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sábado, 16 de outubro de 2010

Benfica-FC Porto: Guerra Fria

Guerra Fria. Dois blocos. Cenário bélico, aliados em ambas as partes, movimentos de ataque, tentativa de domínio e controlo absoluto das operações existentes. FC Porto de um lado, Benfica do outro: críticas, guerrilhas, justificações, intimidações e confronto. Estão sempre distantes, separados, situam-se em extremos opostos. Qualquer um deles luta por ser campeão nacional. Mas não só: querem ser o principal emblema português, o maior representante do país, alargar a área de influência e tornar-se hegemónico, ganhando, não uma, muitas vezes. Falam em tréguas, em paz, tentam uma espécie de pacto de não-agressão e colocam as preocupações principais, dentro do relvado, acima de tudo. É um bom começo. Só que nunca passa da teoria. São palavras ocas. É impossível uma aproximação. O clima entre portistas e benfiquistas é cada vez mais hostil, mais violento, mais perigoso. Ultrapassou o limiar desportivo.

O próximo embate entre FC Porto e Benfica está marcado para o dia sete de Novembro. Exactamente três meses depois do arranque: em Aveiro, na Supertaça Cândido de Oliveira, o dragão ganhou, aumentou a confiança, aproveitou o abuso de altivez benfiquista, surpreendeu o campeão e iniciou a temporada com o pé direito. O objectivo máximo de ambos é sempre o campeonato. É nele que se empenham, por isso que correm, onde têm uma longa guerra recheada de barreiras e dificuldades para vencer ao rival. Querem ganhar, alimentar o ego e bater forte no adversário. O futebol português está cada vez mais minado de conflitos, de provocações, de jogadas de antecipação que pretendem preparar a batalha com segurança e certificar, ao mesmo tempo, que não há espaço para surpresas. Benfica e FC Porto tentam estar sempre um passo à frente um do outro. O mote é dado pelo dirigentes, levado pelos intervenientes directos e exacerbado pelos adeptos.

O Benfica, depois de ter visto o seu autocarro apedrejado quando se deslocava para Guimarães, por entre as medidas radicais que tomou, pretendeu reforçar as condições de segurança de toda a sua comitiva quando se deslocasse ao Norte do país. É legítimo, natural e compreensível. Infelizmente, contudo, as cenas de violência, com apedrejamentos, insultos ou outro tipo de intimidação, sobretudo nos adeptos organizados em claques mas também alastrada aos próprios jogadores, é algo que acontece com inusitada regularidade. E chega, até, a parecer algo comum. Um confronto - sim, confronto: marcar a palavra a negrito - entre Benfica e FC Porto tem, desde há vários anos, conflitos. Passa pelo rebentamento de petardos, por cânticos ofensivos, por recepções hostis, por lançamento de pedras. No Dragão ou na Luz. Em qualquer um dos lados da barricada. Porque se trata de uma guerra. O mal, leitor, está precisamente neste último ponto: a forma como é encarado o jogo.

O futebol tem diversas faces: a essência, com os passes de letra, as jogadas encantadoras e os toques de calcanhar ou, por outro lado, a forma como é visto: não há adversários, há inimigos; não há um relvado, há um campo de batalha; não há um jogo, há uma luta. E parece valer tudo. O problema é simples, é uma questão cultural, de mentalidade, onde é necessário ganhar seja por que meio for. Benfica e FC Porto agridem-se mutuamente, há muito têm relações cortadas, aproveitam todos os momentos para atacar o rival, para o pressionar e desestabilizar, de forma directa ou indirecta, numa verdadeira Guerra Fria. Pinto da Costa recupera o passado, Luís Filipe Vieira clama por paz mas critica André Villas Boas, o treinador portista responde na mesma moeda. É um ciclo vicioso, sem fim, mantido por todos, porque, no fundo, interessa viver num clima hostil. O choque aproxima-se. Alguém se lembra do que se passará no relvado?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O novo líder do Real Madrid

José Mourinho foi apresentado no Real Madrid. Foi a confirmação de uma contratação anunciada - quase como a morte do pobre Santiago Nasar para Gabriel García Márquez. Os merengues, impulsionados pela empreendedorismo de Florentino Pérez, necessitavam urgentemente de um treinador à medida do seu plantel. Manuel Pellegrini, o chileno escolhido na primeira época após o regresso de Pérez depois da recusa de Arsène Wenger, é um bom treinador mas cedo se percebeu que teria grandíssimas dificuldades para lidar com tantos jogadores de topo mundial. Depois de uma época em branco, veradeiramente fracassada a toda a linha, o Real Madrid precisa de vencer. É um desafio arriscado, melindroso, arrojado. Bem à medida de José Mourinho. Assenta-lhe como uma luva: quer arrasar noutro país para completar o Grand Slam.

