quarta-feira, 30 de junho de 2010

Minha África: Portugal não dobrou o Cabo do Medo

Portugal disse adeus ao Campeonato do Mundo, cumprindo os objectivos a que se propôs, ser apurado na fase de grupos e defrontar a Espanha nos oitavos-de-final, e aí...quem faz o que pode, a mais não é obrigado.

Portugal foi igual a si mesmo no Mundial. Foi igual ao Portugal da fase de qualificação e foi igual ao da fase de preparação. Foi uma equipa com medo, defensiva e com processos ofensivos pouco trabalhados, sempre à procura de um lance individual de qualquer jogador e principalmente de Cristiano Ronaldo. Portugal não joga com equipas da sua qualidade ou de qualidade superior atacando, aborda os jogos de forma retraída, defensiva e com um medo terrível de arriscar. Portugal só jogou ao ataque contra a Coreia do Norte e porque a isso foi obrigada, para conseguir passar o seu principal objectivo: ultrapassar a fase de grupos. Contra a Costa do Marfim, táctica do medo e zero golos. Contra o Brasil, receosos e sem vontade de arriscar para ser primeiro do grupo e escapar à Espanha, por isso zero golos.

Contra a Espanha, um jogo que não valia pontos mas valia uma qualificação, fomos iguais a nós próprios. Retraídos, com aposta no contra-ataque e por isso zero golos. Conclusão: só marcamos golos à fraca Coreia do Norte e ainda bem que foram logo sete, que nos deu o lastro necessário para encarar o jogo com o Brasil sem tremuras nas pernas. Portugal chegou à África do Sul dobrando o Cabo da Boa Esperança, mas nunca se conseguiu ultrapassar o Cabo do Medo.

Portugal - Espanha (0-1): De equívoco em equívoco até à derrota final

Foi o jogo e o onze que estava à espera, Ricardo. Fica aqui respondido, para todos, o desafio que ontem, depois de publicada a crónica, me lançou o Ricardo por sms. Dar o onze de Portugal, tal como o tinha feito nos jogos anteriores. Não o fiz por uma única razão: sabia que o onze ideal para este jogo não andaria longe do que o Ricardo desenhou na antevisão abaixo, mas tinha a convicção da burrice que Carlos Queiroz iria fazer, como fez. O meio-campo deveria ser Pedro Mendes, Tiago e Meireles nas alas e Deco no vértice mais adiantado, jogando atrás dos dois avançados Cristiano Ronaldo e Danny.

Como jogamos

Com Pepe a destruir (mal) e a não saber construir (como nunca construiu). Nunca foi capaz de fazer um primeiro passe na zona de construção que fizesse sair os seus colegas para o contra-ataque ou ataque organizado. Em má condição física (depois de seis meses parado e regressando ao trabalho de campo um mês antes do inicio do Mundial, não poderia estar nunca) tem muito mais propensão para recorrer ao uso do físico da pior maneira possível, fazendo faltas e algumas bem grosseiras. Basta relembrar os 60' frente ao Brasil e os 72', agora, com a Espanha. Outro equívoco, Simão. Nunca foi capaz de criar desequilíbrios em nenhum jogo, salvo contra os pobres coreanos. Sem a velocidade de outrora limita-se a defender nas alas e raramente vai a jogadas de choque. Hugo Almeida no jogo com os espanhóis foi outro engano. Como é possível que com 1,91 metros de altura, não conseguisse ganhar um único lance de cabeça a Puyol, que só mede 1,75 metros? Se o jogo com a Coreia era para Hugo Almeida, este era mais para Liedson, mas sobretudo para Danny, com Cristiano nas costas.

Não falo do equívoco Ricardo Costa, porque apesar do "sabonete" que levou nos quinze minutos iniciais, depois rectificado pelo seleccionador que colocou Simão a fechar nesse flanco e encostou mais Tiago, a culpa não é só dele (que até não comprometeu depois disso), é do seleccionador que deveria optar por um defesa direito mais posicional - Paulo Ferreira. Tiago e Raúl Meireles foram médios de contenção e raramente subiram no terreno. Quando se libertaram das amarras tácticas de Queiroz, criaram duas ocasiões na primeira parte: cruzamento de Meireles para a cabeça de Hugo Almeida e cabeceamento do próprio Tiago, com perigo para Casillas.

A Espanha aceita o convite para o baile

Se Queiroz apelidava a Espanha de Barcelona A, porque carga de água foi dar a iniciativa ao adversário, encostando a sua equipa no último terço do terreno? Para explorar o contra-ataque (não gosto do termo transições rápidas)? Com quem? Com Hugo Almeida, que não é rápido? Com Cristiano Ronaldo a ter que percorrer meio-campo com a bola nos pés e sozinho contra o Mundo? Deveria ser com o meio-campo mais adiantado e pressionante (o chamado bloco alto) para, em caso de ganhar a bola no meio-campo contrário, ter mais hipóteses de se acercar da baliza adversária. Exemplo disso o lance aos 32', em que a pressão alta fez Portugal ganhar a bola na primeira fase de construção da Espanha (perda de Busquets), com o contra-ataque a colocar quatro jogadores na organização do lance. Tiago a roubar e a fazer o primeiro passe, Raúl Meireles no corredor esquerdo a receber, correr e tirar o cruzamento, para Hugo Almeida cabecear ao lado, com Cristiano Ronaldo nas suas costas. Valeu na primeira parte o herói Eduardo para chegarmos ao intervalo empatados.

Do banco saiu o joker da vitória

A segunda parte foi igual. Espanha com iniciativa atacante e Portugal na expectativa, até que Del Bosque resolveu ganhar o jogo. Saiu o ineficaz Torres (grande Fábio Coentrão que anulou El Niño) que não se adapta a jogar na ala direita, entrando um avançado de área. Era um corpo estranho na área portuguesa que nunca viu tal "ser", não se adaptando à marcação. Logo na primeira vez que toca na bola, Llorente obriga Eduardo a uma soberba defesa (mais uma). A segunda vez que toca na bola, desvia de calcanhar, colocando-a nos pés de Villa, que faz o golo. Reage Queiroz com medo, muda para dizer que não o fez, mas deixando um criativo no banco, Deco, e optando pela entrada de Pedro Mendes para o lugar de Pepe. Portugal precisava de um médio atacante e não de outro defensivo. Depois, foi a Espanha a fazer circulação de bola, com Portugal passivo a vê-los jogar e finalmente a amálgama de "soluções" encontradas por um seleccionador sem recursos tácticos, optando pelo "bêábá", adiantamento do central Bruno Alves para recorrer ao chuveirinho. Viemos embora para casa e bem.

Positivo
1 - A exibição soberba de Eduardo, com seis defesas a negar golos cantados ao adversário. Chorou no final frustrado pela sua exibição não ter valido de nada. Como lhe disse Beto "defendeste como um gigante, fizeste uma exibição de gigante, tens que sair como um gigante, de cabeça levantada". Ganhou o seu Mundial.
2 - Fábio Coentrão foi outro jogador que ganhou o seu Mundial e, quiçá, o seu futuro noutro clube. Jogou na selecção como joga no clube, com agressividade, forte a defender e rápido e eficiente a sair para o ataque. Mas no Benfica os processos são outros, não são, Coentrão? Não se joga a defender e com medo dos adversários.

Negativo
1 - A atitude amedrontada de Carlos Queiroz, que não consegue transmitir nenhuma ideia, organização e capacidade de ataque, a uma selecção que obrigou sempre a defender e a jogar com medo do poderio dos adversários. Na fase de qualificação, na fase de preparação e na fase final do Mundial. Pelo menos foi coerente do princípio ao fim. Viveu no medo e para alimentar o seu medo.
2 - O ambiente que se vive na selecção. Cristiano Ronaldo respondeu do seguinte modo à pergunta colocada sobre o que se tinha passado em campo: "perguntem ao Carlos Queiroz". Pedro Mendes explicou o descalabro com "jogamos muito recuados...esperava jogar e outros também". Deco, que também esperava jogar, optou por dizer que "se foi por castigo não sei". Ambiente fantástico e que promete mais desenvolvimentos... ou talvez não. Vai imperar a lei da rolha a partir daqui, porque de ditos e desmentidos por "comunicados" já tivemos a nossa conta. Primeiro Nani, depois Deco, agora Cristiano Ronaldo (este no site do seu empresário).

Como isto já vai longo e agora temos dois dias de descanso, prometo, depois, falar sobre a exibição no Mundial de um jogador, Cristiano Ronaldo, que é o melhor do Mundo nos clubes e é um zero à esquerda na selecção de Queiroz.

Made in England: O fracasso inglês na África do Sul

A Associação de Futebol Inglesa (FA) informou Fabio Capello que decidirá o seu futuro como seleccionador inglês no espaço de duas semanas. O italiano diz querer e estar à altura do cargo pelos dois anos que lhe restam de contrato, mas o presidente da FA não está tão seguro disso. A derrota frente à Alemanha, no domingo, foi pesada, a mais pesada de sempre que a Inglaterra sofreu em finais de Campeonatos do Mundo e até da Europa, sendo o futuro incerto.

Os ingleses abandonaram a África do Sul na segunda à noite e chegaram a Inglaterra na terça pela manhã. Os semblantes carregados mostram a desilusão de um Mundial pouco conseguido. O contraste com a fase de qualificação é enorme. Capello levou a Inglaterra ao Campeonato do Mundo de 2010 com o primeiro lugar no seu grupo - onde perdeu apenas um jogo. Isto galvanizou a nação que acreditava que este ano poderia ser o ano dos ingleses, mas as fracas exibições em África deitaram por terra todos os sonhos de glória.

Existem certamente, e muitos, assuntos a resolver na selecção inglesa. Entre os motivos apontados, contam-se, em primeiro, as opções do treinador e a carga de jogos do campeonato inglês. Mas há quem vá mais longe e afirme que a cultura futebolística no Reino Unido está, neste momento, mais focada em resultados e dinheiro do que em ensinar os jovens desta nação como jogar futebol. Culpa-se a tendência atacante e futebol directo pela falta de rigor táctico que foi o que se passou no jogo com a Alemanha. A equipa esteve demasiado preocupada em atacar e virar o resultado esquecendo-se de se defender dos contra-ataques mortíferos dos germânicos.

Capello tem contrato por mais dois anos - um contrato onde aufere seis milhões de libras por ano, o que faz dele o seleccionador mais bem pago do Mundo. A demissão já foi posta de parte pelo italiano, logo o que sobra é um possível despedimento e a choruda compensação financeira. Tudo isto tem que ser pensado e levado em conta pelos responsáveis da FA. Vamos aguardar pelas próximas duas semanas para ver se Capello será mais uma “vitima“ do Mundial depois de, entre outros, Raymond Domenech e Marcello Lippi terem abandonado a França e a Itália, respectivamente.

