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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Taça de Portugal: FC Porto-D.Chaves, 2-1 (crónica)

A TAÇA SERVE PARA CONSOLAR O ESPÍRITO, DRAGÃO?

O FC Porto conquistou a Taça de Portugal. Poder-se-á dizer, sem ser descabido ou pouco digno para o adversário, que cumpriu a sua missão. Os dragões seriam sempre favoritos, contavam com altas probabilidades de arrecadarem o seu segundo troféu da temporada, juntando a Taça à Supertaça ganha em Agosto, para tentarem atenuar a má campanha realizada no campeonato nacional. O FC Porto falhou a conquista do quinto título de campeão consecutivo e, por isso, falhou. Ganhar a Taça de Portugal seria a única escapatória. Jogando com o Desportivo de Chaves, uma equipa caída em desgraça, procurando um sonho para por momentos esquecer a descida de divisão, os dragões foram mais fortes, venceram. Pela margem mínima, contudo passando ao lado de uma goleada. Demérito próprio e mérito de um Chaves que nunca se rendeu.

Páre, escute e olhe. Foi o que Helton fez. O guarda-redes brasileiro, uma surpresa superiorizando-se a Beto, saiu da baliza, hesitou, ficou a meio caminho, deixou-se antecipar. Edu, o jovem transmontano que foi herói na Figueira da Foz, repentinamente atirado para a ribalta, chegou primeiro do que o guardião, desviou a bola e levou-a no caminho da baliza. Esteve perto, perto, perto de ser feliz. Seria a coroação da história de fadas do Desportivo de Chaves, o melhor esquecimento para a depressão de ter caído de novo na II Divisão, a glória depois de deixar o futebol profissional e no meio de um mar de dificuldades que faz os flavienses verem o fim cada vez mais próximo. Foi a primeira grande oportunidade de golo da final da Taça. Serviu para demonstrar que o Chaves estava no Jamor para ser actor principal, não viver na sombra do FC Porto, fazer de tudo para contrariar as teorias e sair triunfante. Usando as suas armas.

Uma chance assim, próspera para fazer História ao estar presente na final da mítica Taça de Portugal, não pode ser facilmente deitada para trás das costas. O Desportivo de Chaves não tinha o que perder, restava acreditar, sonhar, expandir o seu futebol. O FC Porto é, em todos os sentidos, mais forte e mais capaz, ninguém o coloca em questão, mas o futebol é uma caixinha de surpresas, é um mundo diferente onde tudo pode acontecer. Jogando com respeito, sem abusar da altivez de quem realmente é superior, o FC Porto percebeu-o. O lance de Edu, aos oito minutos, era a prova que faltava para deixar bem claro que não haveria festa antecipada dos portistas. Para o conseguir, o FC Porto teria, primeiro, de trabalhar para isso. Respondeu a Edu com Falcao. No fundo, tratava-se de colocar o Chaves atrás, sem dar azo a investidas flavienses, mostrando superioridade. O FC Porto acelerou, fez tremer o rival, marcou.

UMA VANTAGEM NATURAL

A diferença entre equipas tão distantes esteve, afinal, no aproveitamento. E, até, na felicidade como chegaram às balizas adversárias. O sonho do Chaves, transportado por Edu, esbarrou no poste. O FC Porto ouviu o alarme, pressionou, obrigou os flavienses a errar e colocou-se em vantagem: Guarín rematou, a bola saiu enrolada, pouco tensa, mas passou por debaixo de Rui Rego e entrou juntinho ao poste. Dois erros, primeiro do lateral Eduardo e depois do guarda-redes, custaram caro aos flavienses. Os dragões sorriram, confirmaram o favoritismo, somaram umas décimas à abissal percentagem de favoritismo que o seu estatuto, o de equipa de topo nacional, lhe conferia. Em vantagem, o FC Porto sente-se bem: pode circular a bola, chamar o adversário, obrigá-lo a correr e apostar forte na velocidade para ser bem-sucedido. Hulk furou a defesa, criou, teve golos nos pés. Falhou a concretização para ter um dia memorável.

