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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Supertaça: Minuto noventa

O Benfica partiu como favorito: campeão, bem estruturado, mantendo a dinâmica criada e apenas com um desaire, o derradeiro teste antes da Supertaça Cândido de Oliveira, para refrear a euforia. Os encarnados partiram confiantes, conhecendo a sua valia, mesmo tendo perdido dois jogadores tão importantes como Di María e Ramires, acreditando plenamente num início de temporada triunfal. O FC Porto, acostumado nos últimos anos a marcar presença na Supertaça como campeão, chegou a Aveiro como uma equipa de orgulho ferido, em transformação, quebrando com o passado e virando a página rumo a um futuro mais risonho, com novas ideias e um novo corpo. A pré-época carregou a apreensão, a desconfiança, sobre a equipa e sobre André Villas Boas, não deixou perceber se haveria efeitos positivos.

Ferido no seu orgulho, olhado com desconfiança e sem dar mostras de melhorias substanciais em relação ao passado, ao contrário da manutenção das belas exibições do Benfica, o FC Porto puxou pela garra, por toda a sua força, libertou o espírito e conseguiu superiorizar-se. O golo de Rolando, marcado no terceiro minuto, foi fundamental. O jogo ficou na mão dos dragões. O Benfica, confuso e desconexo, não reagiu, nunca soube lidar com a pressão altíssima feita pela equipa portista, demonstrou imensas debilidades para se organizar e construir lances de futebol ofensivo. Houve mérito e demérito, as duas faces da medalha, para impedir a reacção encarnada. As opções de Jorge Jesus não tiveram resultados. Airton, por exemplo, nunca conseguiu ser o elo de ligação, como é Javi García - não foi utilizado -, entre a defesa e o ataque, dando equilíbrio à equipa. O meio-campo do FC Porto dominou a toda a linha.

Tanto Benfica como FC Porto jogaram com os mesmos esquemas do ano passado. Jorge Jesus, ao contrário do que fizera nos últimos jogos de preparação, optou pelo preenchimento do meio-campo. Airton, como se disse, nunca se encontrou: nervoso, intermitente e incapaz de contribuir para o equilíbrio da equipa. A falta de um extremo que dê todas as garantias de sucesso, alguém que possa vestir a pele de Di María, levou o treinador encarnado a optar pelo adiantamento de Fábio Coentrão, entrando César Peixoto para a zona defensiva - Rúben Amorim teve imensas dificuldades com as diabruras de Varela, bem apoiado por Álvaro Pereira. Não ganhou força na defesa, antes agressividade, nem Coentrão foi um verdadeiro desequilibrador, porque é a partir de trás, jogando como lateral-esquerdo, que consegue ser dinâmico, ofensivo e influente na manobra ofensiva da equipa. Também Pablo Aimar e Carlos Martins não tiveram bola. A equipa nunca se soltou das amarras.

O Benfica jogou mal? Jogou. Mas não só. Também, por boa acção do FC Porto, não teve espaço para jogar. A equipa portista, titubeante e pouco assertiva durante a pré-época, entrou no relvado com força, garra e um enorme espírito de entreajuda. Afastar de vez o FC Porto expectante, adormecido, previsível e incapaz de assumir o jogo que apareceu na temporada passada, no fim de ciclo de Jesualdo Ferreira, é o primeiro objectivo de André Villas Boas: o novo treinador pretende uma equipa pressionante, em alerta máximo, ousada, audaz e crente nas suas capacidades. Dos reforços contratados para a nova temporada, contudo, apenas João Moutinho - belíssima exibição, pujante e aguerrida, mostrando que não terá de viver uma fase tormentosa de adaptação - entrou na equipa titular. Manteve-se a táctica, mantiveram-se os jogadores, mas mudou a atitude e a forma de jogar. O Benfica sentiu a transfiguração.

