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segunda-feira, 26 de julho de 2010

97ºTour de France: A análise - 2ª Parte

A PRESENÇA GAULESA NAS ETAPAS

Desde o último triunfo de Bernard Hinault, há já vinte e cinco anos, que o ciclismo francês não consegue triunfar na competição realizada no seu país. O hiato vai-se alargando, sem que surja um ciclista gaulês capaz de se incluir no rol de candidatos a disputar a Grande Boucle até final e, mais do que isso, sem que se abram boas perspectivas para o futuro. John Gadret, ciclista da AG2R La Mondiale, foi, no décimo nono posto, o francês mais bem colocado na classificação geral individual - com um atraso de vinte e quatro minutos e quatro segundos relativamente a Alberto Contador. Devido a essa incapacidade para ganhar o Tour, os ciclistas franceses voltam-se para a vitória em etapas. Nesta edição da Grande Boucle, bem-sucedida nesse aspecto, festejaram por seis vezes: Sylvain Chavanel (em duas ocasiões) Sandy Casar, Christophe Riblon, Thomas Voeckler e Pierrick Fédrigo. Bom registo.

A maior vitória do ciclismo francês esteve, contudo, na montanha. Anthony Charteau, ciclista da BBox Bouygues-Telecom, conquistou o título de melhor trepador da nonagésima edição do Tour de France. Impondo-se numa primeira fase a Jérôme Pineau (Quick-Step) e, mais tarde, a Christophe Moreau (Caisse d'Epargne), também ambos franceses, Charteau confirmou, com surpresa e muito mérito, a obtenção da camisola sarapintada de branco e vermelha. Sylvain Chavanel, corredor da formação belga Quick-Step, subiu ao pódio final, em Paris, para ser distinguido como o ciclista mais combativo do Tour 2010 - venceu duas etapas e, com essas vitórias, vestiu a camisola amarela. As seis vitórias em etapas, o triunfo de Charteau na montanha - algo que não acontecia desde o triunfo de Richard Virenque, em 2004 - e a distinção de Chavanel servem para preencher o vazio sentido pela falta de intromissão na geral.

A CONFIRMAÇÃO DE CAV E A GLÓRIA DE ALESSANDRO PETACCHI

É unânime: Mark Cavendish, ciclista inglês da HTC-Columbia, é um sprinter sem paralelo na actualidade. Já o demonstrara na edição anterior do Tour, somando quatro vitórias em etapas. Apesar disso, em Paris, não conseguiu subir ao pódio, uma vez que Thor Hushovd, mesmo só tendo vencido por uma vez, somou mais pontos para a camisola verde. Em 2010, ainda mais confiante, Cavendish chegou com tudo: forte como nunca, cada vez mais possante em cima da bicicleta, explodindo em direcção à meta e abrindo um enorme fosso para a concorrência. Demorou a arrancar, sim, porque apenas venceu na quinta etapa, mas demonstrou toda a sua qualidade, impondo-se sem dar hipóteses aos rivais. Somou cinco vitórias, uma delas na última etapa, mas voltou a não conseguir ser o líder da camisola dos pontos. Alessandro Petacchi, veterano italiano da Lampre, superou-o, somou pontos importantes e venceu essa classificação.

Aos trinta e seis anos, com um passado invejável para trás, Alessandro Petacchi, mesmo com todo esse arsenal de argumentos, não estaria na linha da frente para conquistar a camisola verde. Um sprinter, como ele é, precisa de uma enorme velocidade, além de que tem de saber sofrer na montanha, para conseguir vencer. Mark Cavendish tem nas subidas o seu calcanhar de Aquiles. Thor Hushovd (Cérvelo), vencedor em 2009, passa melhor no alto. Petacchi, contudo, conta com uma larga experiência. E aproveitou os primeiros dias, atribulados e marcados por um trajecto perigoso e com várias quedas pelo meio, para ganhar força: venceu a primeira etapa em linha, embora a principal concorrência, sobretudo o tal míssil-Cavendish, tenha ficado atrasado devido a uma queda colectiva. Teria sido, pensou-se, apenas uma vitória oportuna. Alessandro Petacchi fez questão de o desmentir. Para isso voltou a ganhar. Com concorrência. E categoria.

Thor Hushovd não se apresentou ao seu nível. Caíra durante a preparação para o Tour, num momento crucial, e isso afectou-lhe o planeamento e, principalmente, a forma física. Seja como for, o objectivo foi, de novo, conseguir colocar-se entre os principais sprinters, em chegadas em pelotão compacto, para vencer a camisola verde. O ciclista norueguês, sempre bem colocado pelos seus companheiros da Cérvelo, apenas conseguiu vencer por uma vez, num sprint reduzido, na jornada do pavé. Sempre que entrou na luta com Cavendish ou Petacchi, vencedores das etapas com chegadas compactas, Hushovd não se conseguiu impor. No entanto, mesmo assim, vestiu a camisola verde durante onze dias. Perdeu-a para Petacchi, recuperou-a, voltou a perder, recuperou de novo por se dar melhor na montanha e, no final, entregou definitivamente a liderança ao italiano. Cavendish, pela vitória no último dia, conseguiu, até, roubar-lhe o segundo lugar.

OS PORTUGUESES

Manuel Cardoso esteve pela primeira vez na sua carreira no Tour. O ingresso na equipa espanhola Footon-Servetto proporcionou-lhe o ponto máximo da carreira. Mas foi uma experiência curta. Nem deu para aquecer: o ciclista português embateu violentamente contra um muro, no prólogo do primeiro dia, que o deixou em mau estado e o obrigou a abandonar. Manuel Cardoso, um jovem com o sonho de participar no Tour de France destroçado, regressou a casa logo após a estreia. Foi o primeiro ciclista, dos cento e noventa e oito que começaram a pedalar em Roterdão, no início do mês de Julho, a abandonar - mais vinte e sete se seguiram, sendo o pelotão final, ainda bem numeroso, composto por cento e setenta corredores. Reduzido a um duo, Sérgio Paulinho e Rui Costa, o ciclismo português viveu um momento alto, épico, quebrando um interregno longo, com a vitória, na décima etapa, conseguida por Paulinho.

À décima etapa, no dia seguinte a uma escalada tremendamente desgastante em alta montanha, uma fuga conseguiu vingar. Sérgio Paulinho e Vasil Kiryienka, rivais na Radioshack e Caisse d'Epargne, disputaram o sprint final, renhido e emotivo, que o ciclista português venceu. Foi, para além de um resultado honroso para o corredor e para o ciclismo português, a única vitória da equipa norte-americana numa etapa do Tour de France 2010. Em Paris, de novo Sérgio Paulinho esteve no pódio, devido à vitória, por equipas, da Radioshack - individualmente, sem que isso tenha grande relevo devido às funções a que está entregue, Paulinho terminou em quadragésimo sexto, a cerca de uma hora e vinte e cinco minutos do primeiro lugar. Rui Costa, discreto e tranquilo, procurou entrar numa fuga, sempre sem sucesso, passando despercebido no seu segundo Tour. Terminou em septuagésimo terceiro, com um atraso de duas horas e doze.

EVANS DESTROÇADO, VAN DEN BROECK EM ASCENSÃO


Cadel Evans partiu para esta temporada com velhas ambições mas uma nova postura. Mais ousado, mais atacante, mais confiante em si. Deixou de ser o ciclista pragmático e expectante de antes. Com essa alteração, agora inserido numa nova equipa, a BMC, embora ainda sem possuir um conjunto realmente forte para o levar ao topo, o ciclista australiano sagrou-se campeão mundial e chegou ao Tour com legítimas ambições a um lugar no topo - mesmo sabendo que teria em Alberto Contador e Andy Schleck dois rivais terríveis. Cadel Evans conseguiu estar bem na primeira etapa nos Alpes, chegando à camisola amarela, na vitória de Schleck, mas quebrou no dia seguinte. Cortou a meta destroçado, impotente e incapaz de resistir às investidas dos concorrentes - acabou o Tour em vigésimo sexto, com cinquenta minutos de atraso. Ivan Basso, líder da Liquigas, denotou o cansaço provocado e também desiludiu. Como Leipheimer e Klöden.

