quinta-feira, 30 de abril de 2009

As novas tecnologias no futebol

SIM OU NÃO?

Vamos fazer um exercício de memória e regressar a 2004. Ao clássico Benfica-FC Porto, em Outubro. No minuto 78 desse jogo, um minuto que ficou para a História: remate de Petit, defesa de Vítor Baía que deixa a bola escapar em direcção à linha de golo, conseguindo ainda afastá-la para longe com uma palmada de recurso. Dentro ou fora da baliza foi a questão colocada por todos aqueles que assistiam ao jogo. Olegário Benquerença, o árbitro, entendeu que estava fora e o jogo prosseguiu. Mas estaria mesmo? Ninguém sabe ao certo. Pronto, podemos voltar ao presente. Cinco anos depois, um lance que ainda continua a gerar polémica.

Esta situação foi apenas um bom exemplo de como as novas tecnologias seriam úteis ao futebol. Em casos como este, quando existem dúvidas se a bola ultrapassou ou não a linha de golo, constituiam uma ajuda preciosa. Será que se poderiam introduzir novas tecnologias para todas as situações em que o árbitro estivesse dividido? Aí já se colocam algumas reservas pois tornaria o jogo quase que virtual, tirando-lhe toda a paixão e magia. Era como torná-lo num jogo perfeito, sem erros e sem discussões. O FUTEBOLÊS falou sobre o assunto com algumas personalidades ligadas ao futebol. As respostas coincidiram: sim, mas apenas em situações específicas. Como aquela de Petit e Baía em 2004.

Começando pelos entendidos na matéria. Jorge Coroado, ex-árbitro e actual comentador de arbitragem, diz que o futebol poderia ser prejudicado com a introdução das novas tecnologias mas aceita que se apliquem nessas tais situações como a que sucedeu no clássico de 2004: "
Por princípio, também porque entendo ser o futebol emoção, paixão e discussão (quando estas três vertentes acabarem o futebol perde a piada) sou relutante quanto à introdução de meios tecnológicos como apoio ou definição das decisões dos árbitros mas aceito parcialmente em situações em que fica a dúvida se a bola passou ou não o risco de golo". Contudo, afirma não fazer sentido para que ajudem um árbitro a avaliar uma grande penalidade, uma agressão ou um fora-de-jogo.

Esta é, também, uma opinião inteiramente partilhada pelo jornalista Cruz dos Santos. "Concordo mas não da forma como se tem falado. Por exemplo, no caso do fora-de-jogo ou dos agarrões aos jogadores dentro da área, é impossível. O futebol tornava-se um jogo de computador", afirma. Além disso refere que nesses dois casos, a decisão tem que ser tomada pelo árbitro no momento, no terreno de jogo. "É humanamente impossível ao árbitro, à distância que se encontra do lance, saber se a bola entra ou não. Por isso, nesse aspecto estou totalmente de acordo", concluiu Cruz dos Santos, adiantando a introdução do chip na bola como uma boa solução.

Chega Bernardino Barros, comentador da Rádio Renascença, com uma análise bem clara: "Saber quando é golo ou não, parece-me o mais importante. O resto é folclore". Tal como Cruz dos Santos e Jorge Coroado, entende que a capacidade de sancionar as faltas deve ser entregue aos árbitros e não concorda que os lances sejam avaliados pela televisão: "Nesse caso o futebol morre. Arbitrar é difícil e está sujeito ao erro, é humano". Coroado é da mesma opinião, dizendo que as paragens no jogo que as novas tecnologias trariam em nada contribuiria para a tranquilidade do público pois o futebol é algo totalmente diferente do ténis onde já se utiliza o olho de falcão. Nota-se uma perfeita sintonia entre as opiniões, portanto.

Visão mais abrangente tem António Boronha, ex-vice-presidente da FPF. Então, as novas tecnologias seriam úteis ao futebol? "Numa resposta curta e imediata, sim!", afirma. No entanto, defende que tem que existir uma forma de as saber utilizar, sem que se prejudique o ritmo da partida e aponta três áreas de intervenção das novas tecnologias: controlo da linha de golo, "com aplicação imediata que não atrasará o jogo porque são casos ocorridos com pouca frequência"; controlo do fora-de-jogo pois trata-se de uma avaliação "objectiva e sujeita a regras objectivas com benefício claro da verdade desportiva que resultará da análise fria que a máquina ditará do geo-posicionamento dos jogadores das duas equipas em relação à linha de golo"
e, ainda, no controlo das grandes penalidades onde terá de existir, por parte do árbitro, uma clara diferenciação entre intencionalidade e intensidade, sendo que "a máquina apenas poderá funcionar como auxiliar". Para Boronha estes são os três campos em que as tecnologias seriam úteis, muito embora não haja soluções perfeitas.

Em conclusão: os erros não acabarão. Mas as novas tecnologias podem ajudar a diminuí-los. Isto se essa medida for aprovada.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A muralha de Guus Hiddink


Confesso que fiquei desiludido com o Barcelona-Chelsea. Esperava mais: futebol, ousadia, ataque. Existe um culpado, chama-se Guus Hiddink. Montou uma estratégia defensiva, uma autêntica muralha, cheia de calculismos e expectativas - Messi foi aniquilado por Bosingwa, o polícia. O Barcelona jogou como habitualmente, com os olhos postos na baliza adversária: tentou, dominou, teve as melhores oportunidades para marcar. Não conseguiu, porém. Encontrou em Petr Cech um guarda-redes enorme, o suporte da muralha.

O resultado é aquilo que Hiddink pretendia. A táctica resultou na perfeição. Para os apaixonados de futebol, soube a pouco. O Chelsea-Liverpool, ainda bem recente, também não ajudou pois colocou as expectativas demasiado altas. Além disso, esta não era uma forma normal de ver os jogos entre Barcelona e Chelsea. Aqui também existe um culpado: José Mourinho, o special one. Tornava qualquer confronto empolgante, intenso e emocionante até final. Aquela eliminatória épica em 2004/05 será sempre recordada. Desta vez, Guus Hiddink foi pragmático. Em Stamford Bridge terá de jogar de forma mais aberta. Ainda bem para o futebol.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O tetra mais perto mesmo sem ser incrível

ANÁLISE JORNADA 26 - LIGA SAGRES

Como na
Missão Impossível ou numa aventura de James Bond, o tempo começa a esgotar-se. Os minutos passam cada vez mais depresa, é um contra-relógio. Aí, nessa posição, está o FC Porto até chegar ao título. Nada está decidido ainda. Porém, só um autêntico cataclismo será capaz de impedir o tetra à equipa de Jesualdo Ferreira. Avisos não faltam.

Lisandro López ou Licha, argentino, avançado do FC Porto. Um jogador de uma entrega fantástica, capaz de discutir todos os lances como se valessem pontos, mesmo que falte alguma inspiração. É uma imagem perfeita daquela máxima que diz antes quebrar que torcer. Foi decisivo na vitória portista, por 2-0, sobre o Vitória de Setúbal. Era importante ver como reagia a equipa sem o poder de explosão e a força de Hulk, lesionado até final da temporada. Ora foi precisamente isso, explosão, que faltou ao FC Porto na primeira parte: sentiu imensas dificuldades em criar jogo e, sobretudo, em furar a muralha do Vitória. Ouviram-se assobios perante tal apatia. Contudo, no reatamento, os dragões apareceram com uma nova chama, bem mais incisivos na procura do golo; aumentaram o ritmo, encostaram os sadinos às cordas, enfim, jogaram melhor. Faltava marcar. O minuto 58 viria a ser fundamental: Carlos Cardoso decidiu mexer no xadrez, tirando Leandro Lima e Bruno Gama, ou seja, os únicos jogadores capazes de criar perigo para Helton - Carrijo sem ter grandes apoios tentou, tentou mas perdeu-se entre os centrais. Três minutos depois, apareceu Lisandro, o homem-golo das pampas: tirou Auri do caminho e perante a saída de Kieszek fez a bola passar-lhe por cima com um toque sublime, delicioso. Estava desbravado o caminho da vitória, o Setúbal ficou em xeque. 66 minutos: cruzamento de Mariano e novo golo, um bis de Lisandro. A partir deste momento, os três pontos ficaram entregues. Sem espaço a dúvidas.

