sábado, 5 de junho de 2010

A participação brasileira no Mundial 2010 vista por dentro

HEXA EM 2014


Primeiro tempo magnífico: lançamento de gênio do meio-campo por Felipe Melo, conclusão perfeita de Robinho. Terminando os primeiros quarenta e cinco minutos, a seleção de Dunga se credencia como a principal favorita para vencer a Copa do Mundo da África. O Brasil passeava em campo, em cima de uma seleção que não perdia desde 2008. Depois, acaba o segundo tempo. Brasil eliminado, treinador burro, Felipe Melo vilão da derrota, time sem criatividade com um atacante firuleiro e pouco objetivo: Robinho. Foram dois jogos dentro de um. Um primeiro tempo onde o Brasil mandou no jogo, fez um gol, mas poderia ter feito três. No segundo tempo a Holanda foi superior e não seria nenhum absurdo se tivesse goleado o time brasileiro.


O clima em Porto Alegre foi de muita decepção após a partida. O povo gaúcho, diferentemente do restante do país, não vibra tanto com a seleção brasileira. No entanto, em 2010 houve uma maior mobilização, motivada em grande parte por ser um gaúcho o comandante do grupo. Além disso, a campanha anti-Dunga do centro do país, serviu como combustível para os gaúchos apoiarem ainda mais o técnico da seleção brasileira. Para boa parte dos gaúchos, no entanto, a tristeza durou aproximadamente três horas, quando Loco Abreu cobrou o último pênalti do Uruguai na vitória heróica dos vizinhos sobre a seleção da Gana. Os gaúchos voltaram a ter uma equipe para torcer.


A frustração da derrota na Copa da África foi diferente da última eliminação em 2006, quando o Brasil foi eliminado também nas quartas de final. Nesta Copa, embora grande parte da imprensa afirmasse que a seleção de Dunga tinha uma morte anunciada, pouca gente realmente acreditava na derrota brasileira, ainda mais depois do primeiro tempo da partida contra a Holanda. Ficou a sensação de que o Brasil poderia ter ido mais longe. Na Alemanha em 2006, por exemplo, foi unanimidade que o Brasil não merecia a classificação.


Voltando ao jogo contra a Holanda, excetuando alguns poucos jornalistas, a imprensa tratou a eliminação brasileira como um fracasso. As críticas que Dunga recebeu quando saiu do Brasil foram atenuadas durante a Copa e voltaram em dobro após o jogo contra a Holanda. A falta de jogadores diferenciados e a opção por jogadores em má fase em seus clubes foram as principais contestações, além das restrições ao trabalho da imprensa durante os treinamentos na África.


Realmente faltou talento no time. Alguns jogadores estavam em má fase, mas mesmo assim, o Brasil tinha plenas condições de trazer o hexacampeonato. A última Copa foi um claro exemplo de que um time bem organizado e com disciplina tática vale mais do que individualidades. A Itália de 2006 não tinha nenhum Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo ou Adriano e foi campeã, enquanto o Brasil caiu fora para a França de Henry e Zidane. Não foi por ter deixado de levar Ganso ou Neimar que o Brasil perdeu. A Copa do Mundo é um torneio diferente. Não é um campeonato em que há tempo de se recuperar de um erro. A partir das oitavas de final, a eliminatória é decidida em um jogo e uma falha é fatal, não pode acontecer. Um momento de desatenção ou desequilíbrio não dá chance de recuperação. Foi o que aconteceu com o Brasil.


Nessa partida, a Holanda voltou melhor no segundo tempo, mas não ameaçou o gol brasileiro, até que em um cruzamento despretencioso o goleiro Júlio César, que tantas vezes salvou o Brasil, cometeu uma falha grave e a bola entrou. Muitos atribuíram o erro a Felipe Melo, mas o erro foi do goleiro. Felipe Melo estava na bola quando Júlio César veio por cima, deslocando o volante brasileiro; por isso, a cabeçada saiu para trás. Pela imagem da televisão, nota-se que o goleiro grita “Minha!”, só que em uma hora daquelas o jogador não sai da bola para o goleiro agarrar se ele sabe que está na bola. O erro foi de Júlio César e o gol abalou o time. O segundo gol da Holanda veio ao natural.


