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domingo, 11 de julho de 2010

Mundial 2010: Holanda-Espanha, 0-1 (crónica)

UM CAMPEÃO EM TIKI-TAKA

A Espanha é uma equipa possessiva. Toma conta da bola, do jogo e tira a iniciativa ao adversário. Os princípios são sempre os mesmos: conseguir a bola, girar, passá-la, trocá-la de pé para pé e progredir rumo à baliza contrária. Não há segredos, é simples. Contudo apesar de dominar, de estar a maior parte do tempo por cima do adversário, a selecção espanhola não é massacrante. É-o na posse de bola, sim, mas não em oportunidades de golo ou em caudal ofensivo. Falta isso, apenas isso, para que a Espanha possa deslumbrar. Neste Mundial não o fez: depois de uma entrada em falso, com o pé esquerdo frente à Suíça, superiorizou-se, lançou as suas teias sobre os adversários e galgou caminho até ao título mundial. Não sendo esplendora. Foi, isso sim, consistente e adulta. É a nova campeã!


Bate, bate e insiste. O ciclo espanhol repete-se. Uma, duas, três, as vezes que forem necessárias. Por isso lhe chamam tiki-taka. À Holanda, trilhando um percurso imaculado e repleto de boas prestações, importava retirar a bola aos espanhóis. Só assim, não deixando La Roja colocar em prática o seu jogo, que todos conhecem mas poucos conseguem parar, seria possível ganhar. Esta Holanda é uma equipa que sabe o que quer. E conhece-se: não sendo a Laranja Mecânica, não estando nesse pedestal, há quer ter outras armas, um colectivo forte e liberdade para o génio individual, capazes de resolver. Joga com alegria, voltada para a baliza contrária, circula a bola e procura espaços. Também é insistente. Tem um futebol positivo mas não vive obcecada pelos golos ou pelo espectáculo. O jogo ganha-se com equilíbrio.

Fiel às suas ideias, sem se atormentar com o peso do jogo, com toda a História sobre si, a Espanha entrou melhor. Teve a bola e colocou em prática a sua filosofia. Sergio Ramos, no sexto minuto, obrigou Stekelenburg, guarda-redes holandês, a uma bela defesa. Foi o primeiro ar de graça. O lateral espanhol, sempre com ímpeto atacante, voltou a criar perigo. Logo após foi David Villa, herói de jogos anteriores, a testar a pontaria. Nos primeiros quinze minutos, sem que a Holanda se tenha conseguido libertar, os espanhóis mandaram. Desde o início, logo após o primeiro pontapé, que a La Roja deixou bem claro que a bola estaria consigo. Passado esse período inicial, o jogo endureceu. Aumentaram as faltas, algumas bem ríspidas, as paragens, os muitos apitos de Howard Webb. Perdeu-se fluidez, dinâmica e ritmo. A Holanda, antes empurrada pela Espanha, agradeceu. Essa tendência só a favorecia. A sua estratégia passava por aí.

MUITO EQUILÍBRIO E POUCO GÉNIO

Numa final todos os lances são para aproveitar. John Heitinga, pelo menos, deve pensar assim. O central holandês, numa tentativa de devolver a bola à selecção espanhola com desportivismo, esteve perto de marcar. Casillas, com dificuldade, impediu-o. O jogo estava, por esta altura, estabilizado: Espanha sempre com mais bola, Holanda esperando uma oportunidade para atormentar a defesa espanhola. Teriam de aparecer os artistas, os grandes desequilibradores, para abanar a partida. Arjen Robben tentou: saiu da direita, flectiu para o meio, rematou com o pé esquerdo e, de novo, viu Casillas travar a marcha do remate. A Espanha começara melhor, abrandara depois, e a Holanda conseguira terminar a primeira parte com algum ascendente. O jogo teria de abrir, as duas equipas serem mais afoitas, expeditas e audaciosas. Desatar o nó em que estavam, no fundo.

Wesley Sneijder e Arjen Robben foram duas figuras de proa ao longo da época. Na selecção holandesa, nesta boa campanha, têm também papéis importantes. Um desenha, o outro conclui. A dupla funciona. No jogo com a Espanha, do gato e do rato, poderia fazer estragos. A primeira vez que surgiu, aos sessenta e dois minutos, esteve perto de o conseguir. Iker Casillas, um alerta de segurança máximo na baliza, impediu que Robben - displicente - colocasse a Holanda na frente. A Espanha fora atacada. Não se fica, teria que responder. Jesús Navas, lançado por Vicente del Bosque para o lugar de Pedrito Rodríguez, um joker desta vez sem os efeitos desejados, assumiu a jogada, lutou contra os holandeses, deu para David Villa e esperou que o matador concretizasse. Maarten Stekelenburg, não querendo perder o duelo de guarda-redes, agigantou-se e negou-o. Depois, foi Sergio Ramos quem voltou a criar perigo. A Espanha reaparecera.

