sábado, 3 de abril de 2010

Reivindicar a paternidade do Sp.Braga - Bernardino Barros

Quando a obra sai asseada todos a reclamam como sua. Quando sai borrada todos a renegam. Vem isto a propósito do Sp Braga e da magnífica campanha que este ano está a fazer no principal campeonato português. Brilhante, com futebol não muito entusiasmante, mas prático e competitivo. Com estes atributos conseguiu Domingos Paciência transfigurar uma equipa, que já em épocas anteriores tinha dado cartas no principal campeonato do pontapé da bola nacional, e colocá-la a discutir o título até à última jornada. A derrota na Luz e o consequente atraso de seis pontos para o Benfica é adversário de tomo para os bracarenses, não havendo possibilidades de serem recuperados e somente por uma única razão.O Benfica é a melhor equipa nacional, com um futebol consistente, de cariz marcadamente atacante e com uma facilidade enorme de jogar em todo o terreno, seja em que estádio for. Respira confiança, saúde física e mental. Grande obra de Jorge Jesus.

Mas vamos ao que interessa. Quem é o verdadeiro responsável pela excelente época do Sp. Braga? Jorge Jesus que reclama a escolha de mais de 98% do actual plantel dos bracarenses? De Domingos que sagazmente construiu uma equipa consistente e capaz de alcançar resultados, nunca antes alcançados por qualquer treinador bracarense? Ou ainda do inefável Manuel Cajuda que reclama o lançamento dos alicerces de uma equipa ganhadora? Os números não enganam, o mérito é de quem tem unhas para colocar o Braga na posição invejável que tem nesta altura da época. A seis jornadas do fim, está em segundo lugar (a época transacta estava em quinto lugar), tem 55 pontos (mais 14 que na época anterior), tem 17 vitórias (mais seis), tem 15 golos sofridos (16 o ano transacto) 34 golos marcados (mais cinco que na época anterior), o que a torna na terceira equipa mais concretizadora do campeonato e a segunda melhor defesa da época. Elucidativo.

Jorge Jesus é um grande treinador e está a prová-lo no Benfica. Domingos é um grande treinador e está a prová-lo no Braga. Quem deve receber os louros da sensacional época do Braga? Definitivamente Domingos porque é o seu treinador. Por muito que queiram comparar, não é possível saber se Jesus faria com este plantel igual ou melhor que Domingos. Jesus teve o mérito se saber escolher jogadores e de fazer uma boa época de 2008/2009 com o Braga, principalmente nas competições europeias. Domingos falhou nas competições europeias (abandono prematuro na pré-eliminatória), esteve com a cabeça a prémio por uma pré-época titubeante (a nível exibicional e de resultados), mas merece os maiores elogios por saber tirar partido de uma excelente quantidade de jogadores de qualidade, construindo uma equipa consistente nas exibições e nos resultados. Especulações são sempre possíveis mas factos são factos.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um mar de polémica no derby das grandes penalidades

Rivalidade imensa, disputa por ser a maior referência da região, vizinho bem identificado para abater. Os jogos entre Sp.Braga e Vitória de Guimarães desenrolam-se sempre num cenário bélico. É um derby na verdadeira acepção da palavra, por si só têm uma enorme força envolvente. Na primeira volta, após ter mostrado toda a força com o Benfica, os bracarenses foram travados em Guimarães. Foi essa, aliás, a primeira e única derrota da equipa de Domingos Paciência na primeira metade do campeonato. A conjuntura agora é diferente. Com uma importante batalha perdida na Luz, mas ainda com a guerra em aberto, aos guerreiros de Braga resta lutar, esperando um desaire benfiquista. Aos vimaranses, além do prazer de afastarem o maior rival do título, a possibilidade aberta de tomarem de assalto o quarto lugar.

Era esperado: este Sp.Braga-Vitória de Guimarães teve emoção, incerteza, duas equipas em busca da vitória, picardias constantes nas bancadas levadas ao extremo. Seria sempre um jogo de altíssimo risco. Domingos Paciência ficou privado, após o jogo com o Benfica, de Márcio Mossoró, um estratega fulcral nos minhotos, que não mais poderá dar o contributo à equipa até final da temporada. Na vaga deixada pelo brasileiro, o treinador colocou Luis Aguiar. As mudanças em relação ao jogo da passada jornada não ficaram por aí: Hugo Viana e Rentería sentaram-se no banco, aparecerando nos seus lugares Rafael Bastos e Matheus. A intenção era fazer funcionar um meio-campo que estivera apagado na Luz. Mas foi o Vitória quem começou melhor. Também Paulo Sérgio colocara Rui Miguel em campo, avançando Marquinho.

