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domingo, 24 de outubro de 2010

Um Real Madrid à Mourinho

Mourinho gosta de problemas. Casos sérios, bicos-de-obra, um cabo de trabalhos para resolver. Não se contenta com pouco. Isso estaria à altura de um bom treinador. Mourinho quer ser mais. É corajoso, tem uma ambição sem limites, eleva o ego, abre o peito e aceita arriscar sem pestanejar. Dá tudo o que tem e quer ser imortal. Ultrapassar as barreiras, chegar mais alto do que nunca, deixar a sua marca, tornar-se um ídolo e transformar a realidade por onde passa. Foi campeão no FC Porto, devolveu a glória europeia, recuperou a força do dragão. Subiu para o Chelsea: campeão cinquenta anos depois, outro título no ano seguinte e estatuto reforçado para os blues. Já é muito, pouco para ele. Por isso foi campeão europeu num Internazionale há quarenta e cinco anos sem conquistas na Europa. Nunca está satisfeito. Poderia parar, relaxar, sair durante alguns anos, entrar numa espécie de sabática, para gozar do que ganhara. Mourinho não é assim.

Mourinho gosta de problemas. Ou problemas nem seja a palavra mais acertada. Também gosta, é verdade, mas neste caso aplica-se melhor grandes desafios. O maior, neste momento, é o Real Madrid: melhores jogadores mundiais juntos, constelação de estrelas, exigência maior do que nunca e época sem nada conquistado. Mourinho cumpriu a sua parte no Inter. Tinha Madrid à espera. Encaixam na perfeição. Tem que gerir emoções, sobrepor-se, ter pulso firme, combater a indisciplina e juntar o génio de todos, pegando aqui e ali, para formar uma equipa temível, capaz e pujante. O Real Madrid começou aos solavancos: empates, exibições sofríveis, assobios das bancadas, vitórias tiradas com esforço. Agora está bem, recomenda-se, vive feliz, ganha motivação. Marca, ganha e encanta. O público gosta, os jogadores sorriem, os críticos dão o braço a torcer, os adversários derrapam. Mourinho puxa pela ironia e alimenta o ego.

Pleno de vitórias na Liga dos Campeões, nove pontos, exibição de gala frente ao AC Milan e candidatura lançada. Na Liga espanhola, ao mesmo tempo, o Real Madrid aparece no primeiro lugar. Tem todas as condições para triunfar interna e externamente: jogadores, treinador e, agora, estabilidade. Necessita, para isso, de manter o ritmo, não diminuir a intensidade e querer sempre mais. Ser como Mourinho sempre foi. Impõe-se, mostra que tem o controlo da situação, junta as suas ideias e molda o pensamento de quem está sob o seu comando. O Real Madrid está a crescer como equipa. Com ela cresce, por exemplo, Cristiano Ronaldo. Tem liberdade, pode espalhar ao seu talento, ninguém lhe exige que resolva tudo ou que carregue a equipa. É o melhor marcador do campeonato espanhol. Nesta jornada, frente ao Racing, marcou quatro na goleada, por seis-um, aplicada pelos merengues. O Real está a despertar.

Diz-se que a construção é o que mais custa e, por isso, o pior. O Real Madrid está, ainda, nessa fase. Ainda é cedo para avaliar realmente a capacidade e a valia da equipa, sim, mas até agora, por tudo o que já ficou para trás, está a ser cumprida com qualidade e, até, brilhantismo. Está a solidificar-se como verdadeira equipa. E aí tem o dedo de Mourinho. O treinador português, por onde passa, tenha ou não jogadores de classe mundial, consegue construir verdadeiras equipas, fortíssimas a defender e matreiras no ataque, dando largas à criatividade. O Real Madrid é mais um exemplo. Tem condições, agora, para dar passos seguros, tranquilos, sempre em crescendo. Precisava de estabilidade, sobretudo emocional, não só na equipa, mas também na exigência dos adeptos. Mourinho consegue fazer-se ouvir, chega onde quer, alastra a mensagem a todos e faz aumentar a confiança numa temporada rica. Quer ganhar o maior desafio de sempre.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O MOUnstro dos troféus

