sexta-feira, 7 de maio de 2010

Benfica ou Sp.Braga: qual o campeão?

O título será decidido ao som do gongo. Depois de dois anos em que o FC Porto comemorou antes da última jornada, o campeão desta edição do campeonato, 2009-10, só será conhecido na derradeira ronda. Ou, recorrendo a uma analogia utilizada por Carlos Queiroz na fase de apuramento para o Mundial da África do Sul, após ser ultrapassado o último dos trinta obstáculos da maratona. Benfica ou Sp.Braga? Imediatamente se responde Benfica. É quem conta com maiores probabilidades de sucesso. E, acima de tudo, só depende de si, de um pontinho que seja, para carimbar a conquista do campeonato, o trigésimo segundo do seu historial, culminando um percurso de enorme regularidade, sem que se tenha sentido grande turbulência no caminho, apenas travado em Braga e no Dragão. Joga em casa, também. E a Luz tem sido verdadeiramente infernal.

Apenas por uma vez neste campeonato o Benfica cedeu pontos em casa. O Marítimo, com Carlos Carvalhal no comando, empatou, a um, na primeira jornada. De lá para cá segue-se um registo imaculado de treze vitórias, contando com quarenta e três golos marcados e cinco sofridos - contabilizando o tento de Alonso, para o Marítimo, e de Weldon, na ronda inaugural. Para além disso, o Benfica terá o estádio cheio, um público sedento de assegurar o título de campeão nacional, o objectivo prioritário da temporada. Um empate bastará aos encarnados para, ante o Rio Ave, poderem, então, comemorar. Não é crível, por isso, que o Benfica desperdice tão soberana oportunidade para interromper o ciclo vitorioso do FC Porto, recuperando o troféu mais ambicionado, coroando uma época em que se superiorizou e foi realmente a melhor equipa. Falhar será um golpe de teatro pouco visto.

O título do Benfica é há muito anunciado, sim, mas não está garantido. Por isso há esperança no adversário. Enquanto a matemática não confirma, mesmo que a razão assegure ser extremamente complicado, o coração acreditará sempre. É o que acontece no Sp.Braga. Os minhotos já subiram ao pedestal que lhes garante o acesso à pré-eliminatória da Liga dos Campeões, um feito histórico no clube, mas o título é ainda ambicionado. Ainda é possível, afinal, e aí ficará imortalizado como triunfante. Ficaria bem entregue ao Sp.Braga? Sim. A equipa de Domingos Paciência atingiu os setenta pontos, superou equipas anteriormente campeãs, manteve-se na mó de cima desde início. Encontrou, contudo, um Benfica pujante e vigoroso como há muito não se via. Mas, mesmo assim, impediu ao máximo que os benfiquistas festejassem. Deixar as decisões para o fim é mérito bracarense.

No domingo, antes da 20h, haverá campeão em Portugal. A festa será vermelha. O Benfica, como se disse, tem tudo a seu favor, apesar de não contar com três titulares (Fábio Coentrão, Javi García e Di María) mostrou ter alternativas à altura (César Peixoto, Airton e, talvez, Weldon ocuparão as vagas), não se esperando que falhe naquele que é, porventura, o momento mais importante dos encarnados desde 2006 - quando a então equipa de Ronald Köeman surpreendeu na Liga dos Campeões. À espreita, jogando na Madeira com os ouvidos na Luz, estará o Sp.Braga. Desejando um escorregão, aliando a uma vitória no difícil terreno do Nacional, para abrilhantar definitivamente uma temporada de ouro - aconteça o que acontecer esta será sempre uma época marcante para o Sp.Braga. Os minhotos têm fé. O futebol é imprevisível, não se encontram vencedores por antecipação. É esse o espírito que reina em Braga. Na Luz há auto-confiança. Qual leva a melhor?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Opinião: Especial sempre!


Desconcertante, mordaz e sarcástico. José Mourinho é assim. E é um vencedor, sobretudo. Ninguém lhe fica indiferente, não há termos médios, paninhos quentes, ama-se ou odeia-se. Pode não se gostar do tipo que tem sempre uma resposta à altura, espontânea mas que parece preparada com pormenor, contudo o trabalho supera tudo isso. Olha-se para o currículo, para os jogos ganhos, pela expressão da máxima de que em casa mandam os que lá estão, percebe-se que está ali alguém com muito valor no que faz. Mesmo que seja um extraterreste que caia de paraquedas saberá. Outros mais cépticos dirão que só é bom porque tem bons jogadores. É óbvio. Um treinador, por muito valor que tenha, não faz nada sozinho. Nem os jogadores seriam bons se não tivessem um comandante forte.