Um derby tem, regra geral, de contar com polémica. Em Braga, aos sete minutos, ficou o espectro de Artur Soares Dias poder manchar o jogo desde cedo. O árbitro assinalou grande penalidade favorável ao Vitória de Guimarães, por um inexistente corte com a mão. Os bracarenses, atónitos, perguntavam-se sobre os reais motivos daquela falta. Após indicação do seu assistente, Soares Dias voltou atrás e apagou o que de mau tinha feito. Fez muitíssimo bem. Não conseguiu, contudo, travar o rastilho de uma bomba pronta a explodir. Pouco depois, o Vitória colocar-se-ia em vantagem num remate colocado de Rui Miguel. Pediu-se mão no domínio de Marquinho, o jogador que fez a assistência. Artur Soares Dias entendeu que não. Parece ter decidido bem. Antes disso, já Desmarets obrigara Eduardo a aplicar-se.

Antes do intervalo, o Sp.Braga chegou ao empate: Luis Aguiar cobrou um livre, Andrezinho desviou a bola com o braço, Artur Soares Dias foi peremptório e apontou para a marca da grande penalidade. Sem contemplações, desta feita. Alan assumiu a cobrança, fez golo. O derby mantinha-se entretido, equilibrado. Pelo meio, Rentería, entrado para o lugar de Rafael Bastos, perdeu um golo feito. Um erro em combate é fatal. Calhou a fava ao Vitória. A dez minutos do final, Valdomiro desentendeu-se com Lazzaretti, perdeu a bola para Rentería e agarrou o colombiano até este cair. A falta começou fora e terminou já no interior da área de Nilson. Penalty, portanto, seguido de expulsão do central vimaranense. Meyong não tremeu, consumou a reviravolta, acentuou o vermelho na festa. Mas o castelo não se desmoronou.

Ainda havia muito para discutir. Pode parecer exagero. Não é. O minuto noventa trouxe mais uma grande penalidade e um novo empate. Rodríguez encavalitou-se nas costas de Roberto, Andrezinho repôs a igualdade para o Vitória. O central peruano do Sp.Braga viu amarelo, depois vermelho, mas ficou em campo. Afinal, tinha o registo sem cartões. Soares Dias, num mar de dúvidas e erros, voltou a emendar a mão. Encontrado o resultado final? Não! Houve ainda tempo para o Sp.Braga marcar. Com um terceiro golo... de penalty, está fácil de ver - pura simulação de Rentería. Meyong enganou Nilson e confirmou três pontos importantes para os bracarenses manterem vivo o sonho do título. O Vitória saiu de Braga depauperado, somente com sete jogadores em campo. São as chamadas baixas em combate. Derby demasiado explosivo!

Liga Europa: É curta, sim, mas é uma vantagem!

COMENTÁRIO

O golo de Daniel Agger foi um mau prenúncio. O Liverpool entrara mostrando-se preparado para assumir o jogo, fechando os espaços ao Benfica. Chegou à vantegem cedo. Aos nove minutos, Gerrard marcou um livre, a defesa encarnada ficou estática, sem reacção perante uma incursão fulgurante de Agger. Um toque de calcanhar, desvio em Luisão, golo. Sofrer em casa é mau numa eliminatória tão importante, péssimo se o adversário for um clube de classe mundial. O Benfica teria de mostrar reacção para impedir que o tento obtido pelos reds fizesse mossa, explanando o seu futebol, deixar bem patente que o jogo ainda teria muita história pela frente. Os encarnados conseguiram-no. Poderiam ter empatado nos instantes seguintes, Cardozo desperdiçou. O Benfica criava oportunidades, faltava finalizá-las. Uma estranha inépcia invadira Óscar Cardozo. O avançado paraguaio do Benfica está menos bem letal do que antes.

