domingo, 24 de janeiro de 2010

O filme do nosso futebol

Há coisas que nunca mudam. Como a mais prolongada das novelas, onde tudo acontece de extraordinário e, afinal, já todos vimos aquela cena em algum lado. O temperamento de Sá Pinto é uma dessas coisas. Jogador impetuoso, viril até, jogando no limiar das regras, mas idolatrado pelos adeptos do Sporting. Representa a garra, o querer, a vontade de triunfar, o antes quebrar do que torcer, dar tudo na defesa do clube. Os adeptos sportinguistas queriam ver isso reflectido na equipa. Numa equipa que estava apática, sem capacidade de reacção, impotente no momento e sem horizontes futuros de sucesso. Sá Pinto entrou, representado uma nova era, um corte com o passado. Não foi uma escolha consensual, porém José Eduardo Bettencourt assim quis. Agora, cerca de setenta dias volvidos, sai pela porta pequena, após se ter envolvido em agressões com Liedson. Como é possível um director-desportivo se envolver em agressões com um jogador? Como é possível um jogador não acatar as ordens do director-desportivo? Sylvester Stallone tinha aqui um bom argumento para continuar a saga.

Outra das coisas que nunca há-de mudar é a polémica que envolve o futebol português. Ou melhor: nunca há-de acabar. Na mesma semana, falou-se das escutas do Apito Dourado (o YouTube com uma afluência tremenda!), passaram mais dias sem se saber qual será o castigo de Hulk e Sapunaru, apareceu um vídeo de conflitos no túnel da Luz (Benfica-FC Porto, época 2008-09) e, depois de tudo isso, soube-se que as imagens, afinal, não têm validade alguma. Nem para o sucedido nesta temporada, nem para o do ano transacto, nem para algo que possa vir a acontecer futuramente. Existem, provam a existência de escaramuças, mas não têm qualquer utilidade. Tal como as escutas. Há quem entenda? O futebol é jogado dentro de campo. Mas os bastidores insistem em ser protagonistas. E, assim, serão cada vez mais.

É natural, por isso, que o futebol seja relegado para segundo plano. Na prática, discute-se tudo e mais alguma coisa sobre futebol mas nada sobre a bola jogada dentro das quatro linhas. No meio de todo esse filme que é o futebol português, jogou-se a Taça de Portugal. Provou-se que não há vencedores antecipados, diga o que disser a teoria. No Restelo, o Belenenses-FC Porto prolongou-se por três horas e foi necessário recorrer a trinta grandes penalidades para se determinar o vencedor. Foram os portistas. O realizador da longa-metragem poderia ter sido, sem qualquer problema, o nosso Manoel de Oliveira. Em Alvalade, o Sporting jogou bem abaixo do que tem feito, conseguiu contudo chegar a uma goleada (4-1) e, de súbito, deixou-se adormecer. Venceu, à justa, por 4-3. O adversário era o Mafra, equipa do terceiro escalão do futebol nacional, nada o fazia prever. Nessa ponta final emergiu Zhang, um chinês autor de um hat-trick, Sá Pinto e Liedson, como já se disse, desentenderam-se por causa do segundo golo. Terminar bem ao jeito de Quentin Tarantino.

NOTA: Artigo feito para o blogue Negócios do Futebol, onde há pouco iniciei uma colaboração semanal

2 Comentários:

Balakov10 disse...

É, sem dúvida, triste que muitas vezes o futebol jogado nas quatro linhas fique em segundo plano...infelizmente, em Portugal, isso acontece demasiadas vezes.

http://outra--visao.blogspot.com/

Jornal Só Desporto disse...

Bom Artigo.

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