sábado, 11 de setembro de 2010

FC Porto-Sp.Braga (antevisão): Despique pelo topo

O dragão caminha seguro, ainda com lacunas mas conseguindo escondê-las dos adversários, está confiante, vitorioso e ganhou confiança para a nova temporada mercê de um belíssimo arranque. O FC Porto é uma equipa mais enérgica, deixou de ser tão estática e previsível, como foi na época passada, aumenta a sua crença na recuperação de um título que tem ganho na última vintena e meia no futebol português. É um nobre, forte e empreendedor, que quer recuperar o trono, sentar-se no lugar mais alto, destronando o campeão Benfica, titubeante e perdedor neste início de temporada, tendo já, ainda que numa fase muito precoce, a possibilidade de deixar um dos principais rivais, os encarnados, a nove pontos de distância. Precisa de guerrilhar com o Sp.Braga, um burguês que cresce e cada vez se confunde mais com os nobres grandes, ganha estatuto, tem resultados e está em ascensão. Já discute o título.

O jogo do Dragão, o primeiro que opõe os principais clubes que se apresentam com capacidade para lutar pela conquista do campeonato, embora o Sp.Braga mantenha o seu estatuto de outsider, correndo por fora para se intrometer numa questão tradicionalmente destinada apenas aos grandes, como é o FC Porto, será um verdadeiro teste às capacidades de ambas as equipas. Os dragões começaram bem na Supertaça, ante o Benfica, tendo somado triunfos na Liga Europa, com o modesto Genk, entretanto com um pleno de vitórias no campeonato - Naval, Beira-Mar e Rio Ave - que deixam a equipa portista em estado de graça. Precisam de um novo exame à sua valia, à consistência, à nova postura implementada por André Villas Boas. O Sp.Braga, vice-campeão do ano passado, procura a sua consolidação. Correm, no fundo, pelo mesmo: pela liderança, por marcarem a sua posição e abrirem caminhos risonhos.

Duas vitórias e um empate no campeonato, eliminatórias duras superadas ante Celtic de Glasgow e Sevilha rumo à entrada na Liga dos Campeões, um momento único e memorável na história do Sp.Braga, a obtenção de um sonho de uma vida, colocam os bracarenses cada vez mais esperançados de que será possível, outra vez, entrar na discussão do título: por que não? De um lado e do outro com a liderança no horizonte: o FC Porto é líder, pretende cimentar essa condição e alargar as vantagens sobre os dois primeiros do ano anterior - em caso de vitória, deixa os bracarenses a cinco e os benfiquistas a nove pontos -, enquanto o Sp.Braga espreita a oportunidade de chegar ao trono provando ter capacidade para ser forte interna e externamente. O jogo terá todos os ingredimentos de um jogo grande, intenso, vibrante e discutido, a cada minuto, por um lugar no topo. É a oportunidade de mostrarem a massa de que são feitos.

A época anterior trouxe a melhor classificação de sempre do Sp.Braga e fez descer o FC Porto ao terceiro lugar. Viveram realidades diferentes. Os minhotos foram, aliás, a primeira equipa a travar o então tetracampeão nacional, vencendo em casa, graças a um golo de Alan. No jogo do Dragão, contudo, já com o Sp.Braga perto de atingir o seu ponto máximo e o FC Porto demasiado afastado do seu objectivo de revalidar o título, a equipa portista, plena de raiva e capacidade ofensiva, trucidou o adversário, marcando cinco golos à melhor defesa do campeonato e apenas permitindo que Alan, o suspeito do costume, tirasse um pequeno peso à avolumada derrota. Agora é diferente: ambos estão bem, sabem o que querem e para onde caminham. Gostam de jogar bom futebol, embora coloquem sempre o resultado à frente, têm treinadores jovens que o proporcionam. Prometem um agradável despique.

O sector defensivo do FC Porto, apesar de ainda não ter sofrido qualquer golo no campeonato e de apenas ter sido batido pelo Genk, no jogo em casa, está identificado como sendo o ponto mais frágil deste novo dragão. André Villas Boas recebeu, por isso, Otamendi e já tem Fucile ao dispor. Contudo, no jogo de hoje, ante o Sp.Braga, o treinador deverá manter a linha defensiva utilizada neste início de época, com Maicon formando dupla no centro com Rolando e Sapunaru à direita da defesa portista. Do meio-campo para a frente, por certo, nada se alterará - apesar da fadiga de Radamel Falcao, o colombiano é peça-chave. Do lado do Sp.Braga, Domingos Paciência foi brindado com o regresso de Hugo Viana, importante numa primeira fase da época anterior e o médio português deverá ser titular no Dragão. Também Sílvio, reforço chegado do Rio Ave, é cada vez mais um indiscutível no lado direito da defesa do vice-campeão.

