terça-feira, 27 de julho de 2010

Selecção Nacional: Passado, presente e futuro

Frio, distante e pouco mobilizador. Carlos Queiroz é assim. Será sempre o professor metódico, estudioso, observador e teórico. O seleccionador nacional acredita no seu trabalho. Percebe como joga o adversário e traça um plano de jogo, conhecendo as qualidades e os defeitos da sua equipa, para que tenha condições de ser bem-sucedido. O trabalho de Carlos Queiroz é lembrado sobretudo pelas conquistas de dois títulos mundiais de juniores. Contudo, enquanto treinador principal de equipas de topo, em seniores, Queiroz nunca teve realmente sucesso. Vive até com o estigma de pé-frio. E talvez seja um pouco. Portugal, no Mundial 2010, ficou-se por um nível razoável. Não se pode dizer que tenha sido um fracasso, porque a passagem aos oitavos-de-final, o objectivo principal, foi conseguida com comodidade, mas também ficou bem longe do que os adeptos queriam e a selecção nacional podia. Sobretudo devido à postura utilizada.

Em tudo são necessárias rupturas. Quando algo não está bem, o balanço é mau e é imperativo adoptar outra mentalidade, totalmente diferente, romper com o passado aparece como única via possível a seguir. Há, contudo, situações em que uma ruptura, alterando a filosofia, não é o mais indicado para o presente. Luiz Filipe Scolari, campeão mundial na Ásia pelo Brasil, chegou a Portugal com a missão de virar a página. A selecção portuguesa, indisciplinada e fracassada no Mundial, necessitava de mudanças profundas. Com outros rostos, com outros métodos, com outras ideias. Scolari, o Sargentão, chegou com força, impôs-se, mesmo encontrou guerrilhas, e construiu na selecção nacional um núcleo duro que protegeu e guardou até ao fim. Nunca teve uma preocupação com o futuro, com a renovação da equipa, com o facto de muitos dos principais elementos, os últimos resistentes da Geração de Ouro, estarem próximos de abandonar.

Luiz Filipe Scolari foi um treinador contratado para obter resultados imediatos. Portugal não conseguiu nenhum título, sim, mas foi vice-campeão europeu, desperdiçando uma oportunidade única de entrar verdadeiramente na História, e conseguiu um honroso quarto lugar no Campeonato do Mundo de 2006. Ficou para trás toda a decepção e todos os problemas resultantes do Mundial da Ásia. Um dos principais méritos do seleccionador brasileiro esteve na forma como soube lidar com a mente dos jogadores e dos adeptos portugueses. Mostrou fé, alma, pediu bandeiras na janela, puxou pelo país, colocou o futebol no centro das prioridades e, aproveitando o facto de Portugal ter ganho a realização do Europeu de 2004, foi capaz de criar uma gigantesca onda de apoio aos jogadores. O carácter, a ambição e a chama da selecção nacional foi notória. E serviu, em muitos momentos, para vencer. Só que aos poucos foi-se perdendo.

O futebol, como tudo, é feito de ciclos. O de Scolari chegou ao fim em 2008. O futebol português entrara numa quebra, a selecção ressentiu-se. O seleccionador deixou de ter a mesma disponibilidade. No Europeu, onde Portugal partia com esperança de voltar a chegar à final, a selecção nacional ficou-se pelos oitavos-de-final, caindo aos pés da Alemanha. O reinado de Scolari, com tudo de bom e mau que isso significa, terminara. Foi principalmente após a saída do treinador brasileiro que se levantaram as maiores interrogações em torno da selecção portuguesa: como seria sem Figo, sem Rui Costa, sem Pauleta, sem Costinha, sem tantos outros de elevada importância para Luiz Filipe Scolari? O futebol português caracteriza-se, além disso, pela sua importação. O expoente máximo da falta de recursos existentes em Portugal foi a inclusão, ainda sob o leme de Scolari, de Deco e Pepe, brasileiros naturalizados portugueses.

A saída de Scolari é uma boa situação, leitor, de onde não é necessário ruptura. Apesar de nada ter conquistado, com Felipão, Portugal ganhara um novo fôlego e abrira horizontes. No entanto, como já se disse, deixara a formação para trás. Daí que, por exemplo, a posição de avançado e de lateral-esquerdo se afigurassem como duas das maiores preocupações. Importava, sim, preencher essa lacunas, nunca romper com o passado - afinal, fora um bom trajecto e o caminho a ser seguido passaria, acima de tudo, pela cimentação e fortalecimento da posição da selecção nacional. Ao contratar Carlos Queiroz, a Federação Portuguesa de Futebol demonstrou essa preocupação: o treinador português trabalha bem com jovens, tem experiência e seria a pessoa indicada para renovar a selecção nacional. Para isso precisaria de tempo e margem de manobra. A verdade, porém, é que Queiroz nunca a teve. Entrou logo em competição a doer.

Scolari é um homem de paixões. Emotivo, impulsivo e mobilizador. Carlos Queiroz é o contrário: mais frio, mais pragmático, mais ponderado e mais contido. Toda a onda de entusiamo que se criara com o treinador brasileiro, embora diminuindo com o tempo, perdeu-se definitivamente com a entrada de Queiroz. Mesmo quando o horizonte de Portugal pareceu verdadeiramente negro, sem a África do Sul pelo caminho, Carlos Queiroz manteve a esperança de como, no final, Portugal conseguiria o seu objectivo. Poderia ser o único a pensá-lo, mas estava confiante porque acredita no que faz. O problema é que a maioria dos adeptos portugueses, fervorosos e apaixonados, tinham em si instalada a descrença. Mas Portugal, com tropeções e quedas no caminho, conseguiu apurar-se para o Mundial. Foi bom, o objectivo alcançado, apesar dos percalços. A fé, contudo, perdera-se.

UMA AMBIÇÃO DISFARÇADA E UMA QUESTÃO PARA O FUTURO

A divulgação dos vinte e três eleitos para o Mundial da África do Sul foi um prenúncio: jogar à defesa. E confirmou-se. Portugal encontrou adversários fortes, excepção feita à Coreia do Norte, motivadores de todo o respeito - Costa do Marfim é uma selecção que se equivale à portuguesa, Brasil e Espanha estão acima. Em todos eles, a estratégia foi a mesma: equipa expectante, pragmática, esperando pelas investidas do adversário para, em velocidade, tentar surpreender e ser feliz. Na fase de grupos, resultou. Num jogo a eliminar, ainda por cima com a Espanha, uma selecção maníaca pela bola, nunca poderia. Carlos Queiroz tinha prometido maior ousadia, maior ambição e maior coragem. Portugal não a teve. Daí que entre os adeptos, e também entre os jogadores, tenha ficado um sabor a pouco. Não foi mau de todo, isso seria ficar na fase de grupos, mas... poderia ter sido bem melhor. A selecção foi, no fundo, um reflexo do treinador.

Ao futebol da selecção nacional, demasiadamente pensado e sem rasgos de génio, faltou um abanão. O plano de contenção traçado por Carlos Queiroz, privilegiando a coesão defensiva, roçou o brilhantismo. Só que faltou astúcia para chegar mais longe. Entre guardar um nulo ou arriscar para ganhar, Portugal sempre preferiu não se desfazer da sua estratégia. Mais do que tudo, seria necessário deixar as amarras, dar liberdade ao génio individual, quebrar o pragmatismo e correr os riscos necessários. O resultado poderia ser o mesmo ou, talvez, ainda pior. Mas todos ficariam com a sensação de ter cumprido o seu dever. Algo que não aconteceu desta vez. Em Carlos Queiroz, como em Cristiano Ronaldo, a maior figura portuguesa e de quem mais se exige, caíram todas as responsabilidades. O capitão voltou a estar mal no relvado, não reagiu bem e recebeu inúmeras críticas. O treinador foi colocado em xeque. E perdeu espaço.

A imagem de Carlos Queiroz, sempre procurando transparecer serenidade e confiança, ficou, a cada momento, mais fragilizada. Numa primeira fase, ainda na África do Sul, surgiram as críticas públicas por parte de Deco, o discurso desarticulado com Hugo Almeida e as palavras amargas de Ronaldo. Já depois de feito o rescaldo, em solo português, foi atribuída a Queiroz uma frase dura, cáustica e desconcertante, onde o seleccionador acusou a estrutura federativa de amadorismo - algo que motivou uma resposta violentíssima do seleccionador. Agora, já depois de ter sido conhecida a verba monetária a receber pelo seleccionador, surge, referido como se tratando de "matéria delicada", a abertura de um inquérito disciplinar, sob alçada do Instituto do Desporto de Portugal e da Federação Portuguesa de Futebol, devido a um comportamento incorrecto da parte de Carlos Queiroz para com os médicos que realizam os testes anti-doping.

Seja provado ou não o tal comportamento incorrecto do seleccionador ainda na Covilhã, sejam ou não acertadas as críticas dos jogadores, seja ou não verdade a declaração sobre o "amadorismo" existente na Federação Portuguesa de Futebol, a imagem de Carlos Queiroz sai extremamente prejudicada. Junto dos adeptos, pelo menos de uma grande parte deles, Queiroz é um seleccionador muitíssimo bem pago (auferindo, por ano, uma verba de um milhão e seiscentos mil euros) e que pouco conseguiu no Mundial 2010. Com todas as polémicas existentes, Queiroz fica descredibilizado, perdendo a cada passo margem de manobra e, até pelas palavras dos jogadores, sem as condições ideais para conseguir juntar as duas partes do seu trabalho: renovar a selecção nacional e fortalecê-la rumo ao Europeu de 2012. A pergunta que se impõe neste momento é simples e incisiva: terá Carlos Queiroz condições para o fazer?


segunda-feira, 26 de julho de 2010

97ºTour de France: A análise - 2ª Parte

A PRESENÇA GAULESA NAS ETAPAS

Desde o último triunfo de Bernard Hinault, há já vinte e cinco anos, que o ciclismo francês não consegue triunfar na competição realizada no seu país. O hiato vai-se alargando, sem que surja um ciclista gaulês capaz de se incluir no rol de candidatos a disputar a Grande Boucle até final e, mais do que isso, sem que se abram boas perspectivas para o futuro. John Gadret, ciclista da AG2R La Mondiale, foi, no décimo nono posto, o francês mais bem colocado na classificação geral individual - com um atraso de vinte e quatro minutos e quatro segundos relativamente a Alberto Contador. Devido a essa incapacidade para ganhar o Tour, os ciclistas franceses voltam-se para a vitória em etapas. Nesta edição da Grande Boucle, bem-sucedida nesse aspecto, festejaram por seis vezes: Sylvain Chavanel (em duas ocasiões) Sandy Casar, Christophe Riblon, Thomas Voeckler e Pierrick Fédrigo. Bom registo.

A maior vitória do ciclismo francês esteve, contudo, na montanha. Anthony Charteau, ciclista da BBox Bouygues-Telecom, conquistou o título de melhor trepador da nonagésima edição do Tour de France. Impondo-se numa primeira fase a Jérôme Pineau (Quick-Step) e, mais tarde, a Christophe Moreau (Caisse d'Epargne), também ambos franceses, Charteau confirmou, com surpresa e muito mérito, a obtenção da camisola sarapintada de branco e vermelha. Sylvain Chavanel, corredor da formação belga Quick-Step, subiu ao pódio final, em Paris, para ser distinguido como o ciclista mais combativo do Tour 2010 - venceu duas etapas e, com essas vitórias, vestiu a camisola amarela. As seis vitórias em etapas, o triunfo de Charteau na montanha - algo que não acontecia desde o triunfo de Richard Virenque, em 2004 - e a distinção de Chavanel servem para preencher o vazio sentido pela falta de intromissão na geral.