Chegar. Respirar fundo e encarar um batalhão de fotógrafos e jornalistas. Congestionamento, paragem, inúmeras imagens para guardar o momento. Mourinho está no Santiago Bernabéu para ser apresentado. É mesmo preciso? "Sou o José Mourinho e não vou mudar". Nem outra coisa seria de esperar. Mourinho, para ganhar em Madrid, precisa de ser igual a si próprio. Trabalhando nos limites, motivando os seus, procurando retirar força aos adversários, tudo para colocar o clube primeiro do que Ronaldo, Kaká, Benzema, Casillas ou Raúl. O colectivo é o principal. As individualidades, ainda para mais as que o Real Madrid possui, são fundamentais. Contudo, para Mourinho, sempre foi a equipa a demonstrar a sua força. O Internazionale é o caso mais gritante de como o colectivo, se unido e consistente, consegue superar algumas brechas.

Juntar os melhores pode, por vezes, revelar-se um incómodo. É uma visão algo paradoxal, sim, mas realista. Numa equipa de futebol é, pode-se dizê-lo, normal. Mourinho aparece como elemento capaz de conter todos os egos, sabendo lidar com as frustrações e os estados de alma de cada jogador do seu plantel. Pelas suas características enquanto treinador na sua vertente de psicólogo, onde também é realmente bom naquilo que faz, Mou não deixará, por certo, que qualquer jogador ouse interferir nas suas acções. O mesmo se alarga, obviamente, à estrutura do Real Madrid, pois já ficou bem vincado, pelo técnico português, que ninguém, para além dele, tomará decisões relativamente à equipa e ao plano de jogo. O aviso ficou no ar, sobretudo para Jorge Valdano. Tal como fizera, em Londres, com Roman Abramovich. Mourinho gosta de ser o líder. Só assim sabe trabalhar. Agora, em Madrid, é ele o líder do Real.

PS: Anunciada é, também, a contratação de André Villas Boas, ainda treinador da Académica, para substituir, no comando técnico do FC Porto, Jesualdo Ferreira. O anúncio, porém, tarda em ser feito. O facto de ainda não ter sido confirmado oficialmente o acordo com Villas Boas, algo que leva a uma especulação pouco habitual em torno das opções de Pinto da Costa, pode indicar a possibilidade de um volte-face que fará os portistas mudarem de planos. Seja como for, não se percebe porque se mantém um assunto tabu: André Villas Boas tem tudo certo para ser o novo treinador do FC Porto. É um risco de Pinto da Costa. Falta assumi-lo.

domingo, 11 de abril de 2010

O que une Rentería, Ernesto Farías e Xavi Hernández?

Em Braga ninguém pensa guardar o segundo lugar. O objectivo é atacar o primeiro. Nem poderia ser de outra forma: esta é a melhor época de sempre dos bracarenses, nada o apagará, mas a coroação somente poderá chegar com a conquista do título. É a oportunidade de uma vida. Não há, por isso, forma de a descartar. É difícil, claro que sim, mas mantém-se possível. A ambição do Sp.Braga passa por vencer os seus jogos. Ora, se o fizer, para além de manter a perseguição ao Benfica, segura o segundo lugar. Não há risco de ser traído pela gula, uma coisa leva à outra. Wason Rentería chegou ao Sp.Braga, cedido pelo FC Porto, na reabertura do mercado. Nos últimos dois jogos, ante Vitória de Guimarães e União de Leiria, foi decisivo. Com os vimaranenses, ganhou duas grandes penalidades; com os leirienses, marcou o segundo golo, o da vitória, concluindo a reviravolta minhota. E, assim, os portistas continuam atrás. É irónico.

