Duas equipas que nada têm a perder, que jogam com a sua honra e com a vontade de alcançarem a possibilidade de se fixarem a seguir aos finalistas, proporcionaram um bom jogo. Cinco minutos depois do golo uruguaio, a Alemanha empatou: Muslera voltou a tremer e Jensen, sem dificuldade, encostou para a baliza da celeste. E, num lance atabalhoado e repleto de carambolas, passou para a frente. Pela segunda vez. Agora em definitivo. Mas com um susto.

Repete-se a ideia inicial: o Uruguai é uma equipa que deixa tudo em campo, é levada pela sua crença e pela sua vontade em triunfar. Acredita que é capaz de surpreender e faz por isso. Até ao fim. Benito Archundia deu dois minutos de compensação na partida com a Alemanha. Suárez, do nada, foi travado por Friedrich à entrada da área. O eléctrico final com o Gana e a incerteza da vitória da Holanda regressaram à memória dos uruguaios: um golo traria prolongamento. Forlán cobrou o livre. A bola embateu com estrondo na trave. Archundia apitou. Aí, sim, o jogo acabou. Com o triunfo alemão, sentenciado pelo golo feliz de Khedira, o terceiro da Mannschaft - a equipa que mais oportunidades teve. Ao Uruguai fica um quarto lugar surpreendente, honroso e conquistado com mérito próprio. Mesmo sendo certo que a celeste nunca encontrou um opositor verdadeiramente forte pela frente, os uruguaios fizeram por justificar a sua presença.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Mundial 2010: Tiki-taka para uma final inédita

Carles Puyol nunca foi um jogador com grandes dotes técnicos. É um jogador com garra, vontade e alma. Cerra os dentes, morde a língua e vai à luta. Não desiste, não dá um lance por perdido, procura ser leal. É duro, como se querem os defesas-centrais, se assim o tiver de ser. Formado no Barcelona, capitão blaugrana, é apontado como um exemplo de abnegação e coragem. Na selecção espanhola, também com Piqué ao lado, funciona também como pilar, uma barreira aos adversários. No jogo frente à Alemanha, nas meias-finais do Mundial 2010, a Espanha esteve a maior parte do tempo por cima. No seu estilo, passa e repassa, precisava de marcar. O tempo continuava a correr. Faltava um quarto de hora. Pedrito Rodríguez levantou o canto, a bola foi para a marca de grande penalidade, Puyol, como um míssil, cabeceou fortíssimo. Golo!

Uma Alemanha empolgada, trituradora e espantosa frente à Inglaterra e à Argentina. Os dois rivais, ambos com boas probabilidades de chegar longe na África do Sul, foram goleados pela Mannschaft. Pela frente, sem que se tenha colocado em bicos de pés ou fazendo muito furor, a Espanha. Campeã europeia em 2008, eliminou Portugal e Paraguai, demonstrando superioridade, embora lhe tenha faltado a arte e o brilhantismo que lhe estão associados. O seleccionador Joachim Löw, incomodado, temeu que a ausência de Thomas Müller, um jogador fundamental nesta campanha dos alemães no Mundial, tivesse relevo numa partida tão importante. À Alemanha, mais do que procurar explorar o contra-ataque como fizera nas outras duas eliminatórias, uma arma letal, importava retirar a bola aos espanhóis. Aí estaria o sucesso.

Pedro Rodríguez foi o joker de Vicente del Bosque. O jogador do Barcelona, importante nas conquistas recentes do Barcelona, já fora utilizado anteriormente, sim, mas não como titular. O mau momento de Fernando Torres, também ele eclipsado na África do Sul, abriu as portas da titularidade a Pedrito, um jogador mais versátil para o ataque à baliza germânica. O princípio de jogo dos espanhóis foi o mesmo de sempre: tiki-taka, muita posse de bola, muito controlo territorial, mais iniciativa e impedimento das transições rápidas da Alemanha. A Mannschaft recuou, procurou tapar os caminhos para a sua área e, assim que tivesse a bola consigo, lançar o seu veneno, saindo veloz em contra-ataque. Como tantas vezes, até a exemplo do jogo frente a Portugal, a Espanha teve bola, circulou-a, tentou abrir brechas mas o adversário defendeu com solidez. Um jogo de paciência.

Numa partida tão decisiva, com adversários de grande valia, um passo em falso deitaria tudo por água abaixo. Joachim Löw, percebendo que a sua defesa começava a sentir maiores dificuldades, pela insistência incessante dos espanhóis, lançou Janssen e, mais tarde, trocou Trochowski (o substituto de Müller) por Kroos. A Alemanha melhorou. No entanto, também a Espanha, sobretudo pela maior participação de Andrés Iniesta, crescera, conseguindo, nesta fase, mais espaços no território alemão. O golo apareceu aos setenta e três minutos: Iniesta ganhou um canto, Pedro Rodríguez cobrou-o e Puyol, imperial e dominador, cabeceou para o fundo da baliza de Manuel Neuer. O nulo desfez-se. Os espanhóis conseguiram a vantagem. E puderam, então, fazer o que gostam: jogar a toda a largura, com muitos passes, circulando a bola.

A Alemanha, já com o tempo a escassear, teria que mudar. Abrir-se, apostar, arriscar para ser feliz. Vicente del Bosque percebeu-o. Lançou, por isso, Fernando Torres, em substituição de David Villa, colocando sangue novo junto a uma desgastada defesa alemã. Usando a arma do inimigo, o contra-ataque rápido, a selecção espanhola, a cinco minutos dos noventa, esteve perto de sentenciar o jogo - contudo, Pedro Rodríguez, egoísta, perdeu no duelo com Friedrich. Tirando a bola aos alemães, gerindo-a consoante o relógio, La Roja, mesmo desperdiçando o aumento da vantagem, conseguiu a vitória. Com mérito. O tiki-taka, aquele futebol tão rendilhado e possessivo, superiorizou-se e lançou os espanhóis para a sua primeira final de Campeonatos do Mundo. A Alemanha, empolgante pelo jogo ofensivo, cai, como em 2006, nas meias-finais.

Mundial 2010: A Holanda, sem ser mecânica, está na final

Ponto prévio: a Holanda está na final do Mundial 2010. E fez por isso, diga-se. A selecção holandesa, comandada por Bert van Marwijk, um ilustre desconhecido antes do início da competição, joga um futebol positivo, aproveitando as potencialidades individuais que possui e tem dinâmica ofensiva. Esta Holanda chegou à África do Sul sem estar no lote de equipas com maiores probabilidades de chegar à final. Poderia ser, no máximo, um outsider. Seguindo o seu padrão, mas mantendo-se longe da espectacularidade de outrora, os holandeses começaram, com o tempo, a merecer maior destaque. Em pézinhos de lã, sem levantar ondas, sem nunca se colocarem num patamar cimeiro, a Holanda chegou, com naturalidade, aos quartos-de-final. Só com vitórias. Encontrou, talvez, o adversário mais temível: Brasil. E conseguiu seguir em frente.

Tudo mudou. Com o Brasil para trás, por obra própria, com Inglaterra eliminada nos oitavos-de-final e França e Itália logo caídos na fase de grupos, a Holanda ganhou um novo estatuto. Este Mundial da África do Sul revelara, afinal, que a teoria, mais uma vez, pouco valor possui. Se conseguira afastar os brasileiros, com muito mérito, embora também tenham existido falhas importantes no escrete, teria todas as condições para chegar à final. Encontrou, pelo caminho, outra surpresa - esta ainda mais -, vinda do Uruguai. A celeste conseguiu, quarenta anos depois, voltar às meias-finais de um Campeonato do Mundo. Apesar de ter sido bicampeão mundial em 1930 e 1950, juntando mais dois quartos lugares em 1954 e 1970, este Uruguai é, actualmente, uma selecção com pouca expressão. Nunca estaria, por exemplo, no rol de favoritos, antes do Mundial, para chegar tão longe.