A CONFIRMAÇÃO DE CAV E A GLÓRIA DE ALESSANDRO PETACCHI

É unânime: Mark Cavendish, ciclista inglês da HTC-Columbia, é um sprinter sem paralelo na actualidade. Já o demonstrara na edição anterior do Tour, somando quatro vitórias em etapas. Apesar disso, em Paris, não conseguiu subir ao pódio, uma vez que Thor Hushovd, mesmo só tendo vencido por uma vez, somou mais pontos para a camisola verde. Em 2010, ainda mais confiante, Cavendish chegou com tudo: forte como nunca, cada vez mais possante em cima da bicicleta, explodindo em direcção à meta e abrindo um enorme fosso para a concorrência. Demorou a arrancar, sim, porque apenas venceu na quinta etapa, mas demonstrou toda a sua qualidade, impondo-se sem dar hipóteses aos rivais. Somou cinco vitórias, uma delas na última etapa, mas voltou a não conseguir ser o líder da camisola dos pontos. Alessandro Petacchi, veterano italiano da Lampre, superou-o, somou pontos importantes e venceu essa classificação.

Aos trinta e seis anos, com um passado invejável para trás, Alessandro Petacchi, mesmo com todo esse arsenal de argumentos, não estaria na linha da frente para conquistar a camisola verde. Um sprinter, como ele é, precisa de uma enorme velocidade, além de que tem de saber sofrer na montanha, para conseguir vencer. Mark Cavendish tem nas subidas o seu calcanhar de Aquiles. Thor Hushovd (Cérvelo), vencedor em 2009, passa melhor no alto. Petacchi, contudo, conta com uma larga experiência. E aproveitou os primeiros dias, atribulados e marcados por um trajecto perigoso e com várias quedas pelo meio, para ganhar força: venceu a primeira etapa em linha, embora a principal concorrência, sobretudo o tal míssil-Cavendish, tenha ficado atrasado devido a uma queda colectiva. Teria sido, pensou-se, apenas uma vitória oportuna. Alessandro Petacchi fez questão de o desmentir. Para isso voltou a ganhar. Com concorrência. E categoria.

Thor Hushovd não se apresentou ao seu nível. Caíra durante a preparação para o Tour, num momento crucial, e isso afectou-lhe o planeamento e, principalmente, a forma física. Seja como for, o objectivo foi, de novo, conseguir colocar-se entre os principais sprinters, em chegadas em pelotão compacto, para vencer a camisola verde. O ciclista norueguês, sempre bem colocado pelos seus companheiros da Cérvelo, apenas conseguiu vencer por uma vez, num sprint reduzido, na jornada do pavé. Sempre que entrou na luta com Cavendish ou Petacchi, vencedores das etapas com chegadas compactas, Hushovd não se conseguiu impor. No entanto, mesmo assim, vestiu a camisola verde durante onze dias. Perdeu-a para Petacchi, recuperou-a, voltou a perder, recuperou de novo por se dar melhor na montanha e, no final, entregou definitivamente a liderança ao italiano. Cavendish, pela vitória no último dia, conseguiu, até, roubar-lhe o segundo lugar.

OS PORTUGUESES

Manuel Cardoso esteve pela primeira vez na sua carreira no Tour. O ingresso na equipa espanhola Footon-Servetto proporcionou-lhe o ponto máximo da carreira. Mas foi uma experiência curta. Nem deu para aquecer: o ciclista português embateu violentamente contra um muro, no prólogo do primeiro dia, que o deixou em mau estado e o obrigou a abandonar. Manuel Cardoso, um jovem com o sonho de participar no Tour de France destroçado, regressou a casa logo após a estreia. Foi o primeiro ciclista, dos cento e noventa e oito que começaram a pedalar em Roterdão, no início do mês de Julho, a abandonar - mais vinte e sete se seguiram, sendo o pelotão final, ainda bem numeroso, composto por cento e setenta corredores. Reduzido a um duo, Sérgio Paulinho e Rui Costa, o ciclismo português viveu um momento alto, épico, quebrando um interregno longo, com a vitória, na décima etapa, conseguida por Paulinho.

À décima etapa, no dia seguinte a uma escalada tremendamente desgastante em alta montanha, uma fuga conseguiu vingar. Sérgio Paulinho e Vasil Kiryienka, rivais na Radioshack e Caisse d'Epargne, disputaram o sprint final, renhido e emotivo, que o ciclista português venceu. Foi, para além de um resultado honroso para o corredor e para o ciclismo português, a única vitória da equipa norte-americana numa etapa do Tour de France 2010. Em Paris, de novo Sérgio Paulinho esteve no pódio, devido à vitória, por equipas, da Radioshack - individualmente, sem que isso tenha grande relevo devido às funções a que está entregue, Paulinho terminou em quadragésimo sexto, a cerca de uma hora e vinte e cinco minutos do primeiro lugar. Rui Costa, discreto e tranquilo, procurou entrar numa fuga, sempre sem sucesso, passando despercebido no seu segundo Tour. Terminou em septuagésimo terceiro, com um atraso de duas horas e doze.

EVANS DESTROÇADO, VAN DEN BROECK EM ASCENSÃO


Cadel Evans partiu para esta temporada com velhas ambições mas uma nova postura. Mais ousado, mais atacante, mais confiante em si. Deixou de ser o ciclista pragmático e expectante de antes. Com essa alteração, agora inserido numa nova equipa, a BMC, embora ainda sem possuir um conjunto realmente forte para o levar ao topo, o ciclista australiano sagrou-se campeão mundial e chegou ao Tour com legítimas ambições a um lugar no topo - mesmo sabendo que teria em Alberto Contador e Andy Schleck dois rivais terríveis. Cadel Evans conseguiu estar bem na primeira etapa nos Alpes, chegando à camisola amarela, na vitória de Schleck, mas quebrou no dia seguinte. Cortou a meta destroçado, impotente e incapaz de resistir às investidas dos concorrentes - acabou o Tour em vigésimo sexto, com cinquenta minutos de atraso. Ivan Basso, líder da Liquigas, denotou o cansaço provocado e também desiludiu. Como Leipheimer e Klöden.

Jurgen Van den Broeck, substituto de Evans na chefia da Omega-Lotto, foi uma das belas surpresas desta edição do Tour. O ciclista belga conseguiu o quinto lugar, mostrando-se forte nas montanhas e poderá ser um nome a ter em conta nos próximos anos. O mesmo se poderá aplicar a Robert Gesink (Rabobank) e a Roman Kreuziger (Liquigas), dois jovens que se exibiram em excelente nível, demonstrando capacidade para, nas próximas edições, se fixarem nos primeiros postos - foram, respectivamente, sexto e nono da classificação geral. Nos dez primeiros, sem que fosse expectável, há ainda os nomes do canadiano Ryder Hesjedal (Garmin), do espanhol Joaquín Rodríguez (Katusha) e do norte-americano Chris Horner (Radioshack: o único no quadro de honra). Samuel Sánchez, líder da Euskautel-Euskadi, conseguiu um belíssimo quarto lugar - perdendo, no final, o último lugar do pódio para Denis Menchov (Rabobank).

97º Tour de France: A análise - 1ª Parte

O TRI DE CONTADOR

Alberto Contador venceu, pela terceira vez, o Tour de France. O ciclista espanhol da Astana, o melhor da actualidade, provou ser o mais completo do pelotão que participou na nonagésima sétima edição da Grande Boucle. Sem ser tão espectacular como em anos anteriores, nas vitórias que alcançou em 2007 e 2009 - as únicas duas vezes em que esteve presente na maior competição do pelotão internacional -, o ciclista espanhol conseguiu superar Andy Schleck, numa luta intensa até ao final, para ser coroado vencedor em Paris. O trajecto de Contador foi sempre feito em crescendo: começou algo titubeante, deu mostras de não estar na plenitude das suas forças nos Alpes, aproveitou um infortúnio de Schleck para chegar à liderança nos Pirinéus e, depois disso, resistiu sempre às investidas do corredor luxemburguês da Saxo Bank. Suou, sim, mas terminou por cima. Por isso mesmo, esta foi a sua vitória mais saborosa.

O número um mundial, um jovem irreverente em busca da plena afirmação e um campeão imortalizado pelos seus feitos. Fortes, creditados, ambiciosos. Alberto Contador, Andy Schleck e Lance Armstrong preencheram, por esta ordem, o pódio da edição anterior do Tour de France. E chegaram a 2010 na linha da frente. Pelo peso de cada um deles, a discussão poderia estar centrada em Contador e Armstrong. O presente triunfante e o passado demolidor. Agora em equipas diferentes, com uma Radioshack construída em redor do norte-americano a partir da Astana - onde permaneceu El Pistolero -, sem terem de se apoiar mutuamente. Seriam rivais, opositores, gigantes na luta pela repetição de uma conquista. Andy Schleck é um jovem em ascensão, melhorando a cada ano e apoiado por uma belíssima equipa da Saxo Bank, que prometeu intrometer-se entre no duelo de titãs. E ainda com outros candidatos na sombra.

A primeira semana de prova, longe de ser uma adaptação à competição, apareceu com um trajecto perigoso, tenso e preocupante. Niguém ganharia o Tour no início, claro que não, mas poderia perder todas as possibilidades de se manter na luta. Os Alpes, ao nono dia, deixaram a vitória na nonagésima sétima edição da Grande Boucle reduzida a dois: Alberto Contador e Andy Schleck. Os dois ciclistas, os mais fortes do pelotão, aproveitaram a dureza da nona etapa, um terreno onde se sentem bem, para se destacarem de todos os rivais. Lance Armstrong já ficara de fora, destroçado e azarado como nunca, no dia anterior: duas quedas e a veterania de trinta e oito anos, sem ter consigo um colectivo tão forte como se esperaria, hipotecaram definitivamente as esperanças do norte-americano vencer o Tour de France pela oitava vez. Cadel Evans, Carlos Sastre, Andreas Klöden também vergaram perante o vigor do duo Contador-Schleck.

O DUELO

Andy Schleck explodiu, assumiu a corrida, galgou metros nos Alpes e chegou à glória. Num primeiro momento pareceu melhor do que Alberto Contador. O ciclista espanhol não esteve tão demolidor e explosivo, deu mostras de alguma quebra e, na primeira etapa realmente dura nos Alpes, claudicou perante o ataque pujante de Schleck. No entanto, Contador esteve também mais cínico e cerebral. Bem apoiado pela Astana, com grande destaque para Alexandre Vinokourov e Daniel Navarro, uma equipa sem dar mostras de fragilidade pela debandada rumo à Radioshack, El Pistolero soube disfarçar o seu momento, gerir os tempos e, a mais ou menos custo, ter o ímpeto de Andy Schleck controlado. O ciclista luxemburguês da Saxo Bank, desde a quarta etapa sem o apoio do irmão Frank, o seu braço direito, ganhou a camisola amarela na nona tirada. Na tal em que se entendeu bem com Contador. Tinha quarenta e um segundos de vantagem.