O golo de Fredy Guarín abalou o Desportivo de Chaves. Foi uma interrupção abrupta e precoce do sonho, fazendo os jogadores despertarem para a realidade, obrigando-os a ter de buscar força nas profundezas da sua alma. As oportunidades para o FC Porto sucederam-se, escorreram em catadupa, apareceram com extrema facilidade. Com Hulk transformado num diabo, levando a equipa, explodindo nos limites do fora-de-jogo, aproveitando a arriscada estratégia do Desportivo de Chaves ao jogar com uma defesa em linha. Numa dessas fugas, com a bola como um íman nos pés, o Incrível esteve a um palmo de aumentar a vantagem, mas Rui Rego opôs-se bem. Foi uma espécie de redenção do guarda-redes. À segunda, veio um golo. Com toda a naturalidade. Hulk escapou, a enésima vez isolado, foi altruísta e deu a Falcao a alegria de marcar. Um toque e já está.

DE UMA GOLEADA ANUNCIADA A UMA VITÓRIA TANGENCIAL

Vinte minutos jogados. O FC Porto com dois golos de vantagem e uma mão sobre a Taça de Portugal, o Chaves incapaz e impotente para lutar contra o destino e as evidentes assimetrias que o separam do topo. O pensamento generalizado foi o de que nada mais tiraria o triunfo ao FC Porto. Era legítimo. Nem os dragões pareceram interessados em desligar-se tão cedo do jogo. Pelo contrário: procuraram mais golos, mantiveram o domínio absoluto, anunciaram um novo tento. Hulk, sempre ele em destaque, somou oportunidades desperdiçadas. Foi displicente, não aproveitou a licença para matar que conseguira. Pelo meio das perdidas, Raúl Meireles foi abalroado na área por Danilo, Pedro Proença não entendeu falta. O Desportivo de Chaves não se encolheu, tentou reagir e jogar bem sempre que possível para chegar à frente. Conseguiu um golo, por Siaka Bamba, ainda festejou, mas o lance foi bem anulado por mão na bola.

O que poderia, então, mudar ao intervalo? Muito pouco. O início da segunda parte confirmou-o: Hulk cobrou um livre, Miguel Lopes desviou subtilmente, a bola embateu no travessão da baliza de Rui Rego. Mantinha-se a toada de mais, muito mais FC Porto. O jogo, contudo, perdera interesse, qualidade e vivacidade. Entrara num registo monótono, molengão, de passar do tempo sem que nada se alterasse. O FC Porto parecia ter o triunfo assegurado, o Chaves pouco mais daria. O tempo correu, o público tentou animar, cantou e festejou, embelezou a final da Taça de Portugal. Do relvado, porém, pouco havia para destacar. Aquele típico registo de final de época abateu-se sobre o Jamor. Hulk, numa das suas investidas, lá tentou abanar o jogo, alargar a vantagem do FC Porto; deu para Falcao e o lance perdeu-se. Era o tempo de Manuel Tulipa, crente numa gracinha, mudar. Para mostrar que ainda era possível acreditar.

Diop dera tudo o que tinha. Estava extenuado, sem mais forças para ajudar a sua equipa, precisava de ser substituído. E também o Desportivo de Chaves necessitava de sangue novo, alguém capaz de fazer tremer a defensiva do FC Porto. Entrou Clemente, um avançado com bons pormenores. Num daqueles lances atípicos, sem que se perceba muito bem o que passa pelos jogadores, o Chaves chegou ao golo. Foi um prémio querer flaviense. Mas, verdade seja dita, caiu do céu aos trambolhões. Rolando e Bruno Alves desentenderam-se, Helton voltou a não ser assertivo, Clemente foi mais astuto, utilizou a mão para ganhar a bola, passou despercebido e rematou para o fundo da baliza azul. O Chaves, antes entregue, acreditou num brilharete. Aumentaram os nervos,
Ricardo Rocha e Bruno Alves foram expulsos. A monotonia foi chutada para canto. O FC Porto, sem necessidade, ansiou pelo final. Faltava pouco. E veio a festa azul!

domingo, 21 de março de 2010

Taça da Liga: Benfica-FC Porto, 3-0 (crónica)

O BENFICA SABE JOGAR E GANHAR!