Mourinho para os dragões, Jose para os blues do Chelsea, Mou para os interistas e Zé Mário para a família e amigos. No fim tudo se resume a um só nome: José Mourinho, sinónimo de sucesso e a melhor forma de conjugar o verbo ganhar. Dezassete troféus em sete anos (FC Porto, Chelsea e Inter) com duas Ligas dos Campeões e uma Taça UEFA é currículo para ser invejado por qualquer treinador e, claro, brandido pelo próprio José Mourinho, como arma de arremesso a quem conteste a forma de jogar das suas equipas. Defensivo? Pouco atractivo? Talvez seja… mas ganha e isso ainda é o objectivo final. Mourinho esteve presente em três finais europeias e venceu-as, fazendo jus ao “dogma” por ele lançado há uns anos atrás: “As finais não se jogam, ganham-se”. Missão cumprida.

Melhor treinador do Mundo? Não sei e nem isso interessa, porque ainda não foi encontrada a fórmula que possa servir para designar o melhor. Se a forma de o medir forem os títulos conquistados, Mourinho, na sua curta carreira, é já o mais titulado de todos os treinadores mundiais. É criticado pela forma pragmática como as suas equipas defendem, fugindo a um futebol bonito, atacante e atractivo, que encante os apaniguados do futebol. Desde já aqui deixo bem claro que me incluo neste capítulo, gosto de ver futebol bem jogado, mas a minha desilusão já foi muita. Adorava a forma de jogar da Laranja Mecânica holandesa, mas Alemanha e Argentina encarregaram-se de me demonstrar que o pragmatismo (Alemanha) e o contra-ataque e oportunismo de Mário Kempes (Argentina) foram melhores receitas para vencer.

Vibrei no Espanha'82 com o Brasil de seu Telê Santana, mais a magia de Sócrates, Júnior, Cerezzo, Falcão e tantos outros. Que adiantou a beleza do futebol-arte dos brasileiros, quando apanharam pela frente um pragmática Itália aliada à frieza de Paolo Rossi? Na história do futebol o que fica documentado para a posteridade são os troféus conquistados, e aí, MOU é o maior. Qual o segredo das equipas de Mourinho? Liderança forte e não partilhada. Escolha dos jogadores, que quer ambiciosos, com sede de ganhar e de chegar ao estrelato. Abraça o lema dos mosqueteiros: “um por todos e todos por um”, pegando num grupo heterogéneo de jogadores que põe a lutar pelos objectivos comuns e a remar todos para o mesmo lado. A força do colectivo é a soma dos valores individuais, nunca o “uno” se sobrepõe ao “todo”.

Trabalho, organização, método, disciplina e autoridade são os segredos de quem clama para si a responsabilidade de todo o futebol dos clubes por onde passa. Compra brigas e provoca guerras de “alecrim e manjerona”, chamando a si todas as atenções mediáticas, de molde a retirar o peso de cima dos ombros dos seus jogadores. Van Gaal afirmou após a derrota de ontem que “os meus jogadores aprenderam hoje que os jogos se ganham com pequenos detalhes”. Mourinho tinha-o dito sete anos antes. Até nisso é um adiantado mental. Se os fins justificam os meios, então Mourinho está no caminho certo para continuar a abraçar o sucesso, que já busca nos braços de outro clube, o Real Madrid. Outros desafios mas os mesmos objectivos: vencer, vencer, vencer. Mourinho é mesmo especial, porque é ganhador e a história escreve-se com o nome dos vencedores.