Jurgen Van den Broeck, substituto de Evans na chefia da Omega-Lotto, foi uma das belas surpresas desta edição do Tour. O ciclista belga conseguiu o quinto lugar, mostrando-se forte nas montanhas e poderá ser um nome a ter em conta nos próximos anos. O mesmo se poderá aplicar a Robert Gesink (Rabobank) e a Roman Kreuziger (Liquigas), dois jovens que se exibiram em excelente nível, demonstrando capacidade para, nas próximas edições, se fixarem nos primeiros postos - foram, respectivamente, sexto e nono da classificação geral. Nos dez primeiros, sem que fosse expectável, há ainda os nomes do canadiano Ryder Hesjedal (Garmin), do espanhol Joaquín Rodríguez (Katusha) e do norte-americano Chris Horner (Radioshack: o único no quadro de honra). Samuel Sánchez, líder da Euskautel-Euskadi, conseguiu um belíssimo quarto lugar - perdendo, no final, o último lugar do pódio para Denis Menchov (Rabobank).

97º Tour de France: A análise - 1ª Parte

O TRI DE CONTADOR

Alberto Contador venceu, pela terceira vez, o Tour de France. O ciclista espanhol da Astana, o melhor da actualidade, provou ser o mais completo do pelotão que participou na nonagésima sétima edição da Grande Boucle. Sem ser tão espectacular como em anos anteriores, nas vitórias que alcançou em 2007 e 2009 - as únicas duas vezes em que esteve presente na maior competição do pelotão internacional -, o ciclista espanhol conseguiu superar Andy Schleck, numa luta intensa até ao final, para ser coroado vencedor em Paris. O trajecto de Contador foi sempre feito em crescendo: começou algo titubeante, deu mostras de não estar na plenitude das suas forças nos Alpes, aproveitou um infortúnio de Schleck para chegar à liderança nos Pirinéus e, depois disso, resistiu sempre às investidas do corredor luxemburguês da Saxo Bank. Suou, sim, mas terminou por cima. Por isso mesmo, esta foi a sua vitória mais saborosa.

O número um mundial, um jovem irreverente em busca da plena afirmação e um campeão imortalizado pelos seus feitos. Fortes, creditados, ambiciosos. Alberto Contador, Andy Schleck e Lance Armstrong preencheram, por esta ordem, o pódio da edição anterior do Tour de France. E chegaram a 2010 na linha da frente. Pelo peso de cada um deles, a discussão poderia estar centrada em Contador e Armstrong. O presente triunfante e o passado demolidor. Agora em equipas diferentes, com uma Radioshack construída em redor do norte-americano a partir da Astana - onde permaneceu El Pistolero -, sem terem de se apoiar mutuamente. Seriam rivais, opositores, gigantes na luta pela repetição de uma conquista. Andy Schleck é um jovem em ascensão, melhorando a cada ano e apoiado por uma belíssima equipa da Saxo Bank, que prometeu intrometer-se entre no duelo de titãs. E ainda com outros candidatos na sombra.

A primeira semana de prova, longe de ser uma adaptação à competição, apareceu com um trajecto perigoso, tenso e preocupante. Niguém ganharia o Tour no início, claro que não, mas poderia perder todas as possibilidades de se manter na luta. Os Alpes, ao nono dia, deixaram a vitória na nonagésima sétima edição da Grande Boucle reduzida a dois: Alberto Contador e Andy Schleck. Os dois ciclistas, os mais fortes do pelotão, aproveitaram a dureza da nona etapa, um terreno onde se sentem bem, para se destacarem de todos os rivais. Lance Armstrong já ficara de fora, destroçado e azarado como nunca, no dia anterior: duas quedas e a veterania de trinta e oito anos, sem ter consigo um colectivo tão forte como se esperaria, hipotecaram definitivamente as esperanças do norte-americano vencer o Tour de France pela oitava vez. Cadel Evans, Carlos Sastre, Andreas Klöden também vergaram perante o vigor do duo Contador-Schleck.

O DUELO

Andy Schleck explodiu, assumiu a corrida, galgou metros nos Alpes e chegou à glória. Num primeiro momento pareceu melhor do que Alberto Contador. O ciclista espanhol não esteve tão demolidor e explosivo, deu mostras de alguma quebra e, na primeira etapa realmente dura nos Alpes, claudicou perante o ataque pujante de Schleck. No entanto, Contador esteve também mais cínico e cerebral. Bem apoiado pela Astana, com grande destaque para Alexandre Vinokourov e Daniel Navarro, uma equipa sem dar mostras de fragilidade pela debandada rumo à Radioshack, El Pistolero soube disfarçar o seu momento, gerir os tempos e, a mais ou menos custo, ter o ímpeto de Andy Schleck controlado. O ciclista luxemburguês da Saxo Bank, desde a quarta etapa sem o apoio do irmão Frank, o seu braço direito, ganhou a camisola amarela na nona tirada. Na tal em que se entendeu bem com Contador. Tinha quarenta e um segundos de vantagem.

Alberto Contador cresceu. Recuperou com o tempo, restabeleceu-se, disfarçou as dificuldades e apresentou-se para a luta. Estava atrás, sim, mas nada de preocupante. Se não o conseguisse nos Pirinéus, teria no contra-relógio, a especialidade em que Andy Schleck manifesta maiores fragilidades, uma oportunidade para passar para a frente. Mas seria sempre arriscado esperar pelo penúltimo dia. E poderia ser fatal. Nos Pirinéus, depois de dias de recuperação e tranquilidade, o duo de candidatos, os mais fortes e únicos que sobreviveram à matreira primeira semana, teriam que se mostrar. Sentir as pulsações do rival, perceber o momento em que se encontravam e tentar saltar para a frente. Schleck apareceu sempre mais confiante, mais impulsivo e aguerrido. Contador, experiente e conhecendo o seu momento, jogou pela certa e, aos poucos foi-se aproximando do topo: na décima segunda etapa, ganhou dez segundos.

UM MOMENTO MARCANTE NOS PIRINÉUS

Pode-se criticar, entender que Alberto Contador não teve desportivismo e que deveria, quando a corrente da bicicleta de Andy Schleck saltou, ter esperado até que o seu rival recuperasse a condição. O corredor luxemburguês atacara, o espanhol não respondera de pronto. Num ápice, invertendo tudo, Contador passou ao ataque, levando Samuel Sánchez e Denis Menchov consigo, para roubar tempo ao então líder. Nos Pirinéus, à décima quinta etapa, o ciclista espanhol da Astana conseguiu assumir a liderança, dizimando a desvantagem de trinta e um segundos, fixando-se com oito segundos à maior sobre Andy Shcleck. O mais difícil ficou feito pelo espanhol. Agora, com Contador mais confortável, seria o luxemburguês a atacar. Tentou, fez de tudo, escalou até ao Col do Tourmalet, imprimiu um ritmo vigoroso. Alberto Contador sempre respondeu bem. No contra-relógio, onde evoluiu imenso, também procurou ser feliz.

Alberto Contador cortou a meta, o contra-relógio ficara para trás, a camisola amarela não lhe iria fugir mas continuou a pedalar. Deu tudo, forçou, pedalou para se manter na liderança. Andy Schleck começara bem, ameaçando-o, reduzindo a desvantagem. Contador tremeu mas, à medida que os cinquenta e dois quilómetros foram passando, alargou a vantagem e, mesmo tendo realizado um tempo modesto, confirmou o triunfo. Terminou o Tour de France 2010 com trinta e nove segundos de vantagem sobre Andy Schleck. O mesmo tempo, por curiosidade e ironia, que ganhara na décima quinta etapa, depois da avaria sofrida pelo luxemburguês. O último lugar do pódio final - até ao contra-relógio do penúltimo dia ocupado por Samuel Sánchez, ciclista espanhol da Euskautel-Euskadi -, ficou na posse de Denis Menchov, da Rabobank, que assim repetiu a posição de 2008, passando uma borracha sobre
a má prestação da edição anterior.

LANCE ARMSTRONG E RADIOSHACK: O ADEUS E A DESILUSÃO

Sete vitórias consecutivas no Tour de France são uma marca bem difícil de bater. Lance Armstrong conseguiu-o, entre 1999 e 2005, com grande classe. Apesar de já não ter nada mais a provar, também pelo mérito dos seus triunfos, decidiu regressar no ano passado. Foi colega de Alberto Contador, o agora número um mundial, posição que Lance ocupou durante épocas a fio, na Astana e conseguiu um belíssimo terceiro lugar. Voltou de novo em 2010, com uma equipa recém-criada e recheada de ciclistas de qualidade, todos eles provenientes da equipa cazaque, declaradamente para tentar a sua oitava vitória na Grande Boucle. Falhou. Demasiado cedo, ainda na primeira semana, deixou de estar na luta pelo triunfo final. Porque já não conta com a mesma disponibilidade, naturalmente, mas também porque encontrou obstáculos contra os quais pouco podia fazer: um furo no pavé e duas quedas duras nos Alpes. Foi infeliz.

