quarta-feira, 27 de julho de 2011

Benfica: Um chefe que resolva o impasse

Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.

A pré-época é uma correria. Amontoam-se notícias, embrulham-se negócios e aquecem-se os motores. O período de transferências é demasiadamente longo, permite várias reflexões, várias investidas e vários acertos. Nos clubes portugueses, por exemplo, sobra apreensão e temor. Os europeus estão atentos, são os grandes senhores, têm capital e podem investir. Os cofres portugueses agradecem o que os adeptos repudiam, em tudo existem consequências boas e más. Há, por outro lado, a necessidade de corrigir erros, preencher crateras e evitar novos tropeções. O mercado serve para isso: sai quem não interessa e chega quem pode ser útil. O Benfica vive esse período.

A fase inicial do Benfica foi conturbada. O clube, depois de perder o título para o FC Porto, percebeu que teria de mudar. Olhou para o mercado de transferências, viu onde falhara e contratou. Vários jogadores por posição, alguns deles com qualidade firmada, outros com margem de progressão, a mesma linha dos últimos anos, uma long list para a nova época. O mais normal, nesta situação, seria que os reforços preenchessem lugares ocupados, na última época, por jogadores que, agora, já não faziam falta - César Peixoto ou Roberto, por exemplo, são dois casos que há muito se percebera não fazer sentido continuar. No entanto, o Benfica falhou na colocação dos jogadores que Jorge Jesus riscou. Mesmo não os querendo, manteve-os no plantel. Reforços, activos importantes e dispensáveis, tudo no mesmo grupo.

Hoje, a 27 de Julho, o Benfica iniciou oficialmente a época. Defrontou os turcos do Trabzonspor, em casa, para a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Controlou, cresceu com os minutos, passou por sustos, conseguiu quebrar a resistência adversária, marcou dois golos soberbos e venceu com justiça. E naturalidade. Sobressaiu a consistência defensiva, a sobriedade de Artur ou o dinamismo de Nolito e Enzo Pérez. Os reforços estiveram em bom plano, responderam com exibições agradáveis e mostraram trabalho.Jorge Jesus sorriu, gostou e contentou-se com a vitória por dois golos. Não garante a passagem mas... quase. A vantagem é confortável e permite que o Benfica, na Turquia, possa encarar o jogo com segurança. Mas nem por isso descansou.

Há ainda muitas situações pendentes, que precisam de resposta e que vêem o tempo esfumar-se. Antes de conseguir qualquer base para a equipa, antes de implementar qualquer modelo ou filosofia de jogo, Jorge Jesus precisa de ser um chefe, decidido e eficaz, que organize o plantel do Benfica e utilize os jogadores que tem para conseguir um grupo sólido, equilibrado e com soluções para todas as posições. Há excesso de jogadores. Jesus precisa de se libertar dos que não quer, perceber o que fazer com os que forçam a saída e instruir os que serão a equipa-tipo. Vida de chefe.

domingo, 24 de julho de 2011

Opinião: Knocking on Evans door

Cadel vai no melhor, segue imparável, ritmo altíssimo, rotações elevadas, o sonho leva-o, a vontade empurra-o e a glória espera-o. Está às portas do céu. Evans on heaven's door.

Um momento, por favor. Nada de perturbações que estraguem a concentração. O período é de reflexão. Contagem decrescente, ânsia, espera que não acaba, hora de decidir tudo, tensão maldita. Nestas coisas, para aliviar, fica sempre bem uma musiquinha de fundo. Um iPod, dois auscultadores e um novo mundo pela frente. Final Countdown, não há melhor para aquele instante, é tradução à letra, sentido literal, encaixa na perfeição. Acelera o ritmo, faz bater o coração e sentir as veias. O palco está ali, à nossa frente, num ambiente frenético. Louco, louco, louco. Andy, vamos lá? É a tua vez, já foi tudo, concentra-te. Os músculos contraem, as pulsações sobem, todos vibram. Há que defender, que pedalar, que dar tudo, que ir para lá dos limites. A vontade é o éter.

