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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Arranque para o Europeu: quais as consequências, Portugal?

Portugal inicia amanhã, sexta-feira, a caminhada de qualificação para o Europeu de 2012. Mergulhada num mar de polémica, a selecção, sem conseguir sequer colocar o pescoço de fora para receber algum oxigénio, vive atolada em problemas, intrigas e birras, que podem afectar o rendimento da equipa e, de certa forma, contribuir para um mau arranque. É real que possa acontecer, se bem que não passe pela cabeça de ninguém que Portugal não vença o Chipre e a Noruega - sobretudo a recepção aos cipriotas é de vitória obrigatória -, uma vez que a selecção não terá o seu líder, para o bem e para o mal, o treinador que guiou a selecção ao e no Mundial da África do Sul. Nesta convocatória, já sem Deco, Simão e Paulo Ferreira, também não há Ronaldo, o capitão, devido a uma lesão. Agostinho Oliveira, seleccionador interino na suspensão de Carlos Queiroz, terá de aguentar o barco, estabilizando e levando-o a bom porto.

A selecção portuguesa parece, neste momento, estar sem rei nem roque. Não tem o seleccionador, Carlos Queiroz, e, convenhamos, só num cenário de verdadeira utopia o voltará a ter. Os processos acumulam-se, as polémicas que envolvem Queiroz não têm fim à vista, juntam-se inúmeras pontas soltas, mal-entendidos e acusações, que retiram totalmente a margem de manobra ao, ainda, seleccionador e contribuem para que seja necessária uma mudança. Mas falta, por outro lado, uma tomada de posição da Federação, frontal e incisiva, procurando zelar pelo bem do futebol português, percebendo o actual estado da situação, deixando de lado questões de orgulho e de dinheiro, procurando reduzir ao máximo as consequências desportivas de uma decisão que, fosse qual fosse, há muito deveria estar tomada. Existe uma indemnização elevada, sim, mas, acima de tudo, uma selecção que precisa de tranquilidade para ter resultados.

Os jogadores, sem o seu líder, sem o seu capitão e formatadas para jogar em piloto-automático, como referiu Gilberto Madail, pretendem manter-se imunes, alheando-se de toda a polémica, de tudo aquilo que os afecta directamente e apenas se concentrarem nesta dupla jornada importante: trabalhar, lutar, ganhar e somar pontos com o horizonte bem definido. Sobressaem, ainda, as renúncias dos últimos dias, a juntar à de Deco declarada ainda na África do Sul, em que Simão Sabrosa e Paulo Ferreira, dois dos jogadores mais internacionais que marcaram presença neste Campeonato do Mundo - o extremo do Atlético de Madrid era mesmo, nos vinte e três eleitos, o que mais vezes vestira a camisola nacional -, deixaram a selecção, antecipando uma nova era, neste caso nos jogadores, para Portugal atacar uma nova fase com um novo grupo, pretendendo ficar bem cotado. Num Europeu, as hipóteses de sucesso são maiores. A responsabilidade também.

Para isso, como para qualquer coisa no futebol, é necessário existir equilíbrio, bom ambiente, vontade de triunfar e capacidade para enfrentar os desafios colocados no caminho. Portugal terá de construir um grupo forte, suportando a pressão e sabendo-se defender como colectivo. Fazer, no fundo, o que faltou na África do Sul. Precisa, antes de mais, de ver esclarecida a questão do seleccionador, sendo mais do que evidente que Carlos Queiroz perdeu completamente as condições para ficar, tendo desagradado aos patrões, aos adeptos e aos próprios jogadores. A própria Federação, com tantos avanços e recuos, confrontada com a sua falta de frontalidade para tomar uma medida em relação ao futuro técnico, poderá estar em xeque e, a cada dia, perdendo a sua credibilidade junto dos portugueses. Numa altura tão importante, no arranque para uma caminhada longa, poderá ser fatal. Quais as reais consequências de tal confusão?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Carlos Queiroz: Crónica de uma morte anunciada

Ponto prévio: O texto é recuperado do dia 20 de Agosto. Passaram doze dias. Carlos Queiroz está suspenso. Agora, depois da avocação do processo, com um castigo de seis meses. A Federação Portuguesa de Futebol, titubeante e indecisa, mantém o seleccionador no cargo, Gilberto Madail parece dar confiança a Carlos Queiroz, corre ainda um novo processo movido pela Direcção federativa devido às declarações proferidas pelo seleccionador sobre Amândio de Carvalho, tendo-se dizimado as condições para a continuidade de Queiroz à frente da selecção nacional. Todos o sabem, ninguém o assume. Entretanto, depois da renúncia de Deco, também Simão Sabrosa e Paulo Ferreira abandonaram a selecção. Um novo ciclo se anuncia. Falta saber quando será oficializada a rescisão com Carlos Queiroz, apesar da indemnização que a trava, e quais as verdadeiras consequências de tamanho impasse. O Europeu está à porta!...