Sem possibilidades de lutar pela vitória, com o objectivo arruinado e a treze minutos da liderança, o que poderia fazer Lance Armstrong? Apenas desfrutar da corrida, manter-se fiel aos seus princípios e chegar a Paris. Causou estranheza ver o heptavencedor do Tour cortar a meta atrasado, escondido, sorridente e nada preocupado com o atraso cada vez maior para a camisola amarela. Levi Leipheimer, então na sexta posição, passou a ser o líder da Radioshack. Mas é diferente. Com o falhanço de Armstrong, com ambições destroçadas pelos novos heróis do pelotão mundial, também a estratégia da equipa Radioshack fracassou. Lance ainda tentou, já na terceira semana, uma vitória em etapa, uma espécie de consolação, mas foi incapaz para se superiorizar ao sprint final, forte e triunfante, de Pierrick Fédrigo. Em Paris, onde esteve pela nona vez, terminou na vigésima terceira posição. A quase quarenta minutos de Contador.

A Radioshack chegou ao Tour de France 2010 em força. Recém-criada, com Johan Bruyneel na chefia, Lance Armstrong no papel de estrela e, para o que desse e viesse, Levi Leipheimer e Andreas Klöden. A verdade, contudo, é que a equipa norte-americana foi uma verdadeira desilusão. Mesmo assim, venceu colectivamente e obteve uma vitória em etapa. Na chegada a Gap, na décima tirada, Sérgio Paulinho, ciclista português, conseguiu superar-se a Vasil Kiryienka (Caisse d'Epargne) e, ainda que por centímetros, venceu. Por mais paradoxal que pareça, a maior façanha da Radioshack, já com todos os seus possíveis candidatos a uma boa classificação afastados dos primeiros postos, foi alcançada por um trabalhador, um operário, alguém que se acostumou a viver na sombra e a trabalhar para os seus líderes. Na geral, com o último falhanço de Leipheimer nos Pirinéus, a Radioshack ficou-se por um décimo lugar, alcançado por Chris Horner...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

97ºTour de France: A etapa para Andy, o Tour para Alberto

Atacar sempre sem tréguas e esperar uma quebra do adversário. A Andy Schleck nada mais haveria a fazer: teria de procurar a sua sorte, superar-se, transformar as fraquezas em força e desejar que Alberto Contador, seu rival e líder da classificação geral individual, não o conseguisse acompanhar. Teria que insistir muito para surpreender o espanhol, abrindo a corrida e cavalgando forte para a vitória e para uma posição mais favorável rumo à camisola amarela. Os oito segundos que tem de atraso para Contador funcionam como estimulante para legitimar as ambições de Andy Schleck mas, ao mesmo tempo, para aumentar ainda mais as probabilidades de um terceiro triunfo para o líder da Astana. Depois da décima sétima etapa, na subida ao Col do Tourmalet, poucas mais hipóteses terá Andy Schleck para eliminar a desvantagem. O contra-relógio do penúltimo dia é, talvez, o seu maior handicap. E mais um trunfo de Alberto Contador.

Frio, chuva e tensão. Todos estes elementos em doses consideráveis, deixando uma escalada duríssima ainda mais íngreme. Andy Schleck, para colocar em perigo Contador, só poderia fazer o mesmo que nos Alpes: atacar, explodir o ritmo e esperar que, como na primeira semana, o rival não se mostrasse na plenitude das suas forças. O ciclista luxemburguês, ambicioso, assumiu o comando, enfrentou o terrível nevoeiro, empenhou-se em conseguir inverter a situação. Atacou, como lhe competia, no grupo dos favoritos. Imprimiu um ritmo forte e vigoroso, procurando destacar-se, num terreno onde se sente bem. Alberto Contador respondeu de pronto. El Pistolero estava forte. Tal como Andy. Na montanha, está provado, são ciclistas muito idênticos e onde, estando num bom momento, é difícil serem superados. Como nos Alpes, quando Andy Schleck assumiu a liderança, formaram um duo. Só que agora tudo jogava contra o luxemburguês.

Alberto Contador, habituado a ataques explosivos rumo à vitória, jogou à defesa. Apenas tinha que controlar os andamentos de Schleck, estar preparado para reagir, tentar desgastar o rival e impedir que o ciclista da Saxo Bank lhe ganhasse metros. Seguiu na roda do luxemburguês, forte e confiante, cada vez mais aumentando as possibilidades de, pela terceira vez, ser coroado vencedor do Tour de France. Os oito segundos que conquistou, mais o facto de ter no contra-relógio uma especialidade e de Andy Schleck denotar ainda diversas fragilidades nesse tipo de prova, funcionam como uma margem importante. Não é segura, verdade, mas muito boa para o ciclista espanhol. A despesa da subida, de novo feita por ambos, coube toda a Andy Schleck. Nos Alpes, a situação fora diferente: os dois encontraram uma oportunidade única de diminuirem a concorrência a apenas um. Agora, Andy teria que se livrar de Alberto. Não conseguiu.

Ataque a dez quilómetros da meta, ritmo forte e várias tentativas de descolar. Andy Schleck fez de tudo para conseguir deixar Alberto Contador para trás. O ciclista da Astana respondeu sempre bem, subindo atrás do rival e - mostrando que se encontra numa boa fase - tentou também uma mudança de andamento. Nem um nem outro conseguiram isolar-se. Porque, já se disse, se equivalem. E, com isso, a tarefa de Andy Schleck seria sempre de extrema dificuldade. Os oito segundos de vantagem, que parecem nada a Contador e são uma infinidade de tempo para Schleck, mantêm o corredor da Astana na frente e, cada vez mais, com grandes probabilidades de sair de Paris com a camisola amarela vestida. Para Andy Schleck fica uma vitória extraordinária no Col do Tourmalet, conseguida com muito mérito e sacrifício, que se junta ao triunfo alcançado nos Alpes. É uma consolação. Embora ainda seja possível vencer o Tour, sim...

Atrás de Alberto Contador e Andy Schleck, aqueles que à partida ocuparão os dois primeiros lugares no final da nonagésima sétima edição da Grande Boucle, continuam, na disputa pela última posição do pódio, Samuel Sánchez (Euskautel-Euskadi) e Denis Menchov (Rabobank). O ciclista espanhol, antes da etapa colocado no terceiro lugar, tem dado sinais de quebra, admitida pelo próprio, algo que coloca em perigo o seu lugar na classificação geral individual. A décima sétima etapa começou mal, com uma queda brutal de Sánchez - foi realmente aparatosa - que resultou num traumatismo na caixa torácica. Contudo, mantendo-se em prova, o ciclista espanhol, conseguiu recuperar e, inclusivamente, alargar, em oito segundos, a vantagem para Denis Menchov - a diferença é de vinte e um -, embora também sinta dificuldades no contra-relógio. A discussão pelo terceiro lugar passará por estes dois ciclistas. E será bem acesa.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

97º Tour de France: O ar de graça de Lance Armstrong

Intimidatório, mítico, brutal. O nome de Lance Armstrong tem um impacto gigantesco no ciclismo mundial. As sete vezes consecutivas em que triunfou no Tour de France, tornando rotineira a vitória na maior prova do pelotão internacional após ter superado um cancro na próstata, deixaram-no imortalizado. E saiu pela porta grande em 2005. Aos trinta e sete anos, com três de interregno, decidiu regressar: entrou na Astana, a equipa do seu líder Johan Bruyneel, para provar que ainda estaria em condições de deixar o seu nome marcado. Não o precisava e correu riscos ao fazê-lo, sim, mas a ambição foi maior. Só que o ciclismo mudara. Armstrong ficara para trás. O presente indicava Alberto Contador, Andy e Frank Schleck, Bradley Wiggins. Inserido numa equipa sem paralelo, dominadora a todos os níveis apesar do mau ambiente que se gerou pela existência de mais do que um líder, Lance Armstrong mostrou-se bem.

O honroso terceiro lugar que conquistou no Tour de France 2009 abriu o apetite para a nova edição da Grande Boucle. Lance Armstrong estivera em bom nível, mesmo não tendo, nem podendo ter, o fulgor de outrora. Numa equipa apenas mentalizada em trabalhar para ele, sem Alberto Contador pelo meio, o norte-americano poderia ambicionar melhorar a anterior classificação e, até, alcançar a sua oitava vitória. O objectivo da Radioshack, equipa que formou com Johan Bruyneel e que recrutou na Astana a sua composição para a nonagésima sétima edição do Tour, foi sempre proporcionar as melhores condições para que Lance Armstrong estivesse na corrida, pelo menos, a um lugar no pódio. A verdade, contudo, é que o ciclista texano, heptavencedor da competição, ficou demasiado cedo fora das contas da classificação geral. Perdeu tempo no pavé e viveu um inferno no primeiro teste nos Alpes.

