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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Benfica-Rio Ave, 2-1 (crónica)

CHAMAR CARDOZO PARA TRAZER O TROFÉU

Noventa minutos e um ponto para conquistar. Era somente o que faltava para o Benfica confirmar o trigésimo segundo título do seu historial, sem ter de pensar em resultados de terceiros, dando asas à coroação de uma caminhada triunfante, superior e meritória dos encarnados. O golo de Cardozo, aos três minutos, logo seguido de uma expulsão de Wires, aos onze, desbravou caminho à cavalgada benfiquista, galvanizado pelo público, empurrado para a vitória, levado por uma mole humana sedenta de conquistas. Houve oportunidades mais do que suficientes. Não foram, porém, concretizadas. Ricardo Chaves, médio do Rio Ave, ameaçou a festa. Até Cardozo, de novo decisivo, confirmar o triunfo. O Benfica ganhou, encheu-se de alegria e fez a sua festa. É campeão nacional!

Numa história, para ser verdadeiramente uma história convencional, tem de haver heróis e vilões. O papel do Rio Ave era ingrato. Jogar na Luz, com a iminência de ver o Benfica sagrar-se campeão nacional, não poderia ser aliciante. Havia, contudo, o brio para manter. E História, caso conseguisse tirar o título aos encarnados, com a vontade de cometer uma gracinha e mostrar qualidade suficiente para não deixar o Benfica festejar como bem entendesse. Não seria um mero figurante. A ideia, pelo menos, era essa. O Benfica entrou forte, pressionando, carregando até chegar ao golo. Veio logo aos três minutos. A Luz explodiu em delírio. O mais difícil estava feito, o caminho desbravado, Cardozo colocara a bola na baliza de Carlos, os encarnados, mandões e imperiais, já tinham marcado o seu território. O público sentiu o triunfo na mão. Sentiu o título.

Falou-se em heróis e vilões. Vamos aos vilões, primeiro. Wires foi mais do que isso: apareceu na Luz como um diabo, um pesadelo em que Carlos Brito se viu inserido, traindo a sua equipa. Esteve onze minutos em campo. E fez tudo mal: nervoso, ansioso, um autêntico desastre. Aos três minutos, Wires não tirou a bola, deixou-a na sua área, Cardozo antecipou-se a Gaspar e marcou. À matador, oportuno e matreiro, Tacuara decidiu. Foi ele o herói do Benfica. O defesa brasileiro do Rio Ave, contudo, haveria de cometer um real suicídio. Suicídio, sim, sem tirar nem pôr. Aos onze minutos, sem acerto nem orientação, levantou o pé, atingiu Ramires com violência, Jorge Sousa expulsou-o. É-lhe familiar? Basta lembrar o jogo com o Olhanense: aí, nessa partida, Delson cometeu grande penalidade e foi expulso em sete minutos. Anúncio de morte vila-condense.

OPORTUNIDADES EM CATADUPA SEM PROVEITO

Com uma mão sobre o troféu do seu trigésimo segundo título de campeão nacional, com um jogador a mais, os benfiquistas sorriram de alegria. As probabilidades de serem felizes aumentaram. Tudo corria de feição, afinal. O Benfica assumiu o jogo, quis presentear o universo encarnado num momento de comemoração, juntar o útil ao agradável, uma vitória a um jogo de qualidade, circularam a bola e procuraram marcar o segundo golo. Bola de pé para pé, Aimar para Martins, Saviola pelo meio, perigo constante. Criaram, de forma natural, oportunidades para dilatar a vantagem. Apareceu um segundo herói, agora do outro lado, o que menos merecia que Wires estivesse tão mal em campo: Carlos, guarda-redes, uma exibição monstruosa para impedir os encarnados de trucidarem a sua equipa. Também a vontade de resolver cedo traiu o Benfica.

Pelo meio das oportunidades tidas pelos encarnados, com o início do duelo entre Aimar e Carlos, superior o guarda-redes angolano, com Saviola falhando um chapéu que seria extraordinário para culminar uma longa caminhada, o Rio Ave assustou. Há esse mérito dos vila-condenses: nunca baixaram os braços, aceitaram as condições, perceberam que nada havia a perder, só com uma postura consistente e, sempre que possível, ousada poderiam deixar a sua marca. Bruno Gama, antes do intervalo, aproveitou uma descoordenação - César Peixoto e David Luiz quiseram ambos tirar a bola - para rematar perto da baliza de Quim. Serviu, pelo menos, para demonstrar que o Rio Ave, apesar de todas as adversidades, se mantinha vivo. Poderia ter uma palavra a dizer. Nunca desistir é uma imagem de marca de Carlos Brito. Tinha sido prometido no início.

TRAZES AS CHAVES, ÓSCAR?

A segunda parte começara há seis minutos na Luz. Já Aimar testara Carlos, de novo com resposta pronta, o público benfiquista voltou a festejar, saltando das cadeiras, erguendo cachecóis, puxando pelas gargantas. Não marcou o Benfica, mas marcara o Nacional ante o Sp.Braga. O efeito, está fácil de ver, é exactamente o mesmo. A conjugação perfeita, ganhando em dois tabuleiros, para a consagração encarnada. Faltava um segundo golo na Luz para colocar a cereja no topo do bolo. Airton, já depois de Carlos Martins, tentou-o, acertou nos ferros da baliza de Carlos, Saviola concluiu com êxito. Contudo em posição irregular, o que invalidou a jogada. Os corações dos benfiquistas bateram forte, mais do que nunca, ansiosos por chegar à tranquilidade. O Sp.Braga empatara e um golo caído do céu poderia fazer tremer a equipa. Assim foi.

O Rio Ave marcou e Al Pacino sorriu por ver que ainda poderia haver suspense, contrariando a tese inicial de que não haveria qualquer sobressalto no passeio triunfante do Benfica. O Rio Ave, já se disse, nunca enrolou a bandeira, tentou a sua sorte, chegou mesmo ao empate. A vinte minutos do final, Ricardo Chaves, numa falha defensiva dos encarnados, cabeceou com sucesso. A Luz gelou por momentos. O resultado da Madeira não era desfavorável, mas o futebol é uma caixinha de surpresas. Os benfiquistas mais pessimistas terão, por certo, ver o título fugir. Seria um verdadeiro golpe de teatro. A ânsia do Benfica em fazer tudo bem, em marcar, em resolver a questão rapidamente e com brilho, fez-se sentir. Subiu a tensão, a apreensão, as unhas caíram num ritmo alucinante, Jorge Jesus apressou o passo na área técnica. Cardozo trouxe o sossego.

