terça-feira, 17 de agosto de 2010

O olhar do dragão à nova época: Mudança e optimismo

Acostumado a vencer, conseguindo a hegemonia do futebol português na última vintena e meia de anos, somando títulos de campeão nacional e alcançando outros troféus de relevo, nacionais e internacionais, o FC Porto terminou a temporada passada com o seu objectivo falhado: não conquistou o segundo pentacampeonato do seu historial. Mesmo tendo vencido na abertura e no fecho da temporada, arrecadando a Supertaça Cândido de Oliveira e a Taça de Portugal, os dragões falharam e o ciclo de Jesualdo Ferreira fechou-se. Agora, com André Villas Boas no comando, um treinador em tudo diferente de Jesualdo, a meta do FC Porto é atacar os desafios de sempre com uma nova identida. Para perceber o estado de espírito no reino do dragão, o FUTEBOLÊS colocou cinco questões a José Carvalho, portista de gema, adepto apaixonado e administrador do Portal dos Dragões.

FUTEBOLÊS: O FC Porto pretende virar a página? Terá sido a Supertaça, conquistada frente ao Benfica, um bom aperitivo?
JOSÉ CARVALHO: Não se trata de virar a página. Afinal de contas, o FC Porto venceu quatro dos últimos cinco campeonatos. Além do mais, não vi nada na temporada passada que me faça pensar que o FC Porto não continuará a ganhar. A Supertaça é apenas o primeiro jogo oficial da temporada. Sabe sempre bem vencer uma prova que ilustra bem o que têm sido as últimas décadas no futebol Português.

Justifica-se o risco corrido na contratação de André Villas Boas?
Há riscos envolvidos em todas as contratações de funcionários, jogadores e treinadores. As sucessivas e insistentes tentativas de certos media em denegrirem a imagem de Villas Boas, ainda antes mesmo de começar a pré-época, fazem-nos pensar que a aposta estará a assustar algumas pessoas. Apenas espero que Villas Boas fique por muitos e bons anos e que ganhe muitos títulos. Para já, pode dizer-se que começou bem...

Que análise faz do plantel?
Ainda é cedo para falar nisso, mas parece-me que as contratações foram bem feitas e que existem no plantel mais alternativas realmente válidas para várias posições. Esperemos que a questão do avançado seja resolvida com competência.

A saída de Bruno Alves, o capitão, poderá fazer mossa?
Provavelmente não mais do que a saída do Moutinho do Sporting, só para dar um exemplo. E também há quem esteja a lidar mal com a saída de jogadores importantes, talvez por falta de traquejo. Se a saída de Lucho Gonzalez teve consequências importantes, uma vez que é sempre difícil de substituir um dos melhores médios do mundo, geralmente o FC Porto tem sabido gerir bem essas situações.

Quais são as principais virtudes deste novo dragão? E defeitos?
Algumas virtudes já vieram ao de cima: atitude e união da equipa. Isso é fundamental. Também parece que a equipa consegue interpretar bem as alterações tácticas introduzidas pelo treinador. Isso foi visível na Figueira da Foz. Para já, um dos defeitos tem a ver com a dificuldade em concretizar em golos as oportunidades criadas.

NOTA: Contrariamente ao que aconteceu com as opiniões de Nuno Mourão (Sporting) e José Marinho (Benfica), este questionário foi realizado já depois do início do campeonato português.

Liga ZON Sagres: Análise da jornada 1

FC PORTO E SP.BRAGA POR CIMA DE BENFICA E SPORTING

Começou numa sexta-feira, treze de Agosto, sem pontas de azar ou de mau olhado, para demonstrar que o Sp.Braga, apesar de diferente, pode perfeitamente repetir a caminhada do ano passado, intromentendo-se entre os grandes, lutando de igual para igual, crescendo mais um pouco como quarta potência nacional. A primeira jornada trouxe os primeiros tropeções para Benfica e Sporting: surpreendem, bem mais o do campeão nacional, rompem os bons sinais deixados na pré-temporada e levantam questões: terá Jorge Jesus substitutos para Di María e Ramires? Terá Paulo Sérgio meios para devolver o Sporting ao topo? Dos três principais clubes portugueses, mesmo não tendo jogado bem, o FC Porto ganhou e parte à frente. Isso é, para os dragões, o principal.