É incontornável: Lance Armstrong está bem diferente do ciclista que pulverizou a concorrência e venceu com toda a naturalidade durante sete anos. Os trinta e oito anos pesam, os rivais estão melhores, Lance ressente-se. No entanto, também há imenso infortúnio. Nas edições em que triunfou, embora com algumas quedas pelo meio, nunca Lance Armstrong havia sentido na pele tanto azar como agora. Atacou-o forte na primeira semana e logo o retirou das contas da geral: na quarta etapa, quando seguia à frente de Alberto Contador, viu um furo na roda dianteira deixá-lo para trás, enquanto nos Alpes caiu por duas vezes, ficando a quase doze minutos do vencedor da etapa. Aí, nessa nefasta oitava etapa, Armstrong enrolou a bandeira, rendeu-se. Mas não desistiu, quis manter-se em prova, desfrutar da sua última presença no Tour de France e ambicionar vencer etapa. O líder da Radioshack, para a geral, passou a ser Levi Leipheimer.

Aos adeptos de ciclismo, causa estranheza ver Lance Armstrong chegar com um atraso de largos minutos para o vencedor da etapa, num ritmo baixo, conversando e sorrindo. Derrotado, a anos-luz da camisola amarela, Armstrong deixou de se preocupar com o tempo que tem de atraso: colocar Leipheimer na melhor classificação possível é a meta a alcançar também por ele. Os tais riscos que Lance Armstrong corria quando regressou, sobretudo o de poder não estar à altura da elevada exigência que ele próprio estabeleceu, está a verificar-se neste segundo ano, quando se esperaria que superasse o que conseguira em 2009 e fosse, com Contador, um dos grandes candidatos à vitória final. Ver Armstrong não ganhar e não se preocupar muito com isso, apenas correndo por gosto, é algo que os adeptos de ciclismo nunca esperariam. Até depois da belíssima prestação alcançada no ano em que quebrou a inactividade.

Lance Armstrong perdeu, após a primeira etapa realmente dura nos Alpes, todas as possibilidades de sonhar com a sua oitava vitória ou a nona presença no pódio final. No fundo, contudo, continuava a alimentar a vontade de vencer uma etapa, deixar a sua marca na despedida e esquecer, por momentos, todos os minutos que o fazem estar longe das decisões. Tentou-o nos Pirinéus. Na décima sexta etapa, percebendo que Alberto Contador e Andy Schleck não deixariam a marcação cerrada e a vigia permanente um ao outro, Lance procurou a sua sorte. Entrou numa fuga nos primeiros quilómetros, juntamente com mais oito corredores, pedalou forte, trabalhou muito e fez de tudo para chegar ao final em condições de vencer. No sprint, saiu de trás, após se ter poupado, em direcção à meta. Pierrick Fédrigo (BBox-Bouygues Telecom), mais jovem e possante, superou. E Armstrong, sem hipóteses de triunfar, logo abdicou.

Vencer a etapa rainha dos Pirinéus seria uma consolação para um ciclista ímpar. Lance Armstrong procurou consegui-lo. Fez o que estava ao seu alcance, mas não foi além do sexto lugar. A fuga resultou na perfeição e teve condições de discutir a vitória. Não o conseguiu: porque lhe faltou a velocidade de outros tempos e porque Fédrigo - terceira vitória consecutiva de ciclistas gauleses e segunda, após o triunfo de Thomas Voeckler na véspera, para a equipa francesa BBox-Bouygues Telecom - foi realmente forte na chegada. Apesar de não subido ao pódio, Lance Armstrong, com a veterania dos seus trinta e oito anos, deixou uma imagem positiva, de um campeão ainda à procura de um final feliz, apostando todas as fichas numa tirada dura e de alta montanha. Mostrou estar vivo. Mesmo isso nada mudando na classificação geral, onde é vigésimo quinto e tem um atraso de trinta e três minutos para Alberto Contador.

terça-feira, 20 de julho de 2010

97ºTour de France: Contador disparou em Andy

Andy Schleck e Alberto Contador, jovens, sedentos de glória no Tour de France, inédita ou repetida, para deixarem a sua marca na galeria dos notáveis. Ficaram, desde cedo, como grandes candidatos à vitória final. E as distâncias que conseguiram criar, alargar e cimentar em parceria, permitiram que reduzissem as preocupações a um: Andy preocupou-se com Contador, Alberto quis atacar e ser mais forte do que Schleck. Expectantes, calculistas, receosos. Nenhum deles ousou arriscar um passo maior do que a perna, ambos jogaram à defesa, sobretudo Andy Schleck, para preservarem as suas posições. Os quarenta e um segundos de vantagem, estabelecidos após a terrível etapa nos Alpes em que Cadel Evans, anterior líder, quebrou por completo, nunca funcionaram, contudo, como garantia para Andy Schleck. A vantagem, curta, poderia ser diminuída na montanha. Ou no contra-relógio. Onde Contador é mesmo mais forte.

O jogo do gato e do rato. Amarrado, com expectativa, sem deixar o outro escapar. Andy Schleck e Alberto Contador anulam-se mutuamente. Procuraram atacar, deixar o rival para trás, sentir as pulsações do adversário, perceber quais as verdadeiras condições. Os dias avançam, o desgaste aumenta, a equipa deixa de ter um papel tão activo. Na montanha, Schleck e Contador disputam a vitória final no Tour. Tudo o resto é secundário, quem os passa, quem se isola, quem ganha metros para ser feliz. Até mesmo quem ganha a etapa. É na luta pela camisola amarela que será vestida em Paris, o máximo de cada ciclista, que mais interessa. Nos Pirinéus, aos poucos, Contador foi recuperando tempo. Fê-lo, pela primeira vez, na décima segunda etapa: atacou forte, testou a capacidade de resposta de Andy Schleck e, em bom plano, ganhou dez segundos preciosos. O tempo que o luxemburguês lhe conquistara na jornada de pavé.

Alberto Contador é um ciclista explosivo, forte e, sempre que bem preparado, muito difícil de anular na montanha. Tem frieza, nervos de aço, matreirice. Os quarenta e um segundos de atraso para Andy Schleck nunca foram, na perspectiva do espanhol bivencedor do Tour, em 2007 e 2009, desanimadores. Pelo contrário: Contador é mais forte no contra-relógio e, se chegasse à penúltima etapa com um atraso semelhante, teria todas as condições, em teoria, para sair por cima. Também na montanha, onde ele e Andy Schleck se equivalem, teria que aproveitar o momento certo e procurar, pelo menos, encurtar ainda mais a distância. A marcação cerrada, incessante e fria entre Contador e Schleck, dois rivais que se respeitam e conhecem o valor que possuem, foi uma constante na escalada até Ax 3 Domaines, na décima quarta etapa. Alberto Contador precisava que Andy Schleck quebrasse. Ou tivesse alguma infelicidade.

AZAR E SORTE: ELEMENTOS SEMPRE PRESENTES


Apesar de liderar, Andy Schleck teria de procurar ganhar tempo na montanha. Teria de atacar, testar, colocar Contador à prova. Na décima quinta etapa, como na véspera, houve muita táctica entre os dois. Anularam-se, impediram ataques, estiveram em alerta máximo. Andy Schleck, confiante e capaz, procurou isolar. Alberto Contador, atento, seguiu-o de pronto. Foi, no fundo, apenas uma tentativa de perceber se o rival se encontrava preparado. Estava mesmo. A armada de Schleck, aproveitando um mau posicionamento de Contador, repetiu-se: o ciclista luxemburguês da Saxo Bank arrancou forte, num ritmo vigoroso e pujante, destacando-se do grupo em que seguia. Desta vez poderia causar danos. Um azar, tremendo e atroz, impediu-o: a corrente da sua bicicleta saltou, deixou-o parado e Contador, levando Samuel Sánchez e Denis Menchov, também perseguidores na geral, impuseram-se e passaram ao ataque.

Andy Schleck deixou, num ápice, uma posição privilegiada para ficar numa missão impossível de lutar contra o relógio. É irónico, sim, mas Contador, o seu rival, aproveitou o endurecimento do ritmo causado pelo próprio Schleck. No azar do ciclista luxemburguês da Saxo Bank, Alberto Contador, ultrapassando Alexandre Vinokourov, seu companheiro na Astana, acompanhado dos mais directos perseguidores, Sánchez e Menchov, procurou ganhar o máximo tempo possível. O ciclista espanhol, antes com trinta e um segundos de atraso, cortou a meta em sétimo. Andy Schleck fez de tudo para recuperar, minimizar a perda até, mas chegou com um atraso de três minutos e meio em relação a Thomas Voeckler (BBox-Bouygues Telecom), vencedor da etapa, e, sobretudo, mais oito segundos do que Contador. A ordem está, agora, invertida: o espanhol lidera, o luxemburguês terá de atacar forte na montanha para recuperar.