Carlos Queiroz é uma espécie de Santiago Nasar. Está no fio da navalha, tem as portas da Federação escancaradas e viu agora ser-lhe aplicada uma suspensão de um mês. Conseguiu os apoios dos presidentes de dois dos principais clubes portugueses, respirou por momentos, mas vive atolado em problemas, em intrigas que o fazem perder a confiança dos patrões e dos adeptos, sem solução à vista. A sua continuidade à frente da selecção nacional tem os dias contados. Todos o percebem. As condições para continuar o seu trabalho há muito se perderam. Mas, como Santiago Nasar, ninguém o assume, todos se fecham em copas, Queiroz acredita que pode continuar e sente-se fortalecido. Mesmo que todos saibam que morrerá em breve. A Federação, uma Angela Vicario ferida na sua honra, prolonga o tempo e teima em não se decidir.


Há duas formas diferentes, que no fundo se cruzam, de olhar para Carlos Queiroz: o treinador e o homem. Queiroz é pragmático, expectante, meticuloso e trabalhador. Carlos tem o coração perto da boca, corre riscos, aponta o dedo sem temores e coloca-se a jeito de polémicas desnecessárias e evitáveis. Ao longo do seu período na selecção nacional, já lá vão dois anos, Carlos Queiroz, o homem que é treinador, não tem sabido conciliar essas duas vertentes. Nunca conseguiu mobilizar o povo português, não teve o apoio interno que deveria, faltou-lhe dar o clique capaz de unir o grupo de jogadores e transformá-lo num todo com uma orientação bem definida. Aí, nesse campo, exige-se sobretudo trabalho psicológico, quebrando a monotonia e o facilitismo, apelando à garra para jogar nos limites.

A prestação de Portugal no Mundial da África do Sul é razoável. Colocar apenas os extremos bom e mau em confronto é demasiado redutor, até porque Portugal nem foi uma coisa nem outra, sendo mau ficar na fase de grupos e bom tudo aquilo que viesse para além dos oitavos-de-final. Razoável assenta como uma luva: a selecção nacional ultrapassou os objectivos mínimos e caiu, na primeira eliminatória, ante a Espanha. Só ganhou um jogo, marcando por sete vezes frente à frágil Coreia do Norte, tendo somado dois empates na primeira fase e apenas sofrendo um golo, o decisivo, que travou a caminhada nos oitavos e lançou os espanhóis. A prestação, por isso, é razoável. Portugal, com maior audácia e capacidade ofensiva, sendo uma equipa mais intuitiva e menos fixa, poderia ter ido mais além? Provavelmente sim.

Carlos Queiroz, quando chegou para substituir Luiz Felipe Scolari, entrou na caminhada rumo ao Mundial 2010. Portugal apurou-se, mesmo sendo sob o soar do gongo, tendo uma participação na África do Sul que foi, repete-se, razoável. Outro dos objectivos, e é aí que Queiroz é realmente bom, passou pela renovação da selecção. Com vista para o futuro e fruto do desenvolvimento que tiveram nos seus clubes, fixaram-se Eduardo, Fábio Coentrão ou Nani. À primeira vista, esta primeira metade do trabalho de quatro anos entregue a Carlos Queiroz, foi cumprida. Sem brilhantismo, sem rasgo de génio, mas conseguindo o que se pedia. Se a Federação, depois do Mundial 2010, entende que Carlos Queiroz falhou a sua missão, considerando ter sido o trabalho negativo, só tem um caminho: reconhecer que errou no projecto, que pretendia mais do que afirmava, dispensar o treinador e chegar a acordo pela verba a pagar.

Só que a Federação Portuguesa de Futebol entendeu que o trabalho foi positivo: Portugal chegou aos oitavos, tudo bem, não foi brilhante mas também não é por isso que o Mundo vai acabar. Carlos Queiroz foi criticado pelos adeptos, analisaram-se os erros, o que esteve mal. Os patrões demonstraram vontade de o apoiar e o manter o cargo. Afinal, havia cumprido o papel que lhe estava destinado. No entanto, mais do que discutir as tácticas utilizadas ou a postura incutida na selecção pelo treinador, existem as atitudes. Carlos Queiroz é a calma em pessoa, transpira serenidade, encara o futuro com confiança e está sempre convicto de que vai triunfar, nem que seja o único a pensar assim. Isso é, pelo menos, o que transparece. É o que aparenta. Mas não é a realidade: Carlos, o homem, não soube juntar o grupo, teve incidentes pouco recomendáveis, envolveu-se em picardias e colocou-se à mercê de quem o quis ver pelas costas.