Alberto Contador cresceu. Recuperou com o tempo, restabeleceu-se, disfarçou as dificuldades e apresentou-se para a luta. Estava atrás, sim, mas nada de preocupante. Se não o conseguisse nos Pirinéus, teria no contra-relógio, a especialidade em que Andy Schleck manifesta maiores fragilidades, uma oportunidade para passar para a frente. Mas seria sempre arriscado esperar pelo penúltimo dia. E poderia ser fatal. Nos Pirinéus, depois de dias de recuperação e tranquilidade, o duo de candidatos, os mais fortes e únicos que sobreviveram à matreira primeira semana, teriam que se mostrar. Sentir as pulsações do rival, perceber o momento em que se encontravam e tentar saltar para a frente. Schleck apareceu sempre mais confiante, mais impulsivo e aguerrido. Contador, experiente e conhecendo o seu momento, jogou pela certa e, aos poucos foi-se aproximando do topo: na décima segunda etapa, ganhou dez segundos.

UM MOMENTO MARCANTE NOS PIRINÉUS

Pode-se criticar, entender que Alberto Contador não teve desportivismo e que deveria, quando a corrente da bicicleta de Andy Schleck saltou, ter esperado até que o seu rival recuperasse a condição. O corredor luxemburguês atacara, o espanhol não respondera de pronto. Num ápice, invertendo tudo, Contador passou ao ataque, levando Samuel Sánchez e Denis Menchov consigo, para roubar tempo ao então líder. Nos Pirinéus, à décima quinta etapa, o ciclista espanhol da Astana conseguiu assumir a liderança, dizimando a desvantagem de trinta e um segundos, fixando-se com oito segundos à maior sobre Andy Shcleck. O mais difícil ficou feito pelo espanhol. Agora, com Contador mais confortável, seria o luxemburguês a atacar. Tentou, fez de tudo, escalou até ao Col do Tourmalet, imprimiu um ritmo vigoroso. Alberto Contador sempre respondeu bem. No contra-relógio, onde evoluiu imenso, também procurou ser feliz.

Alberto Contador cortou a meta, o contra-relógio ficara para trás, a camisola amarela não lhe iria fugir mas continuou a pedalar. Deu tudo, forçou, pedalou para se manter na liderança. Andy Schleck começara bem, ameaçando-o, reduzindo a desvantagem. Contador tremeu mas, à medida que os cinquenta e dois quilómetros foram passando, alargou a vantagem e, mesmo tendo realizado um tempo modesto, confirmou o triunfo. Terminou o Tour de France 2010 com trinta e nove segundos de vantagem sobre Andy Schleck. O mesmo tempo, por curiosidade e ironia, que ganhara na décima quinta etapa, depois da avaria sofrida pelo luxemburguês. O último lugar do pódio final - até ao contra-relógio do penúltimo dia ocupado por Samuel Sánchez, ciclista espanhol da Euskautel-Euskadi -, ficou na posse de Denis Menchov, da Rabobank, que assim repetiu a posição de 2008, passando uma borracha sobre
a má prestação da edição anterior.

LANCE ARMSTRONG E RADIOSHACK: O ADEUS E A DESILUSÃO

Sete vitórias consecutivas no Tour de France são uma marca bem difícil de bater. Lance Armstrong conseguiu-o, entre 1999 e 2005, com grande classe. Apesar de já não ter nada mais a provar, também pelo mérito dos seus triunfos, decidiu regressar no ano passado. Foi colega de Alberto Contador, o agora número um mundial, posição que Lance ocupou durante épocas a fio, na Astana e conseguiu um belíssimo terceiro lugar. Voltou de novo em 2010, com uma equipa recém-criada e recheada de ciclistas de qualidade, todos eles provenientes da equipa cazaque, declaradamente para tentar a sua oitava vitória na Grande Boucle. Falhou. Demasiado cedo, ainda na primeira semana, deixou de estar na luta pelo triunfo final. Porque já não conta com a mesma disponibilidade, naturalmente, mas também porque encontrou obstáculos contra os quais pouco podia fazer: um furo no pavé e duas quedas duras nos Alpes. Foi infeliz.

Sem possibilidades de lutar pela vitória, com o objectivo arruinado e a treze minutos da liderança, o que poderia fazer Lance Armstrong? Apenas desfrutar da corrida, manter-se fiel aos seus princípios e chegar a Paris. Causou estranheza ver o heptavencedor do Tour cortar a meta atrasado, escondido, sorridente e nada preocupado com o atraso cada vez maior para a camisola amarela. Levi Leipheimer, então na sexta posição, passou a ser o líder da Radioshack. Mas é diferente. Com o falhanço de Armstrong, com ambições destroçadas pelos novos heróis do pelotão mundial, também a estratégia da equipa Radioshack fracassou. Lance ainda tentou, já na terceira semana, uma vitória em etapa, uma espécie de consolação, mas foi incapaz para se superiorizar ao sprint final, forte e triunfante, de Pierrick Fédrigo. Em Paris, onde esteve pela nona vez, terminou na vigésima terceira posição. A quase quarenta minutos de Contador.

A Radioshack chegou ao Tour de France 2010 em força. Recém-criada, com Johan Bruyneel na chefia, Lance Armstrong no papel de estrela e, para o que desse e viesse, Levi Leipheimer e Andreas Klöden. A verdade, contudo, é que a equipa norte-americana foi uma verdadeira desilusão. Mesmo assim, venceu colectivamente e obteve uma vitória em etapa. Na chegada a Gap, na décima tirada, Sérgio Paulinho, ciclista português, conseguiu superar-se a Vasil Kiryienka (Caisse d'Epargne) e, ainda que por centímetros, venceu. Por mais paradoxal que pareça, a maior façanha da Radioshack, já com todos os seus possíveis candidatos a uma boa classificação afastados dos primeiros postos, foi alcançada por um trabalhador, um operário, alguém que se acostumou a viver na sombra e a trabalhar para os seus líderes. Na geral, com o último falhanço de Leipheimer nos Pirinéus, a Radioshack ficou-se por um décimo lugar, alcançado por Chris Horner...

domingo, 25 de julho de 2010

Arjen Robben e Andrés Iniesta: Aproveitar para ganhar

A Holanda deu o pontapé inicial. A bola, pouco depois, foi parar aos pés dos espanhóis. E o carrossel começou a funcionar: tiki-taka, passa, vem buscar, alarga a trajectória e prepara, de novo, para receber. A selecção espanhola, sempre com bola no pé, não atingiu a percentagem de posse de outros jogos, não fez a mesma circulação porque a Laranja se fechou bem, mas teve ascendente. Entrou com força e, aos poucos, foi baixando o ritmo. O jogo ganhou equilíbrio, oportunidades também para os holandeses, perigo em ambas as balizas. Não foi um jogo de primeira, nada disso, mas foi emotivo. Arjen Robben, a par de Sneijder, a maior estrela holandesa, esteve perto de marcar. Por duas vezes perdeu frente a Iker Casillas. A segunda delas, já em cima do final, poderia ter sentenciado a final. Perdeu-se. Ele e a oportunidade.

A Espanha teve a bola, montou o ataque, criou muita pressão e rondou o golo. A fúria instalou-se. Marcando no começo, La Roja teria maior tranquilidade, obrigaria a Holanda a abrir o seu jogo e, com todos os seus dotes de posse e circulação de bola, poderia jogar como gosta. Mas o golo não surgiu. Nem no começo nem no final. Nos noventa minutos houve oportunidades, poucas, mas repartidas: a Espanha teve ascendente, a Holanda jogou durinho, tentou ser veloz e assutou. As grandes penalidades surgiram quase como uma inevitabilidade. Até que se abriu uma chance para os espanhóis. Em contra-ataque, com os holandeses a protestar com Howard Webb, Fàbregas deu para Andrés Iniesta. Solto na área, em posição privilegiada, o médio do Barça encarou com Stekelenburg e rematou com força. E confiança. A bola só parou no fundo da baliza. No aproveitar está o ganho.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

97ºTour de France: A etapa para Andy, o Tour para Alberto

Atacar sempre sem tréguas e esperar uma quebra do adversário. A Andy Schleck nada mais haveria a fazer: teria de procurar a sua sorte, superar-se, transformar as fraquezas em força e desejar que Alberto Contador, seu rival e líder da classificação geral individual, não o conseguisse acompanhar. Teria que insistir muito para surpreender o espanhol, abrindo a corrida e cavalgando forte para a vitória e para uma posição mais favorável rumo à camisola amarela. Os oito segundos que tem de atraso para Contador funcionam como estimulante para legitimar as ambições de Andy Schleck mas, ao mesmo tempo, para aumentar ainda mais as probabilidades de um terceiro triunfo para o líder da Astana. Depois da décima sétima etapa, na subida ao Col do Tourmalet, poucas mais hipóteses terá Andy Schleck para eliminar a desvantagem. O contra-relógio do penúltimo dia é, talvez, o seu maior handicap. E mais um trunfo de Alberto Contador.

Frio, chuva e tensão. Todos estes elementos em doses consideráveis, deixando uma escalada duríssima ainda mais íngreme. Andy Schleck, para colocar em perigo Contador, só poderia fazer o mesmo que nos Alpes: atacar, explodir o ritmo e esperar que, como na primeira semana, o rival não se mostrasse na plenitude das suas forças. O ciclista luxemburguês, ambicioso, assumiu o comando, enfrentou o terrível nevoeiro, empenhou-se em conseguir inverter a situação. Atacou, como lhe competia, no grupo dos favoritos. Imprimiu um ritmo forte e vigoroso, procurando destacar-se, num terreno onde se sente bem. Alberto Contador respondeu de pronto. El Pistolero estava forte. Tal como Andy. Na montanha, está provado, são ciclistas muito idênticos e onde, estando num bom momento, é difícil serem superados. Como nos Alpes, quando Andy Schleck assumiu a liderança, formaram um duo. Só que agora tudo jogava contra o luxemburguês.

Alberto Contador, habituado a ataques explosivos rumo à vitória, jogou à defesa. Apenas tinha que controlar os andamentos de Schleck, estar preparado para reagir, tentar desgastar o rival e impedir que o ciclista da Saxo Bank lhe ganhasse metros. Seguiu na roda do luxemburguês, forte e confiante, cada vez mais aumentando as possibilidades de, pela terceira vez, ser coroado vencedor do Tour de France. Os oito segundos que conquistou, mais o facto de ter no contra-relógio uma especialidade e de Andy Schleck denotar ainda diversas fragilidades nesse tipo de prova, funcionam como uma margem importante. Não é segura, verdade, mas muito boa para o ciclista espanhol. A despesa da subida, de novo feita por ambos, coube toda a Andy Schleck. Nos Alpes, a situação fora diferente: os dois encontraram uma oportunidade única de diminuirem a concorrência a apenas um. Agora, Andy teria que se livrar de Alberto. Não conseguiu.

Ataque a dez quilómetros da meta, ritmo forte e várias tentativas de descolar. Andy Schleck fez de tudo para conseguir deixar Alberto Contador para trás. O ciclista da Astana respondeu sempre bem, subindo atrás do rival e - mostrando que se encontra numa boa fase - tentou também uma mudança de andamento. Nem um nem outro conseguiram isolar-se. Porque, já se disse, se equivalem. E, com isso, a tarefa de Andy Schleck seria sempre de extrema dificuldade. Os oito segundos de vantagem, que parecem nada a Contador e são uma infinidade de tempo para Schleck, mantêm o corredor da Astana na frente e, cada vez mais, com grandes probabilidades de sair de Paris com a camisola amarela vestida. Para Andy Schleck fica uma vitória extraordinária no Col do Tourmalet, conseguida com muito mérito e sacrifício, que se junta ao triunfo alcançado nos Alpes. É uma consolação. Embora ainda seja possível vencer o Tour, sim...