É indiscutível: o FC Porto ganhou a Supertaça, justa e merecidamente, dominando o Benfica na maior parte dos noventa minutos, concedendo poucos espaços e sendo sempre mais perigoso. Ganhou força, chutou a apreensão para canto e mostrou uma nova vida. Mesmo demonstrando algum abaixamento de rendimento na segunda parte, perfeitamente justificado pela fase precoce de temporada, e com algumas distracções nos últimos minutos do jogo. Há arestas a limar, sem dúvida, mas os dragões estão no bom caminho. Por outro lado, mesmo tendo perdido e sendo superiorizado pelo adversário e incapaz de marcar qualquer golo, algo pouco visto na época anterior, o Benfica não passa do oitenta ao oito. A Supertaça, contudo, serviu para demonstrar que ainda há muito para acertar nos encarnados. Roberto, por exemplo, treme em cada lance e faz tremer a equipa. E mais importante: como substituir Di María e Ramires?

sábado, 7 de agosto de 2010

Supertaça: Benfica-FC Porto, 0-2 (crónica)

Mandões, adultos e com nariz empinado. O FC Porto apareceu transfigurado. Com audácia, garra e preparado para deixar a última gota de suor em campo. O golo chegou cedo: terceiro minuto. Marcou Rolando, um novo líder no centro da defesa portista, órfã de Bruno Alves, procurando a sua emancipação absoluta. Não tremeu, ao contrário dos defesa benfiquistas e de Roberto, trapalhões e indecisos, colocando a bola no fundo da baliza encarnada. A tonalidade azul, forte e concentrada, instalou-se logo no começo - depois de uma primeira aventura de Fábio Coentrão. E não se tratou de um fogacho, um mero oásis, apenas fogo de vista. O FC Porto manteve-se unido, fulgurante, carregado do espírito de vitória, pressionando alto e impedindo que o Benfica ganhasse o seu território e tivesse a bola. Os dragões instalaram-se confortavelmente, aniquilaram o rival e jogaram com atitude. O Benfica demorou a reagir.

Aos encarnados, abalados pelo golo precoce do FC Porto, faltou velocidade, criatividade e rasgo. Faltou, numa palavra, lucidez: para colocar a bola no chão, pensar e organizar o seu futebol. Os dragões, pressionantes e aguerridos, são grandes responsáveis por isso. A cabeçada de Rolando encheu o peito do FC Porto, trouxe a paz de espírito necessária e deixou a equipa portista com confiança renovada. O Benfica, confuso, surpreendido e errante, encontrou pouco espaço. A primeira vez que o campeão deu um ar da sua graça, quebrando o controlo azul, aconteceu aos vinte minutos, num remate forte de Carlos Martins que Helton defendeu bem. O Benfica teve pouca profundidade, nunca conseguindo desorganizar a defensiva portista. O regresso à fórmula do ano passado, bem-sucedida, não resultou: nem Aimar nem Martins tiveram bola, Airton não conseguiu ligar os sectores e Fábio Coentrão não foi o extremo desejado.

A venda de Di María levantara uma questão de fundo: teria o Benfica substituto à altura? Nos jogos de preparação, mesmo não havendo nenhuma fotocópia, Nicólas Gaitán e Franco Jara deram boas indicações. Jorge Jesus, em certa altura, chegou mesmo a adoptar um novo esquema táctico, soltando um dos jogadores do meio-campo para a formação de um tridente no ataque. No jogo frente ao FC Porto, contudo, o treinador encarnado adiantou Fábio Coentrão no terreno e colocou, com isso, César Peixoto no lado esquerdo da defesa do Benfica. A dinâmica pretendida não apareceu: Hulk e Varela, homens capazes de todas as diabruras, pujantes e destemidos, fizeram a cabeça em água aos defesas do Benfica, imprimiram um ritmo forte, possante e intenso. O FC Porto jogou bem pelas alas, com toque curto, sempre de cabeça bem levantada. O dragão está diferente, mais solto e ousado, beneficiando do golo de Rolando.

O AR DE GRAÇA DO CAMPEÃO

O remate de Carlos Martins, aos vinte minutos, tratou-se apenas de uma ameaça. Ou, no fundo, um sinal de que o Benfica, mesmo tendo despertado a medo, pretendia corrigir os erros, dizimar o prejuízo e lançar-se para a vitória. O FC Porto, não caindo na tentação de refrear os ímpetos para saborear a vantagem tangencial, um pecado de morte, respondeu de pronto, na mesma moeda, num tiro de Sapunaru que Roberto, bem, desviou para canto. Foi, porventura, pouco depois dessa oportunidade de aumentar a vantagem, num período de controlo portista capaz de deixar o Benfica afastado da baliza de Helton, que os encarnados cresceram. Depois da meia-hora, El Conejo Saviola, numa boa envolvência ofensiva, rematou ao lado. Apesar disso, contudo, o perigo, capaz dos maiores estragos, esteve sempre ligado ao FC Porto. Em cima do intervalo, Luisão, um verdadeiro chefe defensivo, impediu o golo de João Moutinho.