Cadel, coragem, coragem, estás em grande, isso, mais um esforço. Dentes cerrados, determinação total, sangue, suor e lágrimas, tudo junto, vontade de voar numa bicicleta, de anular todos os tempos e pulverizar a concorrência. Atrás, no carro de apoio, os olhares cruzam-se: o tempo é uma relíquia, o homem parece que vai pelos ares, ganha segundo atrás de segundo, leva um ritmo impressionante e está disparado para o sucesso. Noutros anos já andou lá perto, já o sentiu, já quase o agarrou. Mas fugiu-lhe sempre. Às vezes até pelo meio dos dedos. I have a dream, responde ele. Não é o único. São muitos a perseguir o mesmo objectivo, a querer a mesma glória e a desejar o mesmo. Afinal, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Por isso pedala como nunca.

A vida corre mal a Andy. A vontade não é tudo. Ele quer, ele sua, ele luta. Desaparece o sorriso, reina a apreensão, o momento não é de conquistas, nada disso, é só de nervos e quase desespero. Passam pela cabeça imagens míticas, muitas voltas, muitas acelerações. E outras peças mal jogadas, zelo a mais e demasiada preocupação em ter um contador de adversários. Alberto, o figurão das outras vezes, dera dores de cabeça, obrigara a estratégias reforçadas e fora o alvo a abater. Com sucesso. Só que havia mais, outros estavam à cuca, preparados para saltar, para aproveitar e para rolar rumo ao topo. Tudo passa pela mente em segundos. O que está feito não se muda. Não se volta atrás. Agora sou eu, a bicicleta e o tempo, vamos lá.

Se há dia perfeito, este é um deles. Tudo corre às mil maravilhas. Cadel vai no melhor, segue imparável, ritmo altíssimo, rotações elevadas, o sonho leva-o, a vontade empurra-o e a glória espera-o. Está às portas do céu. Evans on heaven's door. Arrisca, força mais um bocadinho e está quase. As indicações que recebe estimulam, fazem-no pedalar intensamente, querer ainda mais. Vamos, Cadel, estás a ganhar dois minutos, ele está mal, não tem andamento, está fora, segue. Cadel Evans respira. Pensa nos anos em que foi segundo, pensa nas dificuldades que teve noutras épocas, pensa em como o título mundial o fez mudar de atitude e como teve sempre a melhor estratégia desde o início neste ano. Neurónio contra neurónio, flashes momentâneos, múltiplas imagens. Sorrisos e lágrimas, numa pedalada forte e intensa.

Andy está no fim da luta contra o tempo e contra o destino. Desde os primeiros dias que olhou para Contador como principal alvo, como inimigo e culpado por não ter ganho nos anos anteriores. Dois segundos lugares não sabem a nada a quem tem ambição. É pouco, é frustrante. Agora, sem Contador na luta, também não deu para outra coisa. Custa ainda mais. Andy começou expectante, perdeu tempo, explodiu rumo ao Galibier, deixou os adversários para trás, assumiu a liderança no Alpe d'Huez, talento puro, ganhou chama, mas o contra-relógio..., não, o contra-relógio ainda precisa de muitas horas de esfoço, de determinação e de prática. Evans não o deixou ganhar tempo precioso nos Alpes e agora roubou-lhe o sorriso. Chega vergado e vencido. I'm back. Com certeza. Para o ano, Andy lá estará à procura de ser feliz.