MADE IN ENGLAND é um espaço, sobre o futebol inglês, assinado por Armando Vieira

terça-feira, 29 de junho de 2010

Mundial 2010: Espanha-Portugal, 1-0 (crónica)

A FAENA ESPANHOLA

A Espanha é mais forte do que Portugal. A frase, clara e sem rodeios, não tem por onde enganar. O jogo entre as duas selecções comprovou-o: os espanhóis circulam a bola como poucos, insistem, pressionam, obrigar a errar e jogam com tranquilidade. Portugal, ao ser expectante e dando a iniciativa aos espanhóis, assumiu um risco. Viu uma, duas, três bolas de golo junto da sua baliza. Eduardo, heróico, defendeu tudo o que lhe apareceu pela frente. Gritou, alertou, corrigiu, pediu mais concentração. A vontade do guarda-redes, a sua garra, faltou no ataque português. A selecção nacional, depois do sufoco inicial, conseguiu criar oportunidades, perigo, andou perto do golo. Nunca passou disso. A Espanha, melhor e mais consistente, marcou. E garantiu a vitória.

Don
Vicente manteve a sua armada. Sem surpresas, sem alterações de última hora, com todas as pedras nos seus devidos lugares. Tudo bem esquematizado, estudado ao pormenor, para colocar o carrossel espanhol em funcionamento. A Carlos Queiroz, na liderança da armada portuguesa, restava pará-lo. Impedir a sua acção, atrapalhar, colocar obstáculos à progressão e lançar, a cada momento, perigos para o trilho dos espanhóis. Pepe e Ricardo Costa, revelando as preocupações em ter segurança defensiva, mantiveram-se na equipa. Simão e Hugo Almeida, a versatilidade e a presença, regressaram. Frente a Espanha, num duelo de vizinhos, muito mais do que um simples arrufo de quem não gosta de quem está ao lado, Portugal quis manter-se consistente na defesa e, ao mesmo tempo, ousado no ataque. Teria que se mostrar ao rival.

Espanha saiu com a bola. Iniciou o seu passa e repassa, tiki-taka, com os olhos no horizonte. Os espanhóis, nesta selecção com tanto do Barcelona, só pensam em avançar, nunca em jogar para trás, nunca em contentar-se com pouco e quando ainda é demasiado cedo para o fazer. Fernando Torres, no primeiro minuto, rematou. Seguiu-se, cinco minutos depois, Capdevila. Ambos levaram a direcção certa. Eduardo, senhorial na baliza portuguesa, anulou as ideias. Portugal tremeu no início. A selecção espanhola, sufocante e mandona, tomara conta da bola, fizera-a circular e rondar com muito perigo a área portuguesa. Fábio Coentrão, a irreverência em pessoa, tentou reagir, responder, fazer com que os espanhóis não ganhassem, desde logo, ímpeto para se fixarem. Torres voltou a assustar. Portugal conseguiu, aos poucos, assentar.

UM DOMÍNIO A SER COMBATIDO

O domínio espanhol durou vinte minutos. A selecção portuguesa entrara expectante, esperando pela Espanha demasiado atrás. Colocou-se à mercê das investidas contrárias. Depois disso, era obrigatório reagir para mostrar que Portugal teria recursos para amedrontar Casillas. Em dois remates, de Tiago e de Cristiano Ronaldo, o guarda-redes espanhol, ainda que com dificuldade, conseguiu responder bem. Os portugueses haviam, enfim, deixado de lado a pressão da Espanha, conseguindo explanar o seu futebol e progredindo no terreno. Respirara, ganhara fôlego e iria à luta. Os espanhóis, afinal, não são máquinas. Hugo Almeida, de cabeça, falhou por pouco o alvo. E mais sobressalto num rápido contra-ataque, a principal arma de Portugal, em que Casillas, perante Simão, foi mais forte. Tiago, ainda antes do intervalo, cabeceou para fora.

Percebe-se que o descanso chegou em má altura. Coincidiu precisamente com o melhor período português no jogo. Portugal, apesar de sempre de pé atrás pelo futebol tricotado da Espanha, ganhara poder ofensivo e criara oportunidades de golo. O intervalo, contudo, não afectou o ritmo da selecção portuguesa. Na segunda parte, mantendo a fase positiva que demonstrara sobretudo a partir dos trinta e cinco minutos, Portugal começou bem: Hugo Almeida, veloz e possante, escapou pela esquerda e Puyol, por um triz, não introduziu a bola na sua baliza. Espanha suspirou de alívio. Portugal ficou perto, perto, mas não teve sucesso. O minuto cinquenta e sete trouxe as primeiras substituições. Carlos Queiroz chamou Danny, médio que esteve em dúvida, para trazer maior velocidade. Del Bosque, querendo voltar ao início, apostou em Fernando Llorente.

UMA SUBSTITUIÇÃO FALHADA

Uma alteração em cada equipa e duas visões completamente contrárias de agir. Queiroz retirou Hugo Almeida, a principal referência ofensiva da selecção portuguesa, quando, apesar de ter estado pouco em jogo na primeira parte, começava a aparecer. Portugal ficou sem o seu ponta-de-lança, deslocando Ronaldo para essa posição. Em oposição, Vicente del Bosque, sem obter resultados da utilização de Fernando Torres, uma estrela em eclipse na África do Sul, colocou Llorente, também avançado, para sobressaltar a barreira defensiva nacional. À hora de jogo, três minutos depois de entrar, Llorente apareceu solto: Eduardo, instintivo, voltou a ser mais forte. O guarda-redes, decisivo nos primeiros minutos, sempre respondeu bem. A Espanha, com a colocação do avançado do Athletic de Bilbao, readquiriu força, perigo e domínio ofensivo.

Com esperança em ser bem-sucedido e com a tormenta de ver os espanhóis em crescimento, Portugal voltara a dar mais espaço, perdera a bola e recuara em demasia. David Villa, após uma abertura de Iniesta e um desvio de calcanhar de Xavi, surgiu frente a Eduardo. O guarda-redes, um gigante na baliza nacional, defendeu. A defesa foi boa mas não perfeita. Villa, oportuno, colocou a Espanha em vantagem. Jogara-se, até aí, mais ou menos uma hora: a selecção espanhola fora sempre mais equipa, mais inicisiva, mais perigosa e pressionante, contudo, à medida que conseguiu fazer desenvolver o seu jogo, Portugal reequilibrou e criou calafrios aos espanhóis. Não aproveitou. A Espanha, sempre ofensiva, marcou. Um golo evitado ao máximo por Eduardo. Agora tudo seria mais difícil. Um luta tiki-taka espanhol e o desespero português.

UM PONTO FINAL PRECOCE

O golo bateu forte em Portugal. Como um punhal cravado. Ainda não mortal, sim, mas perto disso. Sergio Ramos é, como Fábio Coentrão, um lateral ofensivo e impediu, assim, que o jogador português se conseguisse envolver no ataque e fosse, como nos jogos anteriores, um importante suporte para criar jogadas de perigo. Aproveitando a embalagem trazida pelo golo de David Villa, deixando a Espanha a jogar como gosta, Ramos rematou forte, cruzado, e voltou a obrigar Eduardo a uma defesa espantosa. Com talento puro e um enorme querer de empurrar a equipa para a frente, foi assombrosa a exibição do guarda-redes português. Carlos Queiroz, errado na primeira substituição, lançou Pedro Mendes e Liedson. Portugal necessitava de voltar a ter bola, capacidade de construção e alguém na área para finalizar. A equipa encolhera-se, precisava de nova vida.

A Espanha luta, pressiona e insiste muito até conseguir marcar. Quando o consegue, solta-se, toca curto, faz com que a bola passe por quase todos os jogadores. Joga um futebol vistoso para o adepto e profundamente irritante para o adversário. Para quem está em vantagem, com o relógio a seu favor e perante uma equipa cada vez mais desligada e desunida, é perfeito. Portugal, sem forças, tentou responder ao golo espanhol. Queiroz mexeu, os jogadores quiseram sair para o ataque, tentaram assustar os espanhóis. Não tiveram sucesso. O discernimento, a força e o coração necessários faltaram. Portugal rendeu-se. Nunca quis dar parte fraca, quis lutar até ao fim, mas há muito estava entregue. À Espanha bastaria, como tão bem faz, circular a bola e gerir o tempo. Eduardo, depois de tanto defender, fora batido e resultado, desde aí, estava feito. Vitória de Espanha. Com mérito.

Mundial 2010: Espanha-Portugal (antevisão)

Noventa minutos pela frente, prolongamento se necessário e grandes penalidades como máximo extremo. O Mundial 2010 entrou na fase das decisões, deixando para trás o pragmatismo e os cálculos aos pontos amealhados nos três jogos iniciais, com margem de erro nula. Portugal, sem ser brilhante, apurou-se com comodidade para os oitavos. Cumpriu, no fundo, a sua obrigação: iniciou com cautela frente à Costa do Marfim, devorou uma frágil Coreia do Norte e voltou, com o todo-poderoso Brasil, a jogar pelo seguro. Chegada aos oitavos-de-final da competição, com legítimas aspirações a conseguir uma prestação capaz de recolocar Portugal entre o top mundial, a selecção portuguesa terá, rivalizando com a Espanha, de mostrar a sua fibra. Sem receios, sem temor, sem complexos neste arrufo de vizinhos. Jogando com audácia, coragem e garra. A triplicar.

Tão próximos e tão distantes. Portugal e Espanha, vizinhos ibéricos, diferem em muitos aspectos. Na maioria deles, na grande maioria, os espanhóis saem por cima. No futebol também. A selecção espanhola parte como favorita. Por ser campeã da Europa? Sim, mas não só. A vitória no Europeu de 2008 serve para engrandecer o estatuto de La Roja, indiscutivelmente. Fruto disso e da evolução constante que tem sofrido, alargando horizontes, a Espanha aparece, desde o início, na linha da frente para a conquista do Mundial da África do Sul. Os êxitos alcançados pelo Barcelona, na consolidação de um futebol rendilhado, pensado e extremamente eficaz, naquele famoso tiki-taka que tantos elogios tem merecido, são também um suporte da selecção espanhola. Piqué, Puyol, Sergio Busquets, Xavi e Iniesta são indiscutíveis para Vicente del Bosque. Cinco jogadores blaugrana - Villa só o será na próxima época.

Carlos Queiroz apelidou a selecção espanhola de Barcelona A. Os princípios de jogo, a mentalidade, o passa e repassa para obter uma monstruosa percentagem de posse de bola, com toques curtos entre toda a equipa, são os mesmos. Alguns intérpretes, com destaque para Xavi e Iniesta, sobre quem gira o carrossel ofensivo de ambos, também. Esta Espanha, contudo, não se trata de uma imitação do Barcelona. Não tendo Messi, talvez o maior desequilibrador do Barça, tem David Villa, que provou na fase de grupos atravessar um extraordinário momento, e Fernando Torres, que, mesmo descolorido até agora, conta com inegável talento. Porém, a Espanha não é imbatível.
Basta recordar, por exemplo, que começou o Mundial em falso, perdendo, surpreendentemente, com a Suíça. É favorita, sim, mas não vencedora por antecipação.