UM PROLONGAMENTO MORNO ATÉ UM GOLO HISTÓRICO

Robben perdera frente a Casillas à primeira. Precisava de mais uma oportunidade para demonstrar que seria possível passar o portero espanhol. O extremo foi veloz, superou Puyol, isolou-se perante Casillas, tentou fintar e marcar. Não resultou e, afinal, entregou a bola. Fora a segunda chance. Não teria mais nenhuma. O tempo correu, ninguém marcou e ambas as selecções aceitaram o prolongamento. Não haveria volta a dar. Cesc Fàbregas, recém-entrado, deu o mote e Stekelenburg impôs-se bem. Com o acumular dos minutos começou a faltar discernimento, capacidade para discutir cada lance e ganhar a luta territorial. Os holandeses, sobretudo, sentiram-se em quebra. Os treinadores mexeram: Bert Van Marwijk lançou Van der Vaart, enquanto Del Bosque colocou Fernando Torres. Nenhum deles teve resultados práticos.

O prolongamento não destoou do que foi o jogo. Houve equilíbrio, sempre com maior iniciativa da Espanah, com poucas oportunidades de golo feito. A garra e o ímpeto mantiveram-se sempre. Afinal, trata-se de um título mundial. A Holanda, já sem rasgo e a mesma velocidade para colocar em perigo a defesa espanhola, sofreu um duro revés com a expulsão de Heitinga. O defesa holandês travou Iniesta - inteligente - e recebeu o segundo cartão amarelo. Para a selecção espanhola, tencionando aproveitar a superioridade numérica, funcionou como estímulo. Mais um esforço, mais minutos de iniciativa, circulação e, mais importante do que tudo, fogo. La Roja joga muito, troca muito a bola, mas marca pouco. Um golo bastaria. A quatro minutos do final, Andrés Iniesta recebeu a bola, encarou com Stekelenburg, colocou toda a fé no remate e foi feliz: a bola entrou, com força e colocação, na baliza holandesa. A Espanha colocou as mãos sobre o troféu. Sem largar.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Mundial 2010: Espanha-Portugal, 1-0 (crónica)

A FAENA ESPANHOLA

A Espanha é mais forte do que Portugal. A frase, clara e sem rodeios, não tem por onde enganar. O jogo entre as duas selecções comprovou-o: os espanhóis circulam a bola como poucos, insistem, pressionam, obrigar a errar e jogam com tranquilidade. Portugal, ao ser expectante e dando a iniciativa aos espanhóis, assumiu um risco. Viu uma, duas, três bolas de golo junto da sua baliza. Eduardo, heróico, defendeu tudo o que lhe apareceu pela frente. Gritou, alertou, corrigiu, pediu mais concentração. A vontade do guarda-redes, a sua garra, faltou no ataque português. A selecção nacional, depois do sufoco inicial, conseguiu criar oportunidades, perigo, andou perto do golo. Nunca passou disso. A Espanha, melhor e mais consistente, marcou. E garantiu a vitória.

Don
Vicente manteve a sua armada. Sem surpresas, sem alterações de última hora, com todas as pedras nos seus devidos lugares. Tudo bem esquematizado, estudado ao pormenor, para colocar o carrossel espanhol em funcionamento. A Carlos Queiroz, na liderança da armada portuguesa, restava pará-lo. Impedir a sua acção, atrapalhar, colocar obstáculos à progressão e lançar, a cada momento, perigos para o trilho dos espanhóis. Pepe e Ricardo Costa, revelando as preocupações em ter segurança defensiva, mantiveram-se na equipa. Simão e Hugo Almeida, a versatilidade e a presença, regressaram. Frente a Espanha, num duelo de vizinhos, muito mais do que um simples arrufo de quem não gosta de quem está ao lado, Portugal quis manter-se consistente na defesa e, ao mesmo tempo, ousado no ataque. Teria que se mostrar ao rival.

Espanha saiu com a bola. Iniciou o seu passa e repassa, tiki-taka, com os olhos no horizonte. Os espanhóis, nesta selecção com tanto do Barcelona, só pensam em avançar, nunca em jogar para trás, nunca em contentar-se com pouco e quando ainda é demasiado cedo para o fazer. Fernando Torres, no primeiro minuto, rematou. Seguiu-se, cinco minutos depois, Capdevila. Ambos levaram a direcção certa. Eduardo, senhorial na baliza portuguesa, anulou as ideias. Portugal tremeu no início. A selecção espanhola, sufocante e mandona, tomara conta da bola, fizera-a circular e rondar com muito perigo a área portuguesa. Fábio Coentrão, a irreverência em pessoa, tentou reagir, responder, fazer com que os espanhóis não ganhassem, desde logo, ímpeto para se fixarem. Torres voltou a assustar. Portugal conseguiu, aos poucos, assentar.