Passaram seis minutos desde o golo de Ricardo Chaves, o Benfica dispôs de um canto. Airton cobrou-o, a defesa do Rio Ave não afastou o perigo, Gaspar novamente infeliz como no primeiro tento, colocou a bola à entrada da pequena área, Cardozo esticou a perna direita e fez golo. O golo da vitória, do título, da sua conquista individual perante Falcao na luta pelos goleadores. Foi um golo feliz, é certo. Mas Tacuara estava lá, solto, preparado para aliviar a tensão dos benfiquistas, fazê-los dar largas aos festejos, abrir o champanhe e agitar as bandeiras. A loucura invadiu a Luz. Nas bancadas, no banco, no relvado. Todos perceberam que a festa, agora, não iria fugir. Os gritos de campeão, as buzinas de vitória, os vivas aos jogadores e a Jorge Jesus, o obreiro deste título, na confirmação de uma conquista anunciada. E merecida. O Benfica é campeão!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

FC Porto-Benfica, 3-1 (crónica)

O DRAGÃO COLOCOU PAUSA NA CAMINHADA!

Um longo supiro para recuperar o fôlego. Agora, sim, podemos ir à crónica. O FC Porto venceu o clássico, o Sp.Braga cumpriu a sua parte e o Dragão não serviu de palco à festa do Benfica. Foi um jogo para homens de barba rija. Nem outra coisa seria de esperar. Um duelo entre FC Porto e Benfica, eternamente distantes e velhos inimigos de guerra, nunca poderá ser normal. Houve intensidade máxima, adrenalina nos limites, conflitos constantes, quezílias no meio de polémica permanente. Momentos de cortar a respiração. Há uma enorme convicção de que o Benfica será campeão. Muito dificilmente o título escapará aos encarnados. Conquistá-lo na casa do maior rival, preparando a festa debaixo do nariz do dragão, seria o corolário de uma época em que o Benfica foi melhor. O FC Porto impediu-o. A vitória não sacia mas consola os portistas. Muito.

Para impedir a festa do Benfica no Dragão, não alugando o seu palco de conquistas para júbilo alheio, o FC Porto teria de vencer e esperar uma vitória do Sp.Braga. Isso significaria que os encarnados não alcançariam, ainda, o trigésimo segundo título do seu historial. E, por outro lado, que os minhotos confirmariam o segundo lugar, deixando o FC Porto de fora dos milhões da Liga dos Campeões. Um dilema, portanto. Ou não. Entre ver o Benfica comemorar em sua casa ou ultrapassar o Sp.Braga na corrida pelo segundo lugar, a resposta não é difícil de adivinhar. O mais importante seria sempre adiar a conquista do título benfiquista. Será quase inevitável mas poupa-se a vergonha de ter de passar o testemunho em frente aos seus adeptos. O FC Porto há muito ficou arredado, não se pense, contudo, que estenderia a mão para saudar o adversário.

O Benfica estava no Dragão para sair a sorri. Di María foi o primeiro a criar perigo. Teve espaço, olhou para Beto, rematou forte e acertou na trave. O jogo começara quezilento, demasiado faltoso, envolvido por picardias constantes. Olegário Benquerença, mão de ferro, quis segurar os ímpetos, não deixar descambar a partida, mostrar a sua autoridade. O jogo perdeu fluidez. Ninguém quis dar um passo errado. Houve cautelas em ambas as partes. A segunda oportunidade de golo chegou, de novo, pelo Benfica. Numa jogada confusa, Javi García ficou solto perante Beto. Estava em situação privilegiadíssima mas atirou por cima. Os encarnados estavam melhor. Ou, pelo menos, criavam mais perigo. No FC Porto, começou a aparecer Hulk. Jogando em velocidade, explodindo na defesa do Benfica, levando a equipa para a frente: eis o Incrível.

BRUNO ALVES PARA DESATAR O NÓ

Sempre escaldante, uma séria ameaça à resistência de qualquer termómetro, o clássico estava com uma carga intensa atroz mas sem grandes motivos de interesse. Havia equilíbrio no futebol apresentado, apesar de ser sempre o Benfica a conseguir abrir maiores brechas na defesa contrária. O FC Porto insistia em Hulk. Farías, substituto de Falcao, não aparecera: lá permanecia tapado, cercado por Luisão e David Luiz, envolto na fortaleza encarnada. Num jogo assim, fechado, a melhor forma de resolver é aproveitando as bolas paradas. Dito e feito. Assim o FC Porto chegou ao golo: Belluschi marcou o canto e Bruno Alves elevou-se para cabecear certeiro. Foi a libertação da revolta da nação portista. Pelo falhanço do título e por ver o Benfica querer sair do Dragão triunfante. Antes do intervalo, os dragões passaram para a frente. Na mouche.

A polémica costuma fazer parte dos clássicos. Este, claro, não seria excepção. O momento de maior controvérsia chegou aos cinquenta e dois minutos: Fucile entrou na área do Benfica, envolveu-se com Fábio Coentrão, caiu, Olegário Benquerença entendeu ser simulação e mostrou amarelo ao lateral uruguaio. Foi o segundo - antes, na primeira parte, Fucile já fora poupado numa entrada sobre Di María. O Dragão explodiu em protestos. O Benfica viu a sua oportunidade para cercar o FC Porto, atacar a baliza azul, virar o resultado. Jesualdo Ferreira retirou Raúl Meireles, apagado, para recompor a defesa com Miguel Lopes. Veio o golo do Benfica. Lance estranho, atabalhoado até, ressalto para Luisão e empate. O homem do título de 2005, o homem do golo fundamental marcado ao Sp.Braga. Parece sina. Com mais um, poderia ser a pedra de toque.

UMA EXPULSÃO ESTRANHAMENTE BENÉFICA

Não foi. Antes que os encarnados estabilizassem, recomeçando do zero, o FC Porto voltou a colocar-se em vantagem. Outro lance também enrolado e feliz. Deu golo, sobretudo: Ernesto Farías, o suplente de luxo, marcou. Festa rija de um público sedento de alegrias. De Jesualdo Ferreira, acima de tudo. Estava escrito que o treinador portista não cumpriria o jogo no banco ante o Benfica. Foi expulso na semana passada, voltou a sê-lo agora após os festejos. E El Tecla, cumprindo o seu dever, com o Dragão grato numa ovação sentida, deu o lugar a Rodríguez. Importava, então, manter a equipa viva, realçando o sentido de entreajuda, aumentando a coesão, chamando todas as forças para guardar a vantagem. Jorge Jesus respondeu ao lançar Aimar, prescindindo de Javi García. O Benfica precisava da magia do mago.

O golo de Farías galvanizou o FC Porto e abalou o Benfica. Os encarnados erraram passes, mostraram ansiedade, perderam algum discernimento. Estavam com mais um, o empate valeria o título, tinham de se lançar de cabeça em busca do golo. Com serenidade, contudo. Aimar tentou de fora da área, Beto respondeu com uma grande defesa. Por essa altura, já Jorge Jesus colocara Weldon, em detrimento de Saviola, para mais tarde terminar com Alan Kardec no lugar de Carlos Martins. O treinador fez o que lhe competia: arriscou. Di María tem sido o jogador mais do Benfica, abre buracos nas defesas adversárias e inventa jogadas. Mas raramente apareceu no Dragão. Fez falta aos encarnados. E Cardozo, alguém o viu?... Pelo meio das tentativas do Benfica, foi o FC Porto quem ameaçou com maior perigo. Guarín ganhou força, está motivadíssimo, rematou de longe e a barra travou-lhe o golo. Indomável garra azul para vencer.