Perde-se a conta a tantos exemplos de boas equipas sem sucesso. Mourinho é bom. Os seus jogadores também. Ambas as partes são dependentes uma da outra. Para além desses méritos como treinador, reconhecidos de todos e o que realmente importa a quem paga loucuras para o ter junto dos seus, Mou é um mestre a moldar as mentes dos outros. Não é psicólogo, mas parece. Primeiro fortalece o seu interior, alimenta o ego, coloca os jogadores no topo, diz que são os melhores. Motiva e pressiona, obriga-os a jogar nos limites. Com os seus em alerta, mais do que moralizados, é necessário fragilizar o rival, ataque cerrado sem tréguas até ao objectivo, impiedoso para quem ouse contrariá-lo ou colocar-se no seu caminho. Há a identificação dos alvos, como numa missão de alto risco, tudo é estudado.

Seja em Portugal, em Inglaterra ou em Itália, o feitio é o mesmo. Foi treinador a prazo no Benfica, deu nas vistas no União de Leiria, chegou ao FC Porto em 2002. Nada ganho, ar de desconhecido, de quem se quer afirmar, um estudioso, confiança máxima: no próximo ano tenho a certeza de que vamos ser campeões nacionais. Os portistas estavam em quinto no campeonato, tinham visto Octávio Machado sair pela porta dos fundos, precisavam de ser reanimados. Mas, calma, como é que alguém chegava ali assim, com toda a força, a prometer logo o título? Outros, no seu lugar, teriam dito que trabalhariam no seu máximo, cem por cento profissionais, para ganhar. Mourinho não. Para ele, trabalho é sinónimo de glória. Surpreendeu, na altura. Agora, olhando para trás, foi apenas o início.

Conquistas internas, Liga dos Campeões como cereja no topo do bolo, um FC Porto demolidor, sem concorrência à altura, demasiado forte para os rivais portugueses. Trabalho cumprido. Era tempo de partir para outra. Mourinho percebeu-o: nada mais teria a fazer em Portugal, os desafios haviam sido ultrapassados com brilhantismo, os portistas tocaram o céu, o treinador foi catapultado. Os adeptos azuis não entenderam assim, imaginaram que Mourinho pudesse continuar a fazê-los sonhar, sempre, sem cortes. Não o queriam ver partir, a saída foi letigiosa, os dragões não perdoarão a Mourinho que não tenha festejado a conquista mais importante da sua vida, após chegar da Alemanha. Fica essa marca. Mas era preciso sair. Havia um desafio inglês à espera. Mourinho não gosta de problemas fáceis.

Discutia com Lucílio Baptista ou Pedro Proença em Portugal, lançava farpas ao Benfica e ao Sporting, dava murros na mesa e terminava as conferências de imprensa dizendo que ia ser campeão. Tinha essa certeza bem interiorizada. Ganhar cá é uma coisa, em Inglaterra é outra: certo? Não. Não para Mourinho. O Chelsea marcou-o. Foi bicampeão, recolocou a equipa nos big four, colou-se ao Manchester United como principal potência inglesa, teve duelos excitantes na Europa. Os blues eram um clube com largo historial, não foi Mourinho quem os transformou de um momento para o outro. Não vencia o campeonato há meio século, contudo. Sim, cinquenta anos. Mou deu mais uns goles na poção dos imortais. E no ego, ora. Wenger e Benítez por entre um ror de inimigos de estimação. O professor dos mind-games.

Mas isto dos bons tempos no futebol não dura para sempre. Em Inglaterra, o trabalho de Mourinho também estava concluído, apenas não chegou a uma final da Champions. Deixou os adeptos com saudades, também, o nome de Jose continuou a ser ecooado em Stamford Bridge. A vida continua. Qual o novo desafio? Itália. Os anos passam, o desconhecido que fez furor nas Antas desapareceu, a pressão aumenta sobre um treinador que está no centro do Mundo. Ou coloca-o na sua mão. O Internazionale era tricampeão, tinha Roberto Mancini no cargo, tudo estava sobre rodas, para quê contratar um novo treinador? Para ganhar a Liga dos Campeões, respondeu-se. Para testar Mourinho, ainda. Chegar e vencer: tem sido o lema. Mudou de país, entrou numa concepção futebolística completamente diferente.