A Laranja Mecânica marcou uma era. Encantadora pela forma como jogava, dominadora a toda a prova, visionária tacticamente e superior em todas as vertentes. A beleza do futebol apresentado pelos holandeses, de pé para pé e sem rigidez posicional, revolucionou e passou a ser o molde a seguir por outras equipas. Foi no Campeonato do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental, que a Laranja Mecânica surgiu. Com base no então todo-poderoso Ajax, a equipa guiada por Johan Cruyff, a estrela principal, subiu ao pedestal depois de vencer, nesse Mundial, o Uruguai. Nada mais, a partir de então, seria como antes. A verdade, contudo, é que apesar da elevada importância que teve, a Laranja Mecânica nunca conseguiu um título mundial - saiu derrotada, em 1974 e em 1978, da final. Foi o que faltou para atingir a perfeição.

O Uruguai é um país, em termos de participações em Campeonatos do Mundo, com melhores resultados do que a Holanda. No entanto, hoje em dia, não existe comparação: os holandeses têm nova força, mesmo não sendo uma das principais potências mundiais têm grande valor, enquanto os uruguaios, antes tão fortes, são uma sombra do que foram. Neste Mundial da África do Sul ambos superaram as expectativas. Sobretudo o Uruguai: apesar de ultrapassado por Brasil e Argentina, as principais bandeiras sul-americanas, a celeste conseguiu, ao chegar às meias-finais, ser a melhor formação da América. É uma equipa com alma, audácia e muita vontade de vencer. Chegar tão longe foi já uma vitória para os uruguaios. Estar na final, repetindo um feito com sessenta anos, seria verdadeiramente a realização de um sonho. Pela frente, a Holanda. A, agora, favorita Holanda.

Giovanni van Bronckhorst recebeu a bola. Não parou, lançou-a para a frente e ensaiou um remate a trinta e seis metros da baliza de Muslera. O jogo começara morno. Com o Uruguai, desfalcado como nunca - principalmente de Lodeiro e Luis Suárez, a que se juntaram Lugano e Fucile -, mais expectante, sem que a Holanda quisesse ser incisiva desde logo, era necessário um toque de génio. Van Bronckhorst, o capitão, longe de ser uma estrela, marcou num pontapé majestoso. Violento, colocado, fundamental. O jogo abalou. A Holanda, em vantagem, descomprimiu. Não resistiu ao pecado. O Uruguai cresceu, tentou ser mais expedito no contra-ataque, apareceu mais junto do território adversário. Diego Forlán, mais em destaque pela ausência de Suárez e capitão sem Lugano, respondeu a Van Bronckhorst antes do descanso: remate forte e golo. Empatado, de regresso à casa de partida, a pragmatismo voltou a instalar-se.

À Holanda faltava mais Robben e Sneijder, as duas melhores individualidades, para desorganizar a defesa uruguaia, fechada e consistente, que se revelou importante em toda a prova. O verdadeiro perigo holandês apareceu aos sessenta e sete minutos: Van der Vaart, lançado ao intervalo numa aposta mais ofensiva de Van Marwijk, obrigou Muslera a uma bela defesa e Robben, na recarga, atirou por cima. Foi o momento-chave. A Holanda despertou. Dois minutos depois marcou: um golo feliz, num remate enviesado e traiçoeiro de Sneijder.
Faltava aparecer Robben. Demorou mais três minutos. De cabeça, como Wesley ante o Brasil, desviou um cruzamento perfeito de Dirk Kuyt. Num curto espaço, um passo tão grande rumo ao sucesso. A vitória já não fugiria. Mas ainda tremeu: Maxi Pereira marcou, já nos descontos, o Uruguai, um exemplo de querer, acreditou. Foi tarde. A Holanda ganhou o lugar na final.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Mundial 2010: O fracasso brasileiro visto por dentro

HEXA EM 2014

Primeiro tempo magnífico: lançamento de gênio do meio-campo por Felipe Melo, conclusão perfeita de Robinho. Terminando os primeiros quarenta e cinco minutos, a seleção de Dunga se credencia como a principal favorita para vencer a Copa do Mundo da África. O Brasil passeava em campo, em cima de uma seleção que não perdia desde 2008. Depois, acaba o segundo tempo. Brasil eliminado, treinador burro, Felipe Melo vilão da derrota, time sem criatividade com um atacante firuleiro e pouco objetivo: Robinho. Foram dois jogos dentro de um. Um primeiro tempo onde o Brasil mandou no jogo, fez um gol, mas poderia ter feito três. No segundo tempo a Holanda foi superior e não seria nenhum absurdo se tivesse goleado o time brasileiro.


O clima em Porto Alegre foi de muita decepção após a partida. O povo gaúcho, diferentemente do restante do país, não vibra tanto com a seleção brasileira. No entanto, em 2010 houve uma maior mobilização, motivada em grande parte por ser um gaúcho o comandante do grupo. Além disso, a campanha anti-Dunga do centro do país, serviu como combustível para os gaúchos apoiarem ainda mais o técnico da seleção brasileira. Para boa parte dos gaúchos, no entanto, a tristeza durou aproximadamente três horas, quando Loco Abreu cobrou o último pênalti do Uruguai na vitória heróica dos vizinhos sobre a seleção da Gana. Os gaúchos voltaram a ter uma equipe para torcer.

A frustração da derrota na Copa da África foi diferente da última eliminação em 2006, quando o Brasil foi eliminado também nas quartas de final. Nesta Copa, embora grande parte da imprensa afirmasse que a seleção de Dunga tinha uma morte anunciada, pouca gente realmente acreditava na derrota brasileira, ainda mais depois do primeiro tempo da partida contra a Holanda. Ficou a sensação de que o Brasil poderia ter ido mais longe. Na Alemanha em 2006, por exemplo, foi unanimidade que o Brasil não merecia a classificação.

Voltando ao jogo contra a Holanda, excetuando alguns poucos jornalistas, a imprensa tratou a eliminação brasileira como um fracasso. As críticas que Dunga recebeu quando saiu do Brasil foram atenuadas durante a Copa e voltaram em dobro após o jogo contra a Holanda. A falta de jogadores diferenciados e a opção por jogadores em má fase em seus clubes foram as principais contestações, além das restrições ao trabalho da imprensa durante os treinamentos na África.

Realmente faltou talento no time. Alguns jogadores estavam em má fase, mas mesmo assim, o Brasil tinha plenas condições de trazer o hexacampeonato. A última Copa foi um claro exemplo de que um time bem organizado e com disciplina tática vale mais do que individualidades. A Itália de 2006 não tinha nenhum Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo ou Adriano e foi campeã, enquanto o Brasil caiu fora para a França de Henry e Zidane. Não foi por ter deixado de levar Ganso ou Neimar que o Brasil perdeu. A Copa do Mundo é um torneio diferente. Não é um campeonato em que há tempo de se recuperar de um erro. A partir das oitavas de final, a eliminatória é decidida em um jogo e uma falha é fatal, não pode acontecer. Um momento de desatenção ou desequilíbrio não dá chance de recuperação. Foi o que aconteceu com o Brasil.