Análise de Bernardino Barros, comentador da Rádio Renascença

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um registo muito speciale

Recuemos, leitor, até Fevereiro de 2002. Dia 23. No campeonato português, o FC Porto defronta, no estádio das Antas, o Beira-Mar. A equipa portista pretende manter-se na rota do título, apesar de serem aparentes as dificuldades. José Mourinho chegara há pouco tempo, encontrara uma equipa em quinto lugar, mas garantira que lutaria até final, mesmo conhecendo a realidade, para preparar as bases para o prometido sucesso nos anos seguintes. Os dragões estão em recuperação, com quatro vitórias consecutivas, entre elas o Benfica, até chegar a esta vigésima quarta jornada. Terceiro lugar, oito pontos de desvantagem para o Sporting, líder e futuro campeão. Os aveirenses conseguiram uma vitória histórica, nas Antas, por 3-2. O FC Porto disse adeus ao título. Estava somente por um fio.

As contrariedades dos dragões, nessa partida, começaram cedo. Por volta da meia-hora de jogo, Jorge Andrade comete uma falta perigosa à entrada da área e recebe ordem de expulsão do árbitro Carlos Xistra. Um mal nunca vem só: na cobrança do livre, Cristiano coloca a equipa de António Sousa na frente do marcador. Com menos um e em desvantagem, o FC Porto, proibido de falhar, teria necessariamente de ser audaz. E foi-o. Afinal, apesar de tudo, continuava superior aos aveirenses e jogava em casa. Ainda na primeira parte, empatou. Mas havia Fary. O avançado senegalês era um perigo constante para os portistas e dava-se ao luxo de ser extraordinariamente eficaz com Vítor Baía. Nessa partida, por opção, começara no banco. Seria, porém, o maior problema azul.

Fary entrou na segunda parte. Poucos minutos depois do recomeço, recolocou a sua equipa em vantagem. Depois disso, novo rombo no FC Porto: Deco foi expulso, os portistas ficaram os últimos quinze minutos com nove jogadores. Desvantagem cada vez maior a todos os níveis. Mourinho, contudo, mantinha os olhos na vitória: lançou as armas de que dispunha, colocou avançados, fez de tudo para dar a volta ao resultado. Outros simplesmente encolheriam os ombros. O FC Porto, com tantos obstáculos colocados no caminho, chegou a um novo empate. Mas o esforço fora grande, a equipa estava demasiado esticada e a defesa ficara vulnerável perante a aposta atacante do treinador. Fary não teve piedade, pouco se interessou pelas recuperações do rival: fez o dois-três, acabou com as dúvidas.

Posto isto, podemos regressar ao presente. Passaram-se, então, oito anos desde esse triunfo do Beira-Mar. Muita coisa mudou, pouco se mantém como estava na época. Jogando como anfitrião, numa carreira entre Porto e Milão com Londres pelo meio, José Mourinho fez cento e trinta jogos oficiais contando para o campeonato português, inglês e italiano. Nunca mais perdeu: cento e vinte e cinco triunfos, vinte e cinco empates. Hoje, dia 20 de Fevereiro de 2010, o Inter, na recepção à Sampdoria, teve a possibilidade de dar ao treinador português o ponto máximo desse registo verdadeiramente impressionante: oito anos sem derrotas caseiras. Não ganhou, empatou, a zero, no Giuseppe Meazza. Para o Inter, empatar em casa é negativo. E jogando desde os trinta e oito minutos com nove, continua a ser?

Se o leitor não acredita em coincidências, leia o que se segue até ao final. Em 2002, como se disse, Jorge Andrade foi expulso por vermelho directo. Hoje foi Walter Samuel, na mesma altura. No lance do livre, por ter saltado da barreira antes do tempo, Ivan Córdoba viu o cartão amarelo e, mais tarde, seria expulso. Tal como Deco, embora por protestos, na partida do FC Porto contra o Beira-Mar. São, sem dúvida, curiosidades que ligam estes dois jogos que nunca poderão desaparecer do registo pessoal de José Mourinho. E existe, também, uma diferença substancial: o modo como o treinador encarou a partida. No passado, fez de tudo para ganhar. Agora, mais experiente, preferiu guardar o ponto. E completou oito anos sem derrotas em casa. Foi bem sucedido. Épico.

domingo, 10 de janeiro de 2010

A estrela que acompanha Mourinho

No futebol, como em tudo, há quem viva num mar de rosas e quem tenha uma carreira recheada de azar. Há treinadores com sorte, há outros que parece que tudo de mau lhes acontece - olhe-se para José Peseiro para personificar este último grupo. Depois há José Mourinho. É um caso à parte. Mourinho tem o talento e a mestria de ser um dos melhores do planeta. Isso, por vezes, pode não chegar para ganhar. Mourinho tem também a felicidade que falta a tantos, tudo junto num só, uma verdadeira estrela de campeão que o acompanha para onde quer que vá e que só pareceu abandoná-lo quando o Chelsea, na sua última época em Inglaterra, foi devastado por lesões. Só aí lhe faltou. No mais, o treinador sai por cima.

