sábado, 18 de setembro de 2010

Liga Europa: Risco, domínio e duas entradas certeiras

LILLE-SPORTING (1-2): ARRISCAR PARA GANHAR

Necessidade de mudar, recursos disponíveis para o fazer, crença que os efeitos serão positivos e ousadia em dose dupla: receita de revolução, corte com o passado, mudando as peças, a estratégia se necessário, para encarar um novo desafio. Paulo Sérgio adoptou o método, deixou apenas Daniel Carriço e André Santos em relação à equipa que mais tem utilizado neste início de época, experimentou novas soluções e partiu para o jogo com o Lille, o primeiro adversário na fase de grupos da Liga Europa, que, não sendo uma equipa de topo, tem qualidade e é capaz de provocar calafrios. À partida, a opção do treinador pareceu um verdadeiro suicídio, foi interpretada como sinal de poupança para o jogo com o Benfica, poderia ter corrido mal. Puro engano: o Sporting venceu, fez por isso, foi sempre consistente e equilibrado, mostrando qualidade escondida. Paulo Sérgio arriscou, sentiu a adrenalina e sorriu no final.

Tiago surgiu na baliza, Torsiglieri na esquerda da defesa, Diogo Salomão no meio-campo e Hélder Postiga fez dupla com Saleiro na linha atacante. Também Polga, Abel, Zapater e Vukcevic tiveram a sua oportunidade. É essa a palavra correcta: oportunidade. Ora, como têm sido poucas, sobretudo para os quatro primeiros, há que aproveitar ao máximo, baralhar as contas, mostrar trabalho e deixar o treinador satisfeito com o risco que assumiu. Paulo Sérgio seria sempre, em caso de derrota ou empate, o grande crucificado. A melhor forma de os jogadores responderem passaria por uma vitória. Coesos, solidários e trabalhadores. O Sporting entrou bem, prendeu os movimentos do Lille, ganhou a bola e o domínio do jogo, cedo se adiantou: golo de Vukcevic, aos onze minutos, após uma incursão fulgurante de Abel. Aproveitamento total da oportunidade. O segundo golo, num belo envolvimento colectivo, deu a paz de espírito necessária.

O cabeceamento de Hélder Postiga, de novo no caminho certo, deixou o Sporting confortável, dominando e vencendo com uma boa margem, apenas por uma vez vendo o Lille chegar junto da baliza de Tiago. A equipa francesa, amarrada e inofensiva, viu-se obrigada a mudar: Rudi Garcia, com trinta e nove minutos de atraso, lançou Hazard, o menino bonito belga, uma promessa em emergência - o que fez ele tanto tempo no banco? O Sporting desperdiçou o terceiro golo, o Lille melhorou, apresentou-se mais desinibido e reduziu, por Frau, num lance em que Tiago esteve mal. A equipa francesa tentou o empate, o jogo abriu, teve oportunidades e Tiago, redimindo-se do golo sofrido, impediu, a dois minutos do final, o empate gaulês. O Sporting foi coeso, pragmático, os jogadores souberam aproveitar o momento e venceu merecidamente. Entrou com o pé direito na competição e pode ter ganho, para o jogo com o Benfica, novas opções.

FC PORTO-RAPID VIENA (3-0): JOGAR AO SOM DA PRÓPRIA MÚSICA

Domínio total, jogo na mão, três golos marcados, vinte e cinco golos bem agradáveis e o oitavo triunfo oficial. O FC Porto mantém o sorriso de orelha a orelha, amealha pontos, jogos em que trava as pretensões do rival, joga ao ritmo que pretende e, quando percebe que é a sua hora, aparece para tornar mais colorido o resultado e a prestação. Estar longe da Liga dos Campeões é uma dor de alma para os portistas, uma sensação estranha, sentida pela última vez há sete anos. Foi precisamente na época em que venceu a segunda competição europeia, o parente pobre da poderosa Champions, que o FC Porto ganhou um lugar na elite de clubes europeus. Perdeu-o agora: a realidade azul é a Liga Europa, algo ncomparável mas também com prestígio, as possibilidades de triunfar são maiores e, por isso mesmo, tem licença para sonhar. É o que faz o dragão. Vence, é senhorial mesmo não sendo avassalador e segue a sua caminhada.

