sexta-feira, 9 de abril de 2010

Análise: O que falhou em Liverpool, Benfica?

Jorge Jesus caiu na tentação de mudar a sua equipa em função dos perigos do adversário. Fê-lo na base da equipa, remodelou uma defesa que tão boa conta de si tem dado mas que, estranhamente, denotara uma passividade pouco vista na Figueira da Foz. Pode ter sido um prenúncio. Em Anfield Road, para manter uma vantagem curta e com o enorme inconveniente de ter sofrido em casa, o treinador benfiquista colocou David Luiz na lateral esquerda, desfazendo a dupla de Luisão e lançando Sidnei, jogador com qualidade mas raramente utilizado em toda a temporada, a que se juntou a inclusão de Rúben Amorim na direita. Maxi Pereira e Fábio Coentrão, habituais donos das laterais, foram suplentes. Na baliza, continiou rotatividade. Há muito Quim é o guarda-redes do campeonato, Júlio César o da Liga Europa. Tinha resultado.

Quim foi o guarda-redes na Figueira da Foz. Júlio César, como esperado, assumiu a baliza em Liverpool. O brasileiro já provou ter capacidades. Em Anfield Road, contudo, falhou. Um guarda-redes não o pode fazer: erro é sinónimo de golo. Não conseguiu transmitir a segurança que a equipa necessitava, mostrou-se intermitente e intranquilo, deixou que Kuyt marcasse o primeiro golo na sua zona de acção e hesitou em lançar-se aos pés de Lucas no segundo tento dos reds. Teve uma noite infeliz, culminante numa lesão que o afastou dos minutos finais. Já com Moreira na baliza, o Benfica sofreu o quarto golo. Foi uma machadada nas aspirações dos encarnados, numa altura em que iria preparar-se para um cerco final à baliza de Pepe Reina, fazendo de tudo para um golo que valesse o apuramento. Até isso correu mal.

Maxi Pereira na direita, Fábio Coentrão à esquerda e a dupla Luisão-David Luiz no centro. Tem sido este o quarteto defensivo do Benfica em grande parte da temporada - a princípio, sob o lado esquerdo, jogava César Peixoto. Os encarnados são a melhor defesa do campeonato português, sofrem habitualmente poucos golos. Ou seja: não havia razões para mudar, até porque, embora com o Liverpool reduzido a dez jogadores, Kuyt e Torres haviam sido bem travados no jogo da primeira mão. Em Anfield, Jorge Jesus quis prevenir possíveis estragos que o holandês fizesse no lado direito. Fábio Coentrão ainda não é um lateral bem consolidado? Certo, mas tem sido titular, ganhando o duelo com César Peixoto, e merecido elogios na nova posição. Jesus optou por descair David Luiz. Ao fazê-lo, o Benfica perdeu uma referência central.

David Luiz é um jogador de enorme valia, ainda com margem de progressão para se consolidar e tem-se revelado fundamental para a consistência defensiva do Benfica. É bom, sem dúvida. Mas a central. Jogando a lateral esquerdo, tal como fazia na época anterior com Quique Flores, o brasileiro baixa o seu rendimento. Natural, está fora de posição. Em Anfield, não conseguiu ofuscar Dirk Kuyt, sentiu dificuldades para parar o atacante holandês e acabou por perder a bola que daria origem ao último golo do Liverpool. Foi esse o maior pecado de Jorge Jesus: com David Luiz na esquerda não ganhou um lateral e, mais do que isso, perdeu um excelente central. Sidnei denotou falta de rodagem e sua dupla com Luisão, tal como se viu no lançamento de Gerrard para o golo de Lucas Leiva, não resultou. Rúben Amorim foi outra adaptação.

Jorge Jesus falara em cansaço acumulado. Terá sido a intensa carga de jogos num curto período temporal a ditar as alterações na defesa? É uma hipótese. Não pela opção de colocar David Luiz à esquerda (mesmo que Coentrão não estivesse a cem por cento, havia César Peixoto) mas pela ausência de Maxi Pereira. O lateral uruguaio já denotara alguma fadiga. No entanto, no relvado, o Liverpool, em termos tácticos, superiorizou-se ao Benfica: começou expectante, não teve receio em deixar os encarnados circularem a bola, tapou os caminhos para a área de Reina e apostou forte no contra-ataque para ser letal - o primeiro golo nasce de um canto, todos os outros após transições rápidas. Não foram precisas muitas oportunidades, os reds tiveram grande eficácia: em oito remates, metade entrou na baliza do Benfica. Afinal, era o jogo da época.