Nessa partida, a Holanda voltou melhor no segundo tempo, mas não ameaçou o gol brasileiro, até que em um cruzamento despretencioso o goleiro Júlio César, que tantas vezes salvou o Brasil, cometeu uma falha grave e a bola entrou. Muitos atribuíram o erro a Felipe Melo, mas o erro foi do goleiro. Felipe Melo estava na bola quando Júlio César veio por cima, deslocando o volante brasileiro; por isso, a cabeçada saiu para trás. Pela imagem da televisão, nota-se que o goleiro grita “Minha!”, só que em uma hora daquelas o jogador não sai da bola para o goleiro agarrar se ele sabe que está na bola. O erro foi de Júlio César e o gol abalou o time. O segundo gol da Holanda veio ao natural.

Não foi apenas no gol que Felipe Melo se fez presente. Faz tempo que toda opinião pública alerta para o temperamento do jogador. Ainda assim, ele deu razão a todos que o criticavam. Felipe Melo não tem condições psicológicas de jogar em um grande clube, o que dizer na seleção mais vencedora do mundo. Apostar nesse jogador, apesar de sua terrível fase na Juventus, foi o maior erro de Dunga. Errou ao apostar em Felipe Melo e também ao não contar com um jogador de talento como Ronaldinho ou Ganso. Só que neste erro ele não está sozinho. O planejamento no ano da Copa foi equivocado. O último amistoso antes da convocação foi no início de março. Dunga não queria convocar jogadores que não haviam estado na seleção, por isso, deveria ter sido feito algum amistoso mais perto do dia da convocação, para exatamente testar jogadores que estavam atuando no Brasil e em destaque nos seus clubes.

Para a Copa de 2014 deve ser feita uma reformulação no elenco, já que a maioria dos jogadores desta seleção tem mais de trinta anos. A saída de Dunga está certa, pois jogando em casa não podemos ter um técnico com tanta reprovação por parte da torcida. O Brasil tem uma safra de jogadores de muito talento que devem chegar ao auge em 2014, como Ganso, Neimar, Mário Fernandes, etc. O planejamento deve ser bem pensado, pois, sendo o anfitrião, o Brasil não terá as eliminatórias sul-americanas como parâmetro.

Texto de Uriel Garber, sobre a participação do escrete no Mundial 2010

sábado, 3 de julho de 2010

Mundial 2010: O sadismo e a força da Alemanha

Há três tipos de equipas com ambição de conseguirem bons desempenhos: as candidatas, as cronicamente mais fortes e, ainda, as forças emergentes que buscam afirmação. A Alemanha estava, a 11 de Junho, no segundo grupo: não era das principais favoritas a triunfar, apesar do segundo e terceiro lugares alcançados nas duas últimas edições do Mundial, mas, pelo seu valor e pela qualidade individual dos seus jogadores, não poderia ser posta à margem. A chegada à África do Sul, sem receios, foi feita a toda a força, sobressaíndo na primeira jornada, marcada pelo pragmatismo e pelas excessivas cautelas, com uma goleada sobre a Austrália. A Mannschaft foi o completo oposto do que se vira. Para muito melhor, mostrando um futebol atacante, sem que isso o revele ingénuo, mostrando um sentido colectivo impressionante e fazendo uso da enorme qualidade individual de jogadores como Thomas Müller ou Mesut Özil.

O segundo jogo, frente à Sérvia, foi um passo atrás. Ou, pelo menos, pareceu. A selecção de Joachim Löw, quando poderia ter confirmado a qualificação para os oitavos-de-final, falhou frente aos sérvios. Perdeu, com surpresa - num jogo marcado pela sensacional exibição de Vladimir Stojkovic, guarda-redes ligado ao Sporting. O fulgor demonstrado no jogo inicial, perante uma macia selecção da Nova Zelândia, poderia ter sido, afinal, fogo de vista. A última partida da fase de grupos, com o Gana, equipa que liderava, foi o tira-teimas. A equipa alemã assegurou, como se esperava, a qualificação. O jogo com a Sérvia ficara para trás, a Alemanha, se bem que não demonstrando o poder de fogo exibido com os neozelandeses, carimbou o apuramento. Frente ao Gana, com um golo de Özil, cada vez mais uma figura de proa, os alemães ficaram também com o primeiro lugar do grupo.

A liderança alemã no seu grupo colocou a Inglaterra, uma candidata que se classificara atrás dos Estados Unidos da América, no caminho. Um embate de gigantes nos oitavos-de-final, em reedição da final de 1966 - num célebre jogo que ficou atravessado na garganta dos alemães. A vingança não poderia ter sido melhor, mais eficaz, com maior malvadez. A Alemanha venceu, reduziu a cinzas as pretensões inglesas e, numa verdadeira lição de como contra-atacar em velocidade e aproveitar o balanceamento do adversário para ser letal, conseguiu uma exibição de encher o olho. O sarcasmo, quando os ingleses a mesma sensação dos alemães há quarenta e quatro anos, foi trazido pelo remate de Frank Lampard que, apesar de ter entrado totalmente na baliza de Manuel Neuer, o árbitro não considerou como golo. Ao contrário do que em 1966 acontecera no remate de George Hurst. Vingança conseguida. E muita, muita motivação ganha.

Um dos maiores méritos desta Alemanha está em jogar um futebol simples. Não há toques desnecessários para o adepto apreciar, não há jogadas de habilidade, muito menos se espera que um qualquer jogador tenha a bola, galgue terreno e, sozinho, resolva todos os problemas. A Alemanha é o contrário disso: equipa voltada para o ataque, com um colectivo fortíssimo, encontrando espaços nas defesas contrárias e ressalvando a valia individual. O talento de Müller, de Özil, de Schweinsteiger ou de Klose é fundamental. São, contudo, jogadores que se inserem numa bela equipa e não têm, devido aos seus maiores atributos, a obrigação de marcar a diferença. Conseguem fazê-lo, sobretudo, porque não jogam sozinhos contra o Mundo. O duelo com a Argentina, um choque filosofias idênticas, seria intenso. E a hipótese de, vinte anos depois, repetir o triunfo, da então RFA, na final do Mundial de Itália.

Diego Armando Maradona nunca será um treinador com o mesmo valor que teve enquanto jogador. São poucos, aliás, os que o conseguem. No entanto, apesar de todas as desconfianças e de uma fase de apuramento muito sofrida, a Argentina destacou-se, desde logo, como uma das melhores selecções do Mundial 2010. Completou o pleno de vitórias na fase de grupos e venceu, com comodidade, o México nos oitavos-de-final. Foi, por isso, apontada como uma das principais candidatas a chegar ao título mundial. Como a Alemanha, os argentinos também jogam um futebol ofensivo, vistoso e capaz de prender os adversários. Há, no entanto, uma diferença importante: a
Mannschaft é uma equipa mais organizada, mais disciplinada e mais consciente. O futebol da Argentina, à imagem de Maradona, aproxima-se da sua essência: o golo é o objectivo. E isso, agora, pode ser fatal.

Actualmente, não basta ter os melhores jogadores, jogar um futebol apelativo ou estar mais tempo com a bola em sua posse. É necessário ter inteligência e saber ler as diversas fases do jogo. É precisamente nisso que a Alemanha é perita, torna-se camaleónica e sabe o que quer e qual o caminho a seguir. A Argentina, pelo contrário, mostra ingenuidade. Já não tem Maradona, no auge, com a bola no pé esquerdo, pronto a correr e decidir. Nesta selecção, Messi nunca poderia representar para El Pibe o que ele próprio representou, no México, para Carlos Bilardo - o futebol mudou. A defesa argentina, apesar de não ter ainda sido realmente colocada à prova, já demonstrara fragilidades - Ottamendi, Demichelis, Burdisso e Heinze, tal como o guarda-redes Romero, não formam a muralha defensiva que a selecção albiceleste necessitaria. A Alemanha, pela sua rapidez e capacidade de ruptura, seria um duro teste às capacidades argentinas.