FC Porto e Rapid de Viena são equipas incomparáveis. Na força colectiva, na forma como produzem desequilíbrios, como defendem e na qualidade individual dos jogadores que as compõem. Os austríacos, impulsionados por um público vibrante e louco no apoio aos seus e nas vaias ao adversário, afinal de contas os donos da casa, criaram uma primeira ocasião, sim, mas logo depois perderam a bola e o controlo. O FC Porto assume-o, gosta de estar por cima, vai crescendo à medida que os minutos se acumulam. O dragão não partiu sufocante para a luta com o adversário, como se não houvesse amanhã, querendo trucidar a formação austríaca. Pelo contrário: foi inteligente, geriu o esforço, não elevou em demasia o ritmo sob pena de perder andamento devido ao desgaste causado pelo jogo frente ao Sp.Braga, esperou que surgissem as oportunidades para marcar e, então sim, ficar ainda mais tranquilo sobre o relvado.

A vitória do FC Porto começou a ser construída através de um dos obreiros da consistência defensiva: Rolando ganhou espaço na área do Rapid, fez tudo para não repetir a falha imperdoável que tivera minutos antes, exactamente na mesma zona, teve frieza e rematou certeiro. O golo trouxe, por paradoxal que pareça, o melhor dos austríacos: combinações interessantes, aproveitamento de metros vazios, Nuhiu e Hoffman - identificado como sendo o mais perigoso do Rapid - conseguiram deixar o Dragão algo inquieto. Serviu de alerta. O FC Porto regressou para a segunda parte mais dono do seu território, não permitindo mais iniciativas dos austríacos, marcando a negrito as diferenças existentes. Aumentou o ritmo, marcou por Falcao, fez poupanças tendo em conta o próximo jogo, fez descansar Hulk e El Tigre (Belluschi, que entrou, e Varela ficaram no banco) e fechou as contas num golaço de Rúben Micael.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Arsenal-Sp.Braga (6-0): Um pesadelo com tiros de canhão

COMENTÁRIO

O Sp.Braga perdeu frente ao Arsenal, saiu vergado a uma pesadíssima derrota - a mais avolumada de sempre de equipas portuguesas em competições europeias -, não conseguiu esticar a sua capacidade para quebrar a teoria e ser mais forte no relvado. Não teve a ousadia necessária para voltar a mostrar a sua fibra, dando a conhecer ao Mundo a qualidade que tem, permitindo que o futebol praticado pelos gunners, veloz e tricotado, concedesse total controlo ao Arsenal. Há duas razões para o insucesso: o que fez o Arsenal e o que não fez o Sp.Braga. A equipa inglesa tem outro andamento, é mais forte, descomplica como ninguém, torna qualquer lance num conjunto de toques em progressão que levam à baliza adversária. Sabe o que faz e é extremamente difícil de ultrapassar. Por outro lado, o Sp.Braga acusou a pressão, tremeu, apenas se encontrou depois do golo e acabou, com naturalidade, goleado.

Sofrer um golo, jogando na casa de um adversário possante e muitíssimo superior, seria um início terrível, evitado a todo o custo, algo que colocaria, desde logo, o Sp.Braga numa situação frágil. Uma precipitação de Felipe, derrubando Chamakh, permitiu a Cesc Fàbregas, o maestro da equipa do Arsenal, colocar os gunners em vantagem. O Sp.Braga reagiu bem, puxou pela sua atitude guerreira, fez jus ao nome que carrega: lutou, tentou esconder atrás do seu escudo a ansiedade natural de quem se estreia numa prova tão importante, não caiu com o primeiro tiro disparado pelo canhão britânico, mesmo ciente de guerrilhar com armas diferentes, deixou-se guiar pela vontade de Alan. Foi, contudo, apenas um fogacho, um óasis, um momento em que o Sp.Braga tentou mostrar-se ao adversário. Logo depois o Arsenal sentenciou o jogo. A equipa de Arsène Wenger troca a bola como poucos, passa e repassa, tem capacidade e desorganiza.