Ao Benfica faltou sempre quem desse o toque final, quem assumisse o jogo sem receio e arrancasse com a bola controlada para a colocar em boa posição. O Liverpool jogou com os seus dois pivôs defensivos, Lucas e Mascherano, nas costas do tridente (Kuyt, Benayoun e Gerrard) de apoio a Fernando Torres. O meio-campo do Benfica não teve espaço nem imaginação para se soltar da teia: Javi García não conseguiu parar Steven Gerrard, Carlos Martins não pegou no futebol encarnado, Ramires demonstrou debilidades físicas e Di María foi uma sombra de si próprio. Sem Saviola, tal como na Luz, voltou a ser Aimar o parceiro de Cardozo. El Mago não é, contudo, a melhor escolha para auxiliar Tacuara: o paraguaio esteve sempre desapoiado. Fez o golo que deu esperança, ainda assim. Mas não chegou. Torres certificou-se disso.

Liga Europa: As Torres fundamentais no xadrez de Benítez

COMENTÁRIO

Sofrimento, coragem, audácia. Ingredientes essenciais para o Benfica sair de Liverpool com o carimbo para as meias-finais da Liga Europa estampado no passaporte europeu. Sofrimento para resistir ao assalto dos reds, coragem para não temer o ambiente infernal de Anfield Road, audácia para não cair na tentação de se fechar em torno da sua área e deixar o ataque de lado. O Benfica levava vantagem. Um golo a mais. Mas um golo sofrido na Luz. Vantagem agridoce, matreira e viperina. Sem margem de segurança. Seria demasiadamente arriscado tentar defendê-la em casa de um opositor forte, apesar das dificuldades que tem sentido no seu campeonato, empurrado por um estádio lotado. Os encarnados estavam prevenidos. Tiveram uma entrada forte, roubando a bola ao Liverpool, jogando perto da área de Reina. Essa era a mentalidade exacta para um jogo assim. Marcar primeiro seria ouro sobre azul.

Domínio territorial, mais bola, poucas oportunidades de golo. Resume-se assim o Benfica dos primeiros vinte minutos. Aos poucos, contudo, o Liverpool foi reagindo. Começara por ver o que queriam os encarnados, perdendo na entrada, era tempo de assumirem o jogo. Fernando Torres, bem identificado como perigo número um, ameaçou por duas vezes. À terceira veio o golo. Perto da meia-hora, sempre com o Liverpool em ascenção, Dirk Kuyt marcou. Na pequena área, perante a passividade de Júlio César. O lance foi confuso, a equipa de arbitragem baralhou-se, anulou e depois validou. Foi legal. E valeu mesmo. Os reds ficaram na frente da eliminatória. O primeiro objectivo, o de colocar o Benfica a correr atrás da bola para mudar o resultado, estava alcançado. Manter a estabilidade, recuperar a entrada forte, combater a superioridade que os ingleses haviam alcançado: o Benfica tinha de preparar a resposta.

Há, em futebol, uma máxima que diz que a melhor forma de conservar uma vantagem é ampliá-la. O Liverpool levou-a a peito. Oito minutos após ter virado a eliminatória, fez o segundo golo. Jogando prático, simples e eficaz: Steven Gerrard lançou a bola em profundidade para as costas dos centrais do Benfica, Lucas Leiva foi lesto, entrou na área, sentou Júlio César e rematou certeiro. A defesa encarnada abrira uma brecha no centro. Jorge Jesus quis travar Dirk Kuyt, por isso colocou David Luiz sob a esquerda no início. Mas arriscou ao desfazer a dupla do jovem brasileiro com Luisão. Mudar rotinas que tão bons resultados têm dado pode ser fatal. Também agora o foi. A equipa sentiu a falta da consistência defensiva habitualmente transmitida. Além disso, talvez devido ao cansaço acumulado, Maxi Pereira foi substituído por Rúben Amorim na direita. Jesus mudara a base. Apenas Luisão estava no seu sítio.