O FC Porto fez um jogo fraco em Vila do Conde. Não teve dinâmica, perdeu capacidade de imprimir velocidade, nunca conseguiu assumir-se superior e fazer tremer a defesa contrária. Sentiu imensas dificuldades para não se deixar manientar pelo Rio Ave, escaldado pelas últimas duas goleadas. Duas derrotas por cinco golos, com Olhanense e Sporting, afectam e Carlos Brito sentiu necessidade de tomar cautelas. Montou uma teia. E, com isso, o jogo enrolado, pouco claro e excessivamente trapalhão prolongou-se. Jesualdo Ferreira chamou Ernesto Farías. Desde 16 de Janeiro, quando defrontou o Paços de Ferreira, o argentino não era utilizado. Pelo meio esteve quase no Cruzeiro, num negócio abortado que traria Kléber para Portugal, mais tarde quase rumou ao Palmeiras. Faltou o quase. Ficou no Porto. Ante o Rio Ave, El Tecla decidiu. Poucos minutos em campo, um golo de cabeça. E alimentou a esperança azul nos milhões.

Um país parado em frente à televisão, estádio cheio como um ovo, duelo de titãs na luta pelo título. Real Madrid e Barcelona, o jogo do campeonato espanhol. Duelo entre Messi e Ronaldo, também. Seria quase obrigatório assim o considerar: são os dois melhores do mundo, movem multidões, encantam quem os vê jogar. O argentino lidera um carrossel mágico e vencedor, o português é a estrela mais brilhante da constelação madrilista. O Barcelona ganhou, foi superior em toda a linha, mostrou a sua força. Messi e Pedro Rodríguez cravaram a vantagem. La Pulga ganhou a Ronaldo, portanto. Mas foi Xavi quem maior influência teve. O espanhol vive na sombra, é um operário de tremenda classe, tem uma importância brutal. O Barcelona teve quatro oportunidades de golo feito. Duas entraram, outras duas foram paradas por Casillas. Xavi fez os passes. Letais, sublimes, categóricos. Sabe o que une os três jogadores, leitor? A ironia.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O regresso ao túnel e a um futebol sem rei nem roque

O futebol português é uma verdadeira Caixa de Pandora. Surpreende a cada momento, alastra o espanto, faz com que os adeptos se interroguem sobre o seu real valor. Um dos principais problemas estruturais do nosso futebol passa, necessariamente, pela sua justiça. O túnel da Luz, nas bocas do Mundo desde Dezembro, aquando do Benfica-FC Porto, um caso que ganhou proporções gigantescas, é um exemplo perfeito do mau funcionamento da justiça desportiva em Portugal. Na celeridade e, mais importante do que tudo, na aplicação dos regulamentos. Como resquícios dos incidentes ocorridos no final do clássico entre águias e dragões, após terem sido provadas as agressões a stewards, Hulk e Sapunaru foram castigados, ficando, respectivamente, quatro e seis meses fora dos relvados nas competições internas. Nada de novo até aqui.

Na justificação apresentada para as sanções aplicadas, Ricardo Costa, presidente da Comissão Disciplinar da Liga, órgão responsável pelas medidas, referiu que os dois jogadores do FC Porto haviam agredido agentes de recinto desportivo, incorrendo por isso numa moldura penal situada entre seis meses e três anos de suspensão. No entanto, como as provocações dos membros da empresa de segurança (Prosegur) contratada pelo Benfica tinham ficado provadas, a pena diminuiu para metade, ou seja, de três meses a ano e meio. Assim se explica a razão para Hulk e Sapunaru terem sido punidos com tais sanções. Levanta-se, contudo, uma questão fundamental: serão os stewards intervenientes no jogo, tal como entendeu a Comissão Disciplinar? O FC Porto recorreu para o Conselho de Justiça da FPF, afirmando que não poderão ser assim considerados.

A primeira decisão de castigar os jogadores portistas fora conhecida a 19 de Fevereiro. Mais de um mês depois, o Conselho de Justiça decidiu alterar as penas aplicadas aos dois jogadores portistas... de forma drástica. Os castigos de Hulk e Sapunaru, inicialmente de quatro e seis meses, foram reduzidos para três e quatro... jogos - desde que foram suspensos preventivamente, o FC Porto realizou dezoito partidas oficiais, exceptuando a Liga dos Campeões, onde os jogadores, como aconteceu com Hulk frente ao Arsenal, poderiam ser utilizados. De acordo com o que tem sido veiculado, a decisão assentou num facto essencial: a forma como ambos os organismos interpretaram os regulamentos e, consequentemente, o estatuto que atribuíram os stewards. De acordo com um comunicado do FC Porto, o Conselho de Justiça entende que os agentes da segurança são considerados público, não intervenientes.