Os golos e Tacuara andam habitualmente de mão dada. Na Luz, contudo, pareciam zangados. Logo após o golo do Liverpool, Cardozo dispôs de uma oportunidade soberana para empatar. Na cara de Reina, num frente a frente onde costuma decidir, falhou. Voltaria a fazê-lo pouco depois. Os golos não queriam nada com o paraguaio, estava visto. Nem com Di María ou Ramires. À meia-hora, Luisão cometeu uma falta dura sobre Fernando Torres. O árbitro sueco, Jonas Eriksson (titubeante e errático nos noventa minutos) mostrou o amarelo ao capitão encarnado. Ryan Babel não se contentou, colocou a mão no rosto do central brasileiro, gerou uma confusão. Acabou expulso - excesso de zelo? boa decisão?. Foi a pedra de toque. A expulsão de Babel, deixando o Liverpool com dez com uma hora de jogo pela frente, motivou ainda mais os benfiquistas. O Benfica poderia agora explorar melhor a defensiva inglesa.

Já fizera por justificar marcar. Apesar de alguns erros na construção do seu futebol, os encarnados chegavam com perigo para a baliza de Pepe Reina. Antes do intervalo, por Di María e Javi García, mais duas oportunidades desperdiçadas. Guiado por Gerrard, o Liverpool respondeu, apareceu junto da baliza de Júlio César após o golo, fê-lo com perigo. Sempre por Fernando Torres. El Niño ainda marcaria, mas o árbitro assistente já anulara por fora-de-jogo. O Benfica não poderia arriscar dar um passo maior do que a perna. Na frente, lá continuava o desperdício... Até ao minuto cinquenta e nove. Óscar Cardozo tomou conta da bola num livre perigoso. Pouco estava a correr-lhe bem, tentou a sua sorte de bola parada: o remate saiu forte, embateu com estrondo no poste, Emiliano Insúa viu-se obrigado a derrubar Aimar junto da pequena área. Grande penalidade, oportunidade de ouro para o Benfica empatar.

Tacuara perante Reina, um especialista de cada lado da barricada. Remate em força para o golo. Finalmente!, agora aparecera Cardozo. A Luz explodiu de alegria. Afinal, era possível. Jorge Jesus fez entrar Nuno Gomes para o lugar de Maxi Pereira, era altura de explorar a inferioridade inglesa. Pouco depois entraria Rúben Amorim, em detrimento de Carlos Martins, para jogar sob a lateral direita e pressionar Insúa. Contudo, foi o Liverpool quem assustou. Torres combinou com Kuyt, soltou-se de Luisão, mas não foi capaz de bater Júlio César. O Benfica chegaria ao segundo golo. Nova grande penalidade, já depois de Eriksson ter deixado passar uma outra por falta de Carragher. Cardozo, agora em jeito, com uma frieza invejável para quem parecia demasiado ansioso, novamente para a esquerda de Reina. Reviravolta consumada. Para Anfield, o Benfica leva uma vantagem traiçoeira. Mas uma vantagem.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Um Atlético surpreendente numa final... surpresa!

O Atlético de Madrid está na final da Liga Europa. Em pézinhos de lã, passando por entre os pingos da chuva, fazendo pouco furor. Os colchoneros caíram da Liga dos Campeões, após ficarem atrás de Chelsea e FC Porto, entraram na segunda competição europeia como possíveis candidatos à vitória final. Não foi, contudo, um estatuto logo acolhido. O Atlético tem jogadores de enorme valia, o ataque está recheado de talentos, mas é irregular, falha em demasia, oscila entre o bom e o mau com grande frequência. Viveu um período negro, recuperou com Quique Flores, deixou os lugares de descida e voltou-se para a Europa. Estagnou. Por culpa, precisamente, de ser inconstante. Para uma equipa de futebol, para quem pretende ter sucesso, é um brutal calcanhar de Aquiles. Mas, por outro lado, nunca se sabe realmente o que pode conseguir.

O Atlético chegou às meias-finais sem ganhar nenhum dos jogos na Liga Europa. Serviu-se dos resultados alcançados na casa dos rivais. Nos oitavos, a equipa madrilena passou o Sporting: um nulo no Vicente Calderón e um empate a dois em Alvalade. Os leões poderiam ter chegado mais longe, ficou um sabor a pouco, o Atlético de Madrid teve consigo a eficácia. Nos quartos-de-final, os colchoneros derrotaram o Valencia. Com um nulo e um empate a dois. A mesma fórmula. Foi a prova de que o Atlético mostrara força, conseguira ultrapassar as suas carências, sobretudo em termos defensivos, ganhando consistência na Liga Europa. Mesmo que no campeonato tropeçasse perante os mais improváveis. A equipa de Quique Flores, Simão Sabrosa e Tiago tanto vence o Barcelona como cede, em casa, perante o último classificado. São picos.