Dar um título de campeão a um clube cinquenta anos depois é um motivo de grande força para ficar na História. Foi isso que José Mourinho fez no Chelsea, além de que devolveu a grandeza europeia aos blues, deixando-os bem cotados na Europa. Por isso, os adeptos lhe estarão eternamente agradecidos. Em Itália, porém, é sabido que tem sido diferente - Mourinho foi contratado, declaradamente, para vencer a Liga dos Campeões. Algo que pessoalmente alcançou "apenas" no FC Porto, em 2004, e que o Inter há muito ambiciona (venceu a então Taça dos Campeões Europeus, em 1964 e 1965) e Mancini, apesar de tricampeão, não fora capaz. Mourinho ganhou o tetra, o Inter não teve recursos para a Champions.

Este Inter parece ter mais probabilidades de perder do que acontecia com o Chelsea ou com o FC Porto, equipas quase invencíveis nos seus campeonatos. É justo dizer que não convence. Por isso se critica. Mas é assim que se joga em Itália, Il Speciale teve de se adaptar ao estilo, joga também nos bastidores e dispara contra todos. Mourinho continua a levar a melhor, invarivelmente. Pensa em ganhar: com talento, crença, garra e estrelinha. A estrela de campeão. Ontem, frente ao Siena, último classificado, a derrota esteve a um palmo. O Inter perdia, a três minutos dos noventa. Venceu por 4-3. Mourinho festejou como se ganhasse o campeonato. Deve ter percebido: esta estrelinha suporta tudo.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Milão sem ser Internazionale

Olhemos ao jogo de terça-feira, em Camp Nou. Um clássico do futebol europeu entre Barcelona e Inter de Milão. O jogo, importante para clarificar as contas do grupo, teve apenas um sentido. O Barça construiu uma vitória fácil na primeira parte, depois geriu o tempo e baixou o ritmo - outro jogo grande, este frente ao Real Madrid, se aproxima. Pelo contrário, o Inter foi sempre incapaz de criar lances de verdadeiro perigo, de jogar no meio-campo adversário e pressionar em busca de uma vitória que lhe garantiria a passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. A pressão alta e consistente do Barcelona contrastou com a apatia e incapacidade do Internazionale. Uma equipa que se viu quase vulgarizada, sem ter como ripostar e impedir o desenrolar dos acontecimentos.

Guardiola deixou, por precaução, Messi e Ibrahimovic no banco. Logo aí, sem poder contar com dois dos maiores génios do futebol mundial, o jogo perdeu alguma cor. Temeram os adeptos blaugrana que, por isso, a sua equipa partisse com alguma desvantagem. Do lado do Inter, faltou Wesley Sneijder, jogador que Mourinho recebeu in extremis mas se tem revelado fundamental na equipa italiana. Fazendo agora uma retrospectiva, a ausência de Sneijder é que teve real importância. Não que sirva de justificação para a má imagem deixada pelos nerazzuri mas pesou claramente. No Barcelona, os golos de Piqué e Pedro Rodríguez deixaram as ausências para trás. Que poderia fazer o Inter? Aquele que jogou em Camp Nou, quase nada.

