quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Noruega-Portugal (1-0): A queda livre do avião português

COMENTÁRIO

Portugal é uma equipa angustiada, impotente, abalada por tudo o que a afecta directamente sem que tenha contribuído para isso e incapaz de lutar contra as adversidades. Vive assombrada, receosa que o céu lhe caia sobre a cabeça, perdeu a confiança nos seus líderes e está entregue à sua sorte. Perde força, desanima, tenta, cai, não se consegue levantar. Nestas situações, más e com tendência a piorar, tudo vem por acréscimo, todos os pormenores sem importância e irrelevantes noutros contextos se transformam em gigantescas falhas que levam ao desespero. Em cinco dias, entre sexta e terça-feira, Portugal quebrou duas séries positivas, marcou a História pela negativa, permitiu que duas selecções, uma frágil e outra ao alcance, terminassem com um sorriso: empatou, parando um ciclo imaculado, contra o Chipre e, agora, piorou a sua situação, confirmando a horrível entrada em cena, ao perder na Noruega. É preciso mais?

Há sempre duas formas de olhar para uma determinada situação. É a tal lógica do copo: meio-cheio ou meio-vazio? Para Agostinho Oliveira, seleccionador interino na vaga deixada em aberto pela suspensão de Carlos Queiroz, há sempre a retirar algo de positivo. Contra o Chipre, apesar do patético empate com quatro golos sofridos, mesmo tendo Portugal demonstrado inusitadas fragilidades defensivas e incapacidade para se fazer valer ante um adversário modesto, o actual comandante da selecção nacional viu um belo jogo atacante. Errou? Não. Mas exigia-se a vitória a Portugal: a parte ofensiva foi cumprida com naturalidade, como obrigação que era, mas a componente defensiva falhou por completo. Contra a Noruega, depois de uma derrota que deixa Portugal, desde logo, em maus lençóis, Agostinho Oliveira gostou da atitude, da vontade de lutar e anteviu futuro para a selecção portuguesa. Copo meio-cheio? Não.

O futebol é, muitas vezes, uma verdadeira roleta. É momentâneo. Há heróis e vilões, as duas coisas num só, até mesmo em apenas um jogo se toca o céu e se desce ao inferno. Eduardo foi, na África do Sul, o jogador português, a par de Fábio Coentrão, em maior destaque: seguro, confiante, guerreiro e heróico para manter a sua baliza a zero. Neste início de caminhada rumo ao próximo Europeu, o guarda-redes português, agora no Génova, está diferente: intranquilo, apático, titubeante. Já falhara ante o Chipre. Em Oslo, num jogo decidido ao detalhe, Eduardo ficará para sempre ligado à derrota, vestindo a pele de culpado depois de ter sido fundamental, um capricho do futebol, por ter sido pouco ágil com a bola nos pés, recebida de Ricardo Carvalho, permitindo o desarme de John Carew e o golo de
Huseklepp. Aos vinte minutos, Portugal ficou em desvantagem. A Lei de Murphy, sempre feroz, atacou em força.

A perder desde cedo, num golo consentido, apenas mais um golpe numa equipa combalida e triste, Portugal, que não começara mal, viu-se obrigado a correr atrás do prejuízo, anulando a vantagem dos noruegueses e colocando-se, de novo, no trilho da vitória. Só que à selecção portuguesa faltam ideias, falta um fio condutor, falta consistência para atacar com audácia e rasgo, algo que Agostinho Oliveira também não consegue transmitir através do banco. O tempo foi sempre um forte aliado da Noruega. A Portugal, incapaz de chegar ao golo, aumentou a descrença, a incapacidade e a desorientação. Nunca conseguindo ser um colectivo forte, ao contrário de uma selecção da Noruega muito voluntariosa e solidária, embora perfeitamente ao alcance dos portugueses, Portugal viveu, mais uma vez, das iniciativas de Nani ou Quaresma. Apenas fogachos, tentativas desesperadas de lutar contra tudo, sempre inconsequentes.