O Arsenal joga em antecipação, domina no meio-campo, chega com grande facilidade à área contrária e cria diversas oportunidades para marcar. Ao mesmo tempo, tendo a bola e pressionando forte, impede a construção do adversário. O Sp.Braga respirou com a bola nos pés e tentou ser feliz, mas foi demasiado permissivo a atacar as investidas da equipa britânica. A reacção demorou apenas até à meia-hora: Arshavin marcou, logo se seguiu Chamakh, a diferença fixou-se nos três golos, confirmou-se a impotência do Sp.Braga face ao poderio de um Arsenal versátil, rápido e dinâmico ao sabor da liderança de Cesc Fàbregas - muita liberdade, sim, mas como o impedir? O jogo de estreia do Sp.Braga na alta-roda europeia, um sonho de uma vida, passou a um pesadelo ainda com longos minutos até terminar. O Arsenal ganharia com comodidade, jogando no seu ritmo, sem sobressaltos. Nada o impediria.

O jogo chegou ao final com uma vitória contundente, terrível e dura para o Sp.Braga: seis golos sofridos frente a um Arsenal incomparavelmente superior. Fàbregas marcou por duas vezes de cabeça, Carlos Vela fixou a contagem, Arshavin acertou no poste e o árbitro Alain Hamer, ainda com o nulo, deixara passar em claro uma grande penalidade cometida por Paulo César sobre Chamakh. À equipa portuguesa, exceptuando o regresso de Márcio Mossoró, uma boa notícia tendo em conta a próxima jornada do campeonato nacional, tudo correu mal, o Arsenal geriu os ritmos, disparou seis tiros certeiros, deixou os Guerreiros desamparados e desorganizados na defesa da sua honra. Depois de ter atingido o seu ponto máximo com a eliminação do Sevilha, também um adversário creditado mas muito longe da valia dos ingleses, o Sp.Braga cai com estrondo. Só tem que esquecer, apagar as marcas, levantar a cabeça e caminhar seguro.

Made in England: Chelsea destroçante a caminho do bi?

Sir Alex Ferguson decidiu deixar Wayne Rooney de fora como forma de protecção ao jogador - lembre-se que Rooney teve uma semana atribulada por razões de ordem pessoal. Ora, os red devils parecem ter acusado a ausência do avançado e entraram um pouco desorientados, acabando mesmo por sofrer o primeiro golo - marcado por Pienaar. O golo parece ter despertado os homens de vermelho e, ainda antes do intervalo, igualaram o marcador com um tento de Fletcher, a corresponder da melhor maneira a um cruzamento de Nani. Após o descanso, novamente o português a centrar e desta feita Vidic a finalizar (que ajuda daria Nani no clássico lisboeta do próximo fim-de-semana). Aos sessenta e seis minutos, Berbatov marca o terceiro e o que parecia ser também o golo da tranquilidade. Mas contra todas as expectativas, já em periodo de descontos, o Everton marca dois golos e fixa o resultado final num empate a três

Em Birmingham, o Liverpool, ainda sem Raúl Meireles, apareceu muito fraquinho. As boas indicações que tinha dado no jogo contra o Arsenal parecem agora promessa vãs. Mais ainda: não fora a grande exibição de Pepe Reina e nem o empate teriam conquistado. A próxima deslocação será a Old Trafford e ou muito muda ou este Liverpool vai afundar-se ainda mais na tabela. Quatro jogos e cinco pontos é muito pouco para as aspirações dos homens da cidade dos Beatles. Com a mesma pontuação encontra-se o super-reforçado Manchester City. A pressão sobre a equipa millionária de Roberto Mancini é enorme e com a falta de resultados, após tão grande investimento, o italiano começa a ver o seu futuro um tanto incerto. Verdade que dominaram, verdade que Paul Robinson fez uma exibição fabulosa, mas com tantas soluções e estrelas, empatar a um golo em casa com o Blackburn é um mau resultado.