Em Itália impera o pragmatismo, deixa-se o espectáculo para trás. Mourinho entrou de rompante, atacando todos, foi campeão, mas o Inter ficou aquém na Europa. Foi contestado. Afinal, não fizera mais do que Mancini. Respondeu no seu estilo, cada vez mais incisivo, para sempre desconcertante. Não faço milagres, não sou o Harry Potter, avisou no início da época. Não mesmo? Esta época pode ser a sua coroação Milão. Já tem a Taça de Itália, ganha hoje. Pode-lhe juntar o campeonato, a luta taco-a-taco com a Roma, e a Liga dos Campeões. Sairá em ombros. Para continuar a ganhar, bater recordes, manter a História de oito anos sem perder em casa nas três ligas por onde passou, preenchendo o currículo. É isso que lhe interessa. Coloca o dedo nos lábios, vira-se para os críticos, cerra o punho: ganhei! Tem uma estrelinha, a que distingue os campeões, em serviço permanente. O resto, bom, serve para se divertir a irritar os rivais...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mundial 2010: O fracasso brasileiro visto por dentro

HEXA EM 2014

Primeiro tempo magnífico: lançamento de gênio do meio-campo por Felipe Melo, conclusão perfeita de Robinho. Terminando os primeiros quarenta e cinco minutos, a seleção de Dunga se credencia como a principal favorita para vencer a Copa do Mundo da África. O Brasil passeava em campo, em cima de uma seleção que não perdia desde 2008. Depois, acaba o segundo tempo. Brasil eliminado, treinador burro, Felipe Melo vilão da derrota, time sem criatividade com um atacante firuleiro e pouco objetivo: Robinho. Foram dois jogos dentro de um. Um primeiro tempo onde o Brasil mandou no jogo, fez um gol, mas poderia ter feito três. No segundo tempo a Holanda foi superior e não seria nenhum absurdo se tivesse goleado o time brasileiro.


O clima em Porto Alegre foi de muita decepção após a partida. O povo gaúcho, diferentemente do restante do país, não vibra tanto com a seleção brasileira. No entanto, em 2010 houve uma maior mobilização, motivada em grande parte por ser um gaúcho o comandante do grupo. Além disso, a campanha anti-Dunga do centro do país, serviu como combustível para os gaúchos apoiarem ainda mais o técnico da seleção brasileira. Para boa parte dos gaúchos, no entanto, a tristeza durou aproximadamente três horas, quando Loco Abreu cobrou o último pênalti do Uruguai na vitória heróica dos vizinhos sobre a seleção da Gana. Os gaúchos voltaram a ter uma equipe para torcer.

A frustração da derrota na Copa da África foi diferente da última eliminação em 2006, quando o Brasil foi eliminado também nas quartas de final. Nesta Copa, embora grande parte da imprensa afirmasse que a seleção de Dunga tinha uma morte anunciada, pouca gente realmente acreditava na derrota brasileira, ainda mais depois do primeiro tempo da partida contra a Holanda. Ficou a sensação de que o Brasil poderia ter ido mais longe. Na Alemanha em 2006, por exemplo, foi unanimidade que o Brasil não merecia a classificação.

Voltando ao jogo contra a Holanda, excetuando alguns poucos jornalistas, a imprensa tratou a eliminação brasileira como um fracasso. As críticas que Dunga recebeu quando saiu do Brasil foram atenuadas durante a Copa e voltaram em dobro após o jogo contra a Holanda. A falta de jogadores diferenciados e a opção por jogadores em má fase em seus clubes foram as principais contestações, além das restrições ao trabalho da imprensa durante os treinamentos na África.

Realmente faltou talento no time. Alguns jogadores estavam em má fase, mas mesmo assim, o Brasil tinha plenas condições de trazer o hexacampeonato. A última Copa foi um claro exemplo de que um time bem organizado e com disciplina tática vale mais do que individualidades. A Itália de 2006 não tinha nenhum Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo ou Adriano e foi campeã, enquanto o Brasil caiu fora para a França de Henry e Zidane. Não foi por ter deixado de levar Ganso ou Neimar que o Brasil perdeu. A Copa do Mundo é um torneio diferente. Não é um campeonato em que há tempo de se recuperar de um erro. A partir das oitavas de final, a eliminatória é decidida em um jogo e uma falha é fatal, não pode acontecer. Um momento de desatenção ou desequilíbrio não dá chance de recuperação. Foi o que aconteceu com o Brasil.

Nessa partida, a Holanda voltou melhor no segundo tempo, mas não ameaçou o gol brasileiro, até que em um cruzamento despretencioso o goleiro Júlio César, que tantas vezes salvou o Brasil, cometeu uma falha grave e a bola entrou. Muitos atribuíram o erro a Felipe Melo, mas o erro foi do goleiro. Felipe Melo estava na bola quando Júlio César veio por cima, deslocando o volante brasileiro; por isso, a cabeçada saiu para trás. Pela imagem da televisão, nota-se que o goleiro grita “Minha!”, só que em uma hora daquelas o jogador não sai da bola para o goleiro agarrar se ele sabe que está na bola. O erro foi de Júlio César e o gol abalou o time. O segundo gol da Holanda veio ao natural.