Atrás de Alberto Contador e Andy Schleck, aqueles que à partida ocuparão os dois primeiros lugares no final da nonagésima sétima edição da Grande Boucle, continuam, na disputa pela última posição do pódio, Samuel Sánchez (Euskautel-Euskadi) e Denis Menchov (Rabobank). O ciclista espanhol, antes da etapa colocado no terceiro lugar, tem dado sinais de quebra, admitida pelo próprio, algo que coloca em perigo o seu lugar na classificação geral individual. A décima sétima etapa começou mal, com uma queda brutal de Sánchez - foi realmente aparatosa - que resultou num traumatismo na caixa torácica. Contudo, mantendo-se em prova, o ciclista espanhol, conseguiu recuperar e, inclusivamente, alargar, em oito segundos, a vantagem para Denis Menchov - a diferença é de vinte e um -, embora também sinta dificuldades no contra-relógio. A discussão pelo terceiro lugar passará por estes dois ciclistas. E será bem acesa.

Cristiano Ronaldo e Lionel Messi: Estrelas em eclipse

Brilhante e fundamental nos clubes, individualista e inconsequente na selecção nacional. Cristiano Ronaldo tem sido assim nos últimos anos. Um dos melhores jogadores mundiais, repleto de talento e arte, tarda em conseguir a plena afirmação com a camisola de Portugal. Na África do Sul, onde prometeu explodir e superar-se, Ronaldo nunca apareceu. Conseguiu quebrar um jejum de dois anos sem marcar em jogos oficiais pela selecção, sim, mas o golo, trapalhão e feliz, é apenas um oásis num deserto de ideias. No Mundial 2010, Portugal não contou com o Ronaldo que desequilibra e empolga, teve apenas um Cristiano individualista, procurando lutar contra tudo e tentando, sozinho, resolver todos os problemas da selecção nacional. Revelou-se, no fundo, impotente para lutar contra as adversidades. Questionando as opções de Carlos Queiroz, remetendo todas as explicações para o seleccionador, Cristiano Ronaldo não deixou também uma boa imagem enquanto capitão. África do Sul foi uma aventura mal-sucedida. A todos os níveis.


Os argentinos esperam de Messi o mesmo que os portugueses exigem a Ronaldo: fintas, jogadas, correrias loucas, passes de cortar a respiração e, se houver oportunidade, golos de encantar. A responsabilidade é elevada. Foram eles, contudo, quem elevaram tanto a fasquia. Por aquilo que já provaram conseguir e pelas temporadas realizadas nos seus clubes, na rivalidade entre Barcelona e Real Madrid, pede-se, tanto a Lionel Messi como a Cristiano Ronaldo, que ganhem sempre. Se Portugal sentiu imenso o eclipse de Ronaldo, também a Argentina não teve o melhor Messi. Aquele que é considerado como melhor jogador a nível mundial chegou a mostrar-se em bom plano, procurando um golo que nunca apareceu, mas foi impotente para impedir que a albiceleste acabasse vergada a uma pesadíssima derrota pela Alemanha. Ronaldo e Messi não foram os únicos culpados mas, a seguir aos seleccionadores, são os principais rostos da desilusão. Sobretudo porque são capazes de muito mais. As imagens da despedida não enganam: frustração e tristeza.

Ao longo dos próximos dias, no FUTEBOLÊS, poderá ver as imagens que mostram os momentos mais marcantes do Mundial 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

97º Tour de France: O ar de graça de Lance Armstrong

Intimidatório, mítico, brutal. O nome de Lance Armstrong tem um impacto gigantesco no ciclismo mundial. As sete vezes consecutivas em que triunfou no Tour de France, tornando rotineira a vitória na maior prova do pelotão internacional após ter superado um cancro na próstata, deixaram-no imortalizado. E saiu pela porta grande em 2005. Aos trinta e sete anos, com três de interregno, decidiu regressar: entrou na Astana, a equipa do seu líder Johan Bruyneel, para provar que ainda estaria em condições de deixar o seu nome marcado. Não o precisava e correu riscos ao fazê-lo, sim, mas a ambição foi maior. Só que o ciclismo mudara. Armstrong ficara para trás. O presente indicava Alberto Contador, Andy e Frank Schleck, Bradley Wiggins. Inserido numa equipa sem paralelo, dominadora a todos os níveis apesar do mau ambiente que se gerou pela existência de mais do que um líder, Lance Armstrong mostrou-se bem.

O honroso terceiro lugar que conquistou no Tour de France 2009 abriu o apetite para a nova edição da Grande Boucle. Lance Armstrong estivera em bom nível, mesmo não tendo, nem podendo ter, o fulgor de outrora. Numa equipa apenas mentalizada em trabalhar para ele, sem Alberto Contador pelo meio, o norte-americano poderia ambicionar melhorar a anterior classificação e, até, alcançar a sua oitava vitória. O objectivo da Radioshack, equipa que formou com Johan Bruyneel e que recrutou na Astana a sua composição para a nonagésima sétima edição do Tour, foi sempre proporcionar as melhores condições para que Lance Armstrong estivesse na corrida, pelo menos, a um lugar no pódio. A verdade, contudo, é que o ciclista texano, heptavencedor da competição, ficou demasiado cedo fora das contas da classificação geral. Perdeu tempo no pavé e viveu um inferno no primeiro teste nos Alpes.

É incontornável: Lance Armstrong está bem diferente do ciclista que pulverizou a concorrência e venceu com toda a naturalidade durante sete anos. Os trinta e oito anos pesam, os rivais estão melhores, Lance ressente-se. No entanto, também há imenso infortúnio. Nas edições em que triunfou, embora com algumas quedas pelo meio, nunca Lance Armstrong havia sentido na pele tanto azar como agora. Atacou-o forte na primeira semana e logo o retirou das contas da geral: na quarta etapa, quando seguia à frente de Alberto Contador, viu um furo na roda dianteira deixá-lo para trás, enquanto nos Alpes caiu por duas vezes, ficando a quase doze minutos do vencedor da etapa. Aí, nessa nefasta oitava etapa, Armstrong enrolou a bandeira, rendeu-se. Mas não desistiu, quis manter-se em prova, desfrutar da sua última presença no Tour de France e ambicionar vencer etapa. O líder da Radioshack, para a geral, passou a ser Levi Leipheimer.

Aos adeptos de ciclismo, causa estranheza ver Lance Armstrong chegar com um atraso de largos minutos para o vencedor da etapa, num ritmo baixo, conversando e sorrindo. Derrotado, a anos-luz da camisola amarela, Armstrong deixou de se preocupar com o tempo que tem de atraso: colocar Leipheimer na melhor classificação possível é a meta a alcançar também por ele. Os tais riscos que Lance Armstrong corria quando regressou, sobretudo o de poder não estar à altura da elevada exigência que ele próprio estabeleceu, está a verificar-se neste segundo ano, quando se esperaria que superasse o que conseguira em 2009 e fosse, com Contador, um dos grandes candidatos à vitória final. Ver Armstrong não ganhar e não se preocupar muito com isso, apenas correndo por gosto, é algo que os adeptos de ciclismo nunca esperariam. Até depois da belíssima prestação alcançada no ano em que quebrou a inactividade.

Lance Armstrong perdeu, após a primeira etapa realmente dura nos Alpes, todas as possibilidades de sonhar com a sua oitava vitória ou a nona presença no pódio final. No fundo, contudo, continuava a alimentar a vontade de vencer uma etapa, deixar a sua marca na despedida e esquecer, por momentos, todos os minutos que o fazem estar longe das decisões. Tentou-o nos Pirinéus. Na décima sexta etapa, percebendo que Alberto Contador e Andy Schleck não deixariam a marcação cerrada e a vigia permanente um ao outro, Lance procurou a sua sorte. Entrou numa fuga nos primeiros quilómetros, juntamente com mais oito corredores, pedalou forte, trabalhou muito e fez de tudo para chegar ao final em condições de vencer. No sprint, saiu de trás, após se ter poupado, em direcção à meta. Pierrick Fédrigo (BBox-Bouygues Telecom), mais jovem e possante, superou. E Armstrong, sem hipóteses de triunfar, logo abdicou.

Vencer a etapa rainha dos Pirinéus seria uma consolação para um ciclista ímpar. Lance Armstrong procurou consegui-lo. Fez o que estava ao seu alcance, mas não foi além do sexto lugar. A fuga resultou na perfeição e teve condições de discutir a vitória. Não o conseguiu: porque lhe faltou a velocidade de outros tempos e porque Fédrigo - terceira vitória consecutiva de ciclistas gauleses e segunda, após o triunfo de Thomas Voeckler na véspera, para a equipa francesa BBox-Bouygues Telecom - foi realmente forte na chegada. Apesar de não subido ao pódio, Lance Armstrong, com a veterania dos seus trinta e oito anos, deixou uma imagem positiva, de um campeão ainda à procura de um final feliz, apostando todas as fichas numa tirada dura e de alta montanha. Mostrou estar vivo. Mesmo isso nada mudando na classificação geral, onde é vigésimo quinto e tem um atraso de trinta e três minutos para Alberto Contador.

Polvo Paul e Larissa Riquelme: Animação fora do relvado

Paul, o polvo inglês, estava tranquilamente na Alemanha, no seu aquário, junto de outros como ele. Vendo nele dotes de adivinho, os seus tratadores ousaram colocá-lo a fazer previsões. Nos jogos em que a selecção alemã entrasse no Mundial 2010, Paul tentaria prever o resultado. Acertou o primeiro e, no segundo, deu a vitória à Sérvia. Ninguém o esperava. Mas os sérvios, com surpresa, venceram a Alemanha. A partir daí tornou-se famoso. Ao todo, com o jogo da final e de atribuição do terceiro lugar também incluídos, previu oito resultados. E em todos acertou. Paul, o polvo, foi, sem o saber, uma das figuras do Mundial 2010. Fora do relvado, no seu aquário.

Larissa Riquelme é uma modelo paraguaia. Como tantas outras. Ou talvez não: Larissa, paraguaia a cem por cento, destacou-se nas bancadas da África do Sul. Prendeu as objectivas, atraiu as atenções e fez de tudo por se mostrar ao Mundo. Vestindo as cores da sua nação, com grande criatividade para inventar um novo lugar onde guardar o telemóvel, onde poucos se lembrariam de o colocar, a Noiva do Mundial, como ficou conhecida, prometeu despir-se se o seu Paraguai vencesse a Espanha. A selecção albirroja não conseguiu, mas Larissa não abdicou das ideias. Serve para os jogadores receberam uma recompensa pelo bom trabalho.

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terça-feira, 20 de julho de 2010

Eduardo e Fábio Coentrão: Lutadores e vencedores

África do Sul revelou Eduardo ao Mundo. O guarda-redes português mostrou garra, alma, uma incomensurável vontade de se mostrar e uma segurança que sustentou a selecção portuguesa. Na forma como cantou o hino, a plenos pulmões, como defendeu, como gesticulou, como gritou e tentou espevitar os companheiros, levá-los para a frente, garantindo que não precisavam de se preocupar porque estavam bem guardados. Eduardo foi uma surpresa, mesmo para quem realizou uma época de tão elevado nível, mostrando que Portugal tem um guarda-redes eficaz. Saiu do Mundial destroçado mas muito valorizado. A desconfiança caiu.

