domingo, 14 de março de 2010

Um líder que sabe o que quer

O Benfica ganhou ao Nacional, na Madeira, por 1-0. Mantém-se, por isso, na liderança. É, indiscutivelmente, um triunfo importantíssimo: por ser no terreno de um adversário complicado, embora a época não lhe corra de feição, e por anteceder o jogo com o Sp.Braga. Assim, no duelo com os minhotos, de risco máximo e com muito em jogo relativamente à conquista do título de campeão nacional, o Benfica possuirá três pontos de avanço sobre o seu opositor. Os encarnados tiveram que suar, despir o fato de gala de um líder, deixar de lado os galões e colocar mãos à obra. Só assim, com muito sacrifício, mais transpiração do que inspiração, conseguiram levar de vencida a equipa madeirense. Novo teste superado, liderança mantida, novo jogo na caminhada para o título.

Os campeões fazem-se de sofrimento. Nenhuma equipa pode ser sempre brilhante. Os encarnados, aliás, há muito deixaram para trás o frenético ritmo com que iniciaram a época, atemorizando os rivais, funcionando como uma máquina de destruição, juntando inúmeros golos às exibições cheias de força e classe. Em cada jogo, há que saber adaptar a equipa à forma de jogar do adversário, aproveitar as lacunas existentes, praticar um futebol prático e que seja, antes de mais, eficaz. Se der para juntar uma exibição agradável, tanto melhor. O que importa mesmo é vencer. O Benfica é consistente, tem perfeita noção de que nunca nos últimos anos esteve tão perto da glória, pressente que se não falhar irá quebrar a superioridade que o FC Porto tem imposto no campeonato.

Apesar de mais ofensivo, o Benfica encontrou muitas dificuldades para ser verdadeiramente perigoso para a baliza de Rafael Bracali. O Nacional jogou bem, tirou margem aos encarnados, apostou nas transições para criar perigo e procurar um golo. Há mérito na forma como os madeirenses impediram que o Benfica assumisse plenamente o controlo do jogo. Daí que os benfiquistas tenham sido obrigados a um jogo de paciência, insistente, sem ser deslumbrante. Teve uma oportunidade de ouro, aos sessenta e dois minutos, numa grande penalidade (mal assinalada): Cardozo encarou com Bracali, rematou em jeito, não aplicou a potência do seu pé esquerdo, o tiro saiu ao lado do alvo. Convenhamos: num jogo em que a equipa não conseguia desatar o nó, desperdiçar tão soberana ocasião poderia ter sido fatal.

Não houve, sequer, tempo para lamentações. Rúben Amorim, o lateral direito na vez de Maxi Pereira, entrou na área, cruzou rasteiro, a defesa do Nacional descompensou-se, Cardozo, solto, encostou para o fundo da baliza. Redimiu-se, então. Os encarnados festejaram com Tacuara, melhor marcador da equipa, infeliz na grande penalidade, decisivo logo após. Foi fundamental para o jogador, certo, mas, sobretudo, para a vitória da equipa. Em vantagem, já se sabe, este Benfica gere o seu jogo, impõe o ritmo que melhor se lhe ajusta, torna-se ainda mais difícil de superar. E - muito importante - tem estrelinha. O Nacional tentou, obrigou Quim a trabalho, nunca encolheu os ombros. Foi brioso. A vitória, contudo, foi do Benfica: liderança, três pontos a mais, frenesim para o jogo com o Sp.Braga. É daqui a duas semanas...

Candidatos, obviamente!

Líder. Provisoriamente, mas líder. O Sp.Braga continua a sua caminhada na perseguição do título, jogo a jogo, nunca alargando demasiado os horizontes. Nesta fase, contudo, é impossível que os bracarenses não sejam considerados, ou recusem fazê-lo, como fortes candidatos a vencer o campeonato. Claro que são, é para isso que jogam. Aconteça o que acontecer até final, venha ou não a glória, sejam ou não imortalizados na galeria dos campeões nacionais, entrando num domínio que apenas Belenenses e Boavista conseguiram tirar aos grandes, esta é a melhor época do historial minhoto. Ontem, numa complicada recepção ao Rio Ave, uma das boas equipas deste campeonato, o Sp.Braga construiu mais um triunfo que lhe acalenta a crença num brilharete. Terminado essa temporada de sonho sem morrer na praia.