Não foi apenas no gol que Felipe Melo se fez presente. Faz tempo que toda opinião pública alerta para o temperamento do jogador. Ainda assim, ele deu razão a todos que o criticavam. Felipe Melo não tem condições psicológicas de jogar em um grande clube, o que dizer na seleção mais vencedora do mundo. Apostar nesse jogador, apesar de sua terrível fase na Juventus, foi o maior erro de Dunga. Errou ao apostar em Felipe Melo e também ao não contar com um jogador de talento como Ronaldinho ou Ganso. Só que neste erro ele não está sozinho. O planejamento no ano da Copa foi equivocado. O último amistoso antes da convocação foi no início de março. Dunga não queria convocar jogadores que não haviam estado na seleção, por isso, deveria ter sido feito algum amistoso mais perto do dia da convocação, para exatamente testar jogadores que estavam atuando no Brasil e em destaque nos seus clubes.

Para a Copa de 2014 deve ser feita uma reformulação no elenco, já que a maioria dos jogadores desta seleção tem mais de trinta anos. A saída de Dunga está certa, pois jogando em casa não podemos ter um técnico com tanta reprovação por parte da torcida. O Brasil tem uma safra de jogadores de muito talento que devem chegar ao auge em 2014, como Ganso, Neimar, Mário Fernandes, etc. O planejamento deve ser bem pensado, pois, sendo o anfitrião, o Brasil não terá as eliminatórias sul-americanas como parâmetro.

Texto de Uriel Garber, sobre a participação do escrete no Mundial 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

Liga Sagres: Benfica e Sp.Braga, luta até até ao fim!

ANÁLISE

Ainda não há campeão. O Benfica poderia, em caso de vitória, utilizar o Dragão, casa do seu grande rival, para festejar a conquista do título. No entanto, o FC Porto superou-se, mostrou força, impediu que os encarnados tivessem a satisfação de poder abrir o champanhe junto aos adeptos adversários. Além disso, o Sp.Braga venceu o Paços de Ferreira. Ganhou em dois campos, portanto: confirmou a presença na Liga dos Campeões e reacendeu a luta pelo título. Só na última jornada, por isso, será possível conhecer-se o campeão. O Benfica leva vantagem, dispõe de todas as premissas, mas o Sp.Braga acredita num tropeção encarnado para ser verdadeiramente bem-sucedido nesta época gloriosa. Também há luta pelo quinto lugar: Vitória, Nacional ou Marítimo?

O FC Porto venceu o clássico, o Sp.Braga cumpriu a sua parte e o Dragão não serviu de palco à festa do Benfica. Foi um jogo para homens de barba rija. Nem outra coisa seria de esperar. Um duelo entre FC Porto e Benfica, eternamente distantes e velhos inimigos de guerra, nunca poderá ser normal. Houve intensidade máxima, adrenalina nos limites, conflitos constantes, quezílias no meio de polémica permanente. Momentos de cortar a respiração. Há uma enorme convicção de que o Benfica será campeão. Muito dificilmente o título escapará aos encarnados. Conquistá-lo na casa do maior rival, preparando a festa debaixo do nariz do dragão, seria o corolário de uma época em que o Benfica foi melhor. O FC Porto impediu-o. A vitória não sacia mas consola os portistas. Muito - Clique para aceder à crónica do clássico

Soltem-se os cachecóis, preparem-se as gargantas, comemore-se o dia em que o Sp.Braga alcançou um feito histórico. Os bracarenses confirmaram o segundo lugar, sua melhor classificação de sempre, assegurando o bilhete para a entrada na pré-eliminatória da Liga dos Campeões. É o resultado de uma época soberba, sem paralelo no historial do Sp.Braga. A partida com o Paços de Ferreira, tranquilíssimo, não trouxe uma exibição bem conseguida. Bem longe disso, pois houve ansiedade e nervos em franja. Naturalmente. No entanto, os bracarenses mostraram alma e ambição. E tiveram uma pontinha de sorte. Sempre necessária, tão presente quando Coelho, mãos de manteiga, deixou a bola à mercê de Meyong. O golo caiu do céu aos trambolhões, sim. E aliou-se ao jogo do Dragão para manter o sonho de pé.

A pior saída possível. A ponta final do Sporting tinha sido uma espécie de oásis numa época de verdadeiro pesadelo, terminada sem nada conquistado, com mais de mil razões para esquecer o que foi jogado desde o início da temporada. O jogo com a Naval travou o ciclo vitorioso, derrotou novamente os leões. E foi merecido, aliás, perante a apatia leonina, incapaz de se motivar e de terminar em beleza o campeonato em casa, permitindo uma despedida honrosa dos seus adeptos. O que se podia esperar, contudo, quando os desafios a sério há muito terminaram para os leões e o pensamento vai para a preparação da nova temporada? A Naval aproveitou, marcou em contra-ataque, num tento de Fábio Júnior, um jogador emergente nesta equipa, Inácio recuperou o passado enfadonho de uma equipa que atravessou diversas metamorfoses.