Agostinho Oliveira tardou a mexer. Apenas o fez nos vinte minutos finais: trocou Tiago por Danny, mantendo a dupla Manuel Fernandes-Raúl Meireles, sem que tenha arriscado verdadeiramente, prescindindo de um dos médios de cariz mais defensivo, na procura de incutir maior garra, alma e capacidade atacante a uma selecção, a cada minuto, mais descrente. Houve oportunidades, sim, Hugo Almeida ainda colocou a bola na baliza de Knudsen mas em fora-de-jogo, a Noruega também as teve e Portugal não possuiu nunca um caudal de jogo forte e incisivo capaz de desposicionar os defesas noruegues e, enfim, mostrar a teórica superiodade, pelo menos em termos técnicos, da equipa nacional. Mal na leitura, também à deriva num mar de dúvidas, Agostinho Oliveira, a seis minutos do final, lançou Liedson, retirando Quaresma (!), em vão. Portugal é, neste momento, uma caricatura de si próprio. Precisa de um abanão urgente.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Clube Portugal: Renovar com vista para o futuro

Portugal empatou com o Chipre. Marcou quatro golos, criou oportunidades para fazer mais, acertou por duas vezes nos ferros e teve espaços para sufocar o adversário. Teve licença para matar e desperdiçou-a. Abusou da altivez, sobrou sobranceria, levantou o pé e quis adornar, aumentar a conta sem muitos esforços, iniciando uma gestão tendo em vista o jogo com a Noruega, terça-feira, em Oslo. Viveu por duas vezes em desvantagem, saiu delas com relativa tranquilidade, impediu que o Chipre chegasse à baliza de Eduardo como no início mas faltou dar o golpe de misericórdia. Encontrou-se em vantagem, convenceu-se de que teria o jogo controlado e ganho, tentou satisfazer os nove mil adeptos (sublinhado: nove mil!) que se deslocaram a Guimarães. Permitiu, contudo, que o Chipre se mantivesse vivo. E os cipriotas, voluntariosos e lutadores, fazendo da entrega a grande arma para esconder as debilidades, ousaram ser felizes.

No futebol, quando duas forças tão distantes e tão desequilibradas se chocam, é impossível não olhar aos dois lados da medalha: há mérito e há demérito. Ponto assente: Portugal deveria ter ganho, por mais do que um golo até, impedindo que uma selecção modesta e pouco cotada como o Chipre marcasse, imagine-se, quatro golos a uma das melhores defesas do último Mundial, atacando o castelo português pela base e naquele que foi, desde que Carlos Queiroz assumiu o comando da selecção nacional, o seu ponto forte. Na África do Sul, por exemplo, a defesa esteve impecável e apenas faltou maior audácia, risco e poder de fogo para tentar chegar mais longe e deixar uma imagem mais convincente da qualidade de Portugal. Em Guimarães, a defesa portuguesa errou como nunca, entrou numa panóplia displicente, sem orientação e perdida no relvado. Portugal deixou que o Chipre acreditasse. Não podia. Teve demérito.

Paramos no tempo, olhamos para trás e recolocamo-nos no início do século. Portugal crescera, embalara como os clubes nacionais nas competições internacionais, conseguira vitórias sobre a Alemanha, sobre a Holanda, sobre a Espanha, por três vezes sobre a Inglaterra, uma delas com uma recuperação épica e única, abrindo horizontes a cada época. Teve um Europeu espantoso, perdeu-se no Mundial da Ásia, recuperou e emergiu quando conseguiu ser o anfitrião de um novo Europeu, mesmo tendo falhado o triunfo na final, até consolidar a sua posição num Campeonato do Mundo, mais exigente e sem tantas possibilidades de sucesso, alcançando a segunda melhor participação portuguesa. Não ganhou nada de palpável, sim, mas ficam bons triunfos, jornadas de futebol total, capazes de colocar o país ao lado da selecção. Neste momento, com tudo aquilo que tem sido a Federação, atolada em casos e em guerrilhas inúteis, os adeptos diminuem. O interesse cai a pique.

