quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Noruega-Portugal (1-0): A queda livre do avião português

COMENTÁRIO

Portugal é uma equipa angustiada, impotente, abalada por tudo o que a afecta directamente sem que tenha contribuído para isso e incapaz de lutar contra as adversidades. Vive assombrada, receosa que o céu lhe caia sobre a cabeça, perdeu a confiança nos seus líderes e está entregue à sua sorte. Perde força, desanima, tenta, cai, não se consegue levantar. Nestas situações, más e com tendência a piorar, tudo vem por acréscimo, todos os pormenores sem importância e irrelevantes noutros contextos se transformam em gigantescas falhas que levam ao desespero. Em cinco dias, entre sexta e terça-feira, Portugal quebrou duas séries positivas, marcou a História pela negativa, permitiu que duas selecções, uma frágil e outra ao alcance, terminassem com um sorriso: empatou, parando um ciclo imaculado, contra o Chipre e, agora, piorou a sua situação, confirmando a horrível entrada em cena, ao perder na Noruega. É preciso mais?

Há sempre duas formas de olhar para uma determinada situação. É a tal lógica do copo: meio-cheio ou meio-vazio? Para Agostinho Oliveira, seleccionador interino na vaga deixada em aberto pela suspensão de Carlos Queiroz, há sempre a retirar algo de positivo. Contra o Chipre, apesar do patético empate com quatro golos sofridos, mesmo tendo Portugal demonstrado inusitadas fragilidades defensivas e incapacidade para se fazer valer ante um adversário modesto, o actual comandante da selecção nacional viu um belo jogo atacante. Errou? Não. Mas exigia-se a vitória a Portugal: a parte ofensiva foi cumprida com naturalidade, como obrigação que era, mas a componente defensiva falhou por completo. Contra a Noruega, depois de uma derrota que deixa Portugal, desde logo, em maus lençóis, Agostinho Oliveira gostou da atitude, da vontade de lutar e anteviu futuro para a selecção portuguesa. Copo meio-cheio? Não.

O futebol é, muitas vezes, uma verdadeira roleta. É momentâneo. Há heróis e vilões, as duas coisas num só, até mesmo em apenas um jogo se toca o céu e se desce ao inferno. Eduardo foi, na África do Sul, o jogador português, a par de Fábio Coentrão, em maior destaque: seguro, confiante, guerreiro e heróico para manter a sua baliza a zero. Neste início de caminhada rumo ao próximo Europeu, o guarda-redes português, agora no Génova, está diferente: intranquilo, apático, titubeante. Já falhara ante o Chipre. Em Oslo, num jogo decidido ao detalhe, Eduardo ficará para sempre ligado à derrota, vestindo a pele de culpado depois de ter sido fundamental, um capricho do futebol, por ter sido pouco ágil com a bola nos pés, recebida de Ricardo Carvalho, permitindo o desarme de John Carew e o golo de
Huseklepp. Aos vinte minutos, Portugal ficou em desvantagem. A Lei de Murphy, sempre feroz, atacou em força.

A perder desde cedo, num golo consentido, apenas mais um golpe numa equipa combalida e triste, Portugal, que não começara mal, viu-se obrigado a correr atrás do prejuízo, anulando a vantagem dos noruegueses e colocando-se, de novo, no trilho da vitória. Só que à selecção portuguesa faltam ideias, falta um fio condutor, falta consistência para atacar com audácia e rasgo, algo que Agostinho Oliveira também não consegue transmitir através do banco. O tempo foi sempre um forte aliado da Noruega. A Portugal, incapaz de chegar ao golo, aumentou a descrença, a incapacidade e a desorientação. Nunca conseguindo ser um colectivo forte, ao contrário de uma selecção da Noruega muito voluntariosa e solidária, embora perfeitamente ao alcance dos portugueses, Portugal viveu, mais uma vez, das iniciativas de Nani ou Quaresma. Apenas fogachos, tentativas desesperadas de lutar contra tudo, sempre inconsequentes.

Agostinho Oliveira tardou a mexer. Apenas o fez nos vinte minutos finais: trocou Tiago por Danny, mantendo a dupla Manuel Fernandes-Raúl Meireles, sem que tenha arriscado verdadeiramente, prescindindo de um dos médios de cariz mais defensivo, na procura de incutir maior garra, alma e capacidade atacante a uma selecção, a cada minuto, mais descrente. Houve oportunidades, sim, Hugo Almeida ainda colocou a bola na baliza de Knudsen mas em fora-de-jogo, a Noruega também as teve e Portugal não possuiu nunca um caudal de jogo forte e incisivo capaz de desposicionar os defesas noruegues e, enfim, mostrar a teórica superiodade, pelo menos em termos técnicos, da equipa nacional. Mal na leitura, também à deriva num mar de dúvidas, Agostinho Oliveira, a seis minutos do final, lançou Liedson, retirando Quaresma (!), em vão. Portugal é, neste momento, uma caricatura de si próprio. Precisa de um abanão urgente.

1 comentário:

JornalSóDesporto disse...

De facto uma selecção sem jogo sem ideias amorfa mas de facto enquanto se apostar nos jogadores só pelo clube e nome não vamos lá.