Antes do intervalo, o Benfica teve a sua melhor oportunidade para marcar: jogada às três tabelas, cruzamento de Sidnei, toques da defesa do Liverpool, Cardozo tão perto de um desvio para a baliza de Pepe Reina. Seria um momento importante. Não conseguiu. Chegou à segunda parte necessitado de mudar, ganhar maior acutilância, colocar em sobressalto a também modificada defesa do Liverpool (Agger jogou na esquerda, na vaga de Emiliano Insúa, juntando-se Kyrgiakos a Jamie Carragher no centro). O meio-campo encarnado estava, no entanto, bem manietado. Lutava mas era inconsequente. O Liverpool foi cínico, apostou no contra-ataque. E chegou ao golo. Um hino ao futebol, simplicidade triunfante para responder a um lance na área de Reina: Benayoun colocou a bola no lado direito, Kuyt cruzou de primeira para o segundo poste, Torres finalizou na pequena área. O Benfica estava encurralado.

Ainda havia esperança num golo que relançasse a eliminatória. Era preciso agir e jogar tudo o que havia: Kardec entrou para o lugar de Carlos Martins. Aos setenta minutos, Óscar Cardozo dispôs de um livre. Pousou a bola, olhou para Reina, pensou que podia dar alento aos encarnados. Rematou rasteiro, seco, Gerrard saltou da barreira, a bola entrou junto do guarda-redes espanhol. Ainda era possível. Mais um golo daria o apuramento ao Benfica. Cardozo, num livre em tudo idêntico, teve nova oportunidade. O remate bateu em Fernando Torres e saiu ao lado. Jesus preparava o assalto final: jogo directo para a área inglesa, bolas bombeadas à procura de um tento, tal como em Marselha. Mas Júlio César lesionou-se. Foi assistido, perderam-se segundos vitais, entrou Moreira. E antes que algum fantasma aterrasse em Anfield, até trazido de Old Trafford, Torres fechou o jogo. O Benfica cai. De pé.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Correr por um sonho (antevisão)

No inferno a um palmo do céu, olhando para a consagração, oportunidade para deixar as trevas de Liverpool fortalecido e ainda mais capaz. Há uma vantagem conquistada na primeira mão, na Luz, trazida por duas grandes penalidades de Cardozo, mas o golo marcado por Daniel Agger é um sério estimulante para os reds, carregados pelos seus apaixonados adeptos. O Liverpool tem as fichas todas em jogo, apenas com a Liga Europa para salvar a época terá de assumir os riscos, jogar nos limites, dar tudo para manter a esperança de triunfar na Europa. O Benfica tem de saber sofrer. Resistir ao inferno, às investidas dos reds, ganhar a bola, tirando-a da acção de Steven Gerrard e Fernando Torres. Se conseguir sair de Anfield Road com a passagem para a fase seguinte, a ambição do Benfica ficará fixada em Hamburgo. Na final da Liga Europa.

Sem se intimidar com o público, colocando essa força vinda das bancadas como factor de cobrança para o rival, o Benfica terá de ser uma equipa serena. Não poderá, claro, agarrar-se à magra vantagem conquistada na Luz. Seria entregar-se à sorte, ficar à mercê do adversário e dar-lhe um incentivo final para terem espaço no ataque. Nem este Benfica o faz: a melhor arma dos encarnados é o poderio ofensivo. Há que ter cautelas defensivas, obviamente, mas nunca caindo na tentação de jogar para salvaguardar o resultado da primeira mão, tentando que o nulo se arraste. Jorge Jesus já reconheceu que será complicado não haver golos em Anfield. A chave poderá estar em marcar primeiro. Saber aguentar a pressão é fundamental. A ideia é reeditar a estrondosa vitória de 2006, fazendo tombar o então campeão europeu. Agora há o sonho.