Carlos Queiroz não foi devidamente protegido, sim, mas também não fez por isso e perdeu a unanimidade que tivera aquando da sua entrada na selecção. Os insultos dirigidos a Luís Horta, ainda na Covilhã, são apenas uma polémica em que Carlos Queiroz se envolveu. Antes já havia tido um desacato com o jornalista Jorge Baptista. Mas este é o mais grave: vale um mês de suspensão, deixa-o fragilizado, embora tenha conseguido dois inusitados apoios de peso, criticado pelos adeptos e com guerrilhas dentro da própria Federação. Por mais que se pretenda soltar, procurando minimizar os efeitos que todos estes incidentes têm na sua imagem, aparece sempre algo mais, um problema antigo, um mal-entendido, um foco de instabilidade. Agora, depois de ter acusado publicamente Amândio Carvalho, seu superior hierárquico, Carlos Queiroz terá mais um processo disciplinar pela frente.

O mais importante de tudo é perceber o melhor para a selecção. Carlos Queiroz tem condições para regressar da suspensão, assumir o comando, fazendo de conta que nada aconteceu de anormal, colocar a serenidade no rosto, unir as pontas soltas, criar um grupo forte e levar Portugal ao Europeu 2012? Não. Porque não tem os jogadores consigo, os adeptos estão descrentes e os patrões insatisfeitos, não tanto pelo seu trabalho, mas com as controvérsias em que se vê inserido. Queiroz é visto como réu e vítima. E, na verdade, talvez seja um pouco de ambos. A falta de coragem da Federação, tendo numa primeira instância esquecido o incidente na Covilhã, apenas o recuperando após o Mundial, é um ponto a favor do seleccionador. Mas também Carlos Queiroz, de uma forma ou de outra, não se soube abstrair e pecou ao criticar tudo e todos. Até quando se arrastará o caso?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Carlos Queiroz: Crónica de uma morte anunciada

Carlos Queiroz é uma espécie de Santiago Nasar. Está no fio da navalha, tem as portas da Federação escancaradas e viu agora ser-lhe aplicada uma suspensão de um mês. Conseguiu os apoios dos presidentes de dois dos principais clubes portugueses, respirou por momentos, mas vive atolado em problemas, em intrigas que o fazem perder a confiança dos patrões e dos adeptos, sem solução à vista. A sua continuidade à frente da selecção nacional tem os dias contados. Todos o percebem. As condições para continuar o seu trabalho há muito se perderam. Mas, como Santiago Nasar, ninguém o assume, todos se fecham em copas, Queiroz acredita que pode continuar e sente-se fortalecido. Mesmo que todos saibam que morrerá em breve. A Federação, uma Angela Vicario ferida na sua honra, prolonga o tempo e teima em não se decidir.

Há duas formas diferentes, que no fundo se cruzam, de olhar para Carlos Queiroz: o treinador e o homem. Queiroz é pragmático, expectante, meticuloso e trabalhador. Carlos tem o coração perto da boca, corre riscos, aponta o dedo sem temores e coloca-se a jeito de polémicas desnecessárias e evitáveis. Ao longo do seu período na selecção nacional, já lá vão dois anos, Carlos Queiroz, o homem que é treinador, não tem sabido conciliar essas duas vertentes. Nunca conseguiu mobilizar o povo português, não teve o apoio interno que deveria, faltou-lhe dar o clique capaz de unir o grupo de jogadores e transformá-lo num todo com uma orientação bem definida. Aí, nesse campo, exige-se sobretudo trabalho psicológico, quebrando a monotonia e o facilitismo, apelando à garra para jogar nos limites.

A prestação de Portugal no Mundial da África do Sul é razoável. Colocar apenas os extremos bom e mau em confronto é demasiado redutor, até porque Portugal nem foi uma coisa nem outra, sendo mau ficar na fase de grupos e bom tudo aquilo que viesse para além dos oitavos-de-final. Razoável assenta como uma luva: a selecção nacional ultrapassou os objectivos mínimos e caiu, na primeira eliminatória, ante a Espanha. Só ganhou um jogo, marcando por sete vezes frente à frágil Coreia do Norte, tendo somado dois empates na primeira fase e apenas sofrendo um golo, o decisivo, que travou a caminhada nos oitavos e lançou os espanhóis. A prestação, por isso, é razoável. Portugal, com maior audácia e capacidade ofensiva, sendo uma equipa mais intuitiva e menos fixa, poderia ter ido mais além? Provavelmente sim.

