sábado, 20 de março de 2010

Uma final sem a devida promoção

A Taça da Liga não é, ainda, uma prova com impacto no futebol português. Está apenas no seu terceiro ano, é um processo embrionário, não há um clube que aposte verdadeiramente na sua conquista, até pelo facto de as contrapartidas desportivas e financeiras não serem aliciantes. Além do prestígio que não tem, a Taça da Liga, comparativamente com a Taça de Portugal, perde por não oferecer ao seu vencedor, ou até apenas finalista vencido, uma presença num lugar europeu. Os problemas regulamentares que têm surgido contribuem, também, para a existência desse desinteresse pela competição. A fraca aposta por parte dos clubes leva, então, a que os adeptos não se sintam atraídos a ir ao estádio. Cria-se uma relação de causa-efeito que justifica o fracasso que, até ao momento, a Taça da Liga tem sido.

Amanhã, pela terceira vez no Estádio do Algarve, joga-se a final da Taça da Liga. Sendo um jogo entre dois grandes rivais do futebol português, Benfica e FC Porto, a partida ganha maior destaque. Aos portistas, estreantes na final da competição, nunca este troféu terá importado tanto: para além de ter a oportunidade de bater o seu grande opositor, com o campeonato como uma miragem e eliminado da Liga dos Campeões, apenas sobram as Taças da Liga e de Portugal para os dragões anexarem ao seu historial. Poderá parecer uma enorme ironia que a conquista da prova seja importante para um clube que sempre se manifestou anti-Taça da Liga, assumindo publicamente que nunca esteve de acordo com a opção de Hermínio Loureiro em acrescentar uma competição ao calendário do futebol português.

No entanto, a Liga falhou na promoção do encontro de amanhã. Não teve capacidade para cativar público. A data e a hora do jogo - no Algarve num domingo à noite - levam a que poucos adeptos do FC Porto marquem presença nas bancadas. Essa é, pois, uma lacuna que não contribui para o espectáculo. Acresce ainda que não se ouviram protagonistas. Não faz sentido. Contrariamente às duas épocas anteriores, os treinadores rivais não se uniram para uma antevisão conjunta da partida: nas edições anteriores, Paulo Bento, então no Sporting, esteve ao lado de Carlos Carvalhal (V.Setúbal) e Quique Flores (Benfica). Não agora. Juntar o FC Porto e o Benfica, convenhamos, seria algo irreal, alimentado pelo clássico de Dezembro, um novo foco para aumentar o clima de hostilidade entre dois dos grandes nacionais. Mesmo assim...

Há ainda um silêncio que não se percebe por parte do FC Porto - embora a Liga já não tenha responsabilidade, pois os clubes são soberanos para decidir. De Jesualdo Ferreira ou de qualquer jogador nem uma palavra sobre a final da Taça da Liga. O clube deixa, por isso, os seus adeptos sem as informações que se impõem sobre o estado de uma equipa que não atravessa um bom momento. Estas medidas que poderão ser uma revolta contra um órgão de comunicação social ou um protesto para com alguma medida tomada pelos organismos que lideram o futebol nacional, apenas contribuem para que isolamento dos clubes em relação aos adeptos seja maior. É paradoxal. Não são os adeptos o suporte de uma equipa? Merecem, então, estar por dentro do que se passa. O futebol não sai beneficiado em nada. Há que mudar isso.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Benfica: apostar ou não na Liga Europa?

Um jogo poderoso, numa demonstração de classe e garra, essa capacidade que permite sofrer e fortalece para que seja possível dobrar as adversidades, deixou o Benfica apurado para os quartos-de-final da Liga Europa. Ou tudo isso resumido numa simples frase: este Benfica está empenhado em recuperar o estatuto de outrora. Os encarnados pretendem tornar-se novamente uma equipa temível e dominadora. Em Portugal, o Benfica é líder do campeonato, com o Sp.Braga como único concorrente na conquista do título de campeão nacional, já tendo os outros dois rivais demasiado longe, e tem uma ambição imensa de quebrar a hegemonia que o FC Porto conquistou nas últimas duas décadas. Esse é declaradamente o objectivo principal. Jorge Jesus foi bem explícito nas afirmações: se tiver de optar, escolherá ser campeão português. Será bom?