De regresso a Liverpool, depois do triunfo ante o Everton, de novo com David Luiz à esquerda. O central brasileiro, intocável na equipa de Jorge Jesus, deverá ocupar o lugar que tem vindo a ser ocupado por Fábio Coentrão, o que fará com que Sidnei se junte a Luisão na dupla do centro da defesa benfiquista. Sem que tenha qualquer impedimento que o obrigue a isso, a ideia de Jesus passa por dar mais centímetros à equipa, aumentando os cuidados para estancar o ataque inglês. O Benfica terá de estar preparado, com todos os meios disponíveis, para responder ao anunciado assalto do Liverpool. No ataque, mantém-se a ausência de Saviola. É um problema, de facto. Na primeira mão foi Aimar quem apoiou Cardozo. Contudo, El Mago fez todo o jogo ante a Naval. Poderá ser um sinal de que não estará hoje de início em Anfield. Alan Kardec? Talvez.

O Liverpool, por outro lado, tem problemas na defesa. Emiliano Insúa, lateral esquerdo argentino, viu cartão amarelo no jogo da primeira mão e, por isso, falhará a decisiva partida em Anfield Road. Ainda sem Fábio Aurélio, por lesão, Rafa Benítez será obrigado a improvisar: Jamie Carragher, central rotinado a jogar à esquerda, será a opção do treinador espanhol, devendo entrar Kyrgiakos para se juntar a Daniel Agger no centro da defesa - o grego foi titular no último jogo dos reds, ante o Birmingham, aí por ausência de Agger. No sector médio, Ryan Babel irá cumprir castigo pela vermelho que viu na Luz e Benayoun deverá juntar-se a Gerrard e Kuyt no tridente de apoio a Torres. O espanhol é a principal esperança dos ingleses. Inspirado e com espaço, é capaz de resolver. Ao Benfica, como na Luz, cabe a tarefa de o impedir.

A vingança completa do Bayern de Munique

O Manchester United estava uma desvantagem mas marcara um golo em Munique: seria bem possível, em Old Trafford, dobrar os alemães. O início foi auspicioso. Sete minutos de tirar o fôlego, dois golos a coroar, vantagem na eliminatória bem alcançada. Darren Gibson, com uma contribuição de Butt, guarda-redes do Bayern, deu expressão à viragem. Com três minutos, tal como em Munique. Desta vez, contudo, o Manchester não queria ser surpreendido. Na primeira mão recuara, dando azo a uma resposta dos bávaros, já depois de desperdiçar oportunidades. Fiou-se na vantagem tangencial e deu-se mal: o Bayern arrancou para uma ponta final de qualidade, fez dois golos, anulou o tento de Rooney. Em casa, era preciso mais para não haver um final inesperado. Ferguson não queria apertos desnecessários nem fazer contas à vida.

Nani fez-lhe a vontade. O extremo português, superiormente assistido por Luis Antonio Valencia, trouxe o segundo golo para abrilhantar os sete minutos diabólicos do Manchester. De calcanhar, pura classe. Os red devils estavam mesmo dispostos a terminar cedo com as pretensões do Bayern de Munique. Era preciso assegurar um terceiro golo. Seria, aparentemente, a tranquilidade. Antes do descanso, de novo com Valencia e Nani, dois diabos à solta no Teatro dos Sonhos, dueto de luxo reunido para outro acto: o equatoriano cruzou largo, Demichelis foi iludido por um remate que não surgiu de Wayne Rooney, Nani aproveitou o espaço e fuzilou Butt. Alex Ferguson recostou-se na sua cadeira, confortável e sereno, alargando horizontes; Van Gaal manteve o rosto fechado, sem motivos para sorrir, sempre com o bloco na mão. Resolvido?

Resposta momentânea: claro que sim, jogo e eliminatória arrumados, vantagem confortável do Manchester. Acresce ainda que os ingleses jogavam em casa. A resposta aos três golos conquistados pelos red devils não iria, porém, tardar. Dois minutos foram suficientes. Ivica Olic saltou com Carrick, foi mais astuto do que o médio inglês valendo-se da força física, e enganou Van der Sar. Havia sido ele o herói em Munique, marcando já depois da hora, servindo uma pequena vingança pela final de 1999 que o Manchester United conquistou, em Barcelona, já depois dos noventa. O golo de Olic transfigurou a equipa do Bayern. Os bávaros terminaram a primeira parte cercando a área britânica, vieram do descanso com maior vontade de mudar. Afinal, um golo bastava. Cinco minutos depois, Rafael foi expulso. O mote estava dado.