O xadrez está desorientado, sem rumo, com poucas soluções para abrir o jogo e tentar uma estratégia que dê bom resultado. As possibilidades perdem-se a cada segundo, o relógio avança, o fim aproxima-se, aceleram as pulsações, a mente bloqueia, o corpo quer mas não consegue, faltam ideias. O adversário apodera-se, torna-se melhor, aproveita as desatenções, os erros que aparecem em catadupa e não têm explicação, para procurar a sua sorte e conseguir surpreender e colocar-se numa posição favorável. Portugal está confuso, envolto numa trapalhada negra, perdeu todo o espaço de manobra e a cada dia perde a credibilidade e o apoio dos adeptos. Está só. Já não tem a rainha, tem o rei preso, mais isolado e à deriva, entrado num abismo que não acabará bem, apenas protegido por alguns peões que tentam dar o seu melhor. Mas são apenas uma parte do problema. Os peões falham porque o rei e a rainha há muito se perderam e foram colocados em xeque.

Mais do que discutir o passado, o que se passou no Mundial da África do Sul e todos os problemas que daí resultaram, sobretudo com Carlos Queiroz, é necessário olhar ao futuro. Repete-se: Portugal é uma selecção em queda, ferida, com qualidade de sobra mas sem tirar frutos, sem uma equipa verdadeiramente forte, sem o carácter e a força psicólogica de outras que, por exemplo, marcaram presença nos Europeus de 2000 e 2004 e no Mundial de 2006. É uma selecção que cede empates em casa com a Albânia e com o Chipre, que sente dificuldades para se impor e fazer valer a sua maior força, é incapaz de usar os seus maiores recursos para bater adversários modestos e frágeis. Coloca-se a jeito, facilita e dá-se mal. Vê-se obrigada, depois, a suar, a correr, a sofrer sem necessidade. O futuro está hipotecado. No relvado, sim, mas principalmente nos gabinetes. É aí que começa o problema. Os líderes, os chefes, têm de ser chamados à responsabilidade. Carlos Queiroz e Gilberto Madail perderam espaço, condições e crédito. A selecção, mais do que nunca, precisa de se renovar. Sem desculpas.

domingo, 5 de setembro de 2010

Caso Queiroz: Haja decência, demitam-se!

ANÁLISE DE BERNARDINO BARROS AO CASO QUEIROZ

Tenho tido alguma relutância em escrever sobre um tema que é diariamente escalpelizado na informação e contra-informação deste país. Esperava que o bom senso imperasse e os intervenientes chegassem a uma conclusão, estão a fazer uma triste figura. Por mim, há muito que lhes tracei o azimute: demitam-se e livrem-nos de assistir a um circo com tão fracos palhaços.

Facto 1 - Carlos Queiroz usa impropérios dignos de um carroceiro, insurgindo-se contra a realização de um controlo anti-doping em horário que considera impróprio - oito da manhã. Isto ocorreu a 16 de Maio de 2010, na Covilhã, tendo a ordem para se proceder ao inquérito a este caso sido deliberado pelo Despacho nº 55/SEJD/2010 datado de 10 de Julho de 2010 (véspera da final do Campeonato do Mundo).
Perguntas: Dada a natureza grave dos factos - insultos ao presidente da Autoridade Antidopagem de Portuhal (ADoP) -, que foram mencionados no relatório dos médicos intervenientes no controlo, por que foi o caso abafado até à conclusão da prestação portuguesa no Mundial 2010? Por que foi assinado e datado despacho a um sábado (!!!) pelo Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, cinquenta e cinco dias depois dos incidentes? Se Portugal tivesse prestação mais positiva no Mundial haveria inquérito, ou teríamos mais um processo "abafado a bem da Nação"?