Entrar bem no jogo é meio caminho andado para vencer. Numa eliminatória, onde uma equipa sabe que irá cair, tem um tremendo efeito psicológio. A Alemanha, em vantagem desde os três minutos, enervou a Argentina, obrigou a selecção de Maradona a arriscar e colocou-se como gosta: à espera, unida como uma verdadeira equipa deve ser, para depois, em velocidade, desferir mais golpes nos argentinos. Esta Alemanha que Joachim Löw construiu é uma equipa sádica, impediosa e trituradora. Dominou o jogo, esperou pelas apostas contrárias, viu Maradona quase a lançar Javier Pastore, a vinte minutos do final, e sentenciou, com Müller em destaque e Klose na conclusão, o jogo. As pretensões argentinas morreram aí. Mantendo a gula, Fredrich e Klose, de novo ele, ainda marcaram. O resultado, pesado, bateu forte na Argentina e em Maradona - há demérito, sim, mas muito mérito do rival. A Alemanha, um vendaval atacante, sai fortalecida. Está em alta. E, agora sim, é candidata a valer.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Mundial 2010: O céu e o inferno lado a lado

Cento e trinta minutos depois, muitos quilómetros percorridos e uma oportunidade de fazer história. Fucile comete falta. Os jogadores ganeses, percebendo que é naquele ou momento ou nunca mais a não ser na lotaria, avançam para a área uruguaia. A bola é bombeada, ronda a baliza de Muslera, quase que entra, Luis Suárez salva em cima da linha. Nova tentativa, Fucile para trás e, de novo, Suárez no corte. Com os braços. Olegário Benquerença, bem colocado, apita. Penalty. Luis Alberto Suárez Díaz, avançado do Ajax, desespera. Fez de tudo para impedir o golo, conseguiu-o, mas o Gana está à porta das meias-finais. Nos pés de Asamoah Gyan, estrela ganesa, está o sonho de um país, de um continente, de uma nação. Está ali a fé em fazer História, em catapultar África, no primeiro Mundial que recebe, para um patamar de excelência.

Fernando Muslera entre os postes. Gyan ajeita a bola e concentra-se. Espera a indicação de Benquerença. O apito desencadeará uma montanha de emoções, de responsabilidades, de carga dramática. Os dois golos marcados pelo Gana na fase de grupos, os dois únicos, foram ambos conseguidos através de grandes penalidades convertidas por Gyan. Reflecte a confiança do povo africano. Parte para a bola, enche-se de confiança e espera ser feliz. O remate sai com força mas esbarra na trave. Asamoah Gyan, em quem os ganeses depositaram todas as suas esperanças, desce às trevas. Luis Suárez, inconsolável pela mão na bola, trava a sua marcha rumo ao balneário e exulta. Muslera agradece à sua baliza. Termina o prolongamento e a única solução são as grandes penalidades. O Uruguai reaviva a esperança. E aumenta-a.

Num ápice, invertendo todos os papéis, os uruguaios ficam fortalecidos. O falhanço de Gyan desmotivou a selecção do Gana e mostrou ao Uruguai que ainda seria possível, quarenta anos depois, voltar às meias-finais de um Mundial. No campo psicológio, tão importante nestes momentos, a selecção celeste ficou a ganhar. Os uruguaios sentiram-se imunes a tudo: se não haviam perdido naquele pontapé, igual aos que se seguiriam, também a má fortuna não os iria impedir agora de festejar. Diego Forlán, com confiança, começa bem. Segue-se Asamoah Gyan. O mesmo que, momentos antes, falhara. Acontece a todos, às maiores estrelas. Gyan, nervos de aço, empata. Há confiança. Victorino, Appiah e Scotti não tremem. Chega Mensah: mãos nas ancas, pouco balanço, remate dócil para Muslera. Maxi Pereira atira para a bancada. Empate.

É a vez de Addiah. Não há duas sem três - também falhado. Muslera adivinha o lado, atira-se para a esquerda e pára o remate. O Uruguai, antes a uma grande penalidade da eliminação, está a um remate histórico de galgar para as meias-finais. Sebastián Abreu, El Loco, tem a decisão consigo. Com tranquilidade, sem tremer, imita Panenka, faz jus à alcunha que o acompanha e leva o seu Uruguai à fase seguinte. Ele, Muslera, Forlán e, o improvisado guarda-redes, Suárez são os heróis uruguaios. A última equipa africana, o Gana, cai de pé. Com dramatismo, muito, mas de pé. Os ganeses estiveram por cima do jogo, chegaram primeiro ao golo, por Muntari, e impediram que o Uruguai, favorito, se assumisse como tal. África volta a ficar nos quartos-de-final. A selecção uruguaia, apesar de ter sido esforçada mas pouco brilhante nesta partida, alimenta o sonho de repetir o título. Nos quatro melhores, pelo menos, já está.

Mundial 2010: O Brasil também cai

O Brasil está fora do Mundial 2010. Caiu, aos pés da Holanda, nos quartos-de-final da competição. É pouco para uma selecção com o historial, com a qualidade e com as ambições da brasileira. E decepcionante - repetindo a presença falhada em 2006, na Alemanha, onde a equipa então comandada por Carlos Alberto Parreira e com estrelas como Ronaldinho ou Ronaldo, na defesa do título mundial conquistado na Ásia, saiu vergada a uma derrota com a França, também nos quartos. Com a entrada de Carlos Dunga, campeão no Mundial dos Estados Unidos em 1994, o Brasil recuperou a sua glória: venceu a Copa América de 2007 e, no ano passado, conquistou, na África do Sul, a Taça das Confederações. Apesar de um ambiente hostil com a imprensa brasileira, Dunga triunfou. E a vitória de 2009 abriu o apetite para o Mundial.

É incontornável: este Brasil que se apresentou na África do Sul está diferente. Deixou de ser a equipa encantadora pelo futebol apresentado, capaz de manietar o adversário na sua teia e aniquilá-lo. Este Brasil, num modelo mais europeu, é agora uma equipa mais pragmática, com maior contenção e rigidez. Não demonstra a versatilidade, o talento genuíno e envolvente, típico dos brasileiros. É uma equipa mais voltada para a realidade, para a frieza do resultado, deixando o espectáculo para segundo plano, que encara o jogo de uma forma cautelosa. Exemplo disso é a aposta de Dunga, num sinal de conservadorismo, em utilizar de dois médios de características defensivas. Gilberto Silva e Felipe Melo foram a dupla utilizada pelo seleccionador brasileiro - apenas na partida dos oitavos, ante o Chile, Melo cedeu o seu lugar a Ramires.

Inserido no grupo de Portugal, Costa do Marfim e Coreia do Norte, com naturalidade, o Brasil assegurou a passagem aos oitavos-de-final no primeiro lugar. A primeira fase da competição, longe de ser encantadora, foi ultrapassada com relativa facilidade pelos brasileiros: uma entrada tímida, cumprindo os requisitos mínimos, frente à Coreia do Norte; uma vitória inapelável, com Luís Fabiano e Elano em destaque, sobre a Costa do Marfim, que garantiu o apuramento; e, frente a Portugal, com os brasileiros qualificados e os portugueses a um pequeno passo, ambas as selecções experimentaram soluções para a fase seguinte. Nos oitavos-de-final, o Brasil defrontou o Chile. Venceu, com categoria, por três golos. E conseguiu a sua melhor exibição: mais solto, mais consistente, mais rápido e mais talentoso. Novo rival: Holanda.