Com quarenta minutos pela frente, defendendo uma magra vantagem e em inferioridade numérica, Alex Ferguson quis guardar o que conquistara. Fez sair Rooney, desgastado e em natural eclipse num regresso inesperado, entrando John O'shea para compor a zona defensiva. O Bayern de Munique, claro, lançou-se em busca do golo. Os ingleses procuraram explorar saídas rápidas para o ataque - daí que Nani tenha estado perto do hat-trick, mas Hans-Jorg Butt defendeu bem. Importava não dar espaços, o Manchester fê-lo. Um erro chegou: num canto, Robben ficou à entrada da área solto, recebeu a bola e disparou forte, colocado, fora do alcance de Van der Sar. Genial. Era o golo da passagem. Agora, a um quarto de hora do fim, estava resolvido. Nunca uma vitória terá sido tão amarga e uma derrota tão doce. A vingança está completa!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ele é o super-Messi!

Quem tem Messi, tem tudo! Espectáculo, magia, divertimento. Futebol, numa palavra. Com glória, o mais importante de tudo: jogar bem de pouco adianta se os resultados não são os desejados. O Barcelona, por vezes, parece de outro planeta. Neste não há outro que seja tão esmagador, parecendo uma máquina perfeita onde tudo está alinhado e cada peça se complementa da melhor forma, somando conquistas atrás de conquistas. Domina em Espanha, na Europa, no Mundo. O Barcelona, o Pep-team, vale pelo colectivo, todos são indispensáveis nas suas funções, mas tem Lionel Messi como expoente máximo. O argentino foi galardoado como melhor futebolista no ano passado, sente a concorrência de Wayne Rooney e Cristiano Ronaldo, percebeu que teria agora de se superar a si próprio. Messi é um encanto. O Barça agradece.

No Emirates Stadium, na primeira mão destes oitavos-de-final da Liga dos Campeões, o Barcelona somou oportunidades de golo. Uma, duas, três, uma infinidade de ocasiões para resolver a eliminatória. Bastariam vinte minutos de puro futebol ofensivo. Os golos chegariam, enfim, na segunda parte. Também os do Arsenal: os gunners aguentaram o sufoco, mantiveram a esperança de relançar o jogo, adiar a resolução para Camp Nou, conseguiram-no já no final com dois golos importantes marcados. Pep Guardiola ficou sem Piqué e Puyol, a dupla de centrais; Arsène Wenger perdeu Arshavin, Gallas e Fàbregas. O Barcelona deixou uma oportunidade única de resolver a eliminatória e poder encarar a segunda mão, na semana do clássico com o Real Madrid, duelo de titãs, com maior descompressão. Também por isso o futebol é tão belo.

O jogo começou mal para os catalães. Dezoito minutos: Diaby para Walcott, cruzamento do inglês, golo de Niklas Bendtner após defesa de Valdés. O Arsenal estava na frente. Em Camp Nou e na eliminatória. A vantagem durou pouco, não chegou a satisfazer os ingleses, serviu somente para pensarem que podiam derrubar quem tantas diabruras havia feito em pleno Emirates. Inverter os papéis, no fundo. Messi não gostou. O empate demorou três minutos. Mais dezoito e novo golo. O argentino estava disposto a deixar o Barcelona bem encaminhado, não cumprindo somente os serviços mínimos e colocando-se a jeito de um golo, surgido de qualquer infortúnio que recheia o futebol, que pudesse deixar o campeão em dificuldades. Não precisou, contudo, de tirar nenhum coelho da cartola. Foi astuto, inteligente, letal para o adversário.

Faltava dar-lhe o toque de classe, o imperativo categórico que cimenta as suas exibições. Veio ainda antes do intervalo: recebeu a bola, correu com ela colada aos pés, fez um chapéu perfeito a Almunia. Dúvidas no jogo? Nada. O Barcelona iria continuar em prova. Messi repetira na Europa um hat-trick, tal como os que têm impressionado em Espanha pela naturalidade com que surgem. Guardiola pensou guardar o resultado, acalmar o vendaval, colocar o pensamento no jogo com o Real Madrid. O Arsenal já acenara a bandeirinha branca, estava rendido, sem forças para mais. A festa não termina sem uma nova aparição do artista maior: Lionel Messi furou a defesa inglesa e, à segunda, passou Almunia. Um poker argentino. Arsenal desfeito, segue-se o embate com Inter. Mourinho e Messi ainda têm umas contas para acertar. Lembram-se do teatro da Catalunha?