O que mais ressalta de tudo isto é a tamanha disparidade entre as decisões tomadas. É brutal reduzir de quatro e seis meses para três e quatro jogos. Num efeito bola de neve, após o Conselho de Justiça reprovar as medidas aplicadas em primeira instância pela Comissão Disciplinar, Hermínio Loureiro renunciou ao cargo de presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Hermínio já anunciara que não se recandidataria a um novo mandato, abandonando a presidência em Junho. No entanto, a tomada de posição por parte do Conselho de Justiça da FPF levou a que o até hoje presidente da Liga apresentasse a sua demissão imediatamente. Justificada ou não, é somente a confirmação de que o futebol português vive necessitado de estruturas fortes, capazes de uma liderança forte, aplicando de forma célere e indubitável os regulamentos. A polémica, essa, continua dentro de momentos!...

Claques: o negro reverso da medalha

As claques são importantíssimas num jogo de futebol: pela forma como apoiam, dão cor ao espectáculo nas bancadas, impelindo uma força especial para o relvado, fundamental para os jogadores. Fazem uma cobrança elevada e, por isso, contribuem para que a equipa seja obrigada a dar sempre o seu melhor, sem contemplações para falhanços. Mas, como em tudo, há o reverso da medalha. Um lado escuro, violento, de fanatismo levado ao extremo, ultrapassando os limites da razão, que faz entrar num verdadeiro clima terror, algo que funciona para afastar o público dos estádios. Deverão existir opinião contrárias, amores próprios e adversários. Não inimigos que sejam motivo de ódio e devam abatidos a qualquer custo. Os troféus conquistam-se dentro das quatro linhas. Nunca do lado de fora. A segurança é essencial para o adepto.

Num curto espaço de tempo, em Alvalade e no Algarve, houve conflitos motivados por claques. No jogo de quinta-feira entre o Sporting e o Atlético de Madrid, adeptos de ambos os clubes envolveram-se em confrontos numa chuva de pedras e tochas, obrigando a polícia a agir com tiros para o ar. Resultado: dez agentes da PSP, pelo menos, ficaram feridos. O mote havia sido dado, inexplicavelmente, por Miguel Salema Garção, team-manager dos leões: o Atlético deve ser recebido com hostilidade. Não se pretende, obviamente, atribuir todas as culpas do que aconteceu ao dirigente sportinguista. Contudo, deveria - ainda para mais em alguém que ocupa uma posição importante - ter tido maior prudência nas afirmações. A ideia terá passado por uma pressão constante ao adversário durante os noventa minutos. Nunca antes ou depois.

Não é, todavia, a primeira vez que um grupo organizado de adeptos do Atlético de Madrid cria problemas em Portugal. Na temporada anterior, aquando da visita ao Dragão, para a segunda mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, os ultras do Atlético apedrejaram um autocarro de adeptos portistas, desencadeando confrontos entre portugueses e espanhóis. Num clima de pânico de quem nada percebia o que ali se passava, as forças policiais, com maior ou menor dificuldade, conseguiram resolver a situação. No entanto, tal como agora em Alvalade, apenas o fizeram por reacção. Não se haviam prevenido de forma conveniente, conseguindo ter controlo sob as tentativas (porque as há sempre...) de provocar o rival. Feridos, detidos, um cenário de guerra que em nada se enquadra. É isso que queremos no futebol?

Em Portugal, a rivalidade entre portistas e benfiquistas ultrapassa qualquer outra. No Algarve, para a final da Taça da Liga, a GNR de Faro preparou o maior acompanhamento policial de que há memória. A estratégia estava bem delineada, tudo pronto para que as claques não se cruzassem, não havendo por isso hipótese de conflitualidade. No entanto, o plano falhou. Os adeptos do FC Porto chegaram trazendo um rastilho pronto a explodir, insultando os rivais, lançando pedras, levando a polícia a recorrer a tiros de borracha. Já antes, no caminho para o Algarve, tinham existido distúrbios entre adeptos de ambos os clubes. A festa da final ficou, à partida, manchada pela violência, e continuou já no interior do estádio com o lançamento de tochas e cadeiras para o relvado. Tudo por puro divertimento, numa lógica de lei da selva.