Por detrás disso há, contudo, outro propósito: a reabilitação no futebol europeu, recuperando o bom nome, intrometendo-se em batalhas que há muito haviam deixado de lhe pertencer. A recuperação na eliminatória com o Marselha, apagando um jogo em que foi manietado pelo adversário com uma exibição categórica, vencendo no difícil Vélodrome, é apenas o culminar de uma prestação convincente do Benfica na Liga Europa, prova recém-criada para substituir a Taça UEFA. As vitórias com o Everton, sobretudo no jogo da Luz, ganho por 5-0, naquela que terá sido a partida mais completa da equipa nesta temporada, são, também, destaques óbvios. No entanto, foi nos primeiros jogos das duas eliminatórias, com o Hertha de Berlim, na Alemanha, e com o Marselha, há duas semanas, que o Benfica ficou aquém do esperado.

Poderão, então, os benfiquistas ambicionar chegar longe nesta competição? Sim, sem dúvida. O sorteio, contudo, colocou o Liverpool como opositor nos quartos-de-final. Um adversário de peso, para sempre um gigante. Embora viva uma época intermitente, recheada de irregularidade e tenha sido enviado borda fora na fase de grupos da Liga dos Campeões. O reencontro com os reds traz boas memórias ao Benfica: em 2005-06, sob comando de Ronald Koeman, os encarnados ultrapassaram o então campeão europeu nos oitavos-de-final da liga milionária, com vitórias na Luz e, verdadeiramente épica, em Anfield Road. Foi esse o último grande momento do Benfica na Europa. Esta época, com Jorge Jesus, tem a oportunidade de recomeçar esse trilho. Sem o prestígio da Champions, mas no mesmo lugar onde ficou.

Apesar de estar na sua melhor temporada do século, o Benfica ainda nada de palpável conquistou. Os jogos que se seguem serão, por isso, absolutamente cruciais para o futuro da equipa. Um ciclo que começará já no próximo domingo. No Algarve, o Benfica defronta o FC Porto para procurar revalidar o único título conquistado no ano transacto: a Taça da Liga. Sendo um duelo desta envergadura, com tamanha rivalidade entre clubes, o jogo ganha uma maior relevância. Na semana seguinte, na Luz, jogará com o Sp.Braga uma partida importantíssima para a definição do campeonato. Virá, então, cinco dias depois, o primeiro embate do duelo com o Liverpool. O segundo estará no meio de uma deslocação à Figueira da Foz e de uma recepção ao... Sporting. Num curto espaço temporal, estará em jogo a época.

É fácil concluir, pois, que o Benfica irá jogar tudo em dois tabuleiros. A primazia é o campeonato. Porém, no subconsciente dos benfiquistas está o facto de terem uma oportunidade única para ultrapassar um grande clube europeu, um dos big four ingleses, e de, caso o venham a conseguir, ficarem com caminho aberto para a final de Hamburgo. Uma das vantagens do Benfica nesta temporada tem passado, indiscutivelmente, pelas alternativas existentes. Jorge Jesus tem a possibilidade de poupar jogadores com maior cansaço acumulado sem que isso afecte o rendimento da equipa. Para atacar o campeonato e a Liga Europa, alimentando a esperança num e mantendo-se vivo para um brilharete noutro, Jesus terá de fazer uma gestão perfeita do seu plantel. Apostar forte em ambas ou entender que a excessiva ambição poderá não dar bom resultado? Eis a questão!

Liga Europa: Fim de linha, leão!...

COMENTÁRIO

Jogando com dez durante uma hora, na casa do adversário, o nulo conseguido pelo Sporting, em Madrid, foi positivo. Permitia-lhe resolver a eliminatória em casa, onde se poderia tornar mais forte e discutir o jogo com as mesmas armas. Contudo, obviamente, não se trata, nem pouco mais ou menos, de um resultado confortável, pois, em contraste com as vantagens naturais de quem joga em casa, há o perigo de sofrer um golo que possa ser fatal na resolução final. O Atlético de Madrid não é nenhum papão, está em décimo no campeonato espanhol, mas é capaz do melhor e do pior num curto espaço, tanto consegue bater o Barcelona como logo de seguida escorrega frente ao Almería. O Sporting tinha motivos para acreditar, está no seu auge nesta temporada, a equipa respira confiança. Mas, atenção, eles têm um ataque invejável.