E Portugal, afinal, o que vale? A resposta terá que ser dada dentro de campo, logo, frente aos espanhóis. Uma das imagens de marca da selecção portuguesa, bem patente nos zero golos sofridos por Eduardo na fase de grupos, tem sido a sua consistência defensiva. Ora, esse é um dos principais factores para ter sucesso. Tal como fez a Suíça. Portugal, porém, possui mais e melhores argumentos do que os suíços que permitam disputar o jogo com nuestros hermanos. Terá de se fazer ouvir, emergir e fazer com que a Espanha não se acomode e deslize pelo relvado. Para conseguir ganhar um lugar nos quartos-de-final do Mundial 2010, a selecção portuguesa precisa de juntar velocidade, genialidade e intenção ofensiva para ruir o suporte espanhol. Defender bem, jogar com inteligência e ser ousado e veloz para colocar Casillas em sobressalto: essa é a receita.

No regresso à Cidade do Cabo, onde Portugal vergou a Coreia do Norte, Carlos Queiroz deverá, após a transfiguração da partida com o Brasil, promover novas mudanças. Face ao fortíssimo meio-campo espanhol, Queiroz pode enveredar por um maior povoamento dessa zona central do relvado. Assim, Portugal jogaria com Pedro Mendes (é crível que, após a utilização de Pepe, volte à titularidade), Raúl Meireles, Tiago e Deco (já refeito da lesão que o obrigou a ficar de fora nos dois últimos jogos). Na frente, procurando velocidade e profundidade para abrir brechas na defesa espanhola, a aposta, para além de Cristiano Ronaldo, deverá recair em Simão Sabrosa. Na defesa, além disso, há outra incógnita. Nos três jogos da fase de grupos, três jogadores foram utilizados na posição de lateral-direito: Paulo Ferreira, Miguel e Ricardo Costa. Para esta partida, onde será importante defender com segurança, o seleccionador deve optar por Paulo Ferreira.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Minha África: Sem surpresas, os melhores ganharam

Não há lugar a surpresas, os favoritos venceram e bem. Com mais facilidade o Brasil, que depois de estar em vantagem sabe aproveitar os espaços na defesa contrária para matar o jogo. Mais sofrida a Holanda, que chegou cedo ao golo, adormecendo depois à custa da vantagem conquistada, expondo-se a um golpe de fortuna do seu adversário para empatar. Atitudes diferentes, mas duas equipas que estão a fazer um excelente Mundial e que curiosamente se vão defrontar nos quartos. Pena que uma delas tenha que sair.

Holanda - Eslováquia (2-1): A Laranja não é mecânica mas tem sumo
Jogo: Jogo após jogo a Holanda vem provando porque lhe atribuí estatuto de favorita, contra a opinião generalizada, que era uma equipa boa no ataque mas frágil a defender. Não é de facto a Holanda da "laranja mecânica", que atacava de modo demolidor e com muita circulação de bola. Esta Holanda é mais pragmática, defende bem, com uma linha de pressão no meio-campo onde os alas atacantes se incorporam, para depois em funções atacantes ser uma equipa de muita explosão, técnica e velocidade. Se a isto juntarmos o regresso de Robben, com toda a sua mestria em criar desequilíbrios, está encontrada a receita ideal para tornar esta Holanda numa séria candidata ao título, a provar já no próximo jogo contra o Brasil.

Positivo: Robben, o menino de cristal, como é apelidado devido à sua fragilidade óssea, é realmente um desequilibrador. Exímio no um-contra-um, tecnicamente perfeito a executar em velocidade, capacidade de explosão e remate fácil e colocado. Estes são os traços do ADN futebolístico de um jogador de excelência, que poderia ombrear na corrida ao título de melhor jogador do Mundo, assim as lesões o deixassem ter mais assiduidade nos jogos.

Negativo: A atitude de Van Persie após a substituição. O treinador não o coloca a jogar na sua posição preferida? Não é um avançado de área? Renderia muito mais noutra posição? Todas as respostas poderão ir de encontro às suas pretensões, só que o treinador é soberano, havendo hora e local certo para o fazer, com mais recato. Por mim poderia ficar no banco, pois a Holanda com Huntelaar é bem mais perigosa.

Brasil - Chile (3-0):Ganhar de forma fácil com direito a "chilena"
Jogo: Dunga surpreendeu com as alterações efectuadas. Felipe Melo e Elano não jogaram, com as suas posições a serem ocupadas por Ramires e Daniel Alves. Não perdeu consistência defensiva (na minha opinião até ganhou) e adquiriu no meio-campo mais velocidade para sair a jogar, com a entrada desses dois jogadores. Foi, por isso, um Brasil mais consistente, mais capaz de ganhar a bola ao adversário e sobretudo de aproveitar uma defesa chilena descompensada e mais vulnerável às transições rápidas. Foi uma vitória construída na paciência, perante uma equipa que esperava no seu meio-campo, e que começou a ser desbravada com o excelente cabeceamento de Juan. Depois, é só esperar que o adversário conceda espaços, para que a classe dos jogadores brasileiros os saibam aproveitar. Com o amarelo de Ramires - fica de fora com a Holanda - Dunga vai ter que arranjar outra opção para o miolo do terreno.

Positivo: Mudanças de Dunga. Não perdeu solidez defensiva e ganhou mais velocidade na saída para o ataque. É um Brasil mais consistente.

Negativo: A atitude da equipa chilena, muito passe e circulação de bola, pouca agressividade atacante. Pior ainda a reacção esperada na segunda parte, jogar mais aberta e com intenção de reduzir distâncias, foi confrangedora a sua exibição.

Amanhã, temos Portugal a jogar e a história no confronto entre os dois países favorece a selecção lusa. Que a história continue a ser escrita em português.

Opinião: O jogo ingrato que vinga ao inverter os papéis



Curto e grosso: o futebol é um jogo ingrato. A frase, batida e gasta, faz todo o sentido. É um jogo de sorte, onde nem sempre os melhores vencem, a justiça e o mérito podem até ficar para trás. O fim justifica os meios. Jogar bem ou não, é relativo. Se isso der vitórias, óptimo: pode juntar-se o bom futebol aos resultados. Se não der, para alguém que queira mesmo ganhar, a estética do futebol atira-se para o lado - o importante é triunfar. Qualquer adepto quer que a sua equipa ganhe sempre. Um, dois, três, vinte anos seguidos. Limpar tudo. O que se pode tornar uma monotonia. A piada de qualquer competição, das que façam realmente jus ao nome, passa por haver vários concorrentes fortes. Uns ganham, sorriem, pulam de alegria. Os outros, vencidos, baixam a cabeça, choram e revoltam-se. Logo a seguir, esses mesmos dois rivais, invertem os papéis.


Essa ingratidão - aí está a palavra acertada: ingratidão - do futebol é capaz de construir heróis e de os atirar para a penumbra num fechar de olhos, eleva as equipas à glória e logo as faz cair (não é descer, é cair com estrondo) do pedestal, faz com que uma equipa se farte de correr e outra, que sempre esteve à sombra, ganhe num golo saído sabe-se lá de onde. É por isso que nunca gostei de ver a Itália jogar. Pode ser exímia em termos tácticos, a movimentar as peças, a sufocar o adversário quando parece que está entre a vida e a morte. Parece que se está a pôr a jeito e, quando damos conta, tem as mãos nos troféus. É uma equipa cínica, matreira, viperina. Tira a paixão do futebol, dá-lhe um toque de xadrez. Não gosto, confesso. Estar no limbo e conseguir sucesso foi um método usado muitas vezes. Agora falhou. Alguma vez seria.

Depois há outras equipas que jogam, que fazem o verdadeiro futebol, que maravilham qualquer adepto. Mesmo sem nunca termos contactado com a sua realidade, estamos ali colados à televisão. E vibramos com os golos. Saltamos, gritamos, como se fosse um golo do nosso clube. E, no entanto, não é. Mas o futebol foi capaz de nos envolver, de apaixonar, de ser realmente marcante. É aí, a quem mais merece ganhar, que aparece a ingratidão. Ou injustiça, chame-lhe, leitor, o que entender. Já reparou que grande parte das equipas que melhor jogam não ganham títulos? Não é injusto? É, mil vezes injusto. Mas há por aí quem diga que a justiça demora, demora um tempo infinito, mas não falha. No futebol, por vezes, também é assim. Tudo isso para que não sejam sempre os mesmos a rir por último. Tem uma pitada de ironia.

A Inglaterra, apesar de ser há muito uma potência do futebol internacional, só conta com um título mundial. Ganhou-o quando realizou a prova, em 1966, frente à Alemanha Ocidental. O jogo terminou empatado a dois. Foram precisos mais oito minutos para um novo golo: Geoff Hurst, avançado do West Ham United, fez os ingleses saltarem de alegria. E os alemães, indignados, protestarem como loucos. Para eles, a bola não tinha entrado na baliza de Hans Tilkowski. Não na totalidade. Não tinha sido golo. O árbitro Gottfried Dienst e o seu auxiliar entenderam que sim. A Inglaterra voltou a colocar-se na frente, cavalgou definitivamente para a vitória, Hurst ainda marcaria mais um para juntar ao bis que já fizera e os britânicos venceram em casa. Pela primeira. Pela única vez na sua história. Os alemães, na sua frieza, vingar-se-iam. Não se ficam.

Para se voltarem a encontrar num Mundial foram precisos quarenta e quatro anos. Jogaram, agora, nos oitavos-de-final do Campeonato do Mundo de 2010. A Alemanha entrou bem, marcou dois golos, submeteu os ingleses. A Inglaterra, em alerta, respondeu com um golo de Matthew Upson. Depois lá veio a vingança. Como se fosse em 1966, com os papéis invertidos, com os alemães a rir e os ingleses a puxar pelos cabelos. Lá está: o futebol coloca tudo de pernas para o ar, é sarcástico, tem requintes de malvadez e, a mais ou a menos tempo, faz com que quem ficou triste antes seja agora recompensado. Lampard rematou forte, em jeito, a bola bateu na trave da baliza de Neuer e caiu dentro da baliza. Bem dentro, sem dúvidas, meio-metro para além da linha. Jorge Larrionda deu ordem de continuidade. Ouviu aí as gargalhadas de Tilkowski?

Feitas as contas, passando por cima desse golo-que-foi-mas-não-valeu, a Alemanha marcou quatro golos e a Inglaterra apenas um. É uma vitória clara, robusta e inequívoca dos alemães. O remate de Hurst, em 1966, não deveria ter contado mas, como o árbitro suíço o validou, contribuiu para o título mundial conquistado pelos ingleses. Agora, em 2010, ainda nos oitavos, o remate de Lampard, que daria o empate, não valeu para nada. A vingança, fria como se quer, está servida. A Inglaterra, que fora superior, saiu vergada à sua maior derrota de sempre numa fase final. O veneno servido há quarenta e quatro anos, destroçando as pretensões alemãs, foi retribuído. O futebol permite-o. O conservadorismo de quem manda nele também. Passaram mais de quatro década e a decisão, apesar de todos os avanços, continua nas maõs de dois homens...

domingo, 27 de junho de 2010

Minha África: Argentina e Alemanha apurados em dia negro para a arbitragem

A Argentina está apurada para os quartos-de-final, mantendo o favoritismo que lhe era apontado antes da competição. A Alemanha também se apurou, mas não constava dessa lista de favoritos, onde se lia o nome do seu opositor, Inglaterra, que foi derrotada sem apelo nem agravo.