Cadel Evans tropeçou, correu, pedalou, sonhou, acreditou, voou e ganhou. Teve alma, teve tenacidade, teve vontade, teve sorte e teve o controlo nas mãos. Geriu o tempo, o espaço e o estado de espírito. Enfrentou Andy e ganhou das duas vezes. Duas? Sim, percebe-se agora que no Galibier, no dia da vitória assombrosa de Andy Schleck, também ganhou. Porque teve quatro minutos de atraso, mordeu a língua e perseguiu como nunca, encurtou o espaço e resistiu aos Alpes, mesmo em desvantagem, com tudo controlado para o contra-relógio. Sonhou, deixou-se de contar lugares no pódio ao lado do primeiro e assumiu a liderança. Sentiu a felicidade e a concretização do sonho de uma vida. Era agora ou nunca mais. Congratulations, Mr. Evans. Thanks, Andy, you have a long time.

sábado, 23 de julho de 2011

Tropeçar, andar, correr e talvez voar

"O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará".

Se Vítor Pereira gostar de Saramago, se concordar com o que ele diz acerca da evolução do Homem, deve estar satisfeito. O FC Porto chegou ao céu, tocou-o e por lá ficou, viveu um período de sonho, tudo divinal, até acordar abalado: André Villas Boas saiu, falou-se em traição, em deserção, o treinador foi e parte do favoritismo também. Porquê? Porque André era uma das principais armas e porque com ele outras iriam. Para já, não se confirma. Hulk, Moutinho, Falcao continuam fiéis. Ainda podem sair, sim, há quase um mês de indefinição e de receio, mas, neste momento, o dragão corre. Chegaram ainda Kléber, Danilo ou Iturbe. Mantém-se a fé, mantém-se a alegria, mantém-se o futebol atacante e mantém-se a mensagem de querer sempre mais. É para voar outra vez?

Se Jorge Jesus gostar de Saramago, se concordar com o que ele diz acerca da evolução do Homem, deve estar na dúvida. O Benfica precisa de melhorar, tem que apagar a época passada, cheia de tropeções e pouca capacidade para voar. Para isso, contrata. Um, dois, três, ene jogadores. Capdevilla, Nolito, Eduardo ou Garay são bons. Se conseguirem encaixar bem na equipa, se entrarem na dinâmica e no espírito de futebol ofensivo, pressionante e veloz que Jorge Jesus gosta, podem fazer o Benfica deixar os tropeções e começar a correr outra vez. Mas, hoje, existem muitas dúvidas: se Luisão fica, sobre quem serão os reforços dispensados, sobre o que fazer com quem não encaixa e se há um substituto para Fábio Coentrão. Por isso, para já, é preciso dar passos firmes. Voará depois?

Se Domingos Paciência gostar de Saramago, se concordar com o que ele diz acerca da evolução do Homem, deve encontrar ali, no meio daquelas palavras, um fio de esperança. O Sporting só tem que melhorar, o Sporting só tem a ganhar, o Sporting só pode corrigir o que de mal tem feito. Nos anos anteriores, nem andar conseguiu. Apenas somou equívocos e nódoas negras. Agora quer mudar, romper, rasgar tudo o que de mau aconteceu e abrir um novo momento. Chegaram reforços em catadupa. A expectativa elevou-se com Capel, com Luis Aguiar, com Oneywu ou Rinaudo. Voltou a confiança, a serenidade e o apoio. O Sporting parece ter reencontrado condições para andar. E caminhar com calma e sem pressa rumo ao futuro. Dará para, tão cedo, querer ousar voar?

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Opinião: Um pesadelo de cadeira

O despertador toca. As pestanas soltam-se em dois tempos. O espevitar é forte, violento, faz acelerar o coração e sentir o sangue a pulsar. A cabeça lateja. Lá dentro, um eco, primeiro ao fundo, depois crescente, uma sucessão de imagens e de rostos pelo meio, sempre a bater, sem misericórdia, para fazer estragos. Cadeira de sonho, cadeira de sonho, cadeira de sonho. O som cresce, aumenta, mói e destroça a alma. Traz outras palavras coladas, traz sorrisos, traz imagens de vitória, saltos de alegria. É o clube que eu adoro, daqui não saio, é um sonho, não abdico deste lugar por nada. A pressão é cada vez maior, solta-se o lençol, a almofada vai pelos ares em linha recta. Um Prozac, por favor. Pode ser que a coisa alivie. O que é isto, pá?