Liedson Muniz ou Levezinho, brasileiro, avançado do Sporting. Ele resolve, não há volta a dar. Seja a marcar ou até mesmo a assistir um companheiro. Assim foi, em Alvalade, frente ao Estrela da Amadora. Primeiro, à passagem dos vinte minutos, assistiu Hélder Postiga, com regra e esquadro. Foi esse tempo, esses vinte minutos, que durou a resistência da equipa de Lázaro Oliveira, com os bolsos vazios mas carregados de profissionalismo e dignidade. São frases-feitas que ilustram o Estrela na perfeição. O Sporting dispôs de mais oportunidades para marcar, jogou a seu bel-prazer, tendo sempre como alvo a baliza de Filipe Mendes. Porém apareceu, meio caído do céu aos trambolhões, o golo que deu o empate aos tricolores. Um golaço tão inesperado quanto inesperado foi o remate de Goianira. O primeiro na direcção da baliza de Rui Patrício, o primeiro a criar perigo. Entrou, foi golo. Eficácia total, está fácil de ver. Para a segunda metade, aos leões bastava (e isto é relativo, claro!) manter a boa exibição que haviam conseguido antes do descanso. Não demorou muito até Liedson resolver, foram exactamente dez minutos. Deixou a assistência a cargo de Pedro Silva e foi para o sítio onde é proibitivo deixá-lo sozinho: junto à pequena área, na zona do agrião. A equipa de Paulo Bento estava, de novo, em vantagem. Depois interessou fazer circulação de bola, jogando com o resultado e com o tempo. Mesmo em cima dos noventa, surgiu uma oportunidade enorme para o Estrela empatar, num toque de calcanhar de Vidigal. A bola passou ao lado, pertinho do poste esquerdo. Um susto, apenas. Vitória justa do Sporting.

Óscar Cardozo ou Tacuara, paraguaio, avançado do Benfica. Raras vezes foi titular ao longo da época, não se conseguindo impor a David Suazo, mas também devido ao facto de Quique Flores optar apenas por um jogador de área. Porém, com a lesão do hondurenho e com a mudança do treinador para dois pontas-de-lança, Cardozo saltou novamente para o onze titular. É já o melhor marcador dos encarnados e frente ao Marítimo voltou a mostrar a sua qualidade. Mas vamos por partes: Quique percebeu, finalmente, qual a melhor equipa para o Benfica, depois de ter feito diversas experiências. Agora, os encarnados jogam melhor, mais virados para o ataque, sempre na procura de golos. Uma nuance importante passa pelo meio-campo: em quase todo o campeonato, jogaram Katsouranis e Yebda, ou seja, jogadores mais defensivos, sem grande criatividade ofensiva; neste momento, jogam Carlos Martins e Rúben Amorim, que conseguem fazer bem melhor essa tarefa de construir jogo até aos atacantes. Em relação ao jogo desta jornada, o Benfica entrou forte, com uma primeira parte bem produtiva em golos: marcou um, depois outro e ainda mais outro. Aos 38 minutos, eram três. O jogo assemelhava-se ao de Setúbal e o Marítimo parecia nunca mais renascer. Engano. Um golo de Marcinho, a um minuto do intervalo, devolveu alguma esperança à equipa de Carlos Carvalhal. Para o reatamento, as águias, à semelhança do que já tem acontecido, baixaram o ritmo e ficaram mais na expectativa. Aproveitou o Marítimo, reduzindo para 3-2, no minuto 60. Até ao apito final de Rui Costa, houve oportunidades para ambas as equipas. Nenhuma marcou. O jogo acabou com a vitória do Benfica. Bem mais suada do que esperado a certa altura da primeira parte.

Na luta pelo quarto lugar, o Nacional manteve a vantagem de dois pontos para o Sp.Braga. Venceram as duas equipas: os insulares derrotaram o Belenenses, num jogo envolto em polémica, que atirou a equipa de Jaime Pacheco para os penúltimo lugar; a equipa de Jorge Jesus teve de sofrer mas conseguiu vencer o Trofense, em casa, com um golo de Alan. Em relação à permanência, o Rio Ave saiu dos lugares de descida, depois da vitória frente à tranquila Naval.

domingo, 26 de abril de 2009

Mano Silva: "Achei que chegava de me castigarem"

António Manuel Mano Silva. Ou simplesmente Mano Silva. É já um nome bem conhecido de todos os portugueses: há oito anos presidente do Ericeirense, da Associação de Futebol de Lisboa, decidiu entrar em greve de fome como forma de protesto pela falta de apoios ao clube. As manifestações de solidariedade sucederam-se e, ao fim de dez dias, Mano Silva resolveu suspender a greve de fome. Em conversa com o FUTEBOLÊS, garante que não tinha outra solução e que, caso nada seja feito, dia 1 de Julho retoma à greve. Um caso de paixão pelo clube.

FUTEBOLÊS: Como se sente neste momento?

MANO SILVA: Estou bem, estou bem. Tenho retomado os alimentos, aos poucos. Começarei por comer um pouco de peixe mas sinto-me bem.

F: Por que recorreu à greve de fome?
MS: Acima de tudo por razões de uma grande injustiça que as entidades locais e governo, inclusive, tiveram para comigo e para com o clube. Foram oito anos à procura de soluções e por razões difíceis de perceber, impossíveis de perceber até, nada foi feito. Achei que chegava de me "castigarem". Isso justifica plenamente a minha decisão.

F: Acha que valeu a pena?
MS: Não tenho dúvidas de que valeu a pena, não tenho dúvidas! Não é uma questão de passar a ser mais conhecido porque eu não fiz aquilo para ter fama. Aliás, quem me conhece sabe que eu prefiro passar despercebido em qualquer lado. Ainda há pouco, no Fórum Algarve, estavam dois senhores perto de mim e perguntaram-me se eu era o homem da greve. Eu disse que sim, cumprimentei-os, estivemos a falar e disseram-me: "Você é um grande homem, é um grande dirigente desportivo". Foi o suficiente para eu achar que valeu a pena.

F: O certo é que se não tivesse enverdado por essa via, a situação do Ericeirense não teria tanto mediatismo nem teria sensibilizado as pessoas como aconteceu.
MS: Não, nunca teria mediatismo. Nem pensar!

F: Foi uma acto de desespero?
MS: Era impensável há um ano atrás. Eu tomei esta decisão há três meses, depois de concluir que não havia outra solução para os problemas do clube. O dinheiro não foi gasto a comprar jogadores.

F: Existem boas perspectivas para o futuro?
MS: Há sinais, há sinais e penso que no decorrer da semana que vem, na sexta-feira, se confirmarão. Nesse mesmo dia haverá um jantar de homenagem que me vão fazer com gente ligada ao futebol e à Ericeira. E eu espero que sim, que os sinais que existem neste momento se confirmem e tragam boas novidades.

F: Demonstra uma enorme paixão pelo clube, chegando a por em causa a sua saúde.
MS: Eu há trinta anos que sou líder associativo. Estou há oito como presidente do Ericeirense e estive um ano como presidente da Assembleia Geral. Não construí estádios mas tive obra social e cultural. Penso que foi positiva.

F: Suspendeu a greve de fome ao fim de dez dias. Pensa retomá-la?
MS: Tenho a certeza que retomo no dia 1 de Julho se não forem tomadas medidas de apoio por parte das entidades.