O jogo entrou na ponta final. Faltavam dez minutos. Em Braga, os minhotos venciam o Paços de Ferreira: segundo lugar carimbado, pressão no Benfica quanto ao título. Weldon esteve perto de um tento decisivo, como ele fez com o Marítimo, na Figueira ou em Coimbra; atirou, no entanto, para longe do alvo. Ainda estava tudo em aberto. Fernando Belluschi terminou a discussão, sossegou os adeptos portistas, deu-lhes o gostinho de impedirem a coroação imediata do Benfica. O argentino encheu o pé, rematou em arco, potente, Quim foi apanhado de surpresa: golo, fim de história. Com um remate de bandeira. Terminamos com Olegário Benquerença. pouco claro no critério, demasiado ríspido primeiro e benevolente depois, com Fucile e Di María nas áreas, amigo de Luisão num lance com Belluschi, pedidos de grande penalidade que parece ter resolvido bem. Muitos erros. Mas a noite, diga-se, não foi nada fácil. Ufff!...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Benfica-Sporting, 2-0 (crónica)

"É PARA ENCOMENDAR AS FAIXAS, SE FAZ FAVOR!"

O Benfica venceu o derby. Venceu bem, acima de tudo. O Sporting começou melhor, preparado para travar a festa antecipada dos encarnados, demonstrando que ainda poderiam ter dissabores na recta final. Os leões conseguiram, pelo menos, levar alguma apreensão à Luz: jogaram com união, montaram uma boa estratégia, impediram os avanços do Benfica. O intervalo obrigou Jorge Jesus a mudar. Lançou Aimar. Apagado em Liverpool, o argentino foi decisivo. Com ele, o Benfica conseguiu ligar o seu futebol, ganhou terreno, cercou a baliza de Rui Patrício. Ao mesmo tempo, o Sporting quebrou. Deixou de ter Pedro Mendes, nunca dispôs de Yannick ou Liedson. O telefonema pode ser feito: "O Benfica quer encomendar as faixas, se faz favor!..."

Há cerca de dois meses dir-se-ia, quase sem hesitações, que o Benfica teria todo o favoritismo para o jogo com o Sporting. Actualmente, olhando somente aos números, a resposta pouco difere: os encarnados são líderes, possuem todas as condições para chegarem ao título nacional, alcançaram uma vantagem de vinte e três pontos para o Sporting. Um derby entre primeiro e quarto classificado. Mas um derby. O futebol, contudo, é mais do que simples análise estatística. O Sporting vive um bom período, parece ter ultrapassado o pesadelo que o envolveu durante quase toda a temporada. Quer terminar com brio. Provou, para além disso, que alterna o bom e o mau com uma facilidade inquietante. No fundo, foi esse o maior mal desta equipa. O Benfica é regular. Porém, abalou em Liverpool e caiu da Liga Europa. Poderiam os papéis ser trocados?


Num derby até é tradição dizer-se que a equipa que está em pior posição consegue vencer. Este Sporting apresentou-se na Luz sem responsabilidades acrescidas. Ao contrário do Benfica, necessitado de uma vitória para restabelecer a dose de conforto para o Sp.Braga. Carlos Carvalhal recorreu ao esquema que utilizara com tão bom proveito nos jogos em que os leões verdadeiramente foram fortes e eficazes nesta temporada: 4x2x3x1. Ante o Everton e o FC Porto deixou o papel de vítima, mostrou uma força guardada, foi uma libertação pela raiva que um ciclo infernal de sete jogos sem vitórias provocara. Na Luz, colocando Pedro Mendes e Miguel Veloso como pivôs defensivos, nas costas de um tridente com Moutinho, Yannick e João Pereira, o Sporting conseguiu pôr um travão na criatividade do Benfica. Com pressão e confiança.

UM SPORTING EXPEDITO AMARROU O BENFICA!

Juntar o útil ao agradável seria guardar o quarto lugar e estragar os planos ao rival. O primeiro sinal de perigo deu-o Daniel Carriço, na sequência de uma saída em falso de Quim, com um cabeceamento ao lado. Até à vintena de minutos, o Benfica sentiu dificuldades para se soltar das amarras que os leões haviam preparado. O Sporting estava mais expedito, sim, mas apenas tivera o lance de Carriço e uma incursão de João Pereira para assustar Quim. Foi, sobretudo, nas bolas paradas que o Benfica levou perigo à baliza de Rui Patrício: Javi García cabeceou por cima, Éder Luís - a surpresa de Jorge Jesus para jogar na vaga de Saviola - atirou para fora e Cardozo, embora em posição ilegal, acertou no poste. O Benfica despertou, viveu o seu melhor período e empurrou o Sporting para a sua área. Esteve perto de conseguir marcar.

A primeira parte terminou em polvorosa. Subiu a tensão, os nervos ficaram à flor da pele, o ambiente aqueceu. É um derby, afinal. Jorge Jesus percebeu que algo teria que fazer para que o Benfica conseguisse, enfim, baralhar o Sporting e criasse desequilíbrios. Quem melhor do que Pablo Aimar para isso? Éder Luís fora uma aposta para jogar ao lado de Cardozo mas não dera os resultados desejados. Ao Benfica, mais do que tudo, faltava que ligasse os sectores. Os encarnados chegaram mais mandões, marcando posição no terreno. Estavam em casa, queriam dar a machadada no campeonato e recuperar a vantagem no topo. Com o tempo, o Sporting foi perdendo intensidade e discernimento. Pedro Mendes apresentou limitações físicas, a equipa ressentiu-se. E faltavam os génios. Yannick e Liedson, criativo e goleador, estão por aí?

UM DOMÍNIO QUE DÁ RESULTADOS NATURAIS

Dominando, trocando a bola e ganhando metros. É-lhe familiar? Claro, é a estratégia preferida do Benfica para se superiorizar aos adversários. A entrada de Aimar fora fundamental. O Sporting não respondera. Já depois de completa uma hora de jogo, Cardozo foi tocado na área por Grimi. Seria grande penalidade. O árbitro João Ferreira, tal como fizera num lance em que a bola bate no braço de Daniel Carriço, mandou jogar - perdoaria ainda expulsões a Luisão (46') e Veloso (85'). Tacuara ficou queixoso, estendido no relvado, parecia ter chegado ao fim do derby. Jorge Jesus chamou Alan Kardec. Cardozo pediu para esperar, cerreu os dentes, mordeu a língua e aguentou. Seis minutos depois percebeu-se o porquê da insistência: Rúben Amorim demoliu a defesa do Sporting pela direita, Fábio Coentrão deu seguimento com um cruzamento-remate tenso, Tacuara desviou subtilmente para o golo.

