domingo, 7 de novembro de 2010

A preparação de um árbitro de um clássico

Onze jogadores de cada lado. Uns mais experientes, habituados a grandes jogos, com capacidade mental para se abstrairem, apenas se concentrarem no essencial e se isolaram no seu próprio mundo. Outros estão mais inseguros, ainda tremem, acusam a responsabilidade. Quando o jogo começa tudo isso desaparece. Só interessa fazer bem, jogar, ganhar, ser feliz. Ter confiança em como as coisas vão resultar. Mas um clássico é sempre diferente: tem outra carga, outro mediatismo, a margem de erro está no zero e ninguém quer ver o adversário rir às suas custas. É um jogo que pode até contar para pouco, ser a feijões, mas há que o ganhar. É uma questão de prestígio, de orgulho, de honra. Não é o caso deste: tem o carimbo de importante, de altíssimo risco, pode ser fundamental para a decisão do título, sim, mesmo sendo à décima jornada. E um árbitro? Como se prepara, como sente, como vive um clássico?

Jorge Coroado foi um dos principais árbitros portugueses na década de noventa. Ganhou o estatuto de internacional, dirigiu jogos europeus, teve o seu prémio numa final da Taça de Portugal e dirigiu, por cinco vezes, o derby, escaldante e palpitante, entre Benfica e Sporting. Apenas por uma vez, contudo, esteve num Benfica-FC Porto. Foi em Abril de 1999, num jogo que terminou empatado a um. Diz-se que é destes jogos, com pressão e exigência, que os árbitros, como os jogadores, mais gostam. Coroado concorda: "Tendo, embora, muita experiência era sempre com renovada expectativa que recebia a nomeação. Todos nós árbitros, aqueles que gostam verdadeiramente da arbitragem, não fogem à regra de gostarem de arbitrar jogos de cariz semelhante mesmo que contem com muitos outros de espírito idêntico", adianta, questionado pelo FUTEBOLÊS tendo por base o jogo de logo mais (20h15).

Um jogo com tais proporções, sempre vivido com a máxima adrenalina, obrigará um árbitro, devido à tremenda exposição a que está sujeito, a modificar a sua semana? "Em boa verdade nunca alterei os meus ritmos, hábitos, costumes e rituais", assegura o ex-árbitro internacional. "Sempre me preparei com o mesmo rigor e empenho, sempre tratei do que tinha de tratar. Continuava a viajar de comboio para o trabalho, almoçava no mesmo restaurante, convivia com colegas e amigos do mesmo modo. A única diferença era receber mais chamadas da comunicação social", atira Jorge Coroado. Existe responsabilidade, pressão e vontade de decidir com assertividade. Isso não influencia, segundo a experiência de Jorge Coroado, a semana do árbitro: tem a sua actividade profissional, estuda as equipas, prepara-se convenientemente e descontrai. Pedro Proença, o melhor da época passada, estará hoje no Dragão. Traquejado e com credenciais para se impor.

Um árbitro está muito mais exposto num duelo entre dois concorrentes ao título. Os seus erros podem ganhar proporções gigantescas, revisitar o passado e transformar tudo o resto num inferno. O jogo é vivido com enorme paixão, é exacerbado e levado ao extremo. Jorge Coroado, recordando o tal clássico que arbitrou entre águias e dragões, o único da sua carreira, recorda-se de um caso caricato: "Foi o primeiro do Deco com as cores do FC Porto.
A determinado momento, quando o dito jogador se preparava para bater um canto, atiraram-lhe um sapato castanho que, pelo estado da sola, era novo. Foi giro verificar como a emoção do momento é capaz de retirar lucidez a um, se calhar, pacato cidadão a ponto de ele se privar de uma peça de vestuário", conclui Coroado. No Dragão, no clássico apaixonante, os votos são os mesmos de sempre: futebol total, bem jogado e com espectáculo, numa noite tranquila do árbitro.