F: Porém o panorama já é melhor...
MS: Claro que não estou interessado em voltar à greve de fome. Mas se tiver de o fazer, farei sem receio.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A brutal agressão de Pepe

Revejo as imagens da brutal agressão de Pepe a Casquero e continuo a pensar o que lhe terá passado pela cabeça. Tento, tento mas não consigo, é incompreensível. Foi um momento de loucura. Total loucura. No descontrolo, Pepe pontapeou o adversário no relvado por duas vezes e ainda agrediu, com um murro, outro que nada tinha que ver com o assunto. Arrepiante. O castigo será de dez jogos.



quinta-feira, 23 de abril de 2009

Taça de Portugal: Paços de dragão

As meias-finais da Taça de Portugal, trouxeram uma confirmação e uma surpresa. Vamos por partes: vai haver uma final inédita, entre FC Porto e Paços de Ferreira. Não é, por isso, difícil de comprovar qual é a surpresa e qual a confirmação. A passagem dos portistas não espanta ninguém, apesar da derrota na Reboleira mas servindo-se do resultado da primeira mão. Quanto ao outro jogo, entre Nacional e Paços de Ferreira, atribuia-se maior favoritismo à equipa de Manuel Machado, acrescido pelo empate a dois que lhe dava vantagem. Porém, os castores foram mais fortes. E estão na final. Uma Pedrinha atravessada no caminho dos madeirenses. Na final nortenha, o Paços acredita. Mas o FC Porto é favorito. Naturalmente.

Qualquer das equipas que vencesse faria história pois estaria pela primeira vez na final da Taça de Portugal. Na primeira mão, o Nacional conseguiu um empate a dois golos em Paços de Ferreira, tendo por isso vantagem na eliminatória. Não era uma vantagem significativa, porém dava favoritimo aos madeirenses porque possuem mais argumentos e jogavam em casa. Contudo, o início do jogo fez questão de o desmentir. O Nacional entrou muito nervoso, talvez acusando em demasia a pressão de chegar ao Jamor. Aos 20 minutos, já os pacenses venciam por 2-0. Era necessário reagir. Os jogadores de Manuel Machado fizeram-no, conseguindo empatar. Estava tudo igual entre as equipas e chegou a existir a sensação de que o Nacional poderia mesmo dar a reviravolta. Não aconteceu. Já em descontos, Cristiano teve uma jogada genial e foi derrubado por Filipe Lopes, dentro da área. Penalty assinalado por Olegário Benquerença e golo! Já não havia volta a dar, o Paços estava na final. Com justiça. E um contributo enorme de Pedrinha, entrado aos seis minutos, autor do primeiro e terceiros golos. O herói pacence.

Na outra meia-final, o FC Porto trazia uma vantagem de dois golos do jogo do Dragão. Deu, por isso, para Jesualdo Ferreira poupar alguns jogadores importantes para a recta final do campeonato, o grande objectivo dos portistas: Helton, Bruno Alves, Raul Meireles e Rodríguez nem sequer foram convocados, enquanto que Cissokho e Fernando ficaram no banco; Fucile regressou, jogando na esquerda. Pela frente, um Estrela da Amadora, carregado de dificuldades bem conhecidas. A partida começou da melhor maneira para os dragões: quatro minutos, golo de Farías, o goleador da Taça de Portugal. Agora sim, a eliminatória parecia arrumada. Ora, parecer é bem diferente de ser. Surgiu, aos doze minutos, o pior momento deste jogo com a lesão (grave!) de Hulk, que o deixará de fora dos últimos jogos bem como Lucho González. Porém, o FC Porto continuou a dominar a seu bel-prazer. Até ao minuto 28, aquando da substituição de Vítor Vinha por Rui Varela, que alargou a frente de ataque do Estrela. Foi a pedra de toque para mudar a toda do encontro. Os tricolores cresceram, agigantaram-se e deram a volta: primeiro numa jogada dos Varelas, criada pelo Silvestre e concluída pelo Rui; mais tarde num cabeceamento de Anselmo. O FC Porto pouco fez para contrariar essa tendência porque apesar da derrota tinha a final da Taça bem garantida. Jogou mal, a segunda linha provou que não tem a qualidade suficiente para actuar com regularidade. E não será certamente essa equipa que estará, dia 31 de Maio, no Jamor.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O impasse no Belenenses

O Belenenses vive momentos conturbados, não só em termos futebolísticos mas também em termos directivos. O acto eleitoral, marcado para o mês de Abril, foi suspenso. Expliquemos: Jorge Coroado, o actual vice-presidente da Assembleia Geral e responsável pela certificação de que todos os dados de candidatura das listas estavam correctos, entendeu que a lista C, encabeçada por José Nóbrega, não cumpria os requisitos pretendidos - uma lista da qual o próprio Coroado faz parte. O candidato recorreu para os tribunais. E ganhou, o que levou à tal suspensão das eleições.

Por isso mesmo e face a este impasse directivo, o FUTEBOLÊS falou com Jorge Coroado para obter um esclarescimento. A resposta chegou em jeito de comunicado, onde o dirigente deixa bem patente a sua posição e o porquê de ter recusado a candidatura de José Nóbrega, reduzindo o acto eleitoral a apenas duas listas. Fica o comunicado na íntegra:

"De acordo com os estatutos em vigor, qualquer candidatura deverá ser subscrita por um mínimo de 50 sócios, maiores de 18 anos, com mais de três anos ininterruptos de pagamento de quotização A lista em questão entregou, nos serviços administrativos do clube, apenas 50 assinaturas de cuja verificação resultou:
  • Um não possuía quota de Fevereiro paga (Art.º 44º - alínea b)
  • Um Não preenchia requisito estatutário previsto no Art.º 64 - n.º 3 (não incuía fotocópia de BI)
  • Três não preenchiam requisitos estatutários previstos no Art.º 64 - n.º 2 (não apresentam pagamento ininterrupto de quotização durante três anos)
Perante a divulgação dos resultados acima mencionados, os elementos da lista em causa, encetaram campanha de intoxicação alegando terem entregue 67 e não 50 assinaturas. Em boa verdade se diga:
  • 1º- Aceitei ser candidato a Presidente da Mesa da Assembleia Geral na lista do Sr. José Nóbrega, pois sempre pensei estar na presença de pessoas responsáveis, capazes de cumprirem e fazerem cumprirem normas, regras, disposições, enfim serem rigorosos.
  • 2º - Às 12h20 do dia 19 de Março de 2009, dia limite para entrega da lista nos serviços, o Sr. José Nóbrega telefonou-me informando ainda não ter candidato a vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral.
  • 3º - Às 17h20 do mesmo dia, telefonou para os serviços do clube solicitando permissão para enviar a candidatura por correio. A isso, foi-lhe respondido não ser admitido, porque a candidatura teria de dar entrada na Secretaria até às 18h00 (hora de encerramento).
  • 4º - Perante a resposta que lhe foi prestada, arranjou forma de às 17h59 entregar em mãos da chefe de Secretaria a respectiva candidatura.
  • 5º - Às 18h05 telefonou-me informando que havia feito entrega de 51 assinaturas.
  • 6º - É do conhecimento de diversos associados (com observação in-loco) que, logo após terem entregue nos serviços a lista subscrita por 50/51 assinaturas, dois ou três elementos da mesma continuaram a recolher outras assinaturas.
Estranhamente, perante a emissão do comunicado por mim divulgado, elementos da lista com maior destaque para um dos candidatos a vice-presidente da direcção, passaram à ofensiva alegando ter entregue 67 assinaturas. Porque não abdiquei da minha convicção, entenderam por bem interpor providência cautelar que foi aceite pelo juiz do 8º Juízo Cível de Lisboa, o qual, sem ouvir quem quer que fosse do CF "Os Belenenses" deu como provado terem sido entregues 67 assinaturas e pior, relativamente às não devidamente habilitadas, deu-se ao luxo de sugerir que tivesse sido dado prazo para regularização. Um espanto. Um juiz de um Tribunal português, é o primeiro a instigar à não observância de normas, regras ou cumprimento de leis. Provavelmente para o juiz em questão, quando um condutor na auto-estarda é detectado a conduzir por exemplo a 160 km/h, se mandado parar para ser autuado a BT deverá permitir que ele passe a circular a 120 km/h e não a pagar multa. Simplesmente ridículo. De momento coloca-se a possiblidade, face ao despacho do Tribunal Cível de Lisboa, da Lista encabeçada pelo Sr. José Nóbrega apresentar as assinaturas em falta, proceder-se à respectiva conferência e se todas preencherem o determinado estatutariamente à data de 19 de Março de 2009, admitir a Lista a sufrágio, porém com duas prerrogativas:
  • 1- Retirada imediata da providência cautelar.
  • 2- Substituição do meu nome na lista em questão (entendo estarem quebrados laços de ética, solidariedade e confiança entre membros da mesma lista - o próprio José Nóbrega assume que outros elementos da lista consideram que aceitei integrar a mesma com o intuito de a inviablizar).
Não havendo acordo entre a Mesa da Assembleia Geral e as três listas, a solução será deduzir oposição à notificação do Tribunal, algo que não defende os superiores interesses do Clube de Futebol "Os Belenenses" e acarretará prejuízos bem mais salientes que a situação presente."

