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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Portugal em Mundiais: 2006 - Alemanha

No seguimento do fracasso na Ásia, revivendo o capítulo negro de Saltillo, foi colocada a possibilidade de que, tal como acontecera em consequência do Mundial de 1986, a estrutura portuguesa abalasse. A selecção nacional corria o risco de ver voltar a iniciar-se um período de ausência em Campeonatos do Mundo. Entre o México e a Ásia passaram dezasseis anos, o correspondente a quatro edições da prova maior de selecções. Desta vez, contudo, apesar da debandada, Gilberto Madail apostou forte na revitalização de Portugal, procurando sair rapidamente do estado caótico em que a selecção entrara para a relançar para o topo mundial. Chegou a acordo com Luiz Filipe Scolari, o treinador brasileiro que levara o escrete à conquista do Campeonato do Mundo da Coreia do Sul e do Japão, para o conseguir. António Oliveira saíra pela porta dos fundos, desgastado, culpabilizado e crucificado pelos adeptos.

As mudanças não ficaram pelo seleccionador. Atacaram os jogadores. João Pinto foi um deles. Talvez, por tudo aquilo que o envolveu, o alvo principal da ira dos portugueses. O atacante do Sporting, fundamental na conquista do título leonino, prejudicara Portugal com uma entrada irreflectiva, bem traduzida num cartão vermelho, e deixou os adeptos corados de vergonha quando agrediu, sem pensar, o árbitro Ángel Sánchez. Acabou suspenso por seis meses. No entanto, desde logo se percebeu que não mais voltaria a vestir a camisola da selecção portuguesa. Assinara a sua sentença de morte. Jorge Costa, reconhecendo que o seu tempo na selecção nacional terminara, decidiu, por iniciativa própria, colocar um ponto final nesse capítulo da sua vida. Abel Xavier, Paulo Sousa, Sérgio Conceição, Paulo Bento, Pedro Barbosa e Capucho também saíram. Foi o fim de uma geração. Também Vítor Baía!...

Réu para a maioria dos adeptos, mais um responsável ou, pelo contrário, um dos que melhor esteve na opinião de outros. A opção de António Oliveira ao entregar a baliza a Vítor Baía nunca reuniu consenso. Nem poderia. Se por um lado estava toda a qualidade e experiência do guarda-redes do FC Porto, Ricardo tinha consigo o facto de ser um jovem em emergência e ter jogado, por lesão de Baía, grande parte da fase de apuramento para o Mundial da Ásia. Com Scolari tudo mudaria. O brasileiro sempre fora conhecido como um treinador disciplinado, rígido, duro. Daí lhe chamarem Sargentão. No Brasil, mesmo tendo sido campeão mundial no Japão, não se livrou de guerrilhas, de críticas, da oposição de alguns adeptos brasileiros. Até porque deixara Romário, uma figura, de fora. Para unir o grupo, para formar uma equipa coesa, não olharia a meios. Por isso rumou a Portugal. Vítor Baía foi o Romário português.

Desde que chegou, em 2003, Luiz Filipe Scolari nunca convocou Vítor Baía. Encontrou, por isso, uma forte oposição por parte do FC Porto e, concretamente, de Jorge Nuno Pinto da Costa. Nunca morreram de amores um pelo outro. A verdade é que mesmo quando Baía voltou a emancipar-se, conseguir o melhor momento da sua carreira e ser considerado o melhor guarda-redes da Europa, após os dragões terem conquistado a Liga dos Campeões e antes do Europeu de 2004, Scolari o convocou. Preferiu sempre Ricardo. E Quim para segunda opção. Com isso, apesar de toda a polémica criada, Scolari juntou o povo português. Portugal rodeou a selecção, apoiou-a, tentou empurrá-la para a frente. Em 2004, no Euro, a selecção nacional chegou à final. Perdeu na final, na Luz, frente à Grécia. O mote, contudo, estava dado para o Mundial. Ou seria uma repetição do que acontecera depois de 1984 e 2000?