Para erradicar definitivamente estas situações do futebol é necessária uma tomada de posição forte por parte dos organismos directivos. Não basta condenar ou repudiar o que se passou, importa essencialmente impedir que se repitam e alastrem. A tal importância que as claques têm para o apoio às suas equipas, o lado positivo, fica afundado em tão graves incidentes. Pior do que isso parece ser o facto de não existirem, ainda, medidas preventivas capazes de pôr cobro a estes actos de vandalismo, sem que isso coloque em causa o bem-estar de quem se desloca ao estádio para ver um jogo de futebol e, naturalmente, dar o seu apoio ao clube. Terão, também, de ser os dirigentes a dar o exemplo, mostrando cordialidade, respeito e fair-play para com os adversários. Para que o futebol seja um espectáculo. Não uma guerra.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Não queiram explicar o futebol!

Já tentei entender se havia alguma lógica no futebol, mas desisti. Já tentei fazer prognósticos, mas também desisti. Tentei, ainda, compreender determinados resultados e, sim, mais uma vez levantei a bandeirinha branca em sinal de rendição. O futebol é inexplicável, surpreendente, não há teorias que resistam, um jogo é capaz de contrariar qualquer ideia que se tenha formado, não vale a pena querer torná-lo numa ciência que obedeça a determinadas premissas. Acho que o leitor concordará comigo: o melhor é não fazer apostas a longo prazo. Daí que tenha tanto encanto. Recuo até 20 de Fevereiro de 2010, após o Olhanense-Sporting, e penso: "Quinta-feira, com o Everton, não vai haver hipóteses". Eu e mais uns milhões, acredito.

Aquela equipa apática, desnorteada e anárquica não poderia sair bem do jogo com os ingleses que, mesmo não sendo nenhum papão, são uma equipa de qualidade e têm feito uma época em crescendo. A minha ideia intensificara-se com a vitória do Everton sobre o Manchester United, categórica, depois de terem quebrado o Chelsea. Quinta-feira, dia 25: o Sporting vence por 3-0, faz a melhor exibição da temporada, junta ao bom futebol apresentado uma matreirice desconhecida, atributos que lhe valeram o triunfo. Carlos Carvalhal mudou a equipa, alterou-a ao longo do jogo, ganhou ambas as apostas. Tudo correu como os leões queriam. Eliminatória passada, confiança descomunal para o jogo seguinte, com o FC Porto, ganha no pior momento da temporada, ao cabo de sete encontros sem vencer. Quando se menos se esperava.

É futebol. Não o queiram explicar! Estou, agora, no dia 21 de Fevereiro de 2010, antes do FC Porto-Sp.Braga, um jogo escaldante no Dragão. Em caso de derrota, os portistas dizem adeus ao título, o Sp.Braga aumenta a confiança e recupera o trono isolado que o Benfica-União de Leiria, antecipado, lhe tirara; em caso de vitória azul, a luta mantém-se a três, mas fica o Benfica, para sempre inimigo, no primeiro lugar. Um dilema, portanto. Passemos os noventa minutos à frente, temos estas conclusões: vitória inequívoca do FC Porto, exibição de gala, uma avalancha de futebol ofensivo, cinco golos marcados à melhor defesa do campeonato, esperanças minhotas reduzidas a cinzas. Não poderia haver melhor resposta do campeão, prestação cheia de força e excelente eficácia para abrilhantar o resultado.

Passo para o dia 28 de Fevereiro, último de um mês louco para os clubes portugueses, intenso e decisivo, clássico entre Sporting e FC Porto. Duas equipas motivadas, favoritismo repartido. Sim, o jogo com o Everton foi a pedra de toque para ter mudado o panorama, antes todas as fichas seriam apostadas nos dragões, ainda para mais após a vitória sobre o Sp.Braga, o ponto máximo da recuperação azul. Mas o leão estava, agora, fortalecido. Ao fim de noventa minutos de puro entretenimento leonino e de um apagão generalizado nos portistas, uma equipa inofensiva e à deriva nos seus equívocos, não me restam dúvidas: o futebol é uma caixinha de surpresas. Os papéis, numa semana, inverteram-se: o Sporting ganhou por 3-0 a dois adversários teoricamente com mais hipóteses de vitória e o FC Porto deixou o pentacampeonato como uma miragem, bem longe do horizonte, numa exibição péssima.