Facto 2 - No relatório elaborado pelos médicos da ADoP foi registado o insulto do seleccionador, descrito como "perturbador", mas não impediu, como consta também do relatório, a prossecução dos trabalhos de recolha das análises, tendo, inclusive, sido escrito que tudo decorreu dentro da normalidade e sem a presença do seleccionador. No entanto, aconteceu um problema, surgindo uma desconformidade, pois o médico João Marques não registou a densidade urinária da amostra A/B413429 no formulário do controlo antidopagem.
Perguntas: Se no relatório nada consta do impedimento do controlo ou de interferência directa do seleccionador na recolha das análises, por que carga de água se liga a "desconformidade" do médico João Marques ao vernáculo de Carlos Queiroz? Que levou João Marques a olvidar uma obrigação processual na recolha das análises? Por que errou numa "densidade urinária" quando foram realizadas sete análises? Será que o meio para justificar o lapso, que daria uma "não conformidade no currículo do Dr. João Marques", foi um novo relatório onde a perturbação pelo insulto ao Dr. Luís Horta (ou ao seu familiar), foi o motivo que levou à não conformidade?

Facto 3 - A ADoP, não satisfeita com o castigo dado pelo Conselho de Disciplina (apenas e só foi julgado pelo CD da Federação Portuguesa de Futebol o insulto do seleccionador e nunca a "perturbação de um controlo" que nunca foi registado no relatório dos médicos), decidiu avocar o processo e castigou Carlos Queiroz com seis meses de suspensão, como se lê no seu relatório de 30 de Agosto, aqui transcrito.
Perguntas - A lei permite que a ADoP possa avocar o processo, mas será curial julgar em causa própria? Quando no primeiro relatório nada consta da "perturbação ao controlo" por parte do seleccionador (relatório assinado pelo médico António Batista) e um mês e meio depois, em relatório pedido pelo Instituto do Desporto de Portugal (a 5 de Julho) aparece o dito por não dito, ou seja que o insulto do seleccionador foi o factor directo e decisivo na não conformidade do médico João Marques, será isso "legal e deontologicamente" correcto?

Conclusão: Carlos Queiroz foi malcriado e insolente, utilizando linguagem de carroceiro. Carlos Queiroz já tinha antecedentes de má conduta e de insultos. Carlos Queiroz é competente no planeamento do seu trabalho mas é um mau técnico de banco. Foi um erro a sua contratação por quatro anos (termina em 2012) quando esta Direcção federativa só tinha mais dois anos de mandato (termina em 2011). A prestação da selecção portuguesa tem sido sofrível, com um apuramento em cima da meta, uma prestação mediana no Mundial (uma só vitória frente aos pobres norte-coreanos) e exibições deploráveis. Se a isto juntarmos o que se tem observado nos últimos dias - jogadores a desistirem da selecção, adeptos dissociados do fenómeno selecção e patrões (Federação) a colocarem processos disciplinares ao empregado (seleccionador) - está decretado o fim da linha para Carlos Queiroz. Mas não só, pois o ruidoso silêncio de Gilberto Madail também é comprometedor, assim como a intromissão persecutória do Secretário de Estado do Desporto. Um, Madaíl, acha que o calado é o melhor, o outro, Laurentino, tem a vocação de não se calar quando vê um microfone.

Queiroz deve ser demitido porque não serve os interesses desportivos da Federação? Seja, mas façam-no de modo sério, com recurso ao factor "justa causa" se o houver, através de um acordo financeiro ou então pela indemnização total do seu contrato. Não arranjem "golpes palacianos" ou atitudes dignas da era da Inquisição para se livrarem dele. Já agora podiam fazer um favor algumas figurinhas deste processo: aproveitavam o embalo e saiam também.

Viver na paz podre interessa a quem? Apenas e só a quem se quer perpetuar no poder a qualquer custo e acreditem que há alguns que são piores que lapas!...