Carlos Queiroz, quando chegou para substituir Luiz Felipe Scolari, entrou na caminhada rumo ao Mundial 2010. Portugal apurou-se, mesmo sendo sob o soar do gongo, tendo uma participação na África do Sul que foi, repete-se, razoável. Outro dos objectivos, e é aí que Queiroz é realmente bom, passou pela renovação da selecção. Com vista para o futuro e fruto do desenvolvimento que tiveram nos seus clubes, fixaram-se Eduardo, Fábio Coentrão ou Nani. À primeira vista, esta primeira metade do trabalho de quatro anos entregue a Carlos Queiroz, foi cumprida. Sem brilhantismo, sem rasgo de génio, mas conseguindo o que se pedia. Se a Federação, depois do Mundial 2010, entende que Carlos Queiroz falhou a sua missão, considerando ter sido o trabalho negativo, só tem um caminho: reconhecer que errou no projecto, que pretendia mais do que afirmava, dispensar o treinador e chegar a acordo pela verba a pagar.

Só que a Federação Portuguesa de Futebol entendeu que o trabalho foi positivo: Portugal chegou aos oitavos, tudo bem, não foi brilhante mas também não é por isso que o Mundo vai acabar. Carlos Queiroz foi criticado pelos adeptos, analisaram-se os erros, o que esteve mal. Os patrões demonstraram vontade de o apoiar e o manter o cargo. Afinal, havia cumprido o papel que lhe estava destinado. No entanto, mais do que discutir as tácticas utilizadas ou a postura incutida na selecção pelo treinador, existem as atitudes. Carlos Queiroz é a calma em pessoa, transpira serenidade, encara o futuro com confiança e está sempre convicto de que vai triunfar, nem que seja o único a pensar assim. Isso é, pelo menos, o que transparece. É o que aparenta. Mas não é a realidade: Carlos, o homem, não soube juntar o grupo, teve incidentes pouco recomendáveis, envolveu-se em picardias e colocou-se à mercê de quem o quis ver pelas costas.

Carlos Queiroz não foi devidamente protegido, sim, mas também não fez por isso e perdeu a unanimidade que tivera aquando da sua entrada na selecção. Os insultos dirigidos a Luís Horta, ainda na Covilhã, são apenas uma polémica em que Carlos Queiroz se envolveu. Antes já havia tido um desacato com o jornalista Jorge Baptista. Mas este é o mais grave: vale um mês de suspensão, deixa-o fragilizado, embora tenha conseguido dois inusitados apoios de peso, criticado pelos adeptos e com guerrilhas dentro da própria Federação. Por mais que se pretenda soltar, procurando minimizar os efeitos que todos estes incidentes têm na sua imagem, aparece sempre algo mais, um problema antigo, um mal-entendido, um foco de instabilidade. Agora, depois de ter acusado publicamente Amândio Carvalho, seu superior hierárquico, Carlos Queiroz terá mais um processo disciplinar pela frente.

O mais importante de tudo é perceber o melhor para a selecção. Carlos Queiroz tem condições para regressar da suspensão, assumir o comando, fazendo de conta que nada aconteceu de anormal, colocar a serenidade no rosto, unir as pontas soltas, criar um grupo forte e levar Portugal ao Europeu 2012? Não. Porque não tem os jogadores consigo, os adeptos estão descrentes e os patrões insatisfeitos, não tanto pelo seu trabalho, mas com as controvérsias em que se vê inserido. Queiroz é visto como réu e vítima. E, na verdade, talvez seja um pouco de ambos. A falta de coragem da Federação, tendo numa primeira instância esquecido o incidente na Covilhã, apenas o recuperando após o Mundial, é um ponto a favor do seleccionador. Mas também Carlos Queiroz, de uma forma ou de outra, não se soube abstrair e pecou ao criticar tudo e todos. Até quando se arrastará o caso?