sábado, 6 de novembro de 2010

Made in England: Chelsea no topo com um City em queda

Em Old Trafford disputou-se o jogo grande da jornada. O Tottenham, que começou a época de uma forma mais lenta, começa agora a mostrar porque terminou em quarto na temporada passada. Os red devils dominaram, como lhes competia, entraram fortes e determinados a resolver cedo. Sir Alex Ferguson quer deixar a crise para trás e parece estar, finalmente, a obter resultados. Nani - em excelente forma! - foi a figura do jogo, muito produtivo e esteve presente no primeiro golo e marcou o polémico segundo. O domínio do Manchester United não atemorizou os spurs e estes espreitaram sempre o golo. Se o tento inicial de Vidic, à meia-hora, estimulou os visitantes, o golpe final de Nani, a seis dos noventa, matou o jogo. Não só porque já não havia muito tempo para jogar, mas, mais, porque os homens de Redknapp se sentiram profundamente injustiçados e perderam toda a concentração. Uma excelente partida de futebol a confirmar as previsões.

O Cheseal, campeão em título, deslocou-se a Blackburn e foi invulgarmente dominado. Os rovers assumiram as despesas do jogo e lutaram para a conquista dos três pontos - materializaram esse mesmo domínio com um golo aos vinte e um minutos. Mas as grandes equipas mostram-se nestes momentos e, mesmo sem jogar bem, o Chelsea acabou por dar a volta ao resultado. Segue isolado em primeiro lugar e é o favorito para a conquista do campeonato. O Arsenal, que segue na perseguição ao primeiro lugar, a jogar em casa sentiu muitas dificuldades em vencer o lanterna vermelha West Ham. Apesar do domínio natural dos gunners, os golos não surgiam e os hammers, a espaços, também tentavam a sua sorte. Robert Green, guarda-redes visitante, foi quase intrasponivel e foram precisos oitenta e oito minutos para que sofresse o único golo da partida. No final, dever cumprido, embora de forma sofrida, pelo Arsenal.

Outro jogo entre equipas em lugares opostos na tabela trouxe a surpresa da jornada. Em casa do Wolverhamptom Wanderes, o Manchester City entrou a confirmar o que se esperava - uma vitória fácil. Todas a jogadas de ataque da equipa de Mancini levavam muito perigo e parecia estar a adivinhar-se um triunfo. O golo de Adebayor, de grande penalidade, era o materializar do que que parecia inevitável. Contudo, após a vantagem inicial, o City pareceu descontrair, talvez porque o adversário ocupava um dos últimos lugares na tabela, talvez porque o seu domínio era de tal forma evidente que a vitória seria certa. Puro engano. O Wolves equilibrou, empatou e, na segunda parte, por intermédio de Edwards - que já nao marcava há catorze meses! -, chegou à vitória. Intermitente e irregular, Roberto Mancini tem o lugar em risco.

O Liverpool voltou a ganhar. No Reebok Stadium, frente ao Bolton, a equipa de Raúl Meireles conquistou mais uma vitória e já se encontra mais confortável no meio da tabela. A partida pautou-se pelo equilíbrio, sorrindo já na recta final aos reds. O Bolton, que tem este ano o seu melhor arranque dos últimos cinco, causou muitos problemas. Com oportunidades de parte a parte o jogo foi emotivo e bem disputado. Último destaque para a vitória, com goleada, do Newcastle, em casa, frente ao Sunderland. Outrora um dos poderosos clubes de Inglaterra, os geordies querem voltar a ser um dos grandes. Recém-promovidos após uma época no escalão inferior têm alternado na qualidade das suas exibições. No entanto, no passado fim-de-semana, com um expressivo 5-1, reviveram a glória de outros tempos e já se encontram confortavelmente em sétimo.

NOTA: Este texto de Armando Vieira, sobre a Premier League, foi escrito antes do arranque da nova jornada.