Fábio Coentrão transfigurou-se. De um extremo imaturo e impreparado para o topo, nasceu um lateral-esquerdo de enorme valia, com grande margem de progressão e, mantendo a sua postura irreverente, sempre em acção no jogo. A época que realizou abriu-lhe as portas da selecção. Chegou, ganhou o lugar a Duda e venceu. Procurou superar-se como defesa, impedindo os rivais de progredir e, depois disso, atacar, explorar a sua velocidade, jogando olhos nos olhos. Teve audácia, ambição e conseguiu ser, como Eduardo, o jogador português em maior destaque no Mundial. Sergio Ramos foi o adversário que maiores problemas causou. Voltou reforçado.

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97ºTour de France: Contador disparou em Andy

Andy Schleck e Alberto Contador, jovens, sedentos de glória no Tour de France, inédita ou repetida, para deixarem a sua marca na galeria dos notáveis. Ficaram, desde cedo, como grandes candidatos à vitória final. E as distâncias que conseguiram criar, alargar e cimentar em parceria, permitiram que reduzissem as preocupações a um: Andy preocupou-se com Contador, Alberto quis atacar e ser mais forte do que Schleck. Expectantes, calculistas, receosos. Nenhum deles ousou arriscar um passo maior do que a perna, ambos jogaram à defesa, sobretudo Andy Schleck, para preservarem as suas posições. Os quarenta e um segundos de vantagem, estabelecidos após a terrível etapa nos Alpes em que Cadel Evans, anterior líder, quebrou por completo, nunca funcionaram, contudo, como garantia para Andy Schleck. A vantagem, curta, poderia ser diminuída na montanha. Ou no contra-relógio. Onde Contador é mesmo mais forte.

O jogo do gato e do rato. Amarrado, com expectativa, sem deixar o outro escapar. Andy Schleck e Alberto Contador anulam-se mutuamente. Procuraram atacar, deixar o rival para trás, sentir as pulsações do adversário, perceber quais as verdadeiras condições. Os dias avançam, o desgaste aumenta, a equipa deixa de ter um papel tão activo. Na montanha, Schleck e Contador disputam a vitória final no Tour. Tudo o resto é secundário, quem os passa, quem se isola, quem ganha metros para ser feliz. Até mesmo quem ganha a etapa. É na luta pela camisola amarela que será vestida em Paris, o máximo de cada ciclista, que mais interessa. Nos Pirinéus, aos poucos, Contador foi recuperando tempo. Fê-lo, pela primeira vez, na décima segunda etapa: atacou forte, testou a capacidade de resposta de Andy Schleck e, em bom plano, ganhou dez segundos preciosos. O tempo que o luxemburguês lhe conquistara na jornada de pavé.

Alberto Contador é um ciclista explosivo, forte e, sempre que bem preparado, muito difícil de anular na montanha. Tem frieza, nervos de aço, matreirice. Os quarenta e um segundos de atraso para Andy Schleck nunca foram, na perspectiva do espanhol bivencedor do Tour, em 2007 e 2009, desanimadores. Pelo contrário: Contador é mais forte no contra-relógio e, se chegasse à penúltima etapa com um atraso semelhante, teria todas as condições, em teoria, para sair por cima. Também na montanha, onde ele e Andy Schleck se equivalem, teria que aproveitar o momento certo e procurar, pelo menos, encurtar ainda mais a distância. A marcação cerrada, incessante e fria entre Contador e Schleck, dois rivais que se respeitam e conhecem o valor que possuem, foi uma constante na escalada até Ax 3 Domaines, na décima quarta etapa. Alberto Contador precisava que Andy Schleck quebrasse. Ou tivesse alguma infelicidade.

AZAR E SORTE: ELEMENTOS SEMPRE PRESENTES


Apesar de liderar, Andy Schleck teria de procurar ganhar tempo na montanha. Teria de atacar, testar, colocar Contador à prova. Na décima quinta etapa, como na véspera, houve muita táctica entre os dois. Anularam-se, impediram ataques, estiveram em alerta máximo. Andy Schleck, confiante e capaz, procurou isolar. Alberto Contador, atento, seguiu-o de pronto. Foi, no fundo, apenas uma tentativa de perceber se o rival se encontrava preparado. Estava mesmo. A armada de Schleck, aproveitando um mau posicionamento de Contador, repetiu-se: o ciclista luxemburguês da Saxo Bank arrancou forte, num ritmo vigoroso e pujante, destacando-se do grupo em que seguia. Desta vez poderia causar danos. Um azar, tremendo e atroz, impediu-o: a corrente da sua bicicleta saltou, deixou-o parado e Contador, levando Samuel Sánchez e Denis Menchov, também perseguidores na geral, impuseram-se e passaram ao ataque.

Andy Schleck deixou, num ápice, uma posição privilegiada para ficar numa missão impossível de lutar contra o relógio. É irónico, sim, mas Contador, o seu rival, aproveitou o endurecimento do ritmo causado pelo próprio Schleck. No azar do ciclista luxemburguês da Saxo Bank, Alberto Contador, ultrapassando Alexandre Vinokourov, seu companheiro na Astana, acompanhado dos mais directos perseguidores, Sánchez e Menchov, procurou ganhar o máximo tempo possível. O ciclista espanhol, antes com trinta e um segundos de atraso, cortou a meta em sétimo. Andy Schleck fez de tudo para recuperar, minimizar a perda até, mas chegou com um atraso de três minutos e meio em relação a Thomas Voeckler (BBox-Bouygues Telecom), vencedor da etapa, e, sobretudo, mais oito segundos do que Contador. A ordem está, agora, invertida: o espanhol lidera, o luxemburguês terá de atacar forte na montanha para recuperar.

A polémica instalou-se. Os assobios ouvidos quando Alberto Contador subiu ao pódio, preparado para vestir a camisola amarela, são um exemplo concreto. Tendo em conta o azar de Andy Schleck, porque foi disso mesmo que se tratou e não de uma quebra física, deveria o espanhol ter esperado pelo seu rival? Há quem diga que sim, que se tratou de uma atitude antidesportiva e que Contador, antes de atacar para aproveitar o problema mecânico de Schleck, deveria ter recordado o Tour de France de 2003, quando Jan Ullrich esperou por Lance Armstrong. Por outro lado, contudo, tratou-se de uma oportunidade de ouro para assumir a liderança, marcar territótio e, muito provavelmente, dar um passo decisivo rumo à conquista do seu terceiro Tour. Poderia Contador ter esperado? Sim. Mas atacou, pensou em si, procurou ganhar e viu no azar de Andy a sua sorte. Pode-se criticar, sim, mas nada, a não ser a ética do ciclismo, o impede.

A PRESENÇA GAULESA NAS ETAPAS E NA MONTANHA

Sem possuir um ciclista com condições para discutir a luta pela vitória no Tour de France, algo que não acontece desde o último triunfo de Bernard Hinault há vinte e cinco anos, o ciclismo francês procura mostrar-se nas vitória de etapas.
Esse objectivo tem sido conseguido. Na primeira semana de prova, Sylvain Chavanel (Quick-Step) venceu por duas vezes, conseguindo vestir a camisola amarela. Sandy Casar (Française des Jeux) triunfou na nona etapa, na chegada a Saint-Jean-de-Maurienne, superiorizando-se ao grupo em que seguia. Nos Pirinéus, com duas etapas duríssimas que provocaram mudanças na classificação geral, voltaram a ser ciclistas franceses a vencer: Christophe Riblon (AG2R La Mondiale) triunfou na décima quarta etapa e, no dia seguinte, foi a vez de Thomas Voeckler, campeão francês e ciclista da BB-Box. John Gadret, companheiro de Riblon, é, no décimo nono posto, o francês mais bem colocado.

O domínio gaulês sentido nas etapas da segunda semana do Tour de France 2010 foi interrompido durante quatro dias. Na etapa seguinte à vitória de Sandy Casar, no dia da tomada da Bastilha, Sérgio Paulinho (Radioshack) triunfou e impediu que os franceses, no seu feriado, pudessem sorrir. Seguiu-se uma vitória de Mark Cavendish (HTC-Columbia), a sua terceira, que se impôs no sprint da décima primeira etapa - está, contudo, longe da discussão da camisola verde, disputada de forma acérrima por Alessandro Petacchi (Lampre) e Thor Hushovd (Cervélo), com vantagem para o italiano. Joaquín Rodríguez, ciclista da Katusha, superou Contador no sprint a dois no final da etapa doze, ao passo que o regressado Alexandre Vinokourov (Astana), ultrapassado pelo seu líder na véspera, conseguiu isolar-se, surpreendendo as equipas que pretendiam uma chegada compacta, para alcançar a vitória na décima terceira tirada.

Na classificação de montanha, também os franceses dominam. Anthony Charteau, ciclista da BB-Box Bouygues Telecom, mantém-se, após a décima quinta etapa, como o rei dos trepadores. Seguem-se, nessa classificação, mais dois franceses: Jerôme Pineau (Quick-Step), que tem dividido com o compatriota esta liderança, e ainda Thomas Voeckler (companheiro de Charteau na BB-Box). Há, neste momento, uma diferença de vinte e três pontos entre primeiro e segundo classificados, porém esta é uma classificação que está bem longe de decidida, pois ainda existirão etapas importantes de montanha com muitos pontos em disputa. Andy Schleck (Saxo Bank) e Alberto Contador (Astana), embora não façam da montanha um objectivo prioritário, também se aproximaram dos primeiros lugares e podem ter aspirações legítimas a conseguir, em Paris, serem coroados como melhores trepadores. Será, sempre, uma consolação.

Made in England: A chegada de Joe Cole a Anfield Road

Um dos jogadores ingleses mais desejados deste Verão já encontrou clube. Joe Cole era pretendido por nada mais nada menos do que Tottenham, Arsenal, Manchester United, AC Milan e Valência, para além do Liverpool que acabou por levar a melhor. O jogador juntou-se aos reds, que estagiam na Suíça, para fazer os habituais testes médicos, depois de ter tido uma conversa com o treinador Roy Hodgson, também ele um recém-chegado a Anfield Road. Joe Cole encontrava-se livre após terminar, no início de Julho, sua ligação de sete anos, bem-sucedidos, com o Chelsea - tornando-o por isso bastante apetecível.

De todos os candidatos que surgiram na rota de Joe Cole, foi o Liverpool quem lhe ofereceu as melhores condições salariais: £90 000 por semana. O internacional inglês de vinte e oito anos chegou a acordo com os reds e irá assinar um contrato válido para as próximas quatro temporadas. Joe Cole esteve presente no Mundial da África do Sul sem ter jogado muito. Fabio Capello, seleccionador inglês, não apostou no seu contributo, embora fosse um dos mais desejados pelos adeptos, que nutrem por ele um grande afecto. Não se compreende que o Chelsea, o clube do milionário Roman Abramovich, o tenha deixado sair a custo zero.

Consuma-se assim a primeira contratação de Roy Hodgson, um veterano que assumiu a liderança dos destinos do Liverpool, apostando no futebol de qualidade que caracteriza Joe Cole.

MADE IN ENGLAND é um espaço quinzenal, assinado por Armando Vieira, sobre o futebol inglês

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Frank Lampard e Carlos Tévez: Tecnologia, rápido!