terça-feira, 27 de julho de 2010

Selecção Nacional: Passado, presente e futuro

Frio, distante e pouco mobilizador. Carlos Queiroz é assim. Será sempre o professor metódico, estudioso, observador e teórico. O seleccionador nacional acredita no seu trabalho. Percebe como joga o adversário e traça um plano de jogo, conhecendo as qualidades e os defeitos da sua equipa, para que tenha condições de ser bem-sucedido. O trabalho de Carlos Queiroz é lembrado sobretudo pelas conquistas de dois títulos mundiais de juniores. Contudo, enquanto treinador principal de equipas de topo, em seniores, Queiroz nunca teve realmente sucesso. Vive até com o estigma de pé-frio. E talvez seja um pouco. Portugal, no Mundial 2010, ficou-se por um nível razoável. Não se pode dizer que tenha sido um fracasso, porque a passagem aos oitavos-de-final, o objectivo principal, foi conseguida com comodidade, mas também ficou bem longe do que os adeptos queriam e a selecção nacional podia. Sobretudo devido à postura utilizada.

Em tudo são necessárias rupturas. Quando algo não está bem, o balanço é mau e é imperativo adoptar outra mentalidade, totalmente diferente, romper com o passado aparece como única via possível a seguir. Há, contudo, situações em que uma ruptura, alterando a filosofia, não é o mais indicado para o presente. Luiz Filipe Scolari, campeão mundial na Ásia pelo Brasil, chegou a Portugal com a missão de virar a página. A selecção portuguesa, indisciplinada e fracassada no Mundial, necessitava de mudanças profundas. Com outros rostos, com outros métodos, com outras ideias. Scolari, o Sargentão, chegou com força, impôs-se, mesmo encontrou guerrilhas, e construiu na selecção nacional um núcleo duro que protegeu e guardou até ao fim. Nunca teve uma preocupação com o futuro, com a renovação da equipa, com o facto de muitos dos principais elementos, os últimos resistentes da Geração de Ouro, estarem próximos de abandonar.

Luiz Filipe Scolari foi um treinador contratado para obter resultados imediatos. Portugal não conseguiu nenhum título, sim, mas foi vice-campeão europeu, desperdiçando uma oportunidade única de entrar verdadeiramente na História, e conseguiu um honroso quarto lugar no Campeonato do Mundo de 2006. Ficou para trás toda a decepção e todos os problemas resultantes do Mundial da Ásia. Um dos principais méritos do seleccionador brasileiro esteve na forma como soube lidar com a mente dos jogadores e dos adeptos portugueses. Mostrou fé, alma, pediu bandeiras na janela, puxou pelo país, colocou o futebol no centro das prioridades e, aproveitando o facto de Portugal ter ganho a realização do Europeu de 2004, foi capaz de criar uma gigantesca onda de apoio aos jogadores. O carácter, a ambição e a chama da selecção nacional foi notória. E serviu, em muitos momentos, para vencer. Só que aos poucos foi-se perdendo.

O futebol, como tudo, é feito de ciclos. O de Scolari chegou ao fim em 2008. O futebol português entrara numa quebra, a selecção ressentiu-se. O seleccionador deixou de ter a mesma disponibilidade. No Europeu, onde Portugal partia com esperança de voltar a chegar à final, a selecção nacional ficou-se pelos oitavos-de-final, caindo aos pés da Alemanha. O reinado de Scolari, com tudo de bom e mau que isso significa, terminara. Foi principalmente após a saída do treinador brasileiro que se levantaram as maiores interrogações em torno da selecção portuguesa: como seria sem Figo, sem Rui Costa, sem Pauleta, sem Costinha, sem tantos outros de elevada importância para Luiz Filipe Scolari? O futebol português caracteriza-se, além disso, pela sua importação. O expoente máximo da falta de recursos existentes em Portugal foi a inclusão, ainda sob o leme de Scolari, de Deco e Pepe, brasileiros naturalizados portugueses.

A saída de Scolari é uma boa situação, leitor, de onde não é necessário ruptura. Apesar de nada ter conquistado, com Felipão, Portugal ganhara um novo fôlego e abrira horizontes. No entanto, como já se disse, deixara a formação para trás. Daí que, por exemplo, a posição de avançado e de lateral-esquerdo se afigurassem como duas das maiores preocupações. Importava, sim, preencher essa lacunas, nunca romper com o passado - afinal, fora um bom trajecto e o caminho a ser seguido passaria, acima de tudo, pela cimentação e fortalecimento da posição da selecção nacional. Ao contratar Carlos Queiroz, a Federação Portuguesa de Futebol demonstrou essa preocupação: o treinador português trabalha bem com jovens, tem experiência e seria a pessoa indicada para renovar a selecção nacional. Para isso precisaria de tempo e margem de manobra. A verdade, porém, é que Queiroz nunca a teve. Entrou logo em competição a doer.

