domingo, 28 de fevereiro de 2010

Sporting-FC Porto, 3-0 (crónica)

O REGRESSO DO SENHOR LEÃO

Senhor leão, por favor. O Sporting temerário, errático e desnorteado ficou para trás. O momento, agora, é outro. A partida com o Everton já o anunciara, o clássico com o FC Porto confirmou: os leões jogam como ainda ninguém vira nesta temporada. Pode custar a crer, é verdade que sim, mas a vitória sobre os dragões não deixa dúvidas: consistência, entreajuda, redução de espaços, golos em momentos marcantes. Três tiros num dragão impotente, uma equipa que nunca se conseguiu encontrar, mergulhada num mar de indecisões e de más opções. O título é, agora, uma possibilidade cada vez mais remota. É a razão que o diz. Mantém-se a crença de que ainda há hipótese. Os papéis do jogo não estarão trocados? Não, claro que não. Acreditem!

Um clássico entre dois gigantes fora do seu sítio. Chegados a esta fase da época, com dez jogos pela frente, FC Porto e Sporting costumam ocupar os primeiros lugares do campeonato. Nas últimas épocas tem sido assim, sempre. Desta vez, contudo, é diferente: o FC Porto não chega com a via aberta para ser campeão, o Sporting está afundado numa temporada de pesadelo. Vida ou morte. É assim, sem meios termos ou contemplações, que os dragões, em terceiro, procurando manter as distâncias para Benfica e Sp.Braga, na esperança de continuar na perseguição e obrigar os rivais directos a um tropeção, encaram o clássico. Um deslize ser-lhes-á fatal. E o Sporting? Para que conta, então, este jogo? Sobretudo para a honra da equipa: é necessário recuperar o quarto lugar. Esse é o objectivo actual dos leões.

Está nos livros, em qualquer um deles onde o assunto seja futebol, que marcar cedo é meio caminho andado para se ser bem sucedido. A equipa tranquiliza-se, ganha confiança para enfrentar o jogo, passa a pressão para o lado do adversário. E precisa de estar preparado para a reacção, para que não tenha sido um esforço em vão, só interessa se o golo puder ser rentabilizado. O Sporting fez tudo isso: entrou em força, pressionante, marcou cedo, assumiu o controlo do jogo e preparou-se para qualquer eventualidade. Pode-se dizer, resumindo tudo isso, que deu continuação à exibição perfeita ante o Everton. Já se sabia que ganhara confiança com esse triunfo europeu, o golo de Yannick, aos seis minutos, confirmou que este Sporting sofreu uma alteração profunda. Não se explica, são coisas do futebol.

ELES ESTÃO EM QUINTO?

Alguém que tivesse caído agora no futebol português e estivesse atento ao jogo de Alvalade, diria que morava ali uma equipa de grande potencial. Aquele Sporting não poderia, em momento algum, ser um quinto classificado: os leões instalaram-se no relvado, superiorizaram-se no meio-campo, impediram que os portistas, com Rúben Micael e Raúl Meireles, tivessem bola no pé. Tiveram, logo a seguir ao golo, uma nova oportunidade para marcar: Liedson entrou na área, rematou forte, Helton negou-lhe a vontade. O FC Porto ainda não se encontrara, estava perdido no domínio do Sporting. Ninguém se lembrou do leãozinho frágil e desorientado que esteve sete jogos sem vencer. O jogo com o Everton foi a pedra de toque, agora estava ali um leão forte, confiante e bem centrado no objectivo de ganhar.

À medida que Varela foi ganhando espaço, os portistas conseguiram equilibrar o jogo. Passaram a ter mais bola, rondaram a área de Rui Patrício e criaram algum perigo para a defesa leonina. Não foi, porém, uma resposta incisiva, incessante pelo golo, uma vez que nunca os dragões conseguiram criar uma oportunidade de golo iminente. O intervalo aproximava-se, Jesualdo Ferreira teria de mudar algo, a equipa necessitava de se tornar mais agressiva e ganhar ofensividade. O Sporting não deixou, agiu antes que o FC Porto apostasse qualquer coisa, fez um segundo golo, por Izmailov, antes do descanso. Os leões juntaram à consistência e união do seu futebol, uma matreirice das grandes equipas, um atributo desaparecido, foram mortais nos momentos-chave. Tão diferentes que eles estão.

PERFEIÇÃO QUE MATOU O DRAGÃO

Sem perceber muito bem como, o FC Porto deixou a primeira parte com dois golos de atraso. Um sofrido no início, outro no final. Por entre um apagão generalizado, numa equipa incapaz de dominar a força revoltosa do leão, descaracterizada e impotente, faltou também felicidade na forma como foram consentidos os golos. Mas não se ficou por aqui. O intervalo foi uma pausa, serviu para o Sporting recuperar o fôlego, para voltar com toda a energia. Era a hora de desferir o golpe final no adversário. Foram precisos dois minutos, somente: Izmailov rematou ao poste, a defesa azul foi passiva, Miguel Veloso encheu-se de fé e acertou bem no coração do dragão. Três-zero, reacção do FC Porto deitada por terra, mérito total do Sporting. Não tinha sido isso que acontecera, com os papéis invertidos, no jogo do Dragão?

Recapitulemos, então, para que não fiquem dúvidas: o Sporting marcou um golo no início do jogo, outro antes do intervalo, fez o terceiro nos momentos iniciais da segunda parte. Pode-se dizer que atirou as responsabilidades para o lado do FC Porto, impediu uma reacção forte para alcançar o empate rapidamente nos segundos quarenta e cinco minutos e, por fim, acabou com o jogo numa altura em que Jesualdo Ferreira já trocara Raúl Meireles por Belluschi com o intuito de aumentar a capacidade de criar futebol ofensivo na sua equipa. A exibição leonina foi perfeita, abrilhantada por um portentoso jogo de Yannick, um prolongamento à altura do exibido na quinta-feira, uma mostra de que o futebol não tem lógica que resista. O campeão tombou, sem forças, entre erros em catadupa, tudo lhe saiu mal. Terá sido o fim?

Sporting-FC Porto (antevisão)

Habituados a discutir o título a dois até aos últimos momentos, ocupando os lugares mais altos do pódio no final, Sporting e FC Porto chegam à vigésima primeira jornada com uma sensação de que algo de estranho lhes aconteceu. Contrariamente às épocas recentes, não estão no topo. Os leões já perderam essa possibilidade, ninguém fala em título, foram estabelecido outro objectivo imediato: o quarto lugar. É pouco, sim, mas nada mais resta do pesadelo. Por outro lado, os dragões estão em recuperação, tentando dizimar a distância para o primeiro lugar, com a plena noção de que um passo em falso deitará tudo a perder - sabem que a concorrência venceu. O clássico é fundamental. Seja para manter a esperança no penta ou para evitar uma queda ainda maior. E, ainda, uma chence para a redenção da goleada sofrida, para a Taça, no Dragão.

É incontornável: o jogo com o Everton, na quinta-feira, que o Sporting ganhou de forma incontestável, poderá ter repercurssões no clássico com o FC Porto. A equipa quebrou uma série de sete jogos sem triunfos, conseguiu a melhor exibição da temporada, anulou a vantagem que os ingleses traziam do jogo da primeira mão. Devido ao momento dos leões, poucos seriam os apostadores numa vitória. O Sporting provou, porém, que consegue surpreender pela positiva e que é bem mais do que um conjunto de jogadores ansiosos e com um receio inexplicável de errar. A equipa jogou com alegria, como não se vira antes, transformou-se no seu interior, foi um exemplo de união. Pode parecer paradoxal, contudo, que o melhor Sporting tenha surgido num momento tão delicado. Mas quem disse que o futebol tem lógica?


Caso o Sporting não tivesse feito tal exibição ante o Everton, seria mais do que justo reconhecer uma clara superioridade do FC Porto. Mesmo sendo um clássico, onde por vezes a equipa que está em pior momento se destaca, os leões pareciam não encontrar soluções para sair do abismo em que haviam caído. Os portistas chegariam , então, a Alvalade no melhor momento, após um triunfo categórico sobre o Sp.Braga, reduzindo as pretensões de vitória dos bracarenses a uma simples ilusão, com cinco golos marcados à melhor defesa do campeonato. Foi, além disso, uma prova de que o campeão se mantém na luta, não encolheu os ombros. Nem poderia, tão pouco, pois há um estatuto a defender. No entanto, para continuar a perseguição, é imperativo vencer em Alvalade. Os rivais já cumpriram o seu trabalho.

Jesualdo Ferreira não poderá contar com Fernando, lesionado no jogo com o Sp.Braga, devendo colocar Tomás Costa no seu lugar, mas já terá Cristian Rodríguez nas opções. Todavia, não é provável que o uruguaio entre directamente para o onze titular, já que não tem o melhor ritmo e, além disso, Mariano González se apresenta em bom nível. No Sporting, já com João Pereira e a confirmação da continuidade de Izmailov é na formação táctica que se concentra a dúvida maior: manter o 4x2x3x1 da partida com o Everton ou regressar ao 4x1x3x2?
Yannick foi um dos jogadores em maior destaque a meio da semana e, por isso, deverá continuar na equipa titular, encaixando em qualquer esquema: no tridente ofensivo ou parceiro de Liedson. Carvalhal tem a palavra. Jogo com crónica no FUTEBOLÊS.

EQUIPAS PROVÁVEIS:

SPORTING:
Rui Patrício; João Pereira, Tonel, Daniel Carriço e Grimi; Miguel Veloso, Pedro Mendes, João Moutinho, Izmailov e Yannick; Liedson


FC PORTO:
Helton; Fucile, Bruno Alves, Rolando e Álvaro Pereira; Tomás Costa, Rúben Micael e Raúl Meireles; Varela, Mariano e Falcao


A mostra dos candidatos

Querem ser campeões? Provem-no! O campeonato entrou nessa fase decisiva, quem quer sucesso não pode vacilar, necessita de ser regular até final. Faltam dez jogos. Dez finais, se assim lhes quiserem chamar. E as finais, já se sabe, são, antes de qualquer futebol de deslumbramento, para ganhar. Agora com ordem invertida, é no Benfica e no Sp.Braga que estão as maiores probabilidades de sucesso. E nos bracarenses, um ponto atrasados para o primeiro lugar, a expectativa para perceber qual seria a reacção à goleada sofrida no Dragão, a segunda derrota no campeonato. Ante o FC Porto, o Sp.Braga abalou, encolheu-se, ficou reduzido a cinzas, não teve argumentos para alimentar o sonho do título. Seria, então, o princípio do fim de uma equipa sensação?

Não, claro que não. Por tudo aquilo que tem feito, pelos maquinismos que tem mostrado e, essencialmente, pela coesão que apenas no Dragão foi colocada em causa, não pode esquecer-se a força dos bracarenses devido ao pior jogo da sua temporada. Pelo menos não com tamanha facilidade. A resposta não deixa dúvidas: vitória clara, em casa, sobre o Olhanense. O Braga deixou para trás a derrota, voltou ao que era, começou o jogo em falso, pairou um espectro negativo, mas conseguiu empatar ao vigésimo primeiro minuto. Depois disso, assumiu inteiramente o controlo e conseguiu dar a volta. Fê-lo com mérito, ganhou com justiça. A equipa bracarense sabe para o que joga, não procura atingir níveis de brilhantismo, basta-lhe ser prática para chegar à vitória. O candidato voltou.