Óscar Cardozo foi o exemplo da abnegação. Fizera a sua parte. Agora, sim, iria sair. Mas só com o dever cumprido. Carlos Carvalhal tentou reagir: retirou Abel, desceu João Pereira para lateral e colocou Saleiro na frente. Nesta fase, contudo, já o Benfica juntara a vantagem ao domínio do jogo. Continuava mais incisivo, procurando um golo que lhe desse maior conforto, o Sporting estava cada vez mais vulnerável. A equipa estivera irrepreensível na primeira parte, porém quebrara. O Benfica ficou senhor da situação. E, com naturalidade, chegou ao segundo golo. Minuto setenta e sete: Ramires colocou a bola no corredor central, um toque de calcanhar precioso, Aimar recebeu-a, correu, sentou Rui Patrício e rematou para o fundo da baliza leonina. Foi a cereja no topo do bolo de El Mago. Ponto final no jogo. E no título? Decerto!

sábado, 27 de março de 2010

Benfica-Sp.Braga, 1-0 (crónica)

UM PASSO DE GIGANTE PARA O TÍTULO

O Benfica vive sedento de conquistar o título de campeão nacional. É algo que lhe foge desde 2005. Há cinco anos quebrou um jejum de mais de uma década mas faltou juntar-lhe brilhantismo. Era uma equipa pragmática: ganhou, aproveitando as oscilações dos rivais, mesmo tendo lapsos que um campeão não costuma cometer. Só festejou na última jornada. Contudo, o jogo com o Sporting foi decisivo. Primeiro contra segundo. Tal como agora. Em 2005, Luisão marcou, aos oitenta e quatro minutos, levou a Luz à loucura, deixou o Benfica com o título na mão. Restava confirmar. O central benfiquista ficaria para sempre marcado como o herói da conquista. Hoje, contra o Sp.Braga, voltou a sê-lo. O Benfica tem seis pontos de vantagem. E todas as condições para ser campeão.


Foi o jogo do título? Talvez, mas só os seis encontros que faltam darão a resposta. Dizer que o campeonato ficará decidido à vigésima quarta jornada será sempre arriscado. No entanto, ao vencer o Sp.Braga, o Benfica deu um passo fundamental. Dispõe de uma boa margem, é a equipa mais completa, possui argumentos que faltam aos minhotos, apostou as fichas todas para ser feliz nesta temporada enquanto o Sp.Braga está a superar-se a si próprio. Irão lutar até final, disso ninguém duvide. O Benfica está mais confortável e tem o caminho do título aberto, sim, mas terá que manter a mesma intensidade para chegar à glória. Sessenta mil adeptos, um estádio na ânsia de uma vitória, procurando cimentar a liderança. Jogo lutado, limites da adrenalina, vontade de qualquer um deles sair fortalecido. Oportunidade que não dá para desperdiçar.

Jogando em casa, respirando confiança num momento tão importante da temporada, o Benfica seria sempre favorito. Assumiu, por isso, o jogo, foi mais incisivo no ataque, fez circular a bola no meio-campo contrário. Não criou, no entanto, situações de golo. Faltava o clique que fizesse aquecer o jogo. Chegou, por fim, aos vinte e quatro minutos. Vindo do inimigo: Filipe Oliveira mediu mal um passe para o centro da defesa, Saviola, afinal titular, percebeu, ganhou a bola, mas faltou-lhe astúcia e foi bem travado por Eduardo. O guarda-redes agigantou-se, impediu a festa benfiquista, salvou a pele do colega. Havia respeito mútuo, era bem notório que nenhuma as equipas pretendia correr o risco de dar um passo em falso. Viria, depois, um cabeceamento de Cardozo, estorvado por Eduardo, para fora. O Benfica começava a apertar o cerco.

LUISÃO: DECISIVO, OUTRA VEZ!

Se o Sp.Braga se mantinha certinho na defesa, salvaguardando a sua imagem de marca, também denotava dificuldades em conseguir partir para o ataque. Começou por tentar explorar as faixas laterais, com a velocidade de Paulo César e Alan, mas faltava-lhe Hugo Viana. Aos poucos, os bracarenses conseguiram soltar-se das amarras procurando alcançar a baliza de Quim. Mantinha-se o nulo. Pensou-se que o jogo iria empatado para o intervalo. Não foi. Culpa de Luisão. O Benfica marcou um canto curto, Carlos Martins cruzou para a área, Javi García desviou e Luisão, aproveitando o ressalto no meio de tantos adversários, rematou certeiro. Erupção do vulcão da Luz, o reaparecimento do central nos momentos decisivos. Só depois viria o descanso. Com os encarnados em vantagem. Afinal, havia sido quem mais procurara o golo.

Um mal nunca vem só. É uma frase que se repete. E faz sentido. O Sp.Braga acabara a primeira parte com um golo sofrido, poucos minutos depois de ter recomeçado a partida ficaria sem Mossoró. O médio, talvez a estrela maior desta equipa bracarense que vale sobretudo pelo colectivo, lesionou-se com gravidade. Domingos Paciência lançou Luís Aguiar. Por esta altura, o Benfica vivia a sua melhor fase. Anunciava-se o segundo golo. Di María e Cardozo, com incursões de Maxi Pereira pela direita, tiveram a oportunidade de trazer a tranquilidade. Ao fim de dez minutos de puro domínio benfiquista, Domingos sentiu necessidade de voltar a agir. Lançou Matheus e Rafael Bastos, fez sair Rentería e Hugo Viana, a equipa melhorou muito: arriscou mais no ataque, trocou a bola em zonas adiantadas do terreno, procurou o empate.

JOGO ABERTO, INTENSO, LUTADO

O Sp.Braga crescera, tentara contrariar o domínio do Benfica, queria ser feliz. É legítimo para uma equipa que tão boa conta tem dado de si ao longo de todo o campeonato. Jorge Jesus percebeu que os minhotos haviam subido com as alterações, soltando-se para espaços ofensivos, quis recompor o seu meio-campo. Lançou Aimar, por isso. O mago entrou bem, disposto a pautar o futebol encarnado, colocando-o ao seu ritmo, aproveitando espaços para desmarcações de ruptura. O jogo estava mais aberto, mais vivo, mais intenso. O Sp.Braga dispôs, aos setenta minutos, da melhor oportundidade: Moisés desperdiçou, num livre de Luís Aguiar, cabeceando ao lado. Era nas bolas paradas e nas transições que o Sp.Braga dava mostras de estar mais afoito. Mas já se sabe quão forte é o Benfica em vantagem.

