terça-feira, 20 de julho de 2010

97ºTour de France: Contador disparou em Andy

Andy Schleck e Alberto Contador, jovens, sedentos de glória no Tour de France, inédita ou repetida, para deixarem a sua marca na galeria dos notáveis. Ficaram, desde cedo, como grandes candidatos à vitória final. E as distâncias que conseguiram criar, alargar e cimentar em parceria, permitiram que reduzissem as preocupações a um: Andy preocupou-se com Contador, Alberto quis atacar e ser mais forte do que Schleck. Expectantes, calculistas, receosos. Nenhum deles ousou arriscar um passo maior do que a perna, ambos jogaram à defesa, sobretudo Andy Schleck, para preservarem as suas posições. Os quarenta e um segundos de vantagem, estabelecidos após a terrível etapa nos Alpes em que Cadel Evans, anterior líder, quebrou por completo, nunca funcionaram, contudo, como garantia para Andy Schleck. A vantagem, curta, poderia ser diminuída na montanha. Ou no contra-relógio. Onde Contador é mesmo mais forte.

O jogo do gato e do rato. Amarrado, com expectativa, sem deixar o outro escapar. Andy Schleck e Alberto Contador anulam-se mutuamente. Procuraram atacar, deixar o rival para trás, sentir as pulsações do adversário, perceber quais as verdadeiras condições. Os dias avançam, o desgaste aumenta, a equipa deixa de ter um papel tão activo. Na montanha, Schleck e Contador disputam a vitória final no Tour. Tudo o resto é secundário, quem os passa, quem se isola, quem ganha metros para ser feliz. Até mesmo quem ganha a etapa. É na luta pela camisola amarela que será vestida em Paris, o máximo de cada ciclista, que mais interessa. Nos Pirinéus, aos poucos, Contador foi recuperando tempo. Fê-lo, pela primeira vez, na décima segunda etapa: atacou forte, testou a capacidade de resposta de Andy Schleck e, em bom plano, ganhou dez segundos preciosos. O tempo que o luxemburguês lhe conquistara na jornada de pavé.

Alberto Contador é um ciclista explosivo, forte e, sempre que bem preparado, muito difícil de anular na montanha. Tem frieza, nervos de aço, matreirice. Os quarenta e um segundos de atraso para Andy Schleck nunca foram, na perspectiva do espanhol bivencedor do Tour, em 2007 e 2009, desanimadores. Pelo contrário: Contador é mais forte no contra-relógio e, se chegasse à penúltima etapa com um atraso semelhante, teria todas as condições, em teoria, para sair por cima. Também na montanha, onde ele e Andy Schleck se equivalem, teria que aproveitar o momento certo e procurar, pelo menos, encurtar ainda mais a distância. A marcação cerrada, incessante e fria entre Contador e Schleck, dois rivais que se respeitam e conhecem o valor que possuem, foi uma constante na escalada até Ax 3 Domaines, na décima quarta etapa. Alberto Contador precisava que Andy Schleck quebrasse. Ou tivesse alguma infelicidade.

AZAR E SORTE: ELEMENTOS SEMPRE PRESENTES


Apesar de liderar, Andy Schleck teria de procurar ganhar tempo na montanha. Teria de atacar, testar, colocar Contador à prova. Na décima quinta etapa, como na véspera, houve muita táctica entre os dois. Anularam-se, impediram ataques, estiveram em alerta máximo. Andy Schleck, confiante e capaz, procurou isolar. Alberto Contador, atento, seguiu-o de pronto. Foi, no fundo, apenas uma tentativa de perceber se o rival se encontrava preparado. Estava mesmo. A armada de Schleck, aproveitando um mau posicionamento de Contador, repetiu-se: o ciclista luxemburguês da Saxo Bank arrancou forte, num ritmo vigoroso e pujante, destacando-se do grupo em que seguia. Desta vez poderia causar danos. Um azar, tremendo e atroz, impediu-o: a corrente da sua bicicleta saltou, deixou-o parado e Contador, levando Samuel Sánchez e Denis Menchov, também perseguidores na geral, impuseram-se e passaram ao ataque.