sábado, 4 de setembro de 2010

Portugal-Chipre (4-4): O escândalo de uma equipa sem rumo

COMENTÁRIO

Portugal accionou o piloto automático e deu-se mal. Tremeu, nervoso e desorientado, num início apático, demasiado frágil e permitindo avanços cipriotas. O Chipre tem uma selecção modesta, sem estrelas e demonstra imensas fragilidades, mas é voluntariosa, tem coração e dá tudo o que tem. Faz por ser feliz, tenta o que está ao seu alcance e espera por erros alheios. Portugal é muito superior. Mas vive num turbilhão de emoções contraditórias, falta concentração, estabilidade e equilíbrio. Falha colectivamente, sobressaem as individualidades, lutando contra o Mundo, querendo resolver tudo. Portugal é, no fundo, uma equipa sem rumo: sem o líder, sem o capitão, ferida no orgulho e sem um horizonte risonho. Em casa, frente a Chipre, a selecção portuguesa foi apática, pouco audaz, nada pressionante e terminou empatada. Marcou quatro golos, sim, mas cedeu um ponto ante um adversário nada cotado. Portugal cora de vergonha.

Dez minutos: dois golos sofridos, um tento de Hugo Almeida pelo meio numa tentativa de acalmia para a selecção portuguesa e vantagem cipriota, inusitada mas feliz, no aproveitamento exímio das falhas defensivas, erros alheios que o Chipre conseguiu transformar em golos, num início de tempestade sobre a selecção portuguesa. Os golos de Aloneftis e de Konstantinou serviram de alerta, aumentaram a desconfiança, o descrédito e a incapacidade da selecção nacional. Mesmo assim, com todo o tempo pela frente para poder recuperar, Portugal, estabilizando e conseguindo ter a bola no pé, conseguiria obter rupturas na defesa cipriota, procurando criar perigo e chegar, acima de tudo, rapidamente ao golo do empate. Regressando à fórmula inicial, mesmo já com duas surpreendentes desvantagens, teria condições para partir para uma exibição sólida. Raúl Meireles, com a ajuda do guarda-redes Georgallides, empatou à meia-hora.

O golo de Raúl Meireles foi uma libertação da raiva, um reflexo de que são reais os fantasmas que assombram a selecção nacional e deixou Portugal, de novo, em igualdade. Suportando o Chipre, impedindo as saídas rápidas do adversário, seria possível superar o mau arranque e passar para a frente. O golo da vantagem chegou, com naturalidade, no recomeço, em cima dos primeiros cinco minutos da segunda parte, num golpe de cabeça de Danny. Na frente, ultrapassando a turbulência inicial e deitando para trás das costas o que de mau fizera, Portugal teria de circular a bola, tornar-se senhorial e, mostrando as diferenças entre as duas selecções, ser consistente como colectivo. Nunca o foi. Viveu de raros fogachos de Ricardo Quaresma, ruiu pela base, acumulou desatenções defensivas incompreensíveis, permitindo que o Chipre se mantivesse vivo. Okkas marcou, seis minutos depois, o terceiro golo cipriota.

A resposta chegou três minutos depois, num pontapé sensacional, concretizado por Manuel Fernandes, rematando certeiro e colocado, para colocar Portugal, pela segunda vez, na frente do marcador. O golo do médio do Valência deu estabilidade à selecção portuguesa, pareceu mais confiante, mais perigosa e ousada, conseguindo ter oportunidades e duas bolas nos ferros da baliza cipriota. Falhou, contudo, na eficácia. Abriu, ao mesmo tempo, enormes brechas naquele que era o seu ponto mais forte, viu-se encostada nos últimos minutos, inexplicavelmente sem conseguir empurrar a equipa do Chipre. Os cipriotas, lutadores até ao final, marcaram nos últimos instantes, por Avraam, após uma defesa falhada de Eduardo. Quatro golos sofridos em casa, um empate comprometedor, um resultado negro e com traços de humilhação. Anárquico, intranquilo, sem rasgo e sem dinâmica: Portugal empatou ante o Chipre!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O Bom Gigante