Homens de barba rija de um lado e do outro, lutando até final, suando por uma vitória. Ninguém ousou virar a cara à luta. O Benfica já tinha o ouro, não poderia querer ser demasiadamente guloso, precisava, isso sim, de guardar o que conquistara. Jesus recorreu a Rúben Amorim para impedir que os bracarenses ainda tentassem ganhar novo alento. A partida abrira, um golo poderia ter acontecido em qualquer das balizas:
Cardozo dispôs de oportunidades, Di María deu sempre um toque a mais e a equipa não concretizou; Paulo César teve uma soberana ocasião a um quarto de hora do final. No entanto, o Benfica mantinha a vantagem e tinha o relógio consigo. Tem mais força, estava por cima, foi consistente e rentabilizou o golo de Luisão. Ganhou. Com sacrifício. E, assim, deu um passo fundamental rumo ao título.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Sporting-FC Porto, 3-0 (crónica)

O REGRESSO DO SENHOR LEÃO

Senhor leão, por favor. O Sporting temerário, errático e desnorteado ficou para trás. O momento, agora, é outro. A partida com o Everton já o anunciara, o clássico com o FC Porto confirmou: os leões jogam como ainda ninguém vira nesta temporada. Pode custar a crer, é verdade que sim, mas a vitória sobre os dragões não deixa dúvidas: consistência, entreajuda, redução de espaços, golos em momentos marcantes. Três tiros num dragão impotente, uma equipa que nunca se conseguiu encontrar, mergulhada num mar de indecisões e de más opções. O título é, agora, uma possibilidade cada vez mais remota. É a razão que o diz. Mantém-se a crença de que ainda há hipótese. Os papéis do jogo não estarão trocados? Não, claro que não. Acreditem!

Um clássico entre dois gigantes fora do seu sítio. Chegados a esta fase da época, com dez jogos pela frente, FC Porto e Sporting costumam ocupar os primeiros lugares do campeonato. Nas últimas épocas tem sido assim, sempre. Desta vez, contudo, é diferente: o FC Porto não chega com a via aberta para ser campeão, o Sporting está afundado numa temporada de pesadelo. Vida ou morte. É assim, sem meios termos ou contemplações, que os dragões, em terceiro, procurando manter as distâncias para Benfica e Sp.Braga, na esperança de continuar na perseguição e obrigar os rivais directos a um tropeção, encaram o clássico. Um deslize ser-lhes-á fatal. E o Sporting? Para que conta, então, este jogo? Sobretudo para a honra da equipa: é necessário recuperar o quarto lugar. Esse é o objectivo actual dos leões.

Está nos livros, em qualquer um deles onde o assunto seja futebol, que marcar cedo é meio caminho andado para se ser bem sucedido. A equipa tranquiliza-se, ganha confiança para enfrentar o jogo, passa a pressão para o lado do adversário. E precisa de estar preparado para a reacção, para que não tenha sido um esforço em vão, só interessa se o golo puder ser rentabilizado. O Sporting fez tudo isso: entrou em força, pressionante, marcou cedo, assumiu o controlo do jogo e preparou-se para qualquer eventualidade. Pode-se dizer, resumindo tudo isso, que deu continuação à exibição perfeita ante o Everton. Já se sabia que ganhara confiança com esse triunfo europeu, o golo de Yannick, aos seis minutos, confirmou que este Sporting sofreu uma alteração profunda. Não se explica, são coisas do futebol.

ELES ESTÃO EM QUINTO?

Alguém que tivesse caído agora no futebol português e estivesse atento ao jogo de Alvalade, diria que morava ali uma equipa de grande potencial. Aquele Sporting não poderia, em momento algum, ser um quinto classificado: os leões instalaram-se no relvado, superiorizaram-se no meio-campo, impediram que os portistas, com Rúben Micael e Raúl Meireles, tivessem bola no pé. Tiveram, logo a seguir ao golo, uma nova oportunidade para marcar: Liedson entrou na área, rematou forte, Helton negou-lhe a vontade. O FC Porto ainda não se encontrara, estava perdido no domínio do Sporting. Ninguém se lembrou do leãozinho frágil e desorientado que esteve sete jogos sem vencer. O jogo com o Everton foi a pedra de toque, agora estava ali um leão forte, confiante e bem centrado no objectivo de ganhar.

À medida que Varela foi ganhando espaço, os portistas conseguiram equilibrar o jogo. Passaram a ter mais bola, rondaram a área de Rui Patrício e criaram algum perigo para a defesa leonina. Não foi, porém, uma resposta incisiva, incessante pelo golo, uma vez que nunca os dragões conseguiram criar uma oportunidade de golo iminente. O intervalo aproximava-se, Jesualdo Ferreira teria de mudar algo, a equipa necessitava de se tornar mais agressiva e ganhar ofensividade. O Sporting não deixou, agiu antes que o FC Porto apostasse qualquer coisa, fez um segundo golo, por Izmailov, antes do descanso. Os leões juntaram à consistência e união do seu futebol, uma matreirice das grandes equipas, um atributo desaparecido, foram mortais nos momentos-chave. Tão diferentes que eles estão.

PERFEIÇÃO QUE MATOU O DRAGÃO

Sem perceber muito bem como, o FC Porto deixou a primeira parte com dois golos de atraso. Um sofrido no início, outro no final. Por entre um apagão generalizado, numa equipa incapaz de dominar a força revoltosa do leão, descaracterizada e impotente, faltou também felicidade na forma como foram consentidos os golos. Mas não se ficou por aqui. O intervalo foi uma pausa, serviu para o Sporting recuperar o fôlego, para voltar com toda a energia. Era a hora de desferir o golpe final no adversário. Foram precisos dois minutos, somente: Izmailov rematou ao poste, a defesa azul foi passiva, Miguel Veloso encheu-se de fé e acertou bem no coração do dragão. Três-zero, reacção do FC Porto deitada por terra, mérito total do Sporting. Não tinha sido isso que acontecera, com os papéis invertidos, no jogo do Dragão?

Recapitulemos, então, para que não fiquem dúvidas: o Sporting marcou um golo no início do jogo, outro antes do intervalo, fez o terceiro nos momentos iniciais da segunda parte. Pode-se dizer que atirou as responsabilidades para o lado do FC Porto, impediu uma reacção forte para alcançar o empate rapidamente nos segundos quarenta e cinco minutos e, por fim, acabou com o jogo numa altura em que Jesualdo Ferreira já trocara Raúl Meireles por Belluschi com o intuito de aumentar a capacidade de criar futebol ofensivo na sua equipa. A exibição leonina foi perfeita, abrilhantada por um portentoso jogo de Yannick, um prolongamento à altura do exibido na quinta-feira, uma mostra de que o futebol não tem lógica que resista. O campeão tombou, sem forças, entre erros em catadupa, tudo lhe saiu mal. Terá sido o fim?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

FC Porto-Sp.Braga, 5-1 (crónica)

A AVALANCHA DA REVOLTA

Cinco golos, uma exibição consistente e a confirmação de que o campeão está na luta. Somos Porto! repetiram os jogadores na véspera da partida. O plantel unira-se, todos juntos para dar a volta às adversidades e mostar a sua revolta pelos castigos aplicados a dois dos seus membros. Afectados no seu brio. Depois do desaire em Matosinhos, o jogo com o Sp.Braga tinha a vitória como único cenário para os portistas. Uma derrota deixaria os dragões com onze pontos de atraso. A resposta foi forte. Avassaladora, até. O FC Porto foi eficaz, goleador, quebrou a esperança do Sp.Braga em deixar a corrida ao título a dois.