O Sp.Braga ultrapassa as dificuldades, tem coesão, é eficiente no que faz e, a mais ou menos custo, consegue vencer. É uma ideia que se vem repetindo há vários meses. Os bracarenses não são brilhantes, é verdade, mas conseguem dar a volta às adversidades e, por isso, têm muito mérito. Marcou por Madrid (mais de quatro anos depois, Andrés!...), aos dezasseis minutos, já depois de Tarantini ter ameaçado Eduardo, a partir daí rentabilizou a vantagem, guardou-a e controlou o ímpeto de resposta do Rio Ave. Joga à grande, bem ciente das suas características e dos objectivos que pretende. Mesmo que não consiga sair por cima do duelo com o Benfica, a Liga dos Campeões muito dificilmente deixará de estar bem ao alcance dos arsenalistas. São oito pontos de margem para o FC Porto - os dragões também venceram.

sábado, 13 de março de 2010

"O FC Porto irá iniciar uma nova era" (Pedro Azevedo)

Demasiado irregular no percurso para alcançar o pentacampeonato, estrondosamente eliminado da Liga dos Campeões, resta ao FC Porto discutir as outras provas internas, Taça de Portugal e da Liga. Algo a que os portistas não estavam já habituados desde 2001-02, quando entraram numa fase de verdadeiro pesadelo que somente a chegada de José Mourinho conseguiu esbater, preparando as bases para épocas de glória. Daí para cá, apenas o título de 2005 lhes fugiu, foi conquistado pelo Benfica, mas a disputa estendeu-se até final. Esta temporada, contudo, o dragão falhou. Por culpa dos adversários que encontraram o antídoto para travar a cavalgada de superioridade azul e por culpa própria. Levantam-se, então, inúmeras questões. A primeira sobre o treinador, o réu de quando os resultados desiludem. Jesualdo Ferreira deverá estar de malas aviadas do Dragão. Anuncia-se uma nova era. Com mudanças estruturais.

O FUTEBOLÊS falou com Pedro Azevedo, editor de Desporto da Rádio Renascença, sobre o actual momento do FC Porto. Para o jornalista, os dragões preparam um novo projecto... que, naturalmente, se iniciará na mudança de técnico: "O FC Porto vai ter que recomeçar uma era, com novo treinador, novos jogadores e nova política de contratações", afirma. "Acho que o actual momento do FC Porto tem muito que ver com o que dizia, com lucidez, Fernando Santos na Bola Branca: ciclicamente as equipas passam por estes momentos, com estas quebras depois de períodos de grandes conquistas. É o que está a acontecer este ano no FC Porto. Recordo-me do momento em que chegou Mourinho às Antas, o clube vinha de uma fase não vencedora e recomeçou um projecto com uma aposta em jogadores portugueses, fundamentalmente, e alguns brasileiros que já jogavam há muito no campeonato nacional", relembra.

UM CLUBE VENDEDOR POR NATUREZA

No entanto, antes de qualquer aposta, é necessário olhar para as finanças. Sem Champions à vista, a solução passará pelas vendas. Algo que, para Pedro Azevedo, não será difícil de alcançar. Afinal, a África do Sul está à porta: "Há jogadores com muito mercado. Estarão na montra no Mundial e estou convencido que os pesos-pesados vão mesmo sair, casos de Bruno Alves e Raúl Meireles, até pela erosão que a sua marca já provocou no clube", adianta. Mas há mais: "Ainda ninguém o terá assumido assim de forma tão dessassombrada, mas, na minha opinião, Rúben Micael é um indiscutível na selecção nacional: não há um jogador em Portugal com a mesma versatilidade, qualidade e raça. O Bruno Alves e o Rolando são duas soluções para a zona central da defesa, a par de Pepe, que provavelmente recuperará, e Ricardo Carvalho. E, além destes três, há Fucile e Álvaro Pereira na selecção uruguaia", garante.

Apesar dos possíveis encaixes que poderá fazer com os seus activos, assegura Pedro Azevedo, "o FC Porto vai ter que rever o seu orçamento, é impensável que tenha um orçamento como o deste ano, que é de 81.5 milhões de euros. É óbvio que, sem o suporte financeiro da Liga dos Campeões, tenha de ser emagrecido". Os alvos no mercado terão de ser bem identificados, procurando prevenir eventuais erros: "A política de contratações deste ano não resultou. Vou enumerar alguns casos: 5 milhões de euros custou Belluschi, 2,3 custou o empréstimo de Valeri por três anos, 1,1 custou Maicon, 4,2 custou Prediger. Estamos a falar em jogadores que não acrescentaram absolutamente nada", explica, adiantando que a chegada de um novo técnico obrigará os dragões a comprar: "Provavelmente irá ter uma nova filosofia de trabalho, um novo sistema de jogo, um novo modelo e, naturalmente, quererá novos jogadores".