O FC Porto, pelo potencial demonstrado frente na Supertaça Cândido de Oliveira, deixou água na boca. André Villas Boas, tranquilo e sem entrar em euforias, alertou para os perigos da Naval, sempre uma equipa complicada a jogar em casa, numa corrida por etapas que é bem diferente do jogo de abertura frente ao Benfica e onde o perigo surge de onde menos se espera. O FC Porto demorou a assentar, a soltar-se e a expandir o seu futebol. Começou lento, cresceu, escapou a alguns sustos e a um controlo do adversário, melhorou e empurrou a Naval para trás. Não sufocou nem encantou, nada disso, apenas se tornou mais incisivo e lutador. Ganhou espaço, Hulk procurou a sua sorte, mesmo com alguns remates disparatados, tentou sempre superar-se e criar perigo. Conseguiu-o: Jonathas tocou a bola com o braço e o Incrível, no final, garantiu a vitória. O dragão começou tímido mas acabou por cima. Isso é o importante.

A Supertaça, perdida para o FC Porto, acentuou as dúvidas e deu forma à desconfiança: teria a equipa como colmatar as perdas de Di María e Ramires? Ainda é cedo para se perceber, sim, mas os primeiros sinais indiciam que o Benfica, a máquina trituradora do ano passado, ficou para trás. Pode, com o tempo, voltar a aparecer, readquirir força e até ser melhor do que o original. Para já, contudo, o Benfica treme e está carente de duas pedras-chave. Falta rasgo, velocidade e capacidade de explosão. Com a Académica, uma equipa audaz, os encarnados viveram somente das investidas de Fábio Coentrão. O Benfica sofreu um golo cedo, de novo nas alturas, apenas crescendo realmente após a expulsão de David Addy, a meia-hora do final, empatando através de Franco Jara. No final, encostou a Académica às cordas, rondou o golo, levou Peiser a emergir. Até que Laionel, num pontapé majestoso, deu o triunfo à Briosa. O campeão caiu.

Um crónico candidato, com uma nova cara, renovado mas orfão do capitão, com vontade de apagar o passado e começar um ciclo mais risonho. O Sporting saiu de um pesadelo, mostrou bons registos na pré-época e chegou a Paços de Ferreira, onde Paulo Sérgio se consolidou como treinador, para deixar claro que é candidato. Será sempre, pelo seu estatuto e pelo historial, mesmo que o último ano o desaconcelhe. Essa luta contra a desconfiança de que Sporting pode ser campeão é uma batalha à parte para os leões e que só se ganha... ganhando no relvado. O Sporting teve o jogo na mão, obrigou Cássio a aparecer várias vezes, criou perigo mas falhou sempre na finalização. O Paços de Ferreira foi ousada, soube responder e ameaçou Rui Patrício. À terceira tentativa, Manuel José serviu Mário Rondón, oportuno e matreiro, que desviou para a baliza leonina. O golo bateu no leão e traçou o destino: vitória pacence.

Um outsider, capaz de um belíssimo registo na temporada anterior, crescendo a cada ano, consolidando-se e apontando a novas metas, mas que se recusa em ser declaradamente candidato ao título. É um outsider e continuará a sê-lo. Essa aposta no factor surpresa, que na realidade não surpreende e apenas confirma que o Sp.Braga pode-se intrometer numa luta destinada aos grandes, um topo a que se aproxima, impede que a fasquia seja elevada e que, a acontecer, a queda provoque sérios danos. O Sp.Braga deu o pontapé de saída no campeonato, numa sexta-feira treze, sem azares, com uma exibição assertiva, consistente e sólida num jogo agradável com o Portimonense. Marcou por Matheus, aumentou por Paulo César e esteve perto da tranquilidade. Os algarvios, sem receios, deixaram bons registos e reduziram. Leandro Salino, reforço bracarense, fechou o jogo com chave de ouro. Os Guerreiros estão prontos.