Há muito eram esperados, mas a confirmação dos castigos a Hulk e Sapunaru bateram com estrondo nos portistas. O plantel juntou-se, revoltado, mostrou-se mais forte do que nunca e prometeu luta até final, sempre na procura da vitória, sempre fazendo jus ao nome que defendem. Um jogo decisivo, na recepção ao Sp.Braga, para ficarem desfeitas as dúvidas sobre quem parte para o último terço do campeonato na corrida ao título. Ambiente de jogo grande, expectativa elevada, alta voltagem, bracarenses na esperança de recuperarem a liderança ao Benfica, portistas atrás do tempo perdido. Onze dragões feridos no seu orgulho, apoiados por um estádio repleto de esperança e indignação, ingredientes contrários, é certo, mas motivadores para a garra da equipa.

O FC Porto começou com ritmo alto, jogando no território bracarense com posse de bola. Num Sp.Braga mais móvel do que habitual no ataque, sem o goleador Meyong e com três jogadores rápidos e versáteis, Alan, Mossoró e Paulo César, a ideia de Domingos passava por aproveitar os espaços que os portistas fossem dando, imprimindo velocidade nas faixas laterais. Numa primeira incursão, Mossoró, de regresso após castigo, embrulhou-se e caiu na área em luta com Álvaro Pereira. Olegário Benquerença entendeu ser simulação, puniu o bracarense com um cartão amarelo. O lance é muito duvidoso, contudo. Depois, foi a vez de Alan rematar perto do poste da baliza de Helton. Jogados quinze minutos, havia equlíbrio. Era o esperado, aliás.

Os portistas sentiram a sua serenidade em perigo, procuraram retribuir no lado contrário e obrigar a defesa bracarense a trabalho. A resposta foi rápida e letal. Helton bateu o pontapé de baliza, a bola foi para Varela, o extremo correu e cruzou para a entrada da pequena área. A pedir um desvio. Os defesas do Sp.Braga preocuparam-se em guardar Falcao, deixaram espaço livre para a progressão de Raul Meireles, vindo de trás, como uma flecha: fez a segunda parte do serviço, encostou para a baliza de Eduardo. Foi o culminar da libertação da raiva que atormentava os portistas. Seguiu-se uma tentativa de reacção da equipa bracarense. O Sp.Braga conseguiu ter bola, embora sem nunca criar verdadeiro perigo para Helton.

O XEQUE-MATE AOS TRINTA E SEIS MINUTOS

Depois, bem, depois Álvaro Pereira decidiu abrilhantar o jogo, dar-lhe um toque de classe para tranquilizar a equipa. El Palito pegou na bola, a uns bons trinta e cinco metros da baliza, rematou forte e colocado para o segundo golo. Surgido a dez minutos do intervalo, momento certo para desmoralizar os bracarenses e complicar a sua tarefa de mudar o rumo do jogo. Jogada seguinte, novo golo. O terceiro. Se o de Álvaro Pereira teve talento individual, neste sobressaiu a força do colectivo: abertura para Varela, cruzamento largo, golo de Falcao perante Eduardo. O campeão puxou dos galões, encostou o Sp.Braga às cordas. Nunca os bracarenses haviam sofrido tantos golos num só jogo. Domingos baixava a cabeça. O FC Porto transformara-se num vendaval ofensivo.

Com três golos de avanço e com jogos importantes pela frente, os portistas baixaram o ritmo. Tinham o jogo na mão. Para o ganhar bastava gerir. Ao intervalo, Domingos emendou a mão, lançou Meyong, a referência de área, e prescindiu de Hugo Viana. O Sp.Braga que tanto tempo tem estado no topo, sempre na luta, que é um novo candidato a campeão, apagara-se no Dragão. Queria reagir, era tarde. Mossoró voltaria a cair na área, derrubado por Raúl Meireles, Olegário errou ao não marcar falta - nem mostrou amarelo, poupando o médio pela segunda vez. Mas este era o jogo do FC Porto. Mesmo em contenção, chegou ao quarto. Falcao elevou-se a Paulão, cabeceou para dentro da baliza de Eduardo. Olegário Benquerença entrara numa panóplia de erros, seguiu-se uma expulsão perdoada a Rafael Bastos.

A equipa bracarense apenas sofrera oito golos até jogar no Dragão. Frente ao FC Porto perdeu essa sua imagem de marca, ruiu pela base, foi impotente para impedir o engordar natural do resultado. A partir do terceiro golo pouco mais haveria a fazer. Animicamente, a equipa caíra. Por entre olés e o êxtase do público, Belluschi fez o quinto golo. O golpe de misericórdia num Sp.Braga que há muito encolhera os ombros, um novo buraco numa barreira que parecia intransponível. O resultado pesava, o FC Porto iria ganhar, mas ainda havia a honra bracarense em jogo. Já nos descontos, Alan marcou para o Sp.Braga. De nada vale no resultado. Resta esperar pela reacção dos guerreiros que perderam a batalha. Não a guerra.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Benfica-FC Porto, 1-0 (crónica)

A VITÓRIA DO EFEITO SURPRESA E O SAVIOLA DO COSTUME

Quantos esperariam que Jorge Jesus lançasse, num jogo de tamanha importância, um jogador sem um único minuto jogado nas trezes anteriores jornadas do campeonato português? Só quem, de facto, estivesse bem informado das pretensões do treinador encarnado. Sem Di María e Coentrão, não subiu Peixoto, jogou Urretaviscaya, extremo uruguaio, em estreia nesta época. Sem Aimar, a batuta esteve ao comando de Carlos Martins. O Benfica surpreendeu o FC Porto, a vitória encarnada começou aí. Depois, apareceu um cliente habitual, oportunista e decisivo: Javier Saviola. Por alguma razão lhe chamam El Conejo.

O FC Porto, já se sabia, chegou ao clássico na máxima força. Restava, no entanto, tirar a limpo algumas alterações que poderiam surgir: Jesualdo Ferreira trocou Belluschi por Guarín, preferindo o físico do colombiano à magia do argentino, e lançou Rodríguez para o tridente ofensivo, na vez de Varela, ao lado de Falcao e Hulk. O Benfica, para além dos castigados Di María e Fábio Coentrão, apresentou-se desfalcado de Aimar, médio convocado mas com limitações físicas. Ramires, tal como Jesualdo Ferreira havia garantido, foi titular nos encarnados. A surpresa reservada por Jorge Jesus foi a utilização de Urreta, médio em estreia absoluta nesta temporada, sob o lado esquerdo. E o maestro: Carlos Martins.

A frase que serve como título a esta crónica, pretende demonstrar como o FC Porto se sentiu: surpreendido. A percentagem que aguardaria a titularidade de Urreta seria, decerto, quase nula. Foi muito por culpa do extremo uruguaio e também de Carlos Martins, outro jogador raras vezes chamado à equipa inicial, que o Benfica conseguiu superar um melhor início do FC Porto e, assim, assumir o controlo da bola. Estalaram os vinte minutos e foi aí que veio a primeira ocasião de golo. Para o Benfica. Álvaro Pereira, salvador, cortou o remate de Cardozo em cima da linha. A defesa portista conseguiu aliviar o perigo mas não para muito longe. David Luiz insistiu, Saviola acreditou, encarou com Helton e rematou certeiro.