A Alemanha começou forte. Mandona e controladora dos ritmos. Jogou, atacou e marcou: dois golos antes da meia-hora, resultado bem encaminhado, com uma Inglaterra atordida, surpreendida e obrigada a esforçar-se para anular a vantagem alemã. Os ingleses reagiram bem, o segundo golo fez soar o alarme, esperaram cinco minutos para, num golpe de Matthew Upson, relançarem o jogo. E poderia, logo após, ter vindo o empate. Frank Lampard rematou de longe, em jeito, a bola bateu na trave e entrou. Jorge Larrionda e o assistente entenderam que não. A Inglaterra morreu aí e a Alemanha partiu, confiante, para uma exibição de gala.

Argentina e México. Um apuramento natural de uma selecção em busca do estatuto perdido e uma surpresa. Dois rivais. O primeiro grande teste de Diego Armando Maradona, no limbo, nos jogos a eliminar, onde os erros são proibidos e não há saída possível: só matar ou morrer. Carlitos Tévez, oportuno e matreiro, foi o primeiro a marcar. E logo festejou. Os mexicanos correram em protesto. Roberto Rosetti olhou para o árbitro assistente, consultou-o, rodeado de equipamentos verdes e apontou para o centro. Tévez estava adiantado. Demasiadamente adiantado, talvez um metro, para conseguir escapar. O golo, no mesmo dia do de Lampard, contou.

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domingo, 18 de julho de 2010

Luis Suárez e Asamoah Gyan: O céu e o inferno

Último minuto do prolongamento. Uruguai e Gana, surpresas da competição, em igualdade. Jogo decisivo para a passagem às meias-finais, um vencedor por apurar, desse por onde desse, nessa noite. Os ganeses, único representante africano, dispõem de um livre. Tem que ser ali, caso contrário só nas grandes penalidades. A equipa sobe, o Uruguai fecha-se. Bola na área, perigo iminente para Fernando Muslera, à espera de um desvio precioso, chance que não se desperdiça. Luis Suárez, herói dos golos uruguaios, trava a bola. Por duas vezes. Na última, com a mão. A chamada mão do diabo.


Asamoah Gyan, estrela ganesa. Um remate certeiro seria muito mais do que um simples golo: a primeira vez que uma selecção africana quebraria a barreira dos quartos-de-final. Gyan tem crédito. Confia em si e sabe que tem o peso de um continente sobre os seus ombros. Respira, olha para Muslera e dispara. A bola bate na trave, com estrondo, saindo para a bancada. O Uruguai festeja, é afortunado e consegue ganhar na lotaria das penalidades. Gyan desespera. Desceu ao inferno. Suárez ficou como herói uruguaio.

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sábado, 17 de julho de 2010

Maradona e Domenech: Os extremos da paixão

Diego Armando Maradona regressou, dezasseis anos depois, a um Mundial. Deixou o equipamento e vestiu o fato. Manteve a paixão. É um homem de amor ou de ódios. Provocador, irreverente, desconcertante. Beija os jogadores, grita no túnel, assume o papel de líder, não se esconde, enfrenta quem o desafia como quando levava a bola colada no pé esquerdo, une os seus jogadores em torno da pátria. A sua Argentina joga com alegria, descomplexada e gosta de espectáculo. Só que tem ingenuidade. A ingenuidade de Maradona, um jogador genial que nunca irá ser um verdadeiro treinador.

Sisudo, triste, sozinho e impotente de encher o peito e lutar contra as adversidades. Incapaz de criar empatia, repleto de inimigos e sem um sorriso que seja para animar os seus jogadores. A França viveu um pesadelo no Mundial 2010. Raymond Domenech, o treinador que mais anti-corpos terá criado, mesmo tendo sido vice-campeão mundial há quatro anos, é a principal imagem. O futebol dos franceses, sem chama e sem ponta de alegria, reflecte a postura do treinador gaulês. Os problemas que surgiram em catadupa, colocando a França numa posição ridícula, foram naturais. Tristes mas naturais.

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Opinião: A essência do futebol de Diego Armando Maradona



Um beijo, um grito e uma palmada nas costas. Diego Armando Maradona, sem os calções negros a baloiçar, sai em direcção ao relvado. Caminha devagar, mais robusto, bem mais, e com uns anitos passados. Não tem o fio de ouro ao pescoço. Usa uma gravata. Tem o fato completo, cinzento, aparece vestido de gala, nada condizente com ele. Parece outro. A fé mantém-se: uma pequena pulseira, com uma cruz, está enrolada na mão. E dois relógios, um em cada pulso. Passa a mão pela barba, negra e branca, olha para o relvado e espera o apito do árbitro. Está, outra vez, onde se sente bem. A sua vida é aquilo. Sente-se como há vinte anos, com a mesma força, a mesma alma guerreira. Mas agora não joga. É o seleccionador. E quer que os seus jogadores, os meninos que lidera, sintam a camisola e deixem tudo em campo por ela.

Para Maradona, o futebol é simples. Não tem que enganar. Rejeita tácticas, observações, frases-feitas ou pragmatismo. Para ele, o futebol é pegar na bola, correr, encantar os adeptos, fazê-los levantar das cadeiras, tocar curto e marcar. Foi assim que ele, tantas vezes, resolveu. A sua Argentina, a Argentina que agora comanda, não pode fugir a esse padrão. O futebol argentino é assim: toca, passa, corre, cruza e marca. Aproxima-se da essência do jogo. E é apelativo. Mas, na maioria das vezes, ineficaz. Para que resulte bem, para que a arte do futebol se junte aos resultados, é necessário um enorme trabalho. Técnico, táctico, de entrosamento, de colocação das peças. Isso, para Maradona, não existe. O futebol visto por El Pibe não se cola a um jogo de xadrez. Aí, sim, há grande cuidado ao mover as peças. Em futebol, só talento e uma bola.

Foi com muito talento e uma bola que Diego Armando Maradona conseguiu ser imortal. Só ela lhe interessava. O jogo de equipa era importante, sim, mas quando não resultava, Diego, na sua magia, sobressaía. A Argentina ia consigo. O tempo passou, deixou-o fora dos relvados, mas não pode ter mudado assim tanto o jogo. Para ele, pelo menos, está na mesma. A pureza do futebol é transportada para a equipa, escolhe os que julga melhores, em quem se revê, recua no tempo e imagina-os no seu lugar. Tem bons jogadores e o resto é fácil: colocá-los no campo, uni-los, incutir o espírito de luta e de ambição para recolocar a Argentina no trono mundial e esperar que façam o que de melhor sabem. Se o conseguirem, se estiverem ao seu nível máximo, tudo sairá bem. A Argentina terá sucesso, deixará os adversários para trás, ganhará.

A mentalidade de Maradona é essa. Aproxima o futebol dos seus princípios. E tem toda a ingenuidade. Maradona desespera quando vê a sua Argentina, desnorteada e sem fio de jogo, ser engolida pela Alemanha. Não percebe o que ali se passa. Se ali estão os melhores jogadores, se são destacados pela sua qualidade, o que não resulta? Por que não resulta como, com ele, no México? Para Maradona, o treinador, a resposta é uma incógnita. Ele, afinal, usou a mesma fórmula que o levou ao sucesso. Procurou, no banco, fazer com que outros assumissem o seu papel. Só que o tempo corre. Há evolução. O Mundial do México, onde El Pibe subiu ao pedestal, foi já há vinte e quatro anos. O futebol pouco tem de parecido. Mudou. Deixou de ser ganho por quem joga com mais qualidade. Passou a ser trabalho de laboratório.

É essa nova forma de jogar futebol que Maradona, por mais que tente, nunca conseguirá entender. O seu jogo não tinha nada daquilo: era inspiração, suor, corrida e muito talento à solta. Só que o futebol, hoje, é mais do que isso. Diego Armando Maradona representa o futebol na sua essência, naquele jogo vibrante, com clique de génio, aproxima-nos quase do que se joga nas ruas, sem complexos. Maradona jogava por prazer, por amor, por gostar do que fazia. Esse trabalho de união está reflectido nos jogadores. Esta selecção argentina representou uma verdadeira família. Mas de que vale isso se o mais importante na actualidade, a preparação e a leitura do jogo, fica esquecida? Poderia ser mais do que suficiente há algumas décadas. Agora, claro, não chega. Os rivais estão preparados. A falta de um rumo colectivo definido sente-se.

Maradona lá está na sua área técnica. Ou, melhor, na área reservada aos treinadores. Aquela nunca será a sua casa. Anda de um lado para o outro, passa a mão pela barba, vê poucas soluções mas ainda confia. O seu frágil meio-campo, com Mascherano entregue a si mesmo, perante uma enchente alemã, fora triturado. A partir daí, com pressão e posse de bola, a Alemanha dominou o jogo. Há organização, disciplina, trabalho táctico. A Argentina tem coração, garra, querer. Falta tudo o resto. Maradona incentiva, puxa pelo orgulho dos jogadores, é um verdadeiro patriota. Acredita nos seus meninos. Só que o jogo está há muito decidido. Os argentinos estão desorganizados, sem rei nem roque, esperando que as individualidades resolvam. O colectivo nunca existiu. A derrota cai como uma bomba. Mas é natural.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

97º Tour de France: A emergência de Sérgio Paulinho

Nestes casos importa começar pelo fim: Sérgio Paulinho venceu a décima etapa da nonagésima sétima edição do Tour de France. O ciclista da Radioshack tornou-se no quarto português a vencer na Grande Boucle, depois de Joaquim Agostinho (por cinco vezes), Paulo Ferreira (uma) e Acácio da Silva (três). O corredor português quebrou, além disso, um interregno de vinte e um anos, o tempo que passou desde que, num contra-relógio inicial realizado no Luxemburgo, Acácio da Silva venceu e conquistou, pela única vez no historial das participações de ciclistas portugueses na principal prova do pelotão internacional, a camisola amarela. Mais solto devido ao facto de Lance Armstrong, seu líder na equipa norte-americana, ter já perdido todas as possibilidades de discutir a vitória na competição, Sérgio Paulinho entrou na fuga do dia, geriu o seu esforço, trabalhou, atacou no momento certo e ganhou ao sprint. Por centímetros.

Sérgio Paulinho é um ciclista de grande valor. Foi escudeiro de Alberto Contador e agora acompanha Lance Armstrong. Ganhou notoriedade pela medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas. Está habituado a viver junto dos melhores. Não é um candidato a vencer, a estar nos primeiros lugares ou a ser o mais espectacular. Sérgio Paulinho é um trabalhador, um operário, um dos responsáveis pela defesa do líder e pelas tarefas mais duras. Não importa a classificação, os muitos minutos de atraso para o topo ou o lugar final. A Sérgio Paulinho apenas é cobrado o trabalho que realiza em prol da equipa. Se for bem-sucedido, se proporcionar todas as condições para que os seus companheiros ganhem, terá sucesso. É aí que está o seu barómetro. Nunca no destaque que tem por entrar em fugas ou por ser explosivo nos ataques. Desgasta-se, sofre, dá tudo o que pode. O maior protagonismo fica de lado.

O azar de uns é a sorte de outros. No Tour de France de 2010, a missão de Sérgio Paulinho, como Yaroslav Popovych ou Chris Horner, por exemplo, sempre passou por levar Lance Armstrong, líder da Radioshack, à sua oitava vitória na prova. Lance ficou arredado de uma nova conquista na primeira semana. Por infortúnio, devido a problemas mecânicos no pavé e duas quedas na principal etapa dos Alpes, e também por ter sentido o peso da sua veterania, o norte-americano viu a distância, abissal, deixá-lo de fora das contas da classificação geral. O objectivo de Lance Armstrong, mas também de toda a equipa, falhou. Levi Leipheimer, o ciclista mais bem colocado da Radioshack, no sexto lugar, passou a ser o novo líder. Abriu-se, com isso, uma janela de oportunidades. A táctica mudou. Leipheimer não é Armstrong. Ciclistas como Sérgio Paulinho, antes de corpo e alma no auxílio ao líder, puderam ambicionar sair da sombra.

