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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

2010 futebolístico de A a Z - Segunda Parte

DA CAN NEFASTA AO ZERO DO DRAGÃO

N: Nefasto.

Negro, funesto, dramático, desolador. O arranque da Taça das Confederações Africanas, em Angola, foi o momento mais trágico de 2010: a selecção de Togo foi vítima de um brutal ataque quando se encontava em Cabinda, cidade angolana, que culminou na morte de três elementos da sua comitiva. O acto bárbaro e sangrento levou a selecção togolesa, pressionada pelo governo, a abandonar a competição, sendo desqualificada por falta de comparência pela organização do torneio, percebendo não existirem quaisquer garantias de segurança para permanecer em solo angolano. A CAN viria a ser ganha pelo Egipto, pela sétima vez na História, depois de, na final, a selecção egipcía ter derrotado o Gana. Mas há muito ficara manchada e ensombrada.

O: Oportunidade.
Diz-se que o futebol é um negócio. Pode, por vezes, a palavra ter uma conotação negativa, mas a verdade, leitor, é que é mesmo. Daí que, como qualquer comerciante que deseja estar acima da concorrência, seja bom ter os melhores produtos, saber onde os encontrar, forçar para os conseguir e, depois, rentabilizá-los ao máximo para um possível retorno futuro. O FC Porto fez, no Verão, um dos maiores negócios da história do futebol português: resgatou João Moutinho ao Sporting. Pelo dinheiro investido, pela força oportuna como o processo foi conduzido e pelo impacto, moralizador de um lado e decepcionante do outro, que teve. Actualmente, Moutinho é uma das pedras-chave da máquina portista. Sentido de oportunidade. E de negócio.

P: Pesadelo.

Assim mesmo, sem eufemismos ou meias-palavras: o Sporting viveu, em 2010, um verdadeiro pesadelo. Entrou mal, agudizou a crise, viveu momentos sem paralelo na sua história de mais de cem anos e termina o ano arredado das duas principais provas a que se propôs: campeonato e Taça de Portugal. Está numa situação periclitante, turbulenta, caótica. Já Carlos Carvalhal, Salema Garção ou Sá Pinto abandonaram a estrutura leonina, para, em sentido contrário, terem sido contratados Paulo Sérgio, Costinha ou, mais recentemente, José Couceiro. A verdade é que os problemas, os erros, os desaires prevalecem. O Sporting terminou a época passada, em Maio, a vinte e oito pontos do campeão Benfica e sem nada conquistado. Será para repetir?

Q: Queiroz.

Carlos Queiroz chegou à selecção em 2008. Discurso sério, realista, frio e pragmático. Postura sóbria e metódica. Carlos Queiroz será sempre um professor: prepara, estuda, observa, teoriza e traça planos. Rompeu com o tempo de Luiz Filipe Scolari: o pragmatismo ultrapassou a ambição, as bandeiras saíram das janelas, o país distanciou-se, fracassou a mobilização e a selecção, à imagem do seleccionador, assumiu-se receosa, temerária, pouco mágica e carente de um toque de génio. Portugal foi cinzento no Mundial da África do Sul. Chegou aos oitavos-de-final e caiu frente ao futuro campeão do Mundo, sim, mas nunca se revelou na sua plenitude. Carlos Queiroz foi reú. E envolveu-se em polémicas que lhe custaram o lugar. Bateu no fundo.

R: Ronaldo.

Quarenta e nove golos. De cabeça, de pé direito, de pé esquerdo, das formas mais estranhas, felizes ou construídos com mestria, para todos os gostos há registos. Cristiano Ronaldo terminou 2010 em alta: forte, possante, capaz. Mas nunca poderia estar nos finalistas para vencer a Bola de Ouro. O Real Madrid, para onde se mudou no Verão de 2009, terminou a época sem título, sem retorno do investimento e ultrapassado a toda a escala pelo Barcelona. O Mundial da África do Sul, com a prestação cinzenta e apática de Portugal, mostrou também o pior Cristiano Ronaldo: individualista, impotente e eclipsado. Por tudo isso, ficou arredado. Mas nem por isso deixou de marcar a época. No Real Madrid, por exemplo, foi o grande, o maior, o único suporte.

S: Sporting.