Mãos na cara, cabeça baixa, indicadores passados pelos olhos e um movimento rápido para erguer o pescoço. O que é isto, pá? A pergunta repete-se. Foi um pesadelo, só pode ter sido, foi um pesadelo, o André, o nosso André, não fazia isso, ele é um de nós, carago, não nos ia deixar assim. Liga a televisão. Ainda ensonado, com os olhos semicerrados, pode ser que aquilo tenha sido o efeito de um copo a mais, sabe-se lá, há coisas que não se explicam. Não, esqueçam, não há pesadelos, não há ressaca, não há nada a não ser o que é na verdade. Um, dois, vamos lá interiorizar. A realidade pura e dura é que André Villas Boas rescindiu com o FC Porto, pagou os quinze milhões de euros da cláusula e partiu para o Chelsea. Oh não, nem o Prozac ajuda. Cabeça na almofada e esquecido o mundo maldito.


André Villas Boas é, agora, nome proibido para a maior parte dos portistas. Foi um herói, um herói louco, por aquilo que fez, pelas vitórias, pelos recordes, pelos títulos, pelos saltos, por uma época de sonho, mas, não há hipótese, foi tudo por água abaixo. A irritação não sai. O sentimento de traição apodera-se, corrói por dentro, faz mossa e absorve a razão. Porra, pá, pensei que eras um dos nossos, que desilusão, que traidor, que mercenário, és um falso. André foi embora. Tomba do pedestal, perde o crédito, passa a zé-ninguém, só mais um que serviu e foi servido pelo clube, sai sem glória depois de um ano imortal. Deixou o dragão enfurecido, revoltado e em erupção.


A carga pronta e metida nos contentores, adeus, ó meus amores, que me vou. Agradecido. Com quatro títulos ganhos, com um percurso dourado, com uma época que dava para uma estátua logo à primeira tentativa. Mas a vida é feita de momentos. Houve um em que o Chelsea chamou, as libras amontoaram-se, André perdeu-se nos cálculos, viu uma possibilidade única, gostou e aceitou deixar tudo para trás. Não havia como recusar. André era o adepto, era o jovem, era o dragão, era o treinador. Era muitas coisas num só. Os dragões de bancada reviam-se nele. Competente, entusiasmante, categórico e portista. Naquela pose de mão no queixo havia compromisso pela vitória, naquele olhar fixo a vontade de superar tudo, no discurso a capacidade de mudar o destino e nos saltos a alegria de alguém que trabalha por paixão e por gozo. Cadeira de sonho, cadeira de sonho, cadeira de sonho.


O Prozac fez efeito. O adepto está mais calmo. Já não tem os olhos vermelhos de raiva nem morde a língua. Mas a marca fica para sempre. André podia sair, é claro que podia, porque é muito bom no que faz, qualquer um iria, mas não agora, não com a época quase a começar, não depois de tantas juras de amor, não depois de ter sossegado os adeptos, não depois de os ter deixado sonhar com uma época ao nível da anterior. Se calhar, nem ele estava à espera. Por isso foi dizendo que queria continuar no FC Porto, que queria lá construir carreira, que queria ser mais feliz do que nunca, que queria o céu e a terra, que iria ser sempre mais um dragão. Mas o Chelsea investiu forte. André não recusou.

Para os adeptos, depois de tudo, será apenas um cobarde, um vendedor de ilusões e um miúdo precipitado. Que esteve na cadeira de sonho e caiu num pesadelo de cadeira. É pena. Também para ele. Porque a época histórica não merecia.
É possível mudar o destino.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

FUTEBOLÊS: De volta para puxar pela alma

como é? Não terá chegado a hora de voltar? faz falta este blogue e não quero apagá-lo da galeria. Nem que seja um post por semana, vá, toca a puxar pela alma.