Uma final é uma final. Diz-se que não são para jogar, mas para ganhar. Podem ser, por vezes, noventa minutos inesperados, isolados de tudo o resto, onde tudo é possível de acontecer. No entanto, é impossível dissociar do que tem sido a temporada de ambas as equipas. O FC Porto vive um dos seus mais complicados períodos da última década, o Benfica está em verdadeiro estado de graça que se prolonga a cada jogo. Os encarnados seriam favoritos, são quem melhor se tem apresentado em termos exibicionais e até emocionais. É fundamental controlar os sentimentos, não deixar que toldem a razão e sejam eles a decidir o que fazer. Este FC Porto, contudo, não o consegue: quer mudar, faltam-lhe forças e discernimento. O Benfica é melhor, indiscutivelmente. E provou-o.


Desde que foi derrotado pelo Sporting, em Alvalade, o FC Porto nunca mais se encontrou. Foi o segundo verdadeiro abalo que sofreu na época, o segundo jogo onde não puxou dos galões de um campeão, depois de ter ficado combalido pela derrota ante o Benfica deitou tudo a perder com os leões. Em momentos que estava bem, até com maior favoritismo para vencer, acabou derrotado de forma concludente. Passou, então, a imperar entre os portistas uma espécie de Lei de Murphy: se alguma coisa pode dar para o torto, tudo virá por acréscimo, pequenos pormenores serão fatais. Antes do jogo com o Benfica, muito mais do que uma Taça da Liga em disputa, sobretudo para os azuis, ansiosos por mostrar que a euforia do velho inimigo pode ser quebrada, Jesualdo Ferreira ficou sem Varela. E já sabia que não tinha Mariano.

Marcar um golo cedo numa final é meio caminho andado para conseguir um jogo tranquilo e colocar uma mão sobre o troféu. O Benfica está motivado, vive um permanente estado de graça, tem tudo para quebrar o ciclo sem vitórias no campeonato e conseguir recuperar o estatuto de outrora na Europa. No FC Porto há uma vontade de querer fazer melhor, de terminar a época com brio, de ganhar as taças que ainda tem em jogo. O futebol, contudo, necessita de uma mente forte e de grande auto-estima. Neste momento, os dragões, por mais que queiram mudar o seu destino, não têm essa faculdade. O Benfica marcou cedo. Aos nove minutos. Rúben Amorim rematou de longe, rasteiro e seco, a bola foi ter com Nuno Espírito Santo, o guarda-redes deu um frango descomunal. Jesualdo encolheu os ombros: que fazer perante este destino?

BOA REACÇÃO... MAS ATACADA POR UM GOLO

Apesar das adversidades, o FC Porto reagiu bem. Já havia pertencido aos dragões a primeira oportunidade, num lance em que Quim negou as intenções de Cristian Rodríguez, mas o golo poderia ter terminado precocemente com a ambição portista em contrariar o Benfica. Os portistas, porém, tiveram capacidade para reequlibrar o jogo, conseguir jogar no meio-campo encarnado e fazerem circular a bola nas proximidades da baliza contrária. Aos vinte e três minutos, com carambolas entre Falcao e Fábio Coentrão, Quim foi obrigado a uma defesa felina. No entanto, pouco mais se viu dos dragões. Escasseavam ocasiões de golo iminente. Foi, sobretudo, a partir da meia-hora que o Benfica quis demonstrar que o seu tento não caíra do céu aos trambolhões. E chegou ao segundo golo num momento-chave: antes do descanso.

Mesmo sendo um guarda-redes experiente, o erro crasso no primeiro golo do Benfica deixou marcas profundas em Nuno. Tremeu, mostrou-se nervoso, não teve recursos para impedir que essa sua inquietação passasse para os seus colegas. Os jogadores encarnados perceberam-no. Nos últimos instantes da primeira parte, o Benfica dispôs de uma falta a cerca de trinta e cinco metros da baliza. Carlos Martins tem um pontapé potente, gosta de tentar a sua sorte, aumentou a confiança em ser feliz. E foi. Rematou forte, uma folha-seca, para o lado de Nuno, a bola entrou juntinho ao poste esquerdo da baliza portista. O golo da tranquilidade assegurado pelo Benfica, mais uma facada nas aspirações do FC Porto em tentar vencer. Aumentou a tensão entre os dragões, acentuou-se a luta desigual contra o rumo natural dos acontecimentos.