UM DOMÍNIO A SER COMBATIDO

O domínio espanhol durou vinte minutos. A selecção portuguesa entrara expectante, esperando pela Espanha demasiado atrás. Colocou-se à mercê das investidas contrárias. Depois disso, era obrigatório reagir para mostrar que Portugal teria recursos para amedrontar Casillas. Em dois remates, de Tiago e de Cristiano Ronaldo, o guarda-redes espanhol, ainda que com dificuldade, conseguiu responder bem. Os portugueses haviam, enfim, deixado de lado a pressão da Espanha, conseguindo explanar o seu futebol e progredindo no terreno. Respirara, ganhara fôlego e iria à luta. Os espanhóis, afinal, não são máquinas. Hugo Almeida, de cabeça, falhou por pouco o alvo. E mais sobressalto num rápido contra-ataque, a principal arma de Portugal, em que Casillas, perante Simão, foi mais forte. Tiago, ainda antes do intervalo, cabeceou para fora.

Percebe-se que o descanso chegou em má altura. Coincidiu precisamente com o melhor período português no jogo. Portugal, apesar de sempre de pé atrás pelo futebol tricotado da Espanha, ganhara poder ofensivo e criara oportunidades de golo. O intervalo, contudo, não afectou o ritmo da selecção portuguesa. Na segunda parte, mantendo a fase positiva que demonstrara sobretudo a partir dos trinta e cinco minutos, Portugal começou bem: Hugo Almeida, veloz e possante, escapou pela esquerda e Puyol, por um triz, não introduziu a bola na sua baliza. Espanha suspirou de alívio. Portugal ficou perto, perto, mas não teve sucesso. O minuto cinquenta e sete trouxe as primeiras substituições. Carlos Queiroz chamou Danny, médio que esteve em dúvida, para trazer maior velocidade. Del Bosque, querendo voltar ao início, apostou em Fernando Llorente.

UMA SUBSTITUIÇÃO FALHADA

Uma alteração em cada equipa e duas visões completamente contrárias de agir. Queiroz retirou Hugo Almeida, a principal referência ofensiva da selecção portuguesa, quando, apesar de ter estado pouco em jogo na primeira parte, começava a aparecer. Portugal ficou sem o seu ponta-de-lança, deslocando Ronaldo para essa posição. Em oposição, Vicente del Bosque, sem obter resultados da utilização de Fernando Torres, uma estrela em eclipse na África do Sul, colocou Llorente, também avançado, para sobressaltar a barreira defensiva nacional. À hora de jogo, três minutos depois de entrar, Llorente apareceu solto: Eduardo, instintivo, voltou a ser mais forte. O guarda-redes, decisivo nos primeiros minutos, sempre respondeu bem. A Espanha, com a colocação do avançado do Athletic de Bilbao, readquiriu força, perigo e domínio ofensivo.

Com esperança em ser bem-sucedido e com a tormenta de ver os espanhóis em crescimento, Portugal voltara a dar mais espaço, perdera a bola e recuara em demasia. David Villa, após uma abertura de Iniesta e um desvio de calcanhar de Xavi, surgiu frente a Eduardo. O guarda-redes, um gigante na baliza nacional, defendeu. A defesa foi boa mas não perfeita. Villa, oportuno, colocou a Espanha em vantagem. Jogara-se, até aí, mais ou menos uma hora: a selecção espanhola fora sempre mais equipa, mais inicisiva, mais perigosa e pressionante, contudo, à medida que conseguiu fazer desenvolver o seu jogo, Portugal reequilibrou e criou calafrios aos espanhóis. Não aproveitou. A Espanha, sempre ofensiva, marcou. Um golo evitado ao máximo por Eduardo. Agora tudo seria mais difícil. Um luta tiki-taka espanhol e o desespero português.

UM PONTO FINAL PRECOCE

O golo bateu forte em Portugal. Como um punhal cravado. Ainda não mortal, sim, mas perto disso. Sergio Ramos é, como Fábio Coentrão, um lateral ofensivo e impediu, assim, que o jogador português se conseguisse envolver no ataque e fosse, como nos jogos anteriores, um importante suporte para criar jogadas de perigo. Aproveitando a embalagem trazida pelo golo de David Villa, deixando a Espanha a jogar como gosta, Ramos rematou forte, cruzado, e voltou a obrigar Eduardo a uma defesa espantosa. Com talento puro e um enorme querer de empurrar a equipa para a frente, foi assombrosa a exibição do guarda-redes português. Carlos Queiroz, errado na primeira substituição, lançou Pedro Mendes e Liedson. Portugal necessitava de voltar a ter bola, capacidade de construção e alguém na área para finalizar. A equipa encolhera-se, precisava de nova vida.