Seguiu-se o Liverpool. Para chegar à final de Hamburgo, alimentando um sonho que a princípio parecia uma utopia, o Atlético de Madrid encontrou os reds. Ganhou, por 1-0, na primeira mão. Diego Forlán marcou. E o golo pode bem sintetizar este Atlético: trapalhão, confuso, sem espectáculo. Em Anfield Road, fortaleza que o Liverpool utilizou para aniquilar as pretensões do Benfica e seguir em frente, o Atlético perdeu, sim, mas conseguiu um golo decisivo, de novo por Forlán, que lhe garante a presença na final. Os ingleses, maiores candidatos à vitória na prova, uma espécie de tábua de salvação para uma temporada bem abaixo das expectativas, caíram perante os colchoneros. Sem que ninguém apostasse o que quer que fosse, o Atlético de Madrid estará na final. Simão e Tiago, representantes portugueses, poderão ficar com a primeira Liga Europa.

O jogo final da Liga Europa é uma verdadeira surpresa. Ninguém apostaria no Atlético, já se disse. E no Fulham? Quem arriscaria que a equipa inglesa ultrapassaria todos os obstáculos colocados no caminho até Hamburgo? Quase ninguém, justamente. A verdade é que o Fulham, formação mediana comandada pelo veterano Roy Hodgson, foi mais forte nas eliminatórias com Shakthar Donetsk, Juventus, Wolfsburgo e, finalmente, Hamburgo, equipa anfitriã da final de 12 de Maio. Perdeu somente um dos dez últimos jogos na Europa (ante a Juventus, na primeira mão, por 3-1; resultado que anulou com uma vitória épica, em Craven Cottage, por 4-1). O décimo classificado do campeonato espanhol encontrará o décimo segundo do campeonato inglês. Atlético de Madrid e Fulham disputarão, em Hamburgo, a final. É uma surpresa. É o futebol.

Made in England: O brilho de Torres, Tévez e Lampard e o mau Arsenal

Comecemos pelo Arsenal. É o destaque pela negativa da última jornada da Liga Inglesa. Mais uma vez o Arsenal dá voz às críticas e falha em momentos cruciais. Se o Birmingham até tem feito uma época bastante além do esperado, está confortável no meio da tabela em vez de lutar pela permanência, não justifica que uma equipa como o Arsenal se deixe empatar. Com um futebol bonito, fluído e de ataque, ainda a lutar pelo título, não se pode permitir a tais desaires. Como atenuante apenas o facto de este fim-de-semana, os dois primeiros se defrontarem, algo que beneficiará os gunners. Isto se não houver nenhum outro percalço. Há falta de surpresas nos restantes jogos (bem, a vitória por 7-1 do Chelsea sobre o Aston Vila foi surpresa pelos números exagerados!), por isso venham os artistas.

Fernando Torres, Carlos Tévez e Frank Lampard. São eles os grandes destaques.
Começo precisamente nesse jogo dos blues com quatro golos de Lampard. Não é para qualquer um. Pedra basilar deste Chelsea, o carregador de piado joga, faz jogar e marca. Mais um jogo de encher o olho e o Chelsea a mostrar que está vivo e de boa saúde. Segue-se Carlos Tévez com um hat-trick na segunda-feira. Se dúvidas houvesse quanto à troca de clube, dos eternos rivais do Manchester United para o City, Tévez está a mostrar que tinha razão em querer sair. Está a realizar uma época que não encontra paralelo nas que fez em Old Trafford. Recuperou a alegria de jogar mostrando porque o City o desejava e o United não o queria deixar sair.