O adversário colocou um sorriso no rosto dos brasileiros. A Holanda, apesar de se ter destacado como uma das equipas emergentes na África do Sul, é um opositor que traz boas recordações ao escrete: em 1994, a caminho do seu quarto título mundial, o Brasil bateu os holandeses nos quartos-de-final; em 1998, nas meias-finais, a canarinha voltou a levar a melhor - num Mundial onde perdeu, na final, frente à França. O início do jogo, com duas equipas de futebol positivo e vistoso, deu ainda mais motivos de satisfação: Felipe Melo passou em profundidade, simples como é exigido, para Robinho, subtilmente, encostar para a baliza holandesa. Sem tricotados, sem truques mágicos, apenas com dois toques, o Brasil foi eficaz. Manteve o ritmo, instalou o seu domínio, impediu que a Holanda subisse e esteve mais perto do segundo golo. Nunca chegou.

A Holanda cresceu com o tempo. Após o intervalo, sobretudo. Ainda dentro dos primeiros dez minutos da segunda parte, num lance aparentemente controlado, os holandeses chegaram ao empate: Sneijder bombeou a bola para a área, Júlio César não foi assertivo na saída e Felipe Melo, infeliz, desviou para a sua baliza. O golo foi a pedra de toque para mudar o jogo: a Holanda fez o resultado regressar à casa de partida, ganhando motivação, enquanto o Brasil, mais desconcentrado e sem o mesmo discernimento, tremeu. Fatalmente. Aos sessenta e oito minutos, após um canto desviado por Dirk Kuyt, Wesley Sneijder, fulcral, marcou o segundo golo. Felipe Melo, depois de desafortunado, voltou a estar mal. E, para culminar o seu desnorte, o jogador da Juventus seria expulso. O Brasil tentou, correu e lutou. Em vão. A Holanda ganhou.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Análise: A prestação de Portugal no Mundial 2010

O apuramento de Portugal para o Mundial 2010 começou bem. Com uma goleada, fácil e convincente, sobre a frágil selecção de Malta. Depois, contudo, à medida que a fase de qualificação se foi desenrolando, os problemas surgiram. Portugal perdeu pontos importantes, a descrença acentuou-se, a participação na África do Sul ficou por um fio. Através do playoff, uma via secundária para chegar ao Mundial, a selecção portuguesa, defrontando a Bósnia, conseguiu carimbar o seu passaporte. Sorriu no final de um caminho perigoso, com obstáculos, repleto de quedas. Nenhuma delas se revelou fatal. Foi só o susto, a lama no equipamento, o incómodo. São, no entanto, situações que, queiramos ou não, têm o seu peso. Tiveram, sobretudo, na forma como os portugueses encararam a presença no Mundial.

Portugal esteve, durante esse período conturbado de apuramento, na mó de baixo. Carlos Queiroz, sem nunca conseguir mobilizar e unir os adeptos em torno da selecção, manteve-se esperançado. Recorreu a uma metáfora, correcta e feliz, que Portugal não estava inserido numa corrida ao sprint, mas numa maratona: importava, sim, chegar ao final com o apuramento alcançado. Portugal conseguiu-o. De um momento para o outro, passando de um extremo para o oposto, a fasquia foi elevada. Em demasia. Falou-se em quartos-de-final, meias-finais e, até, quem ousasse colocar a selecção portuguesa na rota do título. O oito foi devorado pelo oitenta. Apesar de todas as cautelas que o grupo - com Brasil e Costa do Marfim, duas equipas fortes e que se destacam nos seus continentes, para além da incógnita Coreia do Norte - recomendava.

CARLOS QUEIROZ: O TRABALHO SEM MOBILIZAÇÃO


Um dos principais méritos de Luiz Filipe Scolari, o treinador campeão mundial pelo Brasil escolhido para reformular a selecção portuguesa após o verdadeiro fracasso na Coreia e no Japão, esteve em unir o povo português. Apelando ao espírito guerreiro, de ambição, de como seria possível Portugal chegar longe, tanto em Europeus como em Mundiais, Scolari conseguiu colocar um país
completamente mobilizado no apoio à selecção nacional. Carlos Queiroz, pelo contrário, é um treinador diferente: mais distante, mais racional, mais pragmático. A filosofia trazida pelo professor reflecte-se na equipa. Portugal deixou de ter aquela ambição e união que eram imbutidas por Scolari. Como Queiroz, a selecção passou a adoptar uma postura mais cautelosa, expectante, jogando em função do adversário. Os adeptos perderam entusiasmo.

Na fase de grupos do Mundial 2010, já se disse, Portugal encontrou adversários fortes. Carlos Queiroz, atento aos pontos que dariam a passagem aos oitavos-de-final, privilegiou sempre uma estratégia de contenção, anulando o poderio contrário, sem nunca querer arriscar e, com isso, comprometer a estratégia que havia traçado. Nos jogos contra a Costa do Marfim e contra o Brasil, o primeiro e último de Portugal na primeira fase, a selecção portuguesa jogou com cautela, não cedendo espaço aos avanços dos rivais e esteve muitíssimo bem em termos defensivos. Essa foi, aliás, uma imagem de marca. Contudo, faltou ousadia e audácia no ataque. Só assim, atacando e colocando o adversário em dificuldades, é possível ganhar. Portugal cumpriu bem em termos defensivos, falhou no ataque. Apenas no jogo com a Coreia do Norte, onde era obrigatório fazê-lo, a selecção nacional mostrou gula pelos golos.

A MESMA ESTRATÉGIA NOS JOGOS A ELIMINAR?

Entre guardar o empate ou arriscar para ganhar, mesmo correndo o risco de perder, Carlos Queiroz jogou sempre pelo seguro. Na fase de grupos esta pode ser uma boa estratégia. Para Portugal, por exemplo, teve efeito: cinco pontos, resultantes de empates com as selecções mais poderosas e uma vitória de goleada sobre o patinho feio coreano, sete golos marcados e nenhum sofrido. Já ficara, porém, a imagem de ser Portugal uma selecção com pouca ambição. Outras, apesar de terem um resultado positivo, fariam de tudo para ter mais. A nós, adeptos portugueses, pareceu pouco: Portugal, afinal, só cumprira os mínimos e, caso tivesse sido mais ousada aqui ou ali, poderia mesmo ter batido a selecção costa-marfinense ou, até, a brasileira. Nos jogos a eliminar, até pelo poderio da Espanha, teria que mudar a sua filosofia. Para ganhar.

A Espanha é um adversário forte, que todos queriam evitar e uma séria candidata a chegar ao título mundial. Não é, no entanto, imbatível. A Suíça, no jogo de estreia dos espanhóis na África do Sul, provou-o - equipa muito fechada, com duas linhas muito próximas que anularam o meio-campo da selecção espanhola, conseguiu ganhar com um golo trapalhão e feliz. Num jogo a eliminar, Portugal teria de manter a boa consistência defensiva demonstrada na fase de grupos, com o intuito de impedir que Xavi e Iniesta conseguissem fazer girar o carrossel espanhol, mas ser bem mais atrevida no ataque. Não poderia, agora, ficar à espera. Para vencer, sem temor, teria que partir para o ataque, assustar os espanhóis, deixar o alerta de que se encontrava ali para vencer o jogo. Os erros repetiram-se: bem na defesa, poucos espaços concedidos, mas pouca ambição ofensiva. O resultado foi uma vitória justa da selecção espanhola.