UM RUMO NATURAL QUE NÃO SE IMPEDE

E a lógica deste jogo ditava que o Benfica iria ganhar. Simplesmente porque é mais forte. Tem alternativas válidas, Jorge Jesus dá-se ao luxo de deixar Javi García, Ramires, Saviola e Cardozo de fora sem que a equipa sinta qualquer quebra. Os processos estão bem interiorizados, saem com enorme facilidade, o Benfica respira confiança. Ao invés, o FC Porto é uma equipa triste, lutadora mas impotente, sem soluções que dêem sangue novo à equipa e obriguem o adversário a repensar a estratégia. A perder por dois golos ao intervalo, Jesualdo Ferreira lançou Fucile, para procurar estancar as investidas ofensivas de Fábio Coentrão que haviam atormentado Miguel Lopes, e Valeri, em substituição de Rúben Micael, na procura de maior criatividade ao meio-campo azul. Foi inconsequente. O FC Porto não mais criou perigo para Quim.

Uma equipa desesperadamente à procura de sair para o ataque, jogando com o coração, pouco discernida e envolvendo-se em picardias constantes. Foi assim que o FC Porto se apresentou no Algarve. Não foi a primeira vez na temporada, é certo. O Benfica jogou com o tempo e com a ansiedade do adversário, não deu azo a que os dragões tentassem crescer na busca de um golo capaz de relançar o resultado. Há muito mérito nisso. Ciente de que tinha o jogo controlado, Jorge Jesus foi lançando as peças fundamentais que poupara: começou com Saviola, passou por Ramires e terminou com Cardozo. O Benfica terminou o jogo próximo da sua equipa-base, portanto. E fechou com chave de ouro, numa das poucas oportunidades da segunda parte: passa e repassa, Rúben Amorim picou a bola sobre Nuno, o poste encaminhou-a para o pé de Cardozo. Três-zero, resultado abrilhantado.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Taça da Liga: Sporting-Benfica, 1-4 (crónica)

CINCO - O NÚMERO TRANSFORMADOR

Uma equipa que ainda espera qualquer coisa desta temporada num jogo que lhe acalenta a esperança de ficar com algo palpável, excluídos que estão os principais objectivos internos. Para quem já está fragilizado, pressionado com a necessidade de vencer, qualquer passo em falso sai caro. E se for uma expulsão ingénua no quinto minuto? É um hara-kiri. Seguido de um golo, no livre. Dois duros golpes, de uma vez só, nas aspirações do Sporting. O Benfica dominou, não sendo avassalador, chegou ao segundo golo. Desligou, depois, com meio serviço cumprido. Liedson acreditou sempre, foi capaz de dar alguma esperança. Mas nada mais do que isso.


Um derby, a reedição da final do ano passado, Sporting e Benfica com contas para acertar na Taça da Liga. Ou toda a época em jogo para os leões, uma verdadeira roleta. Três derrotas consecutivas, adeus definitivo ao campeonato, queda estrondosa na Taça de Portugal: o que resta ao Sporting? Ganhar, apenas, para manter o brio e a honra da equipa. Como se fosse uma necessidade vital. Ao Benfica, a defesa de um título que soube a pouco no passado, a possibilidade de poder renová-lo, uma conquista interna após a eliminação da Taça de Portugal. Antagónicos no campeonato, contrários ao que têm feito no passado recente, uma época de ambição e outra de pesadelo. Uma rivalidade antiga, arrufos para resolver. E uma taça que ainda os separa desde Março.