José Augusto da Costa Sénica Torres. Para sempre O Bom Gigante. Um dos heróis da campanha sensacional de Portugal no Mundial de Inglaterra, em 1966, uma selecção estreante que se apresentou com audácia e brio, surpreendendo, rompendo paradigmas e impondo-se até às meias-finais. Pela sua coragem e espírito guerreiro, como n'Os Lusíadas, ficaram conhecidos como Magriços, um grupo que partira à conquista de terras britânicas, elevando o nome português. Torres esteve lá ao lado de Eusébio, Coluna ou Simões. Tivera glória pelo Benfica e, nesse Mundial, conseguira contribuir para o terceiro lugar final - marcou três golos. Saiu em Outubro de 1973 e regressou, como seleccionador, para levar Portugal ao Mundial do México, vinte anos depois da primeira vez, garantida sob o soar do gongo. José Torres era, em Saltillo, numa das páginas mais negras do desporto português, o treinador. Viveu momentos de sonho e pesadelo. Hoje, três de Setembro de dois mil e dez, faleceu. Há muito que a doença de Alzheimer lhe ganhara a luta.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Arranque para o Europeu: quais as consequências, Portugal?

Portugal inicia amanhã, sexta-feira, a caminhada de qualificação para o Europeu de 2012. Mergulhada num mar de polémica, a selecção, sem conseguir sequer colocar o pescoço de fora para receber algum oxigénio, vive atolada em problemas, intrigas e birras, que podem afectar o rendimento da equipa e, de certa forma, contribuir para um mau arranque. É real que possa acontecer, se bem que não passe pela cabeça de ninguém que Portugal não vença o Chipre e a Noruega - sobretudo a recepção aos cipriotas é de vitória obrigatória -, uma vez que a selecção não terá o seu líder, para o bem e para o mal, o treinador que guiou a selecção ao e no Mundial da África do Sul. Nesta convocatória, já sem Deco, Simão e Paulo Ferreira, também não há Ronaldo, o capitão, devido a uma lesão. Agostinho Oliveira, seleccionador interino na suspensão de Carlos Queiroz, terá de aguentar o barco, estabilizando e levando-o a bom porto.

A selecção portuguesa parece, neste momento, estar sem rei nem roque. Não tem o seleccionador, Carlos Queiroz, e, convenhamos, só num cenário de verdadeira utopia o voltará a ter. Os processos acumulam-se, as polémicas que envolvem Queiroz não têm fim à vista, juntam-se inúmeras pontas soltas, mal-entendidos e acusações, que retiram totalmente a margem de manobra ao, ainda, seleccionador e contribuem para que seja necessária uma mudança. Mas falta, por outro lado, uma tomada de posição da Federação, frontal e incisiva, procurando zelar pelo bem do futebol português, percebendo o actual estado da situação, deixando de lado questões de orgulho e de dinheiro, procurando reduzir ao máximo as consequências desportivas de uma decisão que, fosse qual fosse, há muito deveria estar tomada. Existe uma indemnização elevada, sim, mas, acima de tudo, uma selecção que precisa de tranquilidade para ter resultados.

Os jogadores, sem o seu líder, sem o seu capitão e formatadas para jogar em piloto-automático, como referiu Gilberto Madail, pretendem manter-se imunes, alheando-se de toda a polémica, de tudo aquilo que os afecta directamente e apenas se concentrarem nesta dupla jornada importante: trabalhar, lutar, ganhar e somar pontos com o horizonte bem definido. Sobressaem, ainda, as renúncias dos últimos dias, a juntar à de Deco declarada ainda na África do Sul, em que Simão Sabrosa e Paulo Ferreira, dois dos jogadores mais internacionais que marcaram presença neste Campeonato do Mundo - o extremo do Atlético de Madrid era mesmo, nos vinte e três eleitos, o que mais vezes vestira a camisola nacional -, deixaram a selecção, antecipando uma nova era, neste caso nos jogadores, para Portugal atacar uma nova fase com um novo grupo, pretendendo ficar bem cotado. Num Europeu, as hipóteses de sucesso são maiores. A responsabilidade também.