PS: Entretanto, e de acordo com o que afirmou Coroado, a providência cautelar foi retirada. As eleições estão assim marcadas para o dia 10 de Maio, com as três listas iniciais.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Mesmo sem comandante, o dragão caminha forte

ANÁLISE JORNADA 25 - LIGA SAGRES

Mais uma jornada, mais um passo do FC Porto para o título. Na contagem decrescente, cada vez mais acelerada, para o fim do campeonato, os portistas mantiveram a vantagem de quatro pontos para o Sporting. Imitando os dois rivais, o Benfica também venceu, pressionando assim a equipa leonina tendo em vista o segundo lugar. Porém, é proibido relaxar. O FC Porto sabe-o. E Jesualdo também.


O FC Porto entrou em campo um dia depois da vitória do Sporting em Guimarães, que deixava a equipa de Paulo Bento a apenas um ponto do primeiro lugar. Jogou em Coimbra, frente a uma Académica super-moralizada pela vitória na Luz, na ronda anterior. Este foi também um teste (já que estamos na cidade dos estudantes!) para ver como reagiria a equipa, sem poder contar com Lucho, el comandante, operado ao joelho esquerdo na sequência de uma lesão no jogo com o Manchester United, para a Liga dos Campeões. Não é à toa que o médio argentino tem essa alcunha, ele é mesmo o líder dos portistas dentro de campo, é um jogador de enorme classe. No seu lugar, Jesualdo Ferreira optou por colocar Mariano González, não fazendo mais nenhuma alteração no onze-base. O jogo começou entretido, tendo uma Académica mais pressionante perante um FC Porto algo hesitante. No entanto, progressivamente, os portistas foram tomando conta da partida. Tiveram mais perto do golo na primeira etapa mas mesmo em cima do intervalo, Olegário Benquerença prejudicou a Académica ao não assinalar um penalty claro, por mão de Raul Meireles. No reatamento, foi novamente a equipa de Domingos a criar mais perigo: chegou mesmo a marcar mas o lance foi bem anulado por falta de Orlando sobre Rolando, no momento em que cabeceou para dentro da baliza. Até que, de um momento para o outro, o FC Porto simplificou uma tarefa que se estava a tornar bem complexa. Marcou primeiro por Rolando, num livre de Meireles; e sentenciou a partida, dois minutos depois, com um penalty convertido por Lisandro após um erro de Amoreirinha. Estava construída a vitória portista. Em cima dos noventa, Mariano González ainda marcou o terceiro - em posição irregular, diga-se. Mais um passo para o tetra.

Um dia antes da partida de Coimbra, jogou o Sporting. E ganhou em Guimarães, como já se disse acima. Um jogo envolto em polémica pela arbitragem de Bruno Paixão, o que não é propriamente uma novidade. É um mau árbitro, inquestionavelmente. Na antevisão da partida, ambos os treinadores demonstraram que só tinham a vitória no pensamento. Paulo Bento afirmou que o terceiro lugar não serve, Manuel Cajuda foi mais longe ao apontar a sua equipa como favorita para este jogo. Que começou vivo, vocacionado para o ataque e com oportunidades. Os guarda-redes, sobretudo Nilson, assumiram um papel fundamental, impedindo que não houvesse golos. É justo dizer que também a trave da baliza vitoriana não deixou que Derlei colocasse o Sporting em vantagem. Porém, foi a um minuto do intervalo que surgiu o caso mais polémico do encontro. A equipa leonina marcou, por Daniel Carriço, mas Bruno Paixão entendeu que houve pé em riste do jogador do Sporting. A decisão parece correcta. Contudo, não se percebe o porquê de o árbitro ter acompanhado toda a jogada e só depois de a bola entrar tenha apitado - talvez tenha sido o assistente, mais longe do acontecimento, a ver a falta. Ora, polémicas à parte, veio a segunda parte. Com o golo de Roberto, aos 56 minutos, após cruzamento de Nuno Assis. Os minutos que se seguiram foram de domínio do Vitória, dispondo de mais duas/três oportunidades para marcar. Diz-se que quem não marca, sofre. Aconteceu. O Sporting deu a volta, marcando aos 81 e 89, pela dupla atacante Liedson-Derlei. Virou o jogo, ganhou três pontos. Sem Paulo Bento no banco, desde os 65 minutos...

O Benfica era aquele que tinha, em termos teóricos, a partida mais acessível se bem que nesta fase todos os jogos tenham uma enorme pressão. Enfrentou o Vitória de Setúbal, no Bonfim, um clube com inúmeros problemas e instabilidade provocados pelo vazio directivo em que se encontra. A equipa encarnada pretendia regressar às vitórias, depois de derrotado em casa pela Académica. O jogo teve apenas um sentido: a baliza de Pawel Kieszek. Depois de já ter desperdiçado um par de oportunidades para marcar, Nuno Gomes fez o primeiro golo. Estavam jogados 25 minutos e a tarefa do Vitória ficou bem mais complicada. Dois minutos depois, marcou Cardozo, a machadada final, aproveitando um lance em que a defesa vitoriana ficou a ver a banda passar. O paraguaio teve tempo para tudo e acabou com o jogo. Não há exagero, garantidamente. Daí até intervalo, Reyes continuou a encher o campo - Michel foi um autêntico passador! - e o Benfica chegou com naturalidade ao terceiro golo, bis do Tacuara. Foi com esse resultado, que tira qualquer dúvida sobre a supremacia benfiquista, que as equipas foram para o descanso. Ah, é verdade: o Vitória rematou, pela primeira vez, já em tempo de descontos por Hugo. Com o jogo controlado, restavam 45 minutos para os encarnados gerirem aquilo que já tinham conseguido. Tiraram o pé do acelerador, naturalmente, e o Vitória passou a aproximar-se da baliza de Quim. A menos de quinze minutos do final, Filipe Brigues, um júnior, teve nos pés o golo de honra mas não conseguiu ultrapassar o guarda-redes benfiquista. Novo bis: Nuno Gomes, para fechar as contas. E para dar novo alento ao Benfica na luta pela Liga dos Campeões. O Vitória, esse, terá muitas dificuldades em manter-se na Liga Sagres ainda para mais numa equipa com muitos, muitos jovens.

Nessa luta para fugir aos lugares do fundo da tabela, Rio Ave e Trofense trocaram de posições: ao vencer por 2-1, a equipa de Carlos Brito deixa o último lugar para os da Trofa. O Paços de Ferreira, após derrotar o Estrela da Amadora, deu um passo importante para escapar dessa luta. Voltando aos lugares cimeiros, de Europa, Nacional e Sp.Braga, em duelo pelo quarto lugar, empataram, deixando tudo igual com os madeirenses um ponto à frente da equipa de Jorge Jesus; ainda nessas contas, o Marítimo somou mais um empate, em casa, desta vez frente ao Belenenses. Carlos Carvalhal não tem tido os resultados que pretendia.

domingo, 19 de abril de 2009

Apitar ao retardador


O Vitória de Guimarães-Sporting, de ontem, foi um dos melhores jogos destes últimos tempos na Liga Sagres. Teve duas equipas sempre em busca da vitória, teve futebol de ataque e, principalmente, várias oportunidades de golo. O Vitória conseguiu colocar-se em vantagem por Roberto (marcou aos três grandes!) mas a dulpa Liedson-Derlei, já perto do final do encontro, confirmaram a reviravolta. O Sporting ganhou e fica apenas a um ponto do FC Porto, que joga hoje em Coimbra. Porém, a partida ficou marcada por uma má arbitragem de Bruno Paixão, o que não é propriamente uma novidade.