Liga Europa: Tropeções com sabores diferentes

FC PORTO-BESIKTAS (1-1): APURAMENTO NO BOLSO

Sessenta e cinco minutos para trás. Um golo, pares de oportunidades, domínio vincado, ameaça turca asfixiada desde um susto no primeiro minuto, tranquilidade azul. Cenário perfeito para o FC Porto: vitória, apuramento para a fase seguinte da Liga Europa, gestão parcial do plantel, mente no clássico com o Benfica, João Moutinho e Varela no banco e, mantendo-se o ritmo, controlado e imprido pelo dragão, oportunidade para dar folga a mais algumas das peças fundamentais da máquina portista. Nada de brilhantismos: jogo sério, realista, superior. Tudo isso, a partir do minuto sessenta e seis, se alterou. Por culpa própria: Cristian Rodríguez cresceu para Uzulmes, envolveu-se com o capitão turco, travou-se de razões e, por acumulação, recebeu ordem de expulsão. O jogo ganhou emoção, o Besiktas renasceu das cinzas, foi mais incisivo e empatou. O dragão aceitou. Afinal, tinha o apuramento no bolso. E há um jogo com o Benfica.

A expulsão de Rodríguez abalou o FC Porto. Ao mesmo tempo, como se compreende, o Besiktas cresceu. Os turcos assustaram com uma bola na trave da baliza de Helton, chegaram ao empate num golo portentoso de Nihat, Bobô viu as intenções de marcar com um remate teleguiado do meio-campo travadas pelo ferro e acreditaram ser possível chegar mais além. A desvantagem numérica do dragão durou apenas seis minutos, até à expulsão de Ibrahim Toraman, sim, mas nada foi como antes. A partida ganhou nos segundos quarenta e cinco minutos, inusitada e ironicamente, maior intensidade, subiu a temperatura, teve emoção que parecia, ao intervalo, inapropriada. O FC Porto tentou, depois de atacado, repor a vantagem. Mas jogando sempre em dois tabuleiros: o jogo com o Besiktas devia ser ganho, claro, mas não desencadeando uma reacção revoltosa, incessante e desenfreada que desgastasse a equipa em demasia.

Um empate está no meio-termo. Nem é carne nem é peixe. Para equipa grande, habituada a vencer e que se mostra superior, sabe a pouco. Aos adeptos portistas ficou essa sensação. No entanto, os objectivos foram alcançados: a equipa apurou-se para a fase seguinte da Liga Europa e, com mais ou menos minutos, André Villas Boas geriu os esforços, retirando Hulk, Belluschi e Falcao do jogo. Poderia ter hipotecado as aspirações a vencer, permitindo que o Besiktas virasse o marcador, mas correu esse risco e, com a manutenção do empate, foi bem-sucedido. Poderia ter sido melhor? Sim, mas o dragão cumpriu o essencial. E esteve perto, perto, perto da vitória, no final, num remate de Rúben Micael. O madeirense jura que a bola entrou, os árbitros mandaram seguir e nem as imagens deixam perceber o que está realmente certo. O dragão abusou do pragmatismo, fez o serviço mínimo e dedicou-se, depois, ao Benfica.

GENT-SPORTING (3-1): PÁRE, ESCUTE E OLHE

Páre, escute e olhe. O Sporting travou a marcha vitoriosa, encontrou um sinal de proibição, foi derrotado pelo Gent, na Bélgica, inverteu a tendência por culpa própria, deixou-se à mercê do adversário, não foi previdente e, mesmo apenas necessitando de um ponto para garantir um lugar nos dezasseis-avos da Liga Europa, deixou uma má imagem que terá forçosamente de ser repensada e melhorada. Sobretudo na segunda parte. O leão chegou empatado ao intervalo, depois de ter sofrido numa grande penalidade convertida por Smolders e empatado através de Saleiro, recompôs-se depois da desvantagem, mas deixou no balneário a capacidade para empurrar os belgas, como havia feito na goleada de mão cheia em Alvalade, permitiu que o adversário conseguisse espaço, fosse mais perigoso e ganhasse o jogo. O Sporting desapareceu: passivo, incapaz e impotente tombou perante o Gent. Com surpresa.

