segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Casos à parte

O jogo entre Leixões e União de Leiria, disputado ontem, foi um caso à parte no campeonato português. Não foi um daqueles quebra-cabeças tácticos, fechados, com duas equipas cheias de complexos e temendo cada passo em falso que lhes poderia custar caro. Os típicos jogos pachorrentos em que pouco ou nada há para apontar e que terminam, invariavelmente, sem golos. Pelo contrário: jogo vivo sempre com a vitória como objectivo prioritário, incerteza no resultado final e excelentes golos. Teve também um final condizente, carregado de emoção, ou não tivesse surgido o golo que deu a vitória aos leixonenses já depois do minuto noventa. Os espectadores, claro, saíram felizes da vida.

Jogos como este apenas poderão ser acontecer quando as equipas jogam abertas e chutam para canto o facilitismo que seria defender durante toda a partida. O Leixões e a União de Leiria são duas equipas que procuram a vitória e não se fecham em redor da sua área. No entanto, quando se defronta um grande que conta com outros recursos, nem sempre é a melhor alternativa. Há o exemplo concreto do Olhanense que mostra esse descaramento, passe a expressão, mesmo que ainda agora tenha chegado à liga principal e defronte uma equipa muitíssimo superior. Ontem, frente ao FC Porto, tal como havia feito em Alvalade - onde, aos vinte minutos, vencia por dois golos! - e na recepção ao Sp.Braga, nunca desistiu da vitória. Pagou caro por isso, é verdade, mas o futebol saiu a ganhar.

A alegria que falta ao Sporting

O Sporting encontra-se actualmente naquilo que se pode comparar a uma profunda depressão. De resultados, primeiro, mas principalmente de exibições. Por paradoxal que possa parecer, leitor, a melhor prestação dos sportinguistas nesta época foi no encontro com a Fiorentina, em casa, para o playoff de acesso à Liga dos Campeões que acabou injustamente com um empate a dois golos. Aí, os leões mostraram atitude, garra, entrega e conseguiram ser melhores do que os frios italianos. Pensou-se que poderia ser uma mudança após um início de temporada sem vitórias. Não foi, de facto. O Sporting não mais demonstrou as boas indicações deixadas nesse jogo. É uma equipa triste, apática e quase sem vontade de se mostrar.

O ciclo de três jogos que ontem terminou, sabia-se, não seria fácil de superar: os leões jogariam, para o campeonato, fora com o FC Porto e em casa com o Belenenses; pelo meio haveria, em Alvalade, que superar os alemães do Hertha de Berlim, também eles a viver um momento mau. Se na partida do Dragão, sendo certo que perdida de forma justa, nada se deve apontar à atitude evidenciada pela equipa leonina - dificuldades acrescidas pela expulsão de Polga, precisamente no momento em que poderiam tentar um maior risco em busca do golo -, as exibições frente ao Hertha, principalmente, e agora com Belenenses foram mesmo muito más para uma equipa que procura sempre a vitória. A primeira, essa, por demais confrangedora.

Os adeptos leoninos pedem a saída de Paulo Bento do comando técnico do Sporting. José Eduardo Bettencourt, fiel aos seus ideais, segura o treinador naquela que será, leitor, a melhor opção. É facto que um treinador não poderá ter o seu lugar garantido eternamente se não mostrar resultados e, por isso, percebo que haja quem defenda que a equipa necessita de um abanão que possa devolver-lhe a alegria de jogar à bola. Mas sejamos justos: será que cabe ao treinador a culpa de todas as más exibições? Não me parece. Outra questão: Paulo Bento é, enquanto treinador, teimoso e não abdica da sua filosofia mas haveria quem, no lugar dele, fizesse melhor? Não, quanto a mim. Este plantel é o reflexo da política do clube, com inúmeras cautelas financeiras, recheado de jovens da formação. Ora, isso tem os seus custos e Paulo Bento não é certamente o maior culpado.

domingo, 4 de outubro de 2009

Sp.Braga: a quarta potência nacional

Há muito que deixou de ser surpresa e passou a confirmação mas o encanto é cada vez maior. O Sp.Braga chegou ontem à sua sétima vitória consecutiva, o mesmo é dizer que venceu todas as partidas que realizou para o campeonato. Até agora esse era um feito apenas à medida dos três grandes. Fica, então, a questão: o Sp.Braga poderá continuar a ser considerada uma equipa menor ou já deu provas suficientes, mesmo não tendo ainda alcançado qualquer título de campeão nacional, de que segue logo atrás do poderio de FC Porto, Benfica e Sporting? A segunda alternativa é, sem que se levante grande contestação, a que mais sentido faz. E a aposta de António Salvador passa exactamente por essa progressiva escalada dos bracarenses.