O ATAQUE COMO CALCANHAR DE AQUILES


A falta de eficácia no ataque da selecção nacional já havia sido uma tormenta na fase de apuramento. Carlos Queiroz prometeu trabalhar, insistir e insistir até que fosse ultrapassado. No Mundial, contudo, revelou-se. As estatísticas podem desmenti-lo, porque Portugal termina com sete golos marcados, mas a verdade é que foram todos num só jogo, frente à Coreia, tendo a selecção nacional ficado em branco nos embates com a Costa do Marfim, com o Brasil e, nos oitavos, com a Espanha. A estratégia delineada por Carlos Queiroz para a selecção portuguesa, nestas três partidas, passou por jogar com precaução e fazer uso do contra-ataque rápido para explorar, sobretudo, a velocidade de Cristiano Ronaldo. No entanto, Portugal não demonstrou capacidade para construir lances de futebol ofensivo, para se instalar no meio-campo adversário e Ronaldo foi uma sombra de si próprio - como Simão ou Danny.

ECLIPSE RONALDO

Cristiano Ronaldo é, indiscutivelmente, a principal figura da selecção portuguesa. Há, mesmo, quem insista em rotular Portugal como sendo constituído por Ronaldo e mais dez. Por todo o seu valor, pela temporada sensacional que conseguiu no Real Madrid, destacando-se apesar do fracasso colectivo dos merengues, esperava-se bem melhor de um dos maiores talentos mundiais. Ronaldo, o verdadeiro jogador que cria, dribla, corre, encanta e marca, esteve em eclipse na África do Sul. O máximo de que Portugal dispôs foi de um Cristiano individualista, impotente e inofensivo. De Cristiano Ronaldo, pelos feitos que já alcançou e por tudo aquilo que representa, exige-se muito, muito mais. Portugal, para ser bem-sucedido, precisa dele na plenitude dos seus recursos.
Não foi este, como prometera, o Mundial da sua explosão. Ronaldo nunca foi um jogador realmente desequilibrador.

LESÕES E INTRIGAS

A poucos dias do arranque oficial da prova, quando Portugal realizou o particular com Moçambique, foi oficializada a impossibilidade de Nani, talvez o jogador em melhor forma física, participar no Mundial 2010. Foi uma supresa. Porquê? Porque nunca antes havia sido noticiada qualquer lesão do jogador português e, essencialmente, porque o corpo clínico da Federação Portuguesa de Futebol não se apressou, desde logo, a explicar o sucedido. Criou-se, por isso, um clima de suspeição, de intriga e polémica, que em nada contribuiu para a manutenção da serenidade do grupo de trabalho. Acresce, ainda, que, após ter aterrado em solo português, Nani afirmou que estaria disponível dentro de uma semana. A política de comunicação utilizada pela comitiva português falhou por completo.

Seguiu-se Deco. No final da partida frente à Costa do Marfim, mostrando descontentamento pela posição em que Carlos Queiroz o colocou, o luso-brasileiro criticou as opções do seleccionador nacional. Retractar-se-ia no dia seguinte, no grupo e publicamente, referindo que fizera as declarações a quente e que não pretendia, de forma alguma, colocar em causa Queiroz. O caso ficou sanado... aparentemente, uma vez que logo surgiu uma lesão impeditiva de Deco jogar frente à Coreia do Norte. Uma vez mais, devido à coincidência, se levantou uma nuvem de intriga. Deco falharia a partida frente ao Brasil, ainda por lesão, e, apesar de estar recuperado, também não foi opção no duelo com a Espanha. As palavras do jogador, após a eliminação ante os espanhóis, são enigmáticas: "Bom ambiente? Entre os jogadores, sim".

No final do jogo com a Espanha, além da tirada de Deco que deixa transparecer algum atrito na relação entre os jogadores e a equipa técnica, foi uma declaração de Cristiano Ronaldo, visivelmente desiludido pela derrota, que ganhou relevo. Sobretudo pela condição do jogador do Real Madrid: Ronaldo é o capitão da selecção nacional, tem maiores responsabilidade e deve, por isso, medir convevientemente o alcance das suas palavras - além de que se trata de um jogador com um tremendo mediatismo. Inquirido na zona mista sobre que explicações teria para a derrota, Cristiano Ronaldo, em passo apressado, remeteu as responsabilidades para o seleccionador: "Falem com o Carlos Queiroz". Como capitão, alguém que é o rosto mais visível do grupo de trabalho, deveria ter sido mais racional e menos emocional.

EDUARDO E FÁBIO COENTRÃO: OS MELHORES

Num Mundial onde não se pode dizer que a participação de Portugal tenha sido completamente fracassada, a verdade é que também não correspondeu às esperanças dos portugueses. Há, no entanto, duas notas positivas a destacar: Eduardo e Fábio Coentrão, jogadores sem dimensão internacional antes do início da competição, deram um belo seguimento às temporadas realizadas e foram, de longe, os melhores jogadores da selecção portuguesa. O guarda-redes, apenas batido por uma vez, deu nas vistas na partida frente ao Brasil e, mais do que tudo, frente à Espanha, onde foi verdadeiramente heróico e não merecia, por nada, a eliminação sofrida. Revelou-se um dos bons guarda-redes do Mundial 2010 e enterrou, de vez, as desconfianças de quem afirmava que Portugal não possuia um guardião com créditos firmados.

Além de Eduardo, que muito dificilmente não dará um salto na sua carreira após o que demonstrou na África do Sul, também Fábio Coentrão emergiu. Após empréstimos sucessivos, parecendo uma promessa para sempre adiada, Coentrão ganhou um lugar no Benfica, jogando como lateral-esquerdo. Nessa nova posição, para a qual Jorge Jesus o moldou, o jogador vila-condense, um extremo de origem, ganhou preponderância na equipa benfiquista e, com naturalidade, foi chamado para o Mundial 2010. Chegou, viu e venceu. Afastou a concorrência de Duda, fixou-se, foi titularíssimo e mostrou estar crescido. Na sua simplicidade, encarou Kalou ou Maicon tranquilo, sem receios e destacou-se. Bem a defender, importante a atacar, Fábio Coentrão confirmou o seu valor. O Benfica quer segurar a sua mais recente pérola mas o mercado internacional está de olho nele.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Mundial 2010: Espanha-Portugal (antevisão)

Noventa minutos pela frente, prolongamento se necessário e grandes penalidades como máximo extremo. O Mundial 2010 entrou na fase das decisões, deixando para trás o pragmatismo e os cálculos aos pontos amealhados nos três jogos iniciais, com margem de erro nula. Portugal, sem ser brilhante, apurou-se com comodidade para os oitavos. Cumpriu, no fundo, a sua obrigação: iniciou com cautela frente à Costa do Marfim, devorou uma frágil Coreia do Norte e voltou, com o todo-poderoso Brasil, a jogar pelo seguro. Chegada aos oitavos-de-final da competição, com legítimas aspirações a conseguir uma prestação capaz de recolocar Portugal entre o top mundial, a selecção portuguesa terá, rivalizando com a Espanha, de mostrar a sua fibra. Sem receios, sem temor, sem complexos neste arrufo de vizinhos. Jogando com audácia, coragem e garra. A triplicar.

Tão próximos e tão distantes. Portugal e Espanha, vizinhos ibéricos, diferem em muitos aspectos. Na maioria deles, na grande maioria, os espanhóis saem por cima. No futebol também. A selecção espanhola parte como favorita. Por ser campeã da Europa? Sim, mas não só. A vitória no Europeu de 2008 serve para engrandecer o estatuto de La Roja, indiscutivelmente. Fruto disso e da evolução constante que tem sofrido, alargando horizontes, a Espanha aparece, desde o início, na linha da frente para a conquista do Mundial da África do Sul. Os êxitos alcançados pelo Barcelona, na consolidação de um futebol rendilhado, pensado e extremamente eficaz, naquele famoso tiki-taka que tantos elogios tem merecido, são também um suporte da selecção espanhola. Piqué, Puyol, Sergio Busquets, Xavi e Iniesta são indiscutíveis para Vicente del Bosque. Cinco jogadores blaugrana - Villa só o será na próxima época.