Regresso ao dia de hoje, 7 de Março. O FC Porto empatou ontem com o Olhanense, com um golo marcado no último suspiro, após ter dado dois de avanço ao adversário. A pequena luz da crença do título, a única coisa que restara de Alvalade, apagou-se e, para além disso, o campeão ficou com o lugar de acesso à Liga dos Campeões longe. Só não ficou ainda mais distante da segunda posição, porque o Sp.Braga também escorregou: em Setúbal, tal como o Benfica, não conseguiu mais do que um empate. Hoje, os benfiquistas têm a palavra. Em caso de vitória sobre o Paços de Ferreira, ficam com três pontos de vantagem para os minhotos (que ainda defrontarão daqui a duas jornadas e, neste momento, perdem no confronto directo) e onze sobre o FC Porto. Apostas para o que aí vem? Não, obrigado!

PS: Não, não me esqueço, leitor, de um texto recente: "As garras do leãozinho?". Enganei-me. O senhor leão voltou contra o Everton e contra o FC Porto, ainda é capaz de nos supreender positivamente. O futebol atraiçoa, lá está...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dois meses até aparecer a luz no túnel

A luz ao fundo do túnel, por fim. Foram anunciadas, hoje, as consequências dos incidentes ocorridos no final do Benfica-FC Porto, a 20 de Dezembro: Hulk foi castigado com quatro meses de suspensão, Sapunaru com seis meses e o Benfica multado em mil e quinhentos euros por actuação provocatória dos stewards. Ora, esta acção dos elementos da empresa de segurança contratada pelo clube encarnado foi, nas palavras de Ricardo Costa, presidente da Comissão Disciplinar da Liga, uma atenuante que permitiu reduzir as penas a aplicar aos jogadores do FC Porto - a moldura penal variava entre seis meses e três anos, mas, devido a esta situação, foi reduzida para metade. Conforme adiantou Ricardo Costa, o Benfica é penalizado por não ter sido mantida a ordem no caminho para os balneários.

Com suporte nas provas testemunhais recolhidas, o relatório dos delegados do jogo, da equipa de arbitragem e das forças policiais, ouvidos na fase de instrução do processo, a Comissão Disciplinar aplicou os castigos, dentro da moldura penal, que lhe pareceram justificados pelos indícios recolhidos. Não há, por isso, qualquer discussão relativamente a esse tema: o inquérito foi instaurado, as testemunhas ouvidas, lidos os relatórios e foram tomadas estas decisões penalizadoras. Levanta-se, contudo, um problema: o atraso para serem conhecidas as sanções a aplicar. Segundo um cronograma anexado ao acórdão da Comissão Disciplinar, o processo foi entregue ao seu instrutor no dia 23 de Dezembro. Os castigos conhecidos a 19 de Fevereiro.

Num processo tão importante quanto esta, para o clube, mas, acima de tudo, para os futebolistas profissionais indicados, a decisão tem que ser tomada e conhecida o quanto antes. Suspensos preventivamente até ao final do inquérito, os jogadores ficaram impedidos de dar o seu contributo à equipa - algo previsto nos regulamentos, o maior problema de toda a questão. O tempo passou, a fase de instrução manteve-se, tardaram em ser conhecidas as decisões. Apenas hoje a Comissão Disciplinar as anunciou. Diz Ricardo Costa que se tratou de uma decisão célere. Não foi, obviamente. Dois meses, com doze jogos pelo meio, é demasiado tempo para deliberar castigar quem quer que seja. A justiça desportiva, à semelhança do sucedido após o Sp.Braga-Benfica, foi pouco lesta na sua acção.

O tempo em que esteve suspenso, sem saber o resultado da averiguação disciplinar, corresponde a metade do castigo aplicado a Hulk. É fundamental, a bem da credibilização do futebol, que a justiça seja rápida a agir. Os jogadores, profissionais de futebol, não poderiam ter estado tanto tempo neste impasse. Este caso do túnel é, indiscutivelmente, o expoente máximo de uma época marcada por inúmera polémica. E poderá não estar terminado, já que o FC Porto tem, ainda, a possibilidade de recorrer para o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, na esperança de ver mudada a sanção aos seus atletas - sobretudo a Hulk, uma vez que Sapunaru foi emprestado, até final da temporada, ao Rapid de Bucareste.
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