Entretanto, com o passar dos anos, Portugal ganhara estatuto. Conseguira o apuramento para o Mundial 2006, num grupo frágil (sendo Eslováquia e Rússia os adversários mais fortes), com um registo imaculado de nove vitórias e três empates. Com Scolari, por aquilo que demonstrou no Euro 2004, a selecção portuguesa havia sofrido uma transfiguração. Chegou, por isso, em força ao Mundial da Alemanha. Favorito? Não. Ainda seria cedo para tal, mas com ambição, querer e caractér poderia chegar longe e conseguir uma participação, talvez, como a de 1966. Inserida, como cabeça-de-série, no grupo de Angola, México e Irão, a selecção portuguesa ultrapassou, conseguindo os nove pontos em disputa, chegar aos oitavos-de-final do Mundial. Ultrapassar a fase de grupos, como fizera com relativa facilidade, era o mínimo exigível. Seguia-se a Holanda, que Portugal vencera em 2004. Foi o primeiro mata-mata na Alemanha.

Nas eliminatórias, bem diferente da fase de grupos, não há espaço para corrigir um eventual mau resultado. É matar ou morrer. Com a Holanda, o jogo foi duro, viril e entrou, mesmo, num campo de agressividade. Foi uma verdadeira luta. Valentin Ivanov, o árbitro russo, mostrou dezasseis cartões amarelos e, por acumulação, quatro vermelhos. Costinha, Deco, Giovanni van Bronckhorst e Khalid Boulahrouz - numa entrada assassina, canibal, sobre Ronaldo - foram expulsos pelo árbitro. Nunca antes se vira um jogo tão indisciplinado num Campeonato do Mundo. Portugal conseguiu, todavia, vencer. Com um golo de Maniche, oportuno, que bateu Van der Sar. A equipa nacional saiu feliz da batalha (literalmente!) de Nuremberga. Os quartos-de-final colocaram a Inglaterra, velha conhecida do Europeu, no caminho. Era a oportunidade britânica para se vingarem da eliminação no desempate por grandes penalidades. Onde Ricardo sobressaíra.

Os papéis haviam sido invertidos. Antes, com António Oliveira, Vítor Baía, na visão da maioria dos adeptos portugueses, ocupara um lugar que deveria estar reservado a Ricardo. Agora, contudo, era diferente: Ricardo estava sólido, de pedra e cal, na baliza, porque Scolari esquecera Baía, apesar de o noventa e nove atravessar uma assombrosa fase da sua carreira e de ter voltado, quando seria pouco provável, a um patamar de excelência. Ricardo teve sempre de lidar com a pressão, com o facto de ter o fantasma de Baía e de não poder deslizar por ter o guarda-redes portista na sombra. No Euro 2004, no penalty que defendeu sem luvas e que marcou depois, ganhou protagonismo. Na Alemanha, em 2006, repetiria a saga. Portugal empatou a zero com os ingleses. Nos noventa minutos e no prolongamento. Ricardo defendeu, depois, três pontapés dos ingleses. E Ronaldo marcou o golo decisivo. Goodbye, England!

Deixando pelo caminho a Holanda e a Inglaterra, repetindo 2004 mas numa escala bem superior, Portugal limpou a má imagem que deixara na Coreia e no Japão. Todos os portugueses, unidos em torno de um sonho, pediram audácia e coragem para que o feito dos Magriços, quarenta anos depois, fosse alcançado. Havia que derrotar a França. A besta negra do Euro 2000, onde uma grande penalidade de Zidane, depois da maldita mão na bola de Abel Xavier, matou o sonho da selecção portuguesa. No Allianz Arena, em Munique, os franceses voltaram a levar a melhor. Tal como em 2000: de grande penalidade, polémica, marcada por Zinedine Zidane. Portugal, apesar de toda a valentia que demonstrara até então, perdeu perante a maior matreirice, experiência e cinismo dos gauleses. Raymond Domenech levou a a melhor. Ficou a rir-se. Não dava para fazer melhor, certo, mas dava para igualar os Magriços. Era esse o novo objectivo luso.