Carlos Queiroz apelidou a selecção espanhola de Barcelona A. Os princípios de jogo, a mentalidade, o passa e repassa para obter uma monstruosa percentagem de posse de bola, com toques curtos entre toda a equipa, são os mesmos. Alguns intérpretes, com destaque para Xavi e Iniesta, sobre quem gira o carrossel ofensivo de ambos, também. Esta Espanha, contudo, não se trata de uma imitação do Barcelona. Não tendo Messi, talvez o maior desequilibrador do Barça, tem David Villa, que provou na fase de grupos atravessar um extraordinário momento, e Fernando Torres, que, mesmo descolorido até agora, conta com inegável talento. Porém, a Espanha não é imbatível.
Basta recordar, por exemplo, que começou o Mundial em falso, perdendo, surpreendentemente, com a Suíça. É favorita, sim, mas não vencedora por antecipação.

E Portugal, afinal, o que vale? A resposta terá que ser dada dentro de campo, logo, frente aos espanhóis. Uma das imagens de marca da selecção portuguesa, bem patente nos zero golos sofridos por Eduardo na fase de grupos, tem sido a sua consistência defensiva. Ora, esse é um dos principais factores para ter sucesso. Tal como fez a Suíça. Portugal, porém, possui mais e melhores argumentos do que os suíços que permitam disputar o jogo com nuestros hermanos. Terá de se fazer ouvir, emergir e fazer com que a Espanha não se acomode e deslize pelo relvado. Para conseguir ganhar um lugar nos quartos-de-final do Mundial 2010, a selecção portuguesa precisa de juntar velocidade, genialidade e intenção ofensiva para ruir o suporte espanhol. Defender bem, jogar com inteligência e ser ousado e veloz para colocar Casillas em sobressalto: essa é a receita.

No regresso à Cidade do Cabo, onde Portugal vergou a Coreia do Norte, Carlos Queiroz deverá, após a transfiguração da partida com o Brasil, promover novas mudanças. Face ao fortíssimo meio-campo espanhol, Queiroz pode enveredar por um maior povoamento dessa zona central do relvado. Assim, Portugal jogaria com Pedro Mendes (é crível que, após a utilização de Pepe, volte à titularidade), Raúl Meireles, Tiago e Deco (já refeito da lesão que o obrigou a ficar de fora nos dois últimos jogos). Na frente, procurando velocidade e profundidade para abrir brechas na defesa espanhola, a aposta, para além de Cristiano Ronaldo, deverá recair em Simão Sabrosa. Na defesa, além disso, há outra incógnita. Nos três jogos da fase de grupos, três jogadores foram utilizados na posição de lateral-direito: Paulo Ferreira, Miguel e Ricardo Costa. Para esta partida, onde será importante defender com segurança, o seleccionador deve optar por Paulo Ferreira.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Mundial 2010: Portugal-Brasil, 0-0 (crónica)

UM NULO, SORRISOS E FESTA EM PORTUGUÊS

O Brasil é um papão mundial, pentacampeão, declarado favorito a triunfar na África do Sul. Portugal, no máximo, pode ser um papãozinho. A selecção portuguesa procura emancipar-se, afirmar a sua posição e dar largas ao seu talento. Mantém-se, contudo, ainda atrás das grandes potências, onde o Brasil aparece logo à cabeça, que fazem do título mundial um objectivo. A primeira ideia, quando se defronta alguém com capacidades superiores, passa por ter alguma contenção. Refrear os ímpetos, adoptar uma nova estratégia, reconhecer que uma luta igual pode dar mau resultado. Jogar com mais expectativa, deixando que o adversário tenha a iniciativa, esperando para ver o que o jogo dá. Ou, aproveitando as ligações entre os dois países, tentar um pacto de não agressão.

Carlos Queiroz revolucionou a equipa nacional. Eram esperadas mexidas, sim, mas não tantas como as que o seleccionador nacional implementou. Em relação ao último jogo, sem dar importância ao ditado que diz que em equipa que ganha não se mexe nem uma unha, até porque o apuramento só fugiria com algum acontecimento sobrenatural, Miguel deu o seu lugar a Ricardo Costa, Pedro Mendes foi substituído por Pepe, Danny e Duda relegaram Simão e Hugo Almeida para o banco. Portugal entrou com cautelas. Queiroz privilegiou a consistência defensiva, deixou Ronaldo na frente de ataque, explorando a velocidade da estrela maior, e preencheu o meio-campo, colocando Pepe, tanto tempo depois, para lhe dar mais músculo. Dunga, sem Kaká e Elano, optou por Júlio Baptista e Dani Alves. Lançou ainda Nilmar, um joker para acompanhar Luís Fabiano, deixando Robinho de fora.

Entre portugueses e brasileiros não há meias-tintas. Entendem-se bem, falam a mesma língua, ambos sabem o que querem. O apuramento, consumado para o Brasil e quase confirmado por Portugal, não obrigaria os treinadores a arriscar. Precisavam, apenas, de cumprir noventa minutos. Tendo já a mente nos oitavos-de-final, com temor da Espanha, embora sem possibilidades de saberem qual a melhor classificação para evitar um possível confronto com os espanhóis, tanto Carlos Queiroz como Dunga quiseram experimentar novas soluções. Portugal deixou a iniciativa do lado do Brasil: joguem, corram, circulem, nós estamos aqui para impedir o vosso sucesso. O plano resultou: os brasileiros tomaram conta da bola, jogaram de pé para pé, procuraram progredir e Portugal, sempre consistente, impediu-o. Um jogo do rato e do gato.

CONSISTÊNCIA: PALAVRA-CHAVE

Em teoria, sempre que não há pressão, o jogo é mais agradável. As equipas ficam mais soltas, mais alegres, mais disponíveis para jogarem bom futebol. O Portugal-Brasil foi assim? Não. Sobretudo, já se disse, pelas diferenças qualitativas entre as duas selecções. A equipa portuguesa da última vez que defrontou os brasileiros saiu vergada a uma derrota pesada, sofrendo seis golos, servindo para vincar o longo caminho que ainda tinha, nessa altura, a percorrer. Desta vez, num meio tão diferente como é um Campeonato do Mundo, importava deixar boa imagem. Daí que o jogo tenha sido enrolado, amarrado e fechado. O Brasil, também sem ter que fazer muito para vencer, procurou servir-se da rapidez de Maicon, um lateral verdadeiramente essencial no ataque. Fábio Coentrão, crescido, encheu o peito e respondeu à letra. Estava dito: por ali, não passaria.

A preocupação de Carlos Queiroz com as incursões de Maicon ficara estabelecida na equipa inicial. Ao colocar Duda como médio, jogando sob a esquerda, o seleccionador nacional quis certificar-se de que não faltaria ajuda a Coentrão. Com vigia permanente, o lateral do Benfica teria, ainda, oportunidade para tentar criar perigo. Deu, até, para se inverteram os papéis: Fábio Coentrão correu, fintou, deixou Maicon para trás e cruzou para a área. O lance levava perigo, mas Júlio César, imperial, pôs-lhe cobro. Logo após, para mostrar que a selecção portuguesa não seria apenas uma muralha aos avanços brasileiros, Tiago, após sensacional jogada de Coentrão, rematou para fora. O Brasil ficou em sentido. Com Júlio Baptista no lugar de Kaká, dois jogadores bem diferentes, os brasileiros perderam imaginação, magia e criatividade. Notou-se.