FC PORTO-SP.BRAGA

Estádio do Dragão, Porto, 21h15
Árbitro: Pedro Proença

FC PORTO: Helton; Sapunaru, Rolando, Maicon e Álvaro Pereira; Fernando, Belluschi e João Moutinho; Hulk, Varela e Falcao.

SP.BRAGA: Felipe; Sílvio, Rodríguez, Moisés e Elderson; Vandinho e Hugo Viana; Leandro Salino, Alan e Paulo César; Lima.

NOTA: O FC Porto-Sp.Braga, assim como todos os jogos grandes - entre candidatos ao título - que se jogarão até ao final do campeonato, terá crónica no FUTEBOLÊS.

Pedra, papel, tesoura: Benfica em alerta vermelho

Um campeão robusto, desconcertante, certo do seu valor e eficazmente belo está transformado numa equipa frágil, sem o mesmo poder de reacção, órfã de magia e equilíbrio, ansiando por um momento de génio que o catapulte para o pedestal onde subiu por obra própria. Sofreu a terceira derrota, conta apenas com três pontos em doze possíveis, tarda em arrancar definitivamente para a defesa do seu título. Está numa posição delicada, inusitada e surpreendente, mostrando desconforto pelas perdas de pérolas, pela falta de assimilação de novos jogadores, não consegue criar o caudal de jogo de outrora, concretizando as oportunidades que dispõe, falta-lhe capacidade para dar o golpe de misericórdia quando se coloca por cima. Também não tem aquela estrelinha que todos os campeões necessitam. Frente ao Vitória de Guimarães, guerreiro e abnegado, o Benfica repetiu o resultado das dus primeiras jornadas: derrota por dois-um.

Pedra, papel, tesoura. A pedra amassa a tesoura, o papel enrola a pedra, a tesoura corta o papel. Olegário Benquerença, o árbitro português mundialista, foi uma pedra em Guimarães. Sóbrio e decidido na África do Sul, merecedor de elogios e de confiança, transfigura-se, muda a sua forma de estar, comete pecados capitais e perde o seu fio condutor em Portugal. O triunfo do Vitória de Guimarães, por mais que tenha sido um papel que conseguiu deixar a pedra benfiquista tapada, fica manchado pela prestação do árbitro, protagonista e errante, por não ter assinalado duas grandes penalidades na área vimaranse e, por indicação dos seus assistentes, ter travado duas jogadas de perigo no ataque do Benfica. O campeão queixa-se, Olegário foi mais um motivo do seu desaire, é inegável, mas há mérito de um Vitória que aproveitou os erros alheios, do árbitro e do Benfica, nunca baixando a guarda e desmoralizando ante os encarnados.

Ritmo alto, coração perto da boca, altas rotações e jogo disputado. Duas equipas empenhadas, capazes, lutando pela vitória. Um anfitrião traiçoeiro para um campeão em busca da reabilitação. O Vitória de Guimarães ganhou uma bola vinda de Fábio Coentrão, aos dezasseis minutos, disparou rumo à baliza adversária levado por João Ribeiro, rasgou a defesa benfiquista e confiou em Edgar Silva, puro talento, para marcar. Aproveitou a oportunidade, saltou para a frente, ganhou entusiamo, obrigou o Benfica a reagir. O campeão ainda demorou a assentar, viveu sob pressão intensa do Vitória, faltou-lhe profundidade e não furou a muralha vimaranense. Até o castelo, depois de meia-hora forte da equipa de Guimarães, ruir pela base: Nilson permitiu que a bola lhe escapasse por entre as mãos para Saviola aparecer nas suas costas, oportuno e letal, recolocando o Benfica em pé de igualdade. El Conejo, o regresso.

Criando ascendente após o empate, refreando os ímpetos vimaranenses e assumindo-se superior, o Benfica conseguiu ser mais perigoso para a baliza de Nilson, manteve o Vitória longe da sua área e criou alguns lances ofensivos. Não foi nunca uma equipa sufocante, avassaladora, louca pelos golos. As comparações são sempre injustas. Neste caso, por exemplo, não se pode esperar ver a todo o custo o Benfica atingir o nível exibicional e diabólico do ano passado. Os vimaranses mantiveram-se sempre em alerta, na espreita de um erro, esperando que a poeira passasse e lhes trouxesse uma nova oportunidade para tentarem a sua sorte. Jorge Jesus mexeu, tentou dar maior acutilância à equipa, dominando o meio-campo e partindo convicto para o ataque. Manuel Machado, nessa guerrilha de treinadores, refrescou, colocou sangue novo, alterou para manter a concentração nos limites. Esperando o seu momento.