Para isso, como para qualquer coisa no futebol, é necessário existir equilíbrio, bom ambiente, vontade de triunfar e capacidade para enfrentar os desafios colocados no caminho. Portugal terá de construir um grupo forte, suportando a pressão e sabendo-se defender como colectivo. Fazer, no fundo, o que faltou na África do Sul. Precisa, antes de mais, de ver esclarecida a questão do seleccionador, sendo mais do que evidente que Carlos Queiroz perdeu completamente as condições para ficar, tendo desagradado aos patrões, aos adeptos e aos próprios jogadores. A própria Federação, com tantos avanços e recuos, confrontada com a sua falta de frontalidade para tomar uma medida em relação ao futuro técnico, poderá estar em xeque e, a cada dia, perdendo a sua credibilidade junto dos portugueses. Numa altura tão importante, no arranque para uma caminhada longa, poderá ser fatal. Quais as reais consequências de tal confusão?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Carlos Queiroz: Crónica de uma morte anunciada

Ponto prévio: O texto é recuperado do dia 20 de Agosto. Passaram doze dias. Carlos Queiroz está suspenso. Agora, depois da avocação do processo, com um castigo de seis meses. A Federação Portuguesa de Futebol, titubeante e indecisa, mantém o seleccionador no cargo, Gilberto Madail parece dar confiança a Carlos Queiroz, corre ainda um novo processo movido pela Direcção federativa devido às declarações proferidas pelo seleccionador sobre Amândio de Carvalho, tendo-se dizimado as condições para a continuidade de Queiroz à frente da selecção nacional. Todos o sabem, ninguém o assume. Entretanto, depois da renúncia de Deco, também Simão Sabrosa e Paulo Ferreira abandonaram a selecção. Um novo ciclo se anuncia. Falta saber quando será oficializada a rescisão com Carlos Queiroz, apesar da indemnização que a trava, e quais as verdadeiras consequências de tamanho impasse. O Europeu está à porta!...

Carlos Queiroz é uma espécie de Santiago Nasar. Está no fio da navalha, tem as portas da Federação escancaradas e viu agora ser-lhe aplicada uma suspensão de um mês. Conseguiu os apoios dos presidentes de dois dos principais clubes portugueses, respirou por momentos, mas vive atolado em problemas, em intrigas que o fazem perder a confiança dos patrões e dos adeptos, sem solução à vista. A sua continuidade à frente da selecção nacional tem os dias contados. Todos o percebem. As condições para continuar o seu trabalho há muito se perderam. Mas, como Santiago Nasar, ninguém o assume, todos se fecham em copas, Queiroz acredita que pode continuar e sente-se fortalecido. Mesmo que todos saibam que morrerá em breve. A Federação, uma Angela Vicario ferida na sua honra, prolonga o tempo e teima em não se decidir.


Há duas formas diferentes, que no fundo se cruzam, de olhar para Carlos Queiroz: o treinador e o homem. Queiroz é pragmático, expectante, meticuloso e trabalhador. Carlos tem o coração perto da boca, corre riscos, aponta o dedo sem temores e coloca-se a jeito de polémicas desnecessárias e evitáveis. Ao longo do seu período na selecção nacional, já lá vão dois anos, Carlos Queiroz, o homem que é treinador, não tem sabido conciliar essas duas vertentes. Nunca conseguiu mobilizar o povo português, não teve o apoio interno que deveria, faltou-lhe dar o clique capaz de unir o grupo de jogadores e transformá-lo num todo com uma orientação bem definida. Aí, nesse campo, exige-se sobretudo trabalho psicológico, quebrando a monotonia e o facilitismo, apelando à garra para jogar nos limites.

A prestação de Portugal no Mundial da África do Sul é razoável. Colocar apenas os extremos bom e mau em confronto é demasiado redutor, até porque Portugal nem foi uma coisa nem outra, sendo mau ficar na fase de grupos e bom tudo aquilo que viesse para além dos oitavos-de-final. Razoável assenta como uma luva: a selecção nacional ultrapassou os objectivos mínimos e caiu, na primeira eliminatória, ante a Espanha. Só ganhou um jogo, marcando por sete vezes frente à frágil Coreia do Norte, tendo somado dois empates na primeira fase e apenas sofrendo um golo, o decisivo, que travou a caminhada nos oitavos e lançou os espanhóis. A prestação, por isso, é razoável. Portugal, com maior audácia e capacidade ofensiva, sendo uma equipa mais intuitiva e menos fixa, poderia ter ido mais além? Provavelmente sim.