A Espanha luta, pressiona e insiste muito até conseguir marcar. Quando o consegue, solta-se, toca curto, faz com que a bola passe por quase todos os jogadores. Joga um futebol vistoso para o adepto e profundamente irritante para o adversário. Para quem está em vantagem, com o relógio a seu favor e perante uma equipa cada vez mais desligada e desunida, é perfeito. Portugal, sem forças, tentou responder ao golo espanhol. Queiroz mexeu, os jogadores quiseram sair para o ataque, tentaram assustar os espanhóis. Não tiveram sucesso. O discernimento, a força e o coração necessários faltaram. Portugal rendeu-se. Nunca quis dar parte fraca, quis lutar até ao fim, mas há muito estava entregue. À Espanha bastaria, como tão bem faz, circular a bola e gerir o tempo. Eduardo, depois de tanto defender, fora batido e resultado, desde aí, estava feito. Vitória de Espanha. Com mérito.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Mundial 2010: Portugal-Brasil, 0-0 (crónica)

UM NULO, SORRISOS E FESTA EM PORTUGUÊS

O Brasil é um papão mundial, pentacampeão, declarado favorito a triunfar na África do Sul. Portugal, no máximo, pode ser um papãozinho. A selecção portuguesa procura emancipar-se, afirmar a sua posição e dar largas ao seu talento. Mantém-se, contudo, ainda atrás das grandes potências, onde o Brasil aparece logo à cabeça, que fazem do título mundial um objectivo. A primeira ideia, quando se defronta alguém com capacidades superiores, passa por ter alguma contenção. Refrear os ímpetos, adoptar uma nova estratégia, reconhecer que uma luta igual pode dar mau resultado. Jogar com mais expectativa, deixando que o adversário tenha a iniciativa, esperando para ver o que o jogo dá. Ou, aproveitando as ligações entre os dois países, tentar um pacto de não agressão.

Carlos Queiroz revolucionou a equipa nacional. Eram esperadas mexidas, sim, mas não tantas como as que o seleccionador nacional implementou. Em relação ao último jogo, sem dar importância ao ditado que diz que em equipa que ganha não se mexe nem uma unha, até porque o apuramento só fugiria com algum acontecimento sobrenatural, Miguel deu o seu lugar a Ricardo Costa, Pedro Mendes foi substituído por Pepe, Danny e Duda relegaram Simão e Hugo Almeida para o banco. Portugal entrou com cautelas. Queiroz privilegiou a consistência defensiva, deixou Ronaldo na frente de ataque, explorando a velocidade da estrela maior, e preencheu o meio-campo, colocando Pepe, tanto tempo depois, para lhe dar mais músculo. Dunga, sem Kaká e Elano, optou por Júlio Baptista e Dani Alves. Lançou ainda Nilmar, um joker para acompanhar Luís Fabiano, deixando Robinho de fora.

Entre portugueses e brasileiros não há meias-tintas. Entendem-se bem, falam a mesma língua, ambos sabem o que querem. O apuramento, consumado para o Brasil e quase confirmado por Portugal, não obrigaria os treinadores a arriscar. Precisavam, apenas, de cumprir noventa minutos. Tendo já a mente nos oitavos-de-final, com temor da Espanha, embora sem possibilidades de saberem qual a melhor classificação para evitar um possível confronto com os espanhóis, tanto Carlos Queiroz como Dunga quiseram experimentar novas soluções. Portugal deixou a iniciativa do lado do Brasil: joguem, corram, circulem, nós estamos aqui para impedir o vosso sucesso. O plano resultou: os brasileiros tomaram conta da bola, jogaram de pé para pé, procuraram progredir e Portugal, sempre consistente, impediu-o. Um jogo do rato e do gato.