O jogo foi ganhando maior agressividade, aumentando a expectativa na proporção inversa aos minutos disponíveis para disputar, manteve-se entretido, quente, intenso. O empate não servia ao Benfica, seria bom para o Vitória, nada o mudaria, mas qualquer um deles pretendia, acima de tudo, vencer. É essa busca pelo triunfo, pelo objectivo máximo, que dá interesse ao jogo. O Benfica teve oportunidades, boas chances, o Vitória procurou sempre responder na mesma moeda, as equipas partiram-se, fizeram pela vida. O golo de Rui Miguel, a dez minutos do final, antecipando-se a David Luiz num cabeceamento fortíssimo para o fundo da baliza de Roberto, sentenciou o jogo, libertou o êxtase dos adeptos vimaranses, deitou o Benfica por terra e aumentou a apreensão junto do campeão - nunca começara tão mal. O Vitória fez tudo para ser feliz, foi guiado por João Ribeiro e acabou a sorrir. Olegário Benquerença influenciou.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Caso Queiroz: Consumatum Est

O título da crónica é este (dá sempre um ar de intelectualidade recorrer ao latim) mas poderia usar o já gasto (ao longo destes dois últimos meses) "crónica de uma demissão anunciada". Independentemente do título, Carlos Queiroz já foi, não na altura em que devia ter ido, pois a sua dispensa deveria ter acontecido logo após o regresso do Mundial, mas foi de um modo vergonhoso, empurrado pela porta dos fundos como se fosse um criminoso. É malcriado e agressivo? Arrogante? Orgulhoso? Mau, tecnicamente, no banco? Treinador medroso? Pois, que seja tudo isto e o que mais lhe queiram chamar, mas continuo a dizer que o modo encontrado - aliança ADoP/Secretário de Estado - foi a mais delegante e persecutória que se podia arranjar. Já aduzi em anterior crónica os motivos incongruentes que encontrei. Agora, para ajudar a esse raciocínio, vem a explicação da Federação Portuguesa de Futebol.

A FPF declara que, dos três objectivos a cumprir pelo seleccionador, só dois foram cumpridos. Faltou o terceiro, elucidando nós que dizia respeito a "tirar do fundo" o futebol jovem, e aí o falhanço foi claro com a escolha de "amigos" que nada tinham "provado" como técnicos (Oceano, Emílio Peixe) e os resultados das selecções jovens são elucidativos do falhanço. Os outros dois foram conseguidos, mas sem brilhantismo e com muito sofrimento na fase de qualificação,aliando a um futebol retrógrado e medroso da selecção na fase final do Mundial.

Rei morto, rei posto. Vai Queiroz (com muita tinta ainda para correr a nível jurídico) e vem outro seleccionador. Candidatos há muitos: Paulo Bento, o nome lançado pela comunicação social e por alguns elementos da Direcção da Federação, será neste momento o mais bem colocado; Humberto Coelho foi alvitrado por Gilberto Madail mas tem muitos anti-corpos na direcção federativa; os estrangeiros do costume (Aragonés, Eriksson, etc.); um outsider que ainda recebe ordenado federativo depois de rasgado o seu contrato com Madail (Manuel José) e os "abutres" do costume, já picam sobre o pseudo cadáver ainda nos últimos estertores, com Cajuda à cabeça (parece que abandonou o fax e recorre às páginas sociais).

Mas ainda agora começou a verdadeira guerra, a corrida à cadeira federativa, com vários candidatos: Fernando Seara proposto pela facção benfiquista, Carlos Ribeiro (presidente da Associação de Futebol de Lisboa) proposto pelas associações, Luís Figo com Madail a apadrinhar há muito esta hipótese, Vítor Baía proposto pelas mais diversas instituições (algumas associações, Sindicato dos Jogadores e Treinadores, médicos, etc.) e o candidato do FC Porto e Sp. Braga que está no segredo dos deuses mas promete vir a ser uma "bomba". Aguardemos, que a procissão ainda vai no adro e a Federação ainda está a viver na irregularidade, mas as armas vão começar a ser terçadas na comunicação social e prometem dar que falar.

Tenho pena do novo seleccionador que vai encontrar uma selecção à deriva, sem verdadeiro número dez (será tentado o regresso de Deco para os próximos jogos) e sem verdadeiros craques, pois os que assim se auto-denominam (Cristiano Ronaldo, Nani e Quaresma) são egoístas e adoradores do seu umbigo, cuidando mais do individual do que do colectivo. Para além disso, tem o ónus de correr contra o destino mais que traçado - não qualificação para o Europeu -, o que lhe poderá, paradoxalmente, dar algum lastrro para a desejada vassourada nos treinadores das selecções jovens.