A polémica instalou-se. Os assobios ouvidos quando Alberto Contador subiu ao pódio, preparado para vestir a camisola amarela, são um exemplo concreto. Tendo em conta o azar de Andy Schleck, porque foi disso mesmo que se tratou e não de uma quebra física, deveria o espanhol ter esperado pelo seu rival? Há quem diga que sim, que se tratou de uma atitude antidesportiva e que Contador, antes de atacar para aproveitar o problema mecânico de Schleck, deveria ter recordado o Tour de France de 2003, quando Jan Ullrich esperou por Lance Armstrong. Por outro lado, contudo, tratou-se de uma oportunidade de ouro para assumir a liderança, marcar territótio e, muito provavelmente, dar um passo decisivo rumo à conquista do seu terceiro Tour. Poderia Contador ter esperado? Sim. Mas atacou, pensou em si, procurou ganhar e viu no azar de Andy a sua sorte. Pode-se criticar, sim, mas nada, a não ser a ética do ciclismo, o impede.

A PRESENÇA GAULESA NAS ETAPAS E NA MONTANHA

Sem possuir um ciclista com condições para discutir a luta pela vitória no Tour de France, algo que não acontece desde o último triunfo de Bernard Hinault há vinte e cinco anos, o ciclismo francês procura mostrar-se nas vitória de etapas.
Esse objectivo tem sido conseguido. Na primeira semana de prova, Sylvain Chavanel (Quick-Step) venceu por duas vezes, conseguindo vestir a camisola amarela. Sandy Casar (Française des Jeux) triunfou na nona etapa, na chegada a Saint-Jean-de-Maurienne, superiorizando-se ao grupo em que seguia. Nos Pirinéus, com duas etapas duríssimas que provocaram mudanças na classificação geral, voltaram a ser ciclistas franceses a vencer: Christophe Riblon (AG2R La Mondiale) triunfou na décima quarta etapa e, no dia seguinte, foi a vez de Thomas Voeckler, campeão francês e ciclista da BB-Box. John Gadret, companheiro de Riblon, é, no décimo nono posto, o francês mais bem colocado.

O domínio gaulês sentido nas etapas da segunda semana do Tour de France 2010 foi interrompido durante quatro dias. Na etapa seguinte à vitória de Sandy Casar, no dia da tomada da Bastilha, Sérgio Paulinho (Radioshack) triunfou e impediu que os franceses, no seu feriado, pudessem sorrir. Seguiu-se uma vitória de Mark Cavendish (HTC-Columbia), a sua terceira, que se impôs no sprint da décima primeira etapa - está, contudo, longe da discussão da camisola verde, disputada de forma acérrima por Alessandro Petacchi (Lampre) e Thor Hushovd (Cervélo), com vantagem para o italiano. Joaquín Rodríguez, ciclista da Katusha, superou Contador no sprint a dois no final da etapa doze, ao passo que o regressado Alexandre Vinokourov (Astana), ultrapassado pelo seu líder na véspera, conseguiu isolar-se, surpreendendo as equipas que pretendiam uma chegada compacta, para alcançar a vitória na décima terceira tirada.

Na classificação de montanha, também os franceses dominam. Anthony Charteau, ciclista da BB-Box Bouygues Telecom, mantém-se, após a décima quinta etapa, como o rei dos trepadores. Seguem-se, nessa classificação, mais dois franceses: Jerôme Pineau (Quick-Step), que tem dividido com o compatriota esta liderança, e ainda Thomas Voeckler (companheiro de Charteau na BB-Box). Há, neste momento, uma diferença de vinte e três pontos entre primeiro e segundo classificados, porém esta é uma classificação que está bem longe de decidida, pois ainda existirão etapas importantes de montanha com muitos pontos em disputa. Andy Schleck (Saxo Bank) e Alberto Contador (Astana), embora não façam da montanha um objectivo prioritário, também se aproximaram dos primeiros lugares e podem ter aspirações legítimas a conseguir, em Paris, serem coroados como melhores trepadores. Será, sempre, uma consolação.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

97º Tour de France: A emergência de Sérgio Paulinho

Nestes casos importa começar pelo fim: Sérgio Paulinho venceu a décima etapa da nonagésima sétima edição do Tour de France. O ciclista da Radioshack tornou-se no quarto português a vencer na Grande Boucle, depois de Joaquim Agostinho (por cinco vezes), Paulo Ferreira (uma) e Acácio da Silva (três). O corredor português quebrou, além disso, um interregno de vinte e um anos, o tempo que passou desde que, num contra-relógio inicial realizado no Luxemburgo, Acácio da Silva venceu e conquistou, pela única vez no historial das participações de ciclistas portugueses na principal prova do pelotão internacional, a camisola amarela. Mais solto devido ao facto de Lance Armstrong, seu líder na equipa norte-americana, ter já perdido todas as possibilidades de discutir a vitória na competição, Sérgio Paulinho entrou na fuga do dia, geriu o seu esforço, trabalhou, atacou no momento certo e ganhou ao sprint. Por centímetros.

Sérgio Paulinho é um ciclista de grande valor. Foi escudeiro de Alberto Contador e agora acompanha Lance Armstrong. Ganhou notoriedade pela medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas. Está habituado a viver junto dos melhores. Não é um candidato a vencer, a estar nos primeiros lugares ou a ser o mais espectacular. Sérgio Paulinho é um trabalhador, um operário, um dos responsáveis pela defesa do líder e pelas tarefas mais duras. Não importa a classificação, os muitos minutos de atraso para o topo ou o lugar final. A Sérgio Paulinho apenas é cobrado o trabalho que realiza em prol da equipa. Se for bem-sucedido, se proporcionar todas as condições para que os seus companheiros ganhem, terá sucesso. É aí que está o seu barómetro. Nunca no destaque que tem por entrar em fugas ou por ser explosivo nos ataques. Desgasta-se, sofre, dá tudo o que pode. O maior protagonismo fica de lado.

O azar de uns é a sorte de outros. No Tour de France de 2010, a missão de Sérgio Paulinho, como Yaroslav Popovych ou Chris Horner, por exemplo, sempre passou por levar Lance Armstrong, líder da Radioshack, à sua oitava vitória na prova. Lance ficou arredado de uma nova conquista na primeira semana. Por infortúnio, devido a problemas mecânicos no pavé e duas quedas na principal etapa dos Alpes, e também por ter sentido o peso da sua veterania, o norte-americano viu a distância, abissal, deixá-lo de fora das contas da classificação geral. O objectivo de Lance Armstrong, mas também de toda a equipa, falhou. Levi Leipheimer, o ciclista mais bem colocado da Radioshack, no sexto lugar, passou a ser o novo líder. Abriu-se, com isso, uma janela de oportunidades. A táctica mudou. Leipheimer não é Armstrong. Ciclistas como Sérgio Paulinho, antes de corpo e alma no auxílio ao líder, puderam ambicionar sair da sombra.

Entendimento e consentimento: são duas características essenciais para que uma fuga resulte. Terá de haver, antes que tudo, uma boa ligação entre os elementos do grupo que saltaram do pelotão - grande entreajuda e estratégias que permitam, a cada elemento, fazer a melhor gestão do esforço. Depois, sem que os fugitivos possam fazer muito sobre isso, é necessário que o pelotão permita que os ciclistas que estão isolados consigam levar a sua vantagem até final. A décima etapa do Tour foi perfeita para uma fuga rumo à vitória: dia para recarregar baterias, depois de um desgaste brutal em alta montanha, com subidas complicadas mas sem a dureza das últimas tiradas, com um ritmo controlado pelo pelotão - sem investidas para atacar a classificação geral ou procurando uma chegada em compacto, que permitiu que o grupo de fugitivos ganhasse margem de manobra. Sérgio Paulinho tinha que aproveitar.