A Argentina aproveitou dois erros e construiu um resultado de segurança na primeira parte. A Alemanha venceu bem e, finalmente, ao fim de quarenta e quatro anos, libertou-se do fantasma de 1966, vingando-se da tal bola que o árbitro viu dentro da baliza, mas que mais ninguém viu. Desta vez foi ao contrário a bola entrou, todo o mundo viu menos o auxiliar e o árbitro Larrionda, e com esse golo a ser validado o jogo seria de certeza outro, porque a Inglaterra iria com um empate para o intervalo e não teria que arriscar tanto no ataque durante a segunda parte.

Dia negro para as duas equipas de arbitragem com erros grosseiros com provável influência no resultado. Jorge Larrionda, além de outros erros, esteve no lance do golo que vai ser falado por muito tempo em Inglaterra. Roberto Rosetti e o seu auxiliar validaram o golo ilegal (fora-de-jogo) de Tevéz.

Inglaterra - Alemanha (1-4): A vingança serve-se fria
Jogo: Futebol directo dos ingleses no ataque com muita previsibilidade e mais mobilidade dos germânicos com Ozil, Müller e Klose, mais rápidos que os defesas britânicos a criarem até aos vinte minutos duas oportunidades desperdiçadas por Ozil e Klose. Aos 20' um golo insólito: pontapé de baliza da Alemanha e Klose mais rápido que Terry e Upson a finalizar com um simples toque. Sempre no mesmo registo, a Alemanha criava mais oportunidades mas o jogo "despertava" pelo lado inglês. Defoe remata à barra, mas é assinalado (mal) fora-de-jogo e na resposta, rápida troca de bola (Müller/Klose) para finalização de Podolski. Acordou a Inglaterra com o guardião germânico a contribuir para o golpe de cabeça de Upson, que reduz, e aos 38' Lampard faz a bola bater na trave e entrar na baliza, mas o auxiliar de Larrionda não vê e o golo não é validado. A segunda parte foi um doce para os pupilos de Joachim Löw, com uma Inglaterra aberta no ataque e vulnerável para uma equipa que nas transições rápidas é cínica, fria e letal. Duas bolas perdidas na defesa germânica e duas "cavalgadas" para a área inglesa, com Müller a concluir e dar o cheque-mate em Capello e seus pupilos. A Alemanha vinga-se 44 anos depois do célebre golo da final de 1966, com uma bola que desta vez entrou e não foi validado e que foi importantíssimo para o desenrolar da partida. Larrionda, apesar dos erros cometidos em todos os jogos, vai continuar a ser nomeado pela FIFA. Que vergonha.

Positivo: As lições, dignas de figurar em qualquer aula de transições ofensivas, dadas por uma equipa que sabe interpretar o contra-ataque na perfeição. Ganho de bola, primeiro passe rápido a desmarcar um colega e corredores de contra-ataque bem preenchidos, depois é só finalizar.

Negativo: Errar é humano, dizem os "Velhos do Restelo" da FIFA, mas o resultado de um jogo ser decidido pela teimosia em não querer adaptar as novas tecnologias ao futebol, já não é só casmurrice, é burrice.

Argentina - México (3-1). Aproveitar os erros alheios
Jogo: A Argentina aplicou a receita infalível para vencer, experiência, impor o ritmo lento que lhe convém, aceleração de Messi a 30/40 metros da grande área, capacidade de finalização de Tévez e Higuaín e saber aproveitar os erros alheios, que fatalmente terão que aparecer. O primeiro erro foi assinado pelo auxiliar do árbitro italiano Rosetti (não assinalou fora-de-jogo a Tévez) o segundo foi uma oferta do central Osório que colocou a bola nos pés de Higuaín que não falhou. O resto foi controlar o jogo e o adversário, fazendo circulação de bola, de quando em vez acelerar um pouco para dar avisos claros que o ritmo era imposto pelos pupilos de Maradona, até passar o tempo de jogo. Tudo isto perante a passividade e ineficácia ofensiva de uma equipa mexicana, que não tem ninguém para imprimir ritmos mais elevados e que obrigassem a defesa argentina a cometer erros. Com equipas rápidas e agressivas no ataque vai cometê-los de certeza, não vai Alemanha?

Positivo: O ataque argentino, um dos melhores da competição, com Tévez, Higuaín e Messi. Todas as cambiantes necessárias lá estão: luta e pressão ofensiva (Tévez), sentido posicional na área (Higuaín), capacidade de explosão e magia com a bola nos pés (Messi), porque há um denominador comum aos três: soberba capacidade de finalização.

Negativo: A arbitragem do italiano Rosetti, validando um golo ilegal. A defesa do México com muitas ofertas a uma selecção que nem delas precisava para vencer.

Minha África: Nada acontece por acaso

Nada acontece por acaso. Foi apurada a primeira equipa sul-americana a entrar em campo na fase de eliminação e a única equipa africana. Foram apuradas as melhores. Até em relação às equipas eliminadas o título cabe na perfeição, foram eliminadas duas equipas que fizeram uma boa primeira fase, pode até dizer-se que com alguma surpresa, apresentando as mesmas características de jogo - muita voluntariedade, futebol bonito e técnico, mas com muita ingenuidade e pouca eficácia na finalização.

Uruguai e Gana vão defrontar-se nos quartos-de-final e uma delas estará seguramente nas meias-finais. O Uruguai não atingia esta fase da competição desde o México-70, enquanto o Gana, que alcançou a melhor classificação de sempre na história dos Mundiais, se eliminar o seu adversário, passa a ser a única selecção africana a chegar às meias-finais de um Mundial.

Uruguai - Coreia do Sul (2-1): Suar(ez) para vencer

Jogo: Agradável e com dois tempos. Uruguai mais forte na entrada em jogo, mais ofensivo e enredando os coreanos no seu futebol mais técnico e com transições ofensivas rápidas. Golo marcado cedo com a envolvência dos seus três atacantes Cavani, Forlán e Suarez (os dois últimos são responsáveis por cinco dos seis golos marcados pela sua selecção na competição), logo seguido de um adormecimento que lhe poderia ter sido fatal, não fosse a fraca capacidade concretizadora dos coreanos, que aos 68m empataram a partida. Mas quem tem Suarez, tem francas hipóteses de marcar e o seu segundo golo é digno de figurar no compêndio dos golos mais bonitos. Destaque pela negativa para o trio de arbitragem, chefiado pelo alemão Wolfgang Stark, que teve dois erros que poderiam ter sido fatais: fora-de-jogo mal assinalado a Suarez e grande penalidade não assinalada por braço na bola a remate de Maxi Pereira. Felizmente para ele Suarez resolveu.

Positivo: Luís Suarez, avançado uruguaio de 23 anos. Não só pelos dois golos marcados, mas essencialmente pelo segundo golo, velocidade na explosão que lhe permitiu ganhar espaço e o remate cheio de técnica e colocação. Não é muito mediático, mas foi só o melhor marcador do campeonato holandês (joga no Ajax) com 35 golos.

Negativo: Os dois guarda-redes. O coreano esteve mal no primeiro golo ao não evitar o "passeio" da bola na sua pequena área. O uruguaio saiu mal à bola e foi antecipado pelo golpe de cabeça.

Gana - USA (2-1): Prolongar a vontade de vencer

Jogo: Mexido, com matreirice (Gana) e empenho (USA) e o primeiro, para já, a ser decidido no prolongamento. O golo marcado cedo pelo Gana mexeu com o jogo, não só pelo erro de Clark (USA), mas porque a alteração efectuada pelo seleccionador norte-americano, saída de Clark e entrada de Edu, transformou-a numa equipa mais atacante, com Bradley e Donovan na organização do futebol ofensivo. A partir desse momento foram sempre mais perigosos, com lançamentos para os seus atacantes Dempsey e Altindore, mas se construíam boas ocasiões de golo, revelavam ineficácia na hora da concretização e tinham pela frente um dos melhores guarda-redes da competição, Kingston, que foi o principal obstáculo aos intentos atacantes dos americanos. Depois o Gana tem mais matreirice, é uma equipa bem organizada defensivamente, com grande pressão no meio campo contrário, ganhando muitas bolas que lhe permitem sair para transições rápidas e letais. Os dois golos são exemplo perfeito dessa capacidade. Uma equipa africana que não tem grandes vedetas, comparando com outras que estiveram presentes na competição, jogando colectivamente e não na expectativa do que as "prima-donas" podem fazer.

Positivo: A exibição de Kingston, guarda-redes ganês ao serviço dos ingleses do Wigan. Seguro, ágil, bom jogo de pés e com bons reflexos. Um dos melhores guarda-redes desta competição.

Negativo: O anti-jogo não sancionado na montra do futebol mundial. Quedas sucessivas nos minutos finais dos jogos, só para perder tempo, tem que ser penalizado pelos árbitros e devidamente compensado no tempo de descontos.

sábado, 26 de junho de 2010

Minha África: Rumo aos oitavos com Espanha no caminho

Terminou a fase de grupos do Mundial e agora entra-se na fase do tudo ou nada. Como dizia Cristiano Ronaldo, o verdadeiro Mundial começa agora. Portugal conseguiu o seu objectivo, apuramento para os oitavos-de-final, concretizando-se também o que já se adivinhava antes do Mundial, um duelo ibérico nos oitavos. O jogo com o Brasil foi para cumprir calendário, mas gostei da exibição da selecção na segunda parte, onde demonstrou maior capacidade ofensiva. A entrada de Simão (saída de Duda) trouxe mais velocidade e ficou patente que o Brasil tem dificuldades quando lhe aparece uma equipa que corre na direcção da sua baliza.

Como vai ser o embate contra a Espanha?

Um confronto de estilos, essencialmente. A Espanha é uma equipa que gosta de ter a posse da bola, de a trocar entre os seus jogadores, fazendo-a rodar se necessário de uma ala para a outra, na tentativa de encontrar o passe de ruptura de Xavi ou Iniesta, que encontre Villa nas alas ou Torres nas diagonais nas costas da defensiva contrária. Uma equipa que defende bem, pressão feita na primeira linha ofensiva não deixando a equipa contrária construir, construindo muitas ocasiões de golo, mas com a pecha (pelo menos nestes jogos da primeira fase) de não terem grande índice de finalização. Portugal é o oposto, uma equipa passiva na primeira linha de pressão, mas que defende bem (neste Mundial ainda não sofreu nenhum), com a ajuda dos alas e principalmente do trinco, Pedro Mendes. No ataque a equipa lusa opta pelas transições rápidas e na capacidade e velocidade de Cristiano Ronaldo no um-contra-um.