CONSISTÊNCIA: PALAVRA-CHAVE

Em teoria, sempre que não há pressão, o jogo é mais agradável. As equipas ficam mais soltas, mais alegres, mais disponíveis para jogarem bom futebol. O Portugal-Brasil foi assim? Não. Sobretudo, já se disse, pelas diferenças qualitativas entre as duas selecções. A equipa portuguesa da última vez que defrontou os brasileiros saiu vergada a uma derrota pesada, sofrendo seis golos, servindo para vincar o longo caminho que ainda tinha, nessa altura, a percorrer. Desta vez, num meio tão diferente como é um Campeonato do Mundo, importava deixar boa imagem. Daí que o jogo tenha sido enrolado, amarrado e fechado. O Brasil, também sem ter que fazer muito para vencer, procurou servir-se da rapidez de Maicon, um lateral verdadeiramente essencial no ataque. Fábio Coentrão, crescido, encheu o peito e respondeu à letra. Estava dito: por ali, não passaria.

A preocupação de Carlos Queiroz com as incursões de Maicon ficara estabelecida na equipa inicial. Ao colocar Duda como médio, jogando sob a esquerda, o seleccionador nacional quis certificar-se de que não faltaria ajuda a Coentrão. Com vigia permanente, o lateral do Benfica teria, ainda, oportunidade para tentar criar perigo. Deu, até, para se inverteram os papéis: Fábio Coentrão correu, fintou, deixou Maicon para trás e cruzou para a área. O lance levava perigo, mas Júlio César, imperial, pôs-lhe cobro. Logo após, para mostrar que a selecção portuguesa não seria apenas uma muralha aos avanços brasileiros, Tiago, após sensacional jogada de Coentrão, rematou para fora. O Brasil ficou em sentido. Com Júlio Baptista no lugar de Kaká, dois jogadores bem diferentes, os brasileiros perderam imaginação, magia e criatividade. Notou-se.

OS PACTOS SÃO PARA SER LEVADOS ATÉ AO FIM

A selecção brasileira, com dificuldades em ligar o seu jogo, esperando por um clique de génio, apenas aparecera realmente em dois remates de Dani Alves. Era tempo, então, já depois das ameaças portuguesas, de Eduardo ser colocado à prova: Maicon ganhou espaço a Fábio Coentrão, cruzou largo, a bola passou toda a área, Ricardo Costa dormiu na parada e Gilmar, oportuno, obrigou o guarda-redes português a uma defesa brutal. Os brasileiros voltaram, minutos depois, a deixar o seu aviso. Aproveitando, de novo, uma descoordenação entre Ricardo Carvalho e Ricardo Costa, o central e o lateral, Luís Fabiano cabeceou ao lado. Sem ser muito incisivo ou pressionante, o Brasil foi mais perigoso. A dureza, virilidade até, instalou-se a cada jogada. Pepe e Felipe Melo, por exemplo, envolveram-se em picardias constantes.

Dunga, apercebendo-se da agressividade colocada em campo por Felipe Melo, lançou, ainda antes do intervalo, Josué. Na prática, contudo, nada mudou. Nem nas filosofias de ambas as equipas. Carlos Queiroz, após o descanso, tentou dar maior ofensividade à equipa portuguesa. Afinal, o Brasil estivera titubeante, algo desconexo, sem imprimir um ritmo alto. Portugal poderia, se aliasse um maior poder ofensivo à coesão defensiva, ambicionar marcar. Para isso, até porque Fábio Coentrão já mostrara que estava à altura de Maicon, retirou Duda, um jogador posicional, lançando Simão. A equipa cresceu, melhorou, passou a ter mais bola no território adversário. Dispôs, depois, da sua melhor oportunidade: Raúl Meireles, o talismã da Bósnia e da partida com a Coreia, esteve pertinho de marcar. Júlio César foi assombroso.

Portugal ficara mais confortável. Com mais espaço, sem ter de seguir os jogadores brasileiros para todo o lado, a selecção nacional ficou com o jogo na mão. Isso, contudo, pode servir de pouco em futebol. Carlos Queiroz, pragmático e fiel aos seus princípios, retirou Pepe (bom jogo no regresso, com alguma dureza) e lançou Pedro Mendes. Com as alterações, Portugal aproximou-se da equipa que massacrara a Coreia do Norte. O Brasil, sem a força colectiva ou a inspiração individual capaz de resolver, trocou a bola, percebeu que muito dificilmente marcaria e aceitou, com todo o agrado, o empate. No final, para os guarda-redes voltaram a ser protagonistas, Danny e Ramires tentaram a sua sorte. Júlio César e Eduardo, senhoriais, levaram o pacto até ao fim. O último apito sentenciou o nulo. E trouxe muitos sorrisos à festa lusófona.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Mundial 2010: Portugal-Coreia do Norte, 7-0 (crónica)

TUDO VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA

Portugal não gosta de jogar sob brasas. Ninguém deve gostar, aliás. Sempre que é favorito, encontrando equipas de menor qualidade, a selecção nacional tem tendência para se apagar, deixar-se ir na onda adversária, caindo nas teias que os rivais procuram lançar para impedir os seus avanços. Frente à Coreia do Norte, uma selecção frágil mas que estivera bem ante o Brasil, não havia volta dar: Portugal tinha mesmo, para se manter vivo, que vencer. Tremeu no início, acalmou com um golo de Raúl Meireles, o talismã decisivo, e embalou para um resultado histórico. Com naturalidade, marcou o segundo, o terceiro e o sétimo - sim, foram sete! - golos. As tormentas ficaram para trás. De vez? A exibição, pelo menos, convenceu: Raúl emergiu, Tiago deslizou pelo relvado, Fábio Coentrão explodiu.