Desolada por não ter atingido a final do Mundial, alargando os horizontes depois de uma extraordinária prestação no Europeu do qual fora anfitrião - embora se tenha deixado surpreender pela Grécia na final -, Portugal poderia conquistar o terceiro lugar no Campeonato do Mundo. Imitaria os Magriços de Inglaterra. Teria que vencer, para isso, a Alemanha, comandada por Jürgen Klinsmann, que falhara a presença na final do seu Mundial - o primeiro que realizou como país unificado. Falhou. Portugal, abatido pela derrota com a França e desgastado pelo percurso que efectuara, nunca se encontrou no jogo e ficou à mercê dos alemães, dos anfitriões, que venceram por 3-1 - Schweinsteiger marcou dois golos, Petit contribuiu com um auto-golo e o tento de Nuno Gomes, já em cima do final, serviu somente para atenuar a derrota. Foi a melhor participação pós-1966. E também o último Mundial de Figo, Rui Costa e Pauleta. Mais três símbolos de uma época dourada.


domingo, 13 de junho de 2010

Portugal em Mundiais: 2002 - Coreia do Sul/Japão

O Mundial do México, em 1986, ficou marcado como um dos capítulos mais vergonhosos do futebol português. Saltillo é uma mancha que não mais se apagará. Após o regresso inglório e cabisbaixo, a selecção nacional viu-se obrigada a mudar. Sofrera um duríssimo revés. A ausência de Campeonatos do Mundo voltou a fixar-se. Somente na passagem de milénio, em 2002, Portugal conseguiu garantir o apuramento para a fase final de um Mundial, o primeiro na Ásia, o primeiro realizado a dois, na Coreia e no Japão. Tal como em 1986, na anterior participação, a selecção nacional chegou ao Mundial fortalecida por uma extraordinária participação no Europeu: em 2000, na Holanda e na Bélgica, os portugueses apenas foram travados pela França, a futura campeã europeia, nas meias-finais. A célebre mão de Abel Xavier, uma desgraça traduzida pelos pés de Zidane, matou o sonho luso. O Mundial 2002 poderia ser a continuação vitoriosa.

As coincidências com o Mundial do México, o último em que Portugal estivera, não tardaram em aparecer. Maus agouros. Ambos os Campeonatos do Mundo, tanto em 1986 como em 2002, foram antecedidos por extraordinárias prestações nos anteriores Europeus: em 1884 e em 2000, duas vezes aos pés da França, Portugal caiu nas meias-finais. E, de novo, o sorteio foi teoricamente favorável às pretensões lusas. Portugal evitou algum papão ao ficar inserido no grupo de um dos anfitriões, a Coreia do Sul. Juntaram-se-lhes, ainda, os Estados Unidos da América, uma selecção verdadeiramente fracassada no Mundial de França, em 1998, e a Polónia, tal como acontecera em 1986. Mas a teoria vale o que vale e serve apenas para que se possa contextualizar os jogos. Na prática, na maioria das vezes, nada disso importa. O caso do anterior Mundial tinha sido um bom exemplo. O futebol é uma surpresa constante.

Em 1986, logo após ter aterrado em solo mexicano, foi conhecida a impossibilidade de Veloso, devido a um controlo anti-doping positivo, participar no Campeonato do Mundo. Em 2002, pelos mesmos motivos, Kenedy, um dos vinte e três eleitos de António Oliveira, viu ser-lhe barrada a entrada no Mundial da Ásia. Prenúncio de morte. Foi o ponto de partida para a repetição de um dos casos mais humilhantes do futebol português. Saltillo não fora esquecido, deveria ser evitado a todo o custo, mas não foi assim. Tal como no México, o estágio não foi bem preparado, faltou autoridade e pulso firme para impor, e sobretudo fazer cumprir, regras para toda a comitiva. Gilberto Madail deixou a liderança entregue a António Boronha, vice-presidente da Federação, mantendo-se em Portugal. O ambiente entre Boronha e Oliveira nunca foi o melhor. O planeamento falhou por completo. E Saltillo foi revivido: vida boémia, distracções, pouco rigor.