O Atlético de Madrid é uma equipa anárquica por natureza. Para além desse ataque poderoso, com Forlán, Simão e, sobretudo, Aguëro, os colchoneros têm uma defesa permeável, demasiadamente permeável para quem pretende ter sucesso. O Sporting, à última hora sem Marat Izmailov, um jogador fundamental na recuperação da equipa, teria de ser pressionante, incisivo no ataque para que fizesse tremer a zona defensiva do Atlético. Só assim, explorando até ao tutano o ponto fraco do rival, poderia ser bem sucedido. E assumir o jogo, sem receios, para mostrar que os espanhóis podem ser vencidos sem que isso seja algo sobrenatural. Porém, com uma defesa remendada: sem Tonel e Grimi, expulsos em Madrid, e com Daniel Carriço lesionado, jogaram Polga, Caneira e Pedro Silva. Segundas opções na ribalta para um jogo vital.

O ideal de o Sporting se assumir como empreendedor, assentando o seu jogo e tentando abrir brechas na defesa contrária, ficou pelo papel. Na prática, a equipa leonina foi obrigada a correr atrás do prejuízo, em jogo com dificuldades redobradas. Kun Aguëro, um craque com talento genuíno à solta em Alvalade, foi o responsável: marcou ao terceiro minuto, deixou os leões feridos e com a obrigação de ter de marcar dois golos para seguir em frente. Haveria pior início? Não, decerto. O Sporting demorou a reagir, precisou de explanar as suas capacidades, mas fê-lo com êxito. Saleiro encarou com Álvaro Domínguez e cruzou largo para o golo de Liedson. Uma sociedade perfeita, empate restabelecido. Era preciso mais, contudo. O Atlético estava bem, criando perigo, ameaçava com Aguëro, porém tremia na sua defesa. É um problema antigo.

Trinta e três minutos, exactamente meia-hora depois do primeiro golo, El Kun voltou a ser desmancha-prazeres: entrou na área leonina, finta para aqui e para ali, remate certeiro perante Rui Patrício. Nova desvantagem, de novo o Sporting necessitado de dois tentos, tarefa árdua, grande passo madrileno para a passagem. Mas ninguém pensou em desistir. Ainda havia tempo para tudo. Na última jogada antes do intervalo, Miguel Veloso cobrou um livre e, com um desvio subtil, Polga encostou para a baliza de De Gea. Empate alcançado. Outra vez. O Sporting regressou com força do descanso, viveu o seu melhor período, arriscou e teve oportunidades para ser feliz. Faltou-lhe aproveitamento, usou mais o coração do que a cabeça. O tempo passou, os leões sentiram uma quebra, as forças para ganhar foram diminuindo. O Atlético tivera um génio, agora tinha o relógio do seu lado...

quinta-feira, 18 de março de 2010

Liga Europa: A vingança do senhor Benfica!

COMENTÁRIO

Quem com ferros mata, com ferros morre. O Marselha lançou o veneno na Luz, impediu a festa do Benfica e, com um golo nos últimos instantes, deixou a eliminatória a seu favor. Merecera-o, sim, mas foi cruel para os encarnados. Custa sofrer um golo no final. Nada como responder na mesma moeda. No Vélodrome, num ambiente intimidante, o Benfica esteve a perder. A desvantagem durou pouco, contudo, conseguiu empatar de novo. Era, então, o tempo de servir a vingança aos franceses. Fria, tal como deve ser, destroçando qualquer tentativa de reacção, um golpe de misericórdia. Um golo no último minuto. E a passagem da eliminatória assegurada. Com sofrimento, com uma grande crença e com qualidade, o Benfica voltou a deixar o Marselha pelo caminho. Vinte anos depois. Com Alan Kardec no lugar de Vata.

