domingo, 23 de maio de 2010

Bayern Munique-Inter Milão, 0-2 (crónica)

MESTRE, DESCULPE LÁ, MAS EU SOU ESPECIAL!...

Sobe a placa com os três minutos de compensação. O Inter vence por dois golos, tem a Liga dos Campeões na mão, o triplete está assegurado, a História marcada. O nome do clube italiano começa a ser gravado no troféu. José Mourinho sai da sua área técnica, onde viveu o jogo, o sentiu, gesticulou, onde teve toda a adrenalina própria de um duelo com tamanha carga emocional. Dirige-se ao terreno adversário. O Bayern de Munique há muito acenara a bandeirinha branca em sinal de rendição, estava entregue, não podia fazer nada para alterar a coroação dos nerazzurros. Louis Van Gaal, sempre de rosto fechado e ar de durão, mantinha-se sentado no banco. Esteve assim desde o início. Mourinho cumprimenta-o, deixa um abraço, consola um dos seus professores. Agradece o que lhe deu. Mas aquele era o seu momento.Tinha que vencer. Venceu!

Silêncio. Táctica, estudo mútuo, receio de falhar. Jogar com serenidade, sem arriscar um milímetro, sem dar azo a investidas do adversário, manter a frieza, a calma absoluta, preferir um estilo pragmático. A vontade de não perder estava lá, mais forte do que a vontade de vencer. O início de jogo foi um retrato fiel das duas equipas, Internazionale de Milão e Bayern de Munique, o resultado acima de tudo, a importância da táctica, de saber aproveitar as fragilidades contrárias, não as esperando vindo do acaso mas sabendo provocá-las, querendo atacar nos momentos certos. Mesmo que isso não seja bonito, mesmo que provoque assobios, mesmo que pareça mal. Mourinho e Van Gaal, gerações diferentes, a mesma escola. Um aprendiz querendo surpreender o mestre. Mou aprendeu e cresceu com o frio holandês. Era altura de voltar a provar a sua força.

Há jogadores que aparecem em momentos decisivos, há outros que são regulares mantendo um bom rendimento constante e há ainda aqueles que, tendo qualidade, desaparecem quando a exigência sobe e são mais necesssários. Diego Alberto Milito, avançado argentino, é o melhor que uma equipa pode ter: joga sempre em altíssimo nível, entrega-se, cerra os dentes e vai à luta, mesmo quando as coisas não lhe correm bem, e ainda emerge quando faz mais falta. Nunca se esconde. Pode estar pouco em jogo, correr muito e ter pouca bola no pé, mas está no seu sítio, no sítio certo e letal, para resolver. Marcou na Taça de Itália. O Inter ganhou o troféu. Marcou, na última jornada, quando a Roma vencia, em Siena. O Inter ganhou o campeonato, conseguiu a dobradinha, vincou a sua posição em Itália. Era dele quem mais se esperava em Madrid. Dele viriam os golos. De Sneijder a arte de criar.

DOMINA, BAYERN, EU MARCO!

O Bayern de Munique é uma equipa que gosta de ter a bola, circular, manter o controlo da situação e alargar horizontes até à baliza do adversário. É uma equipa de ataque. Com as devidas cautelas, sim, mas de ataque. O Inter aceitou o pacto. Os alemães ficam com a iniciativa, com a bola, tentam abrir brechas na defesa, trabalham para isso. Nada perdido, daí não resulta mal nenhum aos nerazzurros. O Inter, no seu estilo bem italiano, matreiro e viperino, responde com consistência, concentração e união para impedir a progressão do rival. Como se fosse um jogo de xadrez, jogando sempre em alerta, colocando o seu rei bem protegido, longe dos perigos. Cada um joga com o que tem. O Inter é forte no contra-ataque, nos remates de longe. É isso, portanto, que tem de explorar. Wesley Sneijder, por duas vezes, testou Butt. O guarda-redes alemão respondeu bem.

Um dos maiores trunfos do Inter, deste Inter de Mourinho, é a capacidade de descomplicar. Os italianos jogam um futebol simples, pouco trabalhado, rápido e eficaz como poucos. Não precisam de fazer passar a bola por todos os seus jogadores, para introduzir jogadas de cortar a respiração ou tentar satisfazer totalmente quem vê. Não encanta mas vence. Isso é o mais importante. Quatro toques chegaram para um golo: Júlio César pontapeou longo, Diego Milito, perante Demichelis, amorteceu para Sneijder, o holandês abriu para a área, de novo Milito surgiu perante Butt. Calma no avançado argentino, olhos na baliza, um alvo bem definido. Remate colocado e golo. Bem lhe poderiam chamar San Diego. Decisivo na Taça, no campeonato e, agora, na Liga dos Campeões. Quem pode querer mais deste atacante?

A VITÓRIA DE UMA EQUIPA MAQUIAVÉLICA!

Até aí, até esse golo de Milito, com os dois remates de Sneijder a anteceder, o Bayern de Munique havia tomado conta do jogo. Tal como Van Gaal dissera, a sua equipa fora ofensiva, fazendo de tudo para furar a muralha preparada por José Mourinho. Não criaram, contudo, uma verdadeira oportunidade de perigo, embora Howard Webb tenha deixado passar em claro um corte com mão de Maicon, aos catorze minutos, em plena área. O tento de Diego Milito, num momento crucial, abalou os alemães. Foi o passo decisivo para o Inter se tranquilizar. Um golo numa final, ainda para mais entre equipas de tão grande qualidade, é meio caminho andado. Ao Bayern restava responder forte, lançar-se em busca do empate, procurando anular a vantagem italiana. Esteve perto no início da segunda parte. Júlio César, gigante, tapou o golo a Muller.

Ver o Bayer insistir, atacar e manter-se passivo, não respondendo na mesma moeda, seria como entregar o jogo nas mãos do destino. O Inter nunca o poderia fazer. Logo após a oportunidade dos bávaros, Pandev obrigou Butt a uma bela defesa. O jogo ganhara intensidade no recomeço. Foi, porém, apenas um fogacho. Depois disso, tudo voltou a ser como antes: Bayern com a bola, Inter com o domínio. Arjen Robben, a figura maior dos alemães, um dispensável de luxo como Sneijder no Inter de regresso ao Santiago Bernabéu, tentou carregar a equipa, fazê-la ser incisiva, abrindo espaços. Mourinho preocupara-se com ele, tinha Chivu e Cambiasso. Neutralizar o holandês era uma das premissas do sucesso. O minuto sessenta e seis fez aparecer Robben. Conseguiu soltar-se, rematou em arco, Júlio César negou-lhe o golo com uma parada fabulosa.

O Inter de Milão pode parecer estar nas cordas, perdendo forças, deixando-se à mercê do adversário. Deixa que o rival lhe dê murros. E cresça, acreditando ser possível mudar, levando a equipa a ter de recuar e elevar a entreajuda. Como fizera em Camp Nou. O Bayern teve fé. Num momento decisivo, contudo, os italianos aplicam o golpe final. É o knock-out. É esse atributo, esse talento para resolver a seu favor quando é o adversário quem está mais perto de marcar, que dá ao Inter uma certa malvadez. Passaram quatro minutos desde o remate de Robben, o Inter saiu em conta-ataque: Eto'o teve liberdade, jogou para Milito, o argentino simulou uma diagonal, foi em frente, deixou Van Buyten pelo caminho e enganou Hans-Jorg Butt. Fez o segundo golo. Aos setenta minutos, as dúvidas terminaram: o Inter seria campeão europeu. Quarenta e cinco anos depois regressou a glória.

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