Pressionados para vencer, ultrapassados provisoriamente pelo Sp.Braga, jogando num estádio onde os dois adversários directos na caminhada pela glória perderam pontos, só restava uma solução ao Benfica: vencer. Convencendo ou não, é indiferente, interessavam os pontos. Nem os encarnados necessitaram de puxar dos galões: fizeram um jogo consistente, sem abusar de altivez de um líder que defronta o penúltimo, o suficiente para uma goleada. A estratégia de Castro Santos, bem sucedida contra o FC Porto, desta vez não teve efeito, o Leixões revelou-se demasiadamente inofensivo, foi presa fácil. O Benfica ganhou por 4-0, manteve tudo como até então, voltou a colocar o Sp.Braga para trás das costas. Foi espectacular? Colectivamente pode nem ter sido, mas Di María abrilhantou a noite.

O extremo argentino é assim: tanto aparece como desaparece, ora deixa Jorge Jesus à beira de um ataque de nervos, ora delicia os adeptos. Falta-lhe maior regularidade para ser um verdadeiro portento. Em Matosinhos, Angelito prolongou a genialidade que o invadira no jogo com o Hertha de Berlim, suportou a equipa, foi um regalo para a vista e, mais importante do que tudo isso, decidiu o jogo. Marcou três golos, algo inédito na sua carreira, por entre um espectáculo contínuo. Tudo saiu como ele quis. Decidira fazer um chapéu a Diego: não conseguiu à primeira, irritou Jorge Jesus, haveria de o conseguir depois. A teimosia, por vezes, pode ser uma virtude. Aí está o exemplo, o Benfica agradece.
Os dois primeiros cumpriram a sua parte, resta esperar pelo FC Porto. É a mostra dos candidatos.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Ministro do Sporting

José Eduardo Bettencourt tem tomado, enquanto presidente do Sporting, medidas surpreendentes. Assim que se viu privado de Paulo Bento e Pedro Barbosa, treinador e director-desportivo, dois elementos que pretendia que permanecessem no clube e na estrutura do futebol profissional, escolheu Carlos Carvalhal e Ricardo Sá Pinto, respectivamente, para ocupar as vagas deixadas. Surpreendeu: sobretudo com Carvalhal, um nome pouco consensual entre os adeptos e esquecido num rol de vários candidatos que foram surgindo, mas também na colocação de Sá Pinto, por um lado um ídolo leonino e, por outro, um ex-jogador marcado pelo seu forte temperamento, na liderança da equipa principal do Sporting. O risco das decisões aumentou em virtude do momento desastroso que se vivia em Alvalade.

Se Carlos Carvalhal se mantém à frente da equipa, com altos e baixos, com sete vitórias consecutivas que contrastam com uma série de sete jogos sem ganhar, onde se perdeu a possibilidade de o Sporting discutir o campeonato, a Taça de Portugal e a Taça da Liga, interrompida ontem, sensacionalmente, por uma vitória clara e categórica sobre o Everton, Sá Pinto, em Dezembro, demitiu-se do seu cargo - após uma troca de agressões com Liedson, exemplificando na perfeição a elevada emotividade que continua a demonstrar. Após a promoção, ainda que interinamente, de Miguel Salema Garção a director para o futebol do Sporting, Bettencourt anunciou ontem, poucas horas antes do jogo com os toffees, a contratação de Costinha, o Ministro, para assumir essa pasta fundamental.

Mais uma vez, o presidente do Sporting surpreendeu com o nome escolhido. Não se pretende com isto dizer que Costinha será uma má aposta, a essa questão só o tempo poderá responder. No entanto, tal como acontecera com Sá Pinto, falta experiência de dirigente ao agora director-desportivo dos leões. O melhor exemplo disso é que o ex-jogador apenas rescindiu o seu contrato com a Atalanta, onde estava desde 2007 mesmo somente tendo realizado um jogo oficial pelos italianos, na última terça-feira. A passagem dos relvados para os gabinetes foi, portanto, supersónica. Assumidamente sportinguista, conhecedor do futebol, sóbrio e pouco extravagante, concentrado ao máximo no seu trabalho, Costinha foi um futebolista de classe. O futuro dirá se poderá ser um dirigente do mesmo nível. O Sporting bem precisa.

PS: No dia seguinte à entrada de Costinha na estrutura leonina, o Sporting confirmou a permanência de Marat Izmailov em Alvalade. É, obviamente, uma notícia importante para os adeptos sportinguistas, pois o russo tem sido, desde que recuperou da lesão que o afectou quase toda a primeira metade da temporada, um jogador preponderante. Contudo, nesta altura da época, além da Liga Europa, nada mais resta ao Sporting e, em termos financeiros, perde-se uma oportunidade para compor os cofres leoninos. Daí que a permanência de Izmailov deva ser encarada como definitiva, isto é, com vista para a nova temporada e não apenas um adiamento até ao Verão. A partir de agora, o Ministro tem a palavra.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Liga Europa: Agora, sim, o leão rugiu!

COMENTÁRIO

Sete jogos sem vitórias, um mês negro e sucesso nas provas internas caído por terra não são bons presságios. Antes do jogo com o Everton, era esta a conjuntura interna do Sporting: uma equipa debilitada em termos anímicos, em verdadeira queda livre, perante um adversário num ciclo ascendente, culminando com vitórias sobre Chelsea e Manchester United, os dois primeiros do campeonato britânico. Acresce, ainda, que os toffees traziam vantagem da primeira mão, da vitória por 2-1 em Goodison Park. Com tal cenário, mesmo jogando em Alvalade, dificilmente não se diria que o Everton era favorito à passagem. Seja como for, contra as expectativas, o Sporting superou-se, mostrou um futebol desaparecido nesta temporada, teve audácia e foi feliz. Ganhou por 3-0. E ganhou bem.

Em Liverpool, na primeira mão, depois de uma boa primeira parte, o Sporting baixara muito o seu rendimento e, em sentido contrário, o Everton crescera, conseguindo vantagem e tivera a oportunidade de sentenciar a eliminatória. Deixou-a escapar, foi perdulário. Em cima do final, Miguel Veloso marcou um golo fundamental. Não tirou a vantagem aos ingleses, mas teve o condão de alimentar a réstia de esperança. Deixou tudo em aberto para Alvalade. Apesar de os ingleses chegarem na frente, ficou a certeza de que não seria missão impossível, nada disso, até porque um golo garantiria a passagem. Os toffees, talvez deslumbrados com a partida de Goodison Park, abusaram da altivez com que prepararam este jogo. Estiveram vários níveis abaixo do que têm produzido recentemente.

Não se pretende, porém, retirar qualquer mérito ao Sporting. Pelo contrário. Os leões transformaram as fraquezas em forças, atingiram o pico exibicional desta época, venceram e têm maior motivação para os jogos seguintes. Três-zero a um adversário inglês, incluído no grupo que se segue aos big four no seu campeonato, anima qualquer um. É caso para perguntar: onde estava escondido este leão? A mesma equipa que tão mal tem estado internamente, lutando agora para manter o quarto lugar, objectivo declaradamente prioritário nesta altura da época, foi capaz de um jogo perfeito contra o Everton. Depois dos dias de pesadelo, dos jogos com pouca alegria e organização, ao Sporting tudo correu de feição: aproveitou as oportunidades, soube aguentar o forcing contrário, teve coesão.

Nesta vitória do Sporting é incontornável que não se fale em Carlos Carvalhal. O treinador leonino encarou bem o jogo, apostou num 4x2x3x1, com Pedro Mendes e Veloso como pivôs defensivos e lançou Yannick para o tridente de apoio a Liedson - com Moutinho e Izmailov. A equipa jogou bem, houve ligação, tudo bem planeado. Na primeira parte faltou marcar, contudo. Aqui, mais uma vez, Carvalhal acertou no alvo. Noutros jogos comedido e pragmático, o treinador leonino arriscou, trocou Grimi por Saleiro, aos 62', recuando Miguel Veloso para a lateral esquerda. Dois minutos depois, já com uma ameaça de Pienaar pelo meio, Saleiro combinou com Veloso e o lateral marcou. Tal como fizera em Liverpool, foi por ele que começou a reviravolta leonina. O segundo golo chegaria num remate de Pedro Mendes, a um quarto-de-hora do final. Já Patrício guardara o resultado.

Outro exemplo de como, nesta partida, uma estrelinha acompanhou Carlos Carvalhal? Matías Fernandéz foi lançado aos noventa minutos, mais para tirar tempo de reacção ao Everton na procura de um golo que trouxesse o prolongamento, e teve efeitos práticos. No quarto minuto de compensação, o chileno recebeu um passe de Yannick, um autêntico diabo à solta que correra meio-campo com a bola no pé, e fechou o jogo. Com chave de ouro. Por fim, não há como não referir a alergia do Everton a Lisboa. A equipa de David Moyes, depois de ter sido cilindrada pelo Benfica, em Outubro, num 5-0 concludente, foi eliminado pelo Sporting, também sofrendo um resultado algo pesado. Em Alvalade, o jogo era mesmo dos leões. Diriam os Beatles: A Hard Day's Night.

NOTA: Devido a problemas informáticos, o comentário ao Sporting-Everton só pode ser colocado hoje.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A vigésima jornada - Opinião de Rogério Azevedo

1. SP.BRAGA CANDIDATO? SIM. SUPERCANDIDATO...

Que mudou entre 4 de Novembro de 2009 e 24 de Fevereiro de 2010? Que se passou nestes 112 dias? Bom, a 4 de Novembro escrevi, neste blog do Ricardo Costa, que era preciso esperarmos pela vigésima jornada da Liga para vermos se, de facto, o Sp. Braga era candidato à vitória na prova. Mais de dois meses depois, novamente a pedido do Ricardo, aqui estou. E a resposta é a mesma: sim, o Sp. Braga é candidato. À décima jornada tinha os mesmos pontos (25) do Benfica e cinco de avanço sobre o FC Porto. Agora, 900 minutos de futebol depois, a equipa de Domingos Paciência mantém a distância para os dragões de Jesualdo Ferreira e perdeu, apenas, um ponto para as águias de Jorge Jesus.

Ou seja, é muito consistente. Sim, há escassos dias perdeu no Dragão. Aliás, não só perdeu como foi goleado: 5-1. E, pela primeira vez desde a jornada de abertura da Liga 2009/10, está atrasado na corrida pelo título. Há um ano, com Jesus na liderança, o Sp. Braga somou 50 pontos no final do campeonato; agora, à vigésima ronda, soma 48 e está a um ponto do líder, não tendo já de defrontar a equipa mais poderosa do futebol português dos últimos 20 anos: o papão FC Porto. Está muitíssimo mais forte. Pode ser campeão? Sim. Basta esquecer o 5-1 e voltar a concentrar-se naquilo que o Sp. Braga sabe fazer: jogar muito bom futebol e... ganhar.

2. BENFICA? O MAIS FORTE, CLARO...

Dez jogos, 30 pontos em disputa, um de avanço sobre o Sp. Braga e seis sobre o FC Porto. Não parece mau de todo, pois não? Não, pensará Jorge Jesus e os muitos milhões de benfiquistas. Há um ano, na mesma vigésima jornada, o Benfica de Quique Flores tinha menos 9 pontos, menos 18 golos marcados, mais oito sofridos e estava já a dois pontos do líder FC Porto. Agora, um ano depois, a ‘estória’ é outra: o Benfica está a jogar muito, continua a golear e está em primeiro lugar. Tem, talvez, um calendário ligeiramente mais complicado que os dois rivais, mas não assustadoramente mais complicado. É, obviamente, o candidato mais candidato de todos os candidatos. E aqui entre nós: a 2 de Maio há um FC Porto-Benfica. Ui, ui...