O Sporting já apareceu, leitor, atrás. Na letra pê, de pesadelo. Mesmo assim, porque 2010 foi verdadeiramente um ano calamitoso e inusitado no historial leonino, importa vincar a ideia. Ficar a cerca de trinta pontos do primeiro lugar no campeonato, na quarta posição, além de somar derrotas pesadas, frente a FC Porto e Benfica, que valeram a eliminação das outras duas provas internas, Taça de Portugal e Taça da Liga, é algo a que o Sporting não está habituado. Mais: não se coaduna, nem pouco mais ou menos, com um grande, com um clube ambicioso, que luta por título e que coloca a fasquia elevada. Até o estatuto do Sporting esteve tremido. A estrutura apresenta problemas, denota debilidades, não responde de forma eficaz e a equipa, no relvado, sente-o. Faltam chama, falta matéria-prima, faltam recursos. E, sobretudo, meios.

T: Túnel.
O leitor abre o dicionário na letra tê. Procura e lá encontra: túnel. Tem vários significados e um deles, no sentido figurado, salta à atenção: túnel pode representar uma fase obscura e difícil. Em 2010, recuperando suspeições e intimidações do passado, o futebol português falou de túneis, acendeu a polémica em torno deles e viveu uma tal fase obscura, polémica, densa. O túnel da Luz, de onde saíram as suspensões de Hulk e Sapunaru por agressões a stewards, serviu para alimentar a revolta portista. Pinto da Costa classificou o título benfiquista como uma vitória na Liga dos túneis. Não foi, contudo, apenas no jogo com o FC Porto que o túnel foi falado. Acontecera, antes, nos jogos do campeão com o Sp.Braga e com o Nacional. Um lugar obscuro.

U: Ufanar.
A palavra não é, leitor, muito conhecida. Define alguém que se pode gabar se determinado feito. Nem todos se podem ufanar, por exemplo, de, como Sp.Braga, ter terminado uma fase de grupos complicada, em ano de estreia na Liga dos Campeões, defrontando Arsenal, Shakthar Donetsk ou Partizan, com nove pontos somados - mais do que o AC Milan, que se apurou. Tal como nem todas as equipas, como Barcelona e Real Madrid, de terem os dois principais jogadores do planeta. Há Messi e Ronaldo: correm, driblam, passam, divertem, assistem, marcam, vivem e respiram futebol. Um é franzino, veloz, esguio. O outro possante, capaz, destruidor. Podem-se ufanar os clubes, os treinadores, os colegas e os adeptos. 2010 foi um ano dourado para ambos.

V: Villas Boas.
André desligou-se de José Mourinho. Assumiu a Académica, aceitou o risco, colocou-se na corda bamba e seguiu em frente. Rapidamente chamou a atenção, saltou para a moda, despertou cobiça. O Sporting interessou-se, fracassou, André Villas Boas permaneceu na Académica, ganhou aprendizagens, continuou o seu trabalho e viu serem-lhe abertas as portas do seu clube, o FC Porto, por Pinto da Costa querer romper com o passado. Chegou com força. Mudou a forma de jogar, colocou o dragão no trilho das vitórias e construiu uma máquina poderosa. Conquistou a Supertaça, tem o campeonato bem encaminhado e é candidato assumido na Europa. O FC Porto está invicto, mostra-se elegante e funciona com harmonia. Ano perfeito para André Villas Boas.

W: Wesley.

Jogou, desmarcou, correu, pensou, assistiu e marcou. Wesley Sneijder foi uma peça fundamental no Inter de Milão. Chegou dispensado de Madrid, como Robben, entrou de caras na equipa montada por José Mourinho, assumiu-se como cérebro do Internazionale, guiou a equipa, deu-lhe um toque de génio e revelou-se, em sociedade perfeita com Diego Milito, nos momentos decisivos ao longo da temporada. Conseguiu, ainda, uma prestação convincente na Holanda, mantendo a posição de destaque como no clube, contribuindo de forma fulcral para a cavalgada holandesa rumo à final do Mundial, a terceira da sua História, onde a Espanha levou a melhor. Sneijder esteve sempre no topo. Causa estranheza ter sido esquecido para a Bola de Ouro.

X:
Xau.
Então, xau! A frase pertence a Jorge Jesus, foi dirigida a um jornalista no flash interview do jogo entre o Benfica e o Beira-Mar, confortavelmente vencido pelos encarnados, numa fase em que a eliminação da Liga dos Campeões abalou o campeão nacional. Mostra a tensão do treinador numa altura que a temporada do Benfica foi colocada em xeque. 2010 foi também o adeus de Ricardo Costa e Hermínio Loureiro. O primeiro, presidente da Comissão Disciplinar da Liga, abandonou o cargo manchado pela polémica em torno do FC Porto e das suspensões de Hulk e Sapunaru, castigados em quatro e seis meses, respectivamente, mas que, afinal, por deliberação do Conselho de Justiça, apenas teriam de cumprir três e quatro... jogos. Polémica a rodos.