Imagine-se a jogar contra um muro. Tenta, circula, encontra alternativas e o resultado é sempre o mesmo. Nunca consegue furar a barreira que tem à frente. A bola bate, vem para trás, recomeça-se o ciclo. Efeitos é que nada. Contra a Costa do Marfim, mesmo sem ser realmente incisivo, o jogo de Portugal foi isso. Com a Coreia do Norte, um adversário sem expressão e sem os gigantes costa-marfinenes, não seria muito diferente. Os coreanos defenderiam, Portugal atacaria, a resistência da muralha ditaria a sorte. Nestes casos, sempre que uma equipa quer marcar e outra quer defender, o tempo costuma ser decisivo. Diz-se, até, que o primeiro golo é o que custa mais. Depois daí, quando o caminho estiver aberto, será mais fácil. Chegar cedo à vantagem é a primeira premissa para o sucesso. Depois resta colocar em prática o talento.

A única diferença é que este é um muro activo. A Coreia do Norte, pelo que demonstrara com o Brasil ao colocar-se em bicos de pés perante o papão brasileiro, reclamou algum protagonismo. É uma selecção frágil e bem abaixo dos outros adversários do grupo. Isso é aceite. Mas não significa que, só por ser o patinho feio, não tenha as suas armas. Num dia bom, de inspiração, pode surpreender. O perigo para Portugal, num jogo de vitória obrigatória, estava precisamente no desconhecimento da selecção asiática, algo que poderia ser um mau início. Apesar de todas as preocupações defensivas, colocando-se em alerta máximo para travar a progressão portuguesa, a Coreia do Norte pretendia também aventurar-se no ataque. Mostrar que não era um mero figurante. Tae Sae e Pak Nam Shol assustaram Eduardo. Não seriam favas contadas.

RAÚL, ABRES A ENCOMENDA?

Portugal começara bem: a cabeçada de Ricardo Carvalho esbarrou no poste. Mas sem ser muito pressionante, falhando passes, a selecção portuguesa concedeu espaço para os avanços norte-coreanos. Chegou a tremer, com o fantasma do último jogo na memória, não marcando o seu território. A diferença havia de ser feita pela qualidade individual. E, aí, não restam dúvidas de que Portugal ganha de goleada. Raúl Meireles é um jogador que trabalha na sombra, nunca chegando ao estatuto de maior estrela, joga com afinco e cumpre o que lhe é pedido. Está lá sempre, por vezes algo escondido, conseguindo emergir nos momentos decisivos. Em Zenica, frente à Bósnia, carimbou a passagem para o Mundial. Com a Coreia repetiu-o: soltou-se, entrou na área, recebeu um passe soberbo de Tiago e fuzilou. Apareceu à socapa para quebrar o nulo.

O primeiro golo, o que se dizia ser o mais difícil, estava feito à meia-hora. Portugal encontrara uma brecha na defesa norte-coreana e marcara. Em vantagem, a selecção portuguesa ficou como gosta. Soltara-se das amarras, da pressão, poderia jogar a toda a largura, com tranquilidade, na busca de mais golos. Marcar mais, neste fase de grupos, pode ser crucial. A Coreia já demonstrara fragilidades e tinham de ser exploradas. Já sem a ânsia de marcar, de impedir que o nulo se prolongasse, entrando numa fase de ansiedade. Havia que manter o mesmo ritmo, a mesma intenção, sem baixar a guarda. Ficara bem visível que a Coreia não se iria desfazer das suas ideias, não arriscaria muito nem abriria mão das suas cautelas. Raúl Meireles, de novo aparecendo na área de Ri Myong Guk, falhou o segundo. Seria ouro.