Depois da confirmação da descida do Belenenses na última jornada, também o Leixões se viu relegado para o segundo escalão do futebol português. Sem surpresa. A derrota dos matosinhenses em Olhão (por 1-0) ditou o afastamento da equipa de Fernando Castro Santos - o Olhanense e o Vitória de Setúbal, apesar de vencido pelo Marítimo (2-0), garantiram, por isso, a manutenção. Em relação à luta europeia, o Vitória de Guimarães perdeu a oportunidade de assegurar definitivamente o quinto lugar (empate, 0-0, com o Rio Ave), vendo o Marítimo aproximar-se - está a três pontos e terminará o campeonato em... Guimarães. O Nacional, pelo empate a três golos com a Académica, mantém-se em igualdade com os maritimistas. Fora dessa luta está o União de Leiria: derrotado surpreendentemento pelo Belenenses (5-2).

Análise: A entreajuda na base da vitória

O clássico entre FC Porto e Benfica não foi um grande jogo de futebol. Dificilmente, por tudo o que separa os dois clubes, o seria. Não deixou, no entanto, de ter uma enorme intensidade, emoção e bons registos individuais. Foi um jogo vibrante e incerto, com suspense, à Hitchcock. O FC Porto ganhou bem. A expulsão de Fucile, aos cinquenta e dois minutos, poderia ter feito ruir a estrutura portista, deixar a baliza de Beto à mercê do Benfica, motivar os encarnados para chegarem ao empate. Um ponto valeria o título benfiquista. O FC Porto tinha um golo de vantagem, sim, mas com menos um elemento tudo poderia virar do avesso. Não foi assim. Os dragões transformaram as fraquezas em forças, mostraram alma, querer, garra e uma enorme vontade de triunfar. Havia uma raiva para ser libertada, uma vontade de travar a anunciada festa do grande rival. Uma questão de princípios.

Minuto noventa e três. Olegário Benquerença apita pela última vez no clássico. Chega a confirmação da vitória do FC Porto, suada mas justa. Por essa altura, já o Sp.Braga vencera, em casa, o Paços de Ferreira. A festa do Benfica, preparada para o Dragão, fica em stand-by. Os dragões festejam: os adeptos erguem cachecóis, os jogadores felicitam-se mutuamente pelo triunfo, termina a pressão trazida pelos minutos finais perante as investidas do Benfica. Comemora-se como se o FC Porto voltasse a ganhar um título. Não é. Pelo contrário. Apesar da vitória, os dragões sabem que irão ficar de fora da pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Chegar ao segundo lugar seria improvável, mas uma derrota do Sp.Braga aumentaria a disputa. Pode-se dizer que foi um dano colateral anunciado, pois acima disso estava o prestígio do FC Porto. Não ficou abalado pela festa alheia.

Não estranha, por isso, que a vitória do FC Porto tenha sido tão festejada. Não foi somente um triunfo sobre o Benfica, grande rival, amealhando três pontos numa ponta final de campeonato boa, mas sem resultados práticos na classificação. Tratou-se de um triunfo que impediu a coroação dos encarnados no Dragão. Houve espírito de luta, abnegação e um sentido de entreajuda verdadeiramente notável. Após ter ficado com menos um jogador, sobressaiu a capacidade do FC Porto, tão frágil e passivo noutros jogos, tão forte e convicto neste clássico. Com a expulsão de Fucile, Jesualdo Ferreira agiu de imediato. Teria, forçosamente, que o fazer. Para conservar a estrutura defensiva, o treinador sentiu necessidade de intervir. E fê-lo da melhor forma: retirou Raúl Meireles, exibição cinzenta, e lançou Miguel Lopes.

O empate saído dos pés de Luisão, num lance em que os dragões revelaram grande apatia defensiva, pareceu ter sido o mote para mudar o jogo. Aí, sim, o Benfica acreditou que estava em condições de vencer, até porque havia ainda mais de meia-hora pela frente. A resposta do FC Porto foi a melhor que poderia haver. Os portistas ganharam nova vantagem. Voltou tudo a ser como antes. Ernesto Farías rodou sobre Luisão, encarou Quim e rematou certeiro. El Tecla não esteve muito presente no jogo, mas doi decisivo. É isso, afinal, que se pede a um avançado. Logo após ter marcado, foi substituído. Jesualdo Ferreira colocou Rodríguez em campo, deixando de jogar com um ponta-de-lança fixo, preferindo apostar na velocidade e explosão. Jorge Jesus respondeu com a entrada de Pablo Aimar (Saviola: regresso apagado). E logo após Weldon (Javi García).