PS: Não abdico nunca de expressar a minha opinião. Ainda bem que não é convergente e tem opositores, mas este nunca será o local para perguntas ou esclarecimentos que queiram colocar, pois não costumo jogar pingue-pongue de ideias no espaço de comentários deste espaço no qual sou convidado. Quem o quiser fazer tem essa hipótese no email bernardinobarros@gmail.com, dentro dos limites da decência e a boa educação.

BERNARDINO BARROS

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Opinião: O estado de anarquia português



ἀναρχος
. Não há erro. O texto começa mesmo assim:
ἀναρχος. Sem pensar muito, olhando como quem não pesca nada de Grego e tem mais do que fazer do que procurar, aquilo é só uma confusão. Estão ali umas letras juntas e não passa disso. Representa, na tradução literal, anarquia. Desgoverno, desorientação, caos. É a palavra ideal para a selecção portuguesa. Vive intranquila, na indefinição, na dúvida que atormenta e tolda os pensamentos e rasga a harmonia com sombras de guerrilhas internas. Aos soldados, sem sargento e sem general, tudo lhes acontece, têm qualidade reconhecida mas que desaparece envolvida em tantos problemas, jogam sob brasas. Portugal empata a quem sempre ganhou, empata com quem nunca cedeu qualquer ponto. Chipre e Noruega, adversários mais fracos, terminam por cima, sorriem, eles próprios esperavam mais. O que se passa com a selecção portuguesa?

Se alguma coisa pode dar errado, dará. Edward Murphy era um homem de ciência. Trabalhava em engenharia, verificava a segurança das aeronaves, fazia experiências e vivia no risco. Teve a frase que abre este parágrafo. Pura e dura, sem rodeios, clara como se quer. Murphy não devia ter grande tempo para futebol. Nem isso interessa. Mas a sua frase aplica-se na perfeição. Portugal está a senti-lo. Não perdeu qualidade. Só que não a demonstra, está triste, cinzentão, sem saber para onde se virar. Não tem rasgo, não tem ideias, não tem chama. No meio disso que, nos problemas em que está submersa até ao pescoço, a selecção portuguesa ainda é amaldiçoada pela Lei de Murphy. Tudo lhe acontece: falhas individuais, erros descomunais de quem antes garantira sucesso, mais um problema externo e desorientação técnica. É uma equipa partida, sem rumo, incapacitada para lutar. Está entregue à sua sorte.

Nos gabinetes, na preparação para as lutas, Gilberto Madail é um general apagado, combalido, cada vez mais distante dos seus soldados. É titubeante, não se apresenta decidido para se impor e mostrar que ainda pode continuar a liderar. Carlos Queiroz, envolvido em conflitos com os seus superiores e com quem devia ser seu aliado, não comanda o seu exército, viu ser delegadas as funções em alguém da sua confiança, está demasiado longe. No relvado, o caos reflecte-se: Portugal não é unido, vive de momentos de inspiração, que são apenas isso: momentos, não tem aquele golpe de asa capaz de resolver e é uma equipa demasiado distante. Eduardo treme como nunca tremeu na baliza da selecção nacional, a defesa erra em catadupa, o meio-campo é engolido pelos adversários, apesar da valia dos seus jogadores, o ataque está só. Falta ligação entre as linhas, falta formar um conjunto sólido, falta encarar os jogos com maior audácia.

No fundo, tudo aquilo que se vê no campo, aquele estado de ansiedade e de desorientação, é o que se vive por fora. A selecção, não escudando os seus jogadores, como qualquer líder pretende fazer aos seus soldados para que tenha sucesso na sua missão, permitiu que o desnorte exterior se instalasse no relvado, batesse forte, tapando saídas e queimando soluções, para deixar marcas. Agostinho Oliveira saltou para a ribalta, quis mostrar capacidade. Gilberto Madail deu o ar da sua graça: esta equipa joga em piloto-automático. Quis mostrar confiança nos jogadores: têm qualidade, com ou sem treinador, com ou sem plano, Portugal vai ganhar, porque é melhor, deixando para trás esta fase má. Ao mesmo tempo, o panorama desanuvia, a polémica abranda e, por momentos, até se esquece esta trapalhada imensa. Só que deu mau resultado. Portugal empatou e perdeu, fez História pela negativa, agudizou a sua tormenta.