Carlos Queiroz, quando chegou para substituir Luiz Felipe Scolari, entrou na caminhada rumo ao Mundial 2010. Portugal apurou-se, mesmo sendo sob o soar do gongo, tendo uma participação na África do Sul que foi, repete-se, razoável. Outro dos objectivos, e é aí que Queiroz é realmente bom, passou pela renovação da selecção. Com vista para o futuro e fruto do desenvolvimento que tiveram nos seus clubes, fixaram-se Eduardo, Fábio Coentrão ou Nani. À primeira vista, esta primeira metade do trabalho de quatro anos entregue a Carlos Queiroz, foi cumprida. Sem brilhantismo, sem rasgo de génio, mas conseguindo o que se pedia. Se a Federação, depois do Mundial 2010, entende que Carlos Queiroz falhou a sua missão, considerando ter sido o trabalho negativo, só tem um caminho: reconhecer que errou no projecto, que pretendia mais do que afirmava, dispensar o treinador e chegar a acordo pela verba a pagar.

Só que a Federação Portuguesa de Futebol entendeu que o trabalho foi positivo: Portugal chegou aos oitavos, tudo bem, não foi brilhante mas também não é por isso que o Mundo vai acabar. Carlos Queiroz foi criticado pelos adeptos, analisaram-se os erros, o que esteve mal. Os patrões demonstraram vontade de o apoiar e o manter o cargo. Afinal, havia cumprido o papel que lhe estava destinado. No entanto, mais do que discutir as tácticas utilizadas ou a postura incutida na selecção pelo treinador, existem as atitudes. Carlos Queiroz é a calma em pessoa, transpira serenidade, encara o futuro com confiança e está sempre convicto de que vai triunfar, nem que seja o único a pensar assim. Isso é, pelo menos, o que transparece. É o que aparenta. Mas não é a realidade: Carlos, o homem, não soube juntar o grupo, teve incidentes pouco recomendáveis, envolveu-se em picardias e colocou-se à mercê de quem o quis ver pelas costas.

Carlos Queiroz não foi devidamente protegido, sim, mas também não fez por isso e perdeu a unanimidade que tivera aquando da sua entrada na selecção. Os insultos dirigidos a Luís Horta, ainda na Covilhã, são apenas uma polémica em que Carlos Queiroz se envolveu. Antes já havia tido um desacato com o jornalista Jorge Baptista. Mas este é o mais grave: vale um mês de suspensão, deixa-o fragilizado, embora tenha conseguido dois inusitados apoios de peso, criticado pelos adeptos e com guerrilhas dentro da própria Federação. Por mais que se pretenda soltar, procurando minimizar os efeitos que todos estes incidentes têm na sua imagem, aparece sempre algo mais, um problema antigo, um mal-entendido, um foco de instabilidade. Agora, depois de ter acusado publicamente Amândio Carvalho, seu superior hierárquico, Carlos Queiroz terá mais um processo disciplinar pela frente.

O mais importante de tudo é perceber o melhor para a selecção. Carlos Queiroz tem condições para regressar da suspensão, assumir o comando, fazendo de conta que nada aconteceu de anormal, colocar a serenidade no rosto, unir as pontas soltas, criar um grupo forte e levar Portugal ao Europeu 2012? Não. Porque não tem os jogadores consigo, os adeptos estão descrentes e os patrões insatisfeitos, não tanto pelo seu trabalho, mas com as controvérsias em que se vê inserido. Queiroz é visto como réu e vítima. E, na verdade, talvez seja um pouco de ambos. A falta de coragem da Federação, tendo numa primeira instância esquecido o incidente na Covilhã, apenas o recuperando após o Mundial, é um ponto a favor do seleccionador. Mas também Carlos Queiroz, de uma forma ou de outra, não se soube abstrair e pecou ao criticar tudo e todos. Até quando se arrastará o caso?