UMA COREIA À MERCÊ DA FÚRIA PORTUGUESA

Kim Jong Hun teria que fazer algo mais. Chegara ao intervalo a perder. A sua Coreia do Norte tivera um início auspicioso, com algumas situações incómodas para Portugal, mas acabara por ficar submersa. O golo de Raúl Meireles quebrara os coreanos. Importava, por isso, procurar algo mais, ser mais expedito. Portugal não o permitiu. Entrou determinado, ambicioso, diabólico. Em sete minutos, com uma intensidade ofensiva altíssima, jogando bem, mostrando enfim a sua técnica, a selecção portuguesa matou as aspirações coreanas. Tudo correu às mil maravilhas. Simão marcou assistido por Raúl Meireles, novamente jogando em profundidade, nas costas da ingénua defesa da Coreia do Norte. Hugo Almeida e Tiago, em cima da hora de jogo, engordaram o resultado. Com naturalidade. Firmando as diferenças entre as duas equipas.

A Coreia do Norte, a partir do quarto golo, acenou a bandeirinha branca. Rendera-se, estava entregue. Já perdera a razão, restava o coração. Esperava por clemência. Não a teve. Nem poderia, porque, como se disse, os golos poderão decidir as contas do apuramento. Hiper-moralizado, com o tudo a seu favor e sempre encontrando espaço para progredir, Portugal quis ainda mais. Estava confortável, jogando bem, imperial sobre o relvado. A finalização, tantas vezes uma maldita dor de cabeça, mantinha-se com uma percentagem categórica. Faltava Cristiano Ronaldo. O avançado do Real Madrid assistira Tiago para o quarto golo, mas continuava a faltar-lhe marcar. Tentou-o. Correu, fintou, entrou na área. Não conseguiu. Acertou, de novo, nos ferros da baliza contrária, como no jogo de estreia. Estava guardado para o final.

Antes disso, porém, houve ainda Liedson. O Levezinho foi suplente, cedendo o seu lugar a Hugo Almeida, que respondeu com um golo, mas entraria. Era um bom momento para se reencontrar com os golos. Foi por seu intermédio que surgiu o quinto tento português. Uma mão-cheia, tudo óptimo, tudo nos conformes. Ronaldo lá continuava a tentar. Meneia a cabeça, sorri, nada feito. Mas a sorte, antes de costas voltadas, havia de estar com ele: isolou-se, tentou passar pelo guarda-redes Ri, foi travado, a bola saltou-lhe para o pescoço, deslizou e caiu no pé. Golo numa baliza deserta. Não estivera muito em jogo, demonstrara dificuldades, mas ganhara no final. Para terminar, fixando um resultado histórico, Tiago, de cabeça, bisou. Sete golos, moral em alta, passo importante rumo aos oitavos-de-final. O Mundial começou agora, Portugal!

terça-feira, 15 de junho de 2010

Mundial 2010: Costa do Marfim-Portugal, 0-0 (crónica)

SEMPRE É UM PONTINHO, PORTUGAL...

É um empate. Se é bom ou mau, logo se verá. A verdade é que sabe a pouco: vencer seria um passo verdadeiramente importante, daria um novo alento, contribuiria para marcar a diferença perante a Costa do Marfim, o adversário directo nas contas do apuramento, e seria um passo fundamental rumo aos oitavos-de-final. Portugal encontrou, no entanto, uma selecção fechada, mais coesa e que reduziu muitíssimo bem o espaço de manobra. A equipa nacional, apesar de ter melhorado nos últimos vinte minutos, nunca se conseguiu soltar, ser dinâmica e ter oportunidades. O remate de Cristiano Ronaldo ao poste, no décimo segundo minuto, foi um oásis num deserto de ideias e de ocasiões para marcar. Portugal não foi expedito, não teve criatividade nem ligação. Ganhou um ponto, apesar de tudo.

Entrar a mandar. Deixar, desde logo, um aviso ao adversário. Colocá-lo em sentido. Ronaldo dera o mote: tem andado de costas voltadas para o golo, sim, mas não há jejum que dure para sempre. Foi o capitão quem tentou primeiro. Já mostrara a sua vontade em emergir, explodir, levar a selecção portuguesa para a frente. Tentou justificar as palavras com actos. Esperou uma dúzia de minutos para ganhar espaço. Levantou os olhos, viu a posição de Barry e rematou com potência. O pontapé, o primeiro aviso de Portugal, esbarrou no poste. A Costa do Marfim, considerada a melhor selecção africana, tremeu. Para reagir, sem ter ficado atordida, contra-atacou, imprimiu velocidade e deixou perigo num remate de Tioté. Foram dois sinais positivos. E os únicos da primeira parte. Chegou a luta, o temor de errar, a expectativa apoderou-se. Ninguém ousou dar um passo a mais.