Em alta estão o Chelsea e o Arsenal. Os campeões continuam sem perder pontos e, apesar de terem sofrido o primeiro golo da época, venceram facilmente o último classificado, West Ham, que ainda não tem qualquer ponto. A vitória da equipa de Carlo Ancelotti começou a desenhar-se muito cedo, aos dois minutos, com um golo de Essien após um canto conquistado por Ramires. Kalou aos dezassete e, novamente, Essien aos oitenta e três marcaram pelos blues, enquanto Parker, a seis dos noventa, reduziu para os hammers. Quatro jogos, doze pontos, dezassete golos marcados e apenas um sofrido: Chelsea em grande no arranque da temporada.

No Emirates Stadium, o Arsenal passeou a sua classe e derrotou o Bolton por 4-1. A equipa visitante, que tem estado a um nível superior esta época, ainda equilibrou a partida terminando a primeira parte empatado a um. No entanto, após sofrer o segundo golo e, sobretudo, após ter visto Tim Cahill ser expulso, a equipa do Bolton não mais foi capaz de travar os homens de Arsène Wenger acabando derrotados por números expressivos.

O Tottenham que se estreia este ano na Liga dos Campeões, após uma brilhante época transacta, está uns furos abaixo no presente. O West Brom nas estatísticas para o jogo era claramente inferior e durante a primeira parte parecia que os spurs teriam argumentos para vencer, mas um ataque muito perdulário permitiu apenas que o fizessem por uma vez. Ainda no primeiro tempo, quatro minutos antes do intervalo, os da casa empataram e depois do descanso inverteram os papéis. No final, o Tottenham parece ter tido sorte ao conseguir levar um ponto para Londres. No embate entre recém-promovidos, o pequenino Blackpool foi a casa do Newcastle ganhar por 2-0. Com sete pontos em doze possíveis, a equipa do noroeste de Inglaterra está, para já, a causar sensação. Provavelmente será sol de pouca dura mas estes preciosos pontos poderão fazer toda a diferença quando chegados ao final da época.

Nos restantes jogos, duas vitórias caseiras do Stoke City e Fulham frente ao Aston Villa e Wolverampton, respectivamente - esperava-se mais do Aston Villa que parece ter perdido o fulgor da época passada. Por último o empate do Wigan frente ao Sunderland, num jogo morno de equipas de meio da tabela.

MADE IN ENGLAND é um espaço quinzenal, assinado por Armando Vieira, que incide sobre o mais apaixonante campeonato do planeta

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Benfica-Hapoel Tel Avive (2-0): Regresso feliz

COMENTÁRIO

Frouxo, errante e desolado: no campeonato, na defesa de um título que conquistou por mérito próprio na temporada passada, o Benfica começou em falso, tropeçou por duas vezes, deu sinais de melhoria e voltou, na jornada anterior, a sofrer uma nova derrota, perdendo pela terceira vez em quatro rondas, algo inédito, mergulhando num pesadelo inicial. Ainda é demasiado cedo, sim, mas os números são preocupantes, desencorajadores até, porque os encarnados estão diferentes para pior desde o ano anterior, sentem falta de rasgo e de equilíbrio, algo que Jorge Jesus atribui à falta de índices físicos desejáveis, além de tais erros de arbitragem que fizeram explodir os responsáveis benfiquistas. A entrada na Liga dos Campeões, cinco épocas depois, ganhou maior importância, que por si só já é imensa, e o Benfica fê-lo com o pé direito, vencendo o Hapoel Tel Aviv. Uma vitória, num grupo com boas perspectivas de qualificação, melhor do que a exibição.