O ARSENAL: TIROS DE CANHÃO EM JESUALDO?

Impõe-se a pergunta: terá sido o desastre europeu com o Arsenal a marcar definitivamente o final do consulado de Jesualdo Ferreira? Pedro Azevedo opina que não. "Mesmo que o FC Porto venha a passar por mais vexames como o de Londres, eu estou convencido, aposto dobrado contra singelo, que a ligação apenas irá terminar no fim da época. Será no dia da final da Taça de Portugal, pois creio que o FC Porto irá conseguir a qualificação para o Jamor (tem o Rio Ave nas meias-finais e é claramente favorito). E porque terá de apostar de uma forma muito forte nesse objectivo, já que não tem muitos mais esta época", atira Pedro Azevedo de forma convincente. Esgotou-se o ciclo, contudo, ficam os títulos: "É uma era positiva de Jesualdo, pois é tricampeão, conseguiu os oitavos e os quartos da Liga dos Campeões, tornou-se no treinador com maior longevidade na era Pinto da Costa e com mais jogos europeus no clube".

Seja como for, apesar de Jesualdo Ferreira "deixar a sua marca no FC Porto", devido ao reconhecido mérito que tem nos títulos conquistados pelos dragões, o jornalista da Rádio Renascença entende que o treinador deveria ter abandonado o clube... no final da época anterior. "Na minha opinião, Jesualdo Ferreira deveria ter saído no último Verão. Sairia em ombros. E tinha convites muito tentadores do estrangeiro - falo com absoluto conhecimento de causa -, mas quis aceitar o desafio de permanecer por mais dois anos, embora, com certeza, apenas irá cumprir este", revela.

A PEDRA DE TOQUE QUE FOI O JOGO COM O BENFICA

O jogo com o Benfica, em Dezembro, marcou o FC Porto. Travou a recuperação azul, numa fase em que os dragões estavam no seu pico: "Não terá sido o momento-chave, mas foi importante. Os jogos entre grandes do futebol português têm sido determinantes nas contas do título. É um dado histórico e irrefutável. O Benfica-FC Porto nunca fugiria à regra. Digamos que foi o primeiro pé fora do comboio", diz Pedro Azevedo. Neste particular, há culpas a apontar a Jesualdo: "Na minha opinião, não esteve bem nas apostas iniciais. Não tem sido um treinador muito feliz em jogos decisivos, também não o foi no jogo de Londres, frente ao Arsenal, colocando Nuno André Coelho a trinco sem qualquer rotina de lugar e de jogo - embora, como é óbvio, não tenha sido por ele [NAC] que o FC Porto perdeu. Na Luz, o jogador que estava em melhor forma, Varela, ficou no banco e poderia ter sido um elemento importante", refere.

Os acontecimentos que se seguiram ao clássico ganho pelo Benfica também têm, para Pedro Azevedo, importância no desenrolar do campeonato: "Dois jogadores, Sapunaru e Hulk, principalmente este pois era titular indiscutível e uma das principais estrelas do futebol português, ficaram fora dos relvados nacionais desde essa partida. Não que tenha sido decisivo para esta época negativa, mas o resultado e as consequências disciplinares desse jogo contribuíram muito. Faltou liderança a Jesualdo Ferreira, quando permitiu que a equipa abandonasse o balneário para reagir a determinadas provocações, o que acabou por ser nefasto para o FC Porto", explana. E as razões do insucesso que se seguiu? "Pura e simplesmente, não apresentou soluções. O banco do FC Porto é, entre os quatro primeiros classificados, manifestamente o pior", adianta.

UMA EQUIPA CAPAZ DE TUDO: COMO EXPLICAR?