3. FC PORTO? A SURPRESA DE SER TERCEIRO...

Há um ano, na mesma vigésima jornada, o FC Porto tinha 42 pontos. Agora tem 43. Ou seja, está melhor. O problema do FC Porto, em 2009/10, não é interno, é duplamente externo: chama-se Benfica e chama-se Sp. Braga. O dragão não está habituado a que, nesta fase da prova, não dependa de si próprio para ser campeão, pois não bastará ganhar os últimos dez jogos: é preciso que os dois da frente percam mais pontos. A última vez em que o dragão esteve nesta situação foi em 2001/02, quando na mesma jornada estava a sete pontos do líder (e futuro campeão nacional) Sporting. Acontece que o FC Porto do último mês não é o FC Porto que jogou até Dezembro. A explicação é fácil e fala com sotaque madeirense: Rúben Micael. O homem de Câmara de Lobos deu uma dimensão-extra do dragão de Jesualdo Ferreira e agora, a dez jornadas do final, parece estar no ponto. Mas não basta. É preciso que Benfica e Sp.Braga vacilem...

4. SPORTING? SIMPLESMENTE DESASTROSO...

Algo de que ninguém discordará: a época do Sporting é desastrosa. Desastrosa com Paulo Bento, desastrosa com Carlos Carvalhal e, sobretudo, desastrosa com José Eduardo Bettencourt. O leão parece ser, agora, um clube (quase) sem rei nem roque, perfeitamente à deriva e à espera do milagre que, em minha opinião, não surgirá. Está a 14 pontos do terceiro classificado e tem cinco equipas (U. Leiria, V. Guimarães, Marítimo, Nacional e P. Ferreira) a dois ou três pontos de distância. A diferença para o terceiro (FC Porto) é igual à diferença para o penúltimo (Leixões)!

5. VILLAS BOAS? TEMOS TREINADOR!

Há 112 dias escrevi, no blog do Ricardo, o seguinte: "Belo sexteto de novos treinadores: Domingos Paciência, Lito Vidigal, Mitchell Van der Gaag, Paulo Sérgio, Jorge Costa e André Villas Boas. Na crista da onda está Domingos, mas os cinco restantes parecem ter condições para belíssimas carreiras. Depois de tantas clonagens imperfeitas, a Académica tem agora o clone perfeito de Mourinho. Parece ter muitos argumentos para singrar. Mas, para o enquadrarmos com Sp. Braga, Benfica, FC Porto e Sporting, aguardemos pela vigésima jornada. Tem seis pontos. Aposto que chega aos vinte". Falava, claro, da Académica.

Mas errei. Não muito, mas errei: a Académica, à 20.ª jornada, não tem os tais 20 pontos de que falei: tem 23.Desde que André Villas-Boas entrou na Académica (8.ª jornada), os estudantes somaram 6 vitórias, 2 empates e 5 derrotas. Ou seja, 20 pontos em 13 jogos. O Sporting, por exemplo, entre as mesmas jornadas (8 a 20) somou 18. Melhor que os 20 pontos de André Villas-Boas nas mesmas jornadas (8 a 20) apenas quatro equipas: Benfica (30), Sp. Braga (27), FC Porto (27) e V. Guimarães (21). Temos treinador!

Crónica escrita pelo jornalista Rogério Azevedo para o FUTEBOLÊS

Entrevista dos leitores a Pedro Sousa: Parte 2



Quando o assunto é o jornalismo desportivo, particularmente em termos radiofónicos, Pedro Sousa é um dos nomes que mais facilmente associamos: sobretudo pelos seus relatos na Rádio Renascença, onde também edita o programa Bola Branca. Além disso, também pelas narrações de partidas de futebol internacional na Sport TV e ainda por ser a voz dos comentários do novo Pro Evolution Soccer, um dos mais famosos simuladores de futebol. Nove leitores do FUTEBOLÊS aproveitaram a oportunidade para entrevistar um dos mais conceituados jornalistas português.

O MEIO JORNALÍSTICO

JOSÉ REIS: Como credenciado jornalista, que opinião manifesta sobre a crescente subalternização da imprensa desportiva aos poderes futebolísticos dominantes? Crê que a ética jornalística se encontra em risco?
PEDRO SOUSA: Essa questão sempre se colocou, mas não foi por isso que deixou de existir boa informação desportiva. Mas tal como em outras profissões, há bons e maus profissionais.

JOSÉ REIS: Já alguma vez foi vítima de algum tipo de pressão?
PEDRO SOUSA: Já. Mas mais: sei que vou continuar sujeito a um certo tipo de pressão. Quem disser o contrário não fala verdade. Temos que saber viver com isso sem qualquer drama.

ANTÓNIO SILVA: De que forma vê o facto de os clubes se fecharem à comunicação social?
PEDRO SOUSA: É cíclico mas também sinal dos novos tempos. Os clubes têm sites, há um clube com um canal televisivo, provavelmente um dia destes haverá uma rádio. A minha única dúvida está relacionada com a pouca exposição que os principais clubes dão aos patrocinadores, sem que estes reajam. Mas mesmo aí, só quando um dos "grandes" for patrocinado por uma empresa sem "Golden Share", poderemos verdadeiramente aferir esse relacionamento.

JORGE COSTA: Qual a sua opinião sobre a crescente dificuldade verificada pelos jornalistas para se imporem no mercado de trabalho?
PEDRO SOUSA: Uma preocupação para todos. Mas, infelizmente, não acontece apenas nesta área. Ainda assim, a qualidade e competência acabam sempre por se impor.

PEDRO MAGALHÃES: Um bom jornalista necessita de uma personalidade extrovertida no seu quotidiano?
PEDRO SOUSA: Uma coisa não tem a ver com a outra. Um jornalista, extrovertido ou não, tem é que ser um bom profissional na "arte" de trabalhar factos, acontecimentos e conhecimentos, de forma a conseguir transmitir uma mensagem objectiva.

ADRIANO TAVARES: Cabe a si a escolha dos jogos que relata em cada jornada? Tem preferência por algum clube ou estádio?
PEDRO SOUSA: Actualmente sou eu que escolho e não tenho preferência por qualquer clube ou estádio. Depende do momento das equipas e outras variáveis.

O ACTUAL PANORAMA DO FUTEBOL PORTUGUÊS

VÍTOR FERREIRA: O que espera de Portugal no Mundial 2010?
PEDRO SOUSA: Costuma-se dizer que "espero o melhor, preparo-me para o pior e aceito o que vier". Na verdade, numa competição deste tipo, o primeiro jogo é sempre fundamental, embora no Euro'2004 isso nem tenha tido grande importância. Se Cristiano Ronaldo estiver ao seu melhor nível, se Pepe recuperar, se for bem sucedida a adaptação a uma realidade completamente diferente, a selecção portuguesa é sempre candidata a acabar nos oito primeiros.

VÍTOR FERREIRA: Quem é o principal favorito, na sua opinião, a vencer o campeonato português? Porquê?
PEDRO SOUSA: Olhando para a classificação, Sporting de Braga e Benfica. Ainda assim, Benfica e FC Porto deverão discutir o título. O Benfica porque ganhou uma boa embalagem, porque joga bom futebol e porque tem uma mole humana sedenta de um título. O FC Porto porque é o campeão em título, porque as equipas de Jesualdo Ferreira terminam melhor do que começam e porque acredito em exemplos anteriores, quando perante adversidades, jogadores e treinadores, impulsionados pelos dirigentes, superam as expectativas.

RICARDO SILVA: Que opinião da arbitragem portuguesa?
PEDRO SOUSA: Sinceramente acho que é igual, nem melhor nem pior, do que no resto da Europa. O problema, no meu ponto de vista, está na ausência de critério. Isto é, em situações semelhantes os mesmos árbitros tomam decisões diferentes.

A ENTRADA NO FUTEBOL VIRTUAL

ADRIANO TAVARES: Durante a gravação dos comentários no Pro Evolution Soccer, não sugeriu usar o seu conhecido já está?
PEDRO SOUSA: Se estiver atento, o "já está" aparece algumas vezes no jogo, mas não de forma massificada, até porque estamos a falar de um projecto novo, que para mim foi uma completa novidade. Esperemos que no Pro Evolution Soccer 2011 possa estar melhor.

RICARDO SILVA: Qual o feedback que obteve dos seus comentários no Pro Evolution Soccer 2010?
PEDRO SOUSA: Como disse anteriormente, sou um "maçarico" nesta matéria, mas os comentários foram globalmente positivos, embora exista muita coisa para melhorar. Acredito que será melhor o de 2011.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Entrevista dos leitores a Pedro Sousa: Parte 1



Quando o assunto é o jornalismo desportivo, particularmente em termos radiofónicos, Pedro Sousa é um dos nomes que mais facilmente associamos: sobretudo pelos seus relatos na Rádio Renascença, onde também edita o programa Bola Branca. Além disso, também pelas narrações de partidas de futebol internacional na Sport TV e ainda por ser a voz dos comentários do novo Pro Evolution Soccer, um dos mais famosos simuladores de futebol. Nove leitores do FUTEBOLÊS aproveitaram a oportunidade para entrevistar um dos mais conceituados jornalistas português.

DUAS DÉCADAS ATRÁS DOS MICROFONES

PATRÍCIA RODRIGUES: Qual foi, ao longo de todos estes anos como jornalista, o momento que mais o marcou?
PEDRO SOUSA: Há vários, mas escolho os jogos Portugal-Inglaterra de 2000, 2004 e 2006. Pela emoção, carga dramática e bom futebol. Foi puro entretenimento e um "gozo" brutal poder relatar esses jogos.

JORGE COSTA: Alguma vez se sentiu desiludido com a sua profissão? Ou, pelo contrário, pensa que fez a escolha certa?
PEDRO SOUSA: Dúvidas todos temos em certos momentos das nossas vidas. Devemos questionar-nos sempre, mas costumo dizer que faço o que gosto e ainda me pagam por cima.

DIOGO SOUSA: Tem a noção de que muito do público que a Rádio Renascença tem neste momento (quer na audiência de Bola Branca, quer nos relatos) se deve a si?
PEDRO SOUSA: A Rádio e particularmente a informação desportiva na Rádio Renascença, na Bola Branca e nos relatos, é o resultado de um trabalho de equipa, porque, tal como numa equipa de futebol, ninguém ganha jogos sozinho e, muitos menos, mal acompanhado.

RICARDO SILVA: Qual foi o jogo "mais triste" que relatou?
PEDRO SOUSA: Consigo abstrair-me com grande facilidade dessa componente, embora reconheça que no final do jogo Portugal-Grécia de 2004, tenha dado comigo a pensar como foi possível ter desperdiçado aquela oportunidade, que, provavelmente, não surgirá tão cedo outra vez.

RICARDO SILVA: Qual a situação mais caricata que viveu no relato de um jogo?
PEDRO SOUSA: Um dos primeiros relatos, ou simulacro de relato, foi um Mirense-Torreense, da Segunda Divisão, disputado em Porto de Mós. Fiz o relato encavalitado numa árvore.

RICARDO DIAS: No relato, o relator não pode correr o risco de ferir susceptibilidades. Alguma vez sentiu dificuldades para encontrar os termos adequados para descrever o que via?
PEDRO SOUSA: Muitas vezes isso acontece. E tão mais difícil ainda, porque muitos ouvintes estão a ver pela televisão e a ouvir pela rádio. E também tenho a noção que algumas vezes passei uma linha que eu próprio defini. Quando assim acontece, se por algum motivo feri susceptibilidades, o único caminho é pedir desculpa.

ANTÓNIO SILVA: Existe actualmente algum relator com quem se identifique ou pretenda seguir?
PEDRO SOUSA: Sem falsa modéstia, os melhores estão na Rádio Renascença, na linha de grandes nomes como Ribeiro Cristóvão e Romeu Correia, entre outros.