Entendimento e consentimento: são duas características essenciais para que uma fuga resulte. Terá de haver, antes que tudo, uma boa ligação entre os elementos do grupo que saltaram do pelotão - grande entreajuda e estratégias que permitam, a cada elemento, fazer a melhor gestão do esforço. Depois, sem que os fugitivos possam fazer muito sobre isso, é necessário que o pelotão permita que os ciclistas que estão isolados consigam levar a sua vantagem até final. A décima etapa do Tour foi perfeita para uma fuga rumo à vitória: dia para recarregar baterias, depois de um desgaste brutal em alta montanha, com subidas complicadas mas sem a dureza das últimas tiradas, com um ritmo controlado pelo pelotão - sem investidas para atacar a classificação geral ou procurando uma chegada em compacto, que permitiu que o grupo de fugitivos ganhasse margem de manobra. Sérgio Paulinho tinha que aproveitar.

A fuga resultara na perfeição. A vantagem, impossível de ser recuperada pelo pelotão, sempre num ritmo sereno e sem preocupações, chegou aos doze minutos. Era momento de atacar. De encontrar uma oportunidade, morder a língua e querer ser feliz. Dries Devenyns, belga da Quick-Step, foi o primeiro a tentá-lo. Vasil Kiryienka segui-o, acompanhado de Sérgio Paulinho. As duas equipas, Caisse d'Epargne e Radioshack, disputam também a liderança colectiva. A presença do ciclista português deveu-se, em parte, à presença do bielorrusso. Um jogo do gato e do rato. Fortes, ganhando vários segundos, Kiryienka e Paulinho passaram para a frente. E posicionaram-se para a vitória. No dia de França, na comemoração da tomada da Bastilha, o ciclista português libertou-se e arrancou para a meta. Ganhou, à justa, no sprint. Um triunfo histórica, saboroso e muitíssimo importante: para o ciclista, para a equipa e para Portugal.

ANDY SCHLECK E ALBERTO CONTADOR: O DUELO DO DIA ANTERIOR

Ao nono dia, depois da segunda etapa em plenos Alpes, a vitória no Tour de France 2010 ficou reduzida a um duelo. Alberto Contador (Astana) e Andy Schleck (Saxo Bank), os dois primeiros da edição do ano passado, ganharam tempo a todos os rivais, atacando forte e pulverizando os tempos que os mantinham atrás dos primeiros lugares. Depois de uma sensacional vitória na última etapa antes do descanso, Andy Schleck voltou a destacar-se, explodindo e deixando grande parte dos rivais sem resposta. Alberto Contador, titubeante na última vez, acompanhou o luxemburguês. Formaram um duo, o duo de candidatos. Montanha acima, em parceria, ganharam minutos fulcrais e fixaram-se nos primeiros lugares: Andy Schleck assumiu a liderança, com quarenta e um segundos de vantagem sobre Contador. O anterior líder, Cadel Evans, destroçado e vencido, cortou a meta a chorar. Oito minutos de atraso pesam. E supreendem.

Andy Schleck vive o seu melhor momento de forma. Mais forte do que na edição do ano passado, mais experiente, o luxemburguês, bem apoiado pela equipa da Saxo Bank - mesmo tendo perdido, logo no início, o irmão Frank -, anseia pela sua primeira vitória no Tour. Alberto Contador, apesar de ter parecido sentir algumas dificuldades no ataque de Andy Schleck na oitava etapa, respondeu bem após o descanso, juntando-se ao seu principal para ambos se destacarem de todos os outros. A luta será entre ambos - ao fim de nove etapas era de todo inesperado que a discussão da vitória final se limitasse a dois corredores. E há, ainda, a ausência de Lance Armstrong nas contas da classificação geral. O norte-americano viveu um dia infernal na primeira etapa dura nos Alpes e é, actualmente, sobre Levi Leipheimer que recaem as principais esperanças da Radioshack. A resposta de Lance, ao nono dia, foi positiva.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mundial 2010 de A a Z - Segunda Parte

DAS NOVAS TECNOLOGIAS AO NÚMERO ZERO

N: Novas Tecnologias.

A introdução das novas tecnologias no futebol é um tema extenso, polémico e repetido. O argumento mais utilizado para as negar prende-se com a paixão: com a sua utilização, tornando o futebol menos emotivo e mais exacto, o jogo poderá sentir duras mudanças. O Mundial da África do Sul foi um verdadeiro teste à resistência da FIFA. Um remate de Frank Lampard, que daria o empate à Inglaterra no jogo com a Alemanha, que Jorge Larrionda não validou e um tento de Carlitos Tévez em claro fora-de-jogo foram, num só dia, dois golpes profundos no conservadorismo de quem tutela o futebol. A mentalidade está, agora, a mudar. Sim ou não?

O: Olegário Benquerença.
Foi o oitavo árbitro português a marcar presença num Campeonato do Mundo. Dois era o máximo de jogos dirigidos. Olegário ultrapassou essa marca: esteve em três encontros, dois da fase de grupos e outro dos quartos-de-final, assumindo cada vez mais um papel de relevo no principal rol de árbitros europeus. Sóbrio, consistente, sem encontrar complicações e também sem querer ser protagonista, Olegário Benquerença superou as expectativas e deixou, juntamente com José Cardinal e Bertino Miranda, a arbitragem portuguesa bem representada e com caminho aberto a uma nova convocatória. Esteve no jogo mais dramático do Mundial 2010: Uruguai-Gana.

P: Paul, o polvo.
Nasceu em Inglaterra e mora num aquário alemão. Não se sabe se gosta ou não de futebol. O que é certo é que ganhou um lugar no Mundial 2010. É um polvo como qualquer outro. Só com uma diferença: adivinha os resultados. Por viver na Alemanha, os responsáveis do aquário decidiram arriscar. Colocam-se duas caixas, uma com a bandeira alemã e outra com a bandeira do adversário, para que Paul decida. Nos seis jogos realizados pela Alemanha, incluindo a surpreendente derrota frente à Sérvia, na segunda jornada da fase de grupos, acertou. Fez mais duas previsões: a Alemanha seria terceira e a Espanha campeã. Mesmo em cheio, Paul!

Q: Quedas.
Com estrondo. Campeão e vice-campeão mundiais nunca haviam deixado um Mundial na fase de grupos. Aconteceu na África do Sul: Itália e França, os dois primeiros do último Campeonato do Mundo, caíram, estrondosamente, sem honra nem glória. E, além disso, sem somar qualquer vitória, em grupos teoricamente acessíveis. Os italianos pagaram pelo pragmatismo, pela procura do mínimo esforço e pela falta de alegria com que jogaram. Perderam pelo postura cínica que tantas vezes resultou. Na selecção francesa, numa caricatura daquilo que é a França, tudo correu mal. Birras com Raymond Domenech, greve aos treinos, ar carrancudo e profundo desalento.

R: Reconhecimento
Thomas Müller apareceu no Bayern de Munique, há duas temporadas, com Jürgen Klinsmann. Poderia ter sido um jovem, como tantos outros, a orgulhar-se de ser chamado à equipa principal. Não ficou por aí. Thomas tem talento, genialidade e muita ambição de triunfar. Louis Van Gaal tornou-o num indiscutível. Na selecção germânica, onde se destacou com Mesut Özil ou Manuel Neuer, o atacante de vinte anos foi um dos principais rostos da boa caminhada. Não deu para ganhar, sim, mas o terceiro lugar fica como consolação. Thomas Müller, número treze como Gerd, o Bombardeiro, ganhou o prémio para melhor jovem. Perfeito para coroar o seu brilharete.

S: Sul.
África do Sul recebeu o primeiro Campeonato do Mundo realizado em solo africano. Nos relvados, contudo, a equipa liderada por Carlos Alberto Parreira demonstrou muita ingenuidade e tornou-se no primeiro anfitrião a ficar-se pela fase de grupos - a vitória sobre a França, a terminar, foi um bálsamo. A América do Sul teve, durante o período inicial, um largo ascendente. Todas as selecções conseguiram o apuramento para os oitavos-de-final: Brasil e Argentina, favoritos, Uruguai e Paraguai, surpresas, e também Chile, a única equipa sul-americana apurada em segundo lugar, atrás da Espanha. No entanto, nas eliminatórias, a Europa impôs-se.

T: Tiki-taka.
Passa, repassa, toca, circula e gira. A bola não pára nunca. O objectivo é preservá-la, progredir e com isso ir empurrando o adversário para a sua área. O tiki-taka do Barcelona, naquele carrossel futebolístico que parece perfeito, foi a inspiração para Don Vicente del Bosque: dá resultados, é bonito, muitos dos artistas são os mesmos e, por isso, só há que o aproveitar e explorar. Em tiki-taka, passe para aqui e passe para ali, a Espanha venceu o Mundial. Mesmo não sendo deslumbrante. Massacrou em posse de bola, encostou o rival às cordas, faltou-lhe apenas poder de fogo. Apesar dos cinco golos de David Villa, foi o campeão que menos marcou.

U: Uruguai.
Raça, suor, sacríficio, dentes cerrados e muita luta. Assim se construiu o sucesso uruguaio. O Uruguai apresentou uma equipa forte, liderada por Óscar Tabárez, onde houve espaço para estrelas como Forlán ou Suárez emergirem. Ultrapassou bem a fase de grupos e suou para derrotar a Coreia do Sul, nos oitavos-de-final, antes de dar largas ao sonho. O seu último título, o segundo que conquistaram, foi há já sessenta anos. E há quarenta que não estão numa final. Ainda não foi desta mas deixaram uma bela imagem. Difíceis de quebrar, com alma e coração, ganharam um lugar honroso e foram a selecção sul-americana que chegou mais longe.

V: Vuvuzelas.
Antes do Mundial poucos saberiam o que era. A moda pegou: em cada canto, num estádio sul-africano ou numa avenida portuguesa, a vuvuzela fez parte da vida dos adeptos. Tem um som característico, instrumento adorado pelos africanos e uma perturbação enorme para jogadores, treinadores e, até, adeptos. É profundamente irritante. Mas, ao mesmo tempo, sinal de festa. Repudiadas por quase todos, acusadas de desconcentrações, as vuvuzelas marcaram o Campeonato do Mundo. Do princípio ao fim, do primeiro ao último minuto, lá estiveram presentes. Os árbitros, imunes ao som, foram os únicos que não se queixaram. Terá a praga alastrado?

W: Webb.
Howard Melton Webb, natural de Yorkshire, foi o escolhido para dirigir a final do Mundial da África do Sul. O último árbitro inglês a estar presente no mais decisivo jogo de um Campeonato do Mundo fora, em 1974, Jack Taylor. Howard Webb estava, por essa altura, a uma semana de completar dois anos de idade. Trinta e seis anos depois, também com a Holanda pelo meio, Webb quebrou esse interregno e atingiu o pico da sua carreira: dois meses antes do Mundial, estivera na final da Liga dos Campeões. Tornou-se no quarto inglês a arbitrar a final de um Mundial. Contudo, apesar de ser actualmente o número um, o jogo não lhe correu de feição.