A baliza portuguesa era ocupada por um gigantesco ponto de interrogação. Ricardo e Vítor Baía, para além de Nélson, chegaram à Ásia com esperanças de serem o número um nacional. A incógnita perdurou no tempo. Ricardo, um dos obreiros da sensacional temporada do Boavista, o Boavistão, que culminou no título nacional de 2001, jogara na fase de apuramento, assumindo a titularidade no duelo com Quim. Em teoria, seria o dono do lugar. Nessa fase, Vítor Baía, intocável sempre que disponível, encontrava-se lesionado. Recuperou a tempo de ser chamado à fase final do Campeonato do Mundo. Ficou com o número um na camisola. Logo aí, António Oliveira deu um sinal de que seria o guarda-redes do FC Porto, que consigo havia triunfado nas Antas, a jogar. O tabu, contudo, manteve-se até ao particular com a China. Jogou Baía. E justificou a confiança com uma assombrosa exibição. As críticas, mesmo assim, fizeram-se ouvir.

Os Estados Unidos da América foram o primeiro adversário a ser colocado no caminho português. A selecção norte-americana havia estado no Mundial de França, terminando com três derrotas ante Alemanha, Irão e Jugoslávia, conseguindo apenas marcar um golo. Portugal entrou em falso na partida: aos quatro minutos, John O'Brien marcou. O desnorte que invadiu a selecção portuguesa, completamente à deriva, acentuou-se com um auto-golo estapafúrdio de Jorge Costa e com uma cabeçada certeira de McBride (o autor do único golos dos States no anterior Mundial). Aos trinta e seis minutos, tudo às mil maravilhas, a selecção dos Estados Unidos vencia por três golos. António Oliveira batia no banco, desesperado, pedindo ajuda divina. Beto reduziu, antes do intervalo. Havia esperança. Jeff Agoos, a menos de vinte minutos do final, marcou na própria baliza. Portugal acreditou, pelo menos, num empate. Mas nem isso. A derrota doeu.


A resposta teria que ser firme. Para apagar a má imagem deixada na primeira partida, sempre importante mas não decisiva, Portugal só poderia entrar com tudo frente à Polónia. Não era um adversário temível. Isso, contudo, pouco conta, porque também os Estados Unidos não o eram. Frente aos polacos, debaixo da chuva intensa de Jeonju, a selecção portuguesa foi forte, dominadora e conseguiu golear. Venceu com categoria: um hat-trick de Pauleta e um golo de Rui Costa para fechar a contagem. A crença na passagem, onde Portugal era o principal favorito, voltou a fixar-se. Um ponto ante a Coreia do Sul garantiria o apuramento. Tudo correu, mais uma vez, ao contrário. Mal, mal, mal. João Pinto, aos vinte e sete minutos, teve uma entrada bárbara e foi expulso. Não se conteve, enfurecido, encarou Ángel Sánchez, o árbitro argentino, e deu-lhe um murro no estômago. Foi a imagem perfeita do desnorte. Voltara a invadir a selecção.

Portugal estava em apuros. Só complicou ainda mais a sua tarefa. Puro masoquista. A expulsão de João Pinto, aliada à sua reacção irreflectida, aumentou a tensão sobre os portugueses. A vontade de marcar, de ganhar, superiorizou-se ao discernimento que se pedia. Houve coração, faltou cabeça. As oportunidades não foram aproveitadas, Pauleta, Nuno Gomes e Figo desperdiçaram, os sul-coreanos taparam os caminhos e contaram, até, com a ajuda dos malditos postes. Para aumentar as dificuldades, num jogo em que Portugal se encontrava no limbo, Beto, por erro de Ángel Sánchez, também ele perdido, foi expulso. Quatro minutos depois, Park Ji-Sung, médio dos japoneses do Kyoto Sanga a caminho do PSV Eindhoven e uma das principais figuras da fabulosa caminhada da Coreia do Sul, marcou. Teve espaço e rematou certeiro. Foi a loucura de um país. Outro foi abalado: Portugal corou de vergonha.

O desespero de Pauleta, a fúria interior de Sérgio Conceição, as lágrimas de Figo, o olhar incrédulo de Vítor Baía. A desilusão portuguesa alastrou-se, no relvado onde a Coreia rejubilou pela passagem aos oitavo
s. António Oliveira, apoiado nas suas muletas, abandonava com a cabeça baixa. Resignado. A selecção nacional caíra, deixando a Ásia pela porta dos fundos, numa triste repetição do seu último Mundial. A goleada à Polónia de nada serviu perante a humilhante derrota ante aos Estados Unidos, com uma opção muito discutível de António Oliveira ao prescindir da utilização de dois médios-defensivos - Petit e Paulo Bento, jogando apenas o primeiro - e um novo desaire. Com a Coreia do Sul, a selecção de Guus Hiddink, o milagreiro holandês que comandou os sul-coreanos ao quarto lugar final, repetiram-se os erros, o completo descalabro e a desafinação. Portugal nunca funcionou como uma equipa, nunca teve esse espírito consigo. Pagou caro.