O céu no jogo com o Sp.Braga, as trevas ante o Sporting. Em duas jornadas consecutivas, o FC Porto foi capaz do melhor e do pior, passou do oitenta para o oito, hipotecou as esperanças que alimentara em ser campeão. "Cada jogo é um jogo, dizem os treinadores. É um lugar-comum, mas tem uma certa lógica. No jogo com o Sp.Braga tudo correu bem ao FC Porto, que chega ao intervalo com cinco remates e três golos, o Braga não foi feliz e também não teve um jogo muito conseguido. Na partida seguinte, oscilou do bom para o mau. E ainda não conseguiu sair da cepa torta!". Sobrecarga de jogos? Nada disso. "Já ouvi alguns treinadores, nesta época, falarem de rotatividade para que tenham melhores performances. Não concordo: o jogador quer jogar e não descansar na bancada. Noutros países joga-se duas vezes por semana e não há qualquer tipo de desculpa com essa situação", afirma

LIDERANÇA INATACÁVEL, CLARO!

Numa época em que os resultados não são os esperados, sendo as contratações pouco produtivas, a administração do clube poderá ser colocada em causa. Esse não é, porém, um problema que afecte o FC Porto, pois Pinto da Costa mantém-se inatacável para os adeptos. Pedro Azevedo entende que este será, também, um novo ciclo para o presidente portista: "Por mais que se continue a ventilar a sua sucessão, penso que está para lavar e durar à frente do clube. Na longevidade, na qualidade do mandato e nos títulos conquistados, goste-se ou não, é, sem dúvida nenhuma, o melhor presidente de sempre no futebol português", narra. "Apesar da época negativa, penso que continua a merecer um crédito enorme. O FC Porto falhou o objectivo principal, o penta, e, de forma verdadeiramente humilhante, a tábua de salvação que era a Liga dos Campeões, mas vai ser ele a comandar este novo ciclo. Não tem oposição à altura", conclui.

Liga Europa: Este Marselha é mesmo duro de roer!

COMENTÁRIO

Passaram-se vinte anos desde o último confronto oficial entre Benfica e Marselha, para a Taça dos Campeões Europeus, em Abril de 1990, imortalizado pela mão de Vata. O angolano insiste, quase jura a pés juntos, que marcou com o ombro, a partida ainda está bem presente na memória de qualquer adepto. Desta vez, foram os oitavos-de-final da Liga Europa a colocar os franceses novamente no trilho encarnado. Um jogo difícil, adversários de qualidade, perspectiva de jogo empolgante de uma competição europeia importante, embora sem o prestígio e os milhões da Champions. O Benfica, na fase de grupos, havia ultrapassado, como um verdadeiro rolo compressor que tudo destrói, um adversário forte: o Everton. Este Marselha, contudo, é bem diferente dos ingleses. Nunca nesta Liga Europa o Benfica encontrara opositor tão forte para ultrapassar.

Crónica de uma morte anunciada. Gabriel García Marquéz, escritor colombiano, um certo dia de 1981 lembrou-se de começar um livro pelo final. Desenvolveu-o a partir daí, teve sucesso, prendeu os leitores, mesmo já se conhecendo como a história iria terminar. O comentário a este Benfica-Marselha tem, também, de ser iniciado no minuto noventa. Pelo fim, portanto. O Benfica conseguira colocar-se em vantagem à um quarto de hora, sensivelmente. Num lance confuso, atabalhoado, Mandanda, guarda-redes francês, deixou a bola à disposição de Maxi Pereira. O lateral, claro, encostou para o fundo da baliza do Olympique de Marselha. Um golo de vantagem, não sofrendo em casa, é um resultado bom para a segunda mão. Em cima do final, Ben Arfa empatou. Um golpe duro, tudo virado do avesso. Já fora ameaçado pelos franceses.

Jorge Jesus reconhecera o poder do Marselha, Didier Deschamps o poder do Benfica. Respeito mútuo, então, sem favoritimo declarado de qualquer um deles. Jogar a primeira mão fora pode ser, nestas eliminatórias, favorável, pois a obtenção de um golo tenderá a ser fundamental na resolução das contas da passagem à fase seguinte. O treinador francês foi pragmático, procurou tapar os jogadores mais talentosos dos encarnados, já reconhecera que a sua estratégia dependeria da utilização, como foi o caso, ou não de Aimar. Teve sucesso. O Benfica não conseguiu ter o caudal ofensivo que o tem caracterizado, sentiu dificuldades para impor o seu ritmo dominador, impedido pelo Marselha de conseguir sair organizado para o ataque. A inspiração encarnada foi estancada pela equipa francesa. A táctica resultou.