A primeira jornada, atípica pelas derrotas de Benfica e Sporting, registou apenas onze golos. Numa fase tão precoce da época, ainda em crescimento e preparação, não se podem exigir mundos e fundos. A ronda inaugural do campeonato abriu em Braga, no coração do Minho, até terminar em Olhão, cidade algarvia, marcando dois pólos do território português. E, curiosamente, com equipas das duas regiões em confronto: para além do encontro entre Sp.Braga e Portimonense, vencido justamente pelos bracarenses, Olhanense e Vitória de Guimarães, no fecho da jornada, empataram sem golos, num jogo em que a equipa algarvia foi sempre mais insistente. Pelo meio, destaque para o triunfo do Vitória de Setúbal, através de um golo de Jailson, frente ao Marítimo, na Madeira, surpreendendo. Além disso, também o Nacional saiu vitorioso do confronto com o Rio Ave (0-1). Beira-Mar e União de Leiria, num jogo sem rasgo e sem emoção, anularam-se e terminaram com um nulo.

O MOMENTO DA JORNADA

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Liga ZON Sagres: A ousadia de baralhar as contas

A Supertaça Cândido de Oliveira, perdida para o FC Porto, fora um mau arranque: estaria o Benfica, mesmo com uma pré-temporada de encher o olho, ao nível de equipa encantadora e desconcertante da época anterior? Jorge Jesus, pragmático e sereno, garantiu que sim. Qualquer equipa tem noventa minutos maus, aliados a um jogo a roçar a perfeição do adversário, que podem ser fatais. Numa só luta, sem margem de erro, pode ser normal. A Supertaça foi um jogo, ficou esquecido, os encarnados recarregaram baterias, crentes num bom início de campeonato, para o jogo com a Académica. O campeão nacional, mesmo com as saídas importantes de Di María e Ramires, a que se pode juntar ainda a dispensa de Quim, partiu confiante e na pole-position para um novo título. Mas derrapou, não se encontrou e perdeu na partida.

A luta ao título é, por tradição, uma questão a ser resolvida pelos três grandes. FC Porto, Sporting e Benfica têm disputado, ao longo dos anos, o primeiro lugar no campeonato português. Na temporada passada, mal-sucedida para dragões e leões, sobressaiu o Sp.Braga, uma equipa que procura a afirmação para se colar definitivamente ao topo, intrometendo-se nas contas da conquista do principal campeonato e ganhando um novo estatuto. Deixou de ser olhado com desconfiança para se tornar numa ameaça cada vez mais iminente. Não perdeu, contudo, o estigma de outsider. Continua a sê-lo e os próprios responsáveis, receosos e frios, sem pretenderem serem demasiado ambiciosos sob pena de falharem, assumem que o título nacional, mesmo sendo um desejo em crescendo, não é o grande objectivo para a época do Sp.Braga.

O melhor para esta temporada, em questões de título, é dizer que há três mais um: os grandes e o outsider. Na primeira jornada, contudo, apenas o FC Porto e, lá está!, o Sp.Braga conseguiram vencer. Os dragões suaram frente à Naval, ultrapassaram uma entrada expectante e apática, conseguiram uma segunda parte mais assertiva e incisiva que lhes valeu a vitória, num golo de Hulk, nos minutos finais. A exibição esteve a milhas da Supertaça Cândido de Oliveira, onde o FC Porto dominou e manietou o Benfica, mas, mais importante do que isso, ficaram os três pontos. A equipa de André Villas Boas foi a única, no grupo dos grandes, a consegui-lo. Já o Sp.Braga, mesmo tendo um Portimonense ousado pela frente, conseguiu vencer, com naturalidade, impondo-se perante a ingenuidade da equipa algarvia. Começo com o pé direito.