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sábado, 12 de junho de 2010

Portugal em Mundiais: 1986 - México

O Mundial de Inglaterra fora já há vinte anos. Depois do brilharete alcançado em solo britânico, com uma caminhada fulgurante apenas travada pela anfitriã e por um indesejado Bobby Charlton, não mais Portugal chegara a um Campeonato do Mundo. A presença em 1966 poderia ter sido o mote para a emergência de uma nova potência mundial. Não foi. Tratou-se apenas de um oásis, um acontecimento isolado, algo incomum. A selecção portuguesa, contudo, reaparecera em 1984, em França, no Europeu. Conseguiu uma boa prestação, tendo caído, nas meias-finais, perante os gauleses de Michel Platini. Tal como em 1966, foi o país organizador da prova a levar a melhor sobre os portugueses. Parecia sina. Seja como for, Portugal apurou-se para o Mundial do México, em 1986, quebrando o tal hiato de vinte anos. Ou, traduzindo isso, de quatro Mundiais. Foi um caminho sofrido, lutado e turbulento. Mas conseguido. In extremis.

Apesar do que de bom havia demonstrado em França, no Europeu, a selecção portuguesa somente carimbou o passaporte para o México no último jogo da fase de apuramento. Tinha como adversários a República Federal Alemã, a Checoslováquia, a Suécia e Malta.
Depois de uma derrota em Praga, ante a selecção checoslovaca, as esperanças portuguesas esfumaram-se. Só uma vitória em Estugarda, ante o papão alemão, daria o apuramento. A RFA, a Alemanha de Rudi Völler ou Karl-Heinz Rummenigge, não perdia em casa, contando para jogos de qualificação, desde 1945. Se o caso de Portugal já era grave, assim complicava-se ao extremo. Só que o apuramento foi alcançado. Carlos Manuel assinou o bilhete. Ficou rodeado por três alemães, levantou a cabeça, viu a posição de Harald Schumacher e rematou com força. Naquela trajectória ia o sonho de milhões de portugueses. Foi golo. Hola, Saltillo!

Saltillo é uma cidade mexicana, capital do Coahuila. Foi o local eleito pelos responsáveis portugueses para o estágio da selecção, então comandada por José Torres, um dos Magriços, na antecâmara do início da maior competição mundial. O sorteio, mesmo tendo colocado a Inglaterra de Bobby Robson e Gary Lineker no caminho, não foi mau para os portugueses: Marrocos e Polónia, os outros dois adversários, não fizeram tremer. Deram alento. Seria possível repetir o feito de 1966. Assim que assentou de armas e bagagens no México, Portugal começou a viver as primeiras anomalias. António Veloso, capitão e lateral do Benfica, um dos eleitos de José Torres para representar a selecção nacional, acusara positivo num teste anti-doping. Terá sido esse o primeiro duro golpe na comitiva portuguesa. A tensão instalou-se. Todos acreditavam que havia algum erro. E Veloso, soube-se entretanto, estava mesmo inocente.

Inabituada a estar presente em grandes competições como um Campeonato do Mundo, a Federação Portuguesa de Futebol falhou no planeamento do estágio. Muito mudara, muito evoluíra, desde a primeira e última participação nacional. O dinamismo que se pedia na Europa, aumentando a necessidade de pormenorização e minúcia em todos os detalhes, não foi acompanhado pelos responsáveis portugueses. Os jogadores não foram resguardados. Na viagem para o México, antes de se fixar em Saltillo, a comitiva portuguesa fez escala em Frankfurt, na Alemanha, e em Miami, nos Estados Unidos. Desgastou-se antes do tempo. Aí se percebe que faltou profissionalismo e imperou o amadorismo. Seria fatal. As condições que os jogadores dispuseram na cidade mexicana, onde também se encontrava a Inglaterra, estavam longe de serem as ideais para preparar uma prova de tamanha importância.

