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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O renovado Benfica que joga mais do que o dobro

Vamos jogar o dobro da época passada e, se calhar, ainda é pouco. A frase é de Jorge Jesus, no seu primeiro dia no Benfica. Para um treinador que apenas ali se apresentava, poderá parecer demasiado descomplexada e até a puxar para o narcisismo. Não se pense, no entanto, que é alguma espécie de tique por estar num clube de topo nacional. A personalidade do técnico encarnado é assim mesmo. Jesus não tem qualquer problema em exaltar os seus feitos e fala sempre na primeira pessoa. Também no discurso dirigido aos benfiquistas foi diferente: a maioria dos treinadores prometeria trabalho e máximo empenho, ele prometeu títulos e espectáculo.

Na altura, as reacções dividiram-se. Como seria de esperar, a maioria dos adeptos do Benfica gostou da mostra de confiança. Contudo, os receios mantiveram-se em muitos: promessas de sucesso eram repetidas a cada ano sem que houvesse resultados práticos. A pré-época afigurou-se, então, como um primeiro teste às ideias do novo treinador e à reacção dos jogadores. Os resultados agradaram, as exibições ainda mais, o estágio culminou num Benfica cheio de confiança e com um nível de jogo acima daquilo que seria de esperar. O feedback existente entre massa associativa, equipa e técnico criou-se desde as primeiras sessões. Seria este o ano perfeito para quebrar o jejum do título nacional, pensaram os adeptos.

Cumpridas sete jornadas do campeonato português, três da Liga Europa e uma eliminatória da Taça de Portugal, o Benfica confirma os atributos que lhe eram apontados inicialmente. Aquilo que eram apenas bons sinais, passaram já a certezas. Evidentemente que ainda nada está ganho, nem é isso que se pretende dizer, pois haverá muito que jogar. Se será ou não o ano dourado para o Benfica, apenas no final se poderá ver. Seja como for, as palavras de Jorge Jesus - que a princípio pareceram exageradas - fazem, agora, todo o sentido: o Benfica está, de facto, a jogar muito futebol. É espectacular, é ofensivo, é super-finalizador. Vence e convence. Aimar, Di María, Saviola e Cardozo estão em maior destaque e são jogadores renovados. O Benfica está, também, renovado.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O mau discurso do Benfica

Não costuma ser bom quando dirigentes ou treinadores, ainda antes da época arrancar, prometem o céu e a Terra aos adeptos. Geralmente, são declarações que se cobram quando os resultados não aparecem e as promessas não passam disso mesmo. Certo, José Mourinho prometeu o título quando foi apresentado no FC Porto e cumpriu mas é um caso à parte, sem qualquer paralelo. Ora, um dos males do Benfica tem sido precisamente esse: o discurso, tão utilizado, de que esta época é que vai ser. Luís Filipe Vieira, sempre que as coisas correm bem, puxa dos galões. É aquilo a que se chama embandeirar em arco.

Vamos a um exemplo, ocorrido na temporada passada: com estes adeptos e esta equipa ninguém nos pára, afirmou o presidente como que a enaltecer o apoio manifestado. Nessa altura, o Benfica tinha a liderança do campeonato, deixara o FC Porto para trás e, pela primeira vez desde o título em 2005, parecia lançado para a glória. Porém, nada disso aconteceu como o leitor bem sabe. O treinador era Quique Flores, realista e racional, que nunca levantou os pés do chão. Nunca entrou na euforia que, a certa altura, se gerou. Aliás, foi o primeiro a acalmá-la. E, por isso, acusado de falta de ambição.

Esta época, com Jorge Jesus, o Benfica volta a começar mal. O discurso de apresentação do novo treinador mostrou ambição e a verdade é que os adeptos benfiquistas gostaram. Depois disso, numa entrevista, Luís Filipe Vieira adiantou sem rodeios que Jesus é o melhor treinador português. É um bom treinador, sem dúvida, mas obviamente que não é o melhor. Se, na temporada passada, Quique não entrava nesse jogo de palavras para convencer os adeptos, Jorge Jesus fá-lo. Ainda ontem, após o empate com os suíços do Sion no primeiro jogo de preparação: vai ser muito difícil travar esta equipa.