Foi com Jesualdo Ferreira que o Sp.Braga ganhou uma nova importância no futebol português. Depois disso nada seria como antes: a equipa minhota construiu um plantel forte, criou dificuldades a quem lhe surgiu no caminho e assumiu-se como uma presença regular nas competições europeias. Não foi nunca um candidato ao título mas chegou a intrometer-se nessas contas. Com as bases bem sustentadas por esse trabalho, com um número cada vez maior de adeptos, era necessário dar continuidade a esse trabalho após a saída de Jesualdo Ferreira. Foi, no entanto, uma fase em que o clube viveu alguma instabilidade sobretudo a nível técnico.

Jorge Jesus chegou, no Verão de 2008, para recolocar o Sp.Braga no rumo certo, já que havia ficado fora da Taça UEFA na época anterior. Viria a entrar, através da Intertoto, e chegar o mais longe que alguma vez havia feito: quartos-de-final, onde acabou eliminado pelo Paris Saint-Germain. A prestação além fronteiras foi, a todos os nível, excepcional mas o quinto lugar no campeonato português, atrás do Nacional de Manuel Machado, soube a pouco aos adeptos minhotos. Jesus saiu para o Benfica e António Salvador encontrou em Domingos Paciência um sucessor à altura. Foi, deve-se dizer, um risco corrido pelo presidente: independentemente das boas épocas que teve na Académica, este era o primeiro grande desafio que Domingos teria pela frente.

A fasquia foi, contudo, elevada bem alto quer por António Salvador quer por Domingos Paciência: o presidente assumiu um desejo antigo de vencer a Taça de Portugal - competição conquistada pelos bracarenses em 1966 - e chegar longe na Europa; o treinador, por entre algumas alfinetadas a Jorge Jesus, garantiu querer fazer melhor do que aquilo que havia sido alcançado na época transacta. O início teve pouco de prometedor pois o Sp.Braga, após duas derrotas com os suecos do Elfsborg, ficou arredado da Liga Europa. Para quem aspirava a tanto, foi precoce de mais. Domingos tremeu. O primeiro jogo do campeonato, frente à Académica, representou um factor decisivo para a sua continuidade. Salvador, noutros tempos tão intransigente, soube esperar por resultados. Que estão, leitor, bem à vista.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Guardar as redes

A baliza é um misto de sensações. Pode trazer uma alegria imensa ou uma profunda desilusão. Um avançado pode lá viver momentos de sonho ou de pesadelo, todos sabemos. Mas a relação entre a baliza e o guarda-redes é diferente, é intimista. Ali, entre os postes, não pode haver qualquer erro. Será fatal se acontecer. Por mais pequeno que seja tem o poder de destruir a imagem de qualquer um. E as defesas que foram feitas esfumar-se-ão como se nem tivessem sequer existido. Por isso, o que se pede a qualquer um que vá para a baliza é simples: não pode deixar a bola entrar. Que guarde bem as redes que defende.

Guarda-redes: o próprio nome da posição diz tudo, é aquele que tem que guardar as redes. Não sei muito bem porquê mas desde cedo me tornei um admirador deles. Admirava-lhes a coragem, o sangue frio e a concentração que tinham que manter, muito mais do que qualquer um dos seus companheiros. Tornam-se heróis ou vilões num instante, passam de bestiais a bestas num abrir e fechar de olhos. O momento da marcação de um penalty é talvez o mais angustiante na vida de um guarda-redes. Assim como é para o jogador que o vai tentar marcar, é certo. Não, é ainda pior: está entre os postes, naquela imensidão de espaço, com a bola a onze metros. A diferença entre um sentimento heróico e outro de total impotência é pequena: a defesa ou o golo.

Num passado mais recente, houve Oliver Kahn, Peter Schmeichel ou David Seaman. Cada um à sua maneira, com o seu estilo, com as suas manias. Foi uma defesa deste último, um inglês com um visual algo estranho embora sem a mesma excentricidade de um Higuita, que me ficou marcada na memória. Aconteceu há já seis anos, num Arsenal-Sheffield United para a Taça de Inglaterra. Foi um lance às três tabelas: canto, cabeceamento para a entrada da pequena área, toque acrobático, novo cabeceamento mesmo em cima da linha de baliza. O golo era evidente, a bola ia entrar. Não! Apareceu David Seaman, contrariando todas as leis da Física ao vencer a inércia, numa estirada espantosa. Os adeptos levaram as mãos à cabeça perante tal defesa, boquiabertos. My god!, o que foi aquilo?

