domingo, 13 de junho de 2010

Portugal em Mundiais: 2002 - Coreia do Sul/Japão

O Mundial do México, em 1986, ficou marcado como um dos capítulos mais vergonhosos do futebol português. Saltillo é uma mancha que não mais se apagará. Após o regresso inglório e cabisbaixo, a selecção nacional viu-se obrigada a mudar. Sofrera um duríssimo revés. A ausência de Campeonatos do Mundo voltou a fixar-se. Somente na passagem de milénio, em 2002, Portugal conseguiu garantir o apuramento para a fase final de um Mundial, o primeiro na Ásia, o primeiro realizado a dois, na Coreia e no Japão. Tal como em 1986, na anterior participação, a selecção nacional chegou ao Mundial fortalecida por uma extraordinária participação no Europeu: em 2000, na Holanda e na Bélgica, os portugueses apenas foram travados pela França, a futura campeã europeia, nas meias-finais. A célebre mão de Abel Xavier, uma desgraça traduzida pelos pés de Zidane, matou o sonho luso. O Mundial 2002 poderia ser a continuação vitoriosa.

As coincidências com o Mundial do México, o último em que Portugal estivera, não tardaram em aparecer. Maus agouros. Ambos os Campeonatos do Mundo, tanto em 1986 como em 2002, foram antecedidos por extraordinárias prestações nos anteriores Europeus: em 1884 e em 2000, duas vezes aos pés da França, Portugal caiu nas meias-finais. E, de novo, o sorteio foi teoricamente favorável às pretensões lusas. Portugal evitou algum papão ao ficar inserido no grupo de um dos anfitriões, a Coreia do Sul. Juntaram-se-lhes, ainda, os Estados Unidos da América, uma selecção verdadeiramente fracassada no Mundial de França, em 1998, e a Polónia, tal como acontecera em 1986. Mas a teoria vale o que vale e serve apenas para que se possa contextualizar os jogos. Na prática, na maioria das vezes, nada disso importa. O caso do anterior Mundial tinha sido um bom exemplo. O futebol é uma surpresa constante.

Em 1986, logo após ter aterrado em solo mexicano, foi conhecida a impossibilidade de Veloso, devido a um controlo anti-doping positivo, participar no Campeonato do Mundo. Em 2002, pelos mesmos motivos, Kenedy, um dos vinte e três eleitos de António Oliveira, viu ser-lhe barrada a entrada no Mundial da Ásia. Prenúncio de morte. Foi o ponto de partida para a repetição de um dos casos mais humilhantes do futebol português. Saltillo não fora esquecido, deveria ser evitado a todo o custo, mas não foi assim. Tal como no México, o estágio não foi bem preparado, faltou autoridade e pulso firme para impor, e sobretudo fazer cumprir, regras para toda a comitiva. Gilberto Madail deixou a liderança entregue a António Boronha, vice-presidente da Federação, mantendo-se em Portugal. O ambiente entre Boronha e Oliveira nunca foi o melhor. O planeamento falhou por completo. E Saltillo foi revivido: vida boémia, distracções, pouco rigor.

A baliza portuguesa era ocupada por um gigantesco ponto de interrogação. Ricardo e Vítor Baía, para além de Nélson, chegaram à Ásia com esperanças de serem o número um nacional. A incógnita perdurou no tempo. Ricardo, um dos obreiros da sensacional temporada do Boavista, o Boavistão, que culminou no título nacional de 2001, jogara na fase de apuramento, assumindo a titularidade no duelo com Quim. Em teoria, seria o dono do lugar. Nessa fase, Vítor Baía, intocável sempre que disponível, encontrava-se lesionado. Recuperou a tempo de ser chamado à fase final do Campeonato do Mundo. Ficou com o número um na camisola. Logo aí, António Oliveira deu um sinal de que seria o guarda-redes do FC Porto, que consigo havia triunfado nas Antas, a jogar. O tabu, contudo, manteve-se até ao particular com a China. Jogou Baía. E justificou a confiança com uma assombrosa exibição. As críticas, mesmo assim, fizeram-se ouvir.