Passaram mais de seis meses desde a vírgula. O último texto publicado neste blogue, um dos poucos deste ano, foi no dia 5 de Janeiro. Hoje, a 20 de Julho, é tempo de acrescentar qualquer coisa depois da tal vírgula, juntar mais algumas palavras, muitas ou poucas logo se verá, preencher o espaço vazio e puxar pela alma.

Há por aí umas teorias que defendem que as coisas acontecem quando menos se espera. Tenha muita aplicação ou não, neste caso está na medida certa: este regresso, expectante e para perceber o que poderá realmente dar, aconteceu por acaso, sem que o esperasse. O comentário que abre o texto, da autoria do jornalista Pascoal Sousa, o Bigsousa, fez com que voltasse. Quanto mais não seja para desentorpecer os dedos. Se é para durar? Resposta à treinador pragmático: vamos ver, jogo a jogo.

A nova época começa a 7 de Agosto. Em Aveiro, FC Porto e Vitória de Guimarães, campeão e finalista da Taça de Portugal, abrem a temporada. Estamos prontos?!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

FUTEBOLÊS: A vírgula

Uma opinião e dois dias de intervalo. Um comentário, uma análise e cinco dias a seco. Uma crónica antes de uma desactualização de uma semana. O FUTEBOLÊS tem sido assim nos últimos meses. Não faltam temas, não faltam verbos, não faltam adjectivos, não falta por onde escrever. Mas falta tempo, inspiração e disponibilidade. Tudo tem um ponto final, leitor. Ou, pelo menos, uma vírgula. Este é o momento de colocar uma no FUTEBOLÊS.

Ficam dois anos e pouco de evolução. Recheados de opiniões, de crónicas, de análises, de colaborações, de contactos. Foram crescendo os leitores, as parcerias, as referências. Umas positivas e outras nem tanto. É sempre assim. Estar quatro vezes em destaque no Jornal de Notícias, uma no Público e outra na Rádio Renascença foi bom, melhor do que imaginava, deu um empurrão para continuar. O FUTEBOLÊS foi uma ideia igual a tantas outras. Mas teve graça.

Olho para trás, fixo-me nos primeiros tempos do blogue e leio os textos. Dedo no rato, olhos no monitor, velocidade de ponta para conseguir acompanhar. Aparecem as primeiras crónicas de jogos de futebol, a primeira visão crítica, as primeiras colaborações. Surgem os primeiros artigos escritos com cabeça, tronco e membros, diferentes, melhores, evolutivos e mais capazes. Hoje tudo é diferente. A evolução foi brutal, a escrita escorre, as ideias saem com facilidade e em segundos deixam a mente e passam para o computador. Ouve-se o barulho das teclas, dois ou três cliques, uma vista de olhos e está feito. Uma crónica, uma opinião, um artigo simples, outro mais enfeitado, com análises pelo meio. É necessário inventar, imaginar, fazer. Uma, duas, três, ene vezes. Com análises, opiniões, colaborações, reportagens e entrevistas. Para que só depois possam chegar os leitores, os comentários, os destaques.

Colaborações, leitor, sempre foram um ponto fundamental. Por e-mail, com poucas palavras, desenvolvem-se contactos seja com quem for. Há o risco de não ser respondido, sim, mas vamos em frente. Sem que o esperasse, sem qualquer contacto antes de começar o blogue, conseguiu entrevistas, umas melhores e outras piores, sem sair de casa. Pedro Sousa, Pedro Azevedo, António Boronha, Jorge Coroado ou Bernardino Barros foram questionados, aceitaram, tiveram disponibilidade e responderam. Os registos estão no FUTEBOLÊS, aqui ao lado, em parada e resposta. Chegou, depois, o momento de passar para verdadeiras entrevistas. Pedro Azevedo, de novo: duas vezes, em Agosto e Setembro, anos diferentes, para olhar a temas semelhantes - para ter sucesso numa profissão é preciso interesse nela, não é, Pedro?