UM GOLO COMO CEREJA NO TOPO DO BOLO

Se o Benfica já estava por cima até então, em vantagem a equipa de Jorge Jesus chegou à tranquilidade. A superioridade nos duelos nas faixas laterais e a conquista do meio-campo, não só permitia aos encarnados criar mais lances de perigo como dominar e aniquilar as tentativas do FC Porto. Tentativas, sim, nunca passou disso. Os portistas sentiam falta de criatividade, imaginação, um rasgo de génio. Ao preferir Guarín a Belluschi, Jesualdo correra esse risco: com o colombiano e com Raul Meireles bem abaixo das últimas prestações, não havia como construir futebol de ataque. Pouco depois da meia-hora, podem queixar-se de um erro: Hulk foi derrubado por Peixoto, dentro da área, Lucílio Baptista mandou jogar.

Apesar desse lance polémico, um erro, o Benfica chegou ao intervalo na frente com toda a justiça. Senhores da bola, das oportunidades e do jogo, onde o tão desejado Ramires teve um papel determinante, os encarnados estavam perto da perfeição. Era, por isso, no lado oposto que teriam de surgir alterações. Obrigatoriamente. Jesualdo Ferreira percebeu que a estratégia inicial não resultara, deixou Guarín de fora e lançou Varela. Os portistas regressaram com outra atitude, com mais bola, conseguindo jogar no meio-campo adversário. O primeiro remate de real perigo surgiu, contudo, apenas aos sessenta e dois minutos: Álvaro Pereira tentou de longe, Quim atirou as pretensões de empatar para canto. Melhoria?

FC PORTO MELHOR, JESUS GUARDA O OURO

Por essa altura, o FC Porto mostrou-se, apertou o Benfica, rondou com perigo a baliza de Quim e procurou o golo do empate. Jorge Jesus, atento, percebeu que o seu meio-campo quebrara, não tinha o mesmo rendimento, dava espaços. Trocou, por isso, Urreta e Carlos Martins por Weldon e Luís Filipe. O jogo estava intenso, lutado, e os dois primeiros, tão importantes que foram na construção da superioridade encarnada, normalmente acusaram a falta de ritmo. Era tempo, então, de o Benfica reequilibrar a balança. O jogo entrou nos vinte minutos finais, os portistas tinham claramente melhorado mas os encarnados mantinham o controlo. De novo por lesão, Ramires deu o lugar a Felipe Menezes.

Lucílio Baptista errara na primeira parte, voltaria a estar mal à entrada dos quinze minutos finais. Christian Rodríguez impediu com o braço que a bola chegasse à cabeça de David Luiz, o árbitro nada assinalou. Jesualdo Ferreira tinha que lançar os trunfos de que ainda dispunha, era agora ou nunca, o FC Porto ambicionava algo mais na Luz. Entraram Farías e Belluschi, saíram Hulk e Raul Meireles. Imperou, porém, a Lei de Murphy: nada saiu bem ao FC Porto. Com as alterações, a equipa portista ficou partida, procurou futebol directo, não resultou. O Benfica sofreu, soube fazê-lo, e garantiu a vitória. Com mérito, o jogo esteve longe de ser bem jogado mas os encarnados foram melhores. O Natal será, agora, mais descansado.


domingo, 29 de novembro de 2009

Sporting-Benfica, 0-0 (crónica)

ONDE ANDA A ARTE DE MARCAR?

Um jogo equilibrado e dividido tinha que dar num empate. Mesmo sendo um derby.
O Sporting-Benfica teve intensidade, boas oportunidades para ambas as equipas chegarem ao golo, mas terminou a zeros. O Sporting esteve muitíssimo acima daquilo que havia feito até aqui, o Benfica não teve a criatividade necessária para marcar nem foi pressionante e incisivo como se esperaria. Em teoria, o empate seria sempre mais favorável aos encarnados, pois jogaram fora de casa. Na prática, também foi assim: não só por terem pertencido aos leões as melhores chances para quebrar o nulo mas também porque os onze pontos de distância se mantêm.

Um Sporting com dificuldades, um Benfica pleno de força. Dois grandes do futebol português que vivem agora em mundos diferentes. Um derby tem uma magia que não se explica, são noventa minutos onde tudo pode acontecer e onde o favoritismo nem sempre dá bons resultados. Lado-a-lado, Sporting e Benfica juntos num objectivo comum: ganhar. Nos leões, uma obrigação para iniciar uma recuperação que ainda lhes permita chegar ao título. Nas águias, para se manterem agarrados ao primeiro lugar e, ainda, deixaram o eterno rival definitivamente para trás. Carlos Carvalhal em busca de um tónico que faça a equipa recuperar a sua condição, Jorge Jesus atrás da afirmação.
Tudo isso num ambiente extraordinário. A convidar uma grande noite de futebol.

Hora do jogo, momento de desvendar as incógnitas que ainda restavam sobre os onze escolhidos. No Benfica, o regresso de César Peixoto à esquerda e a confirmação de Saviola com todas as condições para ser utilizado. Mais revolucionário foi Carlos Carvalhal: colocou o Sporting em 4x2x3x1, com Marco Caneira no lado esquerdo da defesa, Adrien Silva no meio-campo junto a Moutinho e ainda um tridente ofensivo com Vukcevic, Matías Fernandéz e Veloso. O novo treinador prometera atitude de leão nos seus jogadores e o início da partida trouxe um Sporting determinado, disposto a assumir o jogo. Liedson foi o primeiro a criar algum perigo, Cardozo respondeu com um remate que passou ao lado. Afinal, este era também um confronto de grandes goleadores.

BALANÇA EQUILIBRADA, OCASIÕES E... DESPERDÍCIO!

Porém, acabaria por pertencer a um defesa a grande ocasião de golo da primeira parte: Anderson Polga recebeu um passe teleguiado de Adrien, dominou a bola, encarou Quim, mas atirou muito por cima da trave da baliza encarnada. Seguir-se-ia, quase na jogada imediata, um remate de Liedson que o guarda-redes benfiquista parou bem. Na resposta, Patrício viu-se obrigado a sair da baliza para anular um lançamento longo para Cardozo.
Estavam jogados vinte e cinco minutos, o jogo finalmente teve um abanão. Até aí fora disputado, dividido e intenso, contudo jogado longe das áreas. O equílibrio esteve por detrás do espectáculo, a zona central do relvado foi o palco principal e os guarda-redes quase meros figurantes.

Após esse período em que o jogo se abriu, tudo voltou a ser como antes. Assim se prolongou pelos primeiros minutos da segunda parte. Pelo meio apareceu um remate forte de David Luiz que não teve consequências para a baliza de Rui Patrício. O momento de maior espectáculo que o derby de Alvalade ofereceu chegou, enfim, no minuto cinquenta e sete: Miguel Veloso rematou de longa distância e Quim opôs-se com uma monumental defesa. No canto que daí derivou, Moutinho teve um bom remate que passou perto do posto. Nunca uma equipa estivera tão próxima do golo. O Sporting era mais perigoso, o Benfica precisava que Aimar pegasse no jogo mas o argentino ficou demasiado preso ao lado direito. Jorge Jesus não teve gula, percebeu que um ponto ganho na casa do rival é sempre positivo e preferiu jogar pela certa.