No caso mais polémico do jogo, o árbitro anulou um golo ao Sporting, marcado por Daniel Carriço, numa altura em que o jogo estava empatado a zero. Assinalou pé em riste. E assinalou bem porque Carriço cometeu mesmo falta. Pergunta agora o leitor: então se fez falta porque se diz que Bruno Paixão esteve mal? Devido à forma como o fez. Explicando: o árbitro acompanha toda a corrida do jogador do Sporting e só assinala a falta quando a bola entra na baliza de Nilson - através das imagens recolhidas pelo FUTEBOLARTTE, é possível comprovar isso. Em resumo, existe uma falta que só foi sancionada ao retardador. No entanto, existe sempre a possibilidade de ter sido o árbitro assistente a sancionar a falta, através do intercomunicador. Mas, se assim foi, não teria sido melhor levantar a bandeirola? Não me parece muito plausível.

Este é realmente um caso estranho. Mas, infelizmente, comum a Bruno Paixão. Tal como disse Paulo Bento no final da partida, com a frontalidade que bem lhe conhecemos, há sempre críticas à prestação do árbitro. Quer seja na Liga Sagres quer seja na Liga Vitalis. É de La Palice.

sábado, 18 de abril de 2009

Supertições, promessas e o caso de Mano Silva

O futebol é diferente. Diferente dos outros desportos, diferente de tudo. O futebol arrasta multidões, tem a capacidade de fazer parar o mundo. Por isso, lhe chamam o desporto-rei. Os seus intervenientes são capazes de tudo para serem ouvidos, para demonstrarem o seu estado de espírito quer seja positivo ou negativo. As promessas são frequentes no futebol. Ainda há bem pouco tempo, Luca Toni, avançado do Bayern Munique, prometeu correr nu por uma rua da capital alemã, caso o seu clube vencesse a Liga dos Campeões. Há ainda o exemplo português, do Rio Ave, em que jogadores e treinador deixaram crescer a barba até subirem de divisão, na temporada passada. Joga-se muito com essas supertições, também. São momentos de alegria, de festejo.

Porém, podem-se também fazer promessas em casos de negativos, ou seja, para salvar um determinado clube da ruína e para alerta determinadas situações. O futebol português atravessa uma crise profunda, com os salários em atraso a terem enorme evidência. É o caso do Boavista. Os adeptos boavisteiros, englobando o presidente Álvaro Braga Júnior, marcharam pelas ruas do Porto reclamando justiça para o clube do Bessa que vive momentos difíceis tanto a nível financeiro como a nível desportivo.

Contudo, o caso mais incisivo chega de Mano Silva, presidente do Ericeirense, que está desde a passada terça-feira em greve de fome, na tentativa de conseguir apoios da Câmara Municipal de Mafra. O braço-de-ferro com a autarquia tem sido longo mas em nada tem resultado e o presidente é quem tem saído prejudicado pois a sua saúde está debilitada e gera alguma preocupação. Trata-se de um exemplo louvável de empenho e amor ao clube. É de pessoas assim que o futebol precisa. Não sei ao certo até que ponto Mano Silva pretende levar esta situação mas merece ser recompensado, merece viver. Força!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

LC: Domínio inglês com um intruso espanhol

Ponto prévio para uma constatação do óbvio: as equipas inglesas dominam o futebol europeu. Nas meias-finais, em quatro, estão três formações da Premier League. Sintomático. O intruso é originário de Espanha e chama-se Barcelona. Ou seja, a única diferença para a época passada é a troca de Liverpool por Arsenal. A equipa de Rafa Benítez que tem marcado presença nas fases mais adiantadas da Liga dos Campeões caiu, em Stamford Bridge, num jogo sensacional com o Chelsea que acabou empatado a quatro. Fantástico, sublime e memorável. Assim, o Chelsea defrontará o Barcelona que se limitou a cumprir calendário em Munique, depois de ter esmagado o Bayern em Camp Nou e sentenciado a eliminatória.

Na outra meia-final, estarão Arsenal e Manchester United, no jogo entre ingleses. Os gunners confirmaram a sua superioridade ao vencer o Villarreal por 3-0, somando assim ao empate da primeira mão, em Espanha, que os colocava em vantagem. Sem surpresa. Mais expectativa havia no encontro entre Manchester e FC Porto, no Dragão, até pela excelente exibição dos portistas em Old Trafford, resultando num empate a dois que preocupava Alex Ferguson. Contudo, os ingleses deram uma demonstração cabal da sua força e viraram a eliminatória a seu favor, com um golo espantoso de Cristiano Ronaldo. Foi o fim do sonho do FC Porto na Europa, com aplausos de reconhecimento por parte dos adeptos azuis.

Agora, até Roma, tudo é possível. Porém, pelo que têm feito até aqui, Manchester e Barcelona são, teoricamente, favoritos à final. Teoricamente, ressalve-se.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

FC Porto-Manchester United, 0-1: A lei do mais forte


Imperou a lei do mais forte, no Dragão, esta noite. O Manchester United eliminou o FC Porto, com um golaço espantoso de Cristiano Ronaldo - melhor do mundo arrisca-se a isto. Ao intervalo da eliminatória, a vantagem era dos portistas após uma exibição soberba em Old Trafford mas contas feitas quem se ri são os ingleses. Contudo, fica um amargo na boca, fica uma sensação de que o FC Porto poderia ter ultrapassado o United, muito devido ao jogo de Manchester. Mas não. Porque eles são mesmo de outro campeonato.

O jogo do Dragão seria, naturalmente, diferente do da primeira mão. Apesar da vantagem dos portistas através do empate conseguido fora, o Manchester continuava como principal candidato a estar nas meias-finais. Porque é um colosso europeu, porque tem um autêntico estrelato na equipa. Assim, Alex Ferguson apresentou uma equipa diferente, bem mais virada para o ataque. Deixou Paul Scholes e Fletcher no banco e apostou em Anderson e Ryan Giggs. Além disso, regressaram Rio Ferdinand e Berbatov, ambos de lesão, para os lugares de Johnny Evans e Ji-Sung Park. Para os portistas, foi em má altura que recuperaram. Principalmente Ferdinand, um senhor defesa central. Do lado do FC Porto, sem Jesualdo Ferreira no banco, jogaram os habituais, empurrados por um ambiente fantástico do Dragão, servindo como palco do sonho.

Porém, o FC Porto não entrou bem no jogo. Não conseguiu fazer aquilo que lhe permitiu manietar o Manchester na primeira mão, ou seja, não dar espaços para os red devils jogarem como gostam. Sabia-se que o United entraria a todo o gás, na procura de marcar um golo para virar a eliminatória. Assim foi. Estavam jogados apenas seis minutos quando Cristiano Ronaldo, com um pontapé de trinta metros, escancarou a porta das meias-finais aos ingleses. Um golo a frio, ainda no início, era o pior que podia acontecer. Um golo sublime que deixou a equipa portuguesa com dificuldades, algo receosa e sem ter bola no pé. No primeiro quarto de hora, os portistas sentiram grandes dificuldades em jogar e em ganhar a luta a meio campo. No entanto, depois desse mau período, o FC Porto conseguiu equilibrar e teve a primeira oportunidade, aos vinte minutos, num livre de Bruno Alves que passou ao lado da baliza de Van der Sar. Pouco depois, Lisandro, com um remate acrobático, criou nos adeptos a ilusão de que era possível seguir em frente e o Dragão voltou a unir-se em torno da equipa.