Não foi apenas no gol que Felipe Melo se fez presente. Faz tempo que toda opinião pública alerta para o temperamento do jogador. Ainda assim, ele deu razão a todos que o criticavam. Felipe Melo não tem condições psicológicas de jogar em um grande clube, o que dizer na seleção mais vencedora do mundo. Apostar nesse jogador, apesar de sua terrível fase na Juventus, foi o maior erro de Dunga. Errou ao apostar em Felipe Melo e também ao não contar com um jogador de talento como Ronaldinho ou Ganso. Só que neste erro ele não está sozinho. O planejamento no ano da Copa foi equivocado. O último amistoso antes da convocação foi no início de março. Dunga não queria convocar jogadores que não haviam estado na seleção, por isso, deveria ter sido feito algum amistoso mais perto do dia da convocação, para exatamente testar jogadores que estavam atuando no Brasil e em destaque nos seus clubes.


Para a Copa de 2014 deve ser feita uma reformulação no elenco, já que a maioria dos jogadores desta seleção tem mais de trinta anos. A saída de Dunga está certa, pois jogando em casa não podemos ter um técnico com tanta reprovação por parte da torcida. O Brasil tem uma safra de jogadores de muito talento que devem chegar ao auge em 2014, como Ganso, Neimar, Mário Fernandes, etc. O planejamento deve ser bem pensado, pois, sendo o anfitrião, o Brasil não terá as eliminatórias sul-americanas como parâmetro.


Texto escrito por Uriel Garber, sobre a participação do escrete no Mundial 2010


O futuro azul com André Villas Boas

A época anterior do FC Porto, após quatro anos de glórias, resume-se a uma palavrinha a que todas as equipas querem fugir e não ousam, sequer, pensá-la: fracasso. Tornou-se, por isso, obrigatório mudar. Um ciclo fechou-se. Foi o de Jesualdo Ferreira. O treinador tem méritos no tricampeonato (o primeiro título fora conquistado por Co Adriaanse), foi importante na cimentação de vários jogadores e apareceu sempre em defesa dos dragões. Jesualdo cresceu como técnico e fez crescer o clube. Chegou, contudo, a hora do divórcio. A temporada não correu bem e há essa necessidade de mudança no FC Porto. Pinto da Costa virou a página, rompeu com o anterior paradigma. O anúncio oficial da contratação de André Villas Boas serviu para mostrar essa vontade de injectar sangue novo na equipa. E a de correr um tremendo risco. A aposta está feita.

Pela juventude de Villas Boas e pela obrigatoriedade de superar a temporada transacta que assiste ao FC Porto, a escolha do ex-treinador da Académica seria sempre muito arriscada. Em momentos de aperto, como foi este caso dos dragões, seria mais natural que os responsáveis optassem por alguém mais calejado, experiente e conhecedor da realidade do futebol português. André Villas Boas tem a seu favor o facto de ser portista, ter entrado muito jovem no clube e o conhecer bem. Há, porém, neste jogo de prós e contras, alguns factores que, com normalidade, fazem com que a sua contratação seja vista com desconfiança: apenas iniciou a carreira de treinador em Outubro, após deixar as estatísticas e observações que durante sete anos fez na equipa técnica de José Mourinho, e, apesar da melhoria vislumbrada no futebol da Académica, nada provou ainda.

Em Outubro passado, com a Académica na última posição, José Eduardo Simões, líder dos estudantes, abriu as portas a André Villas Boas. O até então colaborador de José Mourinho deixou o Internazionale para apostar verdadeiramente na carreira de treinador principal. A sua entrada melhorou substancialmente a Académica: futebol positivo, com os olhos colocados na baliza adversária, tentando usar as suas armas para supreender os rivais. Com isso, naturalmente, os estudantes ascenderam na classificação. André Villas Boas rapidamente se tornou num treinador na moda. Houve quem nele visse um verdadeiro discípulo de Mourinho e o Sporting, antes de Carlos Carvalhal, manifestou interesse na sua contratação. O estado de graça do treinador acabou por ficar algo afectado pela ponta final da Académica - conseguindo a manutenção mais dificilmente do que era expectável após a sua chegada.