Resta saber que onze vai escolher Carlos Queiroz contra a Espanha e se até à posição seis não tenho qualquer dúvida (Eduardo; Paulo Ferreira, Bruno Alves, Ricardo Carvalho, Fábio Coentrão; Pedro Mendes) daí para diante só vejo mais três lugares fixos: Raúl Meireles, Cristiano Ronaldo e Simão. Ficam dois lugares por preencher, cabendo ao seleccionador escolher de acordo com a estratégia que quiser montar frente a uma Espanha consistente a defender e sagaz a atacar. Liedson ou Hugo Almeida na frente? Tiago ou Deco na construção? Ou reforço do meio-campo ofensivo (Danny) com Ronaldo a jogar como avançado? Aguardemos.

Mundial dos sul-americanos

Muito fomos escrevendo sobre a prestação de algumas selecções e, principalmente, tecendo grandes elogios às equipas sul-americanas. Não foi por acaso que o fomos dizendo, pois das cinco equipas que entraram na competição todas passaram aos oitavos: Chile, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Para o feito ser maior ainda , refira-se que só o Chile não foi vencedor do seu grupo, todas as outras terminaram no primeiro lugar dos respectivos grupos. A África que viu a equipa anfitriã ser eliminada na primeira fase, teve seis equipas presentes e só uma passou, o Gana.

Destaque pela positiva para o apuramento de duas equipas da Oceania, Japão e Coreia do Sul e o destaque negativo vai para as eliminações de França, Grécia e Itália. Argentina e Holanda foram as únicas equipas a conseguirem o pleno, três vitórias, enquanto Coreia do Norte e Camarões tiveram só derrotas. Argentina e Portugal foram as equipas mais concretizadoras, sete golos e as melhores defesas pertenceram a Portugal e Uruguai, que não sofreram qualquer golo. Curiosidade apenas para as selecções do Uruguai, Coreia do Sul, Estados Unidos e Gana, pois uma delas estará presente nas meias- finais.
Até já.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Mundial 2010: Portugal-Brasil, 0-0 (crónica)

UM NULO, SORRISOS E FESTA EM PORTUGUÊS

O Brasil é um papão mundial, pentacampeão, declarado favorito a triunfar na África do Sul. Portugal, no máximo, pode ser um papãozinho. A selecção portuguesa procura emancipar-se, afirmar a sua posição e dar largas ao seu talento. Mantém-se, contudo, ainda atrás das grandes potências, onde o Brasil aparece logo à cabeça, que fazem do título mundial um objectivo. A primeira ideia, quando se defronta alguém com capacidades superiores, passa por ter alguma contenção. Refrear os ímpetos, adoptar uma nova estratégia, reconhecer que uma luta igual pode dar mau resultado. Jogar com mais expectativa, deixando que o adversário tenha a iniciativa, esperando para ver o que o jogo dá. Ou, aproveitando as ligações entre os dois países, tentar um pacto de não agressão.

Carlos Queiroz revolucionou a equipa nacional. Eram esperadas mexidas, sim, mas não tantas como as que o seleccionador nacional implementou. Em relação ao último jogo, sem dar importância ao ditado que diz que em equipa que ganha não se mexe nem uma unha, até porque o apuramento só fugiria com algum acontecimento sobrenatural, Miguel deu o seu lugar a Ricardo Costa, Pedro Mendes foi substituído por Pepe, Danny e Duda relegaram Simão e Hugo Almeida para o banco. Portugal entrou com cautelas. Queiroz privilegiou a consistência defensiva, deixou Ronaldo na frente de ataque, explorando a velocidade da estrela maior, e preencheu o meio-campo, colocando Pepe, tanto tempo depois, para lhe dar mais músculo. Dunga, sem Kaká e Elano, optou por Júlio Baptista e Dani Alves. Lançou ainda Nilmar, um joker para acompanhar Luís Fabiano, deixando Robinho de fora.

Entre portugueses e brasileiros não há meias-tintas. Entendem-se bem, falam a mesma língua, ambos sabem o que querem. O apuramento, consumado para o Brasil e quase confirmado por Portugal, não obrigaria os treinadores a arriscar. Precisavam, apenas, de cumprir noventa minutos. Tendo já a mente nos oitavos-de-final, com temor da Espanha, embora sem possibilidades de saberem qual a melhor classificação para evitar um possível confronto com os espanhóis, tanto Carlos Queiroz como Dunga quiseram experimentar novas soluções. Portugal deixou a iniciativa do lado do Brasil: joguem, corram, circulem, nós estamos aqui para impedir o vosso sucesso. O plano resultou: os brasileiros tomaram conta da bola, jogaram de pé para pé, procuraram progredir e Portugal, sempre consistente, impediu-o. Um jogo do rato e do gato.

CONSISTÊNCIA: PALAVRA-CHAVE

Em teoria, sempre que não há pressão, o jogo é mais agradável. As equipas ficam mais soltas, mais alegres, mais disponíveis para jogarem bom futebol. O Portugal-Brasil foi assim? Não. Sobretudo, já se disse, pelas diferenças qualitativas entre as duas selecções. A equipa portuguesa da última vez que defrontou os brasileiros saiu vergada a uma derrota pesada, sofrendo seis golos, servindo para vincar o longo caminho que ainda tinha, nessa altura, a percorrer. Desta vez, num meio tão diferente como é um Campeonato do Mundo, importava deixar boa imagem. Daí que o jogo tenha sido enrolado, amarrado e fechado. O Brasil, também sem ter que fazer muito para vencer, procurou servir-se da rapidez de Maicon, um lateral verdadeiramente essencial no ataque. Fábio Coentrão, crescido, encheu o peito e respondeu à letra. Estava dito: por ali, não passaria.

A preocupação de Carlos Queiroz com as incursões de Maicon ficara estabelecida na equipa inicial. Ao colocar Duda como médio, jogando sob a esquerda, o seleccionador nacional quis certificar-se de que não faltaria ajuda a Coentrão. Com vigia permanente, o lateral do Benfica teria, ainda, oportunidade para tentar criar perigo. Deu, até, para se inverteram os papéis: Fábio Coentrão correu, fintou, deixou Maicon para trás e cruzou para a área. O lance levava perigo, mas Júlio César, imperial, pôs-lhe cobro. Logo após, para mostrar que a selecção portuguesa não seria apenas uma muralha aos avanços brasileiros, Tiago, após sensacional jogada de Coentrão, rematou para fora. O Brasil ficou em sentido. Com Júlio Baptista no lugar de Kaká, dois jogadores bem diferentes, os brasileiros perderam imaginação, magia e criatividade. Notou-se.

OS PACTOS SÃO PARA SER LEVADOS ATÉ AO FIM

A selecção brasileira, com dificuldades em ligar o seu jogo, esperando por um clique de génio, apenas aparecera realmente em dois remates de Dani Alves. Era tempo, então, já depois das ameaças portuguesas, de Eduardo ser colocado à prova: Maicon ganhou espaço a Fábio Coentrão, cruzou largo, a bola passou toda a área, Ricardo Costa dormiu na parada e Gilmar, oportuno, obrigou o guarda-redes português a uma defesa brutal. Os brasileiros voltaram, minutos depois, a deixar o seu aviso. Aproveitando, de novo, uma descoordenação entre Ricardo Carvalho e Ricardo Costa, o central e o lateral, Luís Fabiano cabeceou ao lado. Sem ser muito incisivo ou pressionante, o Brasil foi mais perigoso. A dureza, virilidade até, instalou-se a cada jogada. Pepe e Felipe Melo, por exemplo, envolveram-se em picardias constantes.

Dunga, apercebendo-se da agressividade colocada em campo por Felipe Melo, lançou, ainda antes do intervalo, Josué. Na prática, contudo, nada mudou. Nem nas filosofias de ambas as equipas. Carlos Queiroz, após o descanso, tentou dar maior ofensividade à equipa portuguesa. Afinal, o Brasil estivera titubeante, algo desconexo, sem imprimir um ritmo alto. Portugal poderia, se aliasse um maior poder ofensivo à coesão defensiva, ambicionar marcar. Para isso, até porque Fábio Coentrão já mostrara que estava à altura de Maicon, retirou Duda, um jogador posicional, lançando Simão. A equipa cresceu, melhorou, passou a ter mais bola no território adversário. Dispôs, depois, da sua melhor oportunidade: Raúl Meireles, o talismã da Bósnia e da partida com a Coreia, esteve pertinho de marcar. Júlio César foi assombroso.

Portugal ficara mais confortável. Com mais espaço, sem ter de seguir os jogadores brasileiros para todo o lado, a selecção nacional ficou com o jogo na mão. Isso, contudo, pode servir de pouco em futebol. Carlos Queiroz, pragmático e fiel aos seus princípios, retirou Pepe (bom jogo no regresso, com alguma dureza) e lançou Pedro Mendes. Com as alterações, Portugal aproximou-se da equipa que massacrara a Coreia do Norte. O Brasil, sem a força colectiva ou a inspiração individual capaz de resolver, trocou a bola, percebeu que muito dificilmente marcaria e aceitou, com todo o agrado, o empate. No final, para os guarda-redes voltaram a ser protagonistas, Danny e Ramires tentaram a sua sorte. Júlio César e Eduardo, senhoriais, levaram o pacto até ao fim. O último apito sentenciou o nulo. E trouxe muitos sorrisos à festa lusófona.

Mundial 2010: Portugal-Brasil (antevisão)

O pessimismo trazido por uma entrada titubeante, errante e com cautela. A audácia, a força, o ataque demolidor que vergou a Coreia do Norte e, praticamente, colocou Portugal nos oitavos-de-final do Mundial 2010. Um mau arranque e uma enorme onda de euforia. Onde está o meio-termo? Encontrá-lo será, portanto, o objectivo da selecção portuguesa na partida frente ao Brasil. A qualificação ainda não está garantida, o futebol é capaz de tudo, preciso assegurá-la e decidir quem, entre brasileiros e portugueses, consegue o primeiro lugar do grupo. Ante o Brasil, já apurado e com duas baixas de peso, Portugal terá um bom teste às suas capacidades. Uma vitória sobre os brasileiros, grandes candidatos à conquista do seu sexto Campeonato do Mundo, é a oportunidade para Portugal marcar realmente o seu território.

Na memória de ambos, por razões completamente opostas, está ainda o dia 20 de Novembro de 2008. Em Brasília, num jogo particular, mas nem por isso amigável, o escrete trucidou a selecção portuguesa, inflingindo uma derrota por números gordos: 6-2. Nessa partida tudo correu bem aos brasileiros. A Portugal, pelo contrário, saíram mil e uma coisas furadas. O resultado volumoso, contudo, não reflecte o actual estado das duas selecções. Nem o Brasil é, actualmente, uma máquina trituradora, nem Portugal, motivadíssimo pela goleada histórica à Coreia, uma pobre e indefesa equipa que surge impiedosamente no caminho do papão brasileiro. Portugal terá, por isso, condições de discutir o resultado com o Brasil. O que aconteceu em Brasília, seja pelo virtuosismo brasileiro ou pelo generalizado desastre português, é passado. E pode ser vingado.