José Mourinho, enquanto treinador do Inter de Milão, tem tido sucesso internamente mas ficado aquém na Liga dos Campeões. Conquistar a prova maior de clubes é um objectivo declarado. Veja-se que Roberto Mancini fora tetracampeão mas saiu por não ter triunfado internacionalmente. Por isso mesmo foi contratado Mourinho. Na época passada, a equipa caiu nos oitavos, derrotada pelo Manchester United. Agora, em 2009-10, tem sido demasiado intermitente na fase de grupos e o jogo de Barcelona complicou a tarefa. O Inter poderá mudar, chegar à próxima eliminatória e ter uma prestação de sucesso. Claro que sim. No entanto, à primeira vista, parece estar alguns furos abaixos da maior concorrência. O exemplo de cima é perfeito.

Barcelona, Manchester United e Chelsea têm estado, nas últimas temporadas, presentes em finais da Liga dos Campeões. Para esta época, voltam a ser os principais candidatos a erguer o troféu. Junta-se ainda o renovado Real Madrid, embora necessite de afirmar definitivamente, e até o Arsenal pode completar o lote. O Inter está junto a estes, sem que seja um dos principais favoritos. As soluções são menores, José Mourinho sobrevive essencialmente do tal talento de Sneijder, dos golos de Milito e Eto'o, das defesas de Júlio César. Uma equipa que pretenda chegar ao título de campeão europeu tem de ser mais do que isso: mais colectivo, mais consistente, mais regular. Só assim poderá ambicionar a Champions.

sábado, 19 de setembro de 2009

O insaciável Mourinho

O segredo é ser insaciável. A frase pertence a José Mourinho e é uma representação perfeita daquilo que o move e o leva a querer sempre chegar mais além. Amanhã, frente ao Cagliari, Mourinho alcançará o seu jogo quatrocentos como treinador principal. A estreia foi há já nove anos, no Bessa, num jogo pelo Benfica terminado como uma derrota. Na altura, não foi um bom prenúncio para um jovem técnico de trinta e sete anos que o então presidente Vale e Azevedo tinha escolhido, de forma arriscada, para comandar os encarnados. Teve o seu momento alto, em Dezembro, ao vencer o Sporting por 3-0. Esse foi, contudo, o seu último jogo na Luz pois viria a ser substituído por Toni, após a entrada de Manuel Vilarinho para a presidência do clube benfiquista.

Feitas as contas, foi apenas uma passagem fugaz pelo lugar principal de um banco de suplentes. José Mourinho, para Vilarinho, era apenas um treinador a prazo e não houve continuidade na aposta que Vale e Azevedo tão bem fizera - independentemente da sua gestão caótica, tem o mérito de ter sido o primeiro a descobrir Mourinho. Ao Benfica, seguiu-se o União de Leiria. Foi um passo atrás na carreira para, logo após, serem dados dois em frente. Gigantes. A extraordinária temporada alcançada nos leirienses, foi motivo mais do que suficiente para despertar a cobiça dos grandes portugueses. O FC Porto estava num período de grande crise de resultados, Pinto da Costa despedira Octávio Machado e o setubalense voltou à ribalta.

Foi na chegada às Antas que José Mourinho assumiu, de vez, a sua personalidade. Forte, ambicioso e desconcertante: na próxima época, tenho a certeza de que seremos campeões. Convenhamos que para um treinador que nada havia ganho, esta afirmação representou um risco brutal. Mas foi, principalmente, o início da marca Mourinho no futebol português. O FC Porto bebeu do treinador a confiança e a vontade de ganhar. Após a conquista da Liga dos Campeões, em 2004, Portugal ficou demasiado curto para tanta ambição. A tal ambição insaciável que Mourinho confessa, hoje, em entrevista ao jornal A BOLA.

Seguiu-se o Chelsea. Mais um degrau na carreira e no ego de José Mourinho porque, cinquenta anos depois, os londrinos voltaram a ser campeões ingleses. Por duas épocas consecutivas. Não passa de um provocador para os rivais, ficará para sempre como um ídolo para os adeptos blues. Tudo ganho, o projecto em Inglaterra estava cumprido. Era a vez de experimentar um outro campeonato, o italiano, talvez o mais aliciante a nível táctico. Chegou, viu os rivais, provocou-os até não mais poder e, acima de tudo, venceu mais dois troféus - Serie A e Supertaça. A partir daqui, esquece-se o passado e encara-se o futuro porque quatrocentos jogos e catorze títulos não chegam para o saciar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

"Não faço milagres!"