Y:
Yes, they can.
São portugueses e estão no estrangeiro. José Mourinho: sempre, indiscutivelmente e como expoente máximo. O mais conhecido treinador português venceu, com o Inter, a Liga dos Campeões, quarenta e cinco anos depois da última conquista europeia do clube nerazzurro, conseguindo chegar ao pentacampeonato e à Taça de Itália. Além dele, também outros dois treinadores triunfaram: Nelo Vingada sagrou-se campeão na Coreia do Sul, ao serviço do FC Seul, e Álvaro Magalhães, em Angola, levou o Interclube de Luanda ao título. Simão Sabrosa e Tiago, no Atlético de Madrid, venceram a Liga Europa, enquanto jogadores como Bosingwa, Paulo Ferreira e Hilário (Chelsea) ou Danny, Bruno Alves e Fernando Meira (Zenit de São Petersburgo) se sagraram campeões nacionais em Inglaterra e Rússia, respectivamente.

Z: Zero.
O FC Porto terminou 2010 sem derrotas pós-dia 21 de Março, altura em que, no Algarve, foi vencido pelo Benfica. O dragão, contando vinte e três vitórias e três empates, tornou-se a única equipa europeia a chegar ao Natal sem qualquer jogo perdido. Demonstra, na perfeição, a forma como o FC Porto, desde que André Villas Boas chegou ao comando técnico, no Verão, deu seguimento à excelente recta final da temporada anterior, com dez vitórias consecutivas nos últimos tempos de Jesualdo Ferreira, ganhou pontos, credibilizou-se para a época 2010-11, agarrou-se ao topo no campeonato português, cavalgou na Liga Europa e garantiu, com relativa comodidade, um lugar nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Sem derrotas. Ficou por isso, nas palavras de André Villas Boas, com a cabeça a prémio. Até quando?...

NOTA: Como se percebe, neste artigo, não se considera o FC Porto-Nacional, a primeira derrota azul, por já ter acontecido em... 2011.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2010 futebolístico de A a Z - Primeira Parte

DE ANDRÉS INIESTA A MOURINHO

A: Andrés Iniesta.

Aprimorado. Com passada elegante, fino recorte e cabeça erguida. Bola nos pés, cérebro em funcionamento apressado, mil e uma ideias, controlo total, tentativa de colocar a bola num determinado lugar, acção e já está. A mente e o corpo interligam-se, Iniesta executa, os companheiros movem-se, a equipa trabalha, carbura, desenvolve, galga terreno. É esse no Barcelona e na selecção espanhola. Em 2010, Iniesta esteve lesionado grande parte da época, sim, mas regressou em grande: foi o centro do Barça triturador em Espanha e o autor do golo que deu, pela primeira vez na História, um título mundial aos espanhóis. Está na pole-position para receber a Bola de Ouro. Com Xavi e Messi na concorrência. São os dinamizadores do tiki-taka.

B: Benfica.
Um gigante. Adormecido. Preso ao passado, superado, caído em desgraça. Vivendo sem títulos, sem alimento, sem a grandeza de outrora. Cansado de falhanços sucessivos, repetindo erros, alimentando promessas e sempre terminando desiludido. Mudou em 2010. Jorge Jesus chegou com audácia, moral, confiança em alta. Prometeu uma equipa a jogar o dobro, elevando a fasquia, rompendo com o passado recente e destruindo as pretensões dos adversários, sobretudo do pentacampeonato do FC Porto. Até Maio, altura em que conquistou o trigésimo segundo título do seu historial, o Benfica foi a melhor equipa portuguesa, roçou a perfeição, apresentou-se como um rolo compressor e destruidor. Foi campeão. Até Maio foi mágico.

C: Campeonato do Mundo.
Em África do Sul. Com problemas, sim, principalmente ao nível de segurança e de estruturação, mas organizado com paixão, genuína e pura, de um povo humilde e radiante por ver as maiores estrelas do futebol mundial junto de si. África do Sul começou por dar sinais de impreparação e terminou com uma certeza: mereceu organizar um evento assim, realizou-se, viveu nas nuvens e, mesmo que tenha sido somente por um mês, foi o centro do Mundo. Trabalhou para superar as dificuldades, entregou-se para tapar as brechas e esforçou-se para ser recompensada. Deu o seu melhor. E foi bem-sucedida. África do Sul assistiu à coroação da Espanha, ao regresso de Diego Armando Maradona aos grandes palcos, à força demolidora da Alemanha.