Liga Sagres: O título está ao virar da esquina

ANÁLISE

O Benfica encontrou, na Figueira da Foz, um bico de obra para resolver. Começou mal, sofrendo dois golos de rajada, mas soube reagir ao choque e puxar dos galões. Ainda antes do intervalo, colocou-se em vantagem. Na segunda parte aumentou a vantagem, colocou os olhos em Liverpool, salvaguardou os seis pontos de vantagem para o Sp.Braga. Os bracarenses levaram de vencida o Vitória de Guimarães num derby efervescente, conflituoso e polémico do princípio ao fim. Por linhas tortas. Ainda com a esperança de chegar ao segundo lugar, para ter acesso aos milhões da Liga dos Campeões, o FC Porto venceu o Marítimo. O Sporting cilindrou, com uma mão cheia de golos, o Rio Ave: vitória categórica, justa e importante para o quarto lugar.


Doze minutos e dois golos marcados. Pela Naval. A equipa de Augusto Inácio entrou confiante e ousada para lançar perigo na defesa do Benfica (que estranha apatia!...). O líder tremeu. Soou o alarme, por isso. Weldon, a surpresa de Jorge Jesus para ocupar a incómoda vaga aberta por Saviola, percebeu-o: em sete minutos, aos dezasseis e dezanove empatou. O Benfica reentrou no jogo, fez voltar tudo à fórmula inicial, aniquilou a vantagem que a Naval alcançara. Foi o fim da surpesa. Mas não dos navalistas: Camora não conseguiu superar-se a Quim, ficou perto. A resposta de Di María foi triunfante, sem contemplações, eficaz. Agora, sim, a Naval ficou em xeque. Antes do pensamento se centrar no jogo de Liverpool, o Benfica precisava de ganhar maior conforto. Cardozo deu tranquilidade. A Naval não aguentou a vantagem, os encarnados reagiram à campeão.

Polémica, polémica e, sim, mais um bocadinho de polémica. O derby entre Sp.Braga e Vitória de Guimarães, por tudo o que representa para a região e pela infinita rivalidade existente, não poderia ser nunca um jogo pacífico. Não se esperava, porém, que se ganhasse tais proporções. Começou quente, ferveu a certa altura e mantém-se em brasa. O Sp.Braga ganhou, é isso que fica registado. Fê-lo com três grandes penalidades convertidas - a primeira aceita-se, a segunda é bem assinalada, a terceira é pura simulação. O Vitória terminou com sete jogadores, no limiar das suas forças, dispôs também de uma grande penalidade. É elementar concluir, portanto, que Artur Soares Dias, o árbitro, esteve debaixo de uma enormíssima tensão. O derby minhoto revelou-se um tormento. O último penalty foi o último momento de uma tarde infernal.

Uma entrada horrível terminou numa vantagem tranquila e plenamente merecida. O FC Porto começou verdadeiramente mal ante o Marítimo. Um golo de avanço ultra-sónico: quinze segundos bastaram para Taka introduzir a bola na baliza de Helton. Tão precoce desvantagem pode deitar tudo a perder, ser fatal para a mente dos jogadores, carregando a ansiedade. Ao FC Porto não afectou. Falcao, com um pontapé sensacional de bicicleta, empatou. Um daqueles golos de se lhe tirar o chapéu. Logo após, Raúl Meireles, a meias com Peçanha, concluiu com êxito a terceira oportunidade do jogo. Com oito minutos apenas. Em vantagem, os dragões mostraram bom futebol, apostaram nas transições. O Marítimo deu boa réplica, quase sempre com Kléber em destaque. O segundo golo de Falcao tranquilizou. E viria ainda Hulk para fechar as contas.