É certo e sabido que Jorge Jesus é assim, diz o que pensa. No entanto, agora que chegou a um grande clube e tem imensa pressão, não o pode fazer da mesma forma que fazia antes porque qualquer passo em falso ser-lhe-à cobrado. Os próprios benfiquistas ficam divididos: uns acreditam que é mesmo este ano que o clube chega ao título e motivam-se com estas declarações; outros ouvem, ano após ano, o mesmo discurso que não tem qualquer resultado. Jesus até pode ter razão, pode ser que venha a ser difícil parar o Benfica mas não o deve dizer. Isso apenas se verá no decorrer do campeonato. Para, no final, se fazerem as contas. Não agora.

sábado, 20 de junho de 2009

Os discursos de Quique a Jorge Jesus passando por Cajuda

A forma como um treinador consegue comunicar para o exterior é meio caminho andado para que tenha sucesso. Não se trata apenas de falar com a comunicação social mas também com os próprios adeptos, ou seja, tem de ser possível haver um entendimento das ideias. Não se quer com isto dizer que um treinador bem falante seja o melhor, nem por sombras. Existe o caso de Quique Flores: pessoa afável, bom comunicador como poucos mas que teve imensas dificuldades na sua passagem pelo Benfica. Foi sempre extremamente realista e cauteloso. Não teve sucesso e foi acusado de falta de ambição, algo compreensível pelo desconhecimento do futebol português.

Chegou, agora, Jorge Jesus para o substituir no comando técnico dos encarnados. Poucos duvidarão da sua competência e capacidade mas é bem sabido que o discurso, para ele, é um enorme handicap. Jesus não tem papas na língua, diz aquilo que pensa e, por vezes, chega a ser motivo de chacota. Não ficará bem, certamente, a um treinador do Benfica dizer que é "a Paula Rego do futebol" ou que determinada equipa jogou "muito poucochinho". Chegado a um clube grande, Jorge Jesus precisa de ser mais moderado nas suas palavras e na forma como faz passar a sua mensagem. Na sua apresentação oficial disse que, com ele, os jogadores "vão jogar o dobro e se calhar o dobro é pouco". Para os adeptos benfiquistas ficou uma imagem de ambição, de sede de vitórias. Porém, ao longo da época, as afirmações iniciais poderão vir a ser cobradas.

Manuel Cajuda é, sem dúvida, um tipo engraçado. Faz as suas análises de forma diferente, não gosta de ser politicamente correcto. Numa recente entrevista a um diário desportivo afirmou que tem orgulho em ser um "desalinhado". E é mesmo, de facto. Porém, essa mesma entrevista criou um enorme mal-estar junto do presidente do Vitória de Guimarães. Emílio Macedo da Silva mostrou-se "magoado" com o treinador e referiu que este "é apenas um funcionário e nada mais do que isso, portanto, não deve interferir nas decisões da Direcção". Manuel Cajuda havia dito que o clube perdera muito tempo nos tribunais, esquecendo a preparação da época, relembrando a batalha com o FC Porto pela presença na Liga dos Campeões da temporada anterior. Mesmo tendo razão, devido às palavras, a porta do castelo abriu-se para a saída do treinador algarvio. O tal discurso.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Desejado por uns, rejeitado por outros

Jorge Jesus foi, finalmente, apresentado como novo treinador do Benfica para as próximas duas épocas com mais uma de opção. O discurso foi o esperado para quem entra pela primeira vez num grande. Ladeado por Luís Filipe Vieira e Rui Costa, o técnico de 54 anos mostrou-se ambicioso dizendo que não vai desiludir quem apostou nele e com vontade de se tornar no décimo oitavo a conseguir ser campeão no Benfica. Em relação ao plantel e a alterações que eventualmente possa sofrer, Jesus disse que ainda não se debruçou sobre possíveis reforços. A esperança benfiquista renasceu.

Porém, há quem não concorde com a contratação de Jorge Jesus para o comando técnico dos encarnados. Um deles é Bruno Carvalho, candidato à presidência. Num vôo entre Porto e Lisboa a bordo do "Eagle One", uma forma inovadora de apresentar as suas ideias, o director do PortoCanal sublinhou que Jorge Jesus não será o seu treinador, caso seja eleito. Mais: voltou a avançar com o nome de Carlos Azenha como sendo a pessoa indicada para o cargo. Até aqui nada de estranho, não fosse Azenha ser há muito o treinador do Vitória de Setúbal para a próxima época. Um grande paradoxo, está fácil de ver.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Manuel Machado e Jorge Jesus

Os famosos Bucha & Estica são uma metáfora perfeita para Manuel Machado e Jorge Jesus. O objectivo não é falar dos atributos físicos de cada um, não é isso. É antes mostrar como um é o perfeito oposto do outro, assim como eram os dois personagens. Têm estilos totalmente diferentes, modos de trabalhar diferentes e posturas diferentes. Por isso mesmo, não morrem de amores um pelo outro. Até a linguagem altera: Manuel Machado diz-se que fala manuel-machadês, uma língua por ele criada e praticada. Jorge Jesus não está com meias-medidas e já tem um reportório bem alargado de calinadas.

