terça-feira, 5 de outubro de 2010

Um castelo à prova de dragão

Abdelghani Faouzi. Deixou Marrocos aos vinte e cinco anos para experimentar um novo futebol, agradou a Manuel Machado e o Vitória de Guimarães abriu-lhe as portas. Tem sido pouco utilizado. Saltou para a ribalta no jogo com o FC Porto. Vantagem azul, aparente controlo, décima segunda vitória consecutiva bem encaminhada, passo triunfal no campeonato do dragão que cedo se fixou na liderança. Faouzi é chamado. Entra para o lugar de Marcelo Toscano - o brasileiro perdera, no início, uma oportunidade de ouro para colocar o Vitória na frente e nunca mais conseguiu realmente recuperar a confiança. À hora de jogo, com o marroquino em campo, o jogo abanou. O controlo exercido pelo FC Porto não era, afinal, assim tão convicente: o Vitória mantinha-se vivo, ainda dispunha de tempo para tentar a sua sorte, a vantagem tangencial nada garantia, mantinha-se o perigo e, a qualquer momento, os vimaranses poderiam empatar.

Faouzi entrou à revolucionário. Tudo mudou depois de estar em campo. Bastaram-lhe três minutos. Recebeu um passe longo de Ricardo, aproveitou a altivez de Fucile, superiorizou-se ao lateral uruguaio, isolou-se, encarou Helton e marcou. Eficaz, letal e oportuno, o marroquino picou o dragão, travou-lhe a marcha vitoriosa, anulou a vantagem do líder e voltou a chamar o FC Porto, que relaxara e levantara o pé do acelerador julgando ter os três pontos amealhados, para o jogo. A equipa portista lançou-se para cima do rival, correu atrás do tempo perdido, percebeu que se acomodora demasiado cedo. Exaltou a capacidade individual, Hulk e Rodríguez tentaram resolver sozinhos, deixou que o passar dos minutos o prejudicasse, o levasse a jogar mais com o coração, tornou-se emocional e não ultrapassou a belíssima muralha defensiva do Vitória. Faouzi, a dez minutos do final, foi pisado por Fucile. Cartão vermelho para o uruguaio. Novo golpe.

Resumindo: Faouzi entrou aos sessenta e um minutos, marcou aos sessenta e quatro e levou à expulsão de Fucile, a quem ganhara no lance do golo, aos setenta e nove. Deixou o uruguaio com a cabeça em água, atordido e intimimamente ligado ao jogo. Com tudo feito, ajudando a sua equipa a renascer e a colocar-se em igualdade com o FC Porto, o marroquino, não recuperando da lesão e já sem poder ver Manuel Machado lançar alguém para o seu lugar, deixou o relvado a seis minutos dos noventa. Num jogo intenso, eléctrico e vivo na primeira parte, progressivamente baixando de qualidade com o tal arrefecimento do dragão, com o aumento de picardias e de virilidade colocada em cada lance, Faouzi foi decisivo. É sobretudo com ele, por ter sido o autor do golo, que ficam as responsabilidades do primeiro desaire, embora com um ponto conquistado, do FC Porto desta época. O dragão só ganhara. Em Guimarães, empatou. Sabe a derrota.

Um grande está obrigado a vencer sempre. Mesmo que pela frente encontre uma equipa aguerrida, voluntariosa e guerreira que gosta de surpreender, sabe o que procura e está bem orientada. O FC Porto até fez o mais difícil: marcou cedo, à meia-hora, conseguindo tranquilizar-se e evitar o desassossego de ter de partir para uma busca desenfreada pelo golo. O dragão entra forte, acelera, ganha a bola, tem uma alta percentagem de posse de bola e subjuga o adversário. Só que, abusando da sobranceria e do convencimento de quem é líder destacado e cultiva um hábito de vitória desde Agosto, no dia em que bateu o Benfica na Supertaça Cândido de Oliveira, diminuiu os níveis de concentração, não demonstrou a mesma capacidade para criar lances de golo iminente e deixou fragilidades a nu. Como acontecera, por exemplo, em Sófia, ante o CSKA, no último jogo oficial. Fora um prenúncio. Confirmado pelo Vitória de Guimarães.

André Villas Boas exaltou-se, protestou, foi expulso e manteve-se crítico. Foi desconcertante com a exibição de Carlos Xistra. Na realidade, o árbitro, em prejuízo dos dragões, tem um erro grave: a dois minutos dos noventa, num lance em que Falcao se isolara, o árbitro assistente, sem motivo para fora-de-jogo, interrompeu a jogada que colocaria o uruguaio perante Nilson. Para o treinador portista, há ainda uma grande penalidade, minutos antes da certíssima expulsão de Fucile, por mão de Alex. As repetições tardaram, Carlos Xistra ficou com o benefício da dúvida e, pelo que agora foi mostrado, não existe razão para grande penalidade. Seria, fosse como fosse, sempre exagerada a reacção de André Villas Boas. Mas percebe-se: é jovem, poderia atingir um patamar de excelência, abrilhantando ainda mais o início de época do FC Porto, viu a sua equipa colocar-se à mercê da revolta vimaranse e foi impotente. Mesmo assim, o dragão está isolado.

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