O leão crescera nas últimas semanas. Mais sólido, mais consistente e mais astuto. Tentou, no fundo, passar o que de melhor conseguira na Europa, com bons jogos e goleadas sintomáticas da superioridade da equipa portuguesa num grupo frágil, para o campeonato, garantindo, ainda que sem deslumbramentos, vitórias importantes sobre Rio Ave e União de Leiria, escalando a classificação e fixando-se no quarto lugar. Deu, por isso, sinais de melhoria. Só que o perigo espreita de onde menos se espera. Quem esperaria, na verdade, que o Sporting interrompesse o seu ciclo de vitórias na Liga Europa, onde melhor se apresentara até ao momento, na casa de um adversário macio, débil e dizimado em Alvalade? O certo, contudo, é que a equipa leonina não teve chama, sentiu inúmeras dificuldades, revelou-se impotente para assumir o jogo e encostar o adversário às cordas. Deixou o jogo correr. A expulsão de Abel deitou tudo por terra.

Abel vira amarelo no lance da grande penalidade. A treze minutos do final, depois de uma falta, precipitou o segundo. Foi expulso e agravou os problemas sentidos pelo Sporting. O Gent, esperançado num resultado positivo ou pelo menos o empate, chegou ao segundo golo por Ibrahima Conté, aos oitenta minutos, e logo depois aumentou, de novo numa jogada que explorou o lado direito da defesa leonina, com João Pereira a frio na ala (onde estava Abel), num cabeceamento de Arbeitman. O leão vergou. Apesar das sete alterações em relação ao último jogo - estiveram na equipa titular Hildebrand, Nuno André Coelho, Zapater, Diogo Salomão, Saleiro, Yannick e Cédric Soares, lateral-direito, um novo produto da formação sportinguista, em estreia absoluta -, o Sporting tinha obrigação de evidenciar os seus maiores atibutos e carimbar, em definitivo, o apuramento. Não o conseguiu. Foi intermitente. E viu um sinal de stop.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Partizan-Sp.Braga (0-1): Fazer o que ainda não foi feito

COMENTÁRIO

Uma vitória, Liga Europa garantida e possibilidade de sonhar, alimentar a crença, manter a esperança viva, encontrar estímulos para encarar o futuro, seja na Europa ou em Portugal, abrindo um sorriso largo, rasgado e convincente. O Sp.Braga, estreante na Liga dos Campeões, venceu o Partizan, impôs-se em Belgrado, onde nenhum outro clube português conseguira ganhar, marcou num cabeceamento colocado de Moisés, o xerife brasileiro, e deu seguimento ao triunfo conquistado na recepção aos sérvios. Garantiu a continuidade na Europa, mesmo que seja noutra dimensão, podendo-se juntar a FC Porto e Sporting, mas continua ainda vivo na passagem. É complicado, claro que sim, porque para o conseguir é necessário que o Sp.Braga seja capaz de ultrapassar... o Arsenal - a equipa londrina perdeu, nesta jornada, na Roménia, ante o Shakhtar Donetsk. Duas vitórias, euros acumulados e esperança. Pouco mais se pode exigir.

O Sp.Braga sempre se fez valer do pragmatismo. Não traça metas utópicas, não procura a perfeição nem quer alcançar níveis de beleza. A estética, no futebol, será sempre secundária. A equipa bracarense sempre o entendeu: sabe o que tem de fazer, quais as armas a utilizar e onde insistir. Interessa, antes de mais, garantir a vitória, apagar a péssima imagem que as derrotas contra Arsenal e Shakthar deixaram, aconchegar os cofres do clube e ganhar prestígio na maior prova de clubes. O Partizan, além disso, mesmo jogando diante dos seus adeptos entusiastas e vibrantes, está longe de fazer tremer ou de ter maiores recursos. A equipa sérvia ficou atada, presa, envolta pelo Sp.Braga. O golo chegou num cabeceamento de Moisés, para concluir um cruzamento de Luis Aguiar: colocado, forte, longe do alcance de Stojkovic. Merecido para os bracarenses: a equipa portuguesa dominara, fora mais perigosa e revelara-se mais ágil.