Desvantagem na eliminatória, o grande inconveniente de ter sofrido um golo em casa, jogando fora, num estádio tradicionalmente complicado, a tarefa do Benfica não se afigurava nada fácil. Além disso, o Marselha provara no jogo da primeira mão ter muito valor, delineando uma estratégia capaz de suster o jogo encarnado e impor um ritmo que lhe permitiu servir os seus interesses. Pela primeira vez nesta temporada, o Benfica tremeu na Luz. Não quer isto dizer, porém, que estivesse algo perdido. Não, obviamente, até porque um golo que fosse servia para a equipa portuguesa seguir em frente. A primeira parte em Marselha foi prometedora, os encarnados tiveram oportunidades mas, estranhamente, revelaram-se perdulários. Mas estavam bem acima do que haviam feito na Luz. Era essa a filosofia que importava.

O tempo foi passando, o Benfica mantinha-se mais perigoso, já com um remate de Cardozo travado pelo poste e uma grande penalidade que passou em claro a Damir Skomina - tal como outra na segunda parte -, o relógio estava do lado do Marselha. Aos franceses bastava manter o jogo em banho-maria, ritmo baixo, longe da baliza de Mandanda, perigo bem afastado. Ao Benfica era imperial marcar para seguir em frente. Tentou, ameaçou, mas foi o Marselha a concretizar. Minuto setenta: bola na área encarnada, descoordenação defensiva, encosto de Niang para uma baliza carecida de Júlio César. Um novo obstáculo no caminho do Benfica, uma equipa talhada para dominar e pouco dada a reviravoltas. Nada de pânico, porém: um golo dava prolongamento, os encarnados estavam bem, tinham que aumentar a eficácia.

Passaram cinco minutos do golo de Niang, o centésimo dos marselheses nesta época, Maxi Pereira empatou. Tal como na Luz, foi o lateral, um extremo de origem, a aproveitar as oportunidades que os atacantes não tinham concretizado. Jorge Jesus, atento, percebeu que era necessário apostar: lançou Aimar, o mago, seguindo-se Alan Kardec. Foi decisivo. O jovem brasileiro entrou aos oitenta e seis minutos. Pablito Aimar cobrou um livre, a bola não foi devidamente afastada, carambola atrás de carambola, remate de Kardec para o fundo da baliza de Mandanda. Uma enorme festa em tons de vermelho, o finalizar de uma reviravolta épica, silenciamento total no Vélodrome, uma imagem perfeita de que não há estatísticas que não se abatam. É assim o jogo. Viram-se os feitiços, os pagamentos não se demoram.


quarta-feira, 17 de março de 2010

A fórmula de uma vitória brava do Inter

Organização defensiva intransponível, olhos bem fixos nos mais perigosos jogadores adversários, sentido de entreajuda, saídas rápidas para o ataque, com vários jogadores, servindo-se de uma brutal exibição de Wesley Sneijder. Assim, simples, jogando de acordo com as suas conveniências, se explica a fórmula do sucesso do Internazionale em Stamford Bridge, derrotando o Chelsea. Os italianos souberam jogar com a vantagem ganha na primeira mão. Não jogaram à italiana, contudo: os jogadores do Inter não se remeteram à defesa do resultado, curto e ao alcance de apenas um golo, Mourinho apostou no ataque, criou um tridente ofensivo com Pandev, Eto'o e Milito, o xadrez foi perfeito, surpreendeu Carlo Ancelotti, tirou a bola ao Chelsea. O Inter ganhou. Sofreu, a vitória ainda sabe melhor. Saiu ao som de olés, numa lição de Mourinho.

José Mourinho é um mestre na arte de lidar com a mente dos outros. Aproveitou-o contra o Chelsea, percebeu que era o adversário quem necessitava de procurar o golo para passar para a frente da eliminatória, era aos ingleses que interessava dominar o jogo e fazer uso de todo o dinamismo seu futebol. O Inter, apesar dos problemas recentes no campeonato, agora somente um ponto a mais do que Milan, tropeções internos improváveis, é uma equipa madura. Mourinho preparou o jogo ao mais pequeno pormenor, não deixou que nada lhe escapasse. A vitória começou aí, claro. Prolongando o nulo, sem que fosse criado grande perigo, os jogadores do Chelsea começariam a demonstrar ansiedade, vontade de querer resolver tudo depressa. Geralmente não resulta. Era o objectivo. Mourinho conhece-os como ninguém.

