quinta-feira, 15 de julho de 2010

97º Tour de France: A emergência de Sérgio Paulinho

Nestes casos importa começar pelo fim: Sérgio Paulinho venceu a décima etapa da nonagésima sétima edição do Tour de France. O ciclista da Radioshack tornou-se no quarto português a vencer na Grande Boucle, depois de Joaquim Agostinho (por cinco vezes), Paulo Ferreira (uma) e Acácio da Silva (três). O corredor português quebrou, além disso, um interregno de vinte e um anos, o tempo que passou desde que, num contra-relógio inicial realizado no Luxemburgo, Acácio da Silva venceu e conquistou, pela única vez no historial das participações de ciclistas portugueses na principal prova do pelotão internacional, a camisola amarela. Mais solto devido ao facto de Lance Armstrong, seu líder na equipa norte-americana, ter já perdido todas as possibilidades de discutir a vitória na competição, Sérgio Paulinho entrou na fuga do dia, geriu o seu esforço, trabalhou, atacou no momento certo e ganhou ao sprint. Por centímetros.

Sérgio Paulinho é um ciclista de grande valor. Foi escudeiro de Alberto Contador e agora acompanha Lance Armstrong. Ganhou notoriedade pela medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas. Está habituado a viver junto dos melhores. Não é um candidato a vencer, a estar nos primeiros lugares ou a ser o mais espectacular. Sérgio Paulinho é um trabalhador, um operário, um dos responsáveis pela defesa do líder e pelas tarefas mais duras. Não importa a classificação, os muitos minutos de atraso para o topo ou o lugar final. A Sérgio Paulinho apenas é cobrado o trabalho que realiza em prol da equipa. Se for bem-sucedido, se proporcionar todas as condições para que os seus companheiros ganhem, terá sucesso. É aí que está o seu barómetro. Nunca no destaque que tem por entrar em fugas ou por ser explosivo nos ataques. Desgasta-se, sofre, dá tudo o que pode. O maior protagonismo fica de lado.

O azar de uns é a sorte de outros. No Tour de France de 2010, a missão de Sérgio Paulinho, como Yaroslav Popovych ou Chris Horner, por exemplo, sempre passou por levar Lance Armstrong, líder da Radioshack, à sua oitava vitória na prova. Lance ficou arredado de uma nova conquista na primeira semana. Por infortúnio, devido a problemas mecânicos no pavé e duas quedas na principal etapa dos Alpes, e também por ter sentido o peso da sua veterania, o norte-americano viu a distância, abissal, deixá-lo de fora das contas da classificação geral. O objectivo de Lance Armstrong, mas também de toda a equipa, falhou. Levi Leipheimer, o ciclista mais bem colocado da Radioshack, no sexto lugar, passou a ser o novo líder. Abriu-se, com isso, uma janela de oportunidades. A táctica mudou. Leipheimer não é Armstrong. Ciclistas como Sérgio Paulinho, antes de corpo e alma no auxílio ao líder, puderam ambicionar sair da sombra.

Entendimento e consentimento: são duas características essenciais para que uma fuga resulte. Terá de haver, antes que tudo, uma boa ligação entre os elementos do grupo que saltaram do pelotão - grande entreajuda e estratégias que permitam, a cada elemento, fazer a melhor gestão do esforço. Depois, sem que os fugitivos possam fazer muito sobre isso, é necessário que o pelotão permita que os ciclistas que estão isolados consigam levar a sua vantagem até final. A décima etapa do Tour foi perfeita para uma fuga rumo à vitória: dia para recarregar baterias, depois de um desgaste brutal em alta montanha, com subidas complicadas mas sem a dureza das últimas tiradas, com um ritmo controlado pelo pelotão - sem investidas para atacar a classificação geral ou procurando uma chegada em compacto, que permitiu que o grupo de fugitivos ganhasse margem de manobra. Sérgio Paulinho tinha que aproveitar.

A fuga resultara na perfeição. A vantagem, impossível de ser recuperada pelo pelotão, sempre num ritmo sereno e sem preocupações, chegou aos doze minutos. Era momento de atacar. De encontrar uma oportunidade, morder a língua e querer ser feliz. Dries Devenyns, belga da Quick-Step, foi o primeiro a tentá-lo. Vasil Kiryienka segui-o, acompanhado de Sérgio Paulinho. As duas equipas, Caisse d'Epargne e Radioshack, disputam também a liderança colectiva. A presença do ciclista português deveu-se, em parte, à presença do bielorrusso. Um jogo do gato e do rato. Fortes, ganhando vários segundos, Kiryienka e Paulinho passaram para a frente. E posicionaram-se para a vitória. No dia de França, na comemoração da tomada da Bastilha, o ciclista português libertou-se e arrancou para a meta. Ganhou, à justa, no sprint. Um triunfo histórica, saboroso e muitíssimo importante: para o ciclista, para a equipa e para Portugal.

ANDY SCHLECK E ALBERTO CONTADOR: O DUELO DO DIA ANTERIOR

Ao nono dia, depois da segunda etapa em plenos Alpes, a vitória no Tour de France 2010 ficou reduzida a um duelo. Alberto Contador (Astana) e Andy Schleck (Saxo Bank), os dois primeiros da edição do ano passado, ganharam tempo a todos os rivais, atacando forte e pulverizando os tempos que os mantinham atrás dos primeiros lugares. Depois de uma sensacional vitória na última etapa antes do descanso, Andy Schleck voltou a destacar-se, explodindo e deixando grande parte dos rivais sem resposta. Alberto Contador, titubeante na última vez, acompanhou o luxemburguês. Formaram um duo, o duo de candidatos. Montanha acima, em parceria, ganharam minutos fulcrais e fixaram-se nos primeiros lugares: Andy Schleck assumiu a liderança, com quarenta e um segundos de vantagem sobre Contador. O anterior líder, Cadel Evans, destroçado e vencido, cortou a meta a chorar. Oito minutos de atraso pesam. E supreendem.

Andy Schleck vive o seu melhor momento de forma. Mais forte do que na edição do ano passado, mais experiente, o luxemburguês, bem apoiado pela equipa da Saxo Bank - mesmo tendo perdido, logo no início, o irmão Frank -, anseia pela sua primeira vitória no Tour. Alberto Contador, apesar de ter parecido sentir algumas dificuldades no ataque de Andy Schleck na oitava etapa, respondeu bem após o descanso, juntando-se ao seu principal para ambos se destacarem de todos os outros. A luta será entre ambos - ao fim de nove etapas era de todo inesperado que a discussão da vitória final se limitasse a dois corredores. E há, ainda, a ausência de Lance Armstrong nas contas da classificação geral. O norte-americano viveu um dia infernal na primeira etapa dura nos Alpes e é, actualmente, sobre Levi Leipheimer que recaem as principais esperanças da Radioshack. A resposta de Lance, ao nono dia, foi positiva.

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