Era tempo de o Benfica procurar um golo. Jesus, no banco, pretendeu dar maior acutilância à equipa - entraria, ainda, Alan Kardec (Carlos Martins). Notou-se, contudo, a ansiedade de querer marcar, fazê-lo rapidamente, e isso tirou a capacidade racional necessária. Faltou Di María, sobretudo, para auxiliar Cardozo. Dois jogadores que entraram, Aimar e Weldon, tiveram o golo nos pés: Beto, autor de exibição segura, negou-o a El Mago; o avançado não aproveitou a falha defensiva azul. Pelo meio das oportunidades encarnadas, Freddy Guarín, um médio em crescimento e autor de uma belíssima prestação, acertou na trave. O FC Porto servindo-se da sua principal arma, o contra-ataque, poderia ter fechado o jogo nesse lance. Dois minutos passados após a perdida de Weldon, Belluschi (assistências nos dois primeiros tentos) sentenciou o clássico: túnel sobre Aimar, olhos na baliza, remate forte, enfim, um golaço. Chapeau!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

FC Porto-Benfica, 3-1 (crónica)

O DRAGÃO COLOCOU PAUSA NA CAMINHADA!

Um longo supiro para recuperar o fôlego. Agora, sim, podemos ir à crónica. O FC Porto venceu o clássico, o Sp.Braga cumpriu a sua parte e o Dragão não serviu de palco à festa do Benfica. Foi um jogo para homens de barba rija. Nem outra coisa seria de esperar. Um duelo entre FC Porto e Benfica, eternamente distantes e velhos inimigos de guerra, nunca poderá ser normal. Houve intensidade máxima, adrenalina nos limites, conflitos constantes, quezílias no meio de polémica permanente. Momentos de cortar a respiração. Há uma enorme convicção de que o Benfica será campeão. Muito dificilmente o título escapará aos encarnados. Conquistá-lo na casa do maior rival, preparando a festa debaixo do nariz do dragão, seria o corolário de uma época em que o Benfica foi melhor. O FC Porto impediu-o. A vitória não sacia mas consola os portistas. Muito.

Para impedir a festa do Benfica no Dragão, não alugando o seu palco de conquistas para júbilo alheio, o FC Porto teria de vencer e esperar uma vitória do Sp.Braga. Isso significaria que os encarnados não alcançariam, ainda, o trigésimo segundo título do seu historial. E, por outro lado, que os minhotos confirmariam o segundo lugar, deixando o FC Porto de fora dos milhões da Liga dos Campeões. Um dilema, portanto. Ou não. Entre ver o Benfica comemorar em sua casa ou ultrapassar o Sp.Braga na corrida pelo segundo lugar, a resposta não é difícil de adivinhar. O mais importante seria sempre adiar a conquista do título benfiquista. Será quase inevitável mas poupa-se a vergonha de ter de passar o testemunho em frente aos seus adeptos. O FC Porto há muito ficou arredado, não se pense, contudo, que estenderia a mão para saudar o adversário.

O Benfica estava no Dragão para sair a sorri. Di María foi o primeiro a criar perigo. Teve espaço, olhou para Beto, rematou forte e acertou na trave. O jogo começara quezilento, demasiado faltoso, envolvido por picardias constantes. Olegário Benquerença, mão de ferro, quis segurar os ímpetos, não deixar descambar a partida, mostrar a sua autoridade. O jogo perdeu fluidez. Ninguém quis dar um passo errado. Houve cautelas em ambas as partes. A segunda oportunidade de golo chegou, de novo, pelo Benfica. Numa jogada confusa, Javi García ficou solto perante Beto. Estava em situação privilegiadíssima mas atirou por cima. Os encarnados estavam melhor. Ou, pelo menos, criavam mais perigo. No FC Porto, começou a aparecer Hulk. Jogando em velocidade, explodindo na defesa do Benfica, levando a equipa para a frente: eis o Incrível.

BRUNO ALVES PARA DESATAR O NÓ

Sempre escaldante, uma séria ameaça à resistência de qualquer termómetro, o clássico estava com uma carga intensa atroz mas sem grandes motivos de interesse. Havia equilíbrio no futebol apresentado, apesar de ser sempre o Benfica a conseguir abrir maiores brechas na defesa contrária. O FC Porto insistia em Hulk. Farías, substituto de Falcao, não aparecera: lá permanecia tapado, cercado por Luisão e David Luiz, envolto na fortaleza encarnada. Num jogo assim, fechado, a melhor forma de resolver é aproveitando as bolas paradas. Dito e feito. Assim o FC Porto chegou ao golo: Belluschi marcou o canto e Bruno Alves elevou-se para cabecear certeiro. Foi a libertação da revolta da nação portista. Pelo falhanço do título e por ver o Benfica querer sair do Dragão triunfante. Antes do intervalo, os dragões passaram para a frente. Na mouche.