Thiago Motta é um daqueles jogadores que, por vezes, podem ser considerados irritantes. É o tipo de jogador que nenhum adversário quer ver pela frente, pela agressividade que coloca nos lances, disputando-os no limite. Ora, colocar alguém com essas características perante uma equipa que precisa de ganhar, sente dificuldades para ter a bola no pé e lançar-se com perigo para o ataque é o mesmo que juntar algum combustível a dinamite pronta a explodir. O nervosismo apoderou-se dos blues, Terry e Drogba - que acabaria expulso após pisar... Thiago Motta, lá está! - mais do que tudo, também Wolfgang Stark deixou duas grandes penalidades por assinalar. Há essas queixas, é um facto. Contudo, apenas por duas vezes o Chelsea conseguiu realmente ser perigoso: Júlio César pôs cobro a ambas. A Anelka e Malouda.

E o espectáculo contínuo de Sneijder, um farol criativo no Inter, autor de passes teleguiados, bolas de golo para os colegas? O holandês fez metade, faltou o resto: Milito, Eto'o e Pandev não souberam aproveitar. Sneijder desesperava por ninguém concretizar a fantasia que espalhava, a alma que dava a um futebol italiano habitualmente ligado a um jogo pouco atractivo. E Mourinho desesperava no banco. Aquele jogo de passa e repassa do Inter justificava um golo. Minuto setenta e oito: bola no meio-campo, de Sneijder para Milito, de novo para o holandês, passe fantástico para Eto'o, remate certeiro, juntinho ao poste, para o fundo da baliza. Faltava um golo ao camaronês, sempre abnegado mas estranhamente afastado da eficácia. Mou respirou de alívio. Agora, sim, tinha a eliminatória na mão. E Itália ganha nova força na Europa.

terça-feira, 16 de março de 2010

Carlos Carvalhal: um treinador com prazo de validade

Olhando à frieza dos números, o trajecto de Carlos Carvalhal no Sporting não é totalmente positivo. No campeonato, uma tarefa já transformada em utopia, a distância para a liderança foi aumentada: após a saída de Paulo Bento e um jogo de transição realizado por Leonel Pontes, ante o Rio Ave, Carlos Carvalhal estreou-se frente ao Benfica, na décima primeira jornada, sendo a distância de treze pontos pontos, e, actualmente, finda a vigésima terceira ronda, os leões têm uma vintena de pontos em atraso para o primeiro lugar, antes do Sp.Braga e agora do Benfica. Para além disso, num mês de Fevereiro que se revelou verdadeiramente funesto para as aspirações leoninas, foi eliminado da Taça de Portugal, no Dragão, e da Taça da Liga, frente ao Benfica. Dois rivais, duas goleadas. A equipa entrou num período de sete jogos sem vencer.

Por outro lado, quando Carvalhal assumiu o comando da equipa, o Sporting havia sido deixado, devido ao empate em Vila do Conde, na oitava posição. Tinha catorze pontos em trinta possíveis. Hoje, treze jogos a mais, está em quarto, num lugar europeu, com trinta e oito pontos. Há, portanto, uma subida substancial. No entanto, para além do rigor dado pelos números, há o plano exibicional da equipa. Com Paulo Bento, excepção feita aos encontros com a Fiorentina, no play-off de acesso à Liga dos Campeões, primeiro objectivo falhado nesta época, nunca os leões se apresentaram em bom nível. Com Carvalhal viveram diferentes metamorfoses: após o período de adaptação do novo treinador somaram sete triunfos seguidos, terminando 2009 na mó de cima, quebrados por sete jogos sem vencer. Um ciclo onde tudo lhe fugiu por entre os dedos.

Com probabilidades reduzidas de ainda conseguir algo de positivo, o Sporting deu, contudo, uma prova cabal de força: eliminou o Everton, mantendo-se na Liga Europa, foi esse o jogo da mudança. A equipa entrou no seu melhor período, somou, para o campeonato, vitórias com o FC Porto, Belenenses e Vitória de Guimarães. Nos três com excelentes exibições colectivas, mostrando grande coesão, transmitindo alegria ao seu futebol e juntando uma grande eficácia que é notória em onze golos marcados e somente um sofrido. Frente ao Vitória mostrou uma força verdadeiramente impressionante, sufocante para o adversário, autêntica raça de leão. O Sporting renasceu das cinzas. Porém, para além do campeonato, tem apenas a disputa da Liga Europa. E um grande obstáculo, o Atlético, para ultrapassar na quinta-feira, após o nulo em Madrid.