As vitórias chegam sempre em boa altura. Para o Benfica, o triunfo ante o Hapoel Tel Aviv, para lá de confirmar a teórica superioridade encarnada sobre os israelitas e de ser um bom início na principal prova de clubes europeus, surge inserida num contexto delicado, num turbilhão de emoções e desconfianças para uma equipa que tem sentido dificuldades no arranque, e antecedendo o importantíssimo jogo do Benfica, para o campeonato, frente ao Sporting.
Vencer dá motivação, energia e vontade de repetir o resultado - perder deprime, aumenta as dúvidas, espairece o apoio e é precisamente isso que os encarnados têm sentido. O Benfica não foi brilhante, oscilou na forma como jogou, viu mesmo o Hapoel criar dificuldades a Roberto, bem resolvidas pelo guarda-redes espanhol, mas a vitória é clara e indiscutível: marcou por Luisão e aumentou por Cardozo, ganhou bem e deu um passo em frente. Isso é o fundamental.

Jorge Jesus, frio e pragmático, alertara para os perigos vindos do Hapoel Tel Aviv. Os israelitas, segundo o treinador encarnado, ocupam bem os espaços, têm capacidade táctica e sabem colocar-se sobre o relvado. O Hapoel revelou-se uma equipa disciplinada e organizada a defender, mas demasiado curta para, quase sempre tentando-o em profundidade, colocar em sobressalto o Benfica - na primeira vez que realmente conseguiu, ao quarto de hora, o Hapoel Tel Aviv viu Luisão, com os braços, impedir a progressão de
Schechter dentro da área: grande penalidade não assinalar. Por cima, passando mais tempo no terreno adversário, o Benfica chegou à vantagem aos vinte minutos. Luisão, capitão e peça-chave, concluiu, com um belíssimo remate, um cruzamento de Carlos Martins após canto largo de Pablo Aimar, um lance inusitado e capaz de desposicionar a defensiva do Hapoel. El Mago apareceu bem no jogo.

A equipa israelita, utilizando as suas armas, respondeu, levou Roberto a sobressair - o guarda-redes respondeu com acerto e manteve a sua baliza a zero. O espanhol é pouco ortodoxo, treme nos cruzamentos, mas revela apetência para lances de remates de longa distância e esteve bem. O Benfica reassumiria o controlo, tirando iniciativa ao Hapoel, fazendo valer a sua maior capacidade técnica e colectiva, guardando o resultado e, antes dos setenta minutos, apliando-o por Cardozo, já depois de vaiado pelos adeptos numa perdida incrível, no seguimento de um contra-ataque mortífero. O paraguaio, na sua relação de amor-ódio com os adeptos, levantou o indicador, juntou-o ao nariz e mandou calar os adeptos. Exagerou, sim, mas compreende-se pelo que acontecera minutos antes - no final, com o triunfo no bolso, desculpou-se. Apesar de um susto final - remate de Tamuz ao ferro, a cinco minutos dos noventa - o Benfica garantiu a vitória.

NOTA: Os jogos da Liga dos Campeões e da Liga Europa, onde participarem equipas portuguesas, terão comentário no FUTEBOLÊS.

Liga ZON Sagres: Análise da jornada 4

O DRAGÃO SORRI, GANHA, CONVENCE: ESTÁ FELIZ DA VIDA!

Um dragão feliz, crente nas suas capacidades, forte e solidário como equipa, com um tridente de morte como Hulk, Varela e Falcao, ganha terreno, aproveita os deslizes da concorrência directa e ganha espaço no topo. O FC Porto ultrapassou a sua primeira grande prova de fogo: sofreu, teve capacidade para se erguer, lutou frente a um Sp.Braga guerreiro e capacitado. Foi um jogo grande, disputado por grandes, com a liderança no horizonte. Os portistas terminaram por cima, fizeram por merecer a vitória, impediram a ousadia bracarense de triunfar e alargaram o fosso: cinco pontos para Sporting e Sp.Braga, nove para o Benfica. O campeão nacional voltou a tropeçar, assinou o pior arranque de sempre. Na próxima jornada, sem margem de manobra para um eventual deslize, recebe o Sporting. Alta pressão!