A dúvida teve força até ao fim. Apesar de disponível, Drogba ficou no banco. Seria demasiado arriscado, apesar da grandíssima importância do capitão para a selecção da Costa do Marfim, colocá-lo já na equipa inicial. Sven-Goran Eriksson preferiu Gervinho, avançado do Lille, outro dos bons valores costa-marfinenses. Foi por seu intermédio, numa rápida incursão ofensiva, que a Costa do Marfim voltou a levar perigo. Ricardo Carvalho não foi feliz no corte, Gervinho entrou na área mas, em pronto socorro, Paulo Ferreira conseguiu afastar a aflição para longe. Essa tal velocidade foi a arma mais utilizada para os costa-marfinenses procurarem chegar à baliza de Eduardo. A Portugal, além do nervosismo que causou tremeliques e passes errados, faltou dinâmica para os jogadores portugueses se conseguirem soltar das amarras e incomodar os gigantes costa-marfinenses.

TANTA ANSIEDADE, PORTUGAL!

No jogo de estreia é normal que exista ansiedade e a pressão invada os jogadores. Ainda para mais sendo frente a um adversário forte e directo para a passagem aos oitavos-de-final, como é a Costa do Marfim. Portugal, na primeira parte, nunca encontrou espaço para lutar, para expandir o seu futebol e criar perigo aos defesas costa-marfinenses. Mesmo também não incomodando Eduardo, a Costa do Marfim pareceu sempre mais segura, mais coesa e mais solta no jogo. Mas a necessidade de não perder superiorizou-se à vontade de ganhar. O jogo fechou, perdeu interesse e brilho, ganhou luta e muitos passes errados a meio-campo. Para além da teia lançada sobre Ronaldo e Deco, sempre com perseguição incisiva, Portugal não conseguiu ter profundidade pelas laterais, porque Fábio Coentrão e Paulo Ferreira não se aventuraram no ataque. Danny acusou a estreia.

Havia que mudar. Para não se colocar a jeito de um lance de inspiração dos costa-marfinenses, surgida a qualquer momento, Carlos Queiroz teria que agir. Jogar na antecipação, vencer o duelo a Eriksson e dar liberdade à equipa para que, sem destapar a defesa, conseguisse abrir brechas na equipa contrária. Simão e Tiago saltaram para o aquecimento. O seleccionador, contudo, preferiu esperar mais algum tempo, não mudar ao intervalo, ver o que ainda poderia dali sair. Mais expedita, a selecção da Costa do Marfim reentrou melhor. Gervinho, sempre ele em destaque, testou Eduardo. Também Kalou. A ambos, o guarda-redes português respondeu com segurança. Dez minutos de controlo costa-marfinense, já com Drogba no aquecimento, levaram Queiroz a retirar Danny, tão nervoso, para lançar Simão. Na táctica, nada mudou. Liedson e Ronaldo continuavam sós.

MELHORAR, SIM, MAS SEM ASSUSTAR

Uma das leis fundamentais do futebol diz que, para ter sucesso, é preciso insistir, criar e dispor de oportunidades. E, mais do que isso, aproveitar as que vão surgindo. Portugal, contudo, após o tiro de Ronaldo que fez estremecer a baliza costa-marfinense, não mais incomodara a tranquilidade de Boubacar Barry. Teria que o fazer. Deixar a monotonia, o receio e acreditar que seria possível marcar. Antes da hora de jogo, Deco cruzou e Liedson, enfim, obrigou Barry a uma defesa segura. Carlos Queiroz tentou, depois, mudar. Passou para um 4x3x3 puro, colocando Tiago, em detrimento de Deco. O mágico, com o serviço permanente de Tioté a incomodar, nunca se soltou. Não lhe passou futebol pelos pés. Sven-Goran Eriksson respondeu com Drogba. Perigo iminente à vista. Salomon Kalou, colega no Chelsea, cedeu o seu lugar. A Costa do Marfim, porém, não melhorou.

Estalaram os vinte minutos finais. Jogo a zero, escasso em oportunidades, com a Costa do Marfim mais confortável no relvado. Portugal, com as alterações de Carlos Queiroz, cresceu. Cristiano Ronaldo, após um cabeceamento de Liedson, conseguiu marcar. Cumpriria o prometido. Mas Jorge Larrionda, árbitro uruguaio, anulou bem por falta de Bruno Alves. Com o passar dos minutos, apesar da maior abertura do jogo, os treinadores, tanto Queiroz como Eriksson, foram interiorizando o empate. Gostariam de ganhar, claro, mas bem pior seria perder. Ambos preferiram guardar o ponto conquistado. Portugal depois de uma fase crescente, terminou em apuros. Drogba falhou, Ricardo Carvalho e Pedro Mendes impediram os festejos africanos e salvaguardaram o zero na baliza nacional. O empate sabe a pouco. Mas nada mais, pelo que foi jogado, se poderia pedir.

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