O jogo com o Everton foi a 25 de Fevereiro. A partir daí nada foi igual. Os leões conseguiram estabilizar o seu futebol, apresentam grande disponibilidade, assumiram que, afinal, há qualidade no plantel: Pedro Mendes veio dar a consistência que faltava, Saleiro tem sido um parceiro à altura para Liedson, Yannick um diabo à solta nas defensivas contrárias e Rui Patrício reaquiriu confiança. Carlos Carvalhal tem grande mérito nesta subida de rendimento da equipa. É incontornável que se reconheça trabalho do treinador, enfim com a sua filosofia implementada, conseguindo ter boas apostas que se revelam importantes no decorrer dos jogos. Carvalhal teve ainda o mérito de devolver o apoio dos adeptos à equipa e esse era, indiscutivelmente, um dos objectivos a que se tinha proposto. Por isso puxou dos galões e disse esperar uma recompensa.

Quando as portas do Sporting se abriram, mesmo não sendo primeira escolha para o cargo de treinador principal, Carlos Carvalhal teve uma oportunidade de ouro. Estava no desemprego, recebeu o chamamento de um grande, o expoente máximo de qualquer técnico nacional, era irrecusável. Agarrou-se com unhas e dentes, fazendo o melhor que pode. Começou por ter dificuldades, mas conseguiu, cim espaço, fazer com que o seu trabalho produza frutos. Com ele, no plano exibicional, o Sporting melhorou a olhos vistos. Mas mantém-se um treinador com prazo de validade limitado: a 31 de Maio de 2010, quando terminar a época desportiva, findará o seu contrato com o Sporting. Os dirigentes leoninos já terão feito a sua escolha, independentemente dos resultados, com um novo projecto. Correcta? Precipitada? Só o futuro poderá responder.

Liga Sagres: O duelo da liderança, um tira-teimas ansiado

ANÁLISE

Duelo pelo título, contagem descrecente para o momento das decisões, armas preparadas para o golpe fatal no adversário. Proibição de falhar, sob pena de toda a temporada ficar sem efeito, de pouco valendo o que foi feito, exigência maior do que nunca obriga a jogar nos limites. Benfica e Sp.Braga souberam ultrapassar os difíceis obstáculos colocados no trilho, sobretudo dos benfiquistas, acenderam ainda mais a chama para um jogo que já faz suspirar os adeptos, que poderá ajudar a decidir muito ou apenas aumentar a rivalidade criada. Dia 27, na Luz, Benfica e Sp.Braga têm o seu tira-teimas. Longe dessas lutas, o FC Porto mostrou estar desperto, superou o teste de Coimbra. E o Sporting, bem, continua a surpreender: que entrada de leão sobre o V.Guimarães!...


Alerta vermelho para o Benfica: deslocação complicada, logo após um desgastante jogo com o Marselha, na sequência de uma vitória do Sp.Braga que (re)inverteu a ordem no topo. Jogar com o Nacional é, por norma, complicado para os grandes. Na Choupana, um dos terrenos onde as exigências são maiores, dobram-se essas dificuldades. Os madeirenses, porém, ficaram órfãos de Rúben Micael, o jogador que lhes servia de suporte criativo, têm feito uma época irregular. Mas cedo se percebeu que só a custo, vestindo a roupa de serviço, o Benfica poderia ambicionar vencer. Não fez um jogo de deslumbrar, mas foi consistente e venceu com mérito. Cardozo, vilão numa grande penalidade desperdiçada (mal assinalada), herói no minuto seguinte, deu a vitória aos encarnados. Um jogo de sofrimento, com um triunfo importantíssimo.