Não faço milagres, não sou o Merlin nem o Harry Potter. A pergunta era sobre novos reforços. E sobre as expectativas para a nova época. Irónica, a resposta de José Mourinho foi essa. No seu estilo habitual, neste primeiro dia da temporada em Milão, Mourinho afirmou que este não é o plantel que mais desejava mas é o possível. No entanto, deixou bem claro que a afirmação não se tratava de uma crítica aos dirigentes milaneses: "Não sou crítico, desiludido ou arrependido. É a realidade e temos de nos adaptar a ela". Voltemos a uma frase célebre de Mourinho, ainda no Chelsea: sem ovos não se fazem omoletes. É precisamente isso que pretende passar.

O Inter não foi, nem por sombras, dos clubes mais interventivos no mercado. O destaque foi inteirinho para o Real Madrid, mas o treinador português garante que isso não lhe tira o sono: "Podemos nem defrontar o Real Madrid e, por isso, não me preocupa". E os clubes italianos? "Nenhum me preocupa e todos me preocupam. Quem pensa que não precisa melhorar é parvo". Ilucidativo. Embora tenha acertado as contratações de Thiago Motta e Diego Milito, a verdade é que o clube campeão italiano não correspondeu a dois desejos principais do treinador: Deco e Ricardo Carvalho, por considerá-los demasiado caros.

Já na temporada passada, José Mourinho não construiu uma equipa à sua imagem. Apenas fez algumas mudanças ao legado de Roberto Mancini. Sagrou-se campeão italiano mas falhou na Liga dos Campeões, algo há muito esperado por dirigentes e adeptos. Nesta sua segunda época, a conquista europeia foi apontada como fundamental. Contudo, Mourinho volta a não ter capitais para investir como bem gosta, tal como acontecia no Chelsea. Assim sendo, mais uma vez, a ideia que fica é a de que este Inter é demasiado curto para vingar na Europa. Mourinho sabe-o. E já fez questão de o dizer. Porque não é milagreiro e para não lhe vir a ser cobrado.

sábado, 16 de maio de 2009

O décimo quarto título speciale

José Mourinho está a um pequeno passo de somar mais um campeonato, o décimo quarto título da sua carreira. É uma marca notável, dividida entre Portugal, Inglaterra e (agora) Itália. Há quem diga que é arrogante, prepotente e que usa e abusa dos mind-games provocando os adversários. Mourinho é isso tudo, de facto. Mas é um dos melhores treinadores do Mundo, mostra resultados ao mais alto nível. A sua primeira passagem por um grande clube aconteceu em 2000, quando chegou ao Benfica. Teve complicações mas não deixou de ser ele próprio como o comprova o célebre episódio com Sabry, acusado de demorar muito tempo para apertar as botas, imagine-se. Saiu ao fim de nove jogos, substituído por Toni, o homem da confiança de Manuel Vilarinho, o novo presidente. Num momento em que se começava a assumir nos encarnados.

Não ficou muito tempo no desemprego: ainda nessa época, comandou o União de Leiria, elevando aos leirienses a um patamar a que não estavam habituados, ou seja, colocou-os entre os melhores de Portugal. Deixou obra feita e saiu em Janeiro de 2002 para o FC Porto. Os portistas estavam num período de crise, em quinto lugar, e Pinto da Costa tinha acabado de despedir Octávio Machado. Mourinho chegou com o ego no máximo: "na próxima época vamos ser campeões de certeza". A frase é bem conhecida de todos, foi dita na sua apresentação no Estádio das Antas. O FC Porto terminou essa época em terceiro e, de qualquer forma, José Mourinho fez um bom trabalho.