Lucho González, sempre um comandante com o fino recorte que o caracteriza, de regresso a Portugal depois de saído do FC Porto, foi o primeiro a dispor de uma oportunidade clara de golo. Falhou, ficaram aliviados os portugueses. O remate do argentino teve o condão de abrir o jogo, torná-lo mais intenso, com bom futebol e lances de perigo. O Marselha dispôs de algumas chances, o Benfica, mesmo sem tendo um vendaval atacante, também as teve. O nulo manteve-se, porém, insistente. Aos setenta e seis minutos, Maxi Pereira desatou o nó: Di María cruzou, a defesa marselhesa foi displicente, Mandanda ofereceu o golo ao uruguaio. Custou, é verdade, mas o Benfica conseguiu. Ainda atirou à trave, por Ramires. Teria sido o conforto. Mas estaria para aparecer o tal golo de Ben Arfa. Gelado, gelado, gelado.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Liga Europa: Um empate animador vindo de Madrid

COMENTÁRIO

À partida, para uma equipa que tem o primeiro jogo numa eliminatória a eliminar fora de casa, interessa, acima de tudo, marcar na casa do adversário. Mesmo que a vitória não seja alcançada, poderá será meio caminho andado para deixar a passagem bem encaminhada. Ou, pelo menos, terá a oportunidade de a discutir em casa. Em Madrid, ante o Atlético, o Sporting não conseguiu ganhar nem marcar, é certo, mas não comprometeu o seu futuro: empatou a zero, deixa tudo em aberto para o jogo de Alvadade, daqui a uma semana. Este nulo ganha maior relevância, contudo, pelo facto de os leões terem jogado uma hora com menos um jogador, por expulsão de Leandro Grimi. Sofrendo tal contrariedade, pouco mais se poderia pedir ao Sporting. A equipa teve entreajuda, garra e conseguiu impedir que o Atlético ganhasse ascendente no score.

Não deverão existir muitas equipas com a capacidade ofensiva dos colchoneros. Diego Forlán, Kun Aguëro, Reyes e Simão Sabrosa são, indiscutivelmente, jogadores de enorme valia e perigos constantes para as balizas contrárias. Falta, porém, uma defesa sólida que suporte o ataque, que dê confiança e sirva de base de sucesso. Este Atlético de Madrid, já é bem sabido, sente inúmeras dificuldades no seu último reduto. Algo que o Sporting, empolgado pelas vitórias e exibições recentes, período de elevação numa temporada funesta, teria de explorar. Os leões entraram bem, serenos e confiantes, mesmo órfãos da inspiração de Yannick (lesionado). O Atleti, aos poucos, conseguiu tornar-se mais perigoso, com Forlán e Aguëro em destaque, assumiu o controlo do jogo. Mas foi Liedson quem mais perto esteve de marcar. A trave impediu-o.

Somente dois minutos após o extraordinário remate do Levezinho, um golaço de primeira apanha travado pela baliza de De Gea, Reyes foi derrubado por Grimi, o lateral viu o segundo amarelo e deixou o Sporting com menos um. Somente à meia-hora de jogo. Em inferioridade, os leões ficaram, naturalmente, mais expostos, o Atlético intensificou a pressão, mas, verdade seja dita, nunca soube aproveitar verdadeiramente a vantagem numérica de que dispôs. Foi mais perigoso e conseguiu abrir algumas brechas na defensiva leonina, sim, embora nunca massacrante em busca do golo. Afinal, na mente de Quique Flores estava bem presente o facto de que um tento do Sporting poderia deitar tudo a perder, o treinador não quis correr riscos. Carlos Carvalhal, com o intuito de recompor a sua defesa, lançou Pedro Silva, um lateral direito adaptado à esquerda.

O Sporting encarou o nulo como sendo um bom resultado. E é, de facto, pois será em Alvalade, diante do seu público, que a eliminatória se decidirá. A expulsão precoce retirou força à vontade de marcar um golo, centrou-se em manter o empate que lhe abre boas perspectivas. A pressão ficou do lado do Atlético, era aos espanhóis que cabia a intensificação do futebol ofensivo para procurar ganhar, evitando desgostos na segunda mão, conseguindo uma vantagem. Não foi assim. À semelhança dos últimos jogos, os leões fizeram da união a sua principal força. Já em cima dos minutos finais, também Tonel recebeu ordem de expulsão, após se envolver com Aguëro, uma decisão precipitada de Pieter Vink, ficando o Sporting com nove nos cinco minutos finais. E sem dois dos seus defesas titulares na partida da próxima semana.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Mudanças no futuro azul