Com um meio-campo capaz, tanto a impedir os avanços do Benfica como a lançar as investidas atacantes de Hulk e Varela, o FC Porto ficou com o jogo na mão. Restava perceber qual seria o tempo de validade para tamanha intensidade e entrega, duas características inerentes desde o primeiro minuto, numa fase tão precoce da época. Com o passar dos minutos, os portistas perderam, com naturalidade, a frescura o início e a equipa baixou as suas linhas. O Benfica, com quarenta e cinco minutos para dar a volta, procurou reagir, conseguiu ter mais tempo a bola, encontrar mais espaço para progredir mas faltou sempre o clique de génio capaz de resolver. A equipa não virou a cara à luta, teve coração, espreitou oportunidades. Foi, contudo, insegura e pouco incisiva nas suas ideias. O golo andou perto, aos sessenta e seis minutos, de novo num remate de Carlos Martins travado por Helton e sem emenda certeira de Saviola.

O GOLPE FINAL

O golpe de misericórdia do FC Porto estava guardado. A equipa azul deixara de ser tão pressionante e dominadora, passara a usar a velocidade e o balanceamento do Benfica para criar perigo. Ao aviso benfiquista, seguiu-se o segundo golo portista. Jogada simples, de puro contra-ataque, tão simples como eficaz: Varela recolheu o lançamento longo, encarou com Luisão, coxeando e há muito com a substituição pedida, cruzou rasteiro, tenso e mortal, para um golo oportuno de Radamel Falcao. O FC Porto colocou um ponto final nas dúvidas. Colocou as mãos sobre a Supertaça, a décima sétima do seu historial, para não mais largar. Antes do final, numa última tentativa, Saviola obrigou Helton a uma belíssima defesa. O guarda-redes brasileiro, agora promovido a capitão, foi um pilar importante, transmitiu serenidade e resolveu com eficácia os lances de perigo que os atacantes do Benfica lhe colocaram. O sucesso começou nele.

Olhado com desconfiança à partida, o FC Porto encerra o primeiro jogo da época com uma vitória. Vale um título, renovando a conquista do ano passado, para além de trazer uma enorme confiança para o ataque às primeiras jornadas do campeonato. Os dragões venceram um rival directo, o actual campeão nacional, deixando boas indicações, sobretudo do meio-campo para a frente - com destaque para exibições de João Moutinho, Varela e Rolando -, além de que a equipa, voluntariosa e unida, procurou sempre uma ajuda constante capaz de travar o Benfica. Para os encarnados fica uma derrota, falhando frente a um rival a conquista de um troféu, num jogo em que o Benfica entrou a perder e nunca demonstrou verdadeira capacidade para desorganizar e empurrar o FC Porto. Houve, até, algum desnorte que levou à criação de picardias e entradas bem ríspidas. Óscar Cardozo, César Peixoto e David Luiz são três exemplos disso.

Supertaça: Benfica-FC Porto (antevisão)

Dia um. Na época futebolística em Portugal, nas emoções, nas vibrações fortes, nas palpitações e no calor de um clássico, em Agosto, entre Benfica e FC Porto. O desgaste, o experimentalismo e as afinações da pré-época dão lugar à primeira grande disputa: Supertaça Cândido de Oliveira, entre campeão e detentor da Taça de Portugal, opõe dois dos principais emblemas do futebol português, inimigos de guerra, sempre em cenário bélico e sem baixar a guarda. Diferem como o dia da noite, nunca se irão entender, nem fazer tréguas na rivalidade que os separa e os coloca em pólos tão separados. Para o pontapé de saída na nova temporada, quebrando a monotonia dos jogos de preparação e acompanhado pelo calor de Agosto, nada melhor do que um jogo com estas características. Ganhar o campeonato nacional, saindo por cima em Maio, é o objectivo de qualquer um deles. A Supertaça, frente a um rival directo, será sempre um bom mote.