Benfica e Sporting perderam. A derrota dos encarnados é a mais surpreendente: o Benfica é o campeão nacional, jogou na Luz, esteve em superioridade numérica cerca de meia-hora e não é nada habitual sofrer duas derrotas consecutivas em provas oficiais. A Académica e o Paços de Ferreira, adversários de Benfica e Sporting, respectivamente, jogaram desinibidas, conhecendo as suas limitações mas sem abusar de uma estratégia excessivamente defensiva e pragmática, tiveram coragem, souberam defender-se e acabaram por cima. Foram felizes, sim, porque é algo indispensável para triunfar, mas fizeram por isso - a Académica, bem organizada e com uma atitude guerreira, jogou desde a expulsão de David Addy, aos sessenta e dois minutos, em inferioridade, conseguiu suportar o sufoco do Benfica e selou a vitória no final.

A ousadia e desinibição demonstradas por Académica e Paços de Ferreira, que resultaram na plenitude, demonstram que a diferença entre grandes e pequenos pode, na prática, não ser assim tão evidente. Ambas tiveram ambição, não caindo na tentação de defender desde o primeiro minuto, para conseguirem vencer. Também a Naval e o Portimonense, adversários de FC Porto e Sp.Braga, embora tenham saído derrotados, mostraram boa organização, bons princípios e audácia para colocar em perigo as defesas adversárias. Os meios são outros, os recursos disponíveis não têm comparação, mas a abnegação e a entrega podem superar tudo isso. Foi essa a mentalidade interiorizada por estas quatro equipas. A bem do futebol, contra a monotonia, foi um bom prenúncio para a caminhada que agora se inicia.

O olhar benfiquista à nova época: Estabilidade e ambição

O Benfica voltou a impor-se na temporada anterior: foi a melhor equipa, a que mais encantou e marcou, tendo conseguido quebrar a hegemonia do FC Porto para conquistar o trigésimo segundo título do seu historial. De lá para cá, com o defeso pelo meio, duas das principais jóias, Di María e Ramires, assediados, deixaram a Luz, juntando-se à saída, por opção, de Quim. Para a nova época, mantendo Jorge Jesus no comando e a maioria dos artistas que levaram os encarnados à glória, o Benfica parte, pela primeira vez em vários anos, com legítimas ambições de se sagrar bicampeão nacional. A Supertaça Cândido de Oliveira, contudo, poderá ter trazido alguma apreensão aos benfiquistas. Mas Jorge Jesus prometeu magia e o FUTEBOLÊS colocou cinco perguntas a José Marinho: ex-jornalista, amante de futebol e, acima de tudo, um indefectível adepto benfiquista que colabora no Mágico SLB.

FUTEBOLÊS: Estabilidade e objectivos idênticos: o Benfica possui condições para readquirir a glória de outrora?

JOSÉ MARINHO: Depois da vitória no campeonato, na época passada, é necessário identificar o grande objectivo para esta época. O primeiro passo para que o Benfica possa readquirir essa glória, estabelece-se internamente, revalidando o título. Não é possível avançar para conquistas europeias, à semelhança do que sucedeu nos anos sessenta, se não recuperarmos antes a hegemonia nacional. Pensar que é possível ganhar na Europa sem primeiro consolidar uma liderança indiscutível em Portugal, é alinhar na propaganda e na fanfarronice. O Benfica é o único clube em Portugal com dimensão histórica e social para se alinhar internacionalmente com os grandes clubes europeus, mas há muito trabalho de casa a fazer antes disso. No futebol, as coisas não acontecem porque nós queremos que aconteçam. Elas acontecem porque há muito trabalho por detrás, nuns casos trabalho honesto e duradoiro, noutros casos trabalho sujo e indigno. Mas, como diz o outro, tudo se resume a trabalho, trabalho, trabalho.