A fuga resultara na perfeição. A vantagem, impossível de ser recuperada pelo pelotão, sempre num ritmo sereno e sem preocupações, chegou aos doze minutos. Era momento de atacar. De encontrar uma oportunidade, morder a língua e querer ser feliz. Dries Devenyns, belga da Quick-Step, foi o primeiro a tentá-lo. Vasil Kiryienka segui-o, acompanhado de Sérgio Paulinho. As duas equipas, Caisse d'Epargne e Radioshack, disputam também a liderança colectiva. A presença do ciclista português deveu-se, em parte, à presença do bielorrusso. Um jogo do gato e do rato. Fortes, ganhando vários segundos, Kiryienka e Paulinho passaram para a frente. E posicionaram-se para a vitória. No dia de França, na comemoração da tomada da Bastilha, o ciclista português libertou-se e arrancou para a meta. Ganhou, à justa, no sprint. Um triunfo histórica, saboroso e muitíssimo importante: para o ciclista, para a equipa e para Portugal.

ANDY SCHLECK E ALBERTO CONTADOR: O DUELO DO DIA ANTERIOR

Ao nono dia, depois da segunda etapa em plenos Alpes, a vitória no Tour de France 2010 ficou reduzida a um duelo. Alberto Contador (Astana) e Andy Schleck (Saxo Bank), os dois primeiros da edição do ano passado, ganharam tempo a todos os rivais, atacando forte e pulverizando os tempos que os mantinham atrás dos primeiros lugares. Depois de uma sensacional vitória na última etapa antes do descanso, Andy Schleck voltou a destacar-se, explodindo e deixando grande parte dos rivais sem resposta. Alberto Contador, titubeante na última vez, acompanhou o luxemburguês. Formaram um duo, o duo de candidatos. Montanha acima, em parceria, ganharam minutos fulcrais e fixaram-se nos primeiros lugares: Andy Schleck assumiu a liderança, com quarenta e um segundos de vantagem sobre Contador. O anterior líder, Cadel Evans, destroçado e vencido, cortou a meta a chorar. Oito minutos de atraso pesam. E supreendem.

Andy Schleck vive o seu melhor momento de forma. Mais forte do que na edição do ano passado, mais experiente, o luxemburguês, bem apoiado pela equipa da Saxo Bank - mesmo tendo perdido, logo no início, o irmão Frank -, anseia pela sua primeira vitória no Tour. Alberto Contador, apesar de ter parecido sentir algumas dificuldades no ataque de Andy Schleck na oitava etapa, respondeu bem após o descanso, juntando-se ao seu principal para ambos se destacarem de todos os outros. A luta será entre ambos - ao fim de nove etapas era de todo inesperado que a discussão da vitória final se limitasse a dois corredores. E há, ainda, a ausência de Lance Armstrong nas contas da classificação geral. O norte-americano viveu um dia infernal na primeira etapa dura nos Alpes e é, actualmente, sobre Levi Leipheimer que recaem as principais esperanças da Radioshack. A resposta de Lance, ao nono dia, foi positiva.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

97º Tour de France: O fim de Lance e a afirmação de Andy

É incontornável: Lance Armstrong está fora da discussão da vitória na nonagésima sétima edição do Tour de France. Azarado, destroçado e sem capacidade para recuperar, o ciclista norte-americano da Radioshack foi vítima da oitava etapa, nos Alpes, a primeira verdadeiramente exigente. Duas quedas e uma notória quebra física, na passagem pelo Col de la Ramaz, fizeram com que Armstrong, heptavencedor do Tour e terceiro classificado na edição do ano passado, chegasse à meta, em Morzine-Avoriaz, com um atraso gigantesco de onze minutos e quarenta e cinco segundos. A oitava vitória ou a nona presença no pódio final estão, de vez, colocadas de parte. Lance Armstrong, protagonista de tantos espectáculos anteriores, viveu um dia infernal, sem paralelo na sua carreira e atrasou-se, na geral, em mais de treze minutos. Com trinta e oito anos, Lance deixou a primeira semana com o destino traçado. Os heróis, agora, são outros.

Ao oitavo dia, na sétima etapa, a primeira chegada em alto. Ainda sem se tratar de uma subida íngreme e devastadora, a escalada para Station de Rousses fez a primeira selecção. A classificação geral, até então confortavelmente liderada por Fabian Cancellara (Saxo Bank) após a titubeante jornada no pavé, a que se seguiram duas vitórias explosivas de Mark Cavendish (HTC-Columbia) com chegadas em pelotão compacto, alterou-se. Baralhada. Sylvain Chavanel (Quick-Step), uma das principais figuras da primeira semana, sobretudo por se tratar de um ciclista francês em bom momento, conseguiu reeditar a vitória que alcançara na segunda etapa: atacou, destacou-se do pelotão, ganhou espaço, venceu e foi recompensado com a camisola amarela - Cancellara há muito ficara para trás. A táctica da Quick-Step, equipa belga, resultou na perfeição, uma vez que também Jerôme Pineau cimentou a sua liderança na montanha.

ANDY SCHLECK E CADEL EVANS: OS VENCEDORES DA OITAVA ETAPA

Andy Schleck é uma das maiores esperanças do ciclismo mundial. Depois de ter sido segundo classificado na edição anterior do Tour de France, intrometendo-se entre Contador e Armstrong, a Saxo Bank voltou a apostar forte, cada vez mais forte, para conseguir levar o mais novo dos irmãos Schleck à vitória na Grande Boucle. A jornada no pavé, na quarta etapa, serviu para demonstrar que a equipa se encontrava bem, depois de uma bela resposta de Andy Schleck - contando com uma ajuda preciosa de Fabian Cancellara - num terreno onde o ciclista luxemburguês sente dificuldades. No entanto, foi também um dia mau, uma vez que Frank Schleck, braço direito de Andy, se viu obrigado a abandonar a prova devido a uma queda. Seja como for, na oitava etapa, na dura escalada até Morzine-Avoriaz, o jovem trepador da Saxo Bank conseguiu superar a concorrência e, explosivo, atacou fortíssimo rumo à vitória.

No seu ataque demolidor, ao qual apenas Samuel Sánchez (Euskautel) conseguiu reagir, Andy Schleck ganhou dez segundos ao grupo de onde saltou. Já sem Lance Armstrong na corrida por um lugar no pódio, o tempo conquistado, sobretudo a Alberto Contador, é importante. O ciclista luxemburguês da Saxo Bank deixou bem claro que é candidato e será um dos principais adversários que Contador, à procura do seu terceiro triunfo no Tour, terá pela frente - o espanhol, que não teve capacidade para atacar nos quilómetros finais, reconheceu que Andy Schleck é, na montanha, o seu principal opositor. Cadel Evans, que chegou inserido no principal grupo, assumiu a liderança da classificação geral. O ciclista australiano da BMC, uma confirmação sempre adiada em edições anteriores do Tour, conquistou a camisola amarela a Sylvain Chavanel (onze minutos e quarenta de atraso na etapa) e mostrou que, mais uma vez, pretende vencer.

Cadel Evans, Andy Schleck e Alberto Contador preenchem, neste momento, os três primeiros lugares. E são, pode-se dizer, os principais candidatos à vitória final - embora a BMC, equipa de Evans, não tenha qualquer comparação com a Saxo Bank ou a Astana, de Schleck e Contador, o ciclista australiano, experiente, tem dado boa conta de si e está acostumado a viver o mesmo problema: falta de ajuda. Para além destes há ainda ciclistas como Van der Broeck (Omega-Lotto), Denis Menchov (Rabobank) ou Levi Leipheimer (único representante da Radioshack nos primeiros dez classificados - é oitavo, a dois minutos e catorze segundos de Cadel Evans). Carlos Sastre (Cervélo) e Ivan Basso (Liquigas), apesar de terem chegado no grupo dos favoritos e, assim, recuperado tempo, encontram-se, respectivamente, no décimo segundo e décimo terceiro lugar - Sastre, vencedor do Tour em 2008, tem um atraso de dois minutos e quarenta para Evans e uma vantagem de um segundo sobre Basso. Ainda, porém, com hipóteses.

A MAIOR FORÇA DA ASTANA NO DUELO DE TITÃS


A edição deste ano do Tour de France seria, à partida, um duelo entre Alberto Contador e Lance Armstrong. Lado-a-lado, nas duas principais equipas do pelotão internacional, o presente pujante e o passado épico. Na edição anterior, em 2009, estando na mesma equipa, a toda-poderosa Astana, a convivência de Contador e Armstrong não foi fácil e a estratégia da formação cazaque passou por, sempre que possível, colocar os seus dois líderes na frente. Foi conseguido: Contador venceu com naturalidade, enquanto Armstrong, após um período de três anos de inactividade, conseguiu um honroso terceiro lugar. Em 2010, com equipas diferentes, o Tour de France teria todas as condições para ser discutido, sobretudo, entre Alberto Contador e Lance Armstrong. Um na Astana, mais frágil, e o outro na nova Radioshack, forte e por ele comandada. Contudo, é a equipa cazaque, mesmo sem corredores influentes, quem melhor tem estado.