Finalmente Torres. O Liverpool é, principalmente esta época, Torres e mais dez (certo, talvez esteja a exagerar um pouco...). O rapaz faz maravilhas, trata a bola por tu mas com respeito, carinho e firmeza, é um encanto vê-lo jogar. O Benfica que se acautele, pois num bom dia é quase imparável. Torres está a amadurecer e não me surpreenderá que em breve venha a fazer sombra a Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. O primeiro golo no passado fim-de-semana é de antologia. Se tiverem oportunidade vejam e revejam e, com certeza, concordarão comigo. Também se espera muito dele no Mundial 2010.

Para finalizar, aguardamos ansiosamente pela próxima jornada, em particular pelo jogo grande, Manchester United-Chelsea. Se é certo que nada ficará definitivamente decidido, também sabemos que o moral da equipa vencedora, se a houver, ficará em alta e poderá arrancar para um sprint final com vitória no campeonato. A ver vamos. Certa é a ausência de Rooney, o grande beneficiado esta época com a saída de Ronaldo e pedra importante na equipa de Manchester. Venha daí Berbatov para que justificar todo o dinheiro que nele foi investido!...

Made in England é um espaço de opinião quinzenal, assinado por Armando Vieira, que incidirá sobre o mais apaixonante campeonato mundial

Em busca do estatuto perdido (antevisão)

Em 2005-06, o Benfica viveu o seu último grande momento europeu. Não revalidou o título de campeão nacional, perdendo-o para um FC Porto que reiniciou a sua caminhada triunfante, mas chegou aos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Sob o comando de Ronald Koeman, os encarnados seria derrotados, em Camp Nou, por um Barcelona no auge com Ronaldinho e Frank Rijkaard, mais tarde glorificado com a conquista da Champions. Para lá chegar, nos oitavos, o Benfica eliminou o Liverpool, então detentor do título de campeão europeu, com duas vitórias: 1-0 na Luz e 2-0 em Anfield Road, duas noites mágicas, marcantes, épicas de um clube que pretendia voltar a ser grande na Europa. Daí para cá, contudo, não mais os benfiquistas viveram um momento assim. Esta temporada pode ser um virar de página. Com o mesmo adversário pela frente. Dia 1 de Abril de 2010. Não, não é nenhuma mentira!

Quatro anos é muito tempo. Muito mudou desde essa eliminatória até agora. Benfica e Liverpool não mais se defrontaram. Luisão e Nuno Gomes são os únicos sobreviventes. No entanto, somente o central brasileiro se mantém titular, um pilar, cada vez mais indiscutível na equipa encarnada. E está motivado por um golo crucial, um golo num jogo que o próprio definiu como valendo seis pontos, frente ao Sp.Braga. E pelos elogios de Luís Filipe Vieira à sua capacidade de liderança. Em 2006, foi Luisão quem deu a vitória ao Benfica no jogo da primeira mão. Na Luz, após um cruzamento de Petit, o Girafa elevou-se e deixou Pepe Reina agarrado ao relvado. O Benfica surpreendeu, ganhou vantagem, deixou o campeão europeu em sentido, mostrando que tinha valor. Em Anfield, a cereja no topo do bolo: obra de Simão e Miccoli. Ambos deixaram saudades aos benfiquistas. Mas agora há outros protagonistas.

Os reds de Liverpool têm feito um campeonato bem abaixo do que se lhe exigia, caíram da Liga dos Campeões deste ano e têm a edição do próximo ano em risco, a margem de manobra de Rafa Benítez é quase nula. Por isso sentem-se obrigados a apostar forte na Liga Europa. Apesar das dificuldades sentidas no caminho, é sempre o Liverpool. Não uma equipa qualquer. Atravessou um mau período, sim, mas nem por isso deixou de ter Fernando Torres ou Gerrard, reforçando-se com Maxi Rodríguez. O Benfica não queria o Liverpool. Os encarnados de Lisboa estão fortes, têm as portas do título português abertas, ambição de ir longe na Liga Europa, passagem para Hamburgo em mente, há muito não demonstravam tal força. Passar esta eliminatória não é nenhum bicho de sete cabeças. O Liverpool não queria o Benfica. Uma conclusão evidente: qualquer um deles precisará de jogar nos limites.