A polémica costuma fazer parte dos clássicos. Este, claro, não seria excepção. O momento de maior controvérsia chegou aos cinquenta e dois minutos: Fucile entrou na área do Benfica, envolveu-se com Fábio Coentrão, caiu, Olegário Benquerença entendeu ser simulação e mostrou amarelo ao lateral uruguaio. Foi o segundo - antes, na primeira parte, Fucile já fora poupado numa entrada sobre Di María. O Dragão explodiu em protestos. O Benfica viu a sua oportunidade para cercar o FC Porto, atacar a baliza azul, virar o resultado. Jesualdo Ferreira retirou Raúl Meireles, apagado, para recompor a defesa com Miguel Lopes. Veio o golo do Benfica. Lance estranho, atabalhoado até, ressalto para Luisão e empate. O homem do título de 2005, o homem do golo fundamental marcado ao Sp.Braga. Parece sina. Com mais um, poderia ser a pedra de toque.

UMA EXPULSÃO ESTRANHAMENTE BENÉFICA

Não foi. Antes que os encarnados estabilizassem, recomeçando do zero, o FC Porto voltou a colocar-se em vantagem. Outro lance também enrolado e feliz. Deu golo, sobretudo: Ernesto Farías, o suplente de luxo, marcou. Festa rija de um público sedento de alegrias. De Jesualdo Ferreira, acima de tudo. Estava escrito que o treinador portista não cumpriria o jogo no banco ante o Benfica. Foi expulso na semana passada, voltou a sê-lo agora após os festejos. E El Tecla, cumprindo o seu dever, com o Dragão grato numa ovação sentida, deu o lugar a Rodríguez. Importava, então, manter a equipa viva, realçando o sentido de entreajuda, aumentando a coesão, chamando todas as forças para guardar a vantagem. Jorge Jesus respondeu ao lançar Aimar, prescindindo de Javi García. O Benfica precisava da magia do mago.

O golo de Farías galvanizou o FC Porto e abalou o Benfica. Os encarnados erraram passes, mostraram ansiedade, perderam algum discernimento. Estavam com mais um, o empate valeria o título, tinham de se lançar de cabeça em busca do golo. Com serenidade, contudo. Aimar tentou de fora da área, Beto respondeu com uma grande defesa. Por essa altura, já Jorge Jesus colocara Weldon, em detrimento de Saviola, para mais tarde terminar com Alan Kardec no lugar de Carlos Martins. O treinador fez o que lhe competia: arriscou. Di María tem sido o jogador mais do Benfica, abre buracos nas defesas adversárias e inventa jogadas. Mas raramente apareceu no Dragão. Fez falta aos encarnados. E Cardozo, alguém o viu?... Pelo meio das tentativas do Benfica, foi o FC Porto quem ameaçou com maior perigo. Guarín ganhou força, está motivadíssimo, rematou de longe e a barra travou-lhe o golo. Indomável garra azul para vencer.

O jogo entrou na ponta final. Faltavam dez minutos. Em Braga, os minhotos venciam o Paços de Ferreira: segundo lugar carimbado, pressão no Benfica quanto ao título. Weldon esteve perto de um tento decisivo, como ele fez com o Marítimo, na Figueira ou em Coimbra; atirou, no entanto, para longe do alvo. Ainda estava tudo em aberto. Fernando Belluschi terminou a discussão, sossegou os adeptos portistas, deu-lhes o gostinho de impedirem a coroação imediata do Benfica. O argentino encheu o pé, rematou em arco, potente, Quim foi apanhado de surpresa: golo, fim de história. Com um remate de bandeira. Terminamos com Olegário Benquerença. pouco claro no critério, demasiado ríspido primeiro e benevolente depois, com Fucile e Di María nas áreas, amigo de Luisão num lance com Belluschi, pedidos de grande penalidade que parece ter resolvido bem. Muitos erros. Mas a noite, diga-se, não foi nada fácil. Ufff!...

domingo, 2 de maio de 2010

FC Porto-Benfica (antevisão)

O FC Porto-Benfica é mais de que um jogo. Envolve-se num cenário bélico, de inimigos, luta-se como numa batalha onde ninguém quer dar parte fraca para o rival. Perder este jogo é o pior que pode acontecer a qualquer um deles. O FC Porto-Benfica de logo mais será, ainda mais, um jogo de opostos. Os encarnados poderão conquistar o segundo título da década, coroando uma época sensacional, com um futebol vistoso e enleante, mostrando uma força há muito esbatida. Conquistar o trigésimo segundo campeonato do seu historial na casa do rival, no palco onde os dragões festejaram nos últimos quatro anos, será juntar o útil ao agradável da melhor forma. Será mais saboroso. É, por isso, uma questão de honra para o FC Porto. Com uma temporada fracassada, por não ter chegado ao penta, ver o Benfica sorrir na sua casa será um golpe duro. Demasiado. Daí que haja todos os condimentos para um cocktail.