O futebol é feito de ciclos. Alimentados por vitórias, sucessos repetidos, tanto nas equipas como nos intervenientes. No caso dos treinadores, sobretudo em Portugal, os períodos de duração não costumam ser longos. Há, por isso, uma obrigatoriedade de ganhar. O ciclo de Jesualdo Ferreira, nos comandos do FC Porto, chegou ao fim. Na quarta época no Dragão, o que faz dele o treinador que mais tempo dirigiu os portistas na longa era Pinto da Costa, é praticamente uma certeza, até porque só um verdadeiro cataclismo ainda poderia favorecer os dragões, que o título de campeão nacional não será revalidado. Esse é, invariavelmente, o objectivo prioritário do FC Porto. E falhou. Jesualdo tremeu, ficou preso por um fio, as portas de saída abriram-se. Teve a Liga dos Campeões como teste às capacidades de uma equipa demasiado irregular durante toda a temporada. Chumbados, de novo.

Para além da eliminação da maior prova europeia de clubes, os portistas voltaram a sair humilhados, destroçados e sem o que quer que fosse de bom para o futuro, do duelo com o Arsenal, em Londres. Jesualdo Ferreira encolheu os ombros, resignado, aceitou a derrota, pouco poderia dizer perante tamanha prova de força dos gunners, uma antítese de um FC Porto envolto num mundo de erros e incertezas. Os dragões deixaram a Liga dos Campeões sem glória. Com o campeonato como um óasis no deserto, onze pontos que separam o primeiro lugar, com somente vinte e três em jogo, perdeu-se uma prova onde o FC Porto, por mérito próprio, alcançou um estatuto que lhe permite que, sem qualquer surpresa, consiga estar entre as dezasseis melhores equipas europeias.

O que resta, então, a este FC Porto? A Taça da Liga, com a final marcada para o dia 21 de Março, ante o Benfica, e a Taça de Portugal, onde defrontará, nas meias-finais, o Rio Ave. É pouco para o tetracampeão, a equipa que mais se tem destacado no passado recente e, com mais ou menos custo, consegue polvorizar a concorrência. O cenário em 2009-10 é diferente, os portistas parecem ter entrado num pesadelo, perderam a regularidade que tantas alegrias lhes deu e revelam demasiadas intermitências. Não se pretende, obviamente, deixar Jesualdo Ferreira como único réu por esta má temporada azul. Nem o poderia ser, sequer. No entanto, o professor não dispõe de qualquer margem de manobra, parece impotente para reanimar os seus jogadores. O FC Porto necessita de uma mudança.

Jesualdo é, habitualmente, um treinador que corre poucos riscos. E insiste nas suas ideias, não muda com facilidade, opta por manter um 4x3x3 que parece demasiado rotinado no FC Porto. Procura adaptar os jogadores ao esquema e não o contrário, isto é, não opta por uma táctica que retire o melhor rendimento a cada individualidade que possui. Esse é, talvez, o principal defeito do professor. Contudo, é tricampeão, um feito que nunca algum treinador português conseguira, tem o seu mérito nas conquistas do FC Porto e, acima disso, revelou-se fulcral para o crescimento e valorização de vários dos seus jogadores - Bruno Alves, Rolando ou Cissokho, por exemplo. Em todas as épocas, teve também de ser um obreiro, colmatando saídas importantes, para colocar a máquina em funcionamento e, sempre, ser campeão. Conseguiu-o. Até agora. Em que tem o pior plantel dos últimos quatro anos e perdeu Hulk.

O FC Porto deixou sair Lucho e Lisandro, duas peças-chave no seu funcionamento, uma dupla de verdadeiro luxo, Falcao revelou-se uma boa alternativa a Licha, mas falta um comandante. Numa época que, por certo, não deixará saudades aos portistas, é importante que os responsáveis do FC Porto sejam capazes de identificar as causas do insucesso e encontrem soluções. A política de contratações deverá ter uma rota bem definida, tapando lacunas que saltam à vista neste plantel. Os dragões estão órfãos de um criativo, um jogador que espalhe magia e que, queiramos ou não, Rúben Micael ainda não consegue ser. Por outro lado, Guarín, Prediger e Valeri são jogadores que nada mostraram para que possam continuar no Dragão. O fim de ciclo de Jesualdo, se não for acompanhado de outras mudanças, nada trará de novo.

terça-feira, 9 de março de 2010

Liga dos Campeões: Tão facilmente se abate este dragão...