A mesma máquina, o mesmo treinador, três pedras (Quim, Di María e Ramires) importantes de fora. Que análise faz do plantel?
Não partilho do alarmismo geral de que o Benfica está mais fraco, com as saídas de Ramires e Di María. Nesse caso, não sou de extremos. Nem esquerdos, porque já temos o Gaitán, nem direitos, porque o Ramires nunca foi um extremo e nunca, no Benfica, se discutiu a sua utilidade no meio-campo, como interior-direito e como jogador que repunha equilíbrios defensivos. Acho que o Benfica, mais do que extremos - é curiosa esta fixação dos benfiquistas pelos extremos, quando Di María deixou de ser extremo com Jesus e Ramires nunca foi um jogador de linha - precisa de recuperar os jogadores que estiveram no Mundial. Na final da Supertaça, ninguém destacou o seguinte: o Benfica tinha no onze inicial. quatro mundialistas e outro no banco de suplentes, exactamente porque começara mais tarde a sua preparação. O FC Porto começou com um mundialista e tinha outro no banco. Quem pensar que isto não faz diferença, não percebe de fisiologia, de recuperação e, no limite, de futebol de alto rendimento. Mais do que reforços - lá está, extremos - o Benfica precisa de recuperação. Se o jogo da Supertaça decorresse três ou quatro semanas depois, teria sido completamente diferente. O Benfica é o principal candidato ao título, porque a sua equipa reforçará as ideias do treinador e tem um espaço de maturação superior aos outros.

A Supertaça Cândido de Oliveira, perdida para o FC Porto, colocou um travão na onda de entusiasmo?
Foi um travão no entusiasmo dos adeptos e na fanfarronice exagerada de alguns pregadores da ilusão de que ao Benfica basta mandar os equipamentos para os jogos. O jogo da Supertaça demonstrou que o Benfica apenas terá possibilidade de revalidar o título se jogar nos limites, como o fez na época passada. O resto será feito pela qualidade dos jogadores, pela astúcia do treinador e pelo apoio dos adeptos. E foi esse exagero dos adeptos e de alguns comentadores de pacotilha - especialmente na blogosfera benfiquista - que levou a um novo exagero, a um quase radicalismo de considerar que, de um momento para o outro - afinal estava tudo mal, devia colocar-se tudo numa equação simples: Benfica menos Di María e menos Ramires é igual a um Benfica mais fraco e um Benfica que precisa de extremos. O problema do Benfica não se resolve com extremos, resolve-se com bom senso, com trabalho e com menos espalhafato ideológico.

Está esperançado numa época no seguimento da anterior?
Claro que sim. O treinador é o mesmo. Os jogadores são, quase todos, os mesmos. Os adversários são os mesmos - em Portugal - porque não inventaram nenhuma nova combinação biológica de jogadores que possam afectar o favoritismo do Benfica. Só na Liga dos Campeões é que o Benfica terá uma oposição diferente da época passada. Não concordo com Jorge Jesus e creio que o tempo dar-me-á razão. O treinador do Benfica alegou, várias vezes, num triunfalismo imoderado, que apenas via o Barcelona como a única equipa da Liga dos Campeões claramente melhor do que o Benfica, considerando que outras equipas não eram assim tão fortes como as pessoas as imaginavam. Não sei se Jorge Jesus ainda pensa assim, agora que estão mais diluídos os efeitos da fantástica vitória do Benfica no campeonato. É na Liga dos Campeões que o Benfica defrontará adversários claramente superiores aos que enfrentou na época passada. De resto, o FC Porto vai estar mais forte, mas a diferença não será da noite para o dia. Quando se alega que o FC Porto completou uma época bisonha, há uma tendência esquisita, selectiva, para se esquecer o essencial: o FC Porto bateu o recorde de golos marcados na Liga e obteve um número de pontos que ultrapassa quase todas as épocas em que foi campeão com Jesualdo Ferreira. O que esteve diferente, muito diferente, foi o Benfica. E tenho claro que o FC Porto não vai conseguir melhorar muito a sua pontuação da época passada e o número de golos marcados. E se o Benfica voltar a fazer a pontuação da época passada, será, de novo, campeão. Independentemente do FC Porto ou o Sporting estarem mais fortes ou não.