Houve certamente defesas como as de David Seaman, se calhar até melhores. Para mim, aquela foi a melhor que vi. Fiquei espantado, quis voltar a ver, não me cansei. É nestes momentos que um guarda-redes vive a sua glória, com estas defesas impossíveis, tal como acontece a um avançado quando marca um daqueles golos de antologia. É isso que se deve recordar. Erros existirão sempre, os frangos são uma constante. Essa sensação atroz, cruel e injusta todos experimentam, por mais categoria que possuam. Agora, defesas como a de Seaman só os predestinados têm direito.

Uma espécie em extinção

O FC Porto já tinha a potência e a explosão de Hulk, o Sporting contava com as resoluções acertadas de Liedson. Estes foram, daqueles que por cá continuam, os jogadores que maior destaque obtiveram na época passada. O futebol português precisava, então, depois de perder a raça de Lisandro e a elegância de Lucho, de mais jogadores que pudessem espalhar magia nos relvados portugueses, deixando os adeptos maravilhados e com vontade de ver mais e mais. Num teatro, mesmo que o argumento não seja a melhor coisa do planeta se os actores souberem dar talento, o espectador esquece a trama e delicia-se. No futebol, leitor, a situação é igual. Um momento de magia é capaz de qualquer coisa.

Eram precisos, nesta nova temporada, outros jogadores talentosos para fazer os adeptos sonhar. Um deles, Pablo Aimar, já estava no Benfica mas durante a época passada raras foram as vezes em que revelou as suas reais capacidades. De mago teve muito pouco, é facto. Não que seja culpa exclusiva sua até porque quase nunca jogou na posição onde deve: no meio, no comando de todo o jogo ofensivo, sendo, de novo com uso de uma metáfora, um verdadeiro maestro. Agora é tudo aquilo que não conseguiu ser antes porque o talento estava lá todo mas faltava conseguir o rendimento. Este Benfica, agora, funciona à sua volta.

Se Aimar já era bem conhecido dos portugueses, Radamel Falcao somente este ano chegou a território português. Deixou o River Plate com a lágrima no canto do olho, devido a uma situação frágil nas finanças do clube argentino, esteve com um pé na Luz mas acabou no Dragão. Foi, a princípio, visto com alguma desconfiança pelos adeptos portistas. Mas o avançado colombiano é daqueles que não engana: no seis primeiros jogos do campeonato, apenas ficou em branco na partida frente ao Sp.Braga. Teve agora a sua semana de ouro: deu a vitória no clássico e, com um gesto fabuloso de calcanhar, abriu caminho à vitória sobre o Atlético. Dúvidas de como é craque?

Hulk, Liedson, Aimar e Falcao. São estes, sem que exista qualquer ordenação nos nomes, os craques que, em Portugal, proporcionam aos adeptos momentos de maior espectáculo e talento. Mas são também, leitor, as figuras máximas do campeonato português até ao momento. Não há forma de não destacar ainda Alan. O jogador do Sp.Braga, bem longe do reconhecimento dos outros, tem sido o expoente maior da única equipa que ainda não cedeu qualquer ponto e que lidera com justiça. Nos bracarenses, a força está claramente no colectivo mas Alan é o tal que dá largas à imaginação e à criatividade.
O futebol precisa desses artistas que são, cada vez mais, uma espécie em vias de extinção.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Liga Europa: Três sensações diferentes

Vitória. A primeira sobre equipas germânicas. O Sporting venceu o Hertha de Berlim, em Alvalade, e consolidou a liderança do seu agrupamento. No futebol, como em qualquer outro desporto, o resultado é que realmente tem importância. A exibição, essa, foi fraca. Se não repare-se que, mesmo ganhando, a partida terminou mesmo com uma enorme vaia para a equipa de Paulo Bento. É sintomático. Um golo de Adrien Silva, a novidade na equipa titular devido à deslocação de Miguel Veloso para o lado esquerdo da defesa, pouco depois de cumprido o primeiro quarto de hora de jogo, serviu para colocar os leões com um pé na fase seguinte. Isso é, sem dúvida, um grande motivo de satisfação. E o que deve ser realçado, primeiro, mas há muito para melhorar neste Sporting de hoje.