Em vantagem, onde realmente se sente com capacidade para expor as suas virtudes, jogando com o balanceamento do adversário e explorando a velocidade dos seus jogadores, o Sp.Braga sentiu-se bem, teve oportunidade para aumentar - Matheus desperdiçou perante Stojkovic -, mas abusou do individualismo, perdeu alguma consistência e, aos poucos, o Partizan cresceu, travou as investidas minhotas e almejou assustar Felipe. O guarda-redes brasileiro foi importante para travar um cabeceamento de Moreira, incisivo e desequilibrador, nos dez minutos finais. A equipa sérvia tentou o empate. O Sp.Braga, apesar de não ter jogado como pretendia após a vantagem, controlou, revelou-se forte a defender, passou por alguns calafrios, sim, mas conseguiu, com maior ou menor custo, evitar que o Partizan fosse capaz de um assalto com êxito à baliza de Felipe. O Sp.Braga ganhou, amealhou e acredita. Mesmo que seja preciso vergar um colosso. E o que há a perder?

Benfica-Lyon (4-3): Os quatro toques do novo Midas

COMENTÁRIO

Midas pegou num ramo, numa pedra e encheu a mão de areia. Tudo se transformou em ouro. Sorridente, radiante e jubiloso seguiu o seu caminho. Ganhara poderes mágicos. Sempre que quisesse, fosse por necessidade ou para satisfazer os seus prazeres, poderia, com um simples toque, ter todo o ouro que pretendesse. Carlos Martins apareceu, no jogo do Benfica com o Olympique Lyonnais, como um novo Rei Midas. A equipa precisou de inspiração, criatividade, capacidade de decidir. Martins colocou o pé, teve fé, transportou aquela rebeldia que sempre lhe estará associada, é um inconformado por natureza, der por onde der, tocou e transformou em ouro. Dos pés do médio português, dourados para os seus e inclementes para os adversários, saíram três cruzamentos perfeitos, geométricos e eficazes como poucos: Alan Kardec concluiu de cabeça, Fábio Coentrão rematou com potência e Javi García desviou nas alturas. Três golos antes do intervalo.

Vêm aí os franceses! O Benfica tremeu em dez minutos. Não foi agressivo, esteve expectante, permitiu que o Lyon assumisse a bola, como gosta e como fez quando vergou os encarnados, pareceu entrar pelos mesmos caminhos sinuosos e viu, por duas vezes, a bola dentro da sua baliza. Nenhuma delas contou, ambas por posição irregular de Briand, mas ficou o aviso francês. O Lyon tentou invadir, instalar-se no território português, entrar de rompante na casa do Benfica. Ameaçou-o. Aos poucos, depois de assentar e serenar, os encarnados equilibraram. Chamaram Carlos Martins, Midas dos tempos modernos, aliaram eficácia e, com Kardec, abriram o resultado. Uma bela oportunidade, cruzamento perfeito e cabeçada portentosa. Os franceses reagiram, tentaram chegar à baliza de Roberto e voltar ao registo inicial. Logo depois o céu lhes desabou em cima da cabeça. Uma oferta, um contra-ataque perfeito e novo golo.

O Benfica tranquilizou-se com o segundo golo, reprimiu o Lyon, partiu confiante rumo ao futuro, crente nas suas capacidades, deixando para trás a derrota sofrida em França. Havia que vingar, deixar outra imagem e ganhar bem.
Teve Fábio Coentrão endiabrado como sempre, Salvio finalmente solto para se mostrar, na ausência de Aimar, e Carlos Martins capaz de rasgar, aproveitar e decidir. O campeão chegou ao terceiro golo, antes do intervalo, num desvio de Javi García, perante Hugo Lloris, num canto precioso, outra vez, de Martins. Colocou um ponto final no jogo, fez parágrafo, deixou Claude Puel resignado, os franceses atarantados e sem reacção. Deu um ar de graça do passado, não há como não comparar, partindo para cima do adversário, resolvendo cedo, mostrando intensidade, vontade e uma enorme confiança nas suas capacidades. Dominou, forte e capaz, um Lyon inoperante. Marcou, aos sessenta e sete minutos, o quarto. Adivinham?