A Académica foi, afinal, apenas um ponto de passagem para André Villas Boas. Funcionou como trampolim para, em poucos meses, assumir o comando do FC Porto. Com apenas trinta e dois anos, onde Jesualdo Ferreira chegou com sessenta, Villas Boas tornou-se no mais jovem treinador de sempre nos portistas. O tempo passado em Coimbra bastou para Pinto da Costa, com toda a sua experiência, apostar todas as fichas disponíveis. A André Villas Boas, os portistas pedem que mantenha as ideias que implementou na Académica, com um futebol vistoso e envolvente, que consiga tirar partido da escola privilegiada que teve com Bobby Robson e José Mourinho e dos maiores recursos que lhe colocarão à disposição, para recolocar o FC Porto no caminho das conquistas (voltando a roubar o título nacional ao Benfica). O desafio será triplo: para o FC Porto e para André Villas Boas, sobretudo, mas também para comprovar o sucesso da aposta pessoal de Pinto da Costa.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O novo líder do Real Madrid

José Mourinho foi apresentado no Real Madrid. Foi a confirmação de uma contratação anunciada - quase como a morte do pobre Santiago Nasar para Gabriel García Márquez. Os merengues, impulsionados pela empreendedorismo de Florentino Pérez, necessitavam urgentemente de um treinador à medida do seu plantel. Manuel Pellegrini, o chileno escolhido na primeira época após o regresso de Pérez depois da recusa de Arsène Wenger, é um bom treinador mas cedo se percebeu que teria grandíssimas dificuldades para lidar com tantos jogadores de topo mundial. Depois de uma época em branco, veradeiramente fracassada a toda a linha, o Real Madrid precisa de vencer. É um desafio arriscado, melindroso, arrojado. Bem à medida de José Mourinho. Assenta-lhe como uma luva: quer arrasar noutro país para completar o Grand Slam.

Chegar. Respirar fundo e encarar um batalhão de fotógrafos e jornalistas. Congestionamento, paragem, inúmeras imagens para guardar o momento. Mourinho está no Santiago Bernabéu para ser apresentado. É mesmo preciso? "Sou o José Mourinho e não vou mudar". Nem outra coisa seria de esperar. Mourinho, para ganhar em Madrid, precisa de ser igual a si próprio. Trabalhando nos limites, motivando os seus, procurando retirar força aos adversários, tudo para colocar o clube primeiro do que Ronaldo, Kaká, Benzema, Casillas ou Raúl. O colectivo é o principal. As individualidades, ainda para mais as que o Real Madrid possui, são fundamentais. Contudo, para Mourinho, sempre foi a equipa a demonstrar a sua força. O Internazionale é o caso mais gritante de como o colectivo, se unido e consistente, consegue superar algumas brechas.

Juntar os melhores pode, por vezes, revelar-se um incómodo. É uma visão algo paradoxal, sim, mas realista. Numa equipa de futebol é, pode-se dizê-lo, normal. Mourinho aparece como elemento capaz de conter todos os egos, sabendo lidar com as frustrações e os estados de alma de cada jogador do seu plantel. Pelas suas características enquanto treinador na sua vertente de psicólogo, onde também é realmente bom naquilo que faz, Mou não deixará, por certo, que qualquer jogador ouse interferir nas suas acções. O mesmo se alarga, obviamente, à estrutura do Real Madrid, pois já ficou bem vincado, pelo técnico português, que ninguém, para além dele, tomará decisões relativamente à equipa e ao plano de jogo. O aviso ficou no ar, sobretudo para Jorge Valdano. Tal como fizera, em Londres, com Roman Abramovich. Mourinho gosta de ser o líder. Só assim sabe trabalhar. Agora, em Madrid, é ele o líder do Real.

PS: Anunciada é, também, a contratação de André Villas Boas, ainda treinador da Académica, para substituir, no comando técnico do FC Porto, Jesualdo Ferreira. O anúncio, porém, tarda em ser feito. O facto de ainda não ter sido confirmado oficialmente o acordo com Villas Boas, algo que leva a uma especulação pouco habitual em torno das opções de Pinto da Costa, pode indicar a possibilidade de um volte-face que fará os portistas mudarem de planos. Seja como for, não se percebe porque se mantém um assunto tabu: André Villas Boas tem tudo certo para ser o novo treinador do FC Porto. É um risco de Pinto da Costa. Falta assumi-lo.