Nestas últimas semanas, se houvesse uma contagem de pesquisas no Google, certamente se comprovaria que Jorge Jesus tem sido um nome em destaque. Existe uma razão de grande importância: as notícias que o dão como provável sucessor de Quique Flores no Benfica. Aliás, esse tem sido um assunto cada vez mais discutido à medida que o campeonato se aproxima do seu final. Jesus é um bom treinador, sem qualquer dúvida, conhecido como um ás em termos tácticos. Tem uma aparência desleixada, dá diversos pontapés na gramática - questões do forno interno do clube, disse certa altura - e é um espectáculo vê-lo no banco, sempre preocupado em corrigir os seus jogadores. Conseguiu uma excelente época no Sp.Braga, sobretudo a nível europeu. O possível ingresso no Benfica é a oportunidade de uma vida. E um teste tremendo à sua capacidade. Jorge Jesus merece-o.

Manuel Machado é outro dos bons treinadores do campeonato português. É conhecido pelo seu discurso elaborado, cheio de palavras pouco usuais. Só quem anda muito desatento nunca o ouviu falar da "parte terminal da tabela classificativa" ou do "plano estético da partida". Mais as comparações de Académica e Sp.Braga a bacalhau e lagosta, antes do seu regresso a Coimbra como treinador dos arsenalistas, e o famoso pau de marmeleiro. Ainda há bem pouco tempo definiu Ruben Micael como um "praticante com as ferramentas necessárias para o desempenho de tarefas maiores". No banco tem uma postura calma e pragmática, não sendo muito interventivo durante os jogos. O perfeito oposto de Jorge Jesus, está visto. Mas quer Manuel Machado, treinador sereno e pouco espalhafatoso, quer Jorge Jesus, o homem que não pára quieto um segundo, tiveram sucesso esta época. E à sua maneira, são dois excelentes técnicos.

PS: Um dia depois deste texto, Manuel Machado concedeu uma entrevista onde se mostrou feliz por estar à frente do "mestre das tácticas ou especial dois". E ainda dizem que não há coincidências...

quarta-feira, 18 de março de 2009

O Sp.Braga de Jorge Jesus

Jorge Jesus não reúne consensos no futebol português, por não ter um discurso muito cuidado, chegando mesmo a ser algo desleixado. Mas mostra bons resultados. Num passado mais recente recuperou um Belenenses, que salvara da descida devido a todo o imbróglio do caso Mateus, catapultando-o para a Taça UEFA. Além disso, conseguiu também uma presença na final da Taça de Portugal, algo histórico para o clube. Saiu, apesar do excelente trabalho. Terminado o trabalho no Restelo, foi a primeira escolha de António Salvador para treinar o Sp.Braga.

Os arsenalistas partiam, também, para a época 2008-09 com ambições renovadas após uma época que nada teve de parecido com aquilo que havia sido construído no tempo de Jesualdo Ferreira, em que o Sp.Braga chegou à Taça UEFA e se intrometeu entre os grandes. Sucederam-se os treinadores, os problemas na equipa e acabou a temporada fora dos lugares uefeiros. Contudo, conseguiu-o por via da Intertoto, já com Jorge Jesus no comando. Daí em diante foi somando pontos atrás de pontos na Europa. Num abrir e fechar de olhos, porém com muito trabalho, chegou aos oitavos-de-final da Taça UEFA. Já depois de ter silenciado o San Siro, frente ao AC Milan, embora injustamente derrotado.

Amanhã, o Sp.Braga pode alcançar algo nunca conseguido nos bracarenses, se eliminar o Paris Saint-Germain e avançar para nova eliminatória. Contudo, caso isso não aconteça, nada apagará tudo o que já foi conseguido. Jorge Jesus é, obviamente, um dos maiores responsáveis pelo sucesso do Sp.Braga. Principalmente na Europa. Que mais podem pedir os adeptos quando se conciliam bons resultados com boas exibições?