Quando alguma coisa corre mal, tudo de mau vem por acréscimo. Não há volta a dar, é sempre assim. O Sporting bem se queixa disso. A equipa pode ter atitude, querer, procurar fazer de tudo para mudar o rumo dos acontecimentos. Não dá, simplesmente, o destino não se altera. Para alguém que precisa rapidamente de se encontrar a si próprio, jogando sob brasas, como se não houvesse amanhã, é preciso algum tempo de jogo para estabilizar e partir para uma exibição confiante que lhe sirva os interesses. Antes que seja possível, vem o maldito destino. Ao Sporting chegou cedo: quinto minuto, João Pereira atira-se às pernas de Ramires, sem nexo, Olegário Benquerença mostra-lhe o vermelho. Um contra-tempo. Estava o segundo à porta. Golo do Benfica. Ou a Lei de Murphy no seu esplendor.

A LÓGICA DOS ACONTECIMENTOS: ESTAVA ESCRITO!

Haverá quem resista a tamanha má sorte? Serão raros os casos em que, vivendo tal instabilidade e falta de bons resultados, alguém seja capaz de reagir a estas adversidades. Em vantagem, no marcador e numérica, o Benfica tomou conta do jogo. Jorge Jesus leu o jogo na perfeição. No início, colocara Di María no caminho de Grimi, explorando as conhecidas deficiências do lateral leonino, com Ramires no apoio a César Peixoto do lado contrário. Após o golo, com uma cratera na direita da defesa do Sporting, sem João Pereira e com Adrien Silva como solução provisória até à entrada de Pedro Silva, passou Di María para a sua posição natural. Domínio absoluto do Benfica, jogo num só sentido. Chegou o segundo golo. De forma natural, à meia-hora, num desvio de Ramires. Tudo tão, tão fácil.

O jogo de Alvalade começava, então, a ter demasiadas semelhanças com o que acontecera no Dragão. Pior: dois golos de desvantagem, menos um jogador, olés nas bancadas. O segundo golo do Benfica poderia ter sido, precocemente, o fim do jogo. Teve, contudo, um sentido contrário: os encarnados baixaram o ritmo, abusaram da altivez, o Sporting procurou fazer algo para desanuviar o resultado e ainda ter chances de conseguir algo mais. Liedson, sozinho na frente, sozinho contra tudo, teve a primeira oportunidade de golo para os leões: rematou de longe, Júlio César negou-lhe o golo. Não o faria da segunda vez. Novo remate de longa distância, agora para dentro da baliza. Do nada, o Sporting renasceu. E o Benfica, onde andava? Apareceu com Alan Kardec - rematou perto do poste.

Os jogadores do Sporting estavam apostados em não repetir a história da Taça de Portugal. Desta feita, mostraram grande garra e coração. Conseguiu equilibrar o jogo, regressou melhor do intervalo, o Benfica ainda não tinha regressado a si após ter marcado o segundo golo. O tempo, porém, era cada vez menos. Carlos Carvalhal lançou Yannick para o lugar de Pongolle, procurando desiquilíbrios. Jorge Jesus preparou a dupla dos golos, Cardozo e Saviola. Uma ideia bem clara: terminar com o jogo. Conseguiu-o antes disso. Como David Luiz fizera no primeiro golo, Luisão elevou-se sozinho e cabeceou para o fundo da baliza. Fim? No Sporting, sim, mas faltava o melhor: aos noventa e quatro minutos, Cardozo fez um golo de se lhe tirar o chapéu. Ponto final, parágrafo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Taça de Portugal: FC Porto-Sporting, 5-2 (crónica)

A DEGOLA DOS INOCENTES

Em Braga, o Sporting perdeu definitivamente o comboio do campeonato. Tinha, no Dragão, uma oportunidade de ouro para ultrapassar um adversário directo e marcar posição na Taça de Portugal, procurando ficar com algo de palpável nesta temporada. Para o FC Porto, um título para defender, uma diferença sobre os leões para atenuar no número de provas conquistadas. Jogo dividido, à partida. Sim, ninguém esperava que fosse uma verdadeira degola dos inocentes. Como foi. Resultado histórico: cinco para o FC Porto, dois para o Sporting. Loucura no Dragão, vergonha de corar dos sportinguistas. O dragão queimou o leão.