Sem Moutinho e Veloso, na Madeira, o Sporting deixou uma má imagem frente ao Marítimo, uma espécie de recuo até aos tempos de pesadelo, e, mais do que isso, viu interrompido o seu ciclo positivo - embora com a eliminação da Europa... - com uma derrota sem contestação. Ante o Rio Ave, regressou o melhor Sporting: dinâmico, mandão e concretizador perante uma equipa demasiado inofensiva e permeável, talvez afectada por já estar praticamente a salvo. Há demérito do Rio Ave, pois podia ter feito melhor, mas também mérito na forma como o Sporting soube dominar desde início. Yannick, endiabrado, fez três golos - o último, então, é soberbo! - num espectáculo contínuo. Liedson e Moutinho completaram a mão de golos. Para a rendição ser total só faltou Izmailov. O russo entrou e dez minutos depois... saiu por ordem de Pedro Proença.

A União de Leiria, ao empatar em casa com a Académica (0-0), perdeu a oportunidade de alcançar o Vitória de Guimarães no quinto lugar, o último que dá acesso à Liga Europa. Também o Paços de Ferreira, jogando como outsider, não foi além de um nulo, ante o Belenenses, não conseguindo aproximar-se para os vimaranenses - estabelecendo a diferença em apenas um ponto. O Nacional, pela vitória caseira alcançada contra o Leixões, 1-0, reentrou na disputa pelo seu objectivo europeu, destacando-se do rival Marítimo. Na luta pela manutenção, o Belenenses, apesar do ponto conquistado, e o Leixões estão cada vez mais acossados pela descida de divisão. A diferença entre os leixonenses e a dupla constituída por Vitória de Setúbal e Olhanense - que empataram, em Olhão, a dois - é de seis pontos. A Académica tem mais um.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O triângulo Villas Boas, Sporting e FC Porto

O Sporting anunciou que André Villas Boas não será o seu treinador para a próxima temporada. Foi isso que os leões comunicaram, ontem, à Comissão de Mercado de Valores Imobiliários, rompendo assim o pré-acordo com o actual treinador da Académica. Os últimos tempos, atingindo o ponto culminante quando Villas Boas definiu violentamente as notícias que davam conta da (quase) ligação ao Sporting como sendo palhaçada, já tinham deixado bem patente de que poderia haver um volte-face e não ser o jovem treinador da Académica, de apenas trinta e dois anos, a substituir Carlos Carvalhal no comando da equipa leonina. Contudo, também o estado de graça inicial de André Villas Boas está mais esbatido e, apesar da melhoria registada quando entrou, o treinador ainda não conseguiu alcançar a manutenção pela Académica.

Para além da quebra de resultados que os estudantes sofreram, algo que não se pode dissociar da imagem de André Villas Boas, voltam a circular, tal como acontecera logo após o jogo no Dragão que marcou a estreia do ex-adjunto de José Mourinho como treinador principal, rumores de que poderá suceder a Jesualdo Ferreira no comando do FC Porto. Causa alguma estranheza, contudo, que um treinador inexperiente, apenas com alguns meses de carreira, embora tenha a seu favor o facto de ter estagiado com os melhores, casos de Mourinho e Bobby Robson, seja forte opção para dois grandes clubes nacionais que irão, com certeza, mudar de treinador no fim da época: o Sporting já oficializou o fim da ligação com Carlos Carvalhal, enquanto Pinto da Costa manteve o tabu sobre a continuidade de Jesualdo ao leme dos dragões.

É inquestionável: André Villas Boas poder-se-á tornar num treinador de topo mundial. Tem tudo para o fazer. Para já, porém, ainda não o é. Deu provas de conhecimentos, colocando a Académica a praticar um futebol positivo que levou a equipa a abandonar os lugares de descida, mas, aos poucos, os estudantes perderam algum do fulgor que haviam ganho com a troca de treinador, após a saída de Rogério Gonçalves. Por isso mesmo, Villas Boas parece estar ainda algo verde para ter completas capacidades para assumir o comando de uma equipa (quer FC Porto, quer Sporting) que necessita de apagar a má imagem deixada n
esta temporada e partir para um projecto sólido, estável e, sobretudo, vencedor. Será sempre arriscado. Poderá dar certo, é verdade que sim, mas também poderá revelar-se aposta precipitada.