Carlos Martins estivera na assistência para três golos. Não se contentara. Faz parte dele, não há volta a dar. Tinha que aproveitar aquele toque de Midas. Liderou o ataque, uma saída rápida do Benfica, trabalhou com Salvio, dois dos principais elementos, até dar para Fábio Coentrão. O lateral correu, foi inteligente, esperou por Hugo Lloris e, com genialidade, colocou-lhe a bola num arco sensacional. Três peças-chave, jogada viva, resultado gordo. Jorge Jesus, a partir daí, pensou no Dragão, geriu o plantel, poupou esforços, lançou jogadores menos utilizados, como Jara, Weldon e Filipe Menezes. O Benfica deu-se mal e mudou do dia para a noite: perdeu intensidade, sentiu o Lyon crescer, de forma muito consentida, abriu brechas na defesa, deixou a estrela cintilante que demonstrara e errou como não pode. Viu Gourcouff reduzir, Gomis encurtar ainda mais e, já no final, Louren chegar aos três golos. Dividiu-se em extremos: setenta minutos entusiasmantes e vinte de pura desconcentração. Sem necessidade depois de tamanho festival.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Liga ZON Sagres: Análise da jornada 9

UM LÍDER CAMALEÓNICO

Numa piscina, jogando uma espécie de futebol aquático, com relva encharcada e perigosa, o FC Porto, ultrapassando a Académica, resistiu à pressão do Benfica, manteve a distância para o campeão, alargou o fosso para o Sp.Braga e manteve o nível elevado. Ganhou: foi quem melhor se adaptou, quem mais tentou e quem mais criou. Teve, no final, aquela pontinha de felicidade, a estrelinha, que normalmente guia... os campeões. Na próxima jornada, picante e efervescente, FC Porto e Benfica, rivais e inimigos de tantas guerrilhas, defrontam-se, no Dragão, num jogo que pode revelar-se, desde já, fundamental. Sporting espreita, melhora, consegue aproximar-se dos lugares que ambiciona e pretende encurtar a distância. Tal como o Sp.Braga, agora mais atrasado.

Karma chameleon
. Líder invicto, apenas com um tropeção em Guimarães, com sete vitórias e um empate. Passada segura, convicta, triunfante do dragão. Já passara por dificuldades, encontrara barreiras difíceis de ultrapassar, muitas vezes tornara os jogos fáceis, mas nada se assemelhara ao que encontrou, com a Académica, em Coimbra: intempérie, ira dos céus traduzida em chuva incessante, condições mínimas, futebol muito limitado e obrigado a modificar-se. O relvado tornou-se uma piscina, a bola um acessório para colocar o mais longe possível, a técnica deu lugar ao pulmão, à força na batalha, ao músculo. O mais forte venceria: o que fosse mais astuto, errasse menos, conseguisse estar bem perante tais adversidades e tentasse mais ser feliz. Foi o FC Porto: marcou num golaço de Varela, desperdiçou oportunidades para aumentar, até uma grande penalidade de João Moutinho e, no final, teve estrelinha consigo. Camaleão na piscina.

The show must go on. Treze minutos e oportunidades dos dois lados. Jogo morno do Benfica, seguro do Paços de Ferreira, aventuras de ataque, ousadia na casa do campeão. Ataque encarnado. Bola de Luisão para Pablo Aimar. Progressão, cabeça levantada, adversário pelo caminho, outro a seguir, finta de corpo a enganar, num instante passou do meio-campo à linha limite da área, olho em Cássio, posição do guarda-redes conferida e um pontapé, cortado e seco, para o fundo da baliza pacense. Espectáculo, magia pura, classe cintilante. El Mago descomplicou e deixou o Benfica na frente, embora nunca reprimindo a rebelião do Paços de Ferreira, porque o campeão concedeu demasiados espaços e esteve intranquilo, deixando que Roberto fosse chamado a intervir vezes sem conta, e sempre bem, mantendo a esperança pacense viva. Durou até aos sessenta e cinco minutos, quando Kardec marcou o segundo golo.

Patience. Os jogadores precisam de adaptação: conhecimento, entrosamento, percepção. Tem que haver paciência. Jaime Valdés, por exemplo, personifica-o na perfeição: jogou, desapareceu, Paulo Sérgio deu-lhe alguns minutos na equipa do Sporting, o chileno não os soube aproveitar, mas agora, frente à União de Leiria, apareceu em força: dois golos, o segundo num belo pontapé, vitória alcançada, apesar de tremida pelo meio quando Carlão empatou para os leirienses, na quarta vitória consecutiva, contabilizando todas as competições, do leão. A equipa sportinguista dominou o União de Leiria, ferido depois de destroçado no Dragão, criou oportunidades, teve sempre o terceiro golo mais perto do que os leirienses tiveram o do empate, voltou a pecar na finalização, mesmo não tendo acertado nos ferros desta vez, mas está em crescimento. Melhora, tenta, esforça-se por conseguir chegar ao topo. Precisa, também, de paciência. E logo se verá.