D: Deixem-me sonhar.
José Torres partiu em 2010. Deixou obra feita. E uma frase marcante, intemporal e profunda, proferida em 1986, antes da partida para o México, no regresso de Portugal aos Mundiais: deixem-me sonhar. Apenas sonhar, acreditar, confiar, tentar. Deixar-se levar, entregar-se ao destino, abrindo horizontes. Domingos Paciência, treinador do sensacional Sp.Braga que conseguiu em 2010 chegar mais alto do que nunca, repetiu a frase a cada dia, a cada treino, a cada conversa, a cada jogo. A sua equipa sonhou, batalhou, porfiou e surpreendeu. Não estabeleceu um objectivo, não se colocou em bicos de pés, apenas acreditou. O Sp.Braga foi vice-campeão, entrou de forma brilhante na Liga dos Campeões e lutou. Teve o seu ano de ouro.

E: Espanha.
Vicente del Bosque, Don Vicente, herdou uma selecção campeã da Europa. Espanha tivera sucesso. Restava dar continuidade ao trabalho desenvolvido. Não mudando no que estava bem, não rompendo com um passado recente vitorioso nem, muito menos, alterando a forma da equipa se apresentar. Ao mesmo tempo, o Barcelona, o carrossel de futebol construído e alimentado por Pep Guardiola, emerge, surpreende, quebra recordes, ultrapassa barreiras, torna-se um monstro cada vez maior e destrói, massacra, asfixia. Tem uma base sólida, tem cultura, tem um leque vasto de espanhóis. A selecção só pode beneficiar. O tiki-taka de Xavi e Iniesta é transportado para La Roja. O título mundial, pela forma como se apresentou, assenta como uma luva.

F: Futebol total.
Abaixo, leitor, na próxima letra destacam-se dois dos principais jogos do ano: o FC Porto-Benfica e o Barcelona-Real Madrid, dois duelos de titãs, dois duelos pelo título, ambos ganhos por cinco-zero, um resultado esmagador e massacrante. Houve, contudo, mais jogos importantes, marcantes, simbólicos no decorrer de 2010. No campeonato português jogaram-se, por exemplo, o Benfica-Rio Ave, que devolveu o título aos encarnados cinco anos depois, e o FC Porto-Sp.Braga, vivo e intenso do princípio ao fim, num teste de fogo ao dragão. Também o jogo da selecção nacional contra a Espanha, vencido por quatro-zero, ou o brilharete do Sp.Braga em Sevilha e, em casa, ante o Arsenal. Sem esquecer, internacionalmente, os duelos do Inter com o Chelsea e o Barcelona, que guiaram os italianos ao título europeu, ante o Bayern.

G: Goleada.
Cinco-zero. Resultado gordo, pesado, inusitado. Ainda mais raro quando se defrontam duas equipas poderosas, ambiciosas, que discutem o topo, colam os olhos no primeiro lugar e não admitem nada mais do que ser campeão, uma, duas, muitas vezes para garantir a hegemonia internamente e serem a principal bandeira para o exterior. Aconteceu em Portugal e Espanha. O FC Porto está para o Barcelona como o Benfica está para o Real Madrid: os dois primeiros cresceram, subiram a pulso, ganharam a região e só depois alastraram o seu domínio, são equipas poderosas actualmente, enquanto os outros dois, de ascendência nobre e gloriosos em tempos idos, perderam fulgor. FC Porto e Barcelona destroçaram os rivais com cinco golpes. Sem misericórdia.

H: Hulk.
Incrível. Forte. Demolidor. Hulk encara o adversário, é veloz, arranca, destói, galga metros, alia uma potência descomunal a uma técnica que o faz saltar para o pedestal do campeonato. Viveu, em 2010, momentos diferentes. Desceu às trevas por ter sido castigado devido às ocorrências no túnel da Luz, depois do Benfica-FC Porto da temporada passada, sendo marcado como jogador violento, mau perdedor, afastado, a par de Sapunaru, da competição. Regressou em Março, depois de uma decisão que anulou os quatro meses de castigo decretados, com um novo espírito: menos individualista, mais sóbrio, mais calmo, melhor do que nunca. Precisamente aí iniciou-se o ciclo dourado do FC Porto. Hulk é o maior destaque deste campeonato.