OS PACTOS SÃO PARA SER LEVADOS ATÉ AO FIM

A selecção brasileira, com dificuldades em ligar o seu jogo, esperando por um clique de génio, apenas aparecera realmente em dois remates de Dani Alves. Era tempo, então, já depois das ameaças portuguesas, de Eduardo ser colocado à prova: Maicon ganhou espaço a Fábio Coentrão, cruzou largo, a bola passou toda a área, Ricardo Costa dormiu na parada e Gilmar, oportuno, obrigou o guarda-redes português a uma defesa brutal. Os brasileiros voltaram, minutos depois, a deixar o seu aviso. Aproveitando, de novo, uma descoordenação entre Ricardo Carvalho e Ricardo Costa, o central e o lateral, Luís Fabiano cabeceou ao lado. Sem ser muito incisivo ou pressionante, o Brasil foi mais perigoso. A dureza, virilidade até, instalou-se a cada jogada. Pepe e Felipe Melo, por exemplo, envolveram-se em picardias constantes.

Dunga, apercebendo-se da agressividade colocada em campo por Felipe Melo, lançou, ainda antes do intervalo, Josué. Na prática, contudo, nada mudou. Nem nas filosofias de ambas as equipas. Carlos Queiroz, após o descanso, tentou dar maior ofensividade à equipa portuguesa. Afinal, o Brasil estivera titubeante, algo desconexo, sem imprimir um ritmo alto. Portugal poderia, se aliasse um maior poder ofensivo à coesão defensiva, ambicionar marcar. Para isso, até porque Fábio Coentrão já mostrara que estava à altura de Maicon, retirou Duda, um jogador posicional, lançando Simão. A equipa cresceu, melhorou, passou a ter mais bola no território adversário. Dispôs, depois, da sua melhor oportunidade: Raúl Meireles, o talismã da Bósnia e da partida com a Coreia, esteve pertinho de marcar. Júlio César foi assombroso.

Portugal ficara mais confortável. Com mais espaço, sem ter de seguir os jogadores brasileiros para todo o lado, a selecção nacional ficou com o jogo na mão. Isso, contudo, pode servir de pouco em futebol. Carlos Queiroz, pragmático e fiel aos seus princípios, retirou Pepe (bom jogo no regresso, com alguma dureza) e lançou Pedro Mendes. Com as alterações, Portugal aproximou-se da equipa que massacrara a Coreia do Norte. O Brasil, sem a força colectiva ou a inspiração individual capaz de resolver, trocou a bola, percebeu que muito dificilmente marcaria e aceitou, com todo o agrado, o empate. No final, para os guarda-redes voltaram a ser protagonistas, Danny e Ramires tentaram a sua sorte. Júlio César e Eduardo, senhoriais, levaram o pacto até ao fim. O último apito sentenciou o nulo. E trouxe muitos sorrisos à festa lusófona.

Mundial 2010: Portugal-Brasil (antevisão)

O pessimismo trazido por uma entrada titubeante, errante e com cautela. A audácia, a força, o ataque demolidor que vergou a Coreia do Norte e, praticamente, colocou Portugal nos oitavos-de-final do Mundial 2010. Um mau arranque e uma enorme onda de euforia. Onde está o meio-termo? Encontrá-lo será, portanto, o objectivo da selecção portuguesa na partida frente ao Brasil. A qualificação ainda não está garantida, o futebol é capaz de tudo, preciso assegurá-la e decidir quem, entre brasileiros e portugueses, consegue o primeiro lugar do grupo. Ante o Brasil, já apurado e com duas baixas de peso, Portugal terá um bom teste às suas capacidades. Uma vitória sobre os brasileiros, grandes candidatos à conquista do seu sexto Campeonato do Mundo, é a oportunidade para Portugal marcar realmente o seu território.

Na memória de ambos, por razões completamente opostas, está ainda o dia 20 de Novembro de 2008. Em Brasília, num jogo particular, mas nem por isso amigável, o escrete trucidou a selecção portuguesa, inflingindo uma derrota por números gordos: 6-2. Nessa partida tudo correu bem aos brasileiros. A Portugal, pelo contrário, saíram mil e uma coisas furadas. O resultado volumoso, contudo, não reflecte o actual estado das duas selecções. Nem o Brasil é, actualmente, uma máquina trituradora, nem Portugal, motivadíssimo pela goleada histórica à Coreia, uma pobre e indefesa equipa que surge impiedosamente no caminho do papão brasileiro. Portugal terá, por isso, condições de discutir o resultado com o Brasil. O que aconteceu em Brasília, seja pelo virtuosismo brasileiro ou pelo generalizado desastre português, é passado. E pode ser vingado.

O que se pretende dizer com isto é que Portugal pode, sem que constitua uma enorme surpresa, vencer o jogo. Será difícil, claro. O Brasil, apesar de não encantar pelo futebol apresentado, é uma equipa temível. Neste Mundial, os brasileiros, com Dunga no comando, têm apresentado um estilo mais pragmático, com contenção e maiores cuidados. Adoptaram, no fundo, uma posição europeia. Hoje em dia, o Brasil já não é uma bela equipa, carregada de talento, que pratica um futebol vistoso. Os jogadores brasileiros, depois do fracasso no último Mundial, sabem que mais importante do que tudo é o resultado. E, até ao momento, têm correspondido: garantiram o apuramento para os oitavos-de-final com duas vitórias, cinco golos marcados e dois sofridos. Sem Kaká, expulso frente à Costa do Marfim, disputam com Portugal o primeiro lugar do grupo.

A selecção portuguesa ainda não tem o apuramento garantido: é um facto. No entanto, só uma verdadeira catástrofe tirará Portugal do caminho dos oitavos - tem sete golos positivos, enquanto a Costa do Marfim, adversário nas contas da passagem, que defronta a frágil Coreia, conta com três negativos. Um empate garante imediatamente o segundo lugar no grupo. Há, porém, a vontade, legítima, de ultrapassar os brasileiros e alcançar a liderança. Ser primeiro, ainda para mais com rivais de créditos firmados, é sempre um estímulo importante. E servirá, então, para que Portugal, sem receios, consiga fazer jus ao estatuto que fez por merecer. Neste momento, porém, nem se sabe o que será melhor: as vantagens de ser primeiro ou segundo estão dependentes do que a Espanha, ainda sem o apuramento alcançado, fizer. Portugueses e brasileiros querem evitar os espanhóis.

Dunga não terá Kaká nem Elano. Ambos os jogadores, um por castigo e o outro por lesão, falharão a partida frente a Portugal. Júlio Baptista será o substituto do médio do Real Madrid. Para a vaga deixada por Elano, Dani Alves, lateral do Barcelona, é a mais provável escolha. Do lado português, ainda sem Deco e Rúben Amorim, há a expectativa para saber se Carlos Queiroz irá poupar, num jogo que deverá servir de ponte para os oitavos-de-final, jogadores como Pedro Mendes, Hugo Almeida e Cristiano Ronaldo, todos eles em perigo de exclusão. O seleccionador nacional, contudo, apesar de confirmar mudanças, afirmou que fará por opção táctica e não devido à folha disciplinar dos jogadores. Seja como for, Pepe, Liedson e Danny espreitam por uma oportunidade. Pensando nos oitavos-de-final, sonhando com a liderança do grupo, ansiando por vingança: eis os Navegadores.

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