X: Xavi
Xavi Hernández não é um jogador de loucuras. Não pega na bola, colada ao pé, arranca em velocidade, finta todos os adversários que lhe surgem pela frente e marca um golaço. Xavi é como Iniesta: pensador, cerebral, encarregue de fazer girar a equipa. Sabe perfeitamente as suas funções, conhece-se acima de tudo e joga com inteligência. O que tem que fazer, faz. E bem. Guarda a bola como ninguém, foge dos adversários, passa com visão periférica e aparece no momento certo para voltar a receber a bola. Trabalha, funciona como equilíbrio e constrói para que outros finalizem. O futebol é um trabalho de equipa. Xavi é quem faz o carrossel girar.

Y: Yes, they can.
A frase original, com we em vez de they, ficou popularizada na campanha de Barack Obama rumo à presidência dos Estados Unidos da América. Os norte-americanos procuravam um novo líder, com outras ideias e capaz de quebrar com a tradição imposta. Na África do Sul, um país que pareceu impreparado para receber um evento da envergadura de um Mundial, houve suspeição, desconfianças e medo. Os primeiros sinais que chegaram, com insegurança e algum amadorismo, não foram positivos. Mas à medida que o Mundial foi decorrendo, África do Sul fez por merecer ter as estrelas junto de si. Com paixão, fervor e entusiasmo, deu o seu melhor.

Z: Zero.
Portugal e Uruguai foram as únicas duas equipas que conseguiram terminar a fase de grupos sem golos sofridos. Do mérito português, todo ele assente numa defesa consistente e concentrada, destaca-se Eduardo. O guarda-redes do Sp.Braga, olhado com desconfiança antes do Mundial, emergiu, ganhou destaque e foi, a par de Fábio Coentrão, o melhor jogador da selecção portuguesa. Enérgico, incentivador e guerreiro, sobretudo com a Espanha, Eduardo afirmou-se como dono da baliza nacional. Sofreu apenas um golo, na eliminação, onde foi heróico e acabou destroçado. Zero foi também o número de pontos de Argélia e Coreia do Norte.

Mundial 2010 de A a Z - Primeira Parte

DE ANDRÉS INIESTA À MANNSCHAFT

A: Andrés Iniesta.

Sóbrio, discreto e empenhado. Iniesta tem vinte seis anos, parece ter mais, e fez toda a sua carreira no Barcelona. Cresceu, formou-se e ganhou prestígio em Camp Nou. Sem levantar ondas, sem fazer birras, apenas cumprindo o seu trabalho com dedicação. É, juntamente com Xavi, um dos principais responsáveis pelo funcionamento do carrossel triunfante e envolvente do Barça. Também da selecção espanhola. Sempre em crescendo, no Mundial 2010, atingiu o ponto máximo na final. Faltavam quatro minutos para o final do prolongamento quando recebeu a bola de Fàbregas e, com classe e frieza, rematou certeiro. Imortalizou-se. E Espanha ganhou.

B: Brasil.
Uma busca desenfreada pelo hexacampeonato mundial. Depois do fracasso na Ásia, somente chegando aos quartos-de-final, a selecção brasileira, com Dunga, recuperou o seu poder, as vitórias internacionais e lançou-se para a linha da frente na conquista do Mundial da África do Sul. Jogando sem encantar, adoptando um estilo mais europeu, com maior pragmatismo e cautela em detrimento da pura genialidade brasileira, o escrete falhou. Nunca mostrou realmente o seu valor, limitou-se a cumprir os mínimos. Passou comodamente a fase de grupos e eliminou o Chile antes de encontrar a Holanda. Frente à Laranja, o Brasil não teve forças. E caiu com culpa própria.

C: Cabazada.
Ganhar por sete golos é um resultado que já não se usa. Fazê-lo num Campeonato do Mundo, na maior prova de selecções, é ainda mais inusitado. Portugal conseguiu-o: no seu segundo jogo, frente à Coreia do Norte, a equipa portuguesa mostrou gula, enorme vontade de ser feliz e eficácia, derretendo com sete golos à frágil e dócil selecção norte-coreana. O resultado, pesado mas identificador das desigualdades existentes entre as duas equipas, entrou para as galerias e estabeleceu a vitória mais avolumada do Mundial da África do Sul. Em nenhum outro jogo se marcaram tantos golos. E, dificilmente, a marca será superada nos tempos mais próximos.

D: Diego Armando Maradona.
Dezasseis anos depois. A última vez que El Pibe aparecera num Mundial fora nos Estados Unidos da América. Na África do Sul, voltou. Sem os calções a baloiçar, sem o fio ao pescoço, sem a mesma condição física. Regressou na pele de treinador: fato, barba negra e branca, um relógio em cada pulso e uma pulseira com uma medalha enrolada na mão. Com a mesma alma, a mesma vontade e a mesma fé de antes. Maradona foi um líder, um comandante, uniu o seu grupo e colocou-o no relvado à sua medida, jogando por prazer, voltando à essência do futebol. Só que El Pibe nunca será um estratega, um táctico. Nunca será treinador. A Argentina sentiu-o.

E: Eclipse.
Ronaldo, Messi, Rooney e Kaká. Quatro jogadores majestosos, a nata do futebol mundial, que estiveram em eclipse na África do Sul. De Ronaldo e Messi, principalmente, espera-se tudo: que defendam, que corram, que driblem, que assistam e que marquem. Por Portugal e pela Argentina, as suas selecções, pouco fizeram. Messi ainda deu um ar da sua graça nos primeiros jogos, Ronaldo conseguiu marcar um golo insólito. É muito pouco. Também de Rooney e de Kaká, estrelas da Inglaterra e do Brasil, pouco se viu. As duas selecções, favoritas, ficaram longe do que poderiam ter feito. Fernando Torres, avançado espanhol, é outro exemplo. Só que com final feliz.

F: Forlán.
Com as principais estrelas em eclipse, pouco demonstrando no Mundial, emergiram outras figuras. Diego Forlán, avançado uruguaio, foi a principal. E, por isso, reconhecido como o melhor jogador deste Campeonato do Mundo. Numa selecção surpreendente, com um colectivo fortíssimo e uma entrega total ao jogo, houve lugar para que Forlán, a principal estrela do futebol do Uruguai, se destacasse, num belo seguimento da temporada que realizara no Atlético de Madrid. Esteve nos sete jogos da celeste, marcou cinco golos e nunca se escondeu quando foi necessário. Sobretudo a Diego Forlán, tal como a Luis Suárez, os uruguaios estarão eternamente gratos.

G: Gyan.
O Gana, repetindo a proeza de Camarões e Senegal, em 1990 e 2002, chegou aos oitavos-de-final do Mundial. Esse era o ponto máximo para as selecções africanas: nunca nenhuma havia passado daí. O decisivo jogo com o Uruguai, nos quartos-de-final, terminou empatado. Houve prolongamento. No último minuto, Asamoah Gyan, maior estrela ganesa que demonstrou ter capacidade para chegar mais alto na sua carreira, dispôs de uma grande penalidade. Teve fé, confiança, carregou o peso de um continente esperançado no sucesso do seu único representante. A bola esbarrou na trave. Gyan desesperou. O Uruguai, depois, ganhou na lotaria.

H: Holanda.
Esta Holanda não é a Laranja Mecânica de Johan Cruyff. Nem conta com estrelas como Ruud Gullit ou Van Basten que marcaram presença no título europeu de oitenta e oito. A selecção holandesa, comandada por Lambertus Van Marwijk, quase desconhecido antes do início do Mundial, reapareceu bem, suportada por Wesley Sneijder e Arjen Robben, mostrando valor e futebol ofensivo. Superou as expectativas, galgou terreno, deixou o papão Brasil pelo caminho e chegou à final com mérito. Perdeu-a. Como perdera as outras duas, em 1974 e 1978, em que participara. Pela primeira vez neste Mundial, seis jogos passados, foi derrotada. Fatalmente.

I: Irreverência.
Tem ambição, coragem, confiança nas próprias capacidades e muita disponibilidade para ajudar. Mesmo quando as coisas não correm bem, quando o tempo corre e nada se altera, quando o resultado não é o desejado. Fábio Coentrão foi uma das figuras do campeonato português. De promessa sempre adiada, a caminho do enésimo empréstimo, saiu um lateral-esquerdo de enorme valia. Na sua simplicidade, sem olhar a nomes, Fábio deu continuidade ao que tinha feito, impressionou os maiores clubes mundiais e conseguiu ser um elemento positivo na selecção portuguesa. Não se atormentando com os adversários, confiando em si, ganhou protagonismo.

J: Jabulani.
Redonda, colorida e bonita. A Jabulani, à primeira vista, é igual a tantas outras bolas. Goste-se ou não da estética. No mais importante parece servir para o mesmo que as suas antecessoras: para fintar, para fazer toques em habilidade, para passar e para marcar. Só que a Jabulani logo levantou problemas. Os guarda-redes, sobretudo, sentiram que ali estava um perigoso inimigo. Mais leve do que é habitual, com trajectórias difíceis e traiçoeiras, a Jabulani não agradou a ninguém. Não houve quem faltasse a apontar o dedo à bola, carimbada como matreira, para justificar erros. Fossem eles falhas dos guarda-redes ou pontapés na atmosfera...

K: Klose.
Miroslav Klose marcou dois golos frente à Argentina. Aproveitou os passes bem medidos, depois de um trabalho colectivo, para concluir com toda a sua classe. O último deles foi o seu décimo quarto em Mundiais: marcou cinco na Ásia e na Alemanha, na África do Sul chegou aos quatro. A Alemanha perdeu, frente à Espanha, a oportunidade de voltar a conquistar um título mundial, mas Klose, avançado do Bayern de Munique, ainda teria uma chance: o jogo, com o Uruguai, na atribuição do último lugar do pódio. Ou não: Klose lesionou-se, falhou a última partida alemã e colocou um sorriso em Ronaldo, o Fenómeno, que mantém o seu record de golos - quinze.

L: Larissa Riquelme.
Páre, escute e olhe. Larissa Riquelme está na bancada. O Paraguai, a selecção do seu país, joga no relvado. Larissa distingue-se de todos. E faz por isso: chama as atenções, atrai e fixa-as. Pode ser por inventar um novo lugar para guardar o telemóvel. Não é uma adepta qualquer. Pelo seu país é capaz de tudo. Até despir-se. Se a Espanha fosse batida, nos oitavos-de-final, os paraguaios teriam esse prémio. A promessa foi feita, o Paraguai perdeu mas Larissa Riquelme, para recompensar a caminhada da selecção de Gerardo Martino, mantém as ideias. A noiva do Mundial, uma animação constante fora do relvado, saltou para a ribalta. Vinda da bancada.

M: Mannschaft.
Equipa no seu real sentido. Olhos colocados na baliza contrária, ocupação dos espaços, pressão para não permitir aos adversários recuperarem e muita velocidade para desferir os golpes necessários. A Alemanha de Joachim Löw foi quem melhor jogou na África do Sul. As goleadas impostas à Inglaterra e à Argentina, nos dois primeiros jogos a eliminar, devem ser emolduradas e mostradas a quem pretende sucesso. Especialmente na forma de interpretar os momentos do jogo, sendo uma equipa camaleónica, para ser letal nas saídas rápidas para ataque. Um míssil de Puyol, nas meias-finais, travou o sonho alemão. O sonho de Müller, Özil ou Schweinsteiger.

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