MUNDOS DIFERENTES: RÁDIO E TELEVISÃO, ONTEM E HOJE

DIOGO SOUSA: Sabendo que a rádio nao tem o destaque que tinha, por exemplo, nas décadas de 60 e 70 (por culpa da "chegada" da televisão) como vê a nova forma de fazer relatos desde aí? Sente que tiveram de adquirir novos "tiques" para captar a atenção do público?
PEDRO SOUSA: Saber viver com a concorrência, seja ela directa ou televisiva, é um dos grandes desafios da rádio. Não sinto que tenhamos adquirido "tiques" ou truques. Na rádio somos os olhos dos ouvintes, pelo que, saber contar e descrever o que estamos a assistir, é uma das grandes diferenças deste meio mágico.

ANTÓNIO SILVA: Quais as principais diferenças que encontra entre o relato radiofónico e a narração televisiva?
PEDRO SOUSA: A principal diferença, não sendo a única, é que na rádio somos os olhos das pessoas, enquanto na televisão o telespectador tem acesso ao mesmo conteúdo. Quero com isto dizer que na televisão devemos ser menos palavrosos e afastar evidências no nosso vocabulário.

PATRÍCIA RODRIGUES: Tem uma forma aberta de relatar, as expressões que habitualmente são instintivas ou é algo trabalhado?
PEDRO SOUSA: Por vezes são instintivas, mas, como é bom de perceber, os melhores improvisos são os que preparamos. Para quem está a começar sugiro que não abuse do instinto, porque pode correr mal.

DIOGO SOUSA: Sente que os relatos futebolísticos estão apenas restritos a homens? Se uma mulher aparecesse neste momento a fazer um relato, como pensa que seria aceite?
PEDRO SOUSA: Não consigo ver as coisas dessa forma. A diferença, para melhor, homem ou mulher, deve estar na competência, independentemente do sexo. Agora, reconheço que até este momento tem sido um meio difícil para as mulheres, mas não tenho dúvidas, que a surgir, seria bem aceite.

(CONTINUA)

Liga Europa: O melhor Benfica derrubou um frágil muro

COMENTÁRIO

O Benfica confirmou a presença nos oitavos-de-final da Liga Europa. Fê-lo com mérito, uma exibição mais perto do empolgante Benfica de início de época, num regresso às goleadas, e aproveitou todas as fragilidades deste Hertha de Berlim. Os alemães não são, nem pouco mais ou menos, um adversário que, se os encarnados cumprirem bem o seu trabalho, obrigue a preocupações inesperadas. Como a equipa portuguesa esteve num nível elevado, com bons lances de futebol atacante, sobretudo por inspiração individual, sobressaindo a técnica de jogadores bem superiores aos alemães, venceu de forma confortável. Depois do empate em Berlim, onde Jorge Jesus foi pragmático, guardou o que tinha e não quis arriscar para ambicionar resolver logo aí a questão, uma vitória categória. Para deixar bem vincadas as diferenças.

Com a eliminatória em aberto, apesar de em desvantagem por ter sofrido um golo em casa, restava ainda uma ténue esperança ao Hertha de Berlim. Mesmo se tendo qualificado para os dezasseis-avos-de-final da Liga Europa, atrás do Sporting, os alemães ocupam o último lugar do seu campeonato e apenas regressaram às vitórias na passada semana (3-0, ante o Friburgo), algo que não conseguiam desde Dezembro, altura em que bateram os leões. Na primeira mão desta eliminatória com o Benfica, é justo reconhecer, contudo, que os germânicos tiveram oportunidades e faltou-lhes uma pontinha de felicidade para trazerem um resultado positivo para o segundo jogo. Na Luz, porém, a ideia do Hertha era bem clara: prolongar o nulo, tentar esticar o mais possível, impedir que o Benfica tivesse espaço de progressão. Se não desse, paciência.

O objectivo dos alemães durou vinte e quatro minutos a ser derrubado. A teia desfez-se, o Benfica chegou ao golo: futebol trabalhado, jogado de pé para pé, de Di María para Aimar e de El Mago para o fundo da baliza de Drobny. Contra equipas que jogam fechadas, com as linhas extremamente juntas, importa marcar o quanto antes. O Hertha de Berlim, agora obrigado a correr atrás do prejuízo, apareceu longo depois, já Cardozo desperdiça o segundo golo dos encarnados. Júlio César, o guardião europeu, manteve tudo em susítio com uma defesa extraordinária. Foi esse o único lance dos alemães que fez despertar a defesa encarnada. O Benfica estava disposto a marcar o segundo golo, tranquilizar-se e cortar uma eventual resposta dos alemães pela base. Iria fazê-lo logo após o intervalo. Entrando em força.

Se Saviola já acertara na trave antes do descanso, Cardozo haveria de acertar na baliza. Um lance como o paraguaio tanto gosta: cruzamento perfeito de Di María, largo, nas costas da defensiva contrária, desvio de cabeça de Tacuara. O Hertha ficou-se por aqui. O Benfica não, continuou com ritmo alto, ofensivo, marcou mais. Tudo fácil: Javi García aproveitou a atrapalhação que um canto de Angelito causara, fez o terceiro golo. Nada mais tiraria a qualificação aos Benfica. O passaporte estava carimbado, portanto. Para abrilhantar a noite, nova assistência de Di María, o culminar de um jogo soberbo, bis de Cardozo. Com a passagem no bolso, os encarnados diminuíram o andamento da partida, entraram na versão mais soft, com gestão de esforços de jogadores influentes - Di María, Aimar e Saviola. E esperaram pelo apito final.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Liga Sagres: Um dragão vindo de trás e a águia na frente

ANÁLISE

Agora, sim, liderança consumada. O Benfica é líder do campeonato, um ponto de avanço, deixou de o ser provisoriamente, esperando para ver o que fazia o Sp.Braga, e está instalado no topo. Com o jogo com o União de Leiria há muito realizado, com vitória clara por 3-0, os encarnados só tinham a ganhar com a visita dos bracarenses, seus principais rivais por esta altura, ao Dragão. O FC Porto venceu, deu uma prova cabal de força, de que há um estatuto de campeão para defender até final e de que está na luta. E, por isso, ofereceu numa espécie de dano colateral, o primeiro lugar ao eterno rival. Sim, mas provou, sobretudo, que é preciso contar com o dragão.

Uma equipa consumida por uma raiva interior, por ter visto Hulk e Sapunaru suspensos por longos meses, em vésperas do jogo decisivo, pronta a mostrar que um campeão não se verga assim tão facilmente. Não havia outro caminho que não ganhar. Perante um Sp.Braga na ânsia de confirmar a candidatura ao título, revitalizar o sonho, completar a série de vitórias com grandes, equipas possuidoras do estatuto que perseguem. Aos portistas, feridos no seu orgulho, bastaram trinta e cinco minutos: marcaram três golos, desnortearam o rival, encontraram fragilidades defensivas. Falcao e Varela fizeram estragos. Deram-se ao luxo de levantar o pé. Mas chegaram aos cinco golos, em contenção. Nos descontos, Alan salvou a honra dos guerreiros - Crónica do jogo

Com Carlos Carvalhal, o Sporting recuperara uma parte da cor que perdera na primeira metade da temporada. Melhorou em termos exibicionais, subira ligeiramente na classificação, tornou-se uma equipa mais competitiva e, acima de tudo, vencedora. Alcançou sete vitórias. Estava longe, contudo, da perfeição, não se tornara brilhante de um momento para o outro. Em Braga, no final do mês de Janeiro, perdeu definitivamente as esperanças, já irreais, de lutar pelo título. A partir daí não mais a equipa se encontrou, voltou à fórmula inicial: pouco futebol, maus resultados - derrota com Académica e empate com P.Ferreira, na Liga. Em Olhão, voltou a ceder um empate. Jogou com pouca dinâmica e organização. Pouca alma. O verde está cada vez mais esbatido.

O objectivo imediato do Sporting, a manutenção do quarto lugar, está directamente ameaçado pela União de Leiria (perdera com o Benfica) e pelo Vitória de Guimarães (ganhou, por 2-0, ao Leixões), ambos a dois pontos dos leões. Também o Paços de Ferreira conseguiu uma vitória (2-1), em casa do Rio Ave, que lhe permite aproximar-se dos lugares europeus. Marítimo e Nacional, rivais madeirenses, empataram a um e, por isso, mantém-se em igualdade na classificação - sétimo lugar. Na luta pela fuga aos lugares de descida, a Académica aumentou a margem para os últimos, vencendo no Restelo, por 2-1, tal como a Naval, que derrotou o Vitória de Setúbal (0-1), e o Olhanense - quatro pontos separam os algarvios do Leixões, penúltimo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

FC Porto-Sp.Braga, 5-1 (crónica)

A AVALANCHA DA REVOLTA

Cinco golos, uma exibição consistente e a confirmação de que o campeão está na luta. Somos Porto! repetiram os jogadores na véspera da partida. O plantel unira-se, todos juntos para dar a volta às adversidades e mostar a sua revolta pelos castigos aplicados a dois dos seus membros. Afectados no seu brio. Depois do desaire em Matosinhos, o jogo com o Sp.Braga tinha a vitória como único cenário para os portistas. Uma derrota deixaria os dragões com onze pontos de atraso. A resposta foi forte. Avassaladora, até. O FC Porto foi eficaz, goleador, quebrou a esperança do Sp.Braga em deixar a corrida ao título a dois.

Há muito eram esperados, mas a confirmação dos castigos a Hulk e Sapunaru bateram com estrondo nos portistas. O plantel juntou-se, revoltado, mostrou-se mais forte do que nunca e prometeu luta até final, sempre na procura da vitória, sempre fazendo jus ao nome que defendem. Um jogo decisivo, na recepção ao Sp.Braga, para ficarem desfeitas as dúvidas sobre quem parte para o último terço do campeonato na corrida ao título. Ambiente de jogo grande, expectativa elevada, alta voltagem, bracarenses na esperança de recuperarem a liderança ao Benfica, portistas atrás do tempo perdido. Onze dragões feridos no seu orgulho, apoiados por um estádio repleto de esperança e indignação, ingredientes contrários, é certo, mas motivadores para a garra da equipa.

O FC Porto começou com ritmo alto, jogando no território bracarense com posse de bola. Num Sp.Braga mais móvel do que habitual no ataque, sem o goleador Meyong e com três jogadores rápidos e versáteis, Alan, Mossoró e Paulo César, a ideia de Domingos passava por aproveitar os espaços que os portistas fossem dando, imprimindo velocidade nas faixas laterais. Numa primeira incursão, Mossoró, de regresso após castigo, embrulhou-se e caiu na área em luta com Álvaro Pereira. Olegário Benquerença entendeu ser simulação, puniu o bracarense com um cartão amarelo. O lance é muito duvidoso, contudo. Depois, foi a vez de Alan rematar perto do poste da baliza de Helton. Jogados quinze minutos, havia equlíbrio. Era o esperado, aliás.

Os portistas sentiram a sua serenidade em perigo, procuraram retribuir no lado contrário e obrigar a defesa bracarense a trabalho. A resposta foi rápida e letal. Helton bateu o pontapé de baliza, a bola foi para Varela, o extremo correu e cruzou para a entrada da pequena área. A pedir um desvio. Os defesas do Sp.Braga preocuparam-se em guardar Falcao, deixaram espaço livre para a progressão de Raul Meireles, vindo de trás, como uma flecha: fez a segunda parte do serviço, encostou para a baliza de Eduardo. Foi o culminar da libertação da raiva que atormentava os portistas. Seguiu-se uma tentativa de reacção da equipa bracarense. O Sp.Braga conseguiu ter bola, embora sem nunca criar verdadeiro perigo para Helton.