Scolari é um homem de paixões. Emotivo, impulsivo e mobilizador. Carlos Queiroz é o contrário: mais frio, mais pragmático, mais ponderado e mais contido. Toda a onda de entusiamo que se criara com o treinador brasileiro, embora diminuindo com o tempo, perdeu-se definitivamente com a entrada de Queiroz. Mesmo quando o horizonte de Portugal pareceu verdadeiramente negro, sem a África do Sul pelo caminho, Carlos Queiroz manteve a esperança de como, no final, Portugal conseguiria o seu objectivo. Poderia ser o único a pensá-lo, mas estava confiante porque acredita no que faz. O problema é que a maioria dos adeptos portugueses, fervorosos e apaixonados, tinham em si instalada a descrença. Mas Portugal, com tropeções e quedas no caminho, conseguiu apurar-se para o Mundial. Foi bom, o objectivo alcançado, apesar dos percalços. A fé, contudo, perdera-se.

UMA AMBIÇÃO DISFARÇADA E UMA QUESTÃO PARA O FUTURO

A divulgação dos vinte e três eleitos para o Mundial da África do Sul foi um prenúncio: jogar à defesa. E confirmou-se. Portugal encontrou adversários fortes, excepção feita à Coreia do Norte, motivadores de todo o respeito - Costa do Marfim é uma selecção que se equivale à portuguesa, Brasil e Espanha estão acima. Em todos eles, a estratégia foi a mesma: equipa expectante, pragmática, esperando pelas investidas do adversário para, em velocidade, tentar surpreender e ser feliz. Na fase de grupos, resultou. Num jogo a eliminar, ainda por cima com a Espanha, uma selecção maníaca pela bola, nunca poderia. Carlos Queiroz tinha prometido maior ousadia, maior ambição e maior coragem. Portugal não a teve. Daí que entre os adeptos, e também entre os jogadores, tenha ficado um sabor a pouco. Não foi mau de todo, isso seria ficar na fase de grupos, mas... poderia ter sido bem melhor. A selecção foi, no fundo, um reflexo do treinador.

Ao futebol da selecção nacional, demasiadamente pensado e sem rasgos de génio, faltou um abanão. O plano de contenção traçado por Carlos Queiroz, privilegiando a coesão defensiva, roçou o brilhantismo. Só que faltou astúcia para chegar mais longe. Entre guardar um nulo ou arriscar para ganhar, Portugal sempre preferiu não se desfazer da sua estratégia. Mais do que tudo, seria necessário deixar as amarras, dar liberdade ao génio individual, quebrar o pragmatismo e correr os riscos necessários. O resultado poderia ser o mesmo ou, talvez, ainda pior. Mas todos ficariam com a sensação de ter cumprido o seu dever. Algo que não aconteceu desta vez. Em Carlos Queiroz, como em Cristiano Ronaldo, a maior figura portuguesa e de quem mais se exige, caíram todas as responsabilidades. O capitão voltou a estar mal no relvado, não reagiu bem e recebeu inúmeras críticas. O treinador foi colocado em xeque. E perdeu espaço.

A imagem de Carlos Queiroz, sempre procurando transparecer serenidade e confiança, ficou, a cada momento, mais fragilizada. Numa primeira fase, ainda na África do Sul, surgiram as críticas públicas por parte de Deco, o discurso desarticulado com Hugo Almeida e as palavras amargas de Ronaldo. Já depois de feito o rescaldo, em solo português, foi atribuída a Queiroz uma frase dura, cáustica e desconcertante, onde o seleccionador acusou a estrutura federativa de amadorismo - algo que motivou uma resposta violentíssima do seleccionador. Agora, já depois de ter sido conhecida a verba monetária a receber pelo seleccionador, surge, referido como se tratando de "matéria delicada", a abertura de um inquérito disciplinar, sob alçada do Instituto do Desporto de Portugal e da Federação Portuguesa de Futebol, devido a um comportamento incorrecto da parte de Carlos Queiroz para com os médicos que realizam os testes anti-doping.