Ter qualidade não é sinónimo de ter sucesso. O Chipre e a Noruega, sabendo viver com o estigma de que uma derrota seria perfeitamente normal ante uma selecção com jogadores da valia dos portugueses, uniram-se, foram verdadeiras equipas, deixaram a última gota de suor em campo e aproveitaram os erros alheios. O tal piloto-automático deveria ser imune a isso, infalível e capacitado para resolver todos os problemas com facilidade. Edward Murphy, nestas coisas de aviação, já tem uma opinião fundamentada, sabe do que fala, é perito. Vamos recordar: se uma coisa pode dar para o torto, numa fase crítica, dará certamente. Madail meteu os pés pelas mãos, Agostinho Oliveira disse que ele é que era o piloto-automático, mais valia não ter dito nada, e saiu, do nada, mais uma frase para marcar o estado da selecção: patético, sem nexo, infeliz. Onze jogadores em campo, uma bola, vitória no bolso: era bom, não era?

O futebol é jogado por homens, junta egos e emoções, vivem estados de espírito diferentes em cada momento. O segredo, que na prática não é segredo nenhum, está em juntar tudo isso, unir a qualidade deste e as potencialidades do outro, para que se apoiem e disfarcem as fragilidades que todos têm, criando uma equipa forte. Chipre e Noruega são modestos mas a entrega suplanta as debilidades. Portugal é o contrário. Tem bons jogadores, Nani e Quaresma aproveitam a ausência de Ronaldo para se assumirem, mas falta-lhe o fio condutor que o leve à vitória. Agostinho Oliveira prepara o jogo, conhece o adversário, alerta para os seus perigos e lança os jogadores para o relvado. Vai para o banco, cruza os braços e olha. A equipa não dá a resposta necessária, fraqueja, pede uma reacção rápida e sangue novo. O treinador tarda a mudar. Não arrisca. Cumpre o plano, só. Falta a intuição de, no momento fatal, agir sem receio.

A produção da selecção de um lado. Está a incapacidade de Nani, Quaresma, Raúl Meireles ou Eduardo para evitarem os resultados que envergonham. As polémicas do outro. Surge a saga das polémicas, as responsabilidades que todos apontam ao outro mas ninguém assume as suas, a margem de manobra nula para Carlos Queiroz, Gilberto Madail e Amândio de Carvalho, seja lá por que motivo for, com Laurentino Dias e Luís Horta sempre no centro da questão. São coisas distintas, sim, mas confundem-se no relvado: a selecção, à mercê de tudo, revela os problemas que a assolam, não se liberta dos fantasmas, leva-os ao expoente máximo e a ampulheta marca o fim do tempo. O empate com o Chipre mostrou-o, a derrota na Noruega foi a confirmação que faltava. Toque a reunir, basta!, decisões urgentes, renovação necessária e nova postura: há que correr em busca do apuramento. Isso é o mais importante. A guerra é longa. Ainda bem.

ACTUALIZAÇÃO: Durante o dia de hoje, quinta-feira, a Federação Portuguesa de Futebol, após várias horas de reunião, decidiu quebrar o contrato com Carlos Queiroz. O projecto fica pela metade. Mas não restava nenhuma outra solução. Trata-se, contudo, apenas do princípio. Em breve, mais nomes abandonarão, a própria Direcção convocou eleições, Gilberto Madail, apesar de se manter por agora, também tem o seu lugar por um fio. Portugal precisa, repete-se, de uma renovação rápida, frontal, colocando novas pessoas e repensando o seu rumo. Discutir as ideias, os métodos e a postura é fundamental. Sempre com o apuramento para o Europeu de 2012 como pano de fundo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Noruega-Portugal (1-0): A queda livre do avião português

COMENTÁRIO

Portugal é uma equipa angustiada, impotente, abalada por tudo o que a afecta directamente sem que tenha contribuído para isso e incapaz de lutar contra as adversidades. Vive assombrada, receosa que o céu lhe caia sobre a cabeça, perdeu a confiança nos seus líderes e está entregue à sua sorte. Perde força, desanima, tenta, cai, não se consegue levantar. Nestas situações, más e com tendência a piorar, tudo vem por acréscimo, todos os pormenores sem importância e irrelevantes noutros contextos se transformam em gigantescas falhas que levam ao desespero. Em cinco dias, entre sexta e terça-feira, Portugal quebrou duas séries positivas, marcou a História pela negativa, permitiu que duas selecções, uma frágil e outra ao alcance, terminassem com um sorriso: empatou, parando um ciclo imaculado, contra o Chipre e, agora, piorou a sua situação, confirmando a horrível entrada em cena, ao perder na Noruega. É preciso mais?