O Rio Ave não é, por certo, um adversário que traga boas recordações ao Sp.Braga. Foi a equipa de Carlos Brito a primeira, sete vitórias depois, a tirar pontos aos bracarenses e, mais recentemente, quem eliminou, em pleno AXA, o Sp.Braga dos quartos-de-final da Taça de Portugal. É uma equipa com objectivos modestos, não pensa além da manutenção, mas revelou-se na primeira metade da época e joga olhos nos olhos com os adversários. Também agora criou complicações ao Sp.Braga, deu o primeiro sinal de atrevimento, Tarantini acertou na barra. A resposta dos bracarenses foi forte, triunfante: Andrés Madrid, em jejum desde Outubro de 2005, marcou. Foi um golo feliz. E vital. O Sp.Braga tomou as rédeas do jogo, guardou a vantagem e não deu azo à reacção vila-condense. Nova missão cumprida.

Jogando sob brasas, na ressaca da humilhação europeia, o FC Porto teria que mostrar estar vivo. E mostrou, de facto. Não fez uma exibição de encher o olho, certo, mas teve atitude e capacidade para dar a volta às adversidades. A Académica melhorou imenso com André Villas Boas - sim, não deu um salto substancial na classificação - e joga um bom futebol, não seria o opositor ideal. Além disso adiantou-se, marcando por Sougou. A desvantagem, contudo, foi dizimida com celeridade pelo FC Porto: Bruno Alves redimiu-se com um golo do penalty cometido (lance duvidoso). O empate prolongou-se, o FC Porto tentou, nunca virou a cara à luta. Há esse mérito nos portistas. A quatro minutos do final, Rodríguez cerrou os dentes e encheu o pé, potência na libertação da raiva pelo período conturbado, garantiu três pontos ao campeão.

O Vitória de Guimarães pretendia tomar de assalto o quarto lugar, mas... coitado, nem tempo teve para respirar. Começou em falso, pagou caro, sem perceber muito bem o que lhe acontecia sofreu três golos em vinte minutos impressionantes, magníficos e categóricos do Sporting, uma supresa constante a cada jogo que passa pelas demonstrações de futebol que vai dando: marcou por Grimi, por Liedson e por Saleiro, aos vinte minutos tinha aberto três buracos no castelo - mais outro marcou, porém o assistente de Bruno Paixão, compensando o erro do primeiro golo, anulou. O remate do Levezinho, então, é uma obra-prima. Vantagem confortável, vitória na mão, condições para travar o ímpeto e pensar no jogo com o Atlético. O Vitória cresceu, deu um ar da sua graça, mostrou um valor que o Sporting esmagara e conseguiu reduzir. Justo.

Vinte jornadas, quase sete meses, até um ano civil foi substituído por outro, muitas mudanças existiram. É este o espaço temporal que separa as duas únicas vitórias alcançadas pelo Belenenses: a primeira foi a 24 de Agosto de 2009, no Restelo, sobre a Naval (2-0); a outra conseguida nesta jornada, em Olhão, por 3-1, sobre um adversário directo na fuga à despromoção. Se ainda haverá tempo para recuperar, só o futuro poderá responder. A missão, contudo, não ficou facilitada, uma vez que o Vitória de Setúbal, primeira equipa acima dos lugares de descida, venceu o Leixões, por 1-2, e pode ter dado um passo fundamental para o seu objectivo - os leixonenses estão com uma árdua tarefa em mãos. Cinco pontos separam a equipa de Fernando Castro Santos dos sadinos e do Olhanense (ambos com vinte).

Com pequenos passos, em pézinhos de lã, sem que se dê pela sua acção, a Naval tem protagonizado um campeonato sempre em crescendo. Não tem o objectivo de se intrometer na disputa por um lugar europeu, mas conseguiu vencer a União de Leiria, por 1-0, e ultrapassar o Nacional, o Rio Ave e o Marítimo - as equipas insulares, declaradamente apostadas em chegar à Europa, voltaram a comprometer o seu futuro, pois ambas perderam: o Nacional com o Benfica e o Marítimo em Paços de Ferreira (1-0). Os pacenses, sob o comando de Ulisses Morais, estão, à imagem da Naval, a realizar uma época acima do que era expectável (ocupam o sétimo lugar). Rio Ave e Académica, derrotados, respectivamente, por Sp.Braga e FC Porto, deverão assegurar a permanência no principal campeonato dentro de poucas jornadas.