O que se pretende dizer com isto é que Portugal pode, sem que constitua uma enorme surpresa, vencer o jogo. Será difícil, claro. O Brasil, apesar de não encantar pelo futebol apresentado, é uma equipa temível. Neste Mundial, os brasileiros, com Dunga no comando, têm apresentado um estilo mais pragmático, com contenção e maiores cuidados. Adoptaram, no fundo, uma posição europeia. Hoje em dia, o Brasil já não é uma bela equipa, carregada de talento, que pratica um futebol vistoso. Os jogadores brasileiros, depois do fracasso no último Mundial, sabem que mais importante do que tudo é o resultado. E, até ao momento, têm correspondido: garantiram o apuramento para os oitavos-de-final com duas vitórias, cinco golos marcados e dois sofridos. Sem Kaká, expulso frente à Costa do Marfim, disputam com Portugal o primeiro lugar do grupo.

A selecção portuguesa ainda não tem o apuramento garantido: é um facto. No entanto, só uma verdadeira catástrofe tirará Portugal do caminho dos oitavos - tem sete golos positivos, enquanto a Costa do Marfim, adversário nas contas da passagem, que defronta a frágil Coreia, conta com três negativos. Um empate garante imediatamente o segundo lugar no grupo. Há, porém, a vontade, legítima, de ultrapassar os brasileiros e alcançar a liderança. Ser primeiro, ainda para mais com rivais de créditos firmados, é sempre um estímulo importante. E servirá, então, para que Portugal, sem receios, consiga fazer jus ao estatuto que fez por merecer. Neste momento, porém, nem se sabe o que será melhor: as vantagens de ser primeiro ou segundo estão dependentes do que a Espanha, ainda sem o apuramento alcançado, fizer. Portugueses e brasileiros querem evitar os espanhóis.

Dunga não terá Kaká nem Elano. Ambos os jogadores, um por castigo e o outro por lesão, falharão a partida frente a Portugal. Júlio Baptista será o substituto do médio do Real Madrid. Para a vaga deixada por Elano, Dani Alves, lateral do Barcelona, é a mais provável escolha. Do lado português, ainda sem Deco e Rúben Amorim, há a expectativa para saber se Carlos Queiroz irá poupar, num jogo que deverá servir de ponte para os oitavos-de-final, jogadores como Pedro Mendes, Hugo Almeida e Cristiano Ronaldo, todos eles em perigo de exclusão. O seleccionador nacional, contudo, apesar de confirmar mudanças, afirmou que fará por opção táctica e não devido à folha disciplinar dos jogadores. Seja como for, Pepe, Liedson e Danny espreitam por uma oportunidade. Pensando nos oitavos-de-final, sonhando com a liderança do grupo, ansiando por vingança: eis os Navegadores.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Minha África: A hecatombe de um Campeão do Mundo

E não é que deu mesmo zebra! A previsão aqui feita na crónica de ontem bateu certa. A Eslováquia venceu a campeã do Mundo em título (ainda o é até ao dia 11 de Julho) e a Itália disse adeus ao certame, com o pobre registo de dois empates e uma derrota. O Japão venceu a Dinamarca e apura-se igualmente para os oitavos. Estão encontradas as surpresas do dia, com Paraguai e Holanda, que se apurou só com vitórias (tal como a Argentina) e já não perde há doze jogos consecutivos. Para o dia ficar mais completo, Robben regressou. Para quem gosta do futebol feito arte, saudemos o seu regresso.

Grupo F - Arrivederci Itália

A Itália sai pela porta das traseiras do Mundial, ela que era a detentora do troféu. Sai sem honra nem glória e com o peso de não ter ganho um único jogo. Lippi assumiu a culpa total reconhecendo que a selecção estava mal preparada fisica, táctica e psicologicamente. Para alguns jogadores italianos é o adeus à selecção, Gattuso é um deles, da pior maneira possível. O Paraguai, primeiro do grupo, passou também aos oitavos, em jogo onde foi sempre mais atacante e onde controlou sempre a partida e o resultado, com a Nova Zelândia a acordar da letargia nos minutos finais da partida, avisada que foi para o trambolhão italiano, fazendo por marcar um golo, que lhe desse a vitória e o apuramento. Pena que não tivesse mais ambição, até porque ficará para a história do Mundial 2010, como a única equipa que foi eliminada da fase de grupos sem qualquer derrota.

Grupo E - Dia de Sushi com sabor a laranja

O Japão conseguiu a proeza da noite, venceu a Dinamarca e conseguiu o apuramento para os oitavos onde vai defrontar o Paraguai. Surpresa não foi, face ao que tinha visto fazer a selecção nipónica frente à Holanda, consolidada hoje em campo, com dois golos de livre e o terceiro em jogada excelente do melhor jogador japonês, Honda. No outro jogo, vitória da Holanda, demonstrando o que já tínhamos escrito, uma equipa compacta: com grande capacidade defensiva (a minha maior dúvida se bem se lembram) e uma organização ofensiva temível, dando-se ao luxo de ter no banco um dos melhores avançados mundiais, Huntelaar, e Robben, que finalmente jogou e bem. Saúde-se o regresso do extremo holandês, jogada individual com remate ao poste e que redundou no terceiro golo laranja, numa altura em que a Holanda vai entrar em jogos mais difíceis.

Regressam os "Navegadores"

Amanhã temos o regresso dos "Navegadores", em jogo frente ao Brasil, e algumas mudanças, em ambas as selecções, são esperadas com os dois seleccionadores a poderem dar minutos a jogadores menos utilizados e que poderão vir a ser importantes na próxima fase. Brasil e Portugal têm o apuramento garantido, restando apenas a questão de quem fica em primeiro lugar. Um aspecto que pode ser importante face a que no emparelhamento pode calhar a Espanha. No grupo dos espanhóis a última jornada será de loucos, com todas as equipas a poderem ainda sonhar com o apuramento, mesmo as Honduras. O meu palpite vai para o apuramento da Espanha e Chile. Aguardemos.
Até amanhã.

Mundial 2010: Terá o veneno perdido efeito, Marcello?

A Itália empatou o primeiro jogo no Mundial 2010. Fê-lo frente ao Paraguai, ficando muito aquém do esperado, embora defrontasse, talvez, o adversário mais forte do seu grupo. Apesar do futebol pouco ligado, com pouca organização e sem toques de génio, os adeptos não desesperaram. Afinal, já estão habituados a entrar com o pé esquerdo. Os italianos gostam de levar até ao limite aquela máxima que defende que quem ri por último é quem ri melhor. A fase de grupos, geralmente, é apenas uma passagem. Fugaz, sem brilho até, para depois se concentrarem verdadeiramente quando o Mundial arrancar. Gostam das eliminatórias, da pressão, do risco, do matar ou morrer. O resultado no segundo jogo, porém, trouxe alguma apreensão. Mais pelo adversário: um empate, conseguido após estar em desvantagem, frente à Nova Zelândia, uma selecção sem qualquer expressão, é alarmante. Até para a Itália.

Mantendo aquela típica calma, nem que seja só de aparência, os adeptos italianos devem ter recuado até 1982. Recordar esse ano, nem que fosse apenas para fazer aconchegar o ego, poderia servir de motivação. Nesse Mundial de Espanha, num grupo com Polónia, Perú e Camarões, a Squadra Azzurra, então comandada por Enzo Bearzot, somou três empates. Mas passou aos oitavos-de-final. E chegaria, sob a batuta de Paolo Rossi e ainda com Bruno Conti e Dino Zoff, ao título mundial. Os mais pessimistas, contudo, terão pensado que o fim da linha estaria próximo. A Itália, com o seu cinismo e matreirice que deixa os outros ganharem fulgor para no momento certo desferir o golpe de misericórdia, está diferente neste Mundial da África do Sul. Menos pragmática, menos coesa, menos letal. Havia motivos para desconfiar. E, ao mesmo tempo, acreditar. O jogo com a Eslováquia ditaria a sorte.

Com o Paraguai na frente, italianos, eslovacos e neozelandeses chegaram à última jornada com possibilidades de seguir em frente. A Itália, campeã mundial, ficou colocada a meio caminho entre dois extremos: a passagem ou um abandono inglório. Frente à Eslováquia, quando seria o momento de se agigantar e puxar dos galões, tentou no início, mas, com o tempo, esmoreceu e deixou-se guiar ao sabor das ondas do futebol eslovaco: foi uma equipa amorfa, apática e inofensiva. A selecção italiana, com Marcello Lippi sempre apreensivo, teria de jogar mais, correr mais e rematar mais. Ter uma atitude competitiva bem diferente para provar que era a verdadeira Itália. A Eslováquia, bem preparada, baixou o ritmo do jogo e, conhecendo as suas limitações, tentou a sua sorte. Conseguiu marcar. E ampliar a vantagem. Duas vezes por Vittek. A Itália apenas apareceu no final. Em dez minutos tentou mudar tudo. E os outros oitenta?...

Se o tivesse conseguido, a selecção italiana teria feito jus ao seu historial: mais morta do que viva, deixando o adversário rir às suas custas, aparecendo no final para acertar contas e ficar por cima. Mas não conseguiu. Esteve perto, é verdade, mas só isso. A entrada de Fabio Quagliarella, ao intervalo, abanou a equipa. Depois de uma jogada sua, De Rossi reduziu. Os italianos, antes descrentes, ganharam alguma esperança. Contudo, aproveitando o balanceamento da Itália, a selecção eslovaca, com grande pulmão e atitude, voltou a fixar a vantagem - um erro crasso italiano e um golo de Kopunek. De pronto, já com pouco oxigénio disponível, Quagliarella voltou a encurtar a distância com um remate majestoso. O avançado do Nápoles entrou tarde para quem tinha tanto para dar. Pelo meio marcou ainda um outro golo, que daria o empate a dois, anulado por Howard Webb. Mal anulado. Foi castigo. Severo mas merecido.

A França, finalista vencida do último Mundial, caira anteontem. Envolta em polémica, sem boas recordações para guardar, numa panóplia de erros. Dois dias depois, num registo semelhante, a campeã Itália também regressa a casa: último lugar do grupo, atrás de Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia, com apenas dois pontos somados. Nunca antes, em nenhum outro Mundial, acontecera que, logo na primeira fase, campeão e vice-campeão tenham caído - acresce ainda que não venceram qualquer jogo. Italianos e franceses pagaram pelo mau futebol, pela falta de lucidez, fluidez e velocidade. Em ambas as selecções faltou um líder, alguém que fosse capaz de levar a equipa consigo, abrindo caminho ao triunfo, desbloqueando o resultado. A Itália precisaria de Pirlo nas melhores condições. Uma lesão impediu-o. E as soluções fracassaram. Arrivederci!

Minha África: Desenham-se os confrontos de gigantes

Confesso que caí no pecado de antecipar o cenário de uma possível final. Com contas e mais contas tudo me aponta para um Argentina-Brasil, mas as contas do futebol não são nada certas, por isso o melhor é fazê-las passo a passo. As contas do dia de ontem não trouxeram grandes surpresas nem grandes equações tiveram que ser resolvidas. Para já, como consequência dos resultados, temos um grande embate nos oitavos, um sensacional Alemanha-Inglaterra, com sinais de retoma das duas equipas.