Há sempre duas formas de olhar para uma determinada situação. É a tal lógica do copo: meio-cheio ou meio-vazio? Para Agostinho Oliveira, seleccionador interino na vaga deixada em aberto pela suspensão de Carlos Queiroz, há sempre a retirar algo de positivo. Contra o Chipre, apesar do patético empate com quatro golos sofridos, mesmo tendo Portugal demonstrado inusitadas fragilidades defensivas e incapacidade para se fazer valer ante um adversário modesto, o actual comandante da selecção nacional viu um belo jogo atacante. Errou? Não. Mas exigia-se a vitória a Portugal: a parte ofensiva foi cumprida com naturalidade, como obrigação que era, mas a componente defensiva falhou por completo. Contra a Noruega, depois de uma derrota que deixa Portugal, desde logo, em maus lençóis, Agostinho Oliveira gostou da atitude, da vontade de lutar e anteviu futuro para a selecção portuguesa. Copo meio-cheio? Não.

O futebol é, muitas vezes, uma verdadeira roleta. É momentâneo. Há heróis e vilões, as duas coisas num só, até mesmo em apenas um jogo se toca o céu e se desce ao inferno. Eduardo foi, na África do Sul, o jogador português, a par de Fábio Coentrão, em maior destaque: seguro, confiante, guerreiro e heróico para manter a sua baliza a zero. Neste início de caminhada rumo ao próximo Europeu, o guarda-redes português, agora no Génova, está diferente: intranquilo, apático, titubeante. Já falhara ante o Chipre. Em Oslo, num jogo decidido ao detalhe, Eduardo ficará para sempre ligado à derrota, vestindo a pele de culpado depois de ter sido fundamental, um capricho do futebol, por ter sido pouco ágil com a bola nos pés, recebida de Ricardo Carvalho, permitindo o desarme de John Carew e o golo de
Huseklepp. Aos vinte minutos, Portugal ficou em desvantagem. A Lei de Murphy, sempre feroz, atacou em força.

A perder desde cedo, num golo consentido, apenas mais um golpe numa equipa combalida e triste, Portugal, que não começara mal, viu-se obrigado a correr atrás do prejuízo, anulando a vantagem dos noruegueses e colocando-se, de novo, no trilho da vitória. Só que à selecção portuguesa faltam ideias, falta um fio condutor, falta consistência para atacar com audácia e rasgo, algo que Agostinho Oliveira também não consegue transmitir através do banco. O tempo foi sempre um forte aliado da Noruega. A Portugal, incapaz de chegar ao golo, aumentou a descrença, a incapacidade e a desorientação. Nunca conseguindo ser um colectivo forte, ao contrário de uma selecção da Noruega muito voluntariosa e solidária, embora perfeitamente ao alcance dos portugueses, Portugal viveu, mais uma vez, das iniciativas de Nani ou Quaresma. Apenas fogachos, tentativas desesperadas de lutar contra tudo, sempre inconsequentes.

Agostinho Oliveira tardou a mexer. Apenas o fez nos vinte minutos finais: trocou Tiago por Danny, mantendo a dupla Manuel Fernandes-Raúl Meireles, sem que tenha arriscado verdadeiramente, prescindindo de um dos médios de cariz mais defensivo, na procura de incutir maior garra, alma e capacidade atacante a uma selecção, a cada minuto, mais descrente. Houve oportunidades, sim, Hugo Almeida ainda colocou a bola na baliza de Knudsen mas em fora-de-jogo, a Noruega também as teve e Portugal não possuiu nunca um caudal de jogo forte e incisivo capaz de desposicionar os defesas noruegues e, enfim, mostrar a teórica superiodade, pelo menos em termos técnicos, da equipa nacional. Mal na leitura, também à deriva num mar de dúvidas, Agostinho Oliveira, a seis minutos do final, lançou Liedson, retirando Quaresma (!), em vão. Portugal é, neste momento, uma caricatura de si próprio. Precisa de um abanão urgente.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Clube Portugal: Renovar com vista para o futuro

Portugal empatou com o Chipre. Marcou quatro golos, criou oportunidades para fazer mais, acertou por duas vezes nos ferros e teve espaços para sufocar o adversário. Teve licença para matar e desperdiçou-a. Abusou da altivez, sobrou sobranceria, levantou o pé e quis adornar, aumentar a conta sem muitos esforços, iniciando uma gestão tendo em vista o jogo com a Noruega, terça-feira, em Oslo. Viveu por duas vezes em desvantagem, saiu delas com relativa tranquilidade, impediu que o Chipre chegasse à baliza de Eduardo como no início mas faltou dar o golpe de misericórdia. Encontrou-se em vantagem, convenceu-se de que teria o jogo controlado e ganho, tentou satisfazer os nove mil adeptos (sublinhado: nove mil!) que se deslocaram a Guimarães. Permitiu, contudo, que o Chipre se mantivesse vivo. E os cipriotas, voluntariosos e lutadores, fazendo da entrega a grande arma para esconder as debilidades, ousaram ser felizes.