Para vencer esta primeira mão, apenas uma parte do jogo, noventa minutos que poderão ou não ser decisivos nas contas finais, o Benfica terá de ser igual a si próprio. Se conseguir manter os princípios que tão bem lhe têm servido, sendo consistente defensivamente e eficaz no ataque, os encarnados podem conseguir sair em vantagem para o jogo de Liverpool. No entanto, como acontece sempre que o primeiro jogo tem lugar em casa, mais importante do que marcar é não permitir um golo que seja ao adversário. Ante o Marselha, o Benfica cedeu e teve capacidade para, no Vélodrome, dar a volta. Fazendo das tripas coração. Permitir um golo aos ingleses será o pior que poderá acontecer para quem irá jogar em Anfield Road. Fernando Torres tem o carimbo de perigo iminente. A dupla Luisão-David Luiz, sobretudo, terá a missão de lhe ofuscar o brilho. E que Aimar, Di María e Cardozo façam a sua parte!...

Barcelona e Arsenal: quando o espectáculo é obrigatório

Barcelona e Arsenal jogam futebol por diversão. Colocam os olhos na baliza adversária, gostam de ter bola no pé, sabem exactamente o que fazer, usam toque curto para progredir, maravilham os adeptos com o jogo apresentado. São equipas vistosas. A grande diferença entre ambas está nos lucros que obtêm desse bom futebol. O Barça foi na época passada uma máquina triunfante, um carrossel perfeito que aliou o espectáculo às conquistas. Josep Guardiola, o jovem e inexperiente treinador que substituiu Rijkaard, entrado em decadência após o título europeu, conseguiu montar uma equipa brilhante, desconcertante e imperial. O Barcelona aumenta o prazer de cada jogo com conquistas. O Arsenal, pelo contrário, não consegue tirar partido do facto de jogar bem. Não ganha títulos. E são as conquistas que imortalizam as grandes equipas.

Em 2006, na final da Liga dos Campeões, o Barcelona levou de vencida o Arsenal. Como acontecera com o Bayern de Munique-Manchester United, os oitavos-de-final desta época voltaram a colocá-los como adversários. O Barcelona é agora uma equipa ainda mais temível, não tem Ronaldinho no seu melhor mas tem um super-Messi. Também o Arsenal parece mais consolidado, Wenger mantém o trabalho com jovens, renovando a equipa a cada ano, servindo os gunners de talentos ansiosos por despontar. Quando se defrontam dois gigantes europeus, numa fase tão adiantada da Liga dos Campeões, há a tendência para serem aumentadas as cautelas. Jogar com maior expectativa. O Barcelona não é assim. Entrou no Emirates Stadium de rompante, dominando. O Arsenal encostou-se à sua área. Nem pôde fazer mais.

O futebol rendilhado do Barcelona encanta qualquer um. É sempre naquela técnica de passa, repassa e volta a passar. A primeira parte dos catalães em Londres deve ser emoldurada. Sobretudo os primeiros vinte minutos. Futebol com grandes doses de espectáculo, posse de bola rondando os setenta por cento, Arsenal quase como uma equipa vulgar. Mas faltaram os golos. O Barça revelou-se perdulário, mostrou um desacerto que não costuma ser-lhe atribuído. Houve ainda uma causa maior para que o campeão espanhol, europeu e mundial não tenha conseguido marcar: a assombrosa exibição de Manuel Almunia, um guarda-redes transformado em herói. O Arsenal procurou reagir. Soltou-se um pouco para o ataque, retirou alguma bola ao Barcelona. Arsène Wenger já perdera Arshavin, iria ficar também sem Gallas. Duas lesões.

Estava escrito que o Barcelona haveria de marcar. Tinha que coroar o domínio. Fê-lo no reinício do jogo. Mil vezes justo. Ibrahimovic fez um chapéu a Almunia. Uma saída disparatada do guarda-redes foi fatal. O sueco, impiedoso, aproveitou. Faria o segundo, num remate potente e colocado. Agora, sim, o resultado era mais adequado. O segundo golo, porém, fez com que o Barcelona baixasse o ritmo. Após a hora de jogo, aquando do bis de Ibra, retraiu-se. Wenger lançou Theo Walcott para ainda tentar minimizar os estragos. Dois minutos em campo e um golo: belo registo do inglês. O Arsenal ganhou novo fôlego. Tentou a sua sorte, apesar de tudo. A cinco minutos do final, Puyol e Fàbregas caíram na área espanhola. Massimo Busacca marcou penalty. E o Arsenal empatou. A magia da Champions é isto. Que chance perdeu o Barça...