A sobremesa foi servida com dois doces de primeira qualidade. A Inglaterra finalmente deu um "arzinho da sua graça" (fez bem a terapia de grupo imposta pelos jogadores a Capello e falar exorcizou alguns fantasmas) com a saída do esforçado mas inconsequente Heskey, para a entrada do rápido e letal Defoe.Bateu-se bem a Eslovénia, mas esta Inglaterra esteve mais consistente nos passes (longos e curtos) falhando menos e tornando-se mais perigosa perto da área contrária. Sinais de retoma ou exibição de fogo fátuo? Os oitavos-de-final vão dar a resposta, não vão, mister Capello?

O segundo jogo da tarde fez saltar de dentro do bolo a surpresa. Mesmo ao cair do pano (noventa e um minutos) Donovan, um herói nada acidental, marcou e antecipou o 4 de Julho. Bill Clinton que assistiu ao jogo sentado ao lado do presidente da FIFA, que lhe explicava detalhadamente as peripécias do jogo (difícil explicar um fora-de-jogo, não é, senhor Blatter?), pode finalmente sorrir e puxar do seu charuto. Ali era a hora certa de o fumar, sem pecado.

O aperitivo para o jantar foi excelente, com dois jogos de excelência, e sempre de "prego a fundo", todos quiseram ganhar o encontro. Mais entusiasmante ainda porque a determinado momento (vitória da Austrália por dois a zero) Gana e Alemanha tinham o apuramento garantido, mas mesmo assim não tiraram o pé do acelerador. No fim e como prémio passaram as duas. No outro jogo. a Sérvia foi "espoliada" da qualificação poe um erro do senhor Larrionda (o perseguidor de Cristiano Ronaldo) que não viu uma falta na área dos "cangurus", que a ser transformada daria o empate à Sérvia e com isso, o apuramento.

Hoje vamos conhecer mais três equipas - a Holanda já lá mora desde o fim da segunda ronda - apuradas para os oitavos-de-final e se não houver mais surpresas (ciao Itália), poderemos ter novo duelo de gigantes na primeira fase de jogos a eliminar, nada mais que um Holanda-Itália. Previsão de apuramento para Japão (a zebra), Paraguai e Itália, que se juntarão aos holandeses.
Volto já...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Minha África: Argentina é mesmo candidata a valer

Ponto prévio: a Argentina é mesmo uma séria candidata ao título. Digo-o, ou melhor escrevo-o, não só porque ganhou a uma Grécia "betonada", mas porque no onze inicial só Romero (baliza), Demichelis, Véron e Messi são habituais titulares. Os outros sete que hoje alinharam são jogadores de grande valia, daí a equipa de Maradona não ter perdido qualidade. Que prazer na eliminação dos gregos. Primeiro porque ainda me lembro de 2004 (onde um tal de Scolari teve duas oportunidades para vencer e desperdiçou-as, a primeira por casmurrice a segunda por medo), depois porque o futebol (tenho que escrever mesmo isto embora seja um sacrilégio chamar futebol ao que eles jogaram) que apresentaram cheira a bafio e é profundamente irritante.

Ainda bem que desta vez o anti-futebol não foi premiado. Marcação homem-a-homem, dez jogadores dentro do seu meio-campo, recurso sistemático às faltas quando eram ultrapassados pelo jogadores argentinos, foram os paupérrimos argumentos de uma equipa, que desde o inicio jogou para o pontinho e para algo mais que caísse do céu aos trambolhões. Bastou aos argentinos trocar a bola com paciência, variar o seu jogo, ora pelo meio (tudo muito congestionado) ora pelas alas (Rodriguez, Di Maria, Aguero, Messi), rematar de longa distância (Bolatti e Véron) mas sobretudo ter muita, mas mesmo muita, persistência para acreditar que o seu futebol daria frutos. Vai a Argentina defrontar o México nos oitavos e é francamente favorita.

Nos outros jogos o apuramento esperado de mais uma equipa sul-americana, Uruguai, e de outra quase sul-americana, o México da América Central, que vão ter a companhia dos coreanos do sul. Excelente a prova realizada pelos uruguaios que vão defrontar os coreanos e são claramente favoritos.

Uma palavra a terminar para os perdedores - já falei até de mais da Grécia e não o merecia - para falar da maior decepção até agora, a França. Confesso que depois de tanta vergonha gaulesa, cheguei a pensar que estavam em campo para fazer o frete e "pintar a manta" deixando o seu treinador com pior cara do que a que tem. Um golo sofrido bem cedo, uma expulsão de um jogador (Gourcouff) que foi para a África do Sul em guerra aberta com o treinador e uma apatia deplorável, fez-me pensar numa forma de boicote a Domenech bem pior que a recusa em realizar o jogo. Terminou o "Saltillo" dos franceses e muita roupa suja se vai lavar nos próximos tempos. As culpas têm que ser assacadas a todos os lados, mas maioritariamente a uma estrutura federativa que teimou em manter no lugar um treinador que não era benquisto pelos jogadores franceses actuais e antigos (é só ler as palavras que Zidane proferiu) e que sai sem glória. Tarefa difícil terá Laurent Blanc para limpar o mau ambiente que por lá ficou.

Até já, porque daqui a pouco há mais Mundial e mais equipas apuradas e se calhar com algumas surpresas. Já agora, para quem me ler depois da noite sanjoanina, um boa noite de São João.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Mundial 2010: O céu caiu sobre os franceses

Ter um original e uma cópia não é bem a mesma coisa. À primeira vista pode parecer igual, sem diferenças, tudo bem detalhado. Depois, bem diferente, são as caricaturas. Não querem semelhanças, evitam-nas. Pretendem, antes, destacar os defeitos, as imagens de marca, o que pode ser ironizado. O original da selecção francesa, por exemplo, é fortíssimo: equipa vencedora, campeã mundial por um vez e europeia em duas, habituada a glória, uma potência futebolística. Não engana. No Mundial 2010, contudo, esteve uma França caricaturial. Equipa sem força, sem garra, sem génio, sem rumo. Tudo aquilo que uma selecção como a francesa tem de combater e ser o completo oposto. Houve ainda todo o tipo de casos. O resultado nunca poderia ser bom: a França cai na fase de grupos, saindo pela porta dos fundos, com apenas um ponto.

O Mundial 2010, para a França, começou torto. Os franceses não conseguiram garantir o apuramento directo, ficando atrás da Sérvia - uma estreia em Campeonatos do Mundo - e estando, por isso, obrigados a disputar o playoff. A República da Irlanda, selecção emergente comandada por Giovanni Trapattoni, foi o adversário. Após prolongamento, Gallas marcou. O golo correu Mundo, visto e revisto milhões de vezes. Houve batota: Henry recebera a bola com os braços, antes da assistência. Martin Hansson, o árbitro sueco, apontou para o centro do relvado. Shay Given saltou da baliza, protestou, olhou atónito. Trapattoni, experimentado, enlouqueceu. Num ápice todos se juntaram aos irlandeses: a França não merecia chegar à África do Sul. A verdade é que, com ou sem polémica, foram os franceses a garantir a vaga.

A França, pelo seu prestígio, é sempre uma selecção a considerar para chegar longe. A uma eventual vitória, repetindo o triunfo no Mundial de 1998, onde foi anfitriã, talvez não. Os franceses sentem-se, ainda, orfãos de um líder, de um génio, de alguém que seja verdadeiramente decisivo. Sentem, no fundo, falta de Zidane. Há Henry, Ribéry ou Malouda, sim, mas nenhum deles se assume como o homem que impede, como numa pequena aldeia gaulesa, que o céu lhes caia em cima da cabeça. Também Raymond Domenech sempre fez por ser diferente. Poderia sê-lo de forma positiva; não é, preferiu tentar ser engraçado do que ficar na graça dos adeptos. Nunca foi bem visto. E nunca deixou aquele seu ar fechado, sisudo, enfadonho e sem sorrisos. As opções que toma tornam-no ainda mais incompreensível. A exclusão de Benzema do Mundial é um exemplo.

Jogar com alegria é um dos princípios para se ser bem-sucedido. Passar, correr, fintar, divertir-se enquanto o faz. Jogar para ganhar, com profissionalismo, mas retirando o maior prazer disso. À França, mais do que qualquer coisa, falta vontade. Os jogadores estão no campo, posicionados, parecem preparados para o jogo. Não estão, porém. Fazem figura de corpo presente, quase que cumprem uma obrigação, não têm chama. A motivação que deveria estar inerente a um jogo assim, onde o país é representado na maior prova de selecções a nível mundial, perde-se. A equipa é a imagem do treinador, da tal frieza de Raymond Domenech, não há uma ideia comum ou um objectivo definido. A França quer ganhar mas não faz por isso. É, então, sinónimo de fracasso. A selecção francesa, depois do alerta no apuramento, nunca se endireitou.

Sempre que algo corre mal parece que não há nenhum antídoto capaz de travar a má onda. É a Lei de Murphy, onde tudo o que é mau vem por acréscimo, no seu esplendor máximo. Os franceses não o souberam prevenir. A própria Federação, inicialmente, tem uma grande parte das culpas: não há explicação para que, na antecâmara do início do Mundial 2010, Raymond Domenech tenha sabido que irá, após a aventura na África do Sul, ceder o seu lugar. Todas as situações que ao longo dos tempos se foram acumulando tiveram reflexo na prestação no Mundial. Tendo como adversários a equipa anfitriã, Uruguai e México, os franceses falharam a toda a linha: nulo com os uruguaios, derrota inapelável frente aos mexicanos que deixou o au revoir à porta e, por fim, um novo desaire, já com a selecção envolta num mar de polémica, com a África do Sul.

Um ponto, um golo marcado e quatro sofridos. Os números, para uma selecção com o estatuto da França, são confrangedores. Juntam-se aos maus resultados e mau futebol, apático e inconsequente, todos os problemas internos, numa espécie de Saltillo à francesa, que afectaram os gauleses. A expulsão de Nicolas Anelka, após ter insultado o treinador Raymond Domenech no intervalo da partida com o México, foi o ponto de partida para a demissão do líder da comitiva francesa e ainda para a greve a um treino, em solidariedade com o avançado do Chelsea, que levou a um desentendimento entre Patrice Evra, um dos capitães, e um elemento da equipa técnica. Tudo isso somado só poderia dar insucesso. É causa e consequência de uma selecção à deriva, sem rei nem roque, incapaz de lutar contra a fatalidade do destino. A França corou.

Minha África: Entornaram o frasco do ketchup

Pronto, está feito o que todos queriam: vencer a Coreia. Mas os navegantes foram mais longe e golearam, sete golos sem resposta, o que torna este resultado na maior goleada deste campeonato do Mundo e coloca Portugal nas bocas do mundo futebolístico. Claro que se pode falar da fragilidade da equipa coreana, das mudanças feitas por Carlos Queiroz, não só a nível de jogadores, mas tácticas também, da generosidade de alguns jogadores e outros factores que cada um pode acrescentar a seu bel-prazer. Essencial foi que Portugal deu a resposta no momento certo e a coisa foi de tal modo que, parafraseando Cristiano Ronaldo, os portugueses entornaram o frasco do ketchup.