Já não há heróis. O Sp.Braga sentiu-o na pele. Viu-se obrigado, a partir dos vinte e sete minutos do jogo com o Rio Ave, a jogar com dez. Moisés tocou em Yazalde, muito ou pouco, a verdade é que tocou mesmo, João Capela assinalou grande penalidade e expulsou o xerife brasileiro. Felipe foi herói: acertou o lado, esticou-se e travou o remate de João Tomás. Só que, apesar da defesa que manteve a baliza bracarense a zero, o Rio Ave iria, antes da meia-hora, ter a vantagem de jogar com mais um elemento. Os dez do Sp.Braga que restaram foram obrigados a ser heróis. E já não os há. Para o vice-campeão, pelo menos, porque o Rio Ave conseguiu, ao fim de um período gigantesco de nove meses em jejum, a sua primeira vitória neste campeonato. Zé Gomes e João Tomás, em dois bons lances, emergiram, soltaram a raiva contida pelos vila-condenses, mostraram que o Rio Ave tem qualidade. O Sp.Braga tombou. Sem heróis.

Eye of tiger. Cabeça levantada, olhos abertos, fixação pelos lugares cimeiros. O Vitória de Guimarães, depois de um desaire, recuperou a força conquistadora, bateu o Portimonense, deixou os algarvios em tremuras e colocou-se no terceiro lugar do campeonato, entre Benfica e Sporting - belo salto do leão -, ultrapassando Académica (derrotada pelo FC Porto), Sp.Braga (vergado pelo Rio Ave) e Olhanense (empatou, a um, com o Marítimo). O Nacional, com a vitória sobre o Vitória de Setúbal, por 1-0, igualou, com treze pontos, a equipa de Olhão. O Beira-Mar, em casa, venceu a Naval, por 3-1, conseguindo ascender ao grupo dos décimos, liderado pelo Paços de Ferreira, fazendo com que a equipa figueirense, com apenas quatro pontos, ficasse no último lugar. O Rio Ave conseguiu, nessa luta, um pequeno balão de oxigénio e o Marítimo, com mais um ponto, fixou-se no antepenúltimo lugar.

O MOMENTO DA JORNADA

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Liga ZON Sagres: Um momento de estrelinha azul


ACADÉMICA-FC PORTO (0-1): ESTRELINHA NO MEIO DA TEMPESTADE

Um temporal medonho sobre Coimbra, relvado transformado em piscina, jogo condicionado e futebol transformado em pontapé para a frente, procurando a sorte, querendo ganhar com a lotaria. O FC Porto foi quem mais insistiu, quem mais perigo criou, chegou ao golo num pontapé sensacional de Varela, à meia-volta, superiorizou-se e foi mais eficiente na adaptação às complicações causadas pelos céus. Teve mais oportunidades, rondou o segundo golo, beneficiou da melhoria trazida pela acalmia da chuva: Hulk e Falcao falharam, João Moutinho desperdiçou uma grande penalidade, o dragão não conseguiu finalizar e André Villas Boas, ciente dos perigos, foi obrigado a compactar a equipa. Arriscou ao querer guardar uma vantagem tangencial. Hugo Morais, no final, acertou na trave. Helton nem a defesa esboçou. Seguiu-se a recarga, Sougou colocou mal o pé, a bola subiu, perdeu-se e o dragão sorriu. Foi um dos momentos mais marcantes. Ficou garantida uma vitória preciosa a uma semana do jogo com o Benfica e desvendada a estrelinha do FC Porto.

NOTA: O Momento da Jornada é uma rubrica do FUTEBOLÊS, publicada antes da análise completa de cada ronda da Liga ZON Sagres. A imagem presente tem créditos da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.