I: Internazionale Milano.
Tetracampeão italiano, taças e supertaças pelo meio, reinado incontestado em Itália, domínio a toda a prova, demonstração de força sem parelelo internamente. Será, à partida, o desejado por qualquer clube. Ao Inter nunca desapareceu a sensação de saber a pouco. Ganhava fácil em Itália, sim, mas faltava afirmar-se na Europa. Chegar longe, ultrapassar a maldição dos oitavos-de-final, sonhar com a final e repetir o êxito de Helenio Herrera, há já quarenta e cinco anos, assumindo o título de campeão europeu. O Inter jogou à italiana, abusou do pragmatismo, levou os seus princípios ao limite, não teve pejo em defender ou em cortar a inspiração dos adversários. Foi guiado por Mourinho. E teve Sneijder, Milito, Cambiasso ou Zanetti. Uma equipa.

J: Jorge Jesus.
Discurso simples, assertivo, frontal: esta equipa, comigo, vai jogar o dobro. Soou a arrogância, a demagogia, a propaganda. Os benfiquistas aplaudiram mas desconfiaram: gostaram de ouvir o novo treinador arrancar com palavras fortes, prometendo mudanças na postura e no destino dos títulos, embora, por outro lado, tenham sentido que o discurso se repetira porque mais uma vez o Benfica terminara a época - excepção feita à Taça da Liga - sem glória. Jesus cumpriu: transformou o Benfica numa máquina futebolística, colocou as peças nos seus devidos lugares, ressuscitou o inferno benfiquista e relançou os encarnados para o topo. Foi campeão, ganhou a Taça da Liga e chegou longe na Liga Europa. Jorge Jesus pode ter perdido o estado de graça, sim, mas não o estatuto de obreiro do título encarnado.

K:
Kick and rush.
Uma bola, um pontapé, uma corrida e uma sorte. O futebol português, leitor, assemelha-se, muitas vezes, a isto. Verifica-se, sobretudo, nas equipas de menor dimensão, especialmente quando defrontam os grandes, sabendo, à partida, que as probabilidades de sucesso são reduzidas. Desligam-se da qualidade apresentada, dos princípios de jogo, assumem uma postura defensiva, por vezes exacerbada, correndo em busca de um ponto, de algo palpável, dos mínimos. Refreiam a ambição de vencer e fixam-se apenas em sobreviver. São realistas, até em demasia, pois prescindem de lutar. Usam as suas armas. Por vezes resulta. Sente-se, contudo, na forma como os adeptos de distanciam. Ninguém gosta de ver um jogo transformado num monólogo.

L: Liderança.
Os três principais clubes portugueses, os grandes, têm modelos de liderança bem distintos. O FC Porto, demolidor e hegemónico na última vintena e meia de anos, tem em Pinto da Costa uma figura carismática, consensual, intocável. O dragão perdeu o campeonato. O presidente, com total confiança do povo portista, alterou, traçou novos planos, com os objectivos de sempre e arrancou fortíssimo rumo à nova temporada, visando impedir o bicampeonato do Benfica. O clube encarnado viveu, até Maio de 2010, o melhor período do reinado de Luís Filipe Vieira, vendeu duas peças importantes, não as colmatou da melhor forma e tropeçou decisivamente na primeira parte da nova época. No Sporting, José Eduardo Bettencourt está ligado ao pesadelo leonino: sem títulos, sem chama, sem recursos económicos. O passivo dos três é elevadíssimo.

M: Mourinho.
Corrida louca, braços no ar, punho cerrado, ar superior, elegante e forte, com o indicador colado na boca: ganhei, acabou, acabei por cima. O fim de Mourinho à frente do Inter chegou com a conquista da Liga dos Campeões. Pode parecer paradoxal, leitor, mas é bem simples. Voltar, quase meio século depois, a ser campeão europeu era o objectivo nerazzurro. Foi conseguido. Ponto final. O objectivo de Mourinho cumpriu-se, o ciclo fechou-se, com muitas guerras e polémicas pelo meio, conquistando, em dois anos, uma Liga dos Campeões, duas supertaças, uma taça e dois campeonatos. Mourinho chegou a Espanha. Um desafio maior do que nunca, em Madrid, para potencializar todos os recursos do Real, bater o Barcelona e voltar a tocar o céu.

NOTA: A segunda parte será publicada nas próximas horas.