Quinze minutos monótonos, guerrilhados no centro, longe das balizas, necessitando de um golpe de génio para elevar intensidade. Duas equipas coesas, fortes e duras, convencidas do seu poderio, sim, mas também cautelosas em função da valia do adversário. Um golo, num tiro sensacional, marcado por Luis Aguiar, ao décimo sexto minuto, rasgou o panorama e juntou-lhe brilhantismo. Respondeu Varela, recolocou o FC Porto igualado, travando o seu visitante arrojado e atrevido. A velocidade aumentou com os minutos, a emoção triplicou, voltaram os grandes golos, primeiro por Lima, logo com troco de Hulk. O Incrível transformou-se em super-herói, deixou a defesa do Sp.Braga numa encruzilhada, carregou os dragões e impediu que os minhotos, jogando sem receio, elevassem a confiança. Varela, para fechar o compêndio de belíssimos golos, garantiu a vitória azul num jogo grande, grande, grande.


Pedra, papel, tesoura. A pedra amassa a tesoura, o papel enrola a pedra, a tesoura corta o papel. Olegário Benquerença, o árbitro português mundialista, foi uma pedra em Guimarães. Sóbrio e decidido na África do Sul, merecedor de elogios e de confiança, transfigura-se, muda a sua forma de estar, comete pecados capitais e perde o seu fio condutor em Portugal. O triunfo do Vitória de Guimarães, por mais que tenha sido um papel que conseguiu deixar a pedra benfiquista tapada, fica manchado pela prestação do árbitro, protagonista e errante, por não ter assinalado duas grandes penalidades na área vimaranse e, por indicação dos seus assistentes, ter travado duas jogadas de perigo no ataque do Benfica. O campeão queixa-se, Olegário foi mais um motivo do seu desaire, é inegável, mas há mérito de um Vitória que aproveitou os erros alheios, do árbitro e do Benfica, nunca baixando a guarda e desmoralizando ante os encarnados.

Perdido o embalo de duas vitórias consecutivas, travado o ciclo ascendente da época, num regresso a um futebol com poucas ideias, pouco fulgor e nenhuma eficácia. O Sporting foi perdulário, desperdiçou as oportunidades que criou para marcar, esbarrou sempre na estratégia de contenção do Olhanense - jogando com as linhas juntas e remetida ao seu terreno procurando a sua sorte através de saídas rápidas para ataque, uma equipa personalizada e consistente na sua zona defensiva. Os algarvios contentaram-se com o ponto conquistado: o Olhanense raramente incomodou Rui Patrício, apesar de ter chegado ao golo num lance inexplicavelmente interrompido pelo árbitro André Gralha, é verdade que sim, mas soube suster e deixar o leão num beco sem saída. Não sendo constante, vivendo em altos e baixos, o Sporting teve dificuldades, não encontrou soluções e não conseguiu tirar total partido do deslize do Benfica.

Dois empates, duas vitórias e abertura a novos horizontes: o Vitória de Guimarães, renovado com a entrada de Manuel Machado, adoptando os ideais do técnico, recheada de bons jogadores, é um dos destaques do início de temporada. Também a Académica, que venceu a Naval (3-0), começou com o pé direito, garantindo sete pontos em doze possíveis, algo que permite ambicionar melhor a última época. Olhanense e Paços de Ferreira - empatou, na Madeira, 1-1, frente a um Marítimo ainda sem encontrar a rota certa - são, juntamente com FC Porto e Vitória de Guimarães, equipas imbatíveis nas quatro primeiras jornadas. Marítimo e Rio Ave ainda não venceram - apenas um ponto. União de Leiria e Portimonense venceram pela primeira vez: os leirienses bateram o Nacional (2-1) e os algarvios o Rio Ave (3-1, no Estádio do Algarve, quebrando a malapata). Vitória de Setúbal e Beira-Mar, com um nulo, fecharam a jornada.