No futebol, quando duas forças tão distantes e tão desequilibradas se chocam, é impossível não olhar aos dois lados da medalha: há mérito e há demérito. Ponto assente: Portugal deveria ter ganho, por mais do que um golo até, impedindo que uma selecção modesta e pouco cotada como o Chipre marcasse, imagine-se, quatro golos a uma das melhores defesas do último Mundial, atacando o castelo português pela base e naquele que foi, desde que Carlos Queiroz assumiu o comando da selecção nacional, o seu ponto forte. Na África do Sul, por exemplo, a defesa esteve impecável e apenas faltou maior audácia, risco e poder de fogo para tentar chegar mais longe e deixar uma imagem mais convincente da qualidade de Portugal. Em Guimarães, a defesa portuguesa errou como nunca, entrou numa panóplia displicente, sem orientação e perdida no relvado. Portugal deixou que o Chipre acreditasse. Não podia. Teve demérito.

Paramos no tempo, olhamos para trás e recolocamo-nos no início do século. Portugal crescera, embalara como os clubes nacionais nas competições internacionais, conseguira vitórias sobre a Alemanha, sobre a Holanda, sobre a Espanha, por três vezes sobre a Inglaterra, uma delas com uma recuperação épica e única, abrindo horizontes a cada época. Teve um Europeu espantoso, perdeu-se no Mundial da Ásia, recuperou e emergiu quando conseguiu ser o anfitrião de um novo Europeu, mesmo tendo falhado o triunfo na final, até consolidar a sua posição num Campeonato do Mundo, mais exigente e sem tantas possibilidades de sucesso, alcançando a segunda melhor participação portuguesa. Não ganhou nada de palpável, sim, mas ficam bons triunfos, jornadas de futebol total, capazes de colocar o país ao lado da selecção. Neste momento, com tudo aquilo que tem sido a Federação, atolada em casos e em guerrilhas inúteis, os adeptos diminuem. O interesse cai a pique.

O xadrez está desorientado, sem rumo, com poucas soluções para abrir o jogo e tentar uma estratégia que dê bom resultado. As possibilidades perdem-se a cada segundo, o relógio avança, o fim aproxima-se, aceleram as pulsações, a mente bloqueia, o corpo quer mas não consegue, faltam ideias. O adversário apodera-se, torna-se melhor, aproveita as desatenções, os erros que aparecem em catadupa e não têm explicação, para procurar a sua sorte e conseguir surpreender e colocar-se numa posição favorável. Portugal está confuso, envolto numa trapalhada negra, perdeu todo o espaço de manobra e a cada dia perde a credibilidade e o apoio dos adeptos. Está só. Já não tem a rainha, tem o rei preso, mais isolado e à deriva, entrado num abismo que não acabará bem, apenas protegido por alguns peões que tentam dar o seu melhor. Mas são apenas uma parte do problema. Os peões falham porque o rei e a rainha há muito se perderam e foram colocados em xeque.

Mais do que discutir o passado, o que se passou no Mundial da África do Sul e todos os problemas que daí resultaram, sobretudo com Carlos Queiroz, é necessário olhar ao futuro. Repete-se: Portugal é uma selecção em queda, ferida, com qualidade de sobra mas sem tirar frutos, sem uma equipa verdadeiramente forte, sem o carácter e a força psicólogica de outras que, por exemplo, marcaram presença nos Europeus de 2000 e 2004 e no Mundial de 2006. É uma selecção que cede empates em casa com a Albânia e com o Chipre, que sente dificuldades para se impor e fazer valer a sua maior força, é incapaz de usar os seus maiores recursos para bater adversários modestos e frágeis. Coloca-se a jeito, facilita e dá-se mal. Vê-se obrigada, depois, a suar, a correr, a sofrer sem necessidade. O futuro está hipotecado. No relvado, sim, mas principalmente nos gabinetes. É aí que começa o problema. Os líderes, os chefes, têm de ser chamados à responsabilidade. Carlos Queiroz e Gilberto Madail perderam espaço, condições e crédito. A selecção, mais do que nunca, precisa de se renovar. Sem desculpas.

domingo, 5 de setembro de 2010

Caso Queiroz: Haja decência, demitam-se!

ANÁLISE DE BERNARDINO BARROS AO CASO QUEIROZ

Tenho tido alguma relutância em escrever sobre um tema que é diariamente escalpelizado na informação e contra-informação deste país. Esperava que o bom senso imperasse e os intervenientes chegassem a uma conclusão, estão a fazer uma triste figura. Por mim, há muito que lhes tracei o azimute: demitam-se e livrem-nos de assistir a um circo com tão fracos palhaços.