AZAR DE UNS, CLASSE DE OUTROS

Sorte. Também aqui faltou sorte. Veio a lesão de Lucho, à meia-hora de jogo. Era mais uma enorme adversidade, ainda para mais num período em que o FC Porto estava melhor, tentando reagir ao golo de Ronaldo. Ficou sem o capitão, o comandante e a voz de comando, depois de já ter ficado sem o treinador. Entrou Mariano González para o seu lugar. O ritmo voltou a baixar, o jogo ficou outra vez mais disputado a meio. Surgiu mais uma ameaça para Van der Sar, aos 41 minutos, em novo lance de Bruno Alves, agora num cabeceamento. Respondeu o Manchester United, com uma soberana ocasião de golo, desperdiçada por Vidic, de forma incrível, só com a baliza pela frente. A seguir, chegou o intervalo. O Manchester estava bem melhor do que no outro jogo, estava ao seu melhor nível, muito por culpa de Anderson que jogava e fazia jogar. No FC Porto faltava inspiração aos jogadores das decisões, sobretudo a Hulk, enquanto que Lisandro estava totalmente manietado por Ferdinand e Vidic, sem se conseguir soltar. Cissokho, na esquerda, era ainda assim um perigo à solta mas o United tava todos os espaços existentes. Rooney era o primeiro a defender e, quando a equipa estava sem bola, fechava na esquerda fazendo com que O'Shea flectisse para auxiliar os centrais.

A esperança em ver o FC Porto continuar em prova era cada vez menor. Não que a exibição da equipa fosse má, não é isso. Era antes a classe que o Manchester, imperial, mostrava no Dragão. Este jogo era, definitivamente, diferente do de Old Trafford. Os portistas, sem nunca baixar os braços e demonstrando enorme atitude, procuraram sempre o golo que lhes valesse a qualificação para a fase seguinte. Mas parecia não haver forma de o conseguir, o tempo passava mais rápido do que nunca. Jogou-se mais com o coração do que com a cabeça. José Gomes, o treinador na ausência de Jesualdo, lançou Farías para o lugar de Rodríguez, a fim de ter mais um homem-golo na frente. Sem sucesso, porque foi mais um a cair na teia dos centrais do Manchester, por onde nada parecia capaz de passar. Nos red devils, em jeito de resposta, entraram Nani e Paul Scholes para os lugares de Berbatov e Anderson, para suster o ímpeto da equipa portuguesa.

Os dez minutos finais foram de pressão por parte do FC Porto. A oportunidade mais evidente pertenceu a Rolando que não conseguiu aproveitar uma saída em falso de Van der Sar. Tentou depois Farías, tentou Lisandro. Tentaram todos, é justo dizê-lo. Nada havia a fazer até porque três minutos depois dos 90, Massimo Busacca apitou para o final. Do jogo e da caminhada dos portistas na Europa, esta época. Seguiu-se uma enorme ovação dos adeptos portistas. Mas também para dar a confirmação de que no futebol, só os mais fortes sobrevivem. Como foi o caso deste Manchester de enorme classe.

Crónica do jogo de Old Trafford


terça-feira, 14 de abril de 2009

O jogo mais importante sem Jesualdo

O FC Porto tem amanhã o jogo mais importante da época. Um jogo que, em caso de vitória, lhe abre as portas das meias-finais da Liga dos Campeões e, talvez, até da final de Roma. A partida de Old Trafford, culminada com uma exibição enorme, categórica, sublime dos portistas, deixou água na boca para a segunda mão. Arrisco-me até a dizer, e não serei certamente o único, que foi bem melhor a exibição do que o resultado, terminado com um empate a dois. Amanhã, no Dragão, tudo é possível e embora os portistas levem alguma vantagem não é significativa porque Alex Ferguson colocará a carne toda no assador e o jogo será naturalmente diferente. Até pelo poderio do Manchester.

As expectativas são elevadas, os adeptos têm confiança numa grande noite europeia. Porém, o FC Porto teve já uma contrariedade, ainda antes de entrar em campo: Jesualdo Ferreira, o treinador, não vai poder estar no banco. Foi castigado pela UEFA devido a um "gesto impróprio" , um manguito, no jogo frente ao Atlético de Madrid aquando da anulação de um golo a Lisandro, no jogo do Vicente Calderón. É uma situação algo delicada pois é óbvio que os jogadores se ressentem da falta do treinador, do líder, da voz de comando. Além disso, Jesualdo nem sequer poderá contactar com os seus adjuntos.

Voltando ao jogo frente ao Manchester, acredito que o FC Porto tenha boas possibilidades de passar. Não concordo, porém, que se diga que os portistas são favoritos apesar de jogarem em casa e terem vantagem na eliminatória porque os red devils são uma potência do futebol mundial, capaz de feitos só ao alcance de grandes jogadores. E o United tem-nos. Mas o FC Porto, como demonstrou em Inglaterra, também. Agora, oonho e a ambição comandam num Dragão que estará a abarrotar.

domingo, 12 de abril de 2009

O bom discurso de Bruno Carvalho

O actual momento do Benfica tem sido tema para inúmeras conversas. Hoje, ouvi Bruno Carvalho, director do PortoCanal e candidato à presidência do Benfica. Não o conhecia, confesso. Contudo, gostei do seu discurso: realista, sensato e com vistas para o futuro. Disse que o Benfica necessita de uma reflexão profunda para voltar a ter a grandeza e o poderio de outrora, o que, na minha opinião, é claro e indiscutível. Não adianta contratar meia-dúzia de jogadores ou mudar de treinador ano após ano pois isso só cria instabilidade e seria mais ajustável para um projecto com resultados imediatos. O Benfica precisa, isso sim, de um projecto a médio ou longo prazo, sem pressas, para que seja preparado o futuro. Ora esta era precisamente a ideia que eu tinha para esta época, para o trabalho de Rui Costa e Quique Flores. Enganei-me.

As palavras de Bruno Carvalho são também uma constatação do óbvio porque os benfiquistas têm sempre esperanças renovadas na conquista do título mas isso acaba por se desmoronar com o passar dos tempos. Na presente temporada existiam enormes expectativas que saíram totalmente furadas. É preciso mudar. É preciso seguir o exemplo dos melhores, diz Bruno Carvalho. Ao falar dos melhores referiu a tão falada organização do FC Porto, clube possuidor de uma excelente estrutura de apoio a jogadores e treinadores, apontando como um exemplo a seguir. Percebe-se aquilo que Bruno Carvalho pretende, percebe-se as ideias. Eu reconheço que estou de acordo. Mas será que os adeptos aceitam que o seu presidente diga que o FC Porto é superior? Não me parece. E é precisamente aí que Bruno Carvalho mais terá a perder porque ainda há quem defenda um clima de guerra entre os clubes. Sem perceberem que são eles os maiores prejudicados.

sábado, 11 de abril de 2009

A tecla não falha e o Benfica chumba

ANÁLISE JORNADA 24 - LIGA SAGRES

Falta menos uma jornada e o FC Porto mantém a vantagem de quatro pontos para o Sporting. Ganharam ambos, com justiça. Ao invés, o Benfica foi vencido pela Académica no Estádio da Luz, a segunda derrota seguida em casa. Depois de Roberto, foi Tiero a estragar as contas de Quique Flores que ficaram agora bem complicadas até em relação ao segundo lugar (quatro pontos de diferença). Encaminha-se outra taça para o Dragão?


Deram alvíssaras os adeptos do FC Porto pela entrega dos troféus respectivos aos dois últimos campeonatos ganhos. O jogo com o Estrela da Amadora, antes e depois de encontros europeus com o Manchester United, serviu para dar mais um passo para nova conquista. Não só pelos resultados mas pelas exibições consistentes e sólidas que os portistas apresentam. Contudo, neste jogo nem sempre assim foi: a equipa entrou algo apática, sem pressionar alto e com algumas dificuldades em assentar o ritmo. Eram ainda os resquícios do desgastante jogo de Old Trafford. O Estrela, há que dizê-lo, esteve melhor nos primeiros quinze/vinte minutos mas nem Helton nem os defesas dos dragões vacilaram. Um remate de Farías para defesa de Nélson foi, talvez, a pedra de toque para mudar o jogo e para que o FC Porto pusesse o plano em prática. Veio o golo de Bruno Alves, um golão de livre, à meia hora de jogo. Aí, o jogo praticamente ficou sentenciado. Na segunda parte, o FC Porto consolidou o seu jogo e, consequentemente, o resultado. Vieram mais dois golos de Ernesto Farías que fixaram o 3-0 final. Com uma gestão perfeita de Jesualdo Ferreira, em mais um passo para o tetra.