O relógio apressava-se, a toada do jogo mantinha-se e um golo, fosse para quem fosse, parecia cada vez mais longe de surgir. Já dentro dos vinte minutos finais, com Rúben Amorim no lugar de Pablo Aimar, o Benfica voltou a aparecer num lance em que Di María viu Patrício negar-lhe o golo. A partida ganhou outro ânimo mas nenhum dos treinadores decidiu arriscar mais qualquer coisa em busca da vitória. Na parte final, a sete minutos dos noventa, os encarnados voltaram a estar próximos do golo: Ramires, junto à linha de golo, desperdiçou uma ocasião soberana de dar uma machadada final no Sporting. Seria injusto, há que dizê-lo, por aquilo que os leões fizeram. O jogo terminou, então, tal como começara: empatado a zero.

sábado, 26 de setembro de 2009

FC Porto-Sporting, 1-0 (crónica)

O DRAGÃO SOUBE VIVER DE UM GOLO MADRUGADOR

Entrada fulgurante, progressiva desaceleração, alguns sustos e vitória. Assim, de forma sintética, se pode resumir a vitória do FC Porto no primeiro clássico da época. Para o Sporting foi precisamente o contrário porque começou mal e ficou sufocado pelo quarto de hora frenético que os portistas tiveram. Sofreram um golo, a frio. Depois, contudo, houve oportunidades para um empate que bem poderia ter acontecido. Na segunda etapa, quando era preciso dar o tudo por tudo em busca do golo, o início voltou a ser fatal. Oito minutos depois do descanso, a equipa ficou reduzida a dez e as esperanças de ainda conseguir a vitória caíram no vazio.

Dois quebra-cabeças, em forma de lesões, que tanto Jesualdo Ferreira como Paulo Bento bem dispensariam, vieram à última hora. Nos portistas, faltou Cristian Rodríguez que seria titular em função da ausência de Varela e traria qualidade e rapidez à frente de ataque. A dupla má notícia, reabriu as portas da titularidade a Mariano González que assim assumiu um lugar nos titulares. Também Belluschi, após um pequeno interregno de dois jogos, se juntou a Fernando e Meireles no meio-campo com vista a dar maior criatividade e magia ao jogo dos dragões. Do lado oposto, Marco Caneira, mais do que provável lateral esquerdo até face à ausência de André Marques, lesionou-se e abriu uma via para o regresso de Grimi, sete meses depois de ter estado pela última vez em campo. De resto, nada de novo.

Chegar o mais rapidamente possível ao golo para depois se tranquilizar. Foi desta forma, com este pensamento, que os jogadores do FC Porto entraram para o relvado do Dragão. Com grande sucesso. Apenas se tinham jogado dois minutos quando os portistas chegaram ao golo. Anderson Polga deixou Falcao voar, livre, para um cabeceamento perfeito que apenas foi travado pelas redes da baliza de Rui Patrício. Não haveria, por certo, início melhor para os portistas se esquecerem das duas últimas derrotas. A equipa galvanizou-se e partiu para quinze minutos de grande categoria. Poderia ter aumentado a vantagem nesse período em que o Sporting ficou verdadeiramente encostado à parede. O xeque-mate esteve a um palmo.

Hulk, agora incrível, à solta no relvado do Dragão

Para isso, muito contribuiu a prestação de Hulk, carregada de grande talento e capacidade de explosão que ele tão bem consegue aliar. Criticado em jogos anteriores por ter sido pouco mais do que inofensivo, o brasileiro resolveu deixar o seu génio à solta. Há, aqui, também mérito de Jesualdo Ferreira por o ter colocado na direita, frente-a-frente com um Grimi que não está, nem pouco mais ou menos, na sua melhor forma física e apenas agora regressou de um período de sete meses fora de competição. Passaram, então, esses quinze minutos de sufoco e o Sporting alcançou, por fim, a baliza de Helton. Vukcevic deixou um aviso e, aos vinte minutos, Matías Fernandéz, após um pormenor soberbo, teve nos pés o golo de empate.

Foi precisamente a partir dessa fase que a partida ficou mais equilibrada. O FC Porto continuou mais perigoso, é certo, mas não o fez de forma tão intensa como no início e os leões ganharam poder de resposta. Por três vezes, o Sporting poderia ter chegado ao golo. A trave devolveu um cabeceamento de Hélder Postiga, naquela que terá sido a situação mais perigosa dos sportinguistas, Helton teve uma defesa in extremis e Vukcevic acertou nas malhas laterais. Pelo meio, para colocar tudo em sentido, Bruno Alves obrigou Rui Patrício, cada vez mais uma figura de proa, a uma extraordinária defesa. O intervalo chegou no melhor momento do Sporting na partida. No descanso, Paulo Bento necessitava de alterar algo para ainda ambicionar chegar à vitória.

Quando Polga deitou tudo a perder...

Retirou, por isso, Leandro Grimi que, passe a expressão, estava a ser verbo de encher e lançou Pereirinha, recuando Veloso para a lateral e Moutinho para o vértice recuado do losango. Como que copiando o que acontecera na primeira parte, o Sporting voltou a entrar mal: Polga cometeu falta sobre Hulk dentro da área, viu o segundo amarelo, e deu a Falcao a oportunidade de aumentar a vantagem portista. Rui Patrício, um gigante entre os postes, foi melhor do que o colombiano e impediu que o jogo acabasse ali. É verdade que o resultado continuava a ser tangencial mas os argumentos dos leões ficaram desfeitos. Restava, porém, a esperança. Paulo Bento, de modo a reequilibrar a equipa, colocou Tonel em detrimento de Matías Fernandéz. Tinha que colmatar a cratera que se abrira no centro da defesa mas perdeu a imaginação do médio chileno.

O FC Porto, estranhamente não sabendo tirar partido do facto de estar com um jogador a mais, não conseguiu fazer a gestão que tão bem o caracterizava na época passada e as entradas de Tomás Costa e Valeri, para os lugares de Mariano e Raul Meireles, não produziram os resultados esperados. Não se livrou o Dragão, portanto, de ter de estar até ao final em clima de suspense. O Sporting tem sido feliz nas pontas finais dos seus jogos mas desta vez não conseguiu chegar ao tão desejado golo. Após a expulsão de Polga, apenas restaram dois remates de Vukcevic para criar perigo a Helton. Sobrou alma mas faltaram ferramentas. Ainda antes do apito final, Miguel Veloso viu o segundo amarelo - mal o árbitro no primeiro - e também Paulo Bento acabou expulso, por protestos com Duarte Gomes. Apesar de toda a polémica que se gerou, mesmo sendo verdade que houve dualidade de critérios, não foi pelo árbitro que o jogo terminou assim.