Quais são as principais virtudes desta nova águia? E defeitos?
Virtudes: qualidade, talento, equilíbrio, astúcia e capacidade goleadora. Defeitos: estão quase todos na baliza.


NOTA: O questionário foi realizado antes do início do campeonato português.

domingo, 15 de agosto de 2010

Liga ZON Sagres: Um momento espantoso de Laionel


BENFICA-ACADÉMICA (1-2): REMATE SENSACIONAL E VITORIOSO DE LAIONEL

Páre, escute e olhe. Laionel deixou as duas primeiras ideias expressas, voltou apenas os olhos para a baliza e resolveu agir. Viu Roberto adiantado em relação à linha de baliza, naturalmente adiantado, ficou imune a tudo, encheu-se de fé e acreditou numa proeza. Já tinha recebido o passe de Júnior Paraíba, a Académica ganhara possibilidade para respirar e soltar-se do sufoco final do Benfica em busca do golo da vitória, era o momento de espreitar uma oportunidade para ser feliz. Ninguém esperava um remate. Seria mais natural guardar a bola, queimando os segundos que faltavam para o apito final, não querer correr riscos. Laionel descarregou toda a confiança no pé direito. A bola saiu traiçoeira, potente e certeira. Do nada, de um lance sem perigo no meio-campo da Académica, nasceu um golo majestoso. O míssil de Laionel espantou. E a Briosa, puxando pelo orgulho depois se ter visto reduzida a dez elementos e de ter sofrido o empate, vergou o campeão a uma derrota na estreia. Melhor seria impossível.

NOTA: O Momento da Jornada é uma nova rubrica no FUTEBOLÊS, publicada antes da análise completa de cada ronda da Liga ZON Sagres. A imagem presente tem créditos da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.

O olhar leonino à nova época: Recuperação e confiança

A temporada passada, para o Sporting, foi a todos os níveis negra: equipa apática, sem chama, sem assomo de brilhantismo, apenas sustentada por alguns momentâneos balões de oxigénio, sem qualquer conquista. Para um clube com o historial dos leões, habituado a situar-se nos primeiros lugares, depois de quatro vice-lideranças consecutivas, a derrapagem deixou marcas. O orgulho ficou ferido. Há, por isso, que esquecer o passado e apontar baterias ao título. Para a nova temporada, com Paulo Sérgio no comando e um renovado lote de jogadores, o Sporting parte com ambições renovadas. Para apagar a temporada anterior e, sobretudo, recolocar-se na luta pelo título de campeão nacional. É isso que se exige. O FUTEBOLÊS, neste primeiro Olhar à nova época, colocou cinco questões a Nuno Mourão, sportinguista dos sete costados. Prova disso é o facto de ser administrador de um site de apoio ao clube.

FUTEBOLÊS: Um pesadelo que ficou para trás e uma nova vida pela frente. O Sporting tem capacidade para passar uma borracha sobre o passado?
NUNO MOURÃO: Não tenho qualquer dúvida. Relembro que estamos a falar de um dos maiores clubes do Mundo a nível de títulos, um clube centenário, com uma forte raiz ecléctica, um clube com milhões de adeptos em todo o Mundo. O Sporting Clube de Portugal, através dos seus adeptos, irá ter sempre capacidade de se regenerar e, com isso, apagar (aprendendo) os momentos menos dignos da sua História. A grandeza do clube assim o obriga.