Está confirmado: a Grécia é um país com que os portugueses tenham sorte. Desde a final do Europeu de 2004 que assim é. Para o Benfica, em particular, as viagens a terrenos helénicos também não trazem nada de bom. Depois de na temporada passada terem sido verdadeiramente atropelados pelo Olympiacos, naquilo que foi uma real tragédia grega, desta vez, os encarnados foram derrotados pelo AEK de Atenas - com um golo solitário de Majstorovic, tendo ficado, nove jogos depois, em branco. Este não foi, no entanto, o Benfica que tantos elogios tem feito por receber e que alimenta a esperança dos adeptos benfiquistas no campeonato nacional. O AEK tem mérito, claro, mas os encarnados não estiveram, nem pouco mais ou menos, perto do nível habitual que têm exibido.

Longe da responsabilidade ou pressão de Benfica e Sporting, o Nacional da Madeira conseguiu um empate em casa do Áustria de Viena, isto é, aquela que será a equipa que mais se lhe assemelha - Werder Bremen, líder com duas vitórias, e Athletic de Bilbao são equipas bem mais fortes. Não deixa, por isso, de ser um resultado positivo para a equipa de Manuel Machado que já tinha deixado bons apontamentos frente ao Bremen e, acima disso, se revelou superior ao adversário austríaco. Nota de destaque para a grande penalidade defendida por Bracalli, ao nono minuto, e para o golo fenomenal de Rúben Micael que colocou a equipa insular em vantagem.

Comentário: Toque de magia

Foram precisos setenta e cinco minutos para que o Dragão explodisse de alegria e quebrasse uma estratégia do Atlético de Madrid, claramante conservadora e fechada, que vinha dando resultado até aí. Foi esse, também, o tempo que os adeptos necessitaram para assistir a um momento sublime. Após uma jogada de insistência de Hulk, na direita do ataque portista, Falcao fez um golo extraordinário de calcanhar. Marcar de taco era mesmo a única solução, disse o colombiano. Não houve quem não se recordasse do que o argelino Rabah Madjer havia feito, já lá vão vinte e dois anos, no Parker de Viena. Dois toques geniais, memoráveis, históricos. O original, de Madjer, deu um título europeu. Agora, em 2009, Falcao quebrou uma série de dez anos sem ganhar a espanhóis em casa.

Antes disso, nos tais setenta e cinco minutos, houve pouco que realmente tenha justificado o preço do bilhete. Sobretudo na primeira parte: desinspirada, demasiado centrada no meio-campo, quase sem oportunidades de golo se retirarmos um lance de Raul Meireles em fora-de-jogo e uma defesa de Helton após remate de Agüero. O Atlético preocupou-se principalmente em tapar os caminhos para a sua baliza, aniquilando as investidas do FC Porto com superioridade no meio-campo mas sem nunca se atrever a explorar um ataque carregadinho de estrelas. A impaciência e a intranquilidade começavam a tomar conta dos adeptos portistas. Claro porque, de facto, a exibição não era a que os portistas já provaram ser capazes de fazer.

Os primeiros dez minutos da segunda etapa foram precisamente o melhor período dos colchoneros. Aqui, sim, o Atlético resolveu deixar-se de receios e adiantar-se no terreno. Criou duas situações que poderiam ter deixado os portistas numa má situação. Por dois defesas, veja-se como são as coisas: Helton defendeu com categoria um remate perigoso de Ujfalusi e, na sequência do pontapé de canto, Juanito deixou os adeptos portistas com os cabelos em pé. Deve ter sido por esta altura que soou o alarme para o FC Porto. A equipa portuguesa aproximou-se da baliza de De Gea mas, mesmo que de forma pouco convencional, o guarda-redes de dezanove anos que substituiu Roberto aos vinte e seis minutos, manteve sempre o resultado acorrentado a um nulo que se arrastava como uma bola de chumbo.

A entrada de Freddy Guarín, a pouco mais de vinte minutos do final, foi a pedra de toque que mudou tudo. Tão criticado noutras situações, desta vez o colombiano foi fulcral porque, com a sua entrada e o recuo de Mariano González para o meio-campo, o FC Porto combateu a superioridade que os espanhóis haviam demonstrado até aí. Tal como num jogo de xadrez, é no centro que a batalha se decide. A equipa portista cresceu, mostrou as suas capacidades ofensivas, não mais permitiu que o Atlético se aproximasse da baliza de Helton e arrancou para uma ponta final de grande qualidade. Faltava um quarto de hora para os noventa quando Falcao deu sentido a toda a magia do jogo. Rolando, poucos minutos depois, apenas confirmou uma vitória justa. Numa noite que começou com confiança, passou por uma terrível apreensão e terminou com olés.