Factores decisivos para a metamorfose portuguesa: a disponibilidade de Ricardo Carvalho para sair de trás a construir, criando desequilíbrios; o triângulo do meio-campo invertido em relação ao último jogo, com Pedro Mendes na contenção e Raul Meireles e Tiago na construção; a menor mobilidade do ponta-de-lança, Hugo Almeida, mas uma maior apetência para abrir espaços para os médios (exemplo do primeiro golo); a excelente exibição de Fábio Coentrão na construção do jogo ofensivo e sobretudo a maior disponibilidade dos jogadores portugueses para o jogo ofensivo, correndo mais que o adversário e trocando a bola com maior segurança e mais ligeireza. Excelentes exibições de Coentrão, Raúl Meireles e Tiago.

Balanço global

O Mundial chegou a meio, estão disputados trinta e dois dos sessenta e quatro jogos totais. Tal como aqui tínhamos previsto, dada a necessidade imperiosa de vencer, na segunda jornada marcaram-se mais golos (quarenta e dois) que na primeira jornada (vinte e cinco). Na terceira e derradeira jornada de grupos, que hoje começa, podem-se marcar mais golos, embora haja jogos que são para cumprir calendário, mas outros há que são decisivos e há que os jogar para ganhar ou...sair pela porta das traseiras sem honra nem glória. Uruguai, Chile, Holanda e Portugal são as equipas que ainda não sofreram golos.

Chega-se à última jornada e só Brasil e Holanda têm a passagem garantida aos oitavos-de-final e no lado oposto só Camarões e Coreia do Norte disseram adeus ao Mundial. Outro dado que vem corroborar o que ao longo destes dias fomos escrevendo, que este pode ser o Mundial das equipas sul-americanas, senão vejamos: além do Brasil, que já garantiu o apuramento, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile ainda não perderam qualquer jogo. Todos estão em posição privilegiada para garantir a passagem, com o contingente sul-americano a somar oito vitórias e dois empates até ao momento.

No lado africano está a desilusão - com excepção do Gana que lidera o grupo D - para os Camarões, já eliminado, e para a última posição ocupada por África do Sul, Nigéria e Argélia nos respectivos grupos. Para não falar da Costa do Marfim que tem a missão bem dificultada depois da goleada lusa. No lado europeu, uma equipa já apurada, Holanda, com muitas desilusões noutras selecções. Desde logo a França, a maior decepção da prova, não só pelo que não joga mas sobretudo pela péssima imagem que tem transmitido para todo o mundo com expulsões, demissões, boicotes a treinos, etc. A campeã em título, Itália, ainda não venceu e tem a sua missão dificultada para a última jornada, onde é imperioso vencer a Eslováquia. O mesmo se aplica à candidata Inglaterra (também ainda não venceu) e só uma vitória sobre a Eslovénia a salva do adeus ao Mundial.

Curiosamente, a Alemanha, que começou e bem o Mundial com uma vitória por quatro a zero, claudicou no jogo com a Sérvia e vai para esta última jornada com a obrigação de vencer o Gana ou, no mínimo, fazer o mesmo resultado que a Sérvia, o mesmo acontecendo com a super-favorita Espanha que, depois de perder o primeiro jogo, está obrigada a ganhar o último jogo frente ao Chile e mesmo assim esperar pelos factores de desempate.

Das equipas europeias o destaque, pela positiva, vai para nas selecções da Eslovénia, Suíça e Grécia. Não há margem para o erro para muitas equipas, por isso, de hoje até sexta-feira, vamos entrar nas jornadas do tudo ou nada. Até já.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Mundial 2010: Portugal-Coreia do Norte, 7-0 (crónica)

TUDO VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA

Portugal não gosta de jogar sob brasas. Ninguém deve gostar, aliás. Sempre que é favorito, encontrando equipas de menor qualidade, a selecção nacional tem tendência para se apagar, deixar-se ir na onda adversária, caindo nas teias que os rivais procuram lançar para impedir os seus avanços. Frente à Coreia do Norte, uma selecção frágil mas que estivera bem ante o Brasil, não havia volta dar: Portugal tinha mesmo, para se manter vivo, que vencer. Tremeu no início, acalmou com um golo de Raúl Meireles, o talismã decisivo, e embalou para um resultado histórico. Com naturalidade, marcou o segundo, o terceiro e o sétimo - sim, foram sete! - golos. As tormentas ficaram para trás. De vez? A exibição, pelo menos, convenceu: Raúl emergiu, Tiago deslizou pelo relvado, Fábio Coentrão explodiu.

Imagine-se a jogar contra um muro. Tenta, circula, encontra alternativas e o resultado é sempre o mesmo. Nunca consegue furar a barreira que tem à frente. A bola bate, vem para trás, recomeça-se o ciclo. Efeitos é que nada. Contra a Costa do Marfim, mesmo sem ser realmente incisivo, o jogo de Portugal foi isso. Com a Coreia do Norte, um adversário sem expressão e sem os gigantes costa-marfinenes, não seria muito diferente. Os coreanos defenderiam, Portugal atacaria, a resistência da muralha ditaria a sorte. Nestes casos, sempre que uma equipa quer marcar e outra quer defender, o tempo costuma ser decisivo. Diz-se, até, que o primeiro golo é o que custa mais. Depois daí, quando o caminho estiver aberto, será mais fácil. Chegar cedo à vantagem é a primeira premissa para o sucesso. Depois resta colocar em prática o talento.

A única diferença é que este é um muro activo. A Coreia do Norte, pelo que demonstrara com o Brasil ao colocar-se em bicos de pés perante o papão brasileiro, reclamou algum protagonismo. É uma selecção frágil e bem abaixo dos outros adversários do grupo. Isso é aceite. Mas não significa que, só por ser o patinho feio, não tenha as suas armas. Num dia bom, de inspiração, pode surpreender. O perigo para Portugal, num jogo de vitória obrigatória, estava precisamente no desconhecimento da selecção asiática, algo que poderia ser um mau início. Apesar de todas as preocupações defensivas, colocando-se em alerta máximo para travar a progressão portuguesa, a Coreia do Norte pretendia também aventurar-se no ataque. Mostrar que não era um mero figurante. Tae Sae e Pak Nam Shol assustaram Eduardo. Não seriam favas contadas.

RAÚL, ABRES A ENCOMENDA?

Portugal começara bem: a cabeçada de Ricardo Carvalho esbarrou no poste. Mas sem ser muito pressionante, falhando passes, a selecção portuguesa concedeu espaço para os avanços norte-coreanos. Chegou a tremer, com o fantasma do último jogo na memória, não marcando o seu território. A diferença havia de ser feita pela qualidade individual. E, aí, não restam dúvidas de que Portugal ganha de goleada. Raúl Meireles é um jogador que trabalha na sombra, nunca chegando ao estatuto de maior estrela, joga com afinco e cumpre o que lhe é pedido. Está lá sempre, por vezes algo escondido, conseguindo emergir nos momentos decisivos. Em Zenica, frente à Bósnia, carimbou a passagem para o Mundial. Com a Coreia repetiu-o: soltou-se, entrou na área, recebeu um passe soberbo de Tiago e fuzilou. Apareceu à socapa para quebrar o nulo.

O primeiro golo, o que se dizia ser o mais difícil, estava feito à meia-hora. Portugal encontrara uma brecha na defesa norte-coreana e marcara. Em vantagem, a selecção portuguesa ficou como gosta. Soltara-se das amarras, da pressão, poderia jogar a toda a largura, com tranquilidade, na busca de mais golos. Marcar mais, neste fase de grupos, pode ser crucial. A Coreia já demonstrara fragilidades e tinham de ser exploradas. Já sem a ânsia de marcar, de impedir que o nulo se prolongasse, entrando numa fase de ansiedade. Havia que manter o mesmo ritmo, a mesma intenção, sem baixar a guarda. Ficara bem visível que a Coreia não se iria desfazer das suas ideias, não arriscaria muito nem abriria mão das suas cautelas. Raúl Meireles, de novo aparecendo na área de Ri Myong Guk, falhou o segundo. Seria ouro.

UMA COREIA À MERCÊ DA FÚRIA PORTUGUESA

Kim Jong Hun teria que fazer algo mais. Chegara ao intervalo a perder. A sua Coreia do Norte tivera um início auspicioso, com algumas situações incómodas para Portugal, mas acabara por ficar submersa. O golo de Raúl Meireles quebrara os coreanos. Importava, por isso, procurar algo mais, ser mais expedito. Portugal não o permitiu. Entrou determinado, ambicioso, diabólico. Em sete minutos, com uma intensidade ofensiva altíssima, jogando bem, mostrando enfim a sua técnica, a selecção portuguesa matou as aspirações coreanas. Tudo correu às mil maravilhas. Simão marcou assistido por Raúl Meireles, novamente jogando em profundidade, nas costas da ingénua defesa da Coreia do Norte. Hugo Almeida e Tiago, em cima da hora de jogo, engordaram o resultado. Com naturalidade. Firmando as diferenças entre as duas equipas.

A Coreia do Norte, a partir do quarto golo, acenou a bandeirinha branca. Rendera-se, estava entregue. Já perdera a razão, restava o coração. Esperava por clemência. Não a teve. Nem poderia, porque, como se disse, os golos poderão decidir as contas do apuramento. Hiper-moralizado, com o tudo a seu favor e sempre encontrando espaço para progredir, Portugal quis ainda mais. Estava confortável, jogando bem, imperial sobre o relvado. A finalização, tantas vezes uma maldita dor de cabeça, mantinha-se com uma percentagem categórica. Faltava Cristiano Ronaldo. O avançado do Real Madrid assistira Tiago para o quarto golo, mas continuava a faltar-lhe marcar. Tentou-o. Correu, fintou, entrou na área. Não conseguiu. Acertou, de novo, nos ferros da baliza contrária, como no jogo de estreia. Estava guardado para o final.

Antes disso, porém, houve ainda Liedson. O Levezinho foi suplente, cedendo o seu lugar a Hugo Almeida, que respondeu com um golo, mas entraria. Era um bom momento para se reencontrar com os golos. Foi por seu intermédio que surgiu o quinto tento português. Uma mão-cheia, tudo óptimo, tudo nos conformes. Ronaldo lá continuava a tentar. Meneia a cabeça, sorri, nada feito. Mas a sorte, antes de costas voltadas, havia de estar com ele: isolou-se, tentou passar pelo guarda-redes Ri, foi travado, a bola saltou-lhe para o pescoço, deslizou e caiu no pé. Golo numa baliza deserta. Não estivera muito em jogo, demonstrara dificuldades, mas ganhara no final. Para terminar, fixando um resultado histórico, Tiago, de cabeça, bisou. Sete golos, moral em alta, passo importante rumo aos oitavos-de-final. O Mundial começou agora, Portugal!

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