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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Barça-Real: O triunfo de um estilo

O Barcelona venceu sem apelo nem agravo um Real Madrid apático e abúlico. José Mourinho sofreu a maior derrota da sua carreira, dias depois de completar dez anos como treinador. A explicação para Mourinho é simples, até porque quando se perde por cinco a zero, não há nada que possa dourar a pílula e o remédio é ficar sentado no aconchego do banco. Guardiola foi igual a si mesmo, sem se colocar num pedestal, magnânimo e coerente, quer na hora da vitória, quer na hora da derrota. Os jornais espanhóis vão, conforme as cores que defendem, tecer loas ou carpir mágoas sobre o resultado do jogo, mas sobretudo vão "crucificar" José Mourinho e as suas opções, porque ao fim de muito tempo, ele "pôs-se a jeito" e como diz o ditado "é malhar enquanto o ferro está quente".

Há uma diferença tão grande entre os dois clubes como o resultado deixa transparecer? Não. A essa conclusão chegaram, para além dos dois técnicos, outras figuras do futebol espanhol. Que aconteceu então? Diria que futebol. Ganhou o colectivo sobre o individual ou, se quiserem, ganhou uma equipa construída sobre uma em construção. O Barcelona foi igual a si próprio e ao seu estilo de jogo - posse e circulação de bola -, com Xavi e Iniesta a "tricotar" no miolo, Messi a desenrolar o novelo com passes de ruptura e Villa a dar o remate final em tapete de obra fina. Que apresentou o Real Madrid? Uma defesa com alas permeáveis, um Pepe atarantado a querer pisar locais que não os seus, deixando crateras nas suas costas, um meio-campo pouco pressionante e um ataque com pouca bola e ainda menos inspiração. Não se pode jogar contra o Barcelona sem correr e pressionar e o Real foi o que fez, com o resultado que se viu.

Guardiola foi melhor neste jogo que Mourinho e até antes do jogo já o tinha sido. Mourinho adiantou o onze e falhou porque jogou Benzema em vez de Higuaín (estava mesmo lesionado?). Guardiola disse que alguma vez teria que perder com o Real, mas ainda não foi desta. Messi foi melhor que Ronaldo, sendo decisivo nos passes que deu para Villa marcar e num pormenor de classe, logo no início do jogo, levando a bola ao poste da baliza de Casillas. O Barcelona foi por isso e outras razões, melhor, neste jogo, que o Real Madrid, como explica, e bem, o Ricardo no texto aqui em baixo. Como disse David Villa "foi o triunfo de um estilo".

Análise de Bernardino Barros ao partidazo entre Barcelona e Real Madrid

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Barcelona-Real Madrid, 5-0: Demolição com tiki-taka

COMENTÁRIO

Tiki
com Iniesta, taka com Xavi, tiki com Messi, taka com Pedro Rodríguez, tiki-taka com David Villa. Carrossel, rasgo, dinamismo. Tudo em movimento, sem tempos mortos, aproveitamento máximo, nada de quebrar. Tudo jogado no limite, passe para aqui e passe para ali, tiki-taka constante, bola colada no pé, sem falhas, movimento perfeito. O Barcelona entrou forte no clássico. Passes curtos, bola em profundidade, velocidade, dribles e descompensação. Intensidade máxima. Messi assustou com uma bola no poste, marcou no aproveitamento de uma distracção defensiva merengue, no tiki de Iniesta para o taka de Xavi, e aumentou, depois da reacção do Real Madrid, antes dos vinte minutos. Dois-zero, olhar sério de Mourinho: mãos nos bolsos, muito jogo para disputar e recolha ao banco. Sentou-se. Sem comentários, sem ondas, sem gritos. Apenas tranquilo, sereno, nada enérgico. Percebeu a dimensão do que acontecia.