Andy Schleck deixou, num ápice, uma posição privilegiada para ficar numa missão impossível de lutar contra o relógio. É irónico, sim, mas Contador, o seu rival, aproveitou o endurecimento do ritmo causado pelo próprio Schleck. No azar do ciclista luxemburguês da Saxo Bank, Alberto Contador, ultrapassando Alexandre Vinokourov, seu companheiro na Astana, acompanhado dos mais directos perseguidores, Sánchez e Menchov, procurou ganhar o máximo tempo possível. O ciclista espanhol, antes com trinta e um segundos de atraso, cortou a meta em sétimo. Andy Schleck fez de tudo para recuperar, minimizar a perda até, mas chegou com um atraso de três minutos e meio em relação a Thomas Voeckler (BBox-Bouygues Telecom), vencedor da etapa, e, sobretudo, mais oito segundos do que Contador. A ordem está, agora, invertida: o espanhol lidera, o luxemburguês terá de atacar forte na montanha para recuperar.

A polémica instalou-se. Os assobios ouvidos quando Alberto Contador subiu ao pódio, preparado para vestir a camisola amarela, são um exemplo concreto. Tendo em conta o azar de Andy Schleck, porque foi disso mesmo que se tratou e não de uma quebra física, deveria o espanhol ter esperado pelo seu rival? Há quem diga que sim, que se tratou de uma atitude antidesportiva e que Contador, antes de atacar para aproveitar o problema mecânico de Schleck, deveria ter recordado o Tour de France de 2003, quando Jan Ullrich esperou por Lance Armstrong. Por outro lado, contudo, tratou-se de uma oportunidade de ouro para assumir a liderança, marcar territótio e, muito provavelmente, dar um passo decisivo rumo à conquista do seu terceiro Tour. Poderia Contador ter esperado? Sim. Mas atacou, pensou em si, procurou ganhar e viu no azar de Andy a sua sorte. Pode-se criticar, sim, mas nada, a não ser a ética do ciclismo, o impede.

A PRESENÇA GAULESA NAS ETAPAS E NA MONTANHA

Sem possuir um ciclista com condições para discutir a luta pela vitória no Tour de France, algo que não acontece desde o último triunfo de Bernard Hinault há vinte e cinco anos, o ciclismo francês procura mostrar-se nas vitória de etapas.
Esse objectivo tem sido conseguido. Na primeira semana de prova, Sylvain Chavanel (Quick-Step) venceu por duas vezes, conseguindo vestir a camisola amarela. Sandy Casar (Française des Jeux) triunfou na nona etapa, na chegada a Saint-Jean-de-Maurienne, superiorizando-se ao grupo em que seguia. Nos Pirinéus, com duas etapas duríssimas que provocaram mudanças na classificação geral, voltaram a ser ciclistas franceses a vencer: Christophe Riblon (AG2R La Mondiale) triunfou na décima quarta etapa e, no dia seguinte, foi a vez de Thomas Voeckler, campeão francês e ciclista da BB-Box. John Gadret, companheiro de Riblon, é, no décimo nono posto, o francês mais bem colocado.

O domínio gaulês sentido nas etapas da segunda semana do Tour de France 2010 foi interrompido durante quatro dias. Na etapa seguinte à vitória de Sandy Casar, no dia da tomada da Bastilha, Sérgio Paulinho (Radioshack) triunfou e impediu que os franceses, no seu feriado, pudessem sorrir. Seguiu-se uma vitória de Mark Cavendish (HTC-Columbia), a sua terceira, que se impôs no sprint da décima primeira etapa - está, contudo, longe da discussão da camisola verde, disputada de forma acérrima por Alessandro Petacchi (Lampre) e Thor Hushovd (Cervélo), com vantagem para o italiano. Joaquín Rodríguez, ciclista da Katusha, superou Contador no sprint a dois no final da etapa doze, ao passo que o regressado Alexandre Vinokourov (Astana), ultrapassado pelo seu líder na véspera, conseguiu isolar-se, surpreendendo as equipas que pretendiam uma chegada compacta, para alcançar a vitória na décima terceira tirada.

Na classificação de montanha, também os franceses dominam. Anthony Charteau, ciclista da BB-Box Bouygues Telecom, mantém-se, após a décima quinta etapa, como o rei dos trepadores. Seguem-se, nessa classificação, mais dois franceses: Jerôme Pineau (Quick-Step), que tem dividido com o compatriota esta liderança, e ainda Thomas Voeckler (companheiro de Charteau na BB-Box). Há, neste momento, uma diferença de vinte e três pontos entre primeiro e segundo classificados, porém esta é uma classificação que está bem longe de decidida, pois ainda existirão etapas importantes de montanha com muitos pontos em disputa. Andy Schleck (Saxo Bank) e Alberto Contador (Astana), embora não façam da montanha um objectivo prioritário, também se aproximaram dos primeiros lugares e podem ter aspirações legítimas a conseguir, em Paris, serem coroados como melhores trepadores. Será, sempre, uma consolação.

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