Como diria o outro, tantas tácticas e tantas descobertas para nada porque no final quem resolve é Liedson. É uma verdade que ninguém ousa sequer contestar, de tão evidente que se torna. O levezinho é um jogador de enorme categoria que não precisa de muito para fazer mossa nas defesas contrárias. O jogo com a Naval serviu novamente para o comprovar. Primeiro, Liedson aproveitou uma escorregadela de Baradji e cruzou a bola para que Pereirinha inaugurasse o marcador; depois, no minuto 27, foi inteligente antecipando-se aos defesas navalistas para desviar um livre de Moutinho para dentro da baliza; e deu, já em cima do final, o golpe de misericórdia na Naval, num lance em que aproveitou uma defesa de Peiser para a frente, estabelecendo assim o 3-1 final. Pelo meio surgiu o golo da equipa de Ulisses Morais, aos 16 minutos, marcado por Marcelinho após um erro de Miguel Veloso - regressou para jogar a trinco - e coroando um bom período da Naval. Depois surgiu Liedson, como já foi dito, para resolver de vez. E para dar uma vitória justa ao Sporting. Sem brilhantismo, porém.

Quique Flores disse querer mudar a má imagem deixada pelo Benfica na Amadora apesar da vitória. Não conseguiu. Piorou até. Os encarnados sofreram a segunda derrota consecutiva em casa, ao perder por 1-0 com a Académica, embora tenham jogado bem melhor do que na jornada anterior. Paradoxal, não? Ganha quem marca mais e só isso conta. A Académica fê-lo. Não que tenha jogado bem, nada disso, mas foi mais eficaz do que o Benfica. Marcou aos 22 minutos, num bom golo de Tiero, com um cabeceamento sem hipóteses para Quim mas muito consentido pela defesa encarnada. Os encarnados reagiram e ainda antes do intervalo, Pablo Aimar acertou na barra. A segunda parte foi de total domínio do Benfica, sempre em busca do golo do empate, frente a uma Académica que se fechou em redor da sua área desistindo do ataque. Houve oportunidades de sobra mas aí também surgiu Peskovic, um guarda-redes gigante, numa noite fantástica fazendo lembrar a sua exibição em Alvalade. Além disso Cardozo ainda acertou no poste e o árbitro Marco Ferreira anulou mal um golo a Aimar por falta inexistente de Nuno Gomes. Quique lançou Di María, Balboa e Mantorras, sem que nenhum deles tenha mudado o que quer que fosse. No final viram-se lenços e até lençóis brancos. Maus, maus lençóis para o Benfica.

O Belenenses deu um pontapé na crise e venceu o Vitória de Setúbal, um jogo absolutamente decisivo como considerou Jaime Pacheco. São dois clubes históricos, com enorme percurso no futebol português que vivem maus momentos quer em termos futebolísticos quer em termos financeiros. Por outro lado, o Rio Ave mantém-se no último lugar depois de derrotado pelo Leixões que voltou finalmente às vitórias, subindo ao sexto lugar em troca com o Marítimo que arrancou um empate em Braga. Nessa luta pela UEFA, o Vitória de Guimarães não aproveitou a oportunidade de se chegar mais à frente e empatou com o Paços de Ferreira, sendo mesmo ultrapassado pela Académica. A jornada termina apenas na segunda-feira com o encontro entre Trofense e Nacional que pode levar a novas mexidas: a equipa de Manuel Machado poderá subir ao quarto lugar trocando com o Sp.Braga, em caso de vitória, o que a acontecer fará com que o Trofense caia para o penúltimo lugar, do qual escapa o Belenenses. Contudo, são apenas hipóteses. A confirmar na segunda.

Macheda por entre ascenções e quedas

Um jogo pode mudar por completo a carreira de um jogador de futebol. Nem é preciso um jogo inteiro, bastam uns instantes, um simples toque. Pode ser bom ou mau. Frederico Macheda é um enorme exemplo disso. Joga no Manchester United, é avançado e tem apenas 17 anos. Há três semanas atrás certamente ninguém, no mundo do futebol, o conheceria. Apareceu no jogo com o Aston Villa marcando um golaço que deu a vitória do United já em tempo de descontos. Tudo mudou aí: passou de um perfeito desconhecido a estrela, naquele instante, foi herói para os adeptos. Hoje, no jogo da equipa de Alex Ferguson frente ao Sunderland, voltou a sair do banco para resolver e marcar o golo que deu a vitória aos red devils - um golo feliz, ok. Apenas um minuto depois de estar em campo. O rapaz tem mesmo alguma coisa!

O sucesso de Macheda fez-me lembrar de um Benfica-FC Porto, em 2007. O jogo estava empatado e, nos minutos finais, um tal de Renteria conseguiu isolar-se em frente ao guarda-redes encarnado. Tinha tudo para marcar e quase entregar o campeonato à sua equipa. Não teve discernimento para isso e falhou. Um falhanço enorme de um jovem que havia chegado há pouco tempo quer ao clube quer ao próprio jogo. Ficou com o seu futuro comprometido. E é a imagem desse erro, dessa troca de pés, que ficou para os adeptos, especialmente para os adeptos portistas. Acabou por sair para o Sp.Braga, com poucas oportunidades no Dragão. Um exemplo de como um lance marca para sempre um jogador.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Ter preconceitos

Reconheço que duvidei que Fernando e Cissokho fossem jogadores para se imporem no FC Porto. Isto apesar das boas épocas que conseguiram no Estrela e no Vitória de Setúbal, respectivamente, sem que se possam fazer comparações entre as equipas. Não fui o único, por certo. Contudo, agora ninguém duvida das suas qualidades. O jogo de Manchester serviu para isso mesmo: ambos estiveram em grande destaque e até Jesualdo Ferreira, contrariando aquilo que habitualmente faz, elogiou a forma como os jogadores se portaram em Old Trafford. Ambos não têm experiência europeia, ambos chegaram esta época mas deixaram bem provado que os preconceitos não passam disso mesmo, de noções tidas antes do tempo certo.

Reconheço também que nem sempre acreditei no trabalho de Jesualdo Ferreira. Aqui, mais uma vez, também não fui o único. Porém, a sua terceira época no FC Porto está a ser a melhor da sua carreira pois tem o campeonato e a Taça de Portugal bem encaminhados e conseguiu algo não alcançado desde Mourinho, ou seja, aos quartos-de-final da Liga dos Campeões - e recorde-se, está em vantagem na eliminatória com o campeão europeu, Manchester United. Com a época ainda em curso, muito se tem falado da renovação (ou não!) de Jesualdo pois ainda não há uma confirmação oficial de que isso venha a acontecer. A mim parece-me que Jesualdo Ferreira merece essa renovação. Sobretudo por esta época. E tem mérito, obviamente, naquilo que se falou na primeira parte do texto: a formação de jogadores.

Por fim, tenho de reconhecer que fiquei desiludido com Quique Flores e o seu Benfica. Um treinador novo, metódico e frontal que disse querer devolver aos encarnados a grandeza de outrora; Rui Costa ficou com a pasta do futebol e tratou de compor um plantel que pudesse dar essas garantias, o melhor da última década, contando com jogadores de classe internacional como Aimar, Suazo ou Reyes. Fazendo uma retrospectiva, é claro que muito se prometeu e pouco se cumpriu. A época não correu da forma pretendida com as eliminações da Taça de Portugal e da Taça UEFA e também com a conquista do campeonato muito complicada, a Taça da Liga acaba por ser uma espécie de salvação embora esta não tenha ainda real importância no panorama do futebol português. Pior do que isso só as exibições como a que foi possível ver na Amadora: sem chama, sem garra, sem atitude. O Benfica é, por isso, uma equipa de extremos capaz do melhor e do pior. Ora, um candidato ao título não pode ser tão incostante. Nem Quique Flores pode fazer tantas experiências e tantas mudanças na equipa que apresenta semana após semana. As mudanças na baliza servem apenas para o comprovar.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Bernardino Barros e os sete ofícios - Parte I


Bernardino Barros é um dos mais conceituados comentadores de futebol. Decidiu cedo ser jornalista, jornalista desportivo, a grande paixão. Experimentou de tudo, desde jornais, televisões e rádios. Actualmente está na Renascença, desde 2004. Diz que não se importa que falem mal dele pois aquilo que quer é que falem. Tal como num relato, não há tempo para descanso. É sempre em parada & resposta.