A quebra de Lance Armstrong na oitava etapa deve-se às duas quedas e à sua incapacidade para seguir o andamento imposto pela Astana. Aproveitando as maiores dificuldades do ciclista da Radioshack, naturais para quem tem trinta e oito anos, a equipa cazaque endureceu o ritmo, procurou estragos e tentou deixar, desde logo, Armstrong sem possibilidades de lutar por uma vitória. Resultou na perfeição: a Astana colocou quatro ciclistas no principal pelotão, tomou conta do ritmo, aumentou-o e superiorizou-se à Radioshack, em teoria mais forte, deixando também Andreas Klöden fora da rota dos primeiros lugares - o ciclista alemão tem um atraso de cinco minutos e trinta e nove segundos, depois de já ter quebrado na véspera. Contudo, quando era expectável que Alberto Contador, líder da Astana e principal candidato à vitória, atacasse, a verdade é que também o ciclista espanhol sentiu dificuldades para acompanhar o andamento da sua equipa.

Após estar completa a primeira semana, Alberto Contador mantém intactas as esperanças de voltar a conquistar, pela terceira vez na sua carreira, a maior prova do pelotão internacional - é terceiro, com um minuto e um de diferença. Lance Armstrong, por outro lado, viu as possibilidades de repetir uma vitória, ou até estar presente no pódio, esfumarem-se. Percebe-se facilmente, por isso, que a Astana leva, para já, a melhor sobre a Radioshack. Ambas, contudo, têm apenas um corredor nos dez primeiros: a equipa cazaque tem Contador, a norte-americana tem Leipheimer - embora seja uma tarefa complicadíssima, não é impossível que o ciclista americano consiga um lugar entre os três primeiros. Alexandre Vinokourov, este ano regressado para a Astana, revelou-se importante no aumento do ritmo imprimido pela equipa cazaque, mas acabou por perder muito tempo e é, agora, décimo quinto na geral (a três minutos e cinco).

Os melhores momentos do 97º Tour de France terão acompanhamento no FUTEBOLÊS

quarta-feira, 7 de julho de 2010

97º Tour de France: Início de alta tensão

Quedas. No ciclismo os ciclistas estão sujeitos a elas. Seja por algum problema mecânico, pela interferência de um elemento estranho ou, até, devido ao mau estado das vias. É um perigo sempre presente, espreitando todas as oportunidades, quase uma inevitabiliade contra a qual, por mais que queiram, os ciclistas não têm antídoto. Na nonagésima sétima edição do Tour de France têm sido presença assídua. Manuel Cardoso, ciclista português da Footon-Servetto, pela primeira vez numa prova desta envergadura, caiu durante o prólogo, no dia um do Tour, ficou mal tratado e logo teve que regressar a casa. A primeira etapa em linha, ganha surpreendentemente por Alessandro Petacchi (Lampre), foi também fértil em quedas, tendo a vitória do italiano sido, porventura, alicerçada pela ausência dos mais fortes sprinters. O pavé, ao quarto dia, fez mossa. O início do Tour tem sido marcado por tensão, ansiedade e medo de ficar já afastado.

Numa corrida por etapas, dividida em três semanas, é perto do final da prova que os candidatos à vitória na geral individual se mostram. A edição do Tour de France do ano passado, por exemplo, apenas despertou verdadeiramente na passagem pelos Alpes. A primeira semana, com um traçado mais plano e de adaptação, costuma estar destinada aos sprinters, favorecendo chegadas em pelotão compacto, sem que exista, com isso, qualquer tipo de diferenças susbtanciais entre os principais candidatos ao triunfo em Paris. Nesta edição, contudo, a primeira semana, não sendo decisiva, apresentava, à partida, alguns problemas aos ciclistas. Não iria decidir nada, claro que não, mas poderia ajudar a clarificar as contas da geral final e, inclusivamente, limitar as ambições de alguns dos mais fortes candidatos à melhor classificação geral. Sobretudo devido ao pavé, um empedrado capaz de fazer mossa.

O prólogo inicial foi vencido, como era expectável, por Fabian Cancellara. O suíço da Saxo Bank, fortíssimo neste tipo de prova, pulverizou os tempos da concorrência. Alessandro Petacchi (Lampre) ganhou, sendo mais forte no sprint, a primeira e a quarta etapas em linha. Estas foram, até ao momento, as duas únicas chegadas em pelotão compacto, uma vez que na segunda etapa, quando o terreno assim o propiciava, foi realizado uma espécie de protesto, devido às inúmeras quedas envolvendo sprinters no dia anterior, que beneficiou a fuga de Sylvain Chavanel. O ciclista francês da Quick-Step, para além da vitória na etapa, conseguiu a camisola amarela. No entanto, não superando as exigências do pavé, perdeu-a, de novo, para Fabian Cancellara. O sprinter Thor Hushovd (Cervélo), mais forte num grupo de seis onde se incluíam os candidatos Andy Schleck e Cadel Evans, dois ciclistas bem-sucedidos, venceu a etapa.

PAVÉ: O INFERNO DO NORTE

O pavé, cerca de treze quilómetros de empedrado pelos quais os ciclistas passaram no quarto dia de prova, fez estragos no pelotão. Era esperado, de antemão, que colocasse dificuldades a alguns corredores, mesmo favoritos, havendo alguma expectativa sobre Alberto Contador ou Andy Schleck, os dois primeiros do ano passado, que, pelas suas características, estariam mais à mercê dos perigos deste pavimento. Contudo, o pavé acabou por ter um impacto maior do que o previsto. Lance Armstrong foi um dos maiores prejudicados. O ciclista norte-americano da Radioshack, equipa que apostara em conseguir superar-se a rivais directos na luta pela geral, estabelecendo já diferenças importantes, estava a fazer uma boa prova, até à frente de Contador, mas, por infortúnio, um furo na roda dianteira fê-lo perder, na geral, noventa segundos para o ciclista espanhol da Astana, seu principal rival. Lance está obrigado a atacar. Também Klöden e Leipheimer, pelas mesmas razões de Armstrong, se atrasaram.

Em sentido contrário, na terceira etapa depois do prólogo, a Saxo Bank teve um dia quase perfeito: recuperou a camisola amarela de Fabian Cancellara, um rocket que passara pelas estradas de Roterdão no primeiro dia, e viu Andy Schleck, seu líder, conseguir ganhar tempo a Contador e Armstrong, ficando, na luta entre possíveis candidatos à vitória final, apenas atrás de Cadel Evans (aquele que foi o maior vencedor do dia, fixando-se no terceiro lugar). A forte aposta da Saxo Bank, com uma preciosa ajuda de Cancellara a Andy Schleck no pavé, onde o primeiro se sente bem e o segundo poderia passar mal, deu excelentes resultados. O dia só não foi perfeito devido ao abandono de Frank Schleck, quinto nas duas últimas edições do Tour e o braço direito do irmão Andy, que fracturou a clavícula após uma queda. Christian Vande Velde (Garmin), ciclista com aspirações a ficar bem colocado, foi também forçado a abandonar.

ALESSANDRO PETACCHI A DOBRAR

Alessandro Petacchi, um veterano de trinta e seis anos, é um sprinter com provas dadas e largo historial. Actualmente, contudo, há Mark Cavendish (Team Columbia) e Thor Hushovd (Cervélo) na linha da frente para as chegadas em pelotão compacto. No segundo dia deste Tour de France, após quedas sucessivas que impediram que todos os sprinters estivessem em boas condições de poder ambicionar a vitória, Alessandro Petacchi triunfou. Disse-se que apenas o fizera por não ter consigo os adversários mais fortes. Seja como for, a verdade é que na quarta tirada do Tour, depois de um dia fustigado pela passagem pelo pavé, Petacchi, já lutando com Cavendish, Hushovd, McEwen ou Freire, repetiu a vitória. O argumento esfumou-se: desta vez, com toda a concorrência junto de si, o veterano italiano, numa etapa sem complicações que serviu para recuperar das mazelas, ganhou com todo o mérito. Contem com ele!