FC Porto-Sporting, clássico do futebol português, da Taça de Portugal, uma espécie de final antecipada e transferida do Jamor para o Dragão. Início de um mês louco, recheado de futebol, decisivo para as duas equipas: os leões estão arredados da luta pelo campeonato e viram atenções para as taças, ao passo que os dragões pretendem guardar um título conquistado na época anterior. Um clássico é sempre um clássico, ninguém se quer sentir vergado por um adversário directo. O FC Porto teve uma entrada a todo o gás: ganhou superioridade no meio-campo, tomou conta da bola, conseguiu criar lances de perigo para a baliza de Rui Patrício. Dezoito minutos, depois de o anunciar, chegou ao golo. O Sporting, esse, ainda não tinha entrado verdadeiramente em campo.

O FC Porto marcou. E fê-lo com justiça, perante a superioridade inicial que demonstrou. A vantagem, contudo, durou somente quatro minutos: Izmailov disparou um míssil, Beto não teve armas para o travar, o Sporting empatou. E despertou. Com o golo e com a mutação entre Izmailov e Miguel Veloso, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, claramente onde cada um deles obtém maior rendimento, a equipa leonina conseguiu equilibrar o jogo. Até aparecer uma nova oportunidade. Um novo golo. Eficácia invejável, não? Minuto trinta e quatro: Falcao ganhou a bola, disparou de fora de área, Patrício deixou que lhe fugisse, o dragão voltou a colocar-se na frente. Automaticamente, o FC Porto reassumiu a superioridade que evidenciara até ao empate. Izmailov apenas mexeu.

O EXTÂSE DE UNS É A VERGONHA DE OUTROS

Carlos Carvalhal percebeu que algo na sua equipa não estava bem. Era necessário aumentar a capacidade ofensiva, procurar equilibrar a balança no meio, trocou Adrien Silva por Matías Fernandéz. Imperativo que a equipa conseguisse ligar melhor o seu jogo, construindo futebol atacante e procurando descompensar a defesa do FC Porto. Na teoria, a ideia era essa. Na prática, contudo, antes de qualquer reacção que o Sporting mostrasse, os portistas aumentaram a vantagem: Rúben Micael desenhou o projecto e Falcao deu cor a um quadro azul, azulão, uma vantagem inequívoca. A substituição tinha sido feita há pouco, o FC Porto voltou a atirar o leão ao tapete sem dó. Se não foi o knock-out ao intervalo, quase. Futebol dinâmico e quatro golos. Que mais se lhes pede?

Restava, para a segunda parte, que o Sporting reagisse. Teria forçosamente de entrar pressionante, aguerrido, na busca de um golo que relançasse o resultado. A ideia, mais uma vez, só podia ser essa. Mais uma vez, o FC Porto não deu espaço para que tivesse efeito. Três minutos da segunda parte, golo de Varela, um leão cada vez mais combalido, um dragão imperial. Agora, sim, as dúvidas estavam desfeitas: o Sporting não tinha recursos para ainda discutir a eliminatória. Bateram os dez minutos da segunda parte, Mariano González resolveu fazer um daqueles golos de bandeira, puro espectáculo, visto e revisto. O mal-amado, patinho feio da equipa, levou o Dragão ao extâse. Cinco-a-um?! Carlos Carvalhal baixou a cabeça, absoluta desilusão. O público no clímax, olés ao rival.

Uma pergunta pertinente nesta crónica: que é feito da agressividade do leão? Desapareceu, simplesmente? Esta equipa, convenhamos, não tem nada de Sporting. Falta garra. Os leões estiveram demasiado mal, recuperaram com Carlos Carvalhal, pensou-se que seria a retoma total, mas não foi: as vitórias serviram apenas para atenuar a má imagem da primeira metade de temporada, esta equipa mantém todas as deficiências de outrora. Perdera em Braga, mesmo não sendo inferior, o título; cai, agora, da Taça de Portugal vergado a uma derrota humilhante na casa de um dos maiores rivais. O FC Porto aproveitou, alcançou uma vitória que injecta moral para uma fase decisiva da época. Voltando ao jogo: Liedson, em cima dos noventa, reduziu a derrota. Cinco-a-dois, ponto final.