"NÃO ME VEJO SEM FAZER RÁDIO"


FUTEBOLÊS: O Bernardino começou cedo no jornalismo desportivo. O que o levou?

BERNARDINO BARROS: Primeiro porque o desporto sempre foi a minha paixão. Todo o desporto, futebol, ténis, basquetebol, etc. Depois porque queria viver as incidências desses desportos por dentro e não só como mero espectador. Finalmente porque o gosto pela escrita era, e ainda é, muita, optei por escrever as emoções de quem vivia de perto os acontecimentos desportivos. Comecei no bissemanário Norte Desportivo, dirigido por Alves Teixeira, a fazer jogos de juniores e juvenis. Depois passei para o Comércio do Porto, onde fazia preferencialmente a página dedicada ao basquetebol, o meu desporto preferido, futebol e ténis.


F: Quais as referências?

BB: Os que marcaram a minha infância. Na escrita, Amadeu José de Freitas, Vítor Santos, Carlos Pinhão, Manuel Dias e Aurélio Márcio. Na rádio, António Pedro, Justiniano Vargues, David Borges, Ribeiro Cristóvão, José Barroso e o meu saudoso Jorge Perestrelo. Hoje as referências são outras.


F: Passou por jornais, televisões e rádios. Tem preferência por algum?

BB: Gosto e gostei de trabalhar em todas essas áreas, mas a paixão é, e será sempre, a rádio. Não me vejo sem fazer rádio. É diferente de tudo. É intimista, ninguém nos conhece, só reconhecem a voz. Obriga-nos ao improviso e não há como emendar os erros, ou falhanços. Obriga a uma grande concentração. Como costumo dizer “a rádio em directo obriga-nos e ensina-nos a trabalhar no arame sem rede”.


F: Actualmente está na Renascença. Como chegou lá?

BB: Depois de 14 anos na TSF e desiludido com o rumo que a rádio tomava na altura em que resolvi mudar (2004), essa minha intenção chegou aos ouvidos do Pedro Azevedo. Como precisavam de um comentador no norte do país, e depois de saber se eu estava receptivo a um convite para mudar, e perante a minha confirmação, falou com o Ribeiro Cristóvão, que me convidou pessoalmente. Entrei em Março de 2004 e cá me mantenho com toda a energia, fazendo parte de uma das mais prestigiadas equipas desportivas do país, integrando uma rádio de referência.


F: Habitualmente tem comentários bem dispostos, sobretudo, quando acompanhado de Pedro Sousa no relato. Acha que fazem a dupla ideal?

BB: Não há duplas ideais. Gosto muito de trabalhar com os dois Pedros. Pela particularidade do Pedro Sousa ser mais aberto na forma como relata, proporciona-se que possa ser mais aberto na forma como comento, mas não me parece que seja assim tão sorumbático na forma como trabalho em equipa com o Pedro Azevedo. São dois estilos diferentes, com os quais caso bem.


F: Até porque trabalha mais com Pedro Azevedo.

BB: O hábito de trabalhar com o Pedro Azevedo, faz com que haja uma grande cumplicidade entre nós, sabendo quando entramos na respiração um do outro, quando as pausas são necessárias, e sobretudo como lemos o jogo nas suas mais variadas vertentes. Como diz o ditado “o hábito faz o monge” e o nosso hábito é muito maior. Acima de tudo são dois excelentes profissionais, dois excelentes amigos e para mim os melhores relatadores em actividade em Portugal.


(CONTINUA)

Bernardino Barros e os sete ofícios - Parte II

(CONTINUAÇÃO PARADA & RESPOSTA COM BERNARDINO BARROS)

"NÃO IMPORTA SE FALAM BEM OU MAL, IMPORTA QUE FALEM"

F: Fala-se bastante das tendências clubísticas dos jornalistas desportivos. Sendo adepto do FC Porto, acha que isso lhe coloca um certo rótulo de parcialidade?

BB: Infelizmente em Portugal não se gosta de desporto, gosta-se dos clubes, e por isso, quem assume a sua inclinação por alguma cor, tem problemas. Se calhar é por isso que a maior parte dos relatadores e comentadores prefere negar o seu clubismo, dizendo que são da Académica ou de qualquer clube da sua terra ou bairro. Só que na escola escolhemos um clube e ele fica para sempre.


F: O que faz, então, para ser um comentador imparcial?

BB: A imparcialidade não existe. Não conheço ninguém que dê a sua opinião e que seja imparcial. Seja comentador desportivo, analista político, teatral, televisivo, etc. No que me diz respeito procuro sempre ser o mais objectivo possível, tendo opinião, mas não adulterando o que estou a ver, não induzindo em erro o espectador ou o ouvinte. O que vemos é para contar. A forma como analisamos um jogo e o contamos ao ouvinte tem que ser a verdade, doa ela a quem doer. É análise feita no momento, dai o tal risco da rádio que falava há pouco. Os comentadores televisivos vêem o lance repetitivamente e de vários ângulos. Os da escrita socorrem-se da opinião dos colegas da redacção que seguem o jogo pela televisão. Não me incomoda o rótulo que me é colocado, interessa-me a minha auto-análise e auto-critica, e sobretudo a que é feita pelos que comigo trabalham e em mim acreditam. Não os quero defraudar nunca. A minha máxima é, e será sempre, “não me incomoda que falem bem ou mal de mim, interessa-me é que falem”.


F: Esteve no Euro 2004 e na final da Liga dos Campeões ganha pelo FC Porto. Foram esses os melhores momentos da carreira para já?
BB:
O Euro 2004, o Mundial da Alemanha, a final da Liga dos Campeões e da Taça UEFA com o FC Porto, a final da Taça UEFA com o Sporting em Alvalade, os mundiais de Hóquei em Patins, O mundial do futebol de Juniores em Lisboa. São tantos e variados que é difícil escolher um. Felizmente que os vivi, e espero viver mais uns tantos.

F: E piores?

BB: As mortes em directo do Pavão e do Féher.


F: Diz também que o jornalismo desportivo atravessa uma espécie de crise. É verdade?

BB: Claro que sim, é só olhar á nossa volta e ver os órgãos de comunicação que fecham ou fecharam e mandaram para o desemprego tantos jornalistas. Ainda agora um dos potentados da comunicação social, resolver “despedir” centenas de jornalistas, quando na festa de Final de Ano, os patrões davam os parabéns aos trabalhadores pela subida em numero de vendas. O que mudou de Dezembro até Fevereiro?


F: Como se verifica isso?

BB: Pelo monopólio da comunicação social estar em três ou quatro grandes grupos. Como são os “patrões” de vários títulos, escrita e falada, obrigam os trabalhadores a “sinergias” ilegais. Se fui contratado para a rádio, porque carga de água sou abrigado a fazer a crónica do mesmo jogo para o jornal do grupo? Ou vice-versa? Só que quem não faz vai embora, e como infelizmente os “recibos verdes” vieram para ficar, a impunidade é total. Como diz o ditado “manda quem pode, obedece quem deve” e como o mercado de trabalho está nas mãos de uns poucos, é “comer e calar”. Culpa teve quem permitiu o e legislou a concentração dos media em tão poucos grupos. Os tubarões não deixam comer os pequenos, só que mais tarde ou mais cedo, morrem, ou por serem caçados ou por enfartamento.


F: Além de todo o trabalho, participa também com crónicas em blogues como o FUTEBOLÊS. Por que o faz e como concilia tudo isso?

BB: Da mesma forma e pelo mesmo motivo que aceito convites para moderar colóquios ou debates. Porque gosto de participar e estar envolvido no desporto, e porque ainda há quem goste de nós, por isso enquanto puder, responderei sim a esses convites, desde que tenha tempo para isso. Foi assim que aceitei o teu amável convite para colaborar neste teu espaço.


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