O XEQUE-MATE AOS TRINTA E SEIS MINUTOS

Depois, bem, depois Álvaro Pereira decidiu abrilhantar o jogo, dar-lhe um toque de classe para tranquilizar a equipa. El Palito pegou na bola, a uns bons trinta e cinco metros da baliza, rematou forte e colocado para o segundo golo. Surgido a dez minutos do intervalo, momento certo para desmoralizar os bracarenses e complicar a sua tarefa de mudar o rumo do jogo. Jogada seguinte, novo golo. O terceiro. Se o de Álvaro Pereira teve talento individual, neste sobressaiu a força do colectivo: abertura para Varela, cruzamento largo, golo de Falcao perante Eduardo. O campeão puxou dos galões, encostou o Sp.Braga às cordas. Nunca os bracarenses haviam sofrido tantos golos num só jogo. Domingos baixava a cabeça. O FC Porto transformara-se num vendaval ofensivo.

Com três golos de avanço e com jogos importantes pela frente, os portistas baixaram o ritmo. Tinham o jogo na mão. Para o ganhar bastava gerir. Ao intervalo, Domingos emendou a mão, lançou Meyong, a referência de área, e prescindiu de Hugo Viana. O Sp.Braga que tanto tempo tem estado no topo, sempre na luta, que é um novo candidato a campeão, apagara-se no Dragão. Queria reagir, era tarde. Mossoró voltaria a cair na área, derrubado por Raúl Meireles, Olegário errou ao não marcar falta - nem mostrou amarelo, poupando o médio pela segunda vez. Mas este era o jogo do FC Porto. Mesmo em contenção, chegou ao quarto. Falcao elevou-se a Paulão, cabeceou para dentro da baliza de Eduardo. Olegário Benquerença entrara numa panóplia de erros, seguiu-se uma expulsão perdoada a Rafael Bastos.

A equipa bracarense apenas sofrera oito golos até jogar no Dragão. Frente ao FC Porto perdeu essa sua imagem de marca, ruiu pela base, foi impotente para impedir o engordar natural do resultado. A partir do terceiro golo pouco mais haveria a fazer. Animicamente, a equipa caíra. Por entre olés e o êxtase do público, Belluschi fez o quinto golo. O golpe de misericórdia num Sp.Braga que há muito encolhera os ombros, um novo buraco numa barreira que parecia intransponível. O resultado pesava, o FC Porto iria ganhar, mas ainda havia a honra bracarense em jogo. Já nos descontos, Alan marcou para o Sp.Braga. De nada vale no resultado. Resta esperar pela reacção dos guerreiros que perderam a batalha. Não a guerra.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Uma equipa sem força para fazer melhor

O Sporting actual é, no máximo, um leãozinho. Uma equipa desmotivada, sem chama, sem força para travar um destino fatal. Se sete vitórias consecutivas foram um bálsamo para os sportinguistas, uma espécie de atenuante da má campanha feita até então e abriu boas prespectivas futuras, os sete jogos sem ganhar que se seguiram são a confirmação de todas as lacunas que a entrega e a abnegação dos jogadores não é capaz de esconder. Nem poderia, aliás. Para além da evidente má preparação e construção de um plantel que fosse capaz de lutar pela conquista das provas em que se inseriu, excepção feita à Liga Europa, não há motivação para fazer melhor. O Sporting já perdeu quase tudo o que podia conquistar.

Ainda não é um dado consumado que a época leonina terminará sem títulos, pois falta ao Sporting a segunda partida da eliminatória europeia com o Everton. Está em desvantagem, ninguém sabe o que ditará o segundo jogo. Há, por isso, uma possibilidade de sucesso, mas, convenhamos, que será verdadeiramente utópico que uma equipa que tantas debilidades tem mostrado internamente consiga um feito extraordinário numa competição internacional. Além do mais, após o jogo em Goodison Park, está em desvantagem na eliminatória, por ter perdido por 2-1, um resultado que está longe de ser impeditivo da passagem. Quinta-feira, quando o jogo com os ingleses estiver realizado, saber-se-á se o Sporting consegue prolongar a sua presença.

Nunca nesta temporada apareceu uma equipa leonina capaz de fazer temer o adversário. As melhores prestações terão sido alcançadas ainda na fase inicial, com Paulo Bento ao comando, quando o Sporting defrontou, no playoff de acesso à Liga dos Campeões, a Fiorentina. Conseguiu dois jogos bem positivos, criou oportunidades para ter seguido para a fase de grupos da Champions, mas falhou. Foi infeliz, os italianos frios e matreiros para resolverem a eliminatória no momento-chave. Merecendo ou não. Seguiu-se, contudo, uma período instável, intranquilo, negro. Com Carlos Carvalhal, não atingindo níveis brilhantes, a qualidade de jogo melhorou. As tais sete vitórias permitiram que aumentasse a esperança de um lugar no pódio nacional.

Após a derrota de Braga, onde a equipa leonina se exibiu num bom plano, o Sporting tem caído a pique. Num curto espaço temporal perdeu as três competições internas, ficou com a passagem aos oitavos da Liga Europa como prioritária. No campeonato, porém, depois do Sp.Braga, perdeu com a Académica, em Alvalade, empatou em Paços de Ferreira e, agora, em Olhão. Dois nulos, dois jogos pobres, exemplos práticos da pouca qualidade do plantel. Carlos Carvalhal ressalva a atitude da equipa. É pouco. A alegria e serenidade que haviam sido recuperadas, estão, de novo, transformadas numa brutal sensação de impotência. Carvalhal é, cada vez mais, um treinador a prazo. Resta-lhe confirmar o quarto lugar. É estranho. Mas é esse o objectivo imediato do Sporting.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um registo muito speciale

Recuemos, leitor, até Fevereiro de 2002. Dia 23. No campeonato português, o FC Porto defronta, no estádio das Antas, o Beira-Mar. A equipa portista pretende manter-se na rota do título, apesar de serem aparentes as dificuldades. José Mourinho chegara há pouco tempo, encontrara uma equipa em quinto lugar, mas garantira que lutaria até final, mesmo conhecendo a realidade, para preparar as bases para o prometido sucesso nos anos seguintes. Os dragões estão em recuperação, com quatro vitórias consecutivas, entre elas o Benfica, até chegar a esta vigésima quarta jornada. Terceiro lugar, oito pontos de desvantagem para o Sporting, líder e futuro campeão. Os aveirenses conseguiram uma vitória histórica, nas Antas, por 3-2. O FC Porto disse adeus ao título. Estava somente por um fio.

As contrariedades dos dragões, nessa partida, começaram cedo. Por volta da meia-hora de jogo, Jorge Andrade comete uma falta perigosa à entrada da área e recebe ordem de expulsão do árbitro Carlos Xistra. Um mal nunca vem só: na cobrança do livre, Cristiano coloca a equipa de António Sousa na frente do marcador. Com menos um e em desvantagem, o FC Porto, proibido de falhar, teria necessariamente de ser audaz. E foi-o. Afinal, apesar de tudo, continuava superior aos aveirenses e jogava em casa. Ainda na primeira parte, empatou. Mas havia Fary. O avançado senegalês era um perigo constante para os portistas e dava-se ao luxo de ser extraordinariamente eficaz com Vítor Baía. Nessa partida, por opção, começara no banco. Seria, porém, o maior problema azul.

Fary entrou na segunda parte. Poucos minutos depois do recomeço, recolocou a sua equipa em vantagem. Depois disso, novo rombo no FC Porto: Deco foi expulso, os portistas ficaram os últimos quinze minutos com nove jogadores. Desvantagem cada vez maior a todos os níveis. Mourinho, contudo, mantinha os olhos na vitória: lançou as armas de que dispunha, colocou avançados, fez de tudo para dar a volta ao resultado. Outros simplesmente encolheriam os ombros. O FC Porto, com tantos obstáculos colocados no caminho, chegou a um novo empate. Mas o esforço fora grande, a equipa estava demasiado esticada e a defesa ficara vulnerável perante a aposta atacante do treinador. Fary não teve piedade, pouco se interessou pelas recuperações do rival: fez o dois-três, acabou com as dúvidas.

Posto isto, podemos regressar ao presente. Passaram-se, então, oito anos desde esse triunfo do Beira-Mar. Muita coisa mudou, pouco se mantém como estava na época. Jogando como anfitrião, numa carreira entre Porto e Milão com Londres pelo meio, José Mourinho fez cento e trinta jogos oficiais contando para o campeonato português, inglês e italiano. Nunca mais perdeu: cento e vinte e cinco triunfos, vinte e cinco empates. Hoje, dia 20 de Fevereiro de 2010, o Inter, na recepção à Sampdoria, teve a possibilidade de dar ao treinador português o ponto máximo desse registo verdadeiramente impressionante: oito anos sem derrotas caseiras. Não ganhou, empatou, a zero, no Giuseppe Meazza. Para o Inter, empatar em casa é negativo. E jogando desde os trinta e oito minutos com nove, continua a ser?

Se o leitor não acredita em coincidências, leia o que se segue até ao final. Em 2002, como se disse, Jorge Andrade foi expulso por vermelho directo. Hoje foi Walter Samuel, na mesma altura. No lance do livre, por ter saltado da barreira antes do tempo, Ivan Córdoba viu o cartão amarelo e, mais tarde, seria expulso. Tal como Deco, embora por protestos, na partida do FC Porto contra o Beira-Mar. São, sem dúvida, curiosidades que ligam estes dois jogos que nunca poderão desaparecer do registo pessoal de José Mourinho. E existe, também, uma diferença substancial: o modo como o treinador encarou a partida. No passado, fez de tudo para ganhar. Agora, mais experiente, preferiu guardar o ponto. E completou oito anos sem derrotas em casa. Foi bem sucedido. Épico.

Dois meses até aparecer a luz no túnel

A luz ao fundo do túnel, por fim. Foram anunciadas, hoje, as consequências dos incidentes ocorridos no final do Benfica-FC Porto, a 20 de Dezembro: Hulk foi castigado com quatro meses de suspensão, Sapunaru com seis meses e o Benfica multado em mil e quinhentos euros por actuação provocatória dos stewards. Ora, esta acção dos elementos da empresa de segurança contratada pelo clube encarnado foi, nas palavras de Ricardo Costa, presidente da Comissão Disciplinar da Liga, uma atenuante que permitiu reduzir as penas a aplicar aos jogadores do FC Porto - a moldura penal variava entre seis meses e três anos, mas, devido a esta situação, foi reduzida para metade. Conforme adiantou Ricardo Costa, o Benfica é penalizado por não ter sido mantida a ordem no caminho para os balneários.

Com suporte nas provas testemunhais recolhidas, o relatório dos delegados do jogo, da equipa de arbitragem e das forças policiais, ouvidos na fase de instrução do processo, a Comissão Disciplinar aplicou os castigos, dentro da moldura penal, que lhe pareceram justificados pelos indícios recolhidos. Não há, por isso, qualquer discussão relativamente a esse tema: o inquérito foi instaurado, as testemunhas ouvidas, lidos os relatórios e foram tomadas estas decisões penalizadoras. Levanta-se, contudo, um problema: o atraso para serem conhecidas as sanções a aplicar. Segundo um cronograma anexado ao acórdão da Comissão Disciplinar, o processo foi entregue ao seu instrutor no dia 23 de Dezembro. Os castigos conhecidos a 19 de Fevereiro.