COMENTÁRIO

Não restam dúvidas: foi o FC Porto temerário, atemorizado, com poucas forças para lutar, até contra a fortuna. Foi goleado, demolido, por cinco-zero. Caiu sem glória. Como um inexperiente trapezista que se atreve a subir para uma corda bamba, sem o chão à vista, o FC Porto tremeu sempre que o Arsenal se aproximou da sua baliza. Não foi capaz de retirar espaço aos gunners, deixou que utilizassem a sua melhor arma: aquele passa e repassa fácil, simples e extremamente eficaz. Com a bola nos pés, poucas equipas jogam tão bem quanto este Arsenal. Os portistas sabiam, por isso, que não poderiam falhar. Mas entraram demasiado receosos, incomodados pela ansiedade. Pagaram-no caro. Saem pela porta dos fundos da Liga dos Campeões. E dizer que Helton foi o melhor jogador azul?

Há dias em que o melhor é nem sair de casa. A exibição de Fucile em Londres é um exemplo horrível, incrível como um jogador pode ficar de tal forma ligado a uma derrota. O lateral uruguaio, admirado pela sua garra, símbolo da abnegação que os adeptos querem ver espelhada na equipa, ficou ligado a quatro dos cinco golos do Arsenal: involuntariamente colocou a bola nos pés de Bendtner e Eboué, nos primeiro e no terceiro golos, para além de uma falha colossal, verdadeiramente inaceitável, quando entregou a bola a Arshavin, que faria o passe para o segundo golo de Niklas Bendtner, e cometeu uma grande penalidade que culminou no último tento dos gunners. O último golpe num dragão há muito desaparecido, há muito com a bandeira enrolada, há muito com os braços em baixo.

Não se pretende com isto dizer que a culpa da derrota ante o Arsenal recai somente em Fucile. Fica ligado aos golos, contudo não é o único que deve ser crucificado. Esta equipa do FC Porto, convenhamos, não tem características para assumir o seu futebol. Os gunners não tinham Fabrègas, o cérebro de Arsène Wenger, mas ninguém se lembrou do espanhol. Nasri e Arshavin, dois jovens, talentos puros, diverte-se a jogar e levam toda a equipa atrás de si. Abriram brechas na defesa azul, apoiaram-se em Bendtner, um avançado letal, fadado para marcar a portugueses. O jogo sintetiza a época do FC Porto: passiva, sem agressividade, na expectativa, impotente para impedir o andamento do adversário. A equipa entrou numa verdadeira panóplia de erros, ruiu, deixou que o Arsenal jogasse a bel-prazer.

Se na primeira parte nunca os portistas incomodaram Almunia, não tendo capacidade para construir lances de futebol atacante, há que dizer que, após o descanso, surgiram com outra alma. Com dois golos de desvantagem, longe de ser impossível de recuperar, um tento bastaria para empatar a eliminatória, Jesualdo Ferreira prescindiu de Nuno André Coelho, a surpresa, central utilizado a trinco, sem qualquer rotinas nessa posição, para lançar Cristian Rodríguez. A equipa portista melhorou, equilibrou o jogo, aproximou-se do golo. Teve oportunidades. Estava na melhor fase do jogo, mas voltou a errar. Fatal. Nasri entrou na área, bola no pé, como um íman, fintas sucessivas, encarou com três jogadores portistas, driblou e rematou para o terceiro golo. Finito. Tudo resolvido. Passividade total. Demasiado fácil.

Onze dragões de cabeça baixa, sem um líder dentro de campo, verdadeiramente à deriva e servindo de cobaia para um Arsenal empenhado em engordar o resultado. A história do jogo estava escrita, restava aos portistas terminarem com dignidade. Haveria de ser igualado o resultado de Setembro de 2008, quatro golos sem resposta, remate de Eboué, "assistido" por Fucile, após um canto favorável ao FC Porto. Simbólico do desnorte completo dos portistas, esperando pelo final do jogo, esperando não serem ainda mais dizimados pelos canhões britânicos. Em cima dos noventa, Fucile, entrado num pesadelo sem fim, cometeu grande penalidade e deu a Bendtner a oportunidade de firmar o seu hat-trick. O dragão encolheu-se, caiu com estrondo. O Arsenal é bom, sim, mas nada justifica tamanha humilhação europeia.