O MOMENTO DA JORNADA


domingo, 12 de setembro de 2010

Liga ZON Sagres: Um momento final de gáudio portista


FC PORTO-SP.BRAGA (3-2): ÚLTIMO APITO DE PEDRO PROENÇA NUM JOGO INTENSO, VIBRANTE E CINTILANTE

Minuto noventa e quatro. Pedro Proença apita pela última vez no Dragão. Cai o pano, o público exulta, mantêm-se ligados os holofotes. Para trás fica um jogo emotivo, inconstante no resultado e por isso com batimentos cardíacos acelerados, puro entretenimento realizado por duas equipas capazes, ombreando com audácia pela vitória, salpicando cada minuto com momentos de deixar água na boca. Foi futebol total. O FC Porto terminou por cima, soube sair de duas desvantagens, trazidas em dois pontapés fabulosos de Luis Aguiar e Lima, foi carregado por Hulk, um homem transformado em diabo para arruinar a defesa bracarense, ajudado por Silvestre Varela, conseguindo colocar em sentido o Sp.Braga. Os portistas esfregam as mãos de contentes, ganharam um avanço pouco visto, melhor do que em sonhos até, sobre os principais rivais. Para a equipa de Domingos Paciência, depois da frustração pela derrota, fica a confirmação: este Sp.Braga já nada deve aos grandes e está ainda em fase de crescimento. Já acabou? Venham mais assim!

NOTA: O Momento da Jornada é nova rubrica no FUTEBOLÊS, publicada antes da análise completa de cada ronda da Liga ZON Sagres. A imagem presente tem créditos da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

FC Porto-Sp.Braga, 3-2 (crónica): O dragão caminha alegre

FUTEBOL TOTAL, COMBATIVO E VIBRANTE

Começou morno, aumentou progressivamente de velocidade, foi polvilhado de momentos cintilantes, ganhou intensidade, emoção e ritmo com os minutos. Acabou por ser um jogo de luxo, entre verdadeiros candidatos, mostrando as suas forças. O FC Porto, recuperando de duas desvantagens, terminou por cima, uniu-se em prol da equipa, aproveitou todo o talento e génio de Hulk, um diabo irascível, para cimentar a liderança, agarrando-se cada vez mais ao trono, um lugar onde também o Sp.Braga quer estar. A equipa bracarense é guerreira, luta até ao fim, não enrola a bandeira. Jogou com as suas armas e obrigou o FC Porto a lutar para conseguir vencer. São candidatos. Está na cara. Jogo emotivo, golos brilhantes, excelente arbitragem: futebol total.


Velocidade um. Futebol morno: amarrado, táctico, disputado e sem balizas. Com luta, com combatividade colocada em cada lance, com vontade de ganhar por parte de duas equipas capazes, confiantes para lutar pelo título, querendo agarrar a liderança com unhas e dentes. O FC Porto é um grande por tradição, tem um estatuto rico e invejável, dominou na última vintena e meia de anos, conquistou quatro campeonatos seguidos até ceder perante o Benfica e o emergente Sp.Braga, caindo para terceiro, vendo-se ultrapassado por esta equipa que anseia ser grande. Ambos em estado de graça, em busca de o prolongar e deixar bem vincada a sua candidatura a altos voos no primeiro verdadeiro teste da época. Por isso, por lutarem pelo mesmo, têm cautelas. Começam expectantes, serenos, sentindo as pulsações do rival.

A monotonia dos primeiros quinze minutos, tépidos e insípidos, pedia um momento de inspiração. Fosse um remate forte, uma prova à atenção dos guarda-redes, uma jogada de deixar água na boca. Um golo abalaria o jogo, dar-lhe-ia emoção, obrigaria a maiores aventuras. Um grande golo, então, seria perfeito. Foi do Sp.Braga: Luis Aguiar, na cobrança de o livre, colocou os minhotos em vantagem. Na primeira oportunidade, deixando Helton sem hipótese, o uruguaio lançou a sua equipa para a frente, colocou-a por cima no território do dragão, levou o FC Porto a ter de ser mais afoito para ultrapassar a barreira defensiva, o ponto forte do Sp.Braga, criando desequilíbrios que não conseguira. A resposta portista, levado por Hulk, chegou também num livre. A trave desviou as pretensões do Incrível. As dificuldades dos dragões fizeram-se sentir.