O Benfica tem um campeonato para conquistar. Precisa, para tal, de somente um ponto nas duas jornadas que faltam. O Sp.Braga ainda resiste, continua a sua caminhada de sucesso, mas só um verdadeiro desastre impedirá os encarnados de festejarem no final. Há, portanto, uma tremenda expectativa sobre o clássico. Ninguém no Benfica o quer assumir, a pressão não poderá toldar a mente dos jogadores, será necessário nervos de aço para o conseguirem. Nada está garantido ainda. Por isso é imperativo que se reduza a carga de intensidade que se abate sobre os protagonistas. Mas haverá forma de o fazer num clássico nestas condições? Não. É uma mistura explosiva. A rivalidade é antiga, reacendeu-se com a enormíssima polémica que se seguiu ao jogo na Luz, o túnel como pano de fundo, este ano os papéis inverteram-se. Como reage um dragão que vê o rival preparar a festa debaixo do seu nariz?

Mais do que ganhar para continuar vivo na luta pela Liga dos Campeões, já com o carimbo de Mission: Impossible, o FC Porto quer vencer para impedir os festejos do Benfica. Pode ser apenas um mero adiamento, sim, mas sempre se poupa que o Dragão sirva de palco de comemoração alheia. Até porque para ainda ambicionar chegar ao segundo lugar, matematicamente muito difícil apesar de possível, o Sp.Braga teria de perder. Ora, isso significaria a entrega do título de campeão ao Benfica. E haveria festejos. A única alternativa é, então, ganhar para provar que este FC Porto tem capacidade para parar a águia: na primeira volta, na Luz, e na final da Taça da Liga, no Algarve, o Benfica foi melhor. Agora, jogando em casa, os dragões poderão mudar a tendência. Para isso não terá Radamel Falcao: viu o quinto amarelo e fica de fora. Perde o duelo com Cardozo. O duelo de matadores.

No Benfica não há ausências. Jorge Jesus convocou todo o plantel. Este é, afinal, um jogo que pode sentenciar a época dos encarnados, trazendo um título há muito ansiado, voltando os encarnados a conquistar o campeonato nacional após quatro anos azuis. Será um título merecido: o Benfica é a equipa mais forte, mais consistente e mais vibrante. Saviola, autor do golo na primeira volta, decisivo e recheado de oportunismo, regressou ante o Olhanense, na ronda anterior, e poderá voltar ao seu lugar natural: servindo de parceiro de Cardozo, um suporte fundamental para Tacuara, uma dupla que se complemente da melhor forma. O FC Porto não contará, já se disse, com Falcao. Perdem os dragões, sobretudo, e perde o próprio jogo: El Tigre é um jogador de grande valia e adaptou-se com extrema facilidade. Ernesto Farías deverá ser o substituto. Rodríguez é outra hipótese para recuperar um tridente atacante.

No meio de uma época em que o objectivo de voltar a marcar a História com a conquista do seu segundo pentacampeonato falhou, o FC Porto tem sido afectado por inúmeras baixas. Silvestre Varela, Mariano González e, mais recentemente, Rúben Micael contraíram lesões que os obrigam a pausas de longa duração e, no caso dos dois portugueses, lhes barram as legítimas aspirações que manifestavam em fazerem parte da convocatória de Carlos Queiroz para o Mundial 2010. Além deste trio, desde o jogo com o Vitória de Guimarães, também Helton tem vivido acossado por uma lesão. Falhará, por isso, este clássico com o Benfica. Depois do brasileiro e de Nuno, na Taça da Liga, Beto está pronto para assumir a baliza e será a aposta de Jesualdo Ferreira. Já que se fala nele, o treinador portista irá estar no banco, apesar da expulsão ante o Vitória de Setúbal, naquele que pode ser o seu último jogo caseiro enquanto comandante portista.

EQUIPAS PROVÁVEIS

FC PORTO: Beto; Fucile, Bruno Alves, Rolando e Álvaro Pereira; Fernando, Raúl Meireles, Guarín e Belluschi, Hulk e Farías

BENFICA: Quim; Rúben Amorim, Luisão, David Luiz e Fábio Coentrão; Javi García, Ramires, Aimar e Di María; Saviola e Cardozo