Num processo tão importante quanto esta, para o clube, mas, acima de tudo, para os futebolistas profissionais indicados, a decisão tem que ser tomada e conhecida o quanto antes. Suspensos preventivamente até ao final do inquérito, os jogadores ficaram impedidos de dar o seu contributo à equipa - algo previsto nos regulamentos, o maior problema de toda a questão. O tempo passou, a fase de instrução manteve-se, tardaram em ser conhecidas as decisões. Apenas hoje a Comissão Disciplinar as anunciou. Diz Ricardo Costa que se tratou de uma decisão célere. Não foi, obviamente. Dois meses, com doze jogos pelo meio, é demasiado tempo para deliberar castigar quem quer que seja. A justiça desportiva, à semelhança do sucedido após o Sp.Braga-Benfica, foi pouco lesta na sua acção.

O tempo em que esteve suspenso, sem saber o resultado da averiguação disciplinar, corresponde a metade do castigo aplicado a Hulk. É fundamental, a bem da credibilização do futebol, que a justiça seja rápida a agir. Os jogadores, profissionais de futebol, não poderiam ter estado tanto tempo neste impasse. Este caso do túnel é, indiscutivelmente, o expoente máximo de uma época marcada por inúmera polémica. E poderá não estar terminado, já que o FC Porto tem, ainda, a possibilidade de recorrer para o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, na esperança de ver mudada a sanção aos seus atletas - sobretudo a Hulk, uma vez que Sapunaru foi emprestado, até final da temporada, ao Rapid de Bucareste.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Liga Europa: Uma tradição não se quebra facilmente

COMENTÁRIO

Antes do jogo, nunca o Benfica ganhara na Alemanha. Teve, nesta primeira mão dos dezasseis-avos-de-final da Liga Europa, uma boa oportunidade para o fazer, defrontando o Hertha de Berlim. Entrou a ganhar, mas acomodou-se e permitiu que a vantagem lhe escapasse - ficou com um empate que, afinal, foi mais sofrido do que era de esperar. As tradições são sempre difíceis de quebrar. Também é uma pequena tradição Di María marcar em solo germânico. Fê-lo novamente, também. Na prática, o resultado que o Benfica conseguiu em Berlim é bem positivo: a equipa portuguesa parte para o jogo da segunda mão em vantagem na eliminatória, por ter marcado fora de casa, e tem todas as condições para, na Luz, confirmar o acesso aos oitavos.

Ressalta, para além disso, uma evidência: o Benfica poderia ter feito mais. A qualidade exibicional que apresentou ficou aquém. O Hertha de Berlim é um adversário com fragilidades que poderiam ter sido mais bem aproveitadas, inferior aos encarnados, vive uma época negativa: está em último no seu campeonato e não vence desde 16 de Dezembro, dia em que bateu o Sporting, em casa, na última jornada da fase de grupos da Liga Europa. Facilmente se percebe, por isso, que a prestação dos alemães internacionalmente tem sido bem melhor do que a da Bundesliga. A vontade de querer apagar o mau percurso interno poderá ser uma motivação aos alemães. Daí que, ao Benfica, importava tranquilizar-se o mais rapidamente possível.

Um golo cedo seria um grande passo para esse objectivo. Assim foi: quatro minutos, passe teleguiado de Carlos Martins, golo da praxe de Di María. Tudo bem encaminhado. No entanto, após chegar à vantagem, o Benfica recuou em demasia, concedeu espaços a um Hertha que, por sua vez, conseguiu recuperar da falsa partida. Os alemães empataram, aos trinta e três minutos, num autogolo de Javi García. O Hertha foi feliz. O choque poderia ter feito despertar os encarnados, mas faltou clarividência. Com o tempo, a equipa alemã foi crescendo, jogando próxima da área do Benfica, teve oportunidades para passar para a frente do resultado - remate de Nicu, aos cinquenta e seis minutos, bateu no poste da baliza de Júlio César.

Nos encarnados, sempre com ritmo baixo, pouca inspiração e velocidade, fica a imagem de alguma displicência (como quando Cardozo, Saviola e Ramires se fizeram juntos a um lance, somente com o guarda-redes Drobny pela frente, perdendo uma grande oportunidade de golo). Jorge Jesus procurou dar alguma criatividade ao futebol do Benfica, lançou Aimar e Filipe Menezes. Depois, porém, também o treinador aceitou o empate: trocou Saviola por Miguel Vítor, guardou o que conquistara. Aos encarnados, ficam, ainda, razões de queixa do árbitro Terje Hauge, que deixou uma grande penalidade por marcar - falta de Friedrich sobre Ramires. Na Luz, no próximo dia 25, é necessário dar o passo final para a qualificação.

San Siro: palco de espectáculo

AC Milan e Manchester United, rivais antigos, luta titânica, senhores do futebol mundial. Dez títulos europeus ganhos, que se dividem em sete para os italianos e três para os ingleses. O sorteio colocou-os frente a frente, em San Siro, nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Uma final antecipada. Demasiado antecipada, porque um destes colossos vai ficar pelo grupo das dezasseis melhores e tem currículo para bem mais do que isso. Mas é algo que os obriga a jogar nos limites. Se o histórico, por si só, é um atractivo de luxo, juntam-se outros: que reacção externa de um Milan que internamente não consegue fazer frente ao Inter? Que Manchester europeu, sem Ronaldo, depois de duas finais consecutivas? Motivos mais do que suficientes para um espectáculo memorável.

Olegário Benquerença, árbitro português, em alta após a chamada para a África do Sul, apitou para o início da acção. A bola começou a rolar. Três minutos: livre de David Beckham, contra o seu Manchester, mais um chamariz este reencontro, golo feliz de Ronaldinho. Seguiram-se largos minutos de bom futebol do Milan, esquecendo as tácticas tipicamente italianas, impulsionados por um Ronaldinho de luxo, no regresso ao seu melhor. A vantagem poderia ter sido ampliada. Numa disputa tão igual, entre equipas de topo, não se pode falhar. Quase sem saber ler nem escrever, Paul Scholes empatou. Se o golo dos italianos tinha sido feliz, este caiu do céu aos trambolhões. O Milan estava por cima, iria continuar, com o intervalo pelo meio, criando perigo que Van der Sar anulou sempre bem.

Quem tanto desperdiça arrisca-se a sofrer. Se a outra equipa for o Manchester United, ainda mais. Se tiver um avançado, um profissional, com a tarimba de Wayne Rooney, triplica a força da ameaça. Faltava pouco menos de meia-hora para o final, Valencia entrou para o lugar de Nani. Da primeira vez que tocou na bola, à direita, cruzou-a para a área. Rooney fez o resto, de cabeça. Nem dez minutos se passaram, a cena foi parecida: passe sublime de Fletcher, desvio do mesmo suspeito perante Dida. Um diabo à solta, um portento, um avançado letal, sem medo de ser injusto para o adversário. Com toda a calma do planeta, facilidade que chega a impressionar. O público de San Siro tinha começado em festa, estava agora cabisbaixo, o Milan não merecia levar com um Rooney diabólico.

Apesar de ser a primeira mão, sofrer três golos em casa é meio caminho andado para não chegar mais além. Acrescem os problemas quando o adversário é um oponente de peso. Os adeptos rossoneri saíram antes da hora. Assim, perderam mais um momento de espectáculo: Ronaldinho cruzou, Seedorf antecipou-se aos defesas e desviou, com um toque fenomenal de calcanhar, pura classe invejável, a bola do alcance de Van der Sar. A eliminatória ficou relançada, mesmo levando vantagem, está longe de ser um dado aquirido para os red devils. Cinco minutos depois da obra-prima de Seedorf, apenas ofuscada pela exibição soberba de Rooney, Olegário deu por encerrado o primeiro acto. Dois-três, continuação de espectáculo garantida para o Teatro dos Sonhos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Liga dos Campeões: A noite dos erros de Fabianski

COMENTÁRIO

Lukasz Fabianski seria, à partida, o suplente de Almunia. Em vésperas de jogar no Dragão, o guarrda-redes titular lesionou-se e o polaco saltou para ocupar a vaga. Não estaria à espera, contudo, de uma noite tão negra. Para além de não ter sido o escudo que a equipa precisava, apesar de ainda ter feito um par de boas defesas, falhou em dois momentos fundamentais. O FC Porto agradeceu as benesses, cumpriu a sua parte, festejou e ganhou. Depois de onze minutos intensos, ofensivos, com duas ameaças de Rúben Micael e Hulk, uma espécie de D. Sebastião do Porto, pelo meio, os portistas marcaram. Um golo fortuito, a primeira prenda de Fabianski para o Dragão: Varela cruzou largo, demasiado adiantado para os colegas, demasiado fácil para neutralizar e o o guarda-redes lançou-se à bola. Foi atabalhoado, deu golo.

Em desvantagem, mesmo com uma equipa retalhada, o Arsenal conseguiu circular a bola junto da área de Helton, criou oportunidades para um empate que o guarda-redes brasileiro negou, aproveitou um recuo portista. Oito minutos depois de marcar, foi a vez de o FC Porto agradecer o presente de Fabianski. A bola sobrevoou toda a área, ninguém a afastou, chegou a Sol Campbell: sozinho, sem que ninguém ousasse chegar-lhe perto, atirou para a baliza de Helton. Como foi possível deixar aquele gigante isolado a dois metros da linha de golo? O jogo estava equilibrado, o resultado certo, o apito de Martin Hansson foi quebrando o ritmo. O FC Porto concedeu demasiado espaço de acção ao Arsenal, viu os Helton travar um cabeceamento forte de Bendtner. Respondeu Rúben Micael, foi a oportunidade de redenção para Fabianski.

A defesa do guarda-redes do Arsenal, ainda antes do intervalo, serviu para atenuar um pouco a imagem dasastrada que ficara do primeiro golo. Porém, estava escrito que Fabianski haveria de ser o vilão. Cinquenta e um minutos: Falcao é lançado em profundidade, corre com o veterano Campbell, pouca frescura, obriga o central, entre múltiplas hesitações, a atrasar a bola para o seu guarda-redes. Lukasz Fabianski, ingénuo, segura a bola com as mãos. Livre para o FC Porto. Rúben Micael recebe a bola do guarda-redes adversário, coloca-a no chão, dá para Falcao fazer o segundo golo. Olhos postos em Martin Hansson, tudo legal, tudo certo, vantagem azul, ataque de nervos de Arsène Wenger. Daí até final, excepção feita ao último esforço dos gunners, o FC Porto controlou a partida, foi firme e consistente na forma como geriu a partida.

Apesar disso, o resultado não é totalmente satisfatório. Ganhou, é certo, mas sofreu golos. Na Liga dos Campeões, onde as contas finais dependem imenso dos resultados alcançados fora de casa, poderá ser um factor importante. Seja como for, o FC Porto mostrou que tem condições para estar presente nos quartos-de-final da competição. Tudo se decidirá, a 9 de Março, no Emirates Stadium. Aí, por certo, o Arsenal já contará com jogadores importantes como Almunia, Gallas, Arshavin ou Eduardo que, por lesão, falharam a partida no Porto. Para os dragões é imperativo que não concedam tanto espaço ao Arsenal. Está, portanto, tudo em aberto. A primeira batalha ante os gunners foi vencida. Com um contributo de Fabianski.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Um sorriso que não se esquece (antevisão)

É agora o início do verdadeiro espectáculo da Liga dos Campeões. Só os melhores são capazes de resistir. Acabaram-se as contas, os pontos não interessam. Na temporada anterior, o FC Porto conseguiu terminar entre as oito melhores equipa europeias, caiu aos pés do Manchester United, então defensor do título, embora tenha ficado com a sensação de que com um bocadinho de sorte podia ter chegado mais longe. Saiu, por isso, de cabeça levantada. Nesta época, o mínimo exigível era a presença nos oitavos. Objectivo cumprido com mérito, embora o Chelsea tenha alcançado o primeiro lugar do grupo. Para o FC Porto, o segundo apurado, ficaram os adversários mais fortes. Estavam por lá Barcelona e Manchester United. Calhou o Arsenal.