António Boronha, Bernardino Barros, Cruz dos Santos, Jorge Baptista, Jorge Coroado, Pedro Azevedo, Pedro Sousa, João Pedro Mendonça, Rogério Azevedo, Pascoal Sousa, José Marinho, Nuno Mourão, Miguel Lourenço Pereira ou Armando Vieira. De uma forma ou de outra, em momentos diferentes, todos colaboraram com o FUTEBOLÊS. Fica um obrigado.

Até já?!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

2010 futebolístico de A a Z - Segunda Parte

DA CAN NEFASTA AO ZERO DO DRAGÃO

N: Nefasto.

Negro, funesto, dramático, desolador. O arranque da Taça das Confederações Africanas, em Angola, foi o momento mais trágico de 2010: a selecção de Togo foi vítima de um brutal ataque quando se encontava em Cabinda, cidade angolana, que culminou na morte de três elementos da sua comitiva. O acto bárbaro e sangrento levou a selecção togolesa, pressionada pelo governo, a abandonar a competição, sendo desqualificada por falta de comparência pela organização do torneio, percebendo não existirem quaisquer garantias de segurança para permanecer em solo angolano. A CAN viria a ser ganha pelo Egipto, pela sétima vez na História, depois de, na final, a selecção egipcía ter derrotado o Gana. Mas há muito ficara manchada e ensombrada.

O: Oportunidade.
Diz-se que o futebol é um negócio. Pode, por vezes, a palavra ter uma conotação negativa, mas a verdade, leitor, é que é mesmo. Daí que, como qualquer comerciante que deseja estar acima da concorrência, seja bom ter os melhores produtos, saber onde os encontrar, forçar para os conseguir e, depois, rentabilizá-los ao máximo para um possível retorno futuro. O FC Porto fez, no Verão, um dos maiores negócios da história do futebol português: resgatou João Moutinho ao Sporting. Pelo dinheiro investido, pela força oportuna como o processo foi conduzido e pelo impacto, moralizador de um lado e decepcionante do outro, que teve. Actualmente, Moutinho é uma das pedras-chave da máquina portista. Sentido de oportunidade. E de negócio.

P: Pesadelo.

Assim mesmo, sem eufemismos ou meias-palavras: o Sporting viveu, em 2010, um verdadeiro pesadelo. Entrou mal, agudizou a crise, viveu momentos sem paralelo na sua história de mais de cem anos e termina o ano arredado das duas principais provas a que se propôs: campeonato e Taça de Portugal. Está numa situação periclitante, turbulenta, caótica. Já Carlos Carvalhal, Salema Garção ou Sá Pinto abandonaram a estrutura leonina, para, em sentido contrário, terem sido contratados Paulo Sérgio, Costinha ou, mais recentemente, José Couceiro. A verdade é que os problemas, os erros, os desaires prevalecem. O Sporting terminou a época passada, em Maio, a vinte e oito pontos do campeão Benfica e sem nada conquistado. Será para repetir?

Q: Queiroz.

Carlos Queiroz chegou à selecção em 2008. Discurso sério, realista, frio e pragmático. Postura sóbria e metódica. Carlos Queiroz será sempre um professor: prepara, estuda, observa, teoriza e traça planos. Rompeu com o tempo de Luiz Filipe Scolari: o pragmatismo ultrapassou a ambição, as bandeiras saíram das janelas, o país distanciou-se, fracassou a mobilização e a selecção, à imagem do seleccionador, assumiu-se receosa, temerária, pouco mágica e carente de um toque de génio. Portugal foi cinzento no Mundial da África do Sul. Chegou aos oitavos-de-final e caiu frente ao futuro campeão do Mundo, sim, mas nunca se revelou na sua plenitude. Carlos Queiroz foi reú. E envolveu-se em polémicas que lhe custaram o lugar. Bateu no fundo.

R: Ronaldo.