Facto 1 - Carlos Queiroz usa impropérios dignos de um carroceiro, insurgindo-se contra a realização de um controlo anti-doping em horário que considera impróprio - oito da manhã. Isto ocorreu a 16 de Maio de 2010, na Covilhã, tendo a ordem para se proceder ao inquérito a este caso sido deliberado pelo Despacho nº 55/SEJD/2010 datado de 10 de Julho de 2010 (véspera da final do Campeonato do Mundo).
Perguntas: Dada a natureza grave dos factos - insultos ao presidente da Autoridade Antidopagem de Portuhal (ADoP) -, que foram mencionados no relatório dos médicos intervenientes no controlo, por que foi o caso abafado até à conclusão da prestação portuguesa no Mundial 2010? Por que foi assinado e datado despacho a um sábado (!!!) pelo Secretário de Estado do Desporto, Laurentino Dias, cinquenta e cinco dias depois dos incidentes? Se Portugal tivesse prestação mais positiva no Mundial haveria inquérito, ou teríamos mais um processo "abafado a bem da Nação"?

Facto 2 - No relatório elaborado pelos médicos da ADoP foi registado o insulto do seleccionador, descrito como "perturbador", mas não impediu, como consta também do relatório, a prossecução dos trabalhos de recolha das análises, tendo, inclusive, sido escrito que tudo decorreu dentro da normalidade e sem a presença do seleccionador. No entanto, aconteceu um problema, surgindo uma desconformidade, pois o médico João Marques não registou a densidade urinária da amostra A/B413429 no formulário do controlo antidopagem.
Perguntas: Se no relatório nada consta do impedimento do controlo ou de interferência directa do seleccionador na recolha das análises, por que carga de água se liga a "desconformidade" do médico João Marques ao vernáculo de Carlos Queiroz? Que levou João Marques a olvidar uma obrigação processual na recolha das análises? Por que errou numa "densidade urinária" quando foram realizadas sete análises? Será que o meio para justificar o lapso, que daria uma "não conformidade no currículo do Dr. João Marques", foi um novo relatório onde a perturbação pelo insulto ao Dr. Luís Horta (ou ao seu familiar), foi o motivo que levou à não conformidade?

Facto 3 - A ADoP, não satisfeita com o castigo dado pelo Conselho de Disciplina (apenas e só foi julgado pelo CD da Federação Portuguesa de Futebol o insulto do seleccionador e nunca a "perturbação de um controlo" que nunca foi registado no relatório dos médicos), decidiu avocar o processo e castigou Carlos Queiroz com seis meses de suspensão, como se lê no seu relatório de 30 de Agosto, aqui transcrito.
Perguntas - A lei permite que a ADoP possa avocar o processo, mas será curial julgar em causa própria? Quando no primeiro relatório nada consta da "perturbação ao controlo" por parte do seleccionador (relatório assinado pelo médico António Batista) e um mês e meio depois, em relatório pedido pelo Instituto do Desporto de Portugal (a 5 de Julho) aparece o dito por não dito, ou seja que o insulto do seleccionador foi o factor directo e decisivo na não conformidade do médico João Marques, será isso "legal e deontologicamente" correcto?

Conclusão: Carlos Queiroz foi malcriado e insolente, utilizando linguagem de carroceiro. Carlos Queiroz já tinha antecedentes de má conduta e de insultos. Carlos Queiroz é competente no planeamento do seu trabalho mas é um mau técnico de banco. Foi um erro a sua contratação por quatro anos (termina em 2012) quando esta Direcção federativa só tinha mais dois anos de mandato (termina em 2011). A prestação da selecção portuguesa tem sido sofrível, com um apuramento em cima da meta, uma prestação mediana no Mundial (uma só vitória frente aos pobres norte-coreanos) e exibições deploráveis. Se a isto juntarmos o que se tem observado nos últimos dias - jogadores a desistirem da selecção, adeptos dissociados do fenómeno selecção e patrões (Federação) a colocarem processos disciplinares ao empregado (seleccionador) - está decretado o fim da linha para Carlos Queiroz. Mas não só, pois o ruidoso silêncio de Gilberto Madail também é comprometedor, assim como a intromissão persecutória do Secretário de Estado do Desporto. Um, Madaíl, acha que o calado é o melhor, o outro, Laurentino, tem a vocação de não se calar quando vê um microfone.

Queiroz deve ser demitido porque não serve os interesses desportivos da Federação? Seja, mas façam-no de modo sério, com recurso ao factor "justa causa" se o houver, através de um acordo financeiro ou então pela indemnização total do seu contrato. Não arranjem "golpes palacianos" ou atitudes dignas da era da Inquisição para se livrarem dele. Já agora podiam fazer um favor algumas figurinhas deste processo: aproveitavam o embalo e saiam também.

Viver na paz podre interessa a quem? Apenas e só a quem se quer perpetuar no poder a qualquer custo e acreditem que há alguns que são piores que lapas!...