Será, portanto, uma eliminatória entre duas equipas que se conhecem bem. O FC Porto tem um vasto historial de confrontos com equipas britânicas, tanto na fase de grupos como nas eliminatórias da Liga dos Campeões. A última vez que defrontou os gunners foi na época anterior, quando o sorteio ditou que ambas ficassem no mesmo grupo. O percurso dos dragões teve metamorfoses, os confrontos com o Arsenal coincidiram com dois estados diferentes da equipa azul. Em Londres, no mês de Setembro, o FC Porto saiu vergado a uma humilhação, quatro golos sofridos que poderiam ter sido muitos mais pela tamanha apatia generalizada a todos os jogadores. No banco, após o último golo, Arsène Wenger ria-se às gargalhadas.

Esta imagem de gáudio do treinador francês, perante a impotência de Jesualdo Ferreira, ficou bem marcada nas mentes portistas. Não houve quem não pensasse em vingar aquela sátira que havia sido feita ao FC Porto. Foi algo conseguido, no Dragão, em Dezembro: vitória categórica por 2-0 que valeu o primeiro lugar do grupo, embora o Arsenal, por já ter a qualificação assegurada, tenha jogado com uma equipa sem alguns jogadores titulares. Não foi, por isso, totalmente satisfatório para os dragões, até porque o apuramento já havia sido alcançado. Hoje, nesta primeira mão da Liga dos Campeões desta temporada, Wenger também não traz vários jogadores importantes. Não pode fazê-lo. O jogo, agora, é fundamental para ambos.

Uma vaga de indisponíveis invadiu, em vésperas de jogar no Dragão, a equipa do Arsenal: Almunia, Gallas, Song, Arshavin e Eduardo da Silva lesionaram-se, juntando-se a um rol que já tinha Van Persie, Djourou e Gibbs. Os gunners já se haviam mostrado receptivos a um possível nulo, com o intuito de levar a decisão para Inglaterra, e, com este desfalque, poderá mesmo ser essa a filosofia adoptada pela equipa de Arsène Wenger. No FC Porto, sem Rodriguez, Farías e Orlando, há o regresso de Hulk. Suspenso no campeonato, o brasileiro foi chamado por Jesualdo Ferreira, mas não é crível que entre para a equipa titular. Ao invés, Fernando e Raúl Meireles deverão ser opções iniciais. Contra os canhões, marcar e não sofrer!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Liga Europa: A esperança é a última a morrer

COMENTÁRIO

O resultado, antes de mais: o Sporting perdeu 2-1, em Liverpool, frente ao Everton. Facilmente se conclui, por isso, que nada estará decidido até à partida de Alvalade. Para uma equipa que atravessa um momento tão conturbado, leva quatro derrotas consecutivas nas provas nacionais e apenas tem a continuação na Liga Europa como um objectivo intacto, o resultado não é totalmente negativo. Este Everton é, afinal, uma equipa bem diferente da que o Benfica cilindrou, ainda na fase de grupos, com um total de sete-zero nos dois jogos. Contudo, por aquilo que os leões fizeram na primeira parte poderiam ter ambicionado algo mais neste primeiro jogo, mas a exibição na segunda metade ficou abaixo do que era expectável. Daí que seja um mal menor.

Na prática, olhando à frieza dos números, é apenas mais uma derrota para o Sporting. Depois de ter alcançado sete triunfos consecutivos, entre 19 de Dezembro de 2009 e 29 de Janeiro de 2010, a partir da deslocação a Braga nunca mais os leões se conseguiram encontrar. Na primeira parte do jogo de Goodison Park, a equipa leonina, regressada ao 4x2x3x1 dos primeiros tempos de Carlos Carvalhal, com uma aposta clara para suster o ímpeto dos toffees que se fizeram valer de um futebol directo e pouco trabalhado. O jogo foi enrolado, dividido, com poucas ocasiões de golo. Saha e Osman, na mesma jogada, foram quem abriu as hostilidades. Rui Patrício agigantou-se, manteve o nulo.

O jogo ofensivo do Sporting desenrolou-se, sobretudo, pelo lado direito, muito por culpa da acção de Izmailov. Foi precisamente daí, numa boa incursão de Abel no ataque, que os leões criaram algum perigo para a baliza de Tim Howard. Pouco depois, o Everton desfez o equilíbrio dominante: Phil Neville abriu a defesa do Sporting, Tim Cahill jogou de calcanhar, Piennar rematou certeiro. O golo poderia ter abalado a equipa leonina, já por si fragilizada, mas teve um sentido contrário. O Sporting reagiu bem, criou oportunidades para o empatar, acertou no poste da baliza do Everton por Izmailov. Na segunda etapa, importava manter a pressão forte para chegar à igualdade rapidamente. Agora, contudo, foi o contrário.

Uma entrada em falso, uma intercepção falhada de Patrício e um novo golo dos toffees - marcado com o braço de Distin. Desta vez, com dois golos de desvantagem, a equipa portuguesa não reagiu bem. O Everton tomou conta do jogo, acentuou o seu domínio perante a passividade do Sporting. Carlos Carvalhal lançou Yannick e Saleiro, na procura de um golo que alimentasse a esperança da reviravolta, fosse imediata ou agendada para o segundo jogo, a 25 deste mês, os leões voltaram a acreditar. A cinco minutos dos noventa, Yannick lançou Liedson, Distin cometeu grande penalidade e Miguel Veloso, com categoria, enganou Howard. Um golo que pouco serviu em Goodison Park, mas que poderá fazer toda a diferença para a passagem.

Liga Sagres: Os galões de estar no topo

ANÁLISE

Jornada de empatas, oportunidade agarrada pelos líderes para se destacarem da concorrência mais próxima: o Benfica mantém o primeiro lugar, um ponto e um jogo a mais, o Sp.Braga mantém o sonho do título intacto, continua a alimentá-lo de pontos, de vitórias e de solidez. A vigésima jornada, a próxima, será escaldante. O Benfica tem o seu jogo com o União de Leiria ganho, jogou-o antecipadamente. As atenções estarão, por isso, complementamente centradas no Dragão, num Sp.Braga e FC Porto de enorme importância. Os bracarenses podem ser líderes isolados, o campeão ficará demasiado longe do título. Ou, por outro lado, o FC Porto poderá recuperar... e deixar o Benfica no trono.


Sem ponta de deslumbramento, vivendo à sombra de um golo precoce à luz do dia, o Benfica venceu o Belenenses. Nem outra coisa seria de esperar, aliás, neste duelo, um derby, de extremos, entre primeiro e último classificados. O golo marcado por Óscar Cardozo, a papel químico do obtido frente ao União de Leiria, num cabeceamento fácil junto à baliza, jogando nas costas da defesa contrária, fez com que o Benfica arrumasse rapidamente a questão e se servisse da eficácia do paraguaio como uma almofada. Acomodou-se à vantagem. O Belenenses deu uma imagem bem positiva, deixou indicações para um futuro melhor, mostrou poder largar o último lugar. Se no futebol há vitórias morais, para a equipa de Toni, esta foi uma.


Portas abertas, enchente nas bancadas, confiança em alta para manter bem acesa a chama bracarense. Acossados pela vitória do Benfica, com um adversário complicado pela frente, o Marítimo, era necessário que os jogadores dessem uma resposta inequívoca. Têm valor, disso já ninguém duvida, mas no futebol é imperativo que a mente acompanhe tudo aquilo que o corpo quer fazer. Não basta dizer que é candidato, precisa de o mostrar no campo. É isso que o Sp.Braga faz. A exibição ante os maritimistas não foi um regalo para a vista, foi capaz para desatar dois nós: Meyong desbloqueou o nulo, um golaço de Djalma fez regressar tudo ao início, Luís Aguiar deu a vitória - num lance antecedido de irregularidade. De raiva.

A vitória, um único caminho para recuperar a rota do título, proibição de errar. Num derby antigo, na casa do Leixões, agora motivado pela chegada de Fernando Castro Santos, sabia-se que os dragões não teriam tarefa facilitada. Como se no relvado se apresentasse um aviso gigante: perigo de queda. Os leixonenses fizeram por se mostrar, não só ao campeão mas também ao novo treinador, aproveitaram uma entrada em falso do FC Porto. À medida que os portistas se tornaram mais incisivos, embora muito perdulários e nada eficientes na finalização, o Leixões endureceu o seu jogo. Conseguiu prolongar o nulo, teve mérito no demérito azul. Sobram, ainda, queixas de Bruno Paixão: não marcou uma grande penalidade sobre Rúben Micael.

Uma equipa grande em queda livre, um Sporting em recaída depois da retoma, de novo em graves problemas, na busca de quebrar um ciclo horrível de quatro derrotas. Uma deslocação tradicionalmente difícil a Paços de Ferreira, frente a uma equipa tranquila e moralizada. Como reagiriam os leões depois de terem deitado tudo a perder? Com uma exibição fraca, sem dinâmica, sem a velocidade que se impunha. O Paços de Ferreira apostou na solidez, pouco fez para chegar à baliza de Rui Patrício. O jogo foi demasiado mau. Teve emoção no final, quando Matías Fernández, por duas vezes, não conseguiu colocar a bola na baliza pacense. Foi tarde. O nulo fica-lhes bem, assenta na perfeição, perante tamanha falta de futebol bem jogado.

Pela segunda jornada consecutiva, o Sporting corria o risco de ser passado pela União de Leiria. Objectivo falhado. Das duas vezes, já que os leirienses empataram com o Vitória de Setúbal - sexto jogo seguido dos sadinos sem perder, quinto empate desde a vitória com o Marítimo. O Rio Ave poderia ter igualado os leões, mas também não o conseguiu - a um, na Madeira, ante o Nacional. Jornada de empates, vai mais um: em Coimbra, a um, entre Académica e Olhanense. E outro, no encerramento da jornada, para começar na Figueira da Foz como começara em Paços de Ferreira: sem golos. Entre Naval e Vitória de Guimarães. Distanciamento do Benfica e do Sp.Braga no topo, mais um ponto a separar o Belenenses da salvação.


Opinião: Preparem o próximo assalto, faz favor...


Imagine-se um boxeur combalido, visão turva, com pouco crédito para ousar colocar em causa reis como Rocky Marciano ou Muhammad Ali. No ringue, no final do terceiro assalto, tem a derrota certa e continua a levar pancada. Lá está, encostado às cordas, sem esboçar reacção. Este martírio nunca mais acaba, pensa ele. E pensa o treinador que baixa a cabeça, já sem a energia do início quando se colocava no canto e batia no tapete. Também quem investiu nele, quem ainda pensava que poderia estar ali um novo vencedor, um novo héroi a emergir. Agora as dúvidas estão desfeitas, nada há a ganhar, só a perder, as nódoas negras ficam para combates futuros. Não há lugar a compaixão. É a hora do golpe de misericórdia. Knock-out.