Quarenta e nove golos. De cabeça, de pé direito, de pé esquerdo, das formas mais estranhas, felizes ou construídos com mestria, para todos os gostos há registos. Cristiano Ronaldo terminou 2010 em alta: forte, possante, capaz. Mas nunca poderia estar nos finalistas para vencer a Bola de Ouro. O Real Madrid, para onde se mudou no Verão de 2009, terminou a época sem título, sem retorno do investimento e ultrapassado a toda a escala pelo Barcelona. O Mundial da África do Sul, com a prestação cinzenta e apática de Portugal, mostrou também o pior Cristiano Ronaldo: individualista, impotente e eclipsado. Por tudo isso, ficou arredado. Mas nem por isso deixou de marcar a época. No Real Madrid, por exemplo, foi o grande, o maior, o único suporte.

S: Sporting.

O Sporting já apareceu, leitor, atrás. Na letra pê, de pesadelo. Mesmo assim, porque 2010 foi verdadeiramente um ano calamitoso e inusitado no historial leonino, importa vincar a ideia. Ficar a cerca de trinta pontos do primeiro lugar no campeonato, na quarta posição, além de somar derrotas pesadas, frente a FC Porto e Benfica, que valeram a eliminação das outras duas provas internas, Taça de Portugal e Taça da Liga, é algo a que o Sporting não está habituado. Mais: não se coaduna, nem pouco mais ou menos, com um grande, com um clube ambicioso, que luta por título e que coloca a fasquia elevada. Até o estatuto do Sporting esteve tremido. A estrutura apresenta problemas, denota debilidades, não responde de forma eficaz e a equipa, no relvado, sente-o. Faltam chama, falta matéria-prima, faltam recursos. E, sobretudo, meios.

T: Túnel.
O leitor abre o dicionário na letra tê. Procura e lá encontra: túnel. Tem vários significados e um deles, no sentido figurado, salta à atenção: túnel pode representar uma fase obscura e difícil. Em 2010, recuperando suspeições e intimidações do passado, o futebol português falou de túneis, acendeu a polémica em torno deles e viveu uma tal fase obscura, polémica, densa. O túnel da Luz, de onde saíram as suspensões de Hulk e Sapunaru por agressões a stewards, serviu para alimentar a revolta portista. Pinto da Costa classificou o título benfiquista como uma vitória na Liga dos túneis. Não foi, contudo, apenas no jogo com o FC Porto que o túnel foi falado. Acontecera, antes, nos jogos do campeão com o Sp.Braga e com o Nacional. Um lugar obscuro.

U: Ufanar.
A palavra não é, leitor, muito conhecida. Define alguém que se pode gabar se determinado feito. Nem todos se podem ufanar, por exemplo, de, como Sp.Braga, ter terminado uma fase de grupos complicada, em ano de estreia na Liga dos Campeões, defrontando Arsenal, Shakthar Donetsk ou Partizan, com nove pontos somados - mais do que o AC Milan, que se apurou. Tal como nem todas as equipas, como Barcelona e Real Madrid, de terem os dois principais jogadores do planeta. Há Messi e Ronaldo: correm, driblam, passam, divertem, assistem, marcam, vivem e respiram futebol. Um é franzino, veloz, esguio. O outro possante, capaz, destruidor. Podem-se ufanar os clubes, os treinadores, os colegas e os adeptos. 2010 foi um ano dourado para ambos.

V: Villas Boas.
André desligou-se de José Mourinho. Assumiu a Académica, aceitou o risco, colocou-se na corda bamba e seguiu em frente. Rapidamente chamou a atenção, saltou para a moda, despertou cobiça. O Sporting interessou-se, fracassou, André Villas Boas permaneceu na Académica, ganhou aprendizagens, continuou o seu trabalho e viu serem-lhe abertas as portas do seu clube, o FC Porto, por Pinto da Costa querer romper com o passado. Chegou com força. Mudou a forma de jogar, colocou o dragão no trilho das vitórias e construiu uma máquina poderosa. Conquistou a Supertaça, tem o campeonato bem encaminhado e é candidato assumido na Europa. O FC Porto está invicto, mostra-se elegante e funciona com harmonia. Ano perfeito para André Villas Boas.