Saltillo aparece como um lugar obscuro, boémio e nada condizente com as exigências que deveriam estar presentes na preparação de uma selecção para o Mundial. Faltou autoridade, faltaram regras. A cidade mexicana, para além de oferecer aos jogadores tudo aquilo que não poderiam ter enquanto profissionais, não se encontrava preparada para servir de fortaleza, de quartel-general, para a armada lusitana. Os campos não eram adequados, foram realizados jogos de preparação frente a equipas locais, tudo foi levado à base do improviso. Portugal deixou-se ir na onda. O clima no balneário da selecção, antes tranquilo, ganhou hostilidade. Os jogadores revoltaram-se, reclamaram um aumento dos seus prémios, Silva Resende, o presidente da Federação, foi passando entre os pingos de chuva. Não mudou uma vírgula. A selecção era uma bomba pronta a explodir. Foi em 25 de Maio: greve dos jogadores!

Com discernimento nulo, envolta num mar de polémica de aventuras nocturnas e completo alheamento da actividade profissional, a participação de Portugal no México começara mal. Tudo correra ao contrário. Sem rei nem roque, a selecção portuguesa enfrentou, a 3 de Junho de 1986, a Inglaterra. Era a oportunidade de atar as pontas soltas. Portugal começaria onde ficara anteriormente. Bamos lá cambada! Naquele grupo F onde os portugueses estavam inseridos, apenas a Inglaterra poderia trazer, à partida, dores de cabeça. Carlos Manuel, médio do Benfica, decidira, com um golo de se lhe tirar o sombrero, que Portugal haveria de estar presente na fase final do Campeonato do Mundo de 1986. Fez por o justificar. Com um golo seu, a selecção portuguesa bateu a Inglaterra. Apesar de tudo o que de negro ficara para trás, tudo o que envolvera a comitiva nacional, Portugal começou bem. Ante o mais forte rival.

A verdade é que quando algo de mau acontece, preparem-se, porque tudo vem por acréscimo. Parece um ciclo vicioso a que ninguém consegue pôr fim. Num treino, num dos ervados de Saltillo, chamemo-lhes assim, Manuel Bento, o guarda-redes destemido e capitão da selecção nacional, partiu uma perna. Mais um tiro num corpo, por si só, frágil. Vítor Damas, o guarda-redes suplente, era titular no Sporting e tinha a experiência de quem está a caminho dos trinta e nove anos. Mas não estava ainda preparado para se assumir num momento tão delicado. A contestação, as profundas divergências entre jogadores e responsáveis federativos, mantinham-se como antes. Num momento crucial, entre o jogo com a Inglaterra e o segundo com a Polónia, voltou a haver greve aos treinos. Silva Resende estava como pedra. Portugal era quem ficava a perder. A derrota frente aos polacos, por 1-0, confirmou-o.

Depois de uma entrada surpreende e de uma derrota, também surpreendente, Portugal precisava de um ponto para deixar para trás a fase de grupos e chegar aos oitavos-de-final. A mais de mil e quinhentos metros de altitude, em Guadalajara, a selecção nacional defrontou Marrocos. Tinha, então, todas as esperanças para seguir em frente. Legítimas, apesar dos dois empates dos marroquinos, ambos a zero, nos anteriores jogos. Abderrazad Khairi, avançado do FAR Rabat de Casablanca, marcou dois golos, Krimau fez mais um. Marrocos emergia num grupo em que a Inglaterra escorregara e Portugal desiludira. Diamantino, avançado benfiquista nos seus vinte e sete anos, reduziu. O resultado mas não a humilhação nacional. Portugal regressou a casa. Sem honra nem glória: até a vitória sobre os ingleses ficara apagada. Após o México, a mudança foi profunda na selecção. Saltillo ficará para sempre como uma página negra.