João Moutinho e Miguel Veloso, dois jogadores formados em Alvalade, deixaram o clube. É sinal de uma mudança de atitude?
Julgo que as referidas vendas se devem mais a uma necessidade financeira do que a uma alteração de atitude ou matriz do clube, relembro que temos na equipa principal mais um jovem a despontar, jovem esse que julgo que será um grande jogador: Diogo Salomão. O Sporting (tal como todo o Mundo) vive uma difícil situação financeira, o que o obriga a vender os seus mais valiosos activos. Considero também que se reforçou convenientemente nessas posições pelo que apenas no final da época poderemos fazer uma correcta análise sobre se foram (ou não) bons negócios para o clube.

Que análise faz do plantel?
Do meu ponto de vista o plantel está mais equilibrado do que na época passada. Evaldo parece ser um excelente jogador que vem colmatar um problema que tínhamos nessa lateral. O Maniche, em forma, tem tudo para (em conjunto com o Pedro Mendes) ser o patrão do meio-campo leonino. A saída de Moutinho pode permitir a "explosão" do Matías Fernández e as aquisições do Zapater e, principalmente, do Valdés vieram trazer mais força à equipa.

O Sporting parte em pé de igualdade com os rivais na luta pelo título?
O Sporting parte sempre em vantagem em relação a qualquer clube. Temos os melhores adeptos do Mundo, logo temos uma grande mais-valia que os outros não possuem!

Quais são as maiores virtudes deste novo leão? E defeitos?
Penso que a maior virtude passa pela forma como o Costinha está a gerir a estrutura. Era, do meu ponto de vista, necessário uma mão mais pesada na gestão do clube. Costinha trouxe essa força. O ponto mais fraco, tal como nos últimos anos, é a forma como continuamos a permitir que a comunicação social trate o Sporting. Temos que nos dar ao respeito e fazer entender à imprensa (maioritariamente encarnada) que estão a falar do Sporting Clube de Portugal, a maior potência desportiva nacional, e que esse facto é merecedor de um respeito que, até ver, não existe.

NOTA: O questionário foi realizado antes do início do campeonato português.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Liga ZON Sagres 2010-11: Pontapé de saída

Dia treze. Sexta-feira. Conjugação diabólica, negra e azarenta, para quem tem as superstições à perna. Imunidade total no futebol português: dia treze de Agosto, menos de uma semana depois do pontapé de saída com a Supertaça Cândido de Oliveira, a bola começa a rolar no principal campeonato. A renovada Liga ZON Sagres, com um inédito duplo-patrocínio, não contará com figuras como Di María, Ramires, Bruno Alves ou Miguel Veloso. Nem contará, também, com Tiago Ferreira. Importa-se de repetir? Chama-se Tiago Ferreira, todos o conhecem por Bebé, saiu há três meses da Casa do Gaiato, passou pelo Estrela da Amadora, chegou ao Vitória de Guimarães, deu nas vistas na pré-temporada e saiu para o Manchester United. Rendeu nove milhões de euros aos vimaranses, é um fenómeno e nem deu para perceber o seu verdadeiro potencial. Nos relvados, Sp.Braga e Portimonese dão, na capital minhota, o tiro de partida.

O Sp.Braga foi a sensação do último campeonato. É, agora, uma equipa diferente. Naturalmente diferente, mesmo tendo mantido Domingos Paciência no leme e grande parte dos jogadores mais influentes na boa caminhada, refreando a euforia causada por um trajecto soberbo, de novo olhando a objectivos mais realistas e condizentes com as diferenças que o Sp.Braga ainda sente quando comparado com os três grandes do futebol português. Não quer isso dizer que a ambição tenha desaparecido. O ego ficou aconchegado e aumentado no ano passado, não irá agora voltar ao zero. Se candidato ao título ou não, repetindo a época passada, só depois se verá. Mas o objectivo, estabelecido e proclamado por Domingos, passa pelo quarto lugar. Isso é o mínimo. Tudo o que virá será bem recebido. Sempre com um olho no primeiro lugar. Passo a passo, outra vez, os horizontes serão alargados. Luis Aguiar, Paulo César e Alan são as figuras de proa.