Estabilidade. O Benfica vive um período de harmonia. Manteve o treinador, a estrutura e renovou a ambição. Mesmo tendo perdido Di María e Ramires, além da dispensa de Quim, três jogadores titularíssimos na temporada anterior, os encarnados, pelo que demonstraram na pré-época e por possuírem todas as condições para assentarem o seu futebol, levam alguma vantagem sobre os principais rivais. Estarão, por isso, na pole-position. A dinâmica ofensiva, o empreendedorismo e a garra que resultaram na conquista do título nacional, quebrando um hiato de cinco anos sem conseguir triunfar no campeonato, devolveram aos benfiquistas a tranquilidade e a paz de espírito necessárias, embora tenham perdido duas pedras importantes o que levou Jorge Jesus a algumas mutações tácticas. A pré-época demonstrou que os encarnados se mantêm fortes. Só uma derrota com o Tottenham, no derradeiro jogo de preparação, refreou a euforia.

Mudança. Profunda. De mentalidade, sobretudo: André Villas Boas substituiu Jesualdo Ferreira, iniciou um novo ciclo, trouxe novos métodos, outras ideias e terá novas caras à disposição. O FC Porto, habituado a ganhar na última vintena e meia de anos, falhou o pentacampeonato, mesmo iniciando a temporada a ganhar a Supertaça e terminando com sucesso no Jamor, cedeu perante Benfica e Sp.Braga, algo que levou a que fosse necessária a adopção de uma ruptura com o passado. A pré-temporada serviu para introduzir novos jogadores, rodar a equipa, perceber quais são aqueles com quem o treinador pode contar e, mais do que isso, para testar pela primeira vez os efeitos do trabalho realizado por Villas Boas. A participação no Torneio de Paris saldou-se em duas derrotas, ante Paris Saint-Germain e Bordéus, algo que fez aumentar a apreensão dos adeptos portistas: qual a preparação para o jogo com o Benfica?

Noventa minutos, alguns mais se for necessário, duas equipas sedentas de vitória, para começarem com o pé direito e atingirem o rival no coração, muita expectativa para perceber como se encontram numa fase ainda tão precoce e quem resiste melhor. Jorge Jesus e André Villas Boas sabem a importância de começar bem, mesmo não sendo uma prova prioritária - sobretudo o portista quer provar que o FC Porto tem uma equipa capaz -, garantindo que estão prontos para a luta, esta em Aveiro, e para toda a guerra que travarão ao longo do campeonato. Sem caras conhecidas como Di María, Quim ou Ramires, no Benfica, mas com os reforços Roberto, Franco Jara ou ainda Gaitán dispostos a mostrarem-se. No FC Porto, já não há Bruno Alves e resta um vazio no centro da defesa, algo que deverá fazer Maicon saltar para a equipa titular. João Moutinho, a contratação mais sonante do defeso, iniciar-se-á como dragão.

Rúben Micael, jogador importante na segunda fase da época passada no FC Porto, e Alan Kardec, um dos destaques da pré-temporada, falharão a Supertaça por lesão. O portista, que deveria ser titular, verá a sua vaga ocupada por Belluschi. Há, posto isto, ainda duas questões nas laterais. Fucile e Maxi Pereira, uruguaios que estiveram na África do Sul, ficarão de fora das opções dos treinadores: o primeiro poderá estar de saída para o Schalke 04, o segundo não está nas melhores condições para o primeiro jogo da época. Também James Rodríguez e Walter, reforços azuis, não estarão ainda em campo nesta primeira aparição, a nível oficial, do novo dragão. Por último, Raúl Meireles: o médio português deverá seguir as pisadas de Bruno Alves, deixando o FC Porto, mas, ao contrário de Fucile, foi convocado. Tratou-se de uma surpresa. Não é crível, contudo, que Meireles seja utilizado em Aveiro. Villas Boas tem a decisão.

EQUIPAS PROVÁVEIS


BENFICA: Roberto; Rúben Amorim, David Luiz, Luisão e Fábio Coentrão; Airton, Carlos Martins e Pablo Aimar; Saviola, Franco Jara e Cardozo.

FC PORTO: Helton; Miguel Lopes, Rolando, Maicon e Álvaro Pereira; Fernando, João Moutinho e Belluschi; Hulk, Varela e Falcao.