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Portugal em Mundiais: 1966 - Inglaterra

Número treze nas costas. Mas não de azar. Nada disso. Ali havia talento, genialidade pura, todo o sangue de um avançado temível que se emancipava e se mostrava a todo o universo. Jogava por Portugal mas nascera em Lourenço Marques, actualmente Maputo, no seio de Moçambique. Representava a metrópole portuguesa. Eusébio da Silva Ferreira era o nome daquele jovem avançado, vinte e quatro anos cumpridos, uma garra incrível, força da natureza, amigo íntimo da bola e dos golos. Correndo como uma gazela, levantando a cabeça, rematando fortíssimo para marcar. Sempre fora assim. Ajudara o Benfica a rumar à glória e estava, agora, a liderar uma selecção nacional que nunca estivera presente num Campeonato do Mundo de futebol. Portugal chegou a Inglaterra, em 1966, ser saber muito bem naquilo em que estava. Era um sonho que se cumpria. Checoslováquia, Turquia e Roménia tinham ficado para trás.

Chamaram àquela selecção portuguesa, comandada pelo brasileiro Otto Glória, equipa dos Magriços. A alcunha pegou e ficou marcada para a eternidade. Os Lusíadas, obra-prima de Luís de Camões, obra-prima da literatura portuguesa, serviram de fonte inspiradora. Aí se contava a história de doze cavaleiros que haviam partido para Inglaterra, procurando defender a honra de doze damas britânicas. Neles estavam os verdadeiros Magriços. Camões exaltou a bravura e a coragem dos portugueses. E foi por isso que a alcunha se adaptou tão bem. A selecção portuguesa, com Eusébio, Coluna ou Simões, partiu para Inglaterra como quem parte à descoberta de um mundo novo. Nunca se encontrara naquela situação, não tinha os holofotes sobre si, pouca importância possuia perante um Brasil de Pelé, uma Inglaterra de Charlton, uma RFA de Beckenbauer ou, até, uma URSS de Yashin.

O grupo C do Mundial de 1966, o primeiro e único disputado em solo britânico, lá tinha Portugal. Acompanhado de Hungria, Bulgária e Brasil, o todo-poderoso bicampeão do Mundo na Suécia e no Chile.
Passavam dois. Seria sempre difícil, ainda para mais sendo Portugal um estreante. As surpresas chegaram. A triplicar. Portugal puxou o orgulho, aproveitou o desconhecimento para ser feliz, ganhou onde poucos esperariam. Começou por bater, 3-1, uma Hungria, já sem Férenc Puskas, entretanto rumado a Espanha, mas com Florian Albert no papel de maior estrela. Em Old Trafford, casa de Bobby Charlton, o jogo começou mal. Uma equipa sofrer aos dois minutos, embora com muitos jogadores habituados a triunfar na Europa, pelo Benfica, mas inabituada a um Mundial, poderia ter sido fatal. Não foi. José Augusto e Torres deram a volta. O estádio do Manchester United voltaria a ser um bom palco: 3-0 à Bulgária.

Num tempo em que a vitória valia dois pontos, Portugal somara quatro. Tinha o Brasil pela frente, em Goodison Park. Era o verdadeiro teste de fogo. Superado com mestria. Os brasileiros, bicampeões mundiais, ficaram pelo caminho. A vitória portuguesa, curiosamente com um treinador brasileiro ao leme, ficou sentenciada com golos de António Simões e dois de Eusébio. Pelé, a maior estrela em todo o planeta, jogara nos limites da disponibilidade. Deu tudo, mesmo lesionado, mas foi inglório. Os portugueses foram acusados de jogo sujo e violento. Sem dar relevo a isso, a verdade é que Eusébio começava também a despontar, com a camisola da selecção nacional, em Inglaterra. A fase de grupos foi ultrapassada com êxito por Portugal. Nove golos marcados e apenas dois sofridos, nos três jogos disputados, é um registo que comprova a qualidade que reinava entre os portugueses.

A Coreia do Norte esperava nos quartos-de-final. Era, também ela, uma surpresa. Frente a Portugal, teve um início de jogo sufocante, avassalador, diabólico. Começou no primeiro minuto e parou ao vigésimo quinto. Nesse curto espaço de tempo, em pouco mais do que um quarto do tempo total da partida, marcou três golos. Atarantado, atordido e sobressaltado, Portugal ainda não se encontrara e já sofrera mais golos do que na fase de grupos. Precisava de reagir rapidamente. Era necessário dar continuidade ao que de tão bom fizera, não deitar tudo a perder. Na cidade dos Beatles, onde há seis anos nascera o grupo de rock, Eusébio começou o seu espectáculo. Não gostou de ver os festejos norte-coreanos. Dois minutos depois do terceiro golo, reduziu. A esperança, afinal, ainda lá estava. É sempre a última a morrer. Antes do intervalo, encurtou ainda mais a distância. A Coreia estava ao alcance.