HULK: GÉNIO, DIABO, DECISIVO!

O Sp.Braga é uma equipa adulta, pragmática e inteligente. Sabe que nem sempre pode ser elogiada pela forma como joga, tenta-o mas não é obssessiva por bons espectáculos, concentra-se apenas nas suas tarefas fundamentais. Joga com união, com garra, asfixia a criação do adversário e lança ataques poderosos, apanhando o adversário em contra-pé, sempre que percebe a valia do rival que tem pela frente. É destemido, não suicida. Ganha o meio-campo, controla o rival, fica com o jogo. O FC Porto necessitou de talento, de explosão, de velocidade. Chamou Hulk: jogada individual, veloz e arrasadora, antes de um cruzamento perfeito para a cabeça de Silvestre Varela. Dois momentos de génio, rasgando um jogo com pouco perigo junto das balizas, para dois golos. O intervalo chegou a exigir a segunda velocidade.

Fala-se em velocidade e surge Hulk no imediato. O brasileiro é cada vez mais um jogador de equipa, está empenhado em deixar os defeitos que ainda ostenta, percebe que tem muito a ganhar, individual e colectivamente, se se entregar de corpo inteiro e canalizar toda a sua força para o sucesso da equipa. Iniciou a segunda parte empenhado, espalhando qualidade, levando Elderson às trevas. O FC Porto regressou mais aguerrido, rápido de processos, jogando perto da baliza de Felipe, por duas vezes obrigado por Hulk a duas belas intervenções, colocando os seus elementos mais próximos. No melhor momento do dragão, em que conseguira assentar o domínio em sua casa, o Sp.Braga, pleno de ousadia e atrevimento, recolocou-se em vantagem. Lima parou, olhou e disparou. A bola saiu forte e só parou no fundo da baliza azul. Chapeau!

POTÊNCIA, COLOCAÇÃO, FUZILAMENTO


O dragão não gostou de ver o Sp.Braga, na sua melhor fase, chegar a uma nova vantagem. Respondeu de pronto. Potência, colocação, fuzilamento: Hulk recebeu de Álvaro Pereira, sorriu quando viu Elderson escorregar e rematou com estrondo para o empate. A velocidade, com dois golaços em tão curto espaço, saltou para o quatro. Nem houve espaço, sequer, para experimentar a terceira. Domingos Paciência franziu a testa, percebeu que o seu Sp.Braga estava menos pressionante, apesar de sempre batalhador, e que Hulk destroçara Elderson. Lançou Miguel Garcia, deslocando Sílvio para a esquerda, na procura de estancar a vontade do Incrível. Logo após, para manter o FC Porto em alerta, trocou Lima por Matheus. Pelo meio, sabendo das intenções do rival, André Villas Boas colocou Rúben Micael no lugar de Moutinho. Duelo táctico.

Potência, colocação, fuzilamento - parte dois. Passando o período dos treinadores, ambos irrequietos, regressaram os golos. Mais um pontapé forte, colocado, indefensável. Falcao ganhou a bola a Miguel Garcia, o FC Porto conseguiu espaço, Varela encarou com Felipe e rematou, convicto, para o terceiro golo dos dragões. Pela primeira vez, recuperando de duas desvantagens, a equipa portista colocou-se em superioriade. Terminou a busca pelo resultado, ficou nas suas sete quintas, ganhou os duelos ao Sp.Braga, parou a reacção minhota e percebeu que a vitória não lhe escaparia. Foi uma equipa combativa, solidária, acabou com Hulk em sofrimento pelos seus interesses e travou o Sp.Braga, uma vez e para sempre guerreiro, até garantir o triunfo. Suou para isso. Cimenta a liderança, vive na alegria, caminha feliz.