Os Estados Unidos da América foram o primeiro adversário a ser colocado no caminho português. A selecção norte-americana havia estado no Mundial de França, terminando com três derrotas ante Alemanha, Irão e Jugoslávia, conseguindo apenas marcar um golo. Portugal entrou em falso na partida: aos quatro minutos, John O'Brien marcou. O desnorte que invadiu a selecção portuguesa, completamente à deriva, acentuou-se com um auto-golo estapafúrdio de Jorge Costa e com uma cabeçada certeira de McBride (o autor do único golos dos States no anterior Mundial). Aos trinta e seis minutos, tudo às mil maravilhas, a selecção dos Estados Unidos vencia por três golos. António Oliveira batia no banco, desesperado, pedindo ajuda divina. Beto reduziu, antes do intervalo. Havia esperança. Jeff Agoos, a menos de vinte minutos do final, marcou na própria baliza. Portugal acreditou, pelo menos, num empate. Mas nem isso. A derrota doeu.


A resposta teria que ser firme. Para apagar a má imagem deixada na primeira partida, sempre importante mas não decisiva, Portugal só poderia entrar com tudo frente à Polónia. Não era um adversário temível. Isso, contudo, pouco conta, porque também os Estados Unidos não o eram. Frente aos polacos, debaixo da chuva intensa de Jeonju, a selecção portuguesa foi forte, dominadora e conseguiu golear. Venceu com categoria: um hat-trick de Pauleta e um golo de Rui Costa para fechar a contagem. A crença na passagem, onde Portugal era o principal favorito, voltou a fixar-se. Um ponto ante a Coreia do Sul garantiria o apuramento. Tudo correu, mais uma vez, ao contrário. Mal, mal, mal. João Pinto, aos vinte e sete minutos, teve uma entrada bárbara e foi expulso. Não se conteve, enfurecido, encarou Ángel Sánchez, o árbitro argentino, e deu-lhe um murro no estômago. Foi a imagem perfeita do desnorte. Voltara a invadir a selecção.

Portugal estava em apuros. Só complicou ainda mais a sua tarefa. Puro masoquista. A expulsão de João Pinto, aliada à sua reacção irreflectida, aumentou a tensão sobre os portugueses. A vontade de marcar, de ganhar, superiorizou-se ao discernimento que se pedia. Houve coração, faltou cabeça. As oportunidades não foram aproveitadas, Pauleta, Nuno Gomes e Figo desperdiçaram, os sul-coreanos taparam os caminhos e contaram, até, com a ajuda dos malditos postes. Para aumentar as dificuldades, num jogo em que Portugal se encontrava no limbo, Beto, por erro de Ángel Sánchez, também ele perdido, foi expulso. Quatro minutos depois, Park Ji-Sung, médio dos japoneses do Kyoto Sanga a caminho do PSV Eindhoven e uma das principais figuras da fabulosa caminhada da Coreia do Sul, marcou. Teve espaço e rematou certeiro. Foi a loucura de um país. Outro foi abalado: Portugal corou de vergonha.

O desespero de Pauleta, a fúria interior de Sérgio Conceição, as lágrimas de Figo, o olhar incrédulo de Vítor Baía. A desilusão portuguesa alastrou-se, no relvado onde a Coreia rejubilou pela passagem aos oitavo
s. António Oliveira, apoiado nas suas muletas, abandonava com a cabeça baixa. Resignado. A selecção nacional caíra, deixando a Ásia pela porta dos fundos, numa triste repetição do seu último Mundial. A goleada à Polónia de nada serviu perante a humilhante derrota ante aos Estados Unidos, com uma opção muito discutível de António Oliveira ao prescindir da utilização de dois médios-defensivos - Petit e Paulo Bento, jogando apenas o primeiro - e um novo desaire. Com a Coreia do Sul, a selecção de Guus Hiddink, o milagreiro holandês que comandou os sul-coreanos ao quarto lugar final, repetiram-se os erros, o completo descalabro e a desafinação. Portugal nunca funcionou como uma equipa, nunca teve esse espírito consigo. Pagou caro.

DA INGLATERRA À ALEMANHA é um espaço onde serão destacadas as participações portuguesas em Mundiais

1 Comentário:

JornalSóDesporto disse...

De facto para esquecer ou para mais tarde recordar como foi vergonhosa a nossa participação.

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