O ritmo não podia baixar. Portugal reduzira mas ainda estava atrasado no resultado. Olhando para o marcador, no Goodison Park, a Coreia do Norte levava vantagem. Não seria por muito mais tempo. Eusébio da Silva Ferreira, o tal número treze, já fora o melhor artilheiro do campeonato nacional e da Taça dos Campeões Europeus, ao serviço do Benfica, nesse ano de 1966. Pretendia deixar a sua marca, tornando-se imortal, no Mundial. O primeiro em que estava com a selecção portuguesa. Precisou de três minutos para completar o poker, quatro golos, dois deles de grande penalidade, que colocou Portugal à frente da Coreia do Norte. Aos cinquenta e nove minutos, depois de empatar há três, os Magriços conseguiram a reviravolta. Épica. Para fechar a partida com chave de ouro, deitando para trás das costas aquele início atribulado, José Augusto fixou o resultado: 5-3. Venha o próximo!

Meias-finais do Campeonato do Mundo de 1966. Pela primeira vez em prova, Portugal surpreendia. Tinha, agora, as atenções voltadas para si. Eusébio, a estrela, fazia despertar cada vez maior cobiça. Pela frente, no mítico Wembley, aparecia a Inglaterra. Era a anfitriã e queria ganhar, nada de servir de cicerone para a real emergência de uma selecção que se destacara até aí. Portugal fora bom, sim. Inglaterra queria travar e cavalgar para a vitória. Bobby Charlton sempre pareceu presdestinado ao sucesso. Em 1958, num trágico acidente em Munique, oito seus companheiros no Manchester United perderam a vida. Bobby sobreviveu. Ganhou esse duelo à má fortuna. O seu momento de glória estava prestes a chegar, após se ter mostrado, em 1962, no Chile. Estava para Inglaterra do mesmo modo que Eusébio estava para Portugal. Ambos ambicionavam o troféu. Só um o poderia ter.

Bobby Charlton não iniciara bem o Mundial 1966. Fê-lo em crescendo. Começou, com o decorrer dos jogos, a melhorar. Chegou à partida com Portugal na plenitude. Pronto a explodir, driblando sucessivamente, para destruir a equipa portuguesa e catapultar a Inglaterra para a final. No jogo com os Magriços marcou por duas vezes. Aos trinta e oitenta minutos. Já se vira Portugal recuperar de uma desvantagem de três golos. Não há jogos iguais, a surpresa deixara de o ser e os adversários olhavam os portugueses doutra forma. Eusébio, de novo ele, ainda reduziu, dois minutos depois do bis de Charlton. Mas foi tarde. O apito final colocou a Inglaterra na final do seu Mundial. Eusébio chorou copiosamente. Queria mais, merecia mais, Portugal tinha potencial para chegar além das meias-finais. Só que não dera para a final, a Inglaterra havia sido forte e eficaz para alcançar o seu objectivo. Restava terminar em terceiro.

Para um estreante, uma selecção sem a força do Brasil ou da Inglaterra, ficar com a medalha de bronze seria motivo de grande felicidade e honra. Para isso havia que vencer a União Soviética, que caíra aos pés da Alemanha Ocidental. Eusébio da Silva Ferreira contava com oito golos marcados. Já batera o brasileiro Manga e o inglês Gordon Banks. Agora pela frente tinha Lev Yashin, o Aranha Negra, um monstro das balizas já com a veterania de quarenta anos completados. De grande penalidade, a quarta de que dispôs no torneio, o Rei português enganou Yashin. Ao seu jeito, com toda a força no pé direito, furou a rede. Os soviéticos, situados logo atrás das principais potências mundiais, empataram por Malofeev. Mas Portugal merecia terminar no pódio. A caminhada dos Magriços, brilhante e histórica, culminou mesmo no terceiro lugar. Um golo de José Torres foi decisivo. Marcou a História. Irrepetível até hoje.

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