Começa a contagem decrescente por parte do árbitro. O boxeur está no tapete. O adversário quer continuar a servir-se dele como cobaia para aprimorar as suas técnicas, não pode ir já embora. Mas vai acabar. Não restam forças. É o adversário intransponível que o arrasou, é o desalento do treinador que já não consegue dar um choque reactivo, são os apoiantes desiludidos com as apostas. Deixemos o boxe por um instante, transportemos a situação para o Sporting. Aí está o boxeur derrotado, Carlos Carvalhal é o líder que poucas soluções tem para fazer com que os seus comandados se levantem, José Eduardo Bettencourt quem não sabe que mais há-de fazer, os adeptos já há muito se desligaram. Afastado das provas a que concorreu, sem qualidade de jogo, cada vez em baixo.

Para o boxeur, é humilhante ver que o seu adversário está de braços no ar, bem abertos, com uma multidão a louvar-lhe o esforço e a forma como venceu o combate. Mas, por outro lado, é sinal de que acabou. Fim, nada mais acontecerá, o corpo agora vai ao sítio. Mais dia, menos dia e venha outra. Para o Sporting também é assim. Os sportinguistas anseiam pelo final da temporada, já passaram por muito, não querem mais três meses de desilusões, a servirem de saco de pancada, motivo permanente da chacota de quem ganha. O final apenas confirmará tudo aquilo que de mau vem acontecendo. Podia ser já. Afinal, o campeonato está perdido, as outras provas internas também, sobra apenas a Liga Europa. Mas quem acredita num brilharete?

O Sporting está a viver uma das mais difíceis épocas dos últimos tempos. É nos resultados, é nas exibições, é nos troféus que já se perderam. Há ainda outros golpes, fortes e arrasadores do pouco que restava, vindos de dentro que servem somente para acentuar a superioridade que os outros mostram. Não há estabilidade. E não há sucesso. É uma causa e um efeito, ao mesmo tempo. É, por isso, que se diz que o final é o melhor remédio: terminarão as decepções, as surpresas teóricas mas que na prática não espantam ninguém, haverá tempo para ver e rever os erros, corrigi-los e preparar um novo assalto. Esquecer o passado tristonho, preparar um futuro alegre. Com sucesso à vista. Deixando o papel de derrotado por antecipação para outro.

Não é, como o leitor sabe, o que tem sido feito no Sporting. Nos leões há uma aposta na juventude. É errado? Não, é esse o caminho. Mas é pouco. Uma equipa que quer ser campeã, conquistar as outras provas nacionais e fazer boa figura no estrangeiro precisa de outros recursos. Por mais qualidade que os jogadores da formação tenham, sente-se sempre a inexperiência, nos momentos capitais há alguma falha que deita tudo a perder. Os últimos anos do Sporting têm sido assim, sem mexer uma palha. A equipa falha o título, mas fica à frente de um grande rival, o Benfica, e soma alguns troféus. Contenta-se, é melhor do que nada. A concorrência, contudo, melhora e encontra outras soluções. Está fortalecida.

Benfica e FC Porto haverão de ser sempre como Mike Tyson e Evander Holyfield naquele célebre combate de 28 de Junho de 1997, em guerra permanente, ataque cerrado por todos os meios, duas trincheiras num registo bélico sem tréguas. Por vezes parecem isolados, até os próprios rivais se esquecem que há mais alguém para além deles. Poderá dizer o leitor: o Sporting, não que isso valha de muito, nas últimas quatro temporadas foi vice-campeão, tem sido o principal rival do FC Porto no campeonato, tem mais títulos do que o Benfica nesta década. Sem discussão. Mas não tem o historial dos encarnados ou a força dos azuis na última vintena e meia de anos. Nem o mesmo fervor guerrilheiro. É um clube diferente.

Agora e até Maio, a única coisa que resta aos jogadores do Sporting é que defendam a camisola com brio e joguem sempre para a vitória. Os títulos serão de outros, é um dado garantido, mas estamos a falar de um grande, de uma equipa que quer continuar a ter um nome superior no futebol português. Em Maio, leitor, poderemos recuperar este texto e perceber se, apesar de tudo, houve alguma melhoria ou se continuou a sina decadente. Independentemente do que acontecer, o mais importante é que se saiba o que falhou, que se preencham esses buracos, fique tudo tratado atempadamente. Para quando chegar um novo ano, um novo assalto, o boxeur esteja preparado para a vitória. Com todas as condições. Sem que seja missão impossível.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Há mar e mar, há ir e... empatar

Ponto prévio: o FC Porto atrasou-se na luta pelo título. No Mar, os dragões patinaram frente a um Leixões, no pós-José Mota e na estreia de Fernando Castro Santos, mudado para bem melhor. Há, portanto, mérito do adversário na forma como iniciou o jogo, como foi prolongando o nulo e, após ter quebrado fisicamente, enervou os portistas e compôs a sua defesa. Não é bonito, é claro que não, nem muito menos é futebol, mas é a estratégia utilizada quando nenhuma outra resta. Aos leixonenses, a precisar de pontos para sair urgentemente dos últimos lugares, este empate sabe a vitória. Ante o campeão, um grande e um rival da cidade que se tem dado bem nestes confrontos. Aos portistas, são nove pontos que separam o Benfica, embora o líder tenha um jogo a mais. Ainda conseguirão escalar para o topo?

O empate do FC Porto ante o Leixões explica-se em vários factores. O primeiro deles é bem claro, prende-se com a acção da equipa azul que entrou mal no jogo, não conseguiu assumir a sua superioridade, voltou a viver velhos problemas na ligação para o ataque e faltou-lhe velocidade e imaginação para romper a defensiva leixonense. Por isso, foi dando espaço para que o Leixões procurasse a sua sorte. Jogo duro, sem espaço a brilhantismos, mais físico do que técnico e, acima de tudo, prático para chegar aos pontos: é esta a filosofia de Castro Santos, no regresso ao futebol português, para colocar os matosinhenses numa posição estável na tabela. O FC Porto, há que dizê-lo, nunca se soube adaptar às condições bélicas impostas. Houve, depois, outro problema nos dragões: a eficácia. Ou a falta dela.

O exemplo mais gritante da displicência que invadiu os portistas nesta visita a Matosinhos foi dado por Silvestre Varela. Ficou com a bola nos pés, isolado e com tudo para marcar, correu em direcção à baliza do Leixões. O extremo poderia ter rematado para a baliza, mas pretendeu contornar o guarda-redes e não teve sucesso. Há mérito na forma como Diego saiu rapidamente da baliza e reduziu o espaço, sem dúvida, mas Varela tinha tudo para fazer melhor. Antes disso, Belluschi acertara em cheio na trave. O FC Porto melhorara. Mas, lá está, faltou a eficácia. Os leixonenses fizeram do seu jogo uma batalha agressiva e disputada, os dragões não tiveram capacidade para derrotar a muralha. O último factor: uma grande penalidade que Bruno Paixão deixou passar em claro. Tudo junto dá um empate amargo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Sporting de 2009-10 ou uma equipa sem sossego

O futebol é um jogo ingrato. Pode criar um herói e desfazê-lo logo a seguir. É um jogo de sorte, também: não há nenhuma equipa que consiga chegar ao sucesso sem uma pontinha de felicidade. Contudo, se há quem tenha uma permanente estrelinha que anula qualquer deslize, a outras tudo corre mal. O Sporting vive um dos mais complicados períodos do seu percurso, exemplifica na perfeição como o erro e o azar estão de braço dado. Nenhum problema nasce do nada, todos têm a sua origem. O do Sporting vem da pré-época: pouco investimento, reduzida actividade no mercado e até ambições reduzidas para um grande que se compromete a vencer as provas internas e a ser bem sucedido na Europa, enfim, nada que esteja de acordo com a condições que os leões têm. Depois, tudo se desenrolou partindo daí.

Os resultados dos jogos de pré-temporada, com apenas uma vitória frente ao modesto Atlético do Cacém, foram um mau prenúncio. Completamente confirmado. A equipa nunca se encontrou verdadeiramente, somou tropeções no campeonato que os rivais directos aproveitaram para se fixarem no topo, viu-se afastada de forma inglória da presença na fase de grupos da Liga dos Campeões. Sem ter meios para melhorar, com uma equipa apática e sem reacção perante os problemas, precisando urgentemente de um choque que a tornasse reactiva, o espaço de Paulo Bento reduziu-se. Não que fosse o maior responsável, mas o ciclo expirara. A saída de Bento foi apenas o princípio da ruptura: com o treinador demitiram-se também os dirigentes responsáveis pelo futebol leonino, Pedro Barbosa e Miguel Ribeiro Telles.

Carlos Carvalhal foi o escolhido por José Eduardo Bettencourt. Ao novo treinador já nenhum adepto pedia o título, apenas que alcançasse uma prestação honrosa para o Sporting e conseguisse sucesso nas outras provas - vitória, pelo menos, numa taça interna e confirmação da presença nos dezasseis-avos-de-final da Liga Europa. Quer isto dizer que a principal função do novo treinador estava, portanto, em recuperar animicamente a equipa, melhorar os índices de rendimento e, claro, obter vitórias. O Sporting é, afinal, um clube com grande historial no futebol português. Os adeptos fizeram tréguas na contestação, os jogadores readquiriram a tranquilidade necessária para trabalhar. Mesmo estando longe de ser unânime, Carvalhal fora o escolhido de Bettencourt e, por isso, deveria ser-lhe dado crédito.

Ao comando de Carvalhal, o Sporting conseguiu um futebol bem mais dinâmico, consistente, ligando melhor os sectores, deixando de ser uma equipa tão receosa. Sete vitórias consecutivas, terminar 2009 a vencer e um registo imaculado de quatro jogos em 2010, foi um bálsamo para os adeptos. Aliado à melhoria exibicional, vieram os resultados. Para uma equipa que tão mal se encontrava, é significativo. Não se pretende dizer, contudo, que os leões passaram do oito ao oitenta. Nada disso, ainda muito havia para melhorar, seria esse o percurso até ao fim da época que Carlos Carvalhal teria de conseguir. Foi assim até há duas semanas. De lá para cá, o Sporting averbou quatro derrotas (Braga, FC Porto, Académica e Benfica). Perdeu tudo: adeus definitivo ao campeonato, exclusão da Taça de Portugal e da Taça da Liga.

Não há quem resista a tão negro ciclo. Se a conquista do título de campeão nacional era já uma utopia, o Sporting poderia ter compensado esse fracasso com alguma das provas internas. Não o conseguiu, terminando, em ambas, vergado aos rivais de sempre: 5-2 no Dragão, 1-4 ante o Benfica. Num momento tão complicado, é imperativo que os líderes se destaquem. O líder da equipa e o líder do clube: Carlos Carvalhal e José Eduardo Bettencourt, portanto. Nem um nem outro, porém, o fizeram da melhor forma. Carvalhal, no final da partida com o Benfica, a quente, afirmou que começava a fartar-se de "Barbas, Gordos e Shreks que semanalmente colocam em causa o meu profissionalismo." É verdade que está longe de ser o responsável pelo estado do Sporting, mas são declarações inoportunas e nada benéficas ao clube.

É evidente, nesta altura, que o Sporting não possui uma estrutura forte que seja capaz de lidar da melhor forma com os (muitos) obstáculos que vão surgindo. Poderá ser mera coincidência, mas fica a ideia de que o desentendimento entre Sá Pinto e Liedson foi mais um factor que levou à perda do rumo que a equipa encontrara. Essa ruptura causada pelo então director-desportivo foi um abalo que afectou também Bettencourt, deixando-o novamente desapoiado na liderança. Onde já tem dado provas de ser mais emocional do que racional, agindo mais com o coração de adepto do que com a frieza de quem comanda. Numa fase tão complicada, como se explica que tenha recordado Paulo Bento?: "Se cá estivesse, faríamos uma boa dupla, porque seríamos os dois a dar o corpo às balas". Disse-o hoje. Incompreensivelmente.

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