Seja provado ou não o tal comportamento incorrecto do seleccionador ainda na Covilhã, sejam ou não acertadas as críticas dos jogadores, seja ou não verdade a declaração sobre o "amadorismo" existente na Federação Portuguesa de Futebol, a imagem de Carlos Queiroz sai extremamente prejudicada. Junto dos adeptos, pelo menos de uma grande parte deles, Queiroz é um seleccionador muitíssimo bem pago (auferindo, por ano, uma verba de um milhão e seiscentos mil euros) e que pouco conseguiu no Mundial 2010. Com todas as polémicas existentes, Queiroz fica descredibilizado, perdendo a cada passo margem de manobra e, até pelas palavras dos jogadores, sem as condições ideais para conseguir juntar as duas partes do seu trabalho: renovar a selecção nacional e fortalecê-la rumo ao Europeu de 2012. A pergunta que se impõe neste momento é simples e incisiva: terá Carlos Queiroz condições para o fazer?


sábado, 10 de julho de 2010

As intrigas que descredibilizam a selecção nacional

Ponto prévio: o futebol é um jogo de intrigas. E de suspeição, mistério e polémica. São mais do que meio caminho andado para que, mais tarde ou mais cedo, ocorram problemas. Este ano, por exemplo, a participação de Portugal no Mundial da África do Sul foi assolada por uma nuvem de intriga. Numa fase tão importante, em que é imperativo manter a concentração no limite e apenas estar focado numa boa presença colectiva, a selecção nacional, sem que tenha feito muito para alterar a situação, permitiu que o grupo de trabalho fosse, de alguma forma, atingido. Não funcionou - como deveria - o escudo de protecção, algo que servisse para resguardar os jogadores e o próprio seleccionador. O ambiente vivido no seio da comitiva nacional não foi o melhor. É isso, pelo menos, que se percebe. A Carlos Queiroz, mais do que tudo, terá faltado capacidade de liderança. Conseguirá assumir-se a tempo?

A lesão de Nani foi o ponto de partida para a polémica. O jogador, porventura o que estaria em melhor forma nos eleitos de Carlos Queiroz, viu-se impossibilitado de participar no Campeonato do Mundo. Uma lesão, um azar sempre à espreita, foi o responsável. Infortúnio, sim, mas algo a que os futebolistas estão sujeitos. Contudo, a forma como a lesão foi comunicada - nunca tendo sido, até à data em que foi oficializado pela Federação Portuguesa de Futebol que Nani não teria condições para se manter na comitiva portuguesa, noticiado qualquer problema - deixou no ar alguma suspeição que abalou a tranquilidade da selecção nacional. Não demorou até se levantarem rumores, envolvendo um eventual controlo anti-doping positivo. Acresce ainda que, após aterrar em solo português, Nani adiantou que numa semana estaria recuperado. A política de comunicação, desde o silêncio do corpo clínico às declarações do jogador, falhou por completo.

Seguiram-se polémicas com Deco, Hugo Almeida e, sobretudo, Cristiano Ronaldo. O médio luso-brasileiro, desiludido pelo empate inicial frente à Costa do Marfim, não hesitou em apontar o dedo a Carlos Queiroz. Logo após, contudo, se retractou (à semelhança do que fizera Nani). Seja como for, a verdade é que o médio do Chelsea, com uma lesão pelo meio, não mais foi opção na selecção nacional: castigo? Opção estratégica? A polémica criada com Deco não fica, porém, por aqui, uma vez que após a eliminação, com a Espanha, o internacional português, quando questionado sobre o ambiente vivido no seio da selecção nacional, respondeu com mistério: "Bom ambiente? Entre os jogadores, sim". Hugo Almeida, no mesmo momento, afirmou que gostaria de ter jogado mais - foi substituído, aos cinquenta e sete minutos, por Danny. O seleccionador afirmara que estava exausto. Almeida negou. São pormaiores.

A declaração de Cristiano Ronaldo, pela responsabilidade inerente ao estatuto de capitão e pelo mediatismo daquela que é a principal figura da selecção portuguesa, ganhou proporções gigantescas. Ainda no final do jogo com a Espanha, enquanto Carlos Queiroz respondia aos jornalistas na sala de imprensa, Ronaldo, passando apressadamente pela zona mista, remeteu todas as explicações da eliminação para o seleccionador: "Falem com o Carlos Queiroz!". A posição do seleccionador, já acusado de ter optado por postura demasiado cautelosa e sem correr riscos, ficou fragilizada. A Carlos Queiroz terá faltado, sobretudo, liderança: por todas as declarações dos jogadores, principalmente Deco e Ronaldo, percebe-se que nunca conseguiu unir o grupo, focá-lo num objectivo concreto e criar um espírito positivo e mobilizador. Contudo, além das críticas dos jogadores, também nunca nenhum responsável federativo apareceu para proteger o grupo de trabalho.