Depois do Sp.Braga, no sábado, estreia-se o novo dragão, uma equipa renovada e com outra mentalidade, apontando ao objectivo de sempre, o principal, do FC Porto: ser campeão nacional. Acostumado a triunfar, detendo o monopólio do futebol português na última vintena e meia de anos, dominando a toda a linha internamente e conseguindo deixar a sua marca na História do futebol internacional, os dragões terminaram a época anterior, se bem que ganhando a Supertaça Cândido de Oliveira e a Taça de Portugal, com um enorme vazio causado pelo falhanço no campeonato, perdido para o Benfica e, até, com o Sp.Braga à frente. André Villas Boas chegou ao Dragão para iniciar um novo ciclo. Será um teste ao clube e ao treinador. Na primeira aparição, na Supertaça, o FC Porto saiu por cima: venceu e convenceu ante o Benfica. Na Figueira da Foz, frente à Naval, terá a batalha inaugural de uma longa guerra que quer ganhar.

Logo após a estreia do FC Porto, surge o Sporting. Também longe de casa. Em Paços de Ferreia, de onde Paulo Sérgio guarda boas recordações, o leão inicia a sua caminhada no campeonato nacional, já depois de ter carimbado, frente aos dinamarqueses do Nordsjaelland, o passaporte para o playoff da Liga Europa. Crónico candidato à conquista do título, bem reforçado com Maniche, Evaldo e Jaime Valdés para o atingir, mas partindo como outsider em relação a FC Porto e Benfica. É essa, pelo menos, a ideia antes do arranque da competição. A temporada anterior, uma tormenta contínua para os sportinguistas sem títulos conquistados e apenas com um ar de graça na sua parte final, fez mossa. Os erros do passado terão de ser corrigidos. Com uma nova postura, bem à imagem de Paulo Sérgio, mas sem o capitão João Moutinho, vendido ao FC Porto, e Miguel Veloso. A estreia permitirá perceber como estão as pulsações do leão.

Depois dos rivais, o Benfica. A equipa encarnada, campeã em título, inicia no domingo, em casa, a defesa do prova que conquistou, a par da Taça da Liga, na época anterior. Escaldado pela derrota na Supertaça, dominada a toda a linha pelo FC Porto, apesar das boas indicações de manutenção da dinâmica que levou ao título deixadas na pré-temporada, o Benfica quererá deixar uma resposta convincente perante a Académica. Os estudantes, agora sem André Villas Boas mas com Jorge Costa no comando, prometem, uma vez mais, construir uma equipa competitiva e aguerrida. Para Jorge Jesus, depois do insucesso da passada semana, mantêm-se as dúvidas em relação aos substitutos de Di María e, sobretudo, Ramires, duas peças fundamentais na temporada transacta. Roberto, guarda-redes espanhol contratado para ocupar o lugar de Quim, tem sido outra dor de cabeça do treinador. Começar com o pé direito é fundamental.

Pelos grandes e pelo Sp.Braga, que aparece numa espécie de ilha teimosa na aproximação aos três principais clubes portugueses, passaram, teoricamente, as contas do título. São as equipas mais fortes, mais capazes e mais sólidas do futebol nacional. Depois delas, perfilando-se para ocupar a última vaga de acesso à Europa, aparecem Marítimo, Vitória de Guimarães e Nacional, que, como nas últimas temporadas, procurarão intrometer-se nos primeiros lugares e conseguir um resultado honroso no final. Logo após aparecem as equipas que, como a União de Leiria, o Paços de Ferreira, a Naval ou a Académica, procurarão a melhor classificação possível, livrando-se o quanto antes do fantasma da descida de divisão. O fosso que levará à, agora assim denominada, Liga Orangina, onde no ano passado caíram Leixões e Belenenses, terá uma luta intensa. Vitória de Setúbal, Rio Ave, Olhanense e os regressados Portimonense e Beira-Mar tentarão escapar.

O FUTEBOLÊS acompanhará a Liga ZON Sagres 2010-2011 a par e passo