Os melhores momentos do 97º Tour de France terão acompanhamento no FUTEBOLÊS

sexta-feira, 2 de julho de 2010

97º Tour de France: Quilómetro zero

A nonagésima sétima edição do Tour de France parte amanhã para a estrada. Em Roterdão, na Holanda, a maior corrida velocipédica do calendário internacional, La Grande Boucle, inicia-se com um prólogo de apenas nove quilómetros. Terá, ao longo dos vinte e um dias de prova, nove etapas com percurso plano (que surgem, sobretudo, na primeira semana e se afiguram propícias para os sprinters se mostrarem - deverão fazê-lo até à sétima tirada), quatro etapas com relevo acidentado, apenas um contra-relógio individual e, como garantia de maior espectáculo, seis etapas de montanha. A edição de 2010 do Tour, dura como nunca, promete fazer mossa no pelotão com as escaladas ao alto de Peyresourde, Aspin, Col du Tourmalet (onde, à décima sexta e décima sétima etapas, com um dia de descanso pelo meio, os principais candidatos à vitória final terão duros testes às suas capacidades) e Aubisque. É preciso fôlego!

A juventude, a pujança e o vigor de Alberto Contador. O bivencedor do Tour de France, triunfante em 2007 e 2009 e impedido de marcar presença em 2008, parte como número um para voltar a sorrir em Paris. No outro pólo, tão distante e tão diferente, há Lance Armstrong. Com a sua glória, a experiência e a ambição de quem, apesar de já ter sete vitórias na maior prova de ciclismo mundial, não se contenta em assistir pela televisão. Armstrong estará em França para ganhar. Não há como fugir a isso. O seu regresso, no ano anterior, voltou a despertar a paixão do ciclismo. É das estrelas que os adeptos precisam. O doping, sempre uma tormenta, há muito espreitara por uma oportunidade para dar o seu golpe de misericórdia. O ciclismo sentia-se carente. Renovou-se. Para Lance Armstrong, depois de três anos de pausa, a vitória não era um objectivo declarado. Até porque, na mesma equipa, estava o seu principal rival: Alberto Contador.

Estando na mesma equipa, numa Astana repleta de estrelas, Alberto Contador e Lance Armstrong sabiam, à partida, que apenas um poderia ser o líder. Pelo prestígio, sem que ninguém ousasse discordar, seria o norte-americano. Contador, porém, ganhara o seu lugar. Destacara-se da concorrência, revelara a sua força e ganhara. Assumiu-se como o número um mundial. Embora tenha existido, a princípio, um clima dúbio sobre quem seria verdadeiramente o líder da Astana, era Alberto Contador quem dava maiores garantias de poder triunfar. A aposta recaiu, com naturalidade, no corredor espanhol. E foi acertada: Contador venceu, com o seu talento e com um sensacional trabalho de equipa, enquanto Armstrong, no ano de regresso, ficou num belo terceiro lugar. Agora, em 2010, é diferente. Alberto Contador e Lance Armstrong, sem amizades forçadas, estão em equipas diferentes e são os principais rivais. Com Andy Schleck na sombra.

ASTANA E RADIOSHACK: A FRAGMENTAÇÃO DE UMA POTÊNCIA

A Astana, equipa cazaque, revelou-se, na anterior edição do Tour de France, como a principal potência do pelotão internacional. Para além de conter Alberto Contador e Lance Armstrong, a Astana contava ainda com ciclistas, como Levi Leipheimer ou Andreas Klöden, que entrariam de caras em qualquer outro grupo. A existência de vários líderes foi uma situação que criou alguma hostilidade. Após o final do Tour' 2009, a equipa sofreu uma verdadeira transfiguração.
A posição de Alberto Contador, devido à perda de todos os elementos que o haviam acompanhado no triunfo, ficou algo fragilizada - era expectável, a princípio, que o ciclista espanhol rumasse a outras paragens. O próprio regresso de Alexandre Vinokourov, o cazaque fundador da equipa, após dois anos de suspensão devido a doping, poderia também criar um foco de tensão, tal como antes com Armstrong. Ou, ao invés, poderá funcionar como um precioso auxílio para Contador.

Numa equipa agora comandada por Giuseppe Martinelli, a Astana, sem o rol de estrelas que apresentou na edição anterior, terá em Alberto Contador a sua principal esperança em vencer. Para além de Vinokourov, que poderá desempenhar um papel determinante para ajudar a resguardar Contador - o líder, sem que se crie com isso qualquer tipo de constrangimento -, a Astana terá ciclistas de créditos firmados e com experiência em grandes provas internacionais como David de la Fuente, Paolo Tiralongo, Daniel Navarro e Maxim Iglinskiy (de destacar, por ser surpreendente, a ausência de Óscar Pereiro - vencedor da prova em 2006, após ter sido confirmado o controlo positivo a Floyd Landis - por opção técnica). A verdadeira debandada que se registou na equipa cazaque, demonstrando uma composição teoricamente inferior à do ano transacto, foi causada, sobretudo, por Lance Armstrong. E, lá está, pela sua ambição!...

O ciclista norte-americano, apesar da veterania dos seus trinta e nove anos, mantém bem acesa a chama de voltar a repetir uma vitória no Tour de France. Para isso construiu uma equipa forte, a Radioshack. Nos eleitos para competir em França, todos os ciclistas estavam, em 2009, na... Astana. Comandada por Johan Bruyneel, também ele vindo da equipa cazaque e líder das conquistas de Lance Armstrong na US Postal e na Discovery Channel, e com o português José Azevedo, parceiro de Lance em quatro dos seus títulos, como adjunto, a Radioshack nasceu a partir da Astana. Reforçou-se com qualidade para atacar esta nonagésima sétima edição do Tour de France em força, procurando levar Armstrong a uma vitória histórica e notável. Levi Leipheimer, Andreas Klöden, Janez Brajkovic (que venceu o Dauphiné Libéré, à frente de... Contador), Yaroslav Popovych ou o português Sérgio Paulinho são ajudas de peso para o líder.

HÁ VIDA PARA LÁ DOS PAPÕES

Para além de Alberto Contador e Lance Armstrong, os dois principais candidatos à vitória na edição de 2010 do Tour de France, há outros ciclistas que prometem intrometer-se na luta pela geral individual final. Os manos Schleck, Andy e Frank, conseguiram boas prestações na últimas duas edições da prova e partem, sobretudo o primeiro, com legítimas aspirações a superar os resultados do ano anterior - Andy foi segundo, entre Contador e Armstrong, ao passo que o irmão, Frank, terminou na quinta posição, com Bradley Wiggins à frente. A equipa Saxo Bank, onde se mantêm, é, de resto, muito semelhante à que, em 2009, se apresentou em França. Com Fabian Cancellara, Jens Voigt ou Jakob Fuglsang, a formação liderada por Torsten Schmidt acalenta esperanças de conseguir tirar partido da luta de titãs entre Contador e Armstrong para levar Andy Schleck, uma jovem promessa, à verdadeira confirmação do seu grande valor.

Outros crónicos candidatos, pelo seu estatuto e pela importância que têm, devem ser levados em conta. Cadel Evans é um deles. O ciclista australiano, agora na BMC, uma equipa recém-formada, parece sentir-se mais solto, mais ambicioso e confiante. Depois de ter estado perto do trono em edições anteriores, tendo desiludido em 2009, esta será a oportunidade para Evans, campeão australiano, conseguir, de vez, afirmar-se na Grande Boucle. Também Ivan Basso, regressado este ano à competição, tal como Vino, poderá ter uma palavra a dizer. Contudo, o ciclista italiano da Liquigas (um colectivo fortíssimo!) venceu, em Maio passado, o Giro de Itália e, apesar de se mostrar esperançado numa boa participação, não deverá ainda ter o tempo de recuperação necessário. Bradley Wiggins (Sky), Denis Menchov (Rabobank) e Carlos Sastre (Cervélo) são outros destaques, embora nenhum deles seja propriamente um candidato.

UM TRIO PORTUGUÊS

Sérgio Paulinho será a principal figura do ciclismo português presente nesta edição do Tour. À semelhança do que acontecera nas suas outras duas participações (2007 e 2009), onde ajudou Alberto Contador a chegar à vitória na prova, tem destinado o papel de trabalhador, de gregário, de quem ficará encarregue de impedir que o seu líder, neste caso Lance Armstrong, seja atacado pelos rivais - mesmo que isso não tenha reflexos na sua classificação individual, sempre modesta e em função dos interesses da equipa. Rui Costa, ciclista da Caisse d'Epargne, repetirá a presença do ano passado (onde uma queda o obrigou, na segunda semana de prova, a abandonar de forma precoce). O outro português presente neste ano é o jovem Manuel Cardoso, pela primeira vez numa prova desta envergadura, actualmente ao serviço dos espanhóis da Footon-Servetto. Também José Azevedo, agora como director-desportivo, tal como o ciclista Tiago Machado, apesar de integrarem a equipa Radioshack, não estarão no Tour.

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