W: Wesley.

Jogou, desmarcou, correu, pensou, assistiu e marcou. Wesley Sneijder foi uma peça fundamental no Inter de Milão. Chegou dispensado de Madrid, como Robben, entrou de caras na equipa montada por José Mourinho, assumiu-se como cérebro do Internazionale, guiou a equipa, deu-lhe um toque de génio e revelou-se, em sociedade perfeita com Diego Milito, nos momentos decisivos ao longo da temporada. Conseguiu, ainda, uma prestação convincente na Holanda, mantendo a posição de destaque como no clube, contribuindo de forma fulcral para a cavalgada holandesa rumo à final do Mundial, a terceira da sua História, onde a Espanha levou a melhor. Sneijder esteve sempre no topo. Causa estranheza ter sido esquecido para a Bola de Ouro.

X:
Xau.
Então, xau! A frase pertence a Jorge Jesus, foi dirigida a um jornalista no flash interview do jogo entre o Benfica e o Beira-Mar, confortavelmente vencido pelos encarnados, numa fase em que a eliminação da Liga dos Campeões abalou o campeão nacional. Mostra a tensão do treinador numa altura que a temporada do Benfica foi colocada em xeque. 2010 foi também o adeus de Ricardo Costa e Hermínio Loureiro. O primeiro, presidente da Comissão Disciplinar da Liga, abandonou o cargo manchado pela polémica em torno do FC Porto e das suspensões de Hulk e Sapunaru, castigados em quatro e seis meses, respectivamente, mas que, afinal, por deliberação do Conselho de Justiça, apenas teriam de cumprir três e quatro... jogos. Polémica a rodos.

Y:
Yes, they can.
São portugueses e estão no estrangeiro. José Mourinho: sempre, indiscutivelmente e como expoente máximo. O mais conhecido treinador português venceu, com o Inter, a Liga dos Campeões, quarenta e cinco anos depois da última conquista europeia do clube nerazzurro, conseguindo chegar ao pentacampeonato e à Taça de Itália. Além dele, também outros dois treinadores triunfaram: Nelo Vingada sagrou-se campeão na Coreia do Sul, ao serviço do FC Seul, e Álvaro Magalhães, em Angola, levou o Interclube de Luanda ao título. Simão Sabrosa e Tiago, no Atlético de Madrid, venceram a Liga Europa, enquanto jogadores como Bosingwa, Paulo Ferreira e Hilário (Chelsea) ou Danny, Bruno Alves e Fernando Meira (Zenit de São Petersburgo) se sagraram campeões nacionais em Inglaterra e Rússia, respectivamente.

Z: Zero.
O FC Porto terminou 2010 sem derrotas pós-dia 21 de Março, altura em que, no Algarve, foi vencido pelo Benfica. O dragão, contando vinte e três vitórias e três empates, tornou-se a única equipa europeia a chegar ao Natal sem qualquer jogo perdido. Demonstra, na perfeição, a forma como o FC Porto, desde que André Villas Boas chegou ao comando técnico, no Verão, deu seguimento à excelente recta final da temporada anterior, com dez vitórias consecutivas nos últimos tempos de Jesualdo Ferreira, ganhou pontos, credibilizou-se para a época 2010-11, agarrou-se ao topo no campeonato português, cavalgou na Liga Europa e garantiu, com relativa comodidade, um lugar nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Sem derrotas. Ficou por isso, nas palavras de André Villas Boas, com a cabeça a prémio. Até quando?...

NOTA: Como se percebe, neste artigo, não se considera o FC Porto-Nacional, a primeira derrota azul, por já ter acontecido em... 2011.