As duas épocas de Mourinho no FC Porto estão bem presentes na memória de todos: bicampeão nacional, vencedor da Liga dos Campeões, da Taça UEFA, Taça de Portugal e Supertaça. Estava na plenitude dos seus recursos enquanto treinador, o campeonato português era demasiado pequeno para ele. Rumou a Inglaterra, ao Chelsea do milionário Roman Abramovich, em Junho de 2004. Não saiu a bem dos portistas, contudo. O russo disponibilizou as verbas, Mourinho construiu uma equipa à sua imagem. Na primeira época na Premier League, foi campeão, algo que os blues não conseguiam há meio século. Somou outros troféus, somou mais um campeonato. Faltou a Liga dos Campeões. Na sua terceira época em Inglaterra, teve incompatibilidades com Abramovich e acabou por sair em Setembro de 2007. Com glória, deixando um enorme sentimento de saudade nos adeptos. Sendo para sempre o special one, alcunha que deu a ele próprio.

Ficou o resto dessa temporada sem treinar. Regressou em 2008 para assumir o comando do Inter de Milão, substituindo Roberto Mancini que, apesar de tricampeão, não renovou o seu contrato. Foi chegar, ver e vencer a Supertaça frente à Roma. A fasquia foi colocada nos píncaros, a imprensa falou que o objectivo-mor era a vitória na Liga dos Campões, ou seja, algo que Mancini não conseguira. Mourinho, porém, também não pois caiu aos pés do Manchester United e esse sonho dos nerazzuri esfumou-se. O treinador português foi contestado por isso mas a verdade é que será campeão italiano no seu primeiro ano de Inter. No entanto, há que dizer que esta é talvez a equipa com menos dedo de Mourinho em relação ao FC Porto e ao Chelsea, a equipa menos espectacular e apaixonante. Aquilo que fez foi adaptar a sua filosofia de jogo aos jogadores que Roberto Mancini deixou - as contratações como Mancini, da Roma, e Quaresma, do FC Porto, revelaram-se autênticos fracassos.

Na próxima época, será diferente. Naturalmente, porque o objectivo Champions volta a ser prioritário. O estilo, esse, é que será o mesmo. Sempre com as picardias às imprensa e aos rivais. Os resultados estão à vista. São catorze títulos desde 2003. Goste-se ou não, o homem é mesmo speciale.

sábado, 2 de maio de 2009

Aquele Chelsea de Mourinho

O Chelsea é uma equipa da qual me habituei a gostar desde 2004. Sou um enorme admirador de José Mourinho e, por contágio, fiquei também do clube. Mourinho chegou no Verão desse tal ano de 2004, depois de ter sido campeão europeu no FC Porto, pela mão do milionário Roman Abramovich. Os londrinos estavam há precisamente 50 anos sem ganhar a Premier League, tinham-se perdido num domínio de Manchester United, Arsenal e Liverpool. Com o treinador special, chegaram os portugueses Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho, Petr Cech, Robben e Drogba. Jogadores que não tinham ainda uma grande propensão a nível mundial que se juntaram a alguns importantes na estrutura do Chelsea, casos de John Terry, Lampard, Cudicini ou Makelele.

Mourinho construiu um grupo fortíssimo. E dominador e desconcertante. À semelhança do treinador, daquilo que tinha feito em Portugal. Não deu hipóteses à concorrência, foi campeão no primeiro ano em Inglaterra - ainda ganhou mais alguns troféus mas o campeonato é sempre o mais importante. Repito: algo que não sucedia há meio século. Além disso, o Chelsea voltou a assumir um papel de relevo na Europa, tornando-se um lógico candidato a vencer a Liga dos Campeões. Dava gosto ver aquela equipa jogar, era um autêntico espectáculo. Falhou esse tal objectivo europeu. O Chelsea caiu nas meias-finais, aos pés do Liverpool de Rafa Benítez, o ódio de estimação de Mourinho. Porém, na ronda anterior tinha afastado o Barcelona de Rijkaard e Ronaldinho, no auge do seu poderio. Numa eliminatória deliciosa. No segundo jogo, aos vinte minutos, o Chelsea já tinha três golos de avanço.

A época seguinte não fugiu muito aos padrões da anterior. Os blues voltaram a vencer a Premiership sem contestação, voltaram a cair na Champions. Encontraram o Barça nos oitavos-de-final, foram eliminados. Foi uma espécie de vingança dos espanhóis. A eliminatória trouxe polémica, Mourinho acusou Frank Rijkaard de ter estado no balneário do árbitro Anders Frisk (viria mesmo a abandonar a arbitragem!) e disse que Messi havia feito teatro, "teatro de calidad". A terceira época de Mou no Chelsea tinha, para além de conquistar o tricampeonato, a "obrigatoriedade" de vencer a Liga dos Campeões. Porém, nada correu como nos anos transactos. Surgiram diversas contrariedades, inúmeras lesões. O campeonato foi para o Manchester United, onde começava a despontar Cristiano Ronaldo, mas mesmo assim o Chelsea lutou até final de todas as formas possíveis. José Mourinho disse que treinava uns verdadeiros heróis. Na Europa, acabaram novamente eliminados pelo Liverpool. Em penaltis.

O special one viria a sair no decorrer da época de 2007-08, de costas voltadas com Abramovich. Ficou Avram Grant no seu lugar. A equipa perdeu a magia que tinha com Mourinho, perdeu identidade mas continuou a lutar pelos seus objectivos. Internamente, o Manchester foi outra vez mais forte; chegou à final da Champions, algo que o português não tinha conseguido, perdendo de forma cruel nos penaltis perante os mesmos red devils de Alex Ferguson. O resto, para a frente, não importa. Importava mesmo era relembrar o melhor período do Chelsea. Daquele Chelsea de Mourinho, cheio de magias e encantos. Acredito que ambos têm saudades: o Chelsea e José Mourinho. Sim, porque foi marcante para ambos.

(Postado também no FUTEBOLARTTE, blogue do qual sou colaborador)

sexta-feira, 6 de março de 2009

É mesmo speciale

É impossível ficar-lhe indiferente: ou se ama ou se odeia, sem meio termo. Mourinho é frontal, directo, desconcertante. Se calhar por isso também lhe chamam arrogante. Tem um ego do tamanho do mundo já se sabe há muito, talvez desde a sua apresentação como treinador do FC Porto quando prometeu que seria campeão. Muitos desconfiaram mas ele cumpriu-o. Não costuma falhar. Partiu para Inglaterra para revolucionar a Premier League e devolver ao Chelsea a grandeza há muito desaparecida. Acabou com os jogos de cavalheiros, em que nada se discutia. Agora, em Itália, falou de "prostituição e manipulação intelectual". O ataque foi forte apanhando treinadores, árbitros e jornalistas. Disse ainda, pleno de ironia, que o "grande escândalo" está reservado para este fim de semana, nos jogos de Milan e Juventus.

Houve quem o apoiasse, houve quem o censurasse. O que é certo é que mais uma vez as palavras de Mourinho escaldaram. E até já se fala que poderá sair do Inter no final da época. Caso isso venha a acontecer, arrisca-se a sair com o título de campeão da Serie A, com uma valente indemnização e com a porta de Inglaterra, onde já disse querer regressar, aberta. Sairá mais uma vez por cima. Por isso causa tanto desconforto aos rivais. Foi assim em Portugal, em Inglaterra e agora em Itália. O homem é mesmo speciale.

domingo, 20 de julho de 2008

Il Speciale

Ele está de volta. José Mourinho já voltou ao activo. E já tem Itália aos seus pés...

Esteve no FC Porto e fez aquilo que toda a gente sabe. Depois revolucionou o futebol inglês. Acabou com os cavalheirismos e com o futebol eticamente correcto. Usou e abusou de "mind-games" e arranjou guerras com Wenger e Rafa Benítez, por exemplo. Com Mourinho, o futebol inglês - para mim o melhor - ganhou um novo espectáculo e passou a jogar-se também fora do campo. O "special one" ganhou tudo o que havia para ganhar.

Agora pelo Inter, acredito que irá tornar o futebol italiano - tipicamente chato e muito táctico - bem mais empolgante. O futebol precisa de Mourinho.

Eu já sou adepto do Inter.