Já com a eliminação portuguesa do Mundial 2010 devidamente analisada e com a garantia de que Carlos Queiroz se irá manter na liderança técnica da selecção nacional, foi atribuída ao seleccionador uma frase polémica, corrosiva, duríssima: "Tendo em conta a estrutura amadora da Federação Portuguesa de Futebol, as coisas correram muito bem a Portugal". A declaração foi de pronto desmentida e o jornalista do semanário SOL, que a publicara e garante ter o registo aúdio consigo, imediatamente arrasado por Carlos Queiroz. Quem tem razão? A única certeza, neste momento, é que a posição de Queiroz está longe de ser segura. O seleccionador nacional, para a maioria dos adeptos um dos principais culpados da eliminação portuguesa, terá condições de conseguir liderar Portugal ao Europeu 2012? Para o conseguir precisará de mobilizar a nação portuguesa e unir o grupo. Sabendo quem salta com ele para a selva.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

As explicações que faltam na lesão de Nani

O caso (sim, porque os rumores e a suspeição já lhe deram esse indesejável estatuto) da lesão de Nani, que fez o avançado português do Manchester United abandonar a selecção nacional, está longe de ser bem explicado. Os médicos da Federação Portuguesa de Futebol, contrariamente ao que seria expectável, não esclareceram, logo após ter sido comunicada a impossibilidade de Nani marcar presença no Campeonato do Mundo da África do Sul, a verdadeira causa da substituição do extremo. Só depois ficou realmente apurado que Nani se ressentira de uma lesão no ombro direito, motivada por uma queda, após ter tentado realizar um pontapé acrobático durante um treino. A rapidez com que Nani foi dispensado e substituído por Rúben Amorim, aliada à pouca informação fornecida acerca da lesão, foi o ponto de partida para se terem espalhado rumores. Envolvendo, por exemplo, um eventual caso de doping.

Pouco antes do jogo de Portugal com Moçambique, o último de preparação antes do arranque do Mundial, foi oficializada a saída de Nani da selecção portuguesa. Ao contrário do que fez com Pepe - que motivou a convocatória de mais um elemento (José Castro) para o estágio na Covilhã, mas acabou por ser confirmado como um dos vinte e três eleitos para rumar à África do Sul -, Carlos Queiroz, de imediato, procedeu à substituição do jogador. Nani era, do meu ponto de vista, o jogador em melhor forma, com mais confiança e em quem, para além de Ronaldo, os portugueses depositavam as suas esperanças de ver a selecção nacional conseguir uma prestação convincente. Foi estranho, por isso, que Queiroz não tenha aguardado, percebendo se a lesão de Nani o faria mesmo falhar a competição ou se, como Eriksson e Marcello Lippi, com Drobga e Pirlo, respectivamente, teria sido melhor manter a aposta no jogador.

As palavras de Nani, ontem, à chegada a Lisboa, serviram para aumentar ainda mais as dúvidas em torno da saída do jogador do Manchester United da lista de vinte e três eleitos para representar Portugal na África do Sul. Ainda no aeroporto, quando confrontado com a extensão da lesão, Nani respondeu que dentro de uma semana estaria recuperado. Assim sendo, levando à letra as suas palavras, não faria sentido, por se tratar de um jogador em excelente forma e a atravessar o melhor momento da sua carreira, dispensá-lo tão rapidamente. Até porque Rúben Amorim, o seu substituto na convocatória, é um jogador com características bem diferentes e que, na temporada anterior, foi utilizado como lateral-direito na equipa do Benfica. Não se percebe, ainda, o facto de, apesar de se ter lesionado em Portugal, Nani tenha rumado à África do Sul sem que tenha sido referido qualquer problema físico. Nunca ninguém a ele se reportou.

A forma como a lesão de Nani foi (mal) comunicada serve para criar um clima de mistério. Que, claro, dará azo a diferentes interpretações - havendo, inclusive, quem refira a lesão como um escape a um controlo anti-doping. Carlos Queiroz nunca assumiu publicamente qualquer problema, os médicos da selecção não comunicaram qualquer atenção especial devido à lesão de Nani e o próprio jogador, até ser oficial que regressaria a Portugal, não abordou o tema. Ninguém, sequer, desconfiou que a lesão existia. O que é estranho. A solução só poderia passar por uma comunicação clara e inequívoca, terminando com o burburinho criado e que esclarecesse, por fim, toda a situação. Ora, as palavras de Nani, dizendo que numa semana estará operacional, vêm em sentido contrário. Queiroz, na antevisão ao jogo com a Costa do Marfim, desvalorizou. Entretanto, o jogador remendou o que dissera, avançando ter sido mal interpretado. A comunicação falha a toda a linha. Há necessidade de continuar na suspeição?...