Casillas cruza os braços. Visão turva, raiva que consome por dentro, farto da faena do Barcelona. Está quase no fim. O Real Madrid definhou pelo relvado. Falhou passes, não teve ligação, foi caótico, sentiu o futebol de passa e repassa do Barça bem fundo no coração, apenas desejou nunca ter subido ao relvado e não ter sequer desafiado as hostes catalãs. Os merengues foram demolidos. Casillas mantém a postura: olhar distante, sem saber muito bem o que ali se passa, completo desnorte e um inconformismo que não se controla, aumentado a cada olé, a cada passe de ruptura, a cada ferro cravado, a cada toque de calcanhar que funciona para humilhar, dizimar, destroçar a mente do Real Madrid. Depois de Xavi e Pedro Rodríguez, com outras oportunidades pelo meio, já David Villa marcara por duas vezes. Mourinho continua sentado, calado, impávido. Já colocara Lass e Arbeloa. A intenção: evitar números ainda mais gordos.

O Barcelona diverte-se com a bola. Tudo está oleado, a máquina funciona na perfeição, atinge o brilhantismo, a equipa alia os golos, o resultado puro e duro, a uma magia incomum, de divertimento absoluto, que preenche os adeptos e fascina os apaixonados. Faz parte da filosofia, da cultura, dos princípios desta equipa blaugrana. O Barcelona jogou num ritmo fabuloso, desolador para o adversário, senhorial, encheu o peito, atemorizou o Real, reduziu-o a insignificantes tiros de longe saídos dos pés de Ronaldo ou Di María, encostou o rival. Jogou, criou, assustou e marcou. O Real Madrid baixou os braços com o segundo golo. Enervou-se com o futebol culé, envolveu-se em quezílias, cometeu faltas, perdeu-se num mar de indefinições. Tudo correu mal. Sentiu falta de Higuaín, clamou por Ronaldo, o português tentou mas não pode, Benzema foi inconsequente. Mourinho chocou com algo inédito. E enrolou a bandeira.

Incapaz, desastrado e inábil, o Real Madrid ficou à mercê do Barcelona. O público vibrou, os jogadores sentiram a oportunidade única, melhor do que nunca, de passar para a frente, sim, mas também desferir golpes de morte no principal rival, de inverter a posição no topo e deixar Mourinho, por uma vez que seja, a engolir em seco. Envolto na teia catalã, preso e sem capacidade de reacção, o Real Madrid passou por momentos caóticos, impróprios num grande como é, não encontrando forças, em momento algum, para se impor, fazer valer o seu estatuto de líder e contrariar o tipo de futebol apresentado pelo Barcelona. A equipa de Pep Guardiola jogou muito, alegre e compenetrada nas suas tarefas, quis sempre mais, batalhou, tentou, criou ocasiões e chegou, em cima do apito final, à mão-cheia de golos, por Jeffren, coroando um resultado histórico, épico e desconcertante. Que poderia, até, ter sido mais amplo. De la hostia!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O novo líder do Real Madrid

José Mourinho foi apresentado no Real Madrid. Foi a confirmação de uma contratação anunciada - quase como a morte do pobre Santiago Nasar para Gabriel García Márquez. Os merengues, impulsionados pela empreendedorismo de Florentino Pérez, necessitavam urgentemente de um treinador à medida do seu plantel. Manuel Pellegrini, o chileno escolhido na primeira época após o regresso de Pérez depois da recusa de Arsène Wenger, é um bom treinador mas cedo se percebeu que teria grandíssimas dificuldades para lidar com tantos jogadores de topo mundial. Depois de uma época em branco, veradeiramente fracassada a toda a linha, o Real Madrid precisa de vencer. É um desafio arriscado, melindroso, arrojado. Bem à medida de José Mourinho. Assenta-lhe como uma luva: quer arrasar noutro país para completar o Grand Slam.

Chegar. Respirar fundo e encarar um batalhão de fotógrafos e jornalistas. Congestionamento, paragem, inúmeras imagens para guardar o momento. Mourinho está no Santiago Bernabéu para ser apresentado. É mesmo preciso? "Sou o José Mourinho e não vou mudar". Nem outra coisa seria de esperar. Mourinho, para ganhar em Madrid, precisa de ser igual a si próprio. Trabalhando nos limites, motivando os seus, procurando retirar força aos adversários, tudo para colocar o clube primeiro do que Ronaldo, Kaká, Benzema, Casillas ou Raúl. O colectivo é o principal. As individualidades, ainda para mais as que o Real Madrid possui, são fundamentais. Contudo, para Mourinho, sempre foi a equipa a demonstrar a sua força. O Internazionale é o caso mais gritante de como o colectivo, se unido e consistente, consegue superar algumas brechas.

Juntar os melhores pode, por vezes, revelar-se um incómodo. É uma visão algo paradoxal, sim, mas realista. Numa equipa de futebol é, pode-se dizê-lo, normal. Mourinho aparece como elemento capaz de conter todos os egos, sabendo lidar com as frustrações e os estados de alma de cada jogador do seu plantel. Pelas suas características enquanto treinador na sua vertente de psicólogo, onde também é realmente bom naquilo que faz, Mou não deixará, por certo, que qualquer jogador ouse interferir nas suas acções. O mesmo se alarga, obviamente, à estrutura do Real Madrid, pois já ficou bem vincado, pelo técnico português, que ninguém, para além dele, tomará decisões relativamente à equipa e ao plano de jogo. O aviso ficou no ar, sobretudo para Jorge Valdano. Tal como fizera, em Londres, com Roman Abramovich. Mourinho gosta de ser o líder. Só assim sabe trabalhar. Agora, em Madrid, é ele o líder do Real.

PS: Anunciada é, também, a contratação de André Villas Boas, ainda treinador da Académica, para substituir, no comando técnico do FC Porto, Jesualdo Ferreira. O anúncio, porém, tarda em ser feito. O facto de ainda não ter sido confirmado oficialmente o acordo com Villas Boas, algo que leva a uma especulação pouco habitual em torno das opções de Pinto da Costa, pode indicar a possibilidade de um volte-face que fará os portistas mudarem de planos. Seja como for, não se percebe porque se mantém um assunto tabu: André Villas Boas tem tudo certo para ser o novo treinador do FC Porto. É um risco de Pinto da Costa. Falta assumi-lo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Falta a Champions para a tripleta, Mou!

Apito final de Emidio Morganti em Siena. O Internazionale de Milão chega ao final dos noventa e três minutos com a vitória, um triunfo tangencial mas justo, inteiramente merecido para ser confirmado o pentacampeonato dos nerazzurros. José Mourinho está junto ao túnel. Benze-se, beija os dedos, aponta ao céu com os dois indicadores, agradece a nova conquista. Desce a escadaria e desaparece no túnel de acesso ao balneário. A câmara procura, Mourinho não mais é visto. No relvado, os jogadores exultam, abraçam-se, festejam o seu campeonato, um título suado e sofrido até ao final, enfim vergando a incómoda Roma que se intrometeu no caminho do Inter. José Mourinho, o mesmo que atravessou o relvado em Barcelona, é bem menos efusivo, mais recatado, festeja em silêncio. Dá mais um golpe nos críticos. O golpe de misericórdia.

O Inter dominou em Itália. Mesmo vivendo dificuldades, tendo o título nacional por um fio, vendo-se ultrapassado pela Roma, equipa autora de uma recuperação fantástica desde a entrada de Claudio Ranieri que foi capaz de polvorizar os catorze pontos de atraso. Pensou-se que o campeão falharia. Errado. O Inter aproveitou um deslize dos romanos, em casa, para recuperar a liderança e ficar, então, com todas as condições para assegurar o título - a derrota ante a Sampdoria foi fatal para as aspirações de Ranieri, vinte e cinco jogos depois do último tropeção. Ontem, no terreno do Siena, o Inter confirmou o pentacampeonato. A Roma pressionou, venceu, obrigou a equipa de José Mourinho, também, a vencer. O Inter jogou bem, sufocou o adversário, criou um infindável número de oportunidades. Os caminhos do golo estavam tapados. Até Milito emergir. Como tantas vezes.

Diego Alberto Milito foi, indiscutivelmente, um dos melhores jogadores deste Internazionale. Adaptou-se com enorme facilidade a uma realidade bem diferente daquela a que sempre esteve habituado e continuou o seu percurso, recheado de golos, tal como havia feito no Saragoça ou, sobretudo, na última temporada ao serviço do Génova. A importância de Milito foi notória na equipa, o avançado argentino destacou-se nos momentos cruciais, apontou vinte e dois golos no campeonato e sete na Liga dos Campeões - sendo verdadeiramente fulcral na primeira mão ante o Barcelona, tal como Sneijder ou Zanetti, por exemplo. Foi também dos pés de Diego Alberto Milito que saiu o remate vitorioso na final da Taça de Itália, conquistada, frente à Roma, no Estádio Olímpico. O Inter, mesmo com turbulência no percurso, conseguiu a dobradinha. Itália rendeu-se ao domínio.

O objectivo mais ambicionado do Inter passa pela conquista da Liga dos Campeões. Há quarenta e cinco anos, desde os tempo áureos de Helenio Herrera, que os nerazzurros não vencem a maior prova europeia de clubes. É um hiato demasiado longo, abissal até, para uma equipa com os recursos e o historial do Inter de Milão. Ser campeão em Itália tem sido uma constante ao longo de cinco anos. Vencer a Liga dos Campeões será um marco na História. É atrás dele que correm os jogadores do Inter. E José Mourinho. Para deixar Itália com o dever completamente cumprido, mesmo vencendo o campeonato com todo o mérito que se lhe reconhece, ganhar a Champions dará ao treinador português um estatuto quase impossível de igualar. Aí, sim, festejará. Deixará um futebol hipócrita e onde não se enquadra coberto de glória. Com vitórias, títulos e feitos inatingíveis.

domingo, 18 de abril de 2010

Internazionale: melhor na Europa e pior em Itália

O futebol do Inter de Milão não prima pela espectacularidade. Aliás, seria estranho se assim fosse. Em Itália, já se sabe, impera o pragmatismo. A táctica é colocada acima de tudo, o espectáculo é automaticamente secundário, a consistência defensiva ganha relevo junto do pendor ofensivo, os riscos que se correm são mínimos, há um enorme cinismo por detrás de tudo isso. É essa a fórmula de chegar ao sucesso. Resulta, é um facto. Não é, contudo, atractivo para os adeptos. Não satisfaz na plenitude. O resultado pode ser o desejado, sim, mas fica a faltar uma parte fundamental do futebol: o futebol positivo, de ataque, de divertimento, jogando para a equipa e para a bancada. São poucas as equipas que o fazem com total aproveitamento. Daí que ser simples seja um bom método. O Inter de Milão tem feito, porém, uma temporada titubeante.

A equipa nerazzurri está melhor do que na época passada na Liga dos Campeões. Conquistar a Europa é um objectivo que os adeptos anseiam, perseguem há quarenta e cinco anos, muitos foram os que o colocaram como meta prioritária para a contratação de José Mourinho ter sentido. Afinal, não faria sentido dispensar um treinador tricampeão, Roberto Mancini, e optar por Mou se o plano não visasse alterações. Com Mancini, o Inter dominou em Itália mas também não chegou à final da Liga dos Campeões. Mourinho, na primeira época, repetiu-o. O Inter, sob o comando do treinador português, venceu o campeonato. Sem ser espectacular, como se disse, foi um justo campeão pela sua regularidade. Mas falhou na Europa. O Inter caiu nos oitavos-de-final frente ao Manchester United, então detentor do troféu que seria travado na final pelo Barcelona.

Não houve quem hesitasse em colocar um carimbo na primeira época de Mourinho: fracasso. Afinal, não mais fizera do que o seu antecessor. Surgiram críticas de todos os lados, o treinador abriu uma guerrilha com várias frentes, apontou armas a quem lhe fizesse frente, não teve pejo em identificar os inimigos. José Mourinho sempre foi assim, sempre será. O seu feitio choca com Itália. No entanto, permaneceu no Internazionale. Ganhar a Liga dos Campeões? Não necessariamente, mas fazer melhor. A ultrapassagem dos oitavos seria o mínimo exigível. O Inter encontrou o Chelsea, Mourinho reencontrou uma equipa que levou meio século depois à glória, cumpriu o objectivo. Em Londres, os italianos fizeram um jogo vocacionado para o ataque, com grande qualidade, sem se agarrarem à vantagem. Não jogaram à italiana, portanto.

Depois do Chelsea, o Inter eliminou já o CSKA de Moscovo. Teve o brinde do sorteio. Logo após, contudo, terá a fava: o Barcelona nas meias-finais. Será um duelo, à partida, entre equipas que vivem em pólos opostos: o Barça é espectacular, joga um futebol rendilhado, passeia classe e triunfa; o Inter quer voltar à glória, é uma equipa pragmática, usa a táctica para preencher lacunas técnicas. Os espanhóis são favoritos. Em caso de derrota, a Mourinho não se poderão pedir explicações, uma vez que cai perante aquela que é, na actualidade, a melhor equipa do planeta futebolístico: nenhuma outra tem a capacidade de jogar e vencer, duas componentes essenciais mas tão difíceis de unir. Se a participação na Liga dos Campeões é, até agora, bem positiva, o campeonato está longe de ser fácil. Neste momento, o Inter tem a vida complicada.

O principal opositor da equipa milanesa na disputa pelo trono italiano é a AS Roma. A equipa romana, verdadeiramente revitalizada desde que Claudio Ranieri substituiu Luciano Spaletti no comando técnico - dois inimigos declarados de José Mourinho -, venceu o Inter e aproveitou desaires do campeão para eliminar a diferença abissal de catorze pontos que chegou a barrar-lhe o topo. Na jornada anterior, por força do empate do Inter com a Fiorentina e da vitória da Roma sobre a Atalanta, os romanos assumiram a liderança com mais um ponto de que a equipa de José Mourinho. Foi o corolário lógico de uma ascensão espectacular. Na abertura de uma nova ronda, na sexta-feira, o Inter venceu a Juventus e, ainda que a título provisório pois a Roma só hoje joga com a vizinha Lazio, voltou a passar para a frente. A bola está, de novo, no campo da Roma. Se a resposta for assertiva, fica a certeza de que a luta será renhida até final.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A alma que invade o Barça e falta em Madrid

O Barcelona é superior ao Real Madrid. Joga um futebol encantador, actractivo e envolvente. Os seus jogadores vivem num constante estado de graça. Messi é o rosto mais visível de uma equipa onde todos se complementam e cada um sabe precisamente as suas funções. No Real Madrid, Ronaldo é o líder de um conjunto de estrelas. Pode parecer a mesma coisa dito por palavras diferentes. Não é. Tratam-se, aliás, de concepções contrárias. Lionel Messi tem uma equipa com ele, fá-la ganhar e ganha com isso. É perfeito para ambos. Cristiano Ronaldo é quem deve guindar a equipa ao sucesso, dele se espera tudo, mas não é sobrenatural. Está desapoiado. Como não está Messi. Ou como não estava em Manchester. No Barcelona não há um jogador imprescindível como é Ronaldo em Madrid. Há vários. E a Liga está encaminhada.

Cartera. O Real Madrid, com a reentrada de Florentino Pérez no clube, após a atribulada saída de Ramón Calderón, em 2009, colocou o mercado de transferências numa verdadeira roda-viva. O novo presidente chegou pronto a reunir os melhores do planeta no Santiago Bernabéu, recuperando um projecto que dera sucesso no início, com Vicente del Bosque, mas entretanto caído em desgraça: tornar o Real Madrid num conjunto galáctico. Num tempo em que qualquer clube suspirava para sair da crise, preparado para abrir mão das suas pérolas em função das finanças, Florentino Pérez foi um bálsamo. Identificou os alvos, apresentou os cheques, contratou. Pagou noventa e quatro milhões de euros por Ronaldo, sessenta e cinco por Kaká, trinta e cinco por Benzema. Contratou ainda Xabi Alonso e Arbeloa.

Chegados a esta fase da época, o que tem o Real Madrid para ganhar? O campeonato. O primeiro rombo chegou com a eliminado da Taça do Rei pelo modestíssimo Alcorcón, equipa do terceiro escalão espanhol que ganhou por estrondosos 4-0 no jogo da primeira mão e saiu do Bernabéu derrotada por um golo somente. Seguiu-se a saída inglória da Liga dos Campeões, em casa, no palco da final, frente ao Olympique de Lyon. Duas vitórias incontestáveis dos franceses nos oitavos. Havia, contudo, o primeiro lugar na Liga. Em igualdade com o Barcelona, é verdade, mas com vantagem pela maior diferença de golos. Aproximava-se o duelo entre os líderes. Era a oportunidade para os merengues afastarem definitivamente o Barça. E mais do que isso: darem retorno ao investimento megalómano de Florentino Pérez. Falhou por completo.

O Barcelona, pelo contrário, não investiu rios de dinheiro. Tem uma cantera que lhe dá todas as garantias, os jogadores conhecem o espírito do clube e transportam-no para o relvado. Há alma na equipa. Ora, é precisamente isso que falta no Real Madrid: a qualidade abunda, mas não há identificação clara com o clube. Falta a tal mística. Essa é uma das virtudes deste Barça. Pep Guardiola é, ele próprio, um símbolo blaugrana, um capitão que deixou os relvados e passou para o banco com sucesso imediato. Actualmente é Carles Puyol a maior referência do clube. O Barcelona tem uma enorme capacidade de lançar jovens, consolidá-los e os tornar em indiscutíveis. Sergio Busquets e Pedro Rodríguez emergem a cada jogo, como Valdés, Piqué ou Xavi em tempos. O Barcelona é a melhor equipa da actualidade. Conquista-se, não se compra.

domingo, 11 de abril de 2010

O que une Rentería, Ernesto Farías e Xavi Hernández?

Em Braga ninguém pensa guardar o segundo lugar. O objectivo é atacar o primeiro. Nem poderia ser de outra forma: esta é a melhor época de sempre dos bracarenses, nada o apagará, mas a coroação somente poderá chegar com a conquista do título. É a oportunidade de uma vida. Não há, por isso, forma de a descartar. É difícil, claro que sim, mas mantém-se possível. A ambição do Sp.Braga passa por vencer os seus jogos. Ora, se o fizer, para além de manter a perseguição ao Benfica, segura o segundo lugar. Não há risco de ser traído pela gula, uma coisa leva à outra. Wason Rentería chegou ao Sp.Braga, cedido pelo FC Porto, na reabertura do mercado. Nos últimos dois jogos, ante Vitória de Guimarães e União de Leiria, foi decisivo. Com os vimaranenses, ganhou duas grandes penalidades; com os leirienses, marcou o segundo golo, o da vitória, concluindo a reviravolta minhota. E, assim, os portistas continuam atrás. É irónico.

O FC Porto fez um jogo fraco em Vila do Conde. Não teve dinâmica, perdeu capacidade de imprimir velocidade, nunca conseguiu assumir-se superior e fazer tremer a defesa contrária. Sentiu imensas dificuldades para não se deixar manientar pelo Rio Ave, escaldado pelas últimas duas goleadas. Duas derrotas por cinco golos, com Olhanense e Sporting, afectam e Carlos Brito sentiu necessidade de tomar cautelas. Montou uma teia. E, com isso, o jogo enrolado, pouco claro e excessivamente trapalhão prolongou-se. Jesualdo Ferreira chamou Ernesto Farías. Desde 16 de Janeiro, quando defrontou o Paços de Ferreira, o argentino não era utilizado. Pelo meio esteve quase no Cruzeiro, num negócio abortado que traria Kléber para Portugal, mais tarde quase rumou ao Palmeiras. Faltou o quase. Ficou no Porto. Ante o Rio Ave, El Tecla decidiu. Poucos minutos em campo, um golo de cabeça. E alimentou a esperança azul nos milhões.

Um país parado em frente à televisão, estádio cheio como um ovo, duelo de titãs na luta pelo título. Real Madrid e Barcelona, o jogo do campeonato espanhol. Duelo entre Messi e Ronaldo, também. Seria quase obrigatório assim o considerar: são os dois melhores do mundo, movem multidões, encantam quem os vê jogar. O argentino lidera um carrossel mágico e vencedor, o português é a estrela mais brilhante da constelação madrilista. O Barcelona ganhou, foi superior em toda a linha, mostrou a sua força. Messi e Pedro Rodríguez cravaram a vantagem. La Pulga ganhou a Ronaldo, portanto. Mas foi Xavi quem maior influência teve. O espanhol vive na sombra, é um operário de tremenda classe, tem uma importância brutal. O Barcelona teve quatro oportunidades de golo feito. Duas entraram, outras duas foram paradas por Casillas. Xavi fez os passes. Letais, sublimes, categóricos. Sabe o que une os três jogadores, leitor? A ironia.

domingo, 18 de outubro de 2009

Palermo e Stankovic, atiradores à distância

Há aqueles golos bonitos que acontecem uma vez em meia dúzia de anos, apenas ao alcance de um verdadeiro génio futebolístico. Há outros que são marcados única e exclusivamente devido à sorte, em que o jogador funciona até como um ponto de impacto da bola que fortuitamente deslizou para dentro da baliza. Depois, há ainda os que estão no meio de ambos: são espectaculares, invulgares e carregadinhos de sorte. Servem, inclusive, para arrancar alguns sorrisos quer de quem o marca quer dos adeptos que observam o momento. Golos marcados por guarda-redes, de baliza a baliza, encaixam na perfeição neste último caso. Causa estranheza como é possível que tal aconteça.

Ontem, em Itália, poucos minutos estavam decorridos na segunda parte do Génova-Inter de Milão, quando Dejan Stankovic, médio sérvio, fez um golo de compêndio. Louco, foi o objectivo usado pelo próprio criador. Expliquemos: Marco Amelia, guarda-redes dos genoveses, já fora da área, levantou a bola que saiu direitinha para o pé direito de Stankovic. Um golpe de karateca, bola impelida, aos trambolhões, para dentro da baliza. Foi sorte, claro. Mas também muito mérito do internacional sérvio porque, mesmo de baliza escancarada, estava quase em cima da linha divisória. Para ver, rever e guardar na memória.

Se já não é todos os dias que vemos alguém marcar assim de longa distância, fazê-lo de cabeça é ainda mais improvável. Martin Palermo, avançado do Boca Juniors bem conhecido de todos os adeptos de futebol, foi o autor desta proeza. Na jornada sete do Torneio Apertura, na Argentina, o lance tem contornos que se assemelham ao de Stankovic, marcado ontem: ambos surgem na sequência de pontapés defeitosos dos guarda-redes contrários. Aqui, foi o guarda-redes do Vélez Sarsfield, Marcelo Montoya, que proporcionou uma cabeça fortíssima de Palermo. Que